Top 5 dos mais lidos da semana

Posts relacionados

Técnico Imortal – Luiz Felipe Scolari

Nascimento: 09 de novembro de 1948, em Passo Fundo (RS), Brasil.

Times que treinou: CSA-BRA (1982), Juventude-BRA (1982-1983 e 1986-1987), Brasil de Pelotas-BRA (1983), Al-Shabab-ARS (1984-1985), Pelotas-BRA(1986), Grêmio-BRA (1987, 1993-1996, 2014-2015 e 2021), Goiás-BRA (1987-1988), Qadsia SC-KUW (1988-1989 e 1992), Seleção do Kuwait (1990), Coritiba-BRA (1990), Atlético Goianiense-BRA (1991), Criciúma-BRA (1991), Al-Ahli-ARS (1991), Júbilo Iwata-JAP (1997), Palmeiras-BRA (1997-2000, 2010-2012 e 2018-2019), Cruzeiro-BRA (2000-2001 e 2020-2021), Seleção do Brasil (2001-2002 e 2012-2014), Seleção de Portugal (2002-2008), Chelsea-ING (2008-2009), Bunyodkor-UZB (2009-2010), Guangzhou Evergrande-CHN (2015-2017), Athletico Paranaense-BRA (2022) e Atlético Mineiro-BRA (2023-2024).

Principais títulos por clubes:

  • 1 Campeonato Alagoano (1981) pelo CSA.
  • 1 Copa Libertadores da América (1995), 1 Recopa Sul-Americana (1996), 1 Campeonato Brasileiro (1996), 1 Copa do Brasil (1994) e 3 Campeonatos Gaúchos (1987, 1995 e 1996) pelo Grêmio.
  • 1 Copa do Emir (1988-1989) e 1 Campeonato Kuwaitiano (1991-1992) pelo Qadsia SC.
  • 1 Copa do Brasil (1991) e 1 Campeonato Catarinense (1991) pelo Criciúma.
  • 1 Campeonato Japonês (1997) pelo Júbilo Iwata.
  • 1 Copa Libertadores da América (1999), 1 Copa Mercosul (1998), 1 Campeonato Brasileiro (2018), 2 Copas do Brasil (1998 e 2012), 1 Torneio Rio-SP (2000) e 1 Copa dos Campeões (2000) pelo Palmeiras.
  • 1 Copa Sul-Minas (2001) pelo Cruzeiro.
  • 2 Campeonatos Uzbeque (2009 e 2010) e 1 Copa do Uzbequistão (2010) pelo Bunyodkor.
  • 1 Liga dos Campeões da AFC (2015), 3 Superligas da China (2015, 2016 e 2017), 1 Copa da China (2016) e 2 Supercopas da China (2016 e 2017) pelo Guangzhou Evergrande.

Principais títulos por seleção:

  • 1 Copa do Golfo (1990) pelo Kuwait.
  • 1 Copa do Mundo da FIFA (2002) e 1 Copa das Confederações da FIFA (2013) pelo Brasil.

Principais títulos individuais: 

  • Melhor Treinador do Mundo pela IFFHS: 2002
  • Melhor Treinador da América do Sul pelo El País: 1999 e 2002
  • Melhor Treinador do Mundo pelo El País: 2002
  • Melhor Treinador do Campeonato Paulista: 2011
  • Melhor Treinador da Copa das Confederações da FIFA: 2013
  • Melhor Treinador da Superliga Chinesa: 2015, 2016 e 2017
  • Melhor Treinador do Campeonato Brasileiro – Troféu Telê Santana: 2018
  • Melhor Treinador – Prêmio Craque do Brasileirão: 2018
 

“O Eterno Felipão”

Por Guilherme Diniz

Nos anos 1990 e 2000, quando alguém ia enfrentar um time comandado por aquele gaúcho com cara de bravo e sisudo, todos tinham uma certeza: não seria fácil. Tudo começou lá em 1991, quando ele levou o Criciúma à conquista de uma incrível Copa do Brasil – e de maneira invicta! Depois, ele criou talvez sua obra-prima, o copeiro Grêmio que abocanhou Libertadores, Brasileiro, Copa do Brasil, Recopa e que bateu de frente contra todos os grandes times da época – até mesmo o Ajax de Van Gaal. Na sequência, foi a vez de mudar a mentalidade do torcedor do Palmeiras, acostumado a academias e futebol vistoso, a vibrar por um esquadrão raçudo, que não desistia nunca e que colecionou triunfos inesquecíveis sobre o maior rival, além de levantar sua primeira Libertadores.

Em Minas, tinha um grande futuro pela frente no Cruzeiro, mas teve que abdicar do time mineiro em prol de uma missão: salvar a seleção brasileira, em apuros nas Eliminatórias, vivendo uma crise sem precedentes e com risco iminente de não se classificar pela primeira vez para uma Copa do Mundo. O começo foi assustador, com queda na Copa América para Honduras, mas ele soube dar a volta por cima. E não só classificou o Brasil como levantou o penta com sete vitórias em sete jogos, desbancando pelo caminho adversários fortíssimos como Inglaterra e Alemanha, esta na final.

Nada parecia impossível para aquele gaúcho, já dono do maior dos títulos. Pois ele topou o desafio de dirigir a seleção de Portugal e, com uma safra incrível de craques, levou a Seleção das Quinas ao vice-campeonato da Eurocopa e a uma semifinal de Copa do Mundo, algo que não acontecia desde 1966. Seu status de treinador de ponta chamou a atenção do endinheirado Chelsea, e ele se tornou o primeiro brasileiro a dirigir um clube na Premier League, além de ser o primeiro técnico campeão do mundo a trabalhar no torneio inglês. Os resultados não vieram para o Big Phil, mas ele seguiu vencendo, como em 2012, quando tirou leite de pedra e fez do Palmeiras campeão da Copa do Brasil – e isso no mesmo ano em que o clube foi rebaixado pela segunda vez no Brasileirão.

Tempo depois, mais uma vez a seleção brasileira apareceu no caminho daquele gaúcho, que, claro, não a recusou. Teria a honra de treinar a equipe na Copa do Mundo de 2014, em pleno solo brasileiro. Imagine ser hexa no Maracanã? Se igualar a Vittorio Pozzo com duas Copas no currículo? Seria incrível! Antes do Mundial, a festa parecia garantida após o título da Copa das Confederações de 2013 em cima da badalada Espanha. Mas, quando a Copa começou… As manias, a teimosia e a incapacidade de mudar levaram o tão premiado, tão laureado e tão inabalável técnico ao fundo do poço. O pesadelo do 7 a 1 foi, sim, uma mancha inapagável e repugnante. Ele jamais poderia ter sofrido aquela derrota. Tinha várias maneiras de evitá-la. Mas não evitou. Anos depois, conseguiu algumas glórias e façanhas até na China, mas sempre o ocorrido no Mineirão em 08 de julho de 2014 voltava à tona como um estigma. 

Por isso, ele foi saindo de cena. Talvez, se pudesse voltar no tempo, teria saído em 2013. Ele mesmo já queria ter parado pouco depois dos 60 anos. Mas não conseguiu. O futebol sempre chamou, sempre o conduziu. E ele nunca disse não. Por mais que tenha acontecido aquela tragédia, justiça há de ser feita: isso não pode, nunca, apagar por completo tudo o que Luiz Felipe Scolari fez ao longo de 42 anos de carreira. Ele foi, sim, um multivencedor, um técnico especialista na arte da motivação, de saber enfrentar qualquer um de igual para igual, seja na bola, seja na malandragem, isso em seus tempos áureos. Ele demorou para se aposentar, é verdade, mas Felipão, no auge, foi um dos maiores técnicos não só do Brasil, mas do mundo. E a prova disso está no peso dos títulos que conquistou. É hora de relembrar.

O zagueirão que virou técnico

Nascido em Passo Fundo, no interior gaúcho, Felipão pegou gosto pelo futebol ainda na infância, quando participava de peladas no campinho do colégio Nossa Senhora da Conceição, em sua cidade natal. Decidiu se aventurar no futebol no final dos anos 1960 e, após ser aprovado em uma peneira do Aymoré, conciliou a vida de jogador com a de professor de educação física e estudante, além de trabalhar sempre que podia para ganhar extras essenciais para seu cotidiano. Depois de um tempo no Aymoré, foi jogar no Caxias, onde permaneceu por mais de seis anos e foi exemplo de liderança, força de vontade e competição. 

felipao

Felipão nunca foi técnico com a bola nos pés, mas era uma voz dentro de campo e demonstrava vocação para liderar fora dele quando decidisse pendurar as chuteiras. Já no começo dos anos 1980, o zagueiro conseguiu seu primeiro e único grande título como jogador: o Campeonato Alagoano de 1981, pelo CSA, clube que foi também o primeiro dele como treinador. E tudo começou quando o então comandante do clube, Walmir Louruz, teve que deixar o CSA por problemas pessoais. Louruz não hesitou em indicar Felipão para o cargo, pois o jogador já pensava em pendurar as chuteiras e via a carreira de técnico com boas perspectivas. 

Assim, em 1982, ele comandou o CSA em algumas partidas do Brasileirão, mas acabou deixando o clube por conta dos resultados ruins e a queda para a segunda divisão do torneio. A partir dali, Felipão voltou ao Rio Grande do Sul e dirigiu algumas equipes gaúchas, como Juventude e Brasil de Pelotas, onde começou a forjar seu estilo de comando: pelear até cansar, como bom gaúcho que era, e seguindo as inspirações de Carlos Froner, lenda dos pampas e que treinou o time do coração de Felipão, o Grêmio, nos anos 1960, sendo tricampeão estadual. Froner era adepto do futebol competitivo e aguerrido que virou marca dos times do estado na época. E Felipão incorporou esse estilo ao seu e criou ainda um método no qual mirava no adversário e tratava de desestabilizá-lo com palavras e um jeito viril de jogar. Fechava seu grupo como uma clausura e, se alguém não estivesse com ele, descartava aquele jogador sem qualquer ressentimento. Tudo em prol da vitória.

Aventuras no Oriente, o primeiro título e a chegada ao Criciúma

Mesmo sem grandes resultados naquela época, Felipão recebeu uma proposta do futebol árabe em 1984 e não hesitou em trabalhar no Al-Shabab, onde já tinha como fiel escudeiro o auxiliar Flávio Teixeira, o Murtosa, que acompanhou Felipão durante quase toda sua carreira. Felipão e vários outros técnicos brasileiros foram muito populares no Oriente Médio naqueles anos 1980 e ajudaram a desenvolver o esporte por lá. O treinador ainda retornou ao Brasil em 1986 e, em 1987, comandou pela primeira vez o Grêmio, pelo qual conseguiu seu primeiro título: o Campeonato Gaúcho. O troféu levou Felipão mais uma vez ao Oriente e ele foi parar no Kuwait, onde estendeu a boa fase e levantou títulos pelo Qadsia e ainda pela seleção do Kuwait. Porém, a invasão do Iraque ao país iniciou a Guerra do Golfo, e Felipão teve que deixar o Kuwait às pressas e retornar para sua terra natal.

felipao 1 brasil pelotas

Com mais dois trabalhos breves no futebol goiano, Felipão acabou indo para o Criciúma, em 1991. Quando chegou à Santa Catarina, o treinador encontrou um grupo de jogadores simples e sem estrelas, mas que poderia dar liga se um treinamento dinâmico e balanceado fosse aplicado com foco no talento dos meio-campistas Roberto Cavalo, Gélson e Grizzo e dos atacantes Jairo Lenzi e Soares. No primeiro semestre, Felipão teria apenas uma tal de Copa do Brasil como desafio principal e foi ela o grande foco do trabalho (com menosprezo total ao Campeonato Brasileiro da Série B). Como a competição era curta e ainda dava ao campeão uma vaga na Copa Libertadores da América de 1992, o técnico conscientizou seus jogadores que aquele torneio não poderia ser menosprezado ou tratado como impossível. Jogando com obediência tática e ofensiva em casa e muita inteligência fora dela, o Criciúma poderia cumprir um bom papel na Copa. A questão era colocar a teoria em prática.

Copa do Brasil de 1991: a grande “apresentação” de Felipão

Na primeira fase do torneio nacional, o Criciúma eliminou facilmente o Ubiratan (MS) após empatar em 1 a 1 (fora) e golear por 4 a 1 jogando em casa. Nas oitavas de final, o time catarinense teve seu primeiro grande desafio: o Atlético-MG. Favoritíssimo, o clube mineiro vinha de uma goleada por 11 a 0 pra cima do Caiçara-PI e pensava em repetir o feito diante de um desconhecido Criciúma. No entanto, Felipão começou a mostrar seu jeito de armar equipes copeiras ao montar um esquema extremamente eficaz na defesa e com seus jogadores jogando essencialmente nos erros do adversário. 

Na partida de ida, em Santa Catarina, Vanderlei marcou o gol da vitória do Tigre por 1 a 0. Mesmo com o triunfo, os catarinenses viajaram até Belo Horizonte com total desconfiança por parte da imprensa, mas calaram o Estádio Independência com um gol de falta marcado por Roberto Cavalo. A equipe conseguiu segurar os nervos após quatro cartões amarelos, venceu o jogo por 1 a 0 e saiu de Minas com a vaga nas quartas de final.

timeline 63
Felipão: no Criciúma, o técnico começaria sua inquestionável trajetória de sucesso e títulos.
 

O adversário seguinte foi o Goiás de Túlio Maravilha. Na ida, no Serra Dourada, o 0 a 0 não saiu do placar e o Criciúma se segurou como pôde após Vanderlei ser expulso. Na volta, a equipe mostrou a força de seu caldeirão lotado e goleou o time esmeraldino: 3 a 0, gols de Jairo Lenzi, Gélson e Grizzo. Na semifinal, a equipe catarinense teve que encarar outro caldeirão: o Baenão, do Remo. Com uma torcida toda contra e muita pressão, o Criciúma mostrou nervos de aço e muito sangue frio para vencer os paraenses por 1 a 0, gol de Soares. Na volta, foi a vez da turma de Felipão ter o apoio de sua torcida no Heriberto Hülse, que empurrou o esquadrão amarelo, branco e preto rumo à vitória por 2 a 0 (gols de Soares e Chico Monte Alegre, contra) e à final inédita da Copa do Brasil. Era hora de fazer história. E de encarar, quem diria, o clube de coração de Felipão: o Grêmio.

Outra vez o Criciúma chegou a um confronto daquela Copa do Brasil como zebra. Afinal, o adversário era o tricolor gaúcho, primeiro campeão da história do torneio, em 1989, e que lutava para voltar aos bons tempos que o consagraram no começo dos anos 1980 (e que só voltariam sob o comando de Felipão…). O duelo de ida, no Olímpico, seria fundamental para o clube catarinense construir uma boa vantagem e aproveitar a fase ruim de um rival que havia sido rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro semanas antes da decisão. A imprensa gaúcha, como não poderia deixar de ser, começou com o ufanismo ao dizer que o Grêmio “já estava na Libertadores” e que o Criciúma “tremeria” ao ver os dizeres “Grêmio – Campeão do Mundo” no estádio Olímpico.

cricic3bama 19911
O Criciúma campeão do Brasil em 1991: time coeso, equilibrado e muito forte pelo lado esquerdo, com Jairo Lenzi em ótima fase.
 

Porém, o que ninguém pelas bandas de Porto Alegre sabia era que o Tigre não tinha medo de letreiros, muito menos de camisa pesada. Felipão enervou seus jogadores com entusiasmo e, com menos de 20 minutos de jogo, os catarinenses já venciam por 1 a 0 com um gol de cabeça marcado pelo zagueiro Vilmar. Muito tranquilo durante a partida, o Criciúma não deixava o Grêmio aplicar seus contragolpes ou levar perigo ao goleiro Alexandre. Só aos 38´do 2º tempo que o ferrolho catarinense foi desarmado com um gol de pênalti do tricolor gaúcho marcado por Maurício. O gol, claro, foi uma ducha de água fria nos comandados de Felipão, mas o placar de 1 a 1 ainda era ótimo ao Criciúma, que precisava apenas de um empate sem gols para celebrar o maior título de sua história.

criciuma campec3a3o do brasil 1991

No dia 02 de junho de 1991, o estádio Heriberto Hülse recebeu mais de 20 mil pessoas para a partida de futebol mais importante do Criciúma e da cidade, que simplesmente parou. A partida, infelizmente, foi um filme de horror para quem gostava de futebol bem jogado e não teve grandes oportunidades por causa da tensão que envolvia o jogo e o nervosismo das duas equipes, além da maestria do Criciúma em jogar com o regulamento embaixo do braço. Depois de 90 minutos sem gols, a torcida do tigre catarinense pôde celebrar: o Criciúma era campeão invicto da Copa do Brasil de 1991 com seis vitórias e quatro empates em 10 jogos. De quebra, a equipe ainda garantia uma vaga na Copa Libertadores da América de 1992, que seria o primeiro torneio internacional disputado pelo clube na história. Tudo parecia um sonho. Mas era realidade. Aqueles jogadores – e Felipão – eram de carne e osso.

A transformação do Grêmio

Logo após a conquista nacional, Felipão mais uma vez deixou o país para trabalhar no Oriente Médio e não pôde dirigir o Criciúma na Copa Libertadores de 1992, onde o Tigre só caiu nas quartas de final para o lendário São Paulo de Telê, Raí, Cafu e companhia. A passagem de Felipão na Ásia, dessa vez, não foi boa e ele voltou já em 1993 para comandar o Grêmio pela segunda vez na carreira. O treinador era o grande sonho do então presidente tricolor Fábio Koff, que via na figura de Felipão o norte para conquistas e a retomada das glórias após o calvário da Série B. O início, porém, não seria fácil, pois o tricolor estava em péssimas condições financeiras e precisava de reforços modestos. 

felipao223611 gre nal


Felipão passou a observar os juvenis do clube a fim de preparar o time para 1994. E ele encontrou algumas soluções que, digamos, deram resultado: o goleiro Danrlei, o lateral-esquerdo Roger, o volante Carlos Miguel e o meio-campista Arílson. Todos seriam titulares naquela que até hoje é considerada a fase mais copeira da história do clube. Além deles, Felipão deu mais tempo de jogo para Emerson, volante revelado no clube, e conseguiu já em 1994 levantar outra Copa do Brasil, após despachar pelo caminho Criciúma, Corinthians, Vitória, Vasco e derrotar o Ceará na final após 0 a 0 no primeiro jogo, no Castelão, e vitória por 1 a 0 no Olímpico, com gol de Nildo logo aos 3′ de jogo.

O título deu ao Grêmio uma vaga direta na Copa Libertadores de 1995 e, para isso, o clube teve que se reforçar. Felipão apostou em nomes contestados pela torcida inicialmente como o atacante Jardel, ex-Vasco e que buscava uma afirmação; os volantes Dinho, ex-São Paulo, e Luís Carlos Goiano, ex-Remo; o atacante Paulo Nunes, revelado pelo Flamengo, mas dispensado pelo clube, e o lateral-direito paraguaio Francisco Arce. E foram esses reforços que fizeram do tricolor a equipe mais competitiva do Brasil e da América em 1995. 

felipao

Felipão criou um time extremamente eficaz na marcação, compacto, que sabia se defender muito bem e atacava de maneira letal, principalmente pelas pontas, com os dois laterais subindo muito ao ataque. Além disso, Roger e Arce eram excepcionais em seus cruzamentos e tinham lá dentro da área um dos maiores especialistas: Jardel, que marcou gols e mais gols de cabeça graças a dupla. 

“Foi criado algo que os times do Sul só jogavam na força e na garra, mas não era isso. Nós atacávamos e defendíamos como todos os outros, mas tínhamos um poder de marcação maior. Depois daquele time do Felipe, todo mundo começou a diminuir espaços. Nós tínhamos essa fama de jogar na retranca porque encurtávamos os espaços, mas times da Europa também faziam isso. Aí ninguém chamava de retranca. Diziam que éramos retranqueiros, mas depois todo mundo começou a jogar igual”, avaliou o ex-volante Dinho, em entrevista ao UOL Esporte, em julho de 2014.

Campeão da América e segurando o Ajax no Japão

O Grêmio de Felipão de fato ia na contramão de equipes como o São Paulo de Telê ou o Palmeiras de Luxemburgo, os grandes esquadrões daquele começo de anos 1990, notáveis por tocarem bem a bola e jogarem um futebol vistoso. A equipe gaúcha dificultava o jogo do adversário, encurtava os espaços e marcava muito, sem dar chances para o rival pensar ou elaborar jogadas de efeito. E essas características, em torneios de tiro curto, eram essenciais para o sucesso. Na Libertadores, o Grêmio passou pela primeira fase sem grandes problemas e avançou até as oitavas de final, quando eliminou o Olimpia-PAR com duas vitórias (3 a 0 e 2 a 0). Nas quartas, encarou o Palmeiras e, no primeiro jogo, em casa, aplicou um sonoro 5 a 0 no Verdão, com show de Jardel, autor de três gols. O primeiro veio com um toque, após cruzamento rasteiro da esquerda de Roger. O segundo foi de cabeça – em passe de Arílson – e o terceiro também de cabeça, após bola alçada por Paulo Nunes.

1995 grc3aamio x palmeiras jardel
jardel paulonunes25677108
Jardel e Paulo Nunes: dupla inesquecível do tricolor.
 

No segundo jogo, Jardel fez mais um no começo do jogo no Palestra Itália, mas o Palmeiras conseguiu uma vitória histórica de 5 a 1, porém, insuficiente para se classificar, pois o Grêmio venceu no agregado por 6 a 5. Na semifinal, o duelo com o Emelec-EQU teve vitória tricolor por 2 a 0 em casa após empate sem gols no Equador. Na final, os gaúchos fizeram 3 a 1 no Atlético Nacional-COL no Olímpico e, no segundo jogo, seguraram o 1 a 1 para ficar com o bicampeonato continental. Naquele meio tempo, Felipão ainda levantou o Campeonato Gaúcho e levou o Grêmio à final da Copa do Brasil de 1995, mas acabou perdendo para o Corinthians de Marcelinho e companhia. O gaúcho, enfim, estava entre os principais técnicos do Brasil. 

“Nossa estratégia era bastante montada pro cruzamento do Arce e cabeceio do Jardel. Se alguém levantasse o dedo na área, o Arce botava a bola no lugar. O “problema” é que era ‘gentleman’ demais, não sabia fazer uma falta. […] Me taxavam de violento, uma bobagem. Ninguém pede para bater. Temos um time organizado, que compete, sabe parar uma jogada para equilibrar o time. No futebol, colocam-se muitos rótulos, mas nunca me importei”, comentou Felipão sobre sua equipe à revista Placar, em abril de 2025.

grc3aamio campec3a3o da amc3a9rica 1995 1 3
felipao 95
gremio 1995
O Grêmio de Felipão: raça, talento, marcação, competitividade… Jamais houve outro Grêmio como aquele.
 

No final do ano, o Grêmio de Felipão viajou até o Japão para a disputa do Mundial Interclubes, onde teve pela frente o lendário Ajax de Louis van Gaal, multicampeão naquela temporada e base da seleção holandesa. A equipe de Amsterdã tinha nomes como Van der Sar, Reiziger, Blind, Frank de Boer, Davids, Overmars, Litmanen, Kluivert entre outros, um esquadrão favorito ao título. Mas, quando a bola rolou, o Grêmio conseguiu neutralizar a equipe europeia e conseguiu, inclusive, ter algumas chances, uma delas com Jardel, em um lance que por pouco não testou pro fundo do gol de Van der Sar. O desempenho coletivo do tricolor foi notável e surpreendeu até mesmo o técnico holandês Van Gaal.

“Em 1995, nós tínhamos um time campeão europeu e que havia vencido todos os jogos na temporada. O Grêmio nos surpreendeu, foi melhor naquela partida, não foi uma boa experiência para nós. A partir daquele momento, conheci Scolari. Fomos campeões mundiais, porque ganhamos nos pênaltis. Não conseguimos vencer o jogo”. – Louis van Gaal, em entrevista ao Zero Hora, 11 de julho de 2014.

Foram poucos os momentos em que o Ajax desempenhou o futebol rápido, envolvente e agressivo que foi deixando pelo caminho todos os adversários nda época. Ao contrário: nervoso, o time europeu se preocupava em evitar os mortíferos contragolpes do Grêmio. Os alvirrubros foram mais extremosos com sua defesa do que ousados no ataque. A equipe de Amsterdã teve mais posse de bola durante quase toda a partida, mas quase nunca soube o que fazer com ela. E isso porque, a partir dos 11’ do segundo tempo, Rivarola, do Grêmio, foi expulso e deixou o tricolor com 10 homens por mais de meia hora e em toda prorrogação. Nos pênaltis, porém, o time holandês venceu por 4 a 3 e ficou com o título mundial. O vice foi doloroso, mas os gremistas saíram de cabeça erguida. E prontos para mais títulos.

Artimanha e título brasileiro

Em 1996, o Grêmio começou a temporada vencendo o título da Recopa Sul-Americana, disputada em Kobe, no Japão, ao golear o Independiente-ARG por 4 a 1, com gols de Jardel, Carlos Miguel, Adílson e Paulo Nunes. Falando em Jardel, o ídolo acabou vendido para o Porto-POR e deixou o clube em junho, mas não antes de anotar três gols no primeiro jogo da final do Campeonato Gaúcho, vencido pelo tricolor mais uma vez. No segundo semestre, mesmo com a perda de sua principal referência no ataque, Felipão manteve a base do time multicampeão, contratou o experiente zagueiro Mauro Galvão e o atacante Zé Alcino e tratou o Campeonato Brasileiro como grande objetivo da temporada, principalmente após a queda na Libertadores na semifinal, diante do América de Cali.

Na primeira fase do torneio nacional, o Grêmio se classificou na sexta colocação e encarou o Palmeiras nas quartas de final. O tricolor venceu por 3 a 1 o primeiro jogo, perdeu por apenas 1 a 0 a volta e se garantiu na semifinal, onde eliminou o Goiás após uma vitória (3 a 1) e um empate (2 a 2). Na grande final, Felipão teve pela frente a surpreendente Portuguesa de Rodrigo Fabri, Zé Roberto, Gallo, Alex Alves e companhia. Na ida, em SP, a Lusa venceu por 2 a 0 e levou para Porto Alegre a vantagem do empate ou mesmo de um revés por um gol de diferença. Mas Felipão tinha uma carta na manga. Aliás, uma artimanha. O treinador, especialista em motivação e em como mexer com o emocional de seus atletas, decidiu criar um plano para ludibriar o adversário e a imprensa e se fingir de morto. 

felipao 965627d2eeb6eb2
Foto: Arquivo/GES
 

Ele orientou que Paulo Nunes, um dos principais nomes ofensivos do time, aparecesse em um treino com uma bolsa de gelo no pé. O Diabo Loiro seguiu as orientações de Felipão e, quando era questionado, dizia: “está doendo muito, acho que não vai dar”. Mas a grande sacada foi com o lateral-direito Arce, que não havia jogado o duelo de ida e muitos diziam que também não iria jogar a volta. Pois Felipão pediu para o departamento médico fazer uma bota de gesso para o paraguaio, que a calçou e apareceu com ela diante da imprensa. Daquele jeito, era óbvio que o lateral não iria jogar. Só que ele já estava recuperado e treinou cruzamentos e fundamentos sozinho, longe dos holofotes.

arce 1996 portuguesa
Arce jogou a finalíssima e ajudou o Grêmio na conquista do bicampeonato brasileiro.
 

No dia do jogo, lá estavam Arce e Paulo Nunes, para desespero da Portuguesa e espanto da imprensa! “Ele (Felipão) buscava, com fotos no vestiário, matérias que a imprensa colocava. Não conheço um treinador que saiba mexer tanto com o motivacional do atleta, tentando tirar mais do que o atleta pode dar. O Arce, naquele momento, não tinha nada”, relembrou Paulo Nunes, anos depois, ao SporTV. Em campo, o Grêmio abriu o placar exatamente com Paulo Nunes, no primeiro tempo, e pressionou a Portuguesa durante todo o segundo tempo e com o maciço apoio de sua torcida no Olímpico Monumental. Até que, na reta final da partida, uma situação mudou o jogo. 

“O Dinho, nosso capitão e principal líder, chega à beira do campo e me pede: ‘Professor, me tira, por favor. Pelo amor de Deus! Eu não estou conseguindo fazer mais nada e nós precisamos de alguém mais avançado. Coloca o Ailton no meu lugar’. Como existia muita confiança entre todos nós, decidi arriscar e atendi o pedido do Dinho. Nove minutos depois, o Carlos Miguel (obrigado, Londrina!) lançou, a defesa da Portuguesa tentou afastar, no rebote o Ailton fez o 2 a 0 e colocou mais uma taça na história gremista”.Felipão, em depoimento ao The Players Tribune, maio de 2021.

gremio 1996
Os campeões de 1996.
 

O título quebrou um jejum de 15 anos sem conquistas no Brasileirão e coroou uma era de ouro da equipe gaúcha. Felipão ratificou seu posto de treinador de elite do país, com o seu quarto título de primeira grandeza, depois de uma Copa do Brasil e uma Libertadores com o Grêmio, além da Copa do Brasil com o Criciúma, sem contar a Recopa e os dois estaduais com o tricolor. 

Nova ida ao exterior e a chegada ao Palmeiras

Em 1997, Felipão deixou o Grêmio e foi treinar o Jubilo Iwata, do Japão, mas sua estadia no Oriente durou poucos meses. Já no começo de junho, o treinador retornou ao Brasil e assinou com o Palmeiras para assumir o lugar de Márcio Araújo. Um dos objetivos do Palmeiras na época era a implantação do estilo “disciplinador” de Scolari. “Jogando feio e ganhando, tudo fica lindo. Quero uma equipe briosa e vencedora. Vamos dosar qualidade com força”, comentou o treinador, em sua apresentação. Parecia até irônico ver Felipão pelas bandas do Palestra Itália na época depois de tantos anos de pelejas e duelos quentes entre o Grêmio e o próprio Verdão, mas a contratação do gaúcho foi um sinal claro de respeito e confiança em seu talento.

E, no dia a dia, Felipão tratou de retribuir com muito trabalho e a formação de um time cascudo, competitivo e goleador. No Brasileirão, o Verdão fez grandes jogos na primeira fase, com destaque para as goleadas sobre Fluminense (4 a 1, na estreia de Felipão), Santos (5 a 0), Grêmio (5 a 1) e Cruzeiro (4 a 0). Classificado para a segunda fase, o time alviverde passou sem qualquer problema po Santos, Internacional e Atlético-MG, somando 16 pontos em seis jogos, com cinco vitórias e um empate, e se garantiu na grande final. 

felipao murtosa violahqdefault
Murtosa, Felipão e Viola.
 

O objetivo, além do título, era voltar a Libertadores, competição que o Verdão não disputava desde 1995. Mas a equipe não conseguiu furar a meta do Vasco da Gama e, após dois jogos empatados sem gols, ficou com o vice pelo fato de o cruzmaltino ter melhor campanha. Apesar disso, o trabalho de Felipão foi elogiado e o time demonstrou enorme competitividade graças a nomes como Roque Júnior, Cléber, Júnior, Rogério, Alex, Oséas, Zinho e Euller, a espinha dorsal que tinha total confiança do treinador. 

Para 1998, Felipão pediu à diretoria dois jogadores que ele havia comandado no Grêmio: o lateral Arce e o atacante Paulo Nunes. Dito e feito. A dupla chegou e reforçou ainda mais o elenco alviverde. Apesar de um início de temporada ruim, sem brigar pelo título estadual, o Palmeiras focou na Copa do Brasil e se deu bem: a equipe despachou CSA, Ceará, Botafogo, Sport e Santos e fez a final contra o Cruzeiro, algoz de 1996, quando perdeu o título em pleno Palestra Itália para a Raposa. Pois o Verdão conseguiu sua vingança e, após perder a ida por 1 a 0, venceu por 2 a 0 no Morumbi – gols de Paulo Nunes e Oséas – e celebrou a inédita conquista da Copa do Brasil. De quebra, garantiu a vaga na Libertadores de 1999.

felipao 03g

No segundo semestre, Felipão ainda deu ao Verdão o título da Copa Mercosul, após terminar em primeiro lugar na fase de grupos e eliminar o Boca Juniors-ARG nas quartas de final (vitória por 3 a 1 em casa e empate em 1 a 1 na Argentina), o Olimpia-PAR na semifinal (vitória por 2 a 0 em casa e 1 a 0 fora) e, na final, bater novamente o Cruzeiro após três jogos – derrota por 2 a 1 no primeiro jogo e vitórias nas duas outras partidas (3 a 1 e 1 a 0). 

No Palmeiras, Felipão elevou ainda mais seu jeito motivador e também provocador. Em 1998, por exemplo, no Brasileirão, Felipão colocou Alex na reserva e, durante um jogo contra o Athletico-PR, Felipão pediu para o meia se aquecer. Enquanto ele se aquecia, o treinador comentou perto dali, para que o camisa 20 pudesse ouvir: “eu vou pôr o Alex, mas eu não sei qual Alex eu vou pôr. Se vai ser o que nos ajuda, ou o que tem nos atrapalhado”. Alex ficou mordido. E, em campo, com apenas quatro minutos, mostrou seu valor e fez o gol da vitória por 1 a 0. O fato é que Felipão fez aquilo, na verdade, para mexer com o meia. E deu certo! A partir dali, o craque seria o principal nome do time.

A Libertadores de 1999

No ano seguinte, Felipão conseguiu a sonhada Copa Libertadores com o Verdão. Ainda mais sisudo, criando polêmicas com a imprensa paulista e com adversários, o técnico blindou seu grupo e transformou o Alviverde em uma das equipes mais competitivas do país e do continente. O time possuía técnica refinada no meio de campo graças a Alex e Zinho, além da segurança do capitão Cesar Sampaio, ótimo apoio pelas laterais com Júnior e Arce e um ataque entrosado com Oséas, cabeceador nato e oportunista, e Paulo Nunes, muito rápido e que enervava os rivais com suas provocações, além de Euller, um 12º jogador que dava fôlego extra sempre no segundo tempo, e o veterano Evair e sua experiência em atrair a marcação. Na zaga, Roque Júnior e Júnior Baiano foram os principais nomes e pilares defensivos. No gol, o reserva Marcos ganhou a vaga de Velloso e se transformou em um expoente do time nos momentos decisivos e em disputas de pênaltis.

felipao00135836 1024x788 1
Felipão, Marcos e Euller. Foto: Acervo / Gazetta Press
 

Na fase de grupos da Libertadores, o Palmeiras conseguiu a classificação para o mata-mata sem grandes sustos em um grupo ao lado do rival Corinthians-BRA, Cerro Porteño-PAR e Olimpia-PAR. Nas oitavas, o alviverde despachou o Vasco – empate em 1 a 1 e vitória por 4 a 2 – e reencontrou o Corinthians nas quartas de final. Após dois placares de 2 a 0, um para cada lado, a decisão foi para os pênaltis. E deu Verdão: 4 a 2, com os primeiros milagres do goleiro Marcos na meta alviverde e uma vaga comemoradíssima por se tratar, claro, de ser justamente em cima do maior rival. 

Nas semis, outra pedreira: o River Plate-ARG, que venceu o duelo de ida no Monumental por 1 a 0 e ainda obrigou Marcos a realizar mais alguns milagres. Na volta, o Palmeiras se impôs e goleou: 3 a 0, num claro exemplo de tudo o que aquele time reunia: técnica, malandragem, qualidade, grupo e sangue frio. Felipão armou um time perfeito para a Libertadores. Na final, o alviverde teve pela frente o Deportivo Cali-COL, que vinha de triunfos sobre Colo-Colo-CHI, Bella Vista-URU e Cerro Porteño-PAR. Os colombianos tinham um bom time, com o arrojado goleiro Dudamel, o zagueiro Yepes, o volante Zapata, o veloz Bedoya e o artilheiro Bonilla. 

palmeiras 1999
O Verdão de 1999: como nos tempos do Grêmio, Felipão construiu uma equipe competitiva ao extremo, forte nas laterais e letal nos contra-ataques.
 

No duelo de ida, em Cali, o Palmeiras perdeu por 1 a 0 – gol de Bonilla – e precisava de uma vitória por dois gols no tempo normal se quisesse o título. Triunfo por um gol levava o jogo para os pênaltis. Qualquer empate dava Deportivo. Na decisão, o Palestra Itália lotou e foi o caldeirão que embalou o Palmeiras até a vitória por 2 a 1 e que levou o duelo para os pênaltis. Na marca da cal, o time brasileiro venceu por 4 a 3 e ficou com o título inédito

“Eu penso que o título de campeão da Libertadores pelo Palmeiras foi muito importante na minha carreira. Eu já tinha obtido o título com o Grêmio, mas no Palmeiras era o primeiro título do clube e representou muito na minha carreira, me abrindo portas para o cenário internacional. Eu ‘cimentei’ minha carreira com aquele título, tive a oportunidade de crescer a partir dali”, comentou Felipão, em 2020, sobre a importância daquela taça.

felipao1

De fato, o troféu colocou o treinador em um patamar ainda mais elevado perto de outros técnicos do país na época. Vencer a Libertadores era muito difícil nos anos 1990, com times mais equilibrados e sem o disparate financeiro exarcebado nos anos 2010 e 2020 que permitiu o domínio do futebol brasileiro, por exemplo. Por isso, ter duas Libertadores no currículo fez Scolari ganhar notoriedade para além do continente. No final de 1999, o Palmeiras disputou a final do Mundial Interclubes contra o Manchester United de Alex Ferguson, mas acabou perdendo por 1 a 0, no segundo revés do técnico na competição. O gol inglês surgiu após uma falha de Marcos, que não cortou um cruzamento de Giggs e deixou a bola livre para Keane marcar, ainda no primeiro tempo.

“O Manchester é uma equipe calculista, que joga dessa forma e obtém os resultados dessa forma. Tem um aproveitamento fantástico das chances que surgem no jogo, e nós tivemos um aproveitamento inadequado”, admitiu Scolari após a partida. 

Classificação épica sobre o rival e vice na Libertadores

Com praticamente a mesma base e sepultando os rumores de que iria deixar o clube, Felipão queria levantar mais títulos em 2000 e, claro, o bicampeonato da América. Na fase de grupos, o Palmeiras passou sem sustos por El Nacional-EQU, Juventude-BRA e The Strongest-BOL e eliminou Peñarol-URU, nas oitavas, e Atlas-MEX, nas quartas de final. Na semifinal, um duelo épico contra o Corinthians, que vivia grande fase após o título do Mundial de Clubes da FIFA e possuía um time melhor no papel diante do Verdão, que não tinha Arce (contundido), nem Paulo Nunes e Oséas (ambos negociados). 

corinthians palmeiras libertadores 1999

No primeiro jogo, o Corinthians se impôs e fez 4 a 3, com grande atuação do ataque comandado por Ricardinho, Marcelinho e Luizão, o grande artilheiro da competição. Na semana que antecedeu o reencontro entre as equipes, Luiz Felipe Scolari enervou seus comandados após Edílson desferir um tapa em Júnior no duelo de ida. O treinador disse em palestra aos seus atletas:

“Quero que vocês sintam a raiva que eu estou sentindo por termos perdido. Tenham raiva do Corinthians! Ele (Edílson) é malandro, esperto, mas também é covarde e cafajeste. Alguém tinha que ter dado uma porrada, uma cusparada nele!” Felipão, na bronca que deu aos atletas e que serviu para mexer com o grupo em busca da vitória. Frases reproduzidas na Folha de S. Paulo, em 06 de junho de 2000.

A pressão psicológica era tanta que ambas as equipes foram eliminadas no Campeonato Paulista e focaram todas as atenções somente na Libertadores. O clima do duelo mexeu com o dia-a-dia de São Paulo e ninguém falava em outra coisa que não fosse o Derby, que já era o mais importante da história do clássico. Nem as diversas outras finais que os rivais haviam protagonizado se equiparavam àquela partida. Disputar uma vaga na final da Libertadores era algo único e a rivalidade acima da média que movia alvinegros e alviverdes na época temperavam um jogo pra lá de decisivo. Centenas de milhares de pessoas se aglomeravam nas bilheterias para garantir um ingresso e as entradas se esgotaram em pouquíssimo tempo. 

O Palmeiras queria a vitória e a vaga para manter viva a chance de se tornar bicampeão do torneio, levantar a última taça da “geração Scolari” e destruir mais uma vez a esperança corintiana de vencer o troféu que ainda lhe faltava. Já os alvinegros queriam vencer a competição para “legitimar” o título mundial conquistado no começo daquele ano e ser, enfim, campeão da América. O jogo foi eletrizante e o Palmeiras venceu por 3 a 2, igualando o agregado em 6 a 6 (!) que forçou a disputa de pênaltis – a segunda seguida entre os rivais na competição, a exemplo do ocorrido em 1999. Um a um, os jogadores foram convertendo suas cobranças e dando show sobre os especialistas Dida e Marcos. Até que, na última cobrança, de Marcelinho Carioca, Marcos defendeu e o 5 a 4 colocou o Palmeiras na grande final. Foi um dos maiores jogos da era Felipão no clube e tido como o maior Derby da história. Leia mais clicando aqui!

112191 970x600 1
O pênalti de Marcelinho e a glória de Marcos: momento inesquecível para qualquer palmeirense.
 

Na final, Felipão teve pela frente o lendário Boca Juniors de Carlos Bianchi e do meia Riquelme. No primeiro jogo, em La Bombonera, armou sua equipe com três volantes e arrancou um empate de 2 a 2 na casa xeneize, resultado considerado ótimo, pois bastava uma vitória simples na volta que o título seria do Verdão. Jogando no Morumbi, o Palmeiras preferiu mais gente ao invés do caldeirão do Palestra Itália e o jogo terminou empatado sem gols após 90 minutos e prorrogação. O duelo foi para os pênaltis e o Boca conseguiu a vitória por 4 a 2, levantando sua terceira Libertadores. A decepção foi enorme, principalmente pelo fato de ser no Brasil e com a possibilidade de uma simples vitória.

“Até o Felipão ficou em silêncio (no vestiário). Acho que foi até um pouco de frustração também na parte dele como treinador. Eu lembro que depois já na nossa reapresentação, ele se pronunciou, mas no vestiário ele não se pronunciou”. – Fernando, ex-jogador do Palmeiras, em entrevista ao GE, novembro de 2025.

boca palmeiras 20001
Alex em ação contra o Boca: xeneizes ficaram com o título de 2000 da Liberta.
 

Sem conseguir motivar os atletas após a derrota na Libertadores, Felipão anunciou sua saída do clube em julho de 2000. A perda do título foi a maior tristeza do técnico na época, como ele mesmo disse em coletiva de imprensa. “Jogamos em casa e perdemos. Fiquei devendo essa para a torcida. Pensei muito antes de tomar a decisão, preciso agora de um tempo para organizar a minha vida. Minha prioridade é conversar com meus familiares para depois tomar alguma decisão. Agora, vou viajar e talvez daqui a uns dez ou 20 dias eu decida o que fazer”. 

Rápida passagem pelo Cruzeiro e o salvador da Seleção

Tempo depois, o treinador assumiu o Cruzeiro, outro clube muito comum pelo caminho do técnico no final dos anos 1990. Em MG, o treinador chegou a ser sondado pela CBF para assumir a seleção brasileira logo após a demissão de Vanderlei Luxemburgo, mas preferiu ficar na Raposa. Ele havia traçado um projeto de longo prazo com o clube e não quis abandonar de bate pronto, além de achar que “aquele não era o momento de dirigir a seleção”. Felipão ficou até meados de 2001 no Cruzeiro e, como de costume, levantou um título: a Copa Sul-Minas, além de conduzir o time até as quartas de final da Libertadores, quando foi eliminado por seu ex-clube, o Palmeiras. 

Até que, em junho de 2001, Felipão aceitou um novo convite da CBF e assumiu a seleção no lugar de Emerson Leão, demitido após a queda na Copa das Confederações. A princípio, o Cruzeiro queria que o técnico conciliasse os dois trabalhos, mas Felipão preferiu ir 100% para a equipe canarinho, até porque estava descontente com a falta de investimentos no departamento de futebol. 

“Conciliar as duas funções não é fácil. Quando se trabalha 30 dias em um lugar e três em outro, até pode ser compatível, mas se não é esse o caso, aí não é legal. Um técnico dificilmente serviria dois senhores ao mesmo tempo”, disse Scolari na época.

felipc3a3o selec3a7c3a3o 21 06 2002 alaor filho ae2

Com tantos títulos conquistados e muito sucesso, Felipão era a última esperança da CBF para ressuscitar a seleção, que vivia uma enorme crise na época e com sérios riscos de nem se classificar para a Copa do Mundo. E o início do treinador não foi fácil: logo de cara, perdeu para o Uruguai em Montevidéu por 1 a 0. Depois, disputou a Copa América na Colômbia e foi eliminado por Honduras, nas quartas de final, em um fiasco que serviu para o treinador repensar seu trabalho e fazer uma peneira nos atletas. 

“A partir dali, tomei uma série de medidas. Às vezes, tem derrotas que te abrem os olhos para muitas coisas. Aquela me abriu pra uma série de situações. Ensinamentos de que alguns atletas tinham sido mal escolhidos, o esquema também não era bom. Uma série de detalhes”, disse Scolari, em novembro de 2013, ao Diário do Nordeste.

Um dos atletas que não ganhou mais chances com Felipão depois da Copa América foi Romário, que pediu dispensa da competição por precisar fazer uma pequena cirurgia no olho e, no mesmo período do torneio, jogou pelo Vasco, o que magoou profundamente o técnico, que ignorou o clamor popular pela presença do Baixinho no lugar do lesionado Ronaldo. Com isso, ele fechou um grupo de atletas e batalhou nas Eliminatórias pela vaga na Copa. 

brasil paraguai 2001
Rivaldo marcou o segundo Brasil contra o Paraguai em 2001. Foto: Ricardo Duarte / Agência RBS
 

O primeiro desafio foi contra o Paraguai, em Porto Alegre, e Felipão fez questão de jogar no Olímpico Monumental, estádio onde tão habituado estava e conhecia de seus tempos de Grêmio. Com a força da torcida tricolor, o Brasil com alma gremista venceu por 2 a 0 – gols de Marcelinho Paraíba e Rivaldo – e respirou. Na sequência, derrota por 2 a 1 para a Argentina, em Buenos Aires, que vivia melhor fase. A volta por cima veio na rodada 16, nos 2 a 0 sobre o Chile, em Curitiba. Na penúltima rodada, viagem até La Paz e revés para a Bolívia por 3 a 1. O Brasil tinha que vencer a frágil Venezuela, em casa, se quisesse ir para a Copa. E, no Maranhão, Luizão (2) e Rivaldo fizeram os gols da vitória por 3 a 0 que colocou o Brasil no Mundial. Era hora de ir até o outro lado do mundo brigar pelo penta.

A Família Scolari e o penta

Confiando na recuperação de Ronaldo – que aconteceu – e nos atletas que participaram da reta final das Eliminatórias, Felipão convocou os 23 jogadores para o Mundial sem Romário na lista. Ele deixou claro que a história da cirurgia para evitar a Copa América pesou. Além do mais, segundo o próprio Felipão, o esquema com três zagueiros – Lúcio, Roque Júnior e Edmílson – e dois laterais que avançavam bastante – Cafu e Roberto Carlos – exigia atacantes que se movimentassem, diferente de Romário, que era mais fixo. Ronaldo tinha mais movimentação e era o ideal para a posição, além de Ronaldinho, Rivaldo na criação e os suplentes Luizão, Denílson e Edílson. 

O técnico queria levar também Djalminha, meia que vivia grande fase no Deportivo La Coruña, mas casos de indisciplina do brasileiro na Espanha minaram sua convocação. O técnico poderia ter levado Alex, um de seus principais jogadores nos tempos de Palmeiras, mas não levou o meia e causou profunda lamentação no craque.

Com um clima muito leve, descontraído e sem a pressão de outros Mundiais, o Brasil pôde desenvolver uma campanha perfeita na Copa. Felipão fechou seu grupo, teve muita conversa e criou a Família Scolari, na qual os jogadores trabalharam juntos, sem vaidades, em prol da Copa do Mundo. Na fase de grupos, a seleção passou por Turquia (2 a 1), China (4 a 0) e Costa Rica (5 a 2) e avançou em primeiro lugar. Nas oitavas, um duro duelo contra a Bélgica terminou com vitória por 2 a 0, em jogo no qual o goleiro Marcos fez grandes defesas.

luizfelipescolari felipao get

Nas quartas de final, o Brasil saiu atrás do marcador contra a forte Inglaterra de Sven-Göran Eriksson, mas soube dar a volta por cima em jogaço da dupla Ronaldinho e Rivaldo e venceu por 2 a 1. Ronaldinho acabou expulso, mas Felipão conseguiu fechar o time, neutralizou as principais jogadas do English Team e conseguiu a vaga na semifinal, na qual o Brasil teve a Turquia mais uma vez pela frente, e venceu por 1 a 0, no gol de bico de Ronaldo.

Na final, o adversário foi a Alemanha e o Brasil mostrou enorme maturidade e controle do jogo. Após um primeiro tempo sem gols, Ronaldo, duas vezes, fez o 2 a 0 que garantiu o pentacampeonato mundial ao Brasil. Felipão estava no topo do mundo. O mais copeiro técnico brasileiro conquistava a maior e mais cobiçada das copas. Ronaldo, que ressurgiu naquele Mundial graças a Felipão, comentou sobre o trabalho do técnico.

“A ‘família Scolari’ é formada ainda antes da Copa, com a dificuldade que nós tivemos nas Eliminatórias. O Felipão era um paizão para todos, além de um cara extremamente experiente, inteligente e, principalmente, que banca o seu grupo. Ele fazia constantemente as resenhas entre a gente para fortalecer essa união, porque, logicamente, talento a seleção brasileira sempre vai ter, mas botar na cabeça que todos os jogadores são importantes e tirar o máximo rendimento de cada um em prol do grupo, esse é o grande desafio do treinador. Então, todas as resenhas que o Felipão fazia era realmente para motivar cada um de nós a dar o máximo e que, fora dali, a gente estaria protegido através dele e das suas falas”.

“Para mim, o Felipão ele é genial. Ele é genial em vários aspectos, não só tecnicamente, taticamente, estrategicamente, mas o lado humano dele também é muito especial, porque eu costumo dizer que o treinador não é só a tática, a estratégia, treinos, enfim, ele tem que saber gerir um grupo de pessoas, ele tem que entender a individualidade de cada um e tirar o máximo proveito de cada um para o grupo. E o Felipão foi perfeito, foi perfeito”. – Ronaldo, em entrevista a ESPN, junho de 2022.

BRASIL 2002 TATICA NOVA

Além do trabalho emocional e técnico, Felipão ainda blindava os atletas da imprensa, se desgastando em prol do bem-estar dos atletas. O esforço valeu a pena e ele conduziu o time brasileiro a uma campanha irretocável: sete jogos e sete vitórias. Durante o Mundial, Felipão fez questão de usar todos os jogadores de linha do plantel na campanha. Até mesmo Kaká, uma das grandes surpresas da convocação para a Copa, entrou em campo por 23 minutos contra a Costa Rica, no último jogo da fase de grupos. 

“Em 2002, nós tínhamos mais do que convivência. O sentimento era de amizade, parceria e, sobretudo, de muita confiança. Algumas pessoas ainda pensam que eu criei a “Família Scolari, mas esse termo surgiu da imprensa, que presenciou o comprometimento daqueles jogadores em servir à Seleção. De fato, o que havia ali era um ambiente familiar, construído desde o nosso primeiro encontro. Ninguém naquele grupo tinha a vaidade de ser a estrela, de brilhar sozinho, algo que ficou muito evidente na final contra a Alemanha.

Antes do jogo, em conversas reservadas com os jogadores, eu escutei uma coisa parecida de praticamente todos eles: ‘Professor, nós queremos ganhar a Copa, não importa quem vai fazer o gol’. Olha, mesmo com tantos anos de futebol, eu nunca tinha visto uma unidade de pensamento como a que existia naquele grupo”.Felipão, em depoimento do The Players Tribune, abril de 2022.

felipao cafu01fzgmpqrgw24vk0bsaq
felipao copa trofeu 2002
Felipão e o maior troféu de sua carreira. Foto: Paulo Whitaker / Reuters
 

Ainda ao site, Felipão contou que o clima da seleção para a final parecia de jogo comum.

“É engraçado que, antes de entrar em campo, parecia até que a gente não estava ali para jogar uma final de Copa do Mundo. Explico pra ti o porquê. Primeiro, chega o ônibus da Alemanha. Os jogadores sérios, compenetrados, todos formais e em silêncio, organizando uma fila para seguirem juntos rumo ao vestiário. Depois, chega o ônibus do Brasil… Bah, o ônibus do Brasil tu nem acredita!

Desce o Ronaldinho com atabaque na mão, o Cafu com um pandeiro, Denílson e Dida levando os tambores… Pá, pá, pá, tum, tum, tum!! Cantando Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho, aquele ziriguidum… Faltam poucas horas pro jogo começar e os nossos jogadores estão fazendo um pagode na porta do estádio! Os alemães olhando aquilo sem entender nada, incrédulos. 

Um treinador nessa situação poderia ficar preocupado, pensando: Os caras vão jogar uma final batucando desse jeito? Mas eu, não. Eu estava despreocupado. Pela confiança que existia no nosso ambiente, era ali que eu ficava tranquilo. Sabia que eles estavam felizes para jogar”.

Em 26 jogos naquela trajetória à frente da seleção, Felipão venceu 19 jogos, empatou um e perdeu seis, com 56 gols marcados e apenas 16 sofridos, um aproveitamento de 73%.

Família Portuguesa!

Felipão fez apenas mais um jogo no comando da seleção, um amistoso contra o Paraguai, em festa com o troféu diante da torcida em Fortaleza, no Castelão, que terminou com vitória da albirroja por 1 a 0, e passou por um período de descanso até assumir a seleção portuguesa de futebol. A Federação apostou no talento do brasileiro e no auge que ele vivia para que Felipão pudesse extrair o melhor da geração de futebolistas lusitanos daquela época. Grandes nomes eram vistos em todos os setores e também jovens promessas, como um tal de Cristiano Ronaldo, com apenas 19 anos e que ganhou sua primeira convocação para a seleção em agosto de 2003 justamente sob as mãos de Felipão. Foi naquele ano que o craque deixou o Sporting para iniciar uma trajetória de sucesso no Manchester United-ING.

“O Cristiano era diferente pela forma como se preparava, ao contrário de muitos jogadores que não aproveitam todos os dias para melhorarem. Ele é diferente, prepara-se bem a qualquer altura e em qualquer circunstância de uma forma que eu nunca vi outro futebolista fazer”, comentou Felipão, em junho de 2024, à ESPN.

Cristiano Ronaldo Scolari 800x450 1
Cristiano Ronaldo e Felipão: dupla teve bastante sintonia naquela época.
 

Mas Felipão mostrou naquele início de trabalho que também tinha personalidade para barrar jogadores tidos como intocáveis, a exemplo de quando barrou Romário da seleção que foi ao Mundial da Coreia do Sul e Japão. Ele não deu mais chances ao goleiro Vítor Baía, algo que pegou a todos de surpresa pelo fato de o arqueiro ser o mais conhecido do país na posição e titular do Porto, esquadrão que seria campeão da Liga dos Campeões da UEFA de 2003-2004. Felipão queria nomes novos e ficou sabendo através do presidente do próprio Porto que Baía em breve poderia se aposentar. Por isso, o treinador deu vez ao goleiro Ricardo, titular do surpreendente Boavista campeão português de 2000-2001.

O veto gerou muitas críticas, mas seria uma primeira mostra do estilo Felipão que os portugueses ainda não conheciam. Ele tinha suas convicções, suas apostas, e ia com elas até o fim. O fato é que o treinador queria construir uma equipe unida, forte e competitiva a exemplo de seu trabalho no Brasil e reeditar a “Família Scolari” em solo lusitano, como foco total na preparação para a Eurocopa de 2004, que seria disputada no país pela primeira vez. Como anfitrião, Portugal não precisava disputar as Eliminatórias e teria pouco mais de um ano para treinar e disputar diferentes amistosos. Esperançoso, mas cauteloso, a frase de Felipão antes dos trabalhos foi direta: “Título europeu não é uma promessa, mas é um objetivo”.

Vice na Euro de 2004

Sob o comando de Felipão, a seleção de Portugal marcava muitos gols, criava alternativas, mas demonstrava alguns problemas defensivos por conta dessa exposição. Durante a preparação, Scolari praticamente definiu seu time para a Eurocopa, com Ricardo no gol, Miguel e Nuno Valente nas laterais, Jorge Andrade e Ricardo Carvalho no miolo de zaga (além do experiente Fernando Couto), Costinha e Maniche como meio-campistas mais marcadores e três jogadores de criação de exímio talento que poderiam construir as mais diversas oportunidades de gol: Figo, Deco e Cristiano Ronaldo, além de Simão e Nuno Gomes, que seriam titulares em alguns jogos também. 

eusebio felipao portugal
Eusébio, membro da comissão técnica da seleção, e Felipão.
 

No ataque, apenas Pauleta como centroavante de ofício. Rui Costa, outra craque da época, não teria grandes oportunidades no time muito por causa das seguidas lesões e também pela fase esplendorosa do brasileiro naturalizado Deco, que gastava a bola no Porto e tinha a juventude que tanto Felipão queria no time. Falando em Porto, o clube foi a base que Felipão iria utilizar na seleção. Nada mais nada menos do que cinco jogadores titulares do time campeão europeu de 2004seriam, também, titulares de Portugal: Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Costinha, Maniche e Deco.

Um fato importante é que o treinador brasileiro conseguiu atrair a atenção do povo português e despertar um enorme nacionalismo e ufanismo antes e durante a Eurocopa. Ele pediu para que as pessoas “colocassem a bandeira na janela” e torcessem por Portugal, pois aquilo era algo único e histórico. Seria a primeira vez que o país sediava o principal torneio de seleções do continente, com vários estádios novos e uma seleção que crescia de produção a cada partida e com jogadores de muito talento. Era um momento ímpar para o esporte do país. E toda aquela empolgação tomou conta dos portugueses, que coloriram as ruas para uma Eurocopa energética e repleta de expectativas.

Rui Costa 960x641 1
Rui Costa e Cristiano Ronaldo.
 

Na Euro, Portugal começou perdendo para a Grécia por 2 a 1, mas se redimiu e conseguiu a classificação após vitórias sobre Rússia (2 a 0) e Espanha (1 a 0). Nas quartas de final, Portugal teve pela frente a Inglaterra, uma das favoritos ao título e tinha ainda um retrospecto favorável nos duelos contra Portugal: em 20 jogos, eram nove vitórias da Inglaterra, oito empates e apenas três vitórias de Portugal, além da fatídica semifinal da Copa do Mundo de 1966, quando os ingleses eliminaram a brilhante geração de Eusébio e Coluna com o triunfo por 2 a 1.

No tempo normal, o empate em 1 a 1 levou a partida para a prorrogação. Nela, Rui Costa fez 2 a 1 e, faltando cinco minutos para o fim, Lampard empatou de novo. Nos pênaltis, Portugal venceu por 6 a 5 e se garantiu na semifinal de maneira dramática e bem ao estilo Felipão. Nas semifinais, a Seleção das Quinas derrotou a Holanda por 2 a 1 e se garantiu na decisão. Faltava apenas um jogo. Um desafio para a primeira grande taça do selecionado português. E de novo estaria a Grécia no caminho da equipe de Felipão. Era a hora da desforra. De vencer a única equipe que bateu Portugal naquela Euro. E fazer a festa da nação.

PORTUGAL 2004
O time da Euro atacava bastante pelas pontas e contava com um meio de campo de talento.
 

Mas, no Estádio da Luz, outra vez a Grécia venceu – 1 a 0 -, mesmo com Portugal dando 17 chutes a gol contra apenas quatro dos alviazuis. Muito abatido, Felipão destacou a eficiência do rival em seu jogo defensivo e lamentou a falha no gol de Charisteas.

“A Grécia é muito forte nas bolas paradas e nas bolas aéreas. (Eles) Ganharam porque sabem jogar muito bem dessa forma, num esquema táctico defensivo. Sofremos um gol de uma forma, que, em princípio, não deveria ter acontecido. Futebol é assim, uma desatenção pode levar à derrota. Peço desculpas por não ter dado uma última alegria ao povo português, mas temos que trabalhar para chegar ao Mundial em excelente condição”. Luiz Felipe Scolari, em entrevista ao Público (PT), 04 de julho de 2004.

cristiano ronaldo at euro 2004
Felipão (à dir.) consola Cristiano Ronaldo após o jogo.
 

Muitos disseram que a derrota de Portugal em casa foi uma espécie de Maracanazo português, em alusão à derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950. Mas as condições eram outras. Portugal era uma equipe em formação, que cresceu ao longo da competição e ainda não estava 100% de suas condições, além de enfrentar um adversário duríssimo, que dificultava qualquer estilo de jogo por causa de sua retaguarda. Após a Euro, o presidente de Portugal em 2004, Jorge Sampaio, fez questão de condecorar Luiz Felipe Scolari e os jogadores com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, uma das mais altas honrarias do país, pelos serviços prestados à seleção, algo que surpreendeu o treinador e provou o respeito que o povo lusitano tinha pelo que ele havia feito, além de simbolizar uma nova cultura que ele não conhecia: a da valorização de um trabalho mesmo sem o título.

Semifinalista na Copa de 2006

Logo após a Euro, Felipão seguiu no comando da seleção e fez uma grande campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo. A equipe lusitana garantiu a vaga no Mundial com nove vitórias e três empates em 12 jogos, 35 gols marcados (média de quase três gols por jogo) e apenas cinco sofridos. Durante as Eliminatórias, Felipão ainda pôde testar o elenco em alguns amistosos e percebeu que o time vinha em uma ascensão notável, com muito entrosamento entre os jogadores de meio de campo e ataque. 

felipao port
Em 2006, Felipão quase colocou Portugal na final.
 

Ninguém podia duvidar do time de Felipão. Ainda mais por ele ser o detentor do título mundial e ter a chance de se tornar o primeiro técnico a vencer duas Copas do Mundo por duas seleções diferentes e o primeiro desde o italiano Vittorio Pozzo a erguer o troféu duas vezes seguidas. Seria simplesmente épico! Na convocação, o brasileiro não fez surpresas e levou ao Mundial os nomes conhecidos dos torcedores. Dos mais tarimbados, Vítor Baía, João Pinto e Quaresma não foram chamados. 

Com sete vitórias consecutivas somando Eliminatórias e amistosos, a seleção de Portugal chegou à Alemanha tinindo. Na fase de grupos, Portugal venceu Angola (1 a 0), Irã (2 a 0) e México (2 a 1), e se garantiu nas oitavas de final com 100% de aproveitamento. Nas oitavas de final, o adversário foi a Holanda e, quando a bola rolou, uma verdadeira guerra começou. Ao invés de futebol bem jogado, lances bonitos e gols, o público viu entradas violentas, faltas e mais faltas e um árbitro incapaz de coibir o anti-jogo. 

cristiano reuters 2006
Cristiano vibra: Portugal foi 100% na primeira fase.
 

Só no primeiro tempo foram cinco cartões amarelos e Cristiano Ronaldo acabou fora da partida já aos 34’ por causa de uma solada que levou de Boulahrouz, que cravou as travas de sua chuteira na coxa do português. Detalhe: o holandês foi advertido com o cartão amarelo, sendo que a falta era para vermelho e fruto de uma selvageria absurda. Felipão, à beira do gramado, ficava enlouquecido com a brandeza do árbitro. 

Porém, antes de deixar o campo, Cristiano Ronaldo tocou para Deco pela direita, aos 22’, o meia recebeu e cruzou rasteiro para Pauleta. O centroavante deixou para Maniche, que driblou um, dois e chutou alto sem chances para Van der Sar: 1 a 0. Golaço! E valeu para o jogo inteiro. A partida seguiu selvagem, bruta, e terminou com o seguinte saldo: 16 cartões amarelos (!!) e quatro vermelhos. Foi a partida mais violenta, com maior quantidade de expulsões e de cartões da história das Copas. Um jogo que ficou em segundo plano e ganhou o singelo apelido de Batalha de Nuremberg. Esse duelo foi tão grande que não cabe aqui. Ele tem um capítulo à parte aqui no Imortais. Leia mais clicando aqui.

“Foi uma vitória de heróis, que merecem ser lembrados para sempre. […] O jogo teve a minha cara, a cara da superação. Foi um jogo de Libertadores. É meu papel fazer os jogadores correrem um pouco mais, lutarem um pouco mais. É assim que se vence”. Luiz Felipe Scolari, em entrevista à Folha de S. Paulo, 26 de junho de 2006.

Aquilo não se assemelhou em nada com um jogo da estirpe de uma Copa do Mundo. Parecia uma volta ao passado. Parecia até uma Copa Libertadores. E, de Libertadores, apenas uma pessoa em meio a toda aquela gente entendia: Luiz Felipe Scolari. Com taças conquistadas por Grêmio e Palmeiras, o treinador brasileiro sabia como vencer aquele jogo. E conseguiu. Fez Portugal ganhar na briga e inflou a Holanda a cair nela. Aquela batalha foi fichinha para ele…

Sem título
Capa do caderno especial da Folha na época destacou o título de um dos livros preferidos de Felipão.
 

Depois de sua 11ª vitória seguida em Copas – ele foi o primeiro na história dos Mundiais a conseguir o feito -, Felipão teve mais um repeteco da Euro: a Inglaterra. Outra vez o brasileiro teria o técnico Sven-Göran Eriksson e o English Team pelo caminho em uma fase de quartas de final de Copa, exatamente como na campanha de 2002 com o Brasil. Era um inegável bom presságio, mas o jogo foi bem mais difícil. Sem vários jogadores por causa da Batalha de Nuremberg, Felipão teve que mexer bastante no time. Ele escalou Maniche, Petit e Tiago no meio, mais recuados, fez uma linha ofensiva reduzida, com Cristiano Ronaldo e Figo, e deixou Pauleta na frente. 

A partida terminou 0 a 0 e, após a prorrogação, foi para os pênaltis. Simão, Postiga e Cristiano Ronaldo converteram para Portugal, enquanto Ricardo se agigantou ainda mais e defendeu as cobranças de Lampard, Gerrard e Carragher, garantindo a vitória por 3 a 1. Foi a primeira vez na história das Copas que um goleiro defendeu três cobranças de pênaltis. Depois de 40 anos, Portugal estava de volta a uma semifinal de Copa. Já era um feito histórico, único. Mas seria preciso superar outro rival de peso e que crescia a cada jogo: a França de Zidane.

2006 la france bat le portugal 1 a 0 lors de la demi finale
Foto: Acervo / RTL
 

Se Portugal era muito mais time do que seus rivais anteriores, não era possível afirmar o mesmo naquele duelo semifinal. A França tinha um elenco experiente, com remanescentes do time campeão do mundo em 1998 e o reforço de outros bons jogadores. Havia Barthez no gol, Thuram e Gallas na zaga, Abidal e Sagnol nas laterais, Makélélé e Vieira no meio de campo, Ribéry, Zidane e Malouda como meias e Henry no ataque. Um timaço, que havia destroçado a Espanha nas oitavas – 3 a 1 – e eliminado o Brasil nas quartas – 1 a 0, com baile de Zizou.

Mais descansada do que Portugal – que vinha de duas angustiantes partidas e tinha Figo e Cristiano Ronaldo com desconfortos musculares -, a equipe francesa provou em campo sua força e venceu por 1 a 0, gol de Zidane, de pênalti, aos 33’ do primeiro tempo. Foi a primeira derrota de Felipão em Copas e o fim da invencibilidade de 12 jogos do treinador. Por mais que tenha atacado mais e cruzado 40 bolas para a área francesa, Portugal parou na retaguarda rival assim como havia parado contra a Grécia dois anos antes. Era o ponto fraco do time de Felipão: retrancas. Se um rival conseguisse marcar os principais nomes ofensivos dos lusos e fechar os espaços, o time encarnado não conseguia furar tal bloqueio. O jogo contra a Inglaterra foi um exemplo disso. E contra os gregos lá em 2004 também.

Na disputa pelo terceiro lugar, Portugal sentiu a fadiga, não teve Figo e foi presa fácil para a anfitriã Alemanha, que venceu por 3 a 1. Ao final do Mundial, Portugal ganhou o simbólico prêmio de seleção mais empolgante da Copa, em votação feita no site da FIFA. No All-Star Team, os portugueses Ricardo, Ricardo Carvalho, Maniche e Figo foram eleitos entre os melhores da competição. Felipão ficou no comando de Portugal até 2008, quando se despediu do time após a eliminação nas quartas de final da Eurocopa daquele ano diante da Alemanha.

Big Phil, Uzbequistão e retorno ao Verdão

Em junho de 2008, Felipão surpreendeu o mundo do futebol e foi anunciado como novo técnico do Chelsea, então vice-campeão europeu, o que fez do brasileiro o primeiro a treinar um clube da Premier League na história. Apesar de temer a sagaz imprensa inglesa e ter o histórico de carrasco do English Team, o treinador tinha esperança de realizar um bom trabalho em Londres. Porém, a passagem por lá não foi das melhores e, sem grandes reforços, problemas de relacionamento com alguns jogadores, além do empecilho do idioma, minaram a permanência dele nos Blues. 

“Os resultados não eram ruins, foram bons. Nós éramos segundo colocados no grupo na Champions, terceiro colocado no Campeonato Inglês. Estávamos razoavelmente bem. Quando existiu essa dificuldade, foi numa reunião que fiz com todo mundo e eu não consegui fazer com que eles entendessem a minha mensagem. A partir daí eu tive algum determinado problema e não consegui fazer o que eu sempre fiz nos clubes

Eu não me preparei totalmente. Eu também fui errado. Eu poderia ter me preparado muito melhor, bem melhor, na parte do inglês principalmente. Não sei se ia fluir como a gente fala o português, mas eu poderia estar melhor preparado. Não no aspecto futebol, mas no aspecto língua”. – Felipão, em entrevista reproduzida no globosporte.com, abril de 2025.

felipao chelsea

Um dos pontos que deixou a torcida impaciente foi o desempenho nos clássicos. Em cinco jogos contra os grandes clubes ingleses, ele conquistou apenas um ponto, no empate com o Manchester United na quinta rodada. Depois, foram duas derrotas para o Liverpool, uma para o Arsenal, e outra para o próprio Manchester United. Como indenização por quebra de contrato, Scolari teria recebido 15 milhões de libras.

Depois de oito meses no Chelsea, Felipão foi trabalhar no Uzbequistão, onde treinou o Bunyodkor e levantou o título do campeonato local de 2009 com uma sequência de 23 vitórias seguidas. A trajetória do brasileiro na Ásia durou até 2010, quando retornou ao Brasil para comandar o Palmeiras, que tentava se reencontrar há anos após o fim da parceria com a Parmalat, que lhe levou à Série B em 2002 e a apenas um título – o Campeonato Paulista de 2008. 

Eram tempos de vacas magras no Palestra Itália e, com um elenco bem limitado e apenas um jogador acima da média – Marcos Assunção -, Felipão teve que fazer mágica para conseguir extrair alguma coisa do time. Em sua primeira temporada completa, Felipão não teve grandes resultados. No Paulistão, foi eliminado nos pênaltis na semifinal, para o Corinthians. No Brasileirão, terminou apenas na 11ª posição e teve que se contentar com a vaga na Copa Sul-Americana. Na Copa do Brasil, sofreu uma eliminação vexatória para o Coritiba, ao levar uma goleada de 6 a 0 no Couto Pereira. E, na Copa Sul-Americana, caiu diante do Vasco na fase preliminar por causa do critério do gol qualificado.

A quarta Copa do Brasil e o retorno à seleção

Em 2012, o elenco seguiu bem modesto, mas Felipão conseguiu mais um feito impressionante para sua carreira: venceu sua quarta Copa do Brasil, de novo de maneira invicta, e com vingança pra cima do Coritiba, algoz de 2011, na grande final. Pelo caminho, o Verdão superou Coruripe, Horizonte, Paraná, Athletico-PR e Grêmio até encontrar o time de Marcelo Oliveira. No duelo de ida, em Barueri, o Palmeiras venceu por 2 a 0 – gols de Valdivia e Thiago Heleno – e levou a vantagem do empate para Curitiba, onde o Coxa armou seu “inferno verde” nas arquibancadas. Só que verde é uma cor que o Palmeiras jamais temeu. E, após levar 1 a 0 no segundo tempo, Betinho empatou e o agregado de 3 a 1 deu o título nacional ao Verdão.

felipao palmeiras campeao copadobrasil rib 41024
Foto: Marcos Riboli
 

Com o grupo na mão, Felipão mais uma vez soube motivar seus atletas e, jogando com raça, conseguiu superar adversários superiores e favoritos – como o Grêmio, na semifinal, e o próprio Coritiba, que vivia grande fase – para ficar com o troféu. Porém, pouco depois, a fragilidade do elenco alviverde começou a cobrar um alto preço em um torneio hostil e longo como o Campeonato Brasileiro. Na penúltima colocação e a sete pontos do primeiro clube longe do Z4, o Palmeiras vivia apuros no mês de setembro. E, por isso, Felipão acabou demitido. A diretoria acreditou que Felipão perdeu o controle do vestiário e ele já não era respeitado como antes. De fato, o treinador já dava mostras de que não era mais o mesmo na época. 

Meses depois, o Palmeiras acabou rebaixado e Felipão teve parcela de culpa. O elenco era péssimo, claro, mas ele poderia ter usado o embalo do título da Copa do Brasil para somar pontos e não acreditar que “depois a gente ganha”. Com 64 anos, Felipão já tinha os principais títulos que um técnico poderia ter, tinha o maior de todos (Copa do Mundo) e já podia se aposentar como uma lenda. Porém, ele ainda parecia inquieto. E, em novembro de 2012, aceitou retornar à seleção brasileira, outra vez em crise e às vésperas de ser anfitriã na Copa do Mundo de 2014. Com Carlos Alberto Parreira como auxiliar, Felipão se apoiava na história e em sua mística construída lá em 2002 para celebrar o hexa em casa. Só que nada disso iria acontecer…

O título da ilusão

Mantendo a sina de estreias por seleção, Felipão começou perdendo para a Inglaterra por 2 a 1 sua segunda passagem pelo Brasil. Até aí, tudo bem, pois seus dois últimos trabalhos – Brasil e Portugal – também começaram com derrota e foram ótimos. E, jogo a jogo, o treinador conseguiu montar uma equipe razoavelmente boa e que disputou a Copa das Confederações de 2013, em casa, com a esperança de ser campeã. Na fase de grupos, o time brasileiro se classificou em primeiro lugar após vitórias sobre Japão (3 a 0), México (2 a 0) e Itália (4 a 2), em partidas com boas atuações coletivas e brilho da dupla Fred – recém-campeão brasileiro pelo Fluminense – e Neymar – prestes a jogar no Barcelona.

felipaocopa1budamendesgetty
Felipão comandou poucos treinos táticos e técnicos com os titulares na Copa do Mundo. Foto: Buda Mendes / Getty Images
 

Na semifinal, o Brasil derrotou o Uruguai por 2 a 1 – gols de Paulinho e Fred – e foi para a final, no Maracanã, contra a badalada Espanha, bicampeã da Europa e campeã mundial. Era a final dos sonhos e muito esperada pelos torcedores. E, em campo, o Brasil venceu por categóricos 3 a 0, com dois gols de Fred e um de Neymar, e levantou mais um título para sua coleção. Sob os gritos de “Ôoooo, o campeão voltou! O campeão voltou!”, a seleção entrou imediatamente para o rol dos favoritos ao título da Copa do Mundo, algo que Felipão havia dito ainda na sua coletiva de apresentação, lá no final de 2012: 

“Nós temos obrigação sim de ganhar o título em casa. Não somos favoritos ainda, mas vamos chegar como favoritos. E vamos trabalhar para isso”.

O técnico se mostrou surpreso com a vitória tão elástica sobre a Espanha. “Não estava previsto, é um caminho que percorremos. A gente sabe que vem um campeonato muito mais forte que esse, embora tivesse quatro campeões do mundo aqui. É um caminho que vamos trilhar com mais confiança”. O problema é que aquela conquista foi uma ilusão. A Espanha já vinha em queda e sua geração estava à beira do fim – confirmado na eliminação na fase de grupos da Copa. E o elenco brasileiro era muito frágil e sem grandes peças de reposição à altura dos titulares, que já não eram grande coisa.

Sem disputar as Eliminatórias por ser o país-sede, o Brasil só fez amistosos antes do Mundial e não enfrentou nenhuma seleção forte o suficiente – podemos destacar apenas Suíça (derrota por 1 a 0), Portugal (vitória por 3 a 1) e Chile (vitória por 2 a 1). Na convocação, Felipão usou como base o elenco da Copa das Confederações e deu de ombros aos jogadores experientes – dos 23, 17 iriam disputar sua primeira Copa. Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Robinho acabaram de fora. Era uma equipe jovem, inexperiente e que ainda tinha o peso de jogar um Mundial dentro de casa, algo que nem sempre é garantia de tranquilidade. “Desenvolver esses jovens é mais fácil do que trabalhar com aqueles veteranos que já estão em fim de carreira e não têm ambição”, disse Felipão na época, sobre a ausência dos veteranos.

Não que esse trio iria resolver, longe disso, mas pelo menos Kaká, que estava jogando bem no Milan, merecia um lugar e poderia entrar no decorrer de alguns jogos para dar mais apoio e contribuir com sua vivência de três Copas e incontáveis jogos decisivos. Mas o que faltava à seleção era material humano de qualidade. Não era uma safra boa, alguns atletas cometiam erros táticos demais e não rendiam nada com a camisa da seleção – a começar pelos laterais Daniel Alves e Marcelo, que sempre jogaram melhor por seus clubes do que pelo Brasil. Veja os convocados:

  • Goleiros: Jefferson (Botafogo), Júlio César (Toronto FC-CAN) e Victor (Atlético Mineiro); 
  • Zagueiros: Thiago Silva (Paris Saint-Germain-FRA), David Luiz (Chelsea-ING), Dante (Bayern München-ALE) e Henrique (Napoli-ITA); 
  • Laterais: Daniel Alves (Barcelona-ESP), Marcelo (Real Madrid-ESP), Maxwell (Paris Saint-Germain-FRA) e Maicon (Roma-ITA); 
  • Meio-campistas: Fernandinho (Manchester City-ING), Paulinho (Tottenham-ING), Oscar (Chelsea-ING), Ramires (Chelsea-ING), Luiz Gustavo (Wolfsburg-ALE), Hernanes (Lazio-ITA) e Willian (Chelsea-ING); 
  • Atacantes: Hulk (Zenit-RUS), Fred (Fluminense), Neymar (Barcelona-ESP), Bernard (Shakhtar Donetsk-UCR) e Jô (Atlético Mineiro).

Sejamos francos: não dava para ser campeão do mundo com um elenco desse…

7 a 1: A mancha

Quando a Copa começou, a seleção venceu os croatas graças a uma providencial ajuda do árbitro, empatou sem gols com o México e venceu a fraquíssima seleção de Camarões (e ainda levou um gol dos africanos). A equipe canarinho jogava um futebol medíocre, sem brilho e sem nenhuma organização tática. Neymar era o único jogador considerado craque no elenco, mas só havia feito jus ao nome nos jogos em que não recebeu marcação cerrada – contra Croácia e Camarões. Nas oitavas de final, um exemplo claro do despreparo psicológico daquele time: empate em 1 a 1 contra o Chile de Sampaoli, prorrogação e quase eliminação quando os chilenos mandaram uma bola na trave no finalzinho do tempo extra.

felipaoolhagetty
Foto: Getty Images
 

Mesmo com o apoio da torcida, os brasileiros desabaram no choro antes da disputa de pênaltis e mostraram para todo o mundo a fragilidade emocional que aquela seleção (?) tinha. Nos pênaltis, Júlio César fez sua parte e deu a vaga para o Brasil. Nas quartas de final, a equipe encarou a sensação Colômbia, que não confiou em si própria e acabou derrotada por 2 a 1, embora tenha levado perigo nos minutos finais. Naquele jogo, Neymar sofreu uma pancada de Zuñiga que o tirou do Mundial, além de Thiago Silva ter levado o segundo amarelo após uma falta boba e desnecessária. 

Falando em faltas, o que mais aquele Brasil fazia era faltas, numa clara incapacidade de roubar bolas dos adversários. Sem sua principal estrela (que se mostrou apagada nos dois jogos eliminatórios por ter recebido a marcação devida), a equipe, ao invés de chamar a responsabilidade e buscar alternativas para vencer seu próximo adversário, a Alemanha, começou uma verdadeira procissão pela saúde do astro, com mensagens, vídeos e várias ações de puro marketing que até parecia que Neymar nunca mais iria voltar a jogar – ou até que tinha partido para a vida eterna! Era simplesmente patético. Os jogadores apareciam mais nas redes sociais e em fotos do que no campo de treinamento, enquanto a Alemanha treinava e se preparava para um jogo de tamanha importância que era uma semifinal de Copa do Mundo. 

braale4

Tudo isso, o velho e bom Felipão de outrora jamais iria permitir. Ele iria fechar o grupo, criar uma motivação extra, inventar alguma história, escolher um jogador para ser o predestinado da semifinal. Mas ele não fez nada disso. Armou um time ainda pior, com Dante na zaga e Bernard no ataque, além da manutenção do esquema de jogo fraco no meio de campo e que dava total liberdade para o rival tocar a bola e pensar, algo que nunca este mesmo Felipão faria em seus tempos de treinador vitorioso e copeiro. 

Bem, o resto dessa história todo mundo já sabe: Alemanha 7×1 Brasil, a maior derrota da seleção brasileira em Copas e o maior vexame canarinho em todos os tempos. Essa derrota, pela elasticidade e pelo jeito que aconteceu – em casa, em plena semifinal, com cinco gols apenas no primeiro tempo, etc, etc – deixou profundas marcas em Felipão. E ele, sozinho, acabou muito estigmatizado por essa derrota, algo que sempre o magoou profundamente no “pior dia de sua vida”, segundo o próprio. Em março de 2020, o treinador falou ao The Guardian (UK) sobre o revés.

“Quando chegamos à semifinal, tivemos alguns momentos de desequilíbrio. E nós perdemos. (Nossos erros) aconteceram e foram muito bem aproveitados pela Alemanha. Nós perdemos porque não jogamos bem, porque tivemos momentos de falta de concentração. Perdemos por causa da qualidade da Alemanha. Perdemos porque não tivemos a oportunidade de aproveitar os pontos fracos da Alemanha. 

[…] Eu fui – e sou – a pessoa mais associada com esse desastre. Quando o Brasil ganhou em 2002, eu não fui o maior herói, todos fomos heróis. Em 2014, esperava que todos nós dividíssemos (a culpa), que a imprensa reconhecesse que o Brasil perdeu. Mas não foi o que aconteceu”.

ale bra 2014
Os times em campo: com todos os espaços possíveis, a Alemanha aplicou seu jogo coletivo e colocou o Brasil na roda.
 
Extra (Brasil) e O Globo (Brasil).
 

Um ano depois, ao programa Grande Círculo, do SporTV, ele ainda lembrou que o ambiente era bem diferente do que em 2002.

“A gente ia manobrando, mas não tínhamos o mesmo ambiente de 2002. Eu acho que nós colocamos responsabilidade demais a partir do momento em que ganhamos a Copa das Confederações. Nós todos achávamos que aquele caminho estava sendo bem trilhado, tínhamos todas as condições e que independentemente de uma ou outra coisa estaríamos disputando o título de qualquer forma. Para chegar à semifinal foi difícil, empatamos um jogo que tivemos que ganhar nos pênaltis (Chile). Mas a gente chegou à semifinal que se traduziu de forma que nem posso imaginar… Nem imagino até hoje como a gente perdeu daquela forma. Não tem cabimento nenhum, nem daqui 100 anos vamos ter um momento errado como nós nos portamos no jogo”.

“Em 2014, não conseguimos esse entrosamento (de 2002). Mesmo em 2014, quando teve uma situação crítica que fomos montar uma carta, um comunicado para a imprensa, houve discordâncias muito grandes entre jogadores no grupo. Não conseguimos aquela unidade de pensamento muitas vezes porque jogando aqui no Brasil tínhamos conhecimento e ouvíamos pessoas que não precisávamos ouvir. Lá fora não foi assim.

Foi um dia que nos reunimos e falamos que tínhamos que montar uma situação nova, que nós queríamos colocar para determinada pessoa que comandasse isso e houve discordâncias entre três ou quatro pessoas. Já teve gente de fora interferindo dizendo que se fosse isso não concordava. Jogamos no Brasil em situação que muitas vezes não é benéfica para a seleção brasileira. Qualquer campeonato disputado fora temos mais possibilidades ainda pelo ambiente que se forma do que aqui dentro do Brasil”.

O Brasil terminou a Copa em quarto lugar – perdeu o bronze para a Holanda por 3 a 0 – e se despediu de maneira melancólica de um Mundial cercado de expectativa, mas que acabou em pesadelo. Felipão jamais merecia aquela derrota. Tinha uma carreira brilhante, uma reputação. Mas aquele 7 a 1 virou uma mancha inevitável, daquelas inesquecíveis e lastimáveis. Felipão errou. Deveria ter mudado o esquema, se fechar com três zagueiros se fosse preciso, tentar uma prorrogação, entender que seu time era inferior e poderia ser engolido. Mas não fez nada disso. No entanto, temos que salientar que ele entrou para o “clube” dos grandes treinadores que também tiveram manchas em suas carreiras, claro que cada uma com sua devida proporção. 

  • Gusztáv Sebes, lendário técnico da Hungria na Copa de 1954: errou na final ao escalar um baleado Puskás e em não jogar de maneira mais contida e retraída diante da Alemanha quando vencia por 2 a 0. O time germânico aproveitou e virou o jogo para 3 a 2, sacramentando o Milagre de Berna; 
  • Rinus Michels, técnico da Holanda na Copa de 1974: errou em não liquidar a final contra a Alemanha quando vencia por 1 a 0 com apenas um minuto de jogo e preferiu ficar tocando a bola e irritando os alemães, que usaram aquele ar esnobe de time que acha que está com o jogo na mão para virar a partida e ficar com a Copa;
  • Mário Zagallo, o eterno Velho Lobo: errou ao escalar Ronaldo na final da Copa de 1998 após o enorme problema que o craque sofreu horas antes da partida. Deveria ter optado por outro jogador e por outra estratégia, além de designar um marcador mais alto para Zidane nas bolas aéreas. O fim, sabemos: 3 a 0 e França campeã.

Esses foram apenas alguns exemplos em Copas de grandes técnicos que erraram, assim como Felipão errou. Não existe e nunca existirá um treinador perfeito, infalível. E ficamos sabendo, da pior maneira possível, que Felipão também podia falhar. Aquela foi a última Copa do treinador, que conseguiu a proeza de disputar três semifinais de Copas em três participações, com um título (2002) e dois quartos lugares (2006 e 2014).

Últimos anos, últimas taças e aposentadoria

Muitos pensaram que Felipão nunca mais iria pisar em um gramado novamente após a Copa de 2014. Porém, já em julho daquele ano (!), o gaúcho foi apresentado como técnico do Grêmio, um anúncio surpreendente. O técnico só aceitou por causa do velho amigo Fábio Koff, que o demoveu da ideia de ficar parado por tempo indeterminado. “Está conosco um homem que ajudou a construir as páginas mais brilhantes do nosso clube. Aqui está um exemplo de cidadão e caráter. Cada torcedor do Grêmio é um torcedor particular do Luiz Felipe Scolari”, disse Koff na época. Mas a trajetória do técnico após 18 anos foi melancólica: nenhum título e até saída para o vestiário antes mesmo do final de um jogo em partida contra o Veranópolis, em casa, pelo Campeonato Gaúcho de 2015. Com seu time perdendo por 1 a 0, Felipão deixou o banco e foi para os vestiários.

lucas uebel gremio felipao 2014
Foto: Lucas Uebel / Grêmio
 

“Me expulsei. Mais vergonha do que isso, impossível passar. A equipe não apresenta nada daquilo que a gente faz no treinamento. Não adianta ficar enganando a torcida do Grêmio. Não tinha mais o que fazer, fui embora para o vestiário. Acabou o assunto. Não criamos nada, os adversários vêm aqui e tomam conta do jogo. Não aproximamos. Faltava 3 ou 4 minutos e fui embora. Para não tomar uma atitude errada e esfriar a cabeça”, disse o treinador no pós-jogo.

Felipão deixou o Grêmio em maio de 2015 e, no mês seguinte, foi treinar o Guangzhou Evergrande, da China, em mais uma de suas aventuras no exterior. Com alguns brasileiros no elenco como Paulinho, Elkeson e Ricardo Goulart, Felipão conseguiu levantar títulos de expressão, com destaque para a Liga dos Campeões da Ásia, após empate sem gols no primeiro jogo e vitória por 1 a 0 na finalíssima diante do Al-Ahli-EAU. 

felipao4
Felipão colecionou títulos na China e se divertiu.
 

Em 2018, o treinador retornou ao Brasil para uma última passagem pelo Palmeiras, que terminou com final feliz: título do Campeonato Brasileiro, o torneio nacional que escapou de suas mãos lá em 1997. O Verdão terminou com 80 pontos, oito de vantagem sobre o segundo colocado (Flamengo), teve o melhor ataque do campeonato (64 gols) e a melhor defesa (26 gols sofridos). Ele conseguiu permanecer invicto nos 22 jogos que comandou o Verdão na competição, com 16 vitórias e seis empates. O título foi um “cala a boca” do treinador para os críticos na época.

“As pessoas pensam que aquilo (7 a 1) vai ficar marcado para o resto da vida, mas não vai. Trabalhei tanto tempo como jogador e técnico, que sei discernir os momentos bons e ruins. Aquele foi ruim. Não sou ultrapassado. Não sou melhor nem pior. Sou um bom técnico, com métodos iguais aos outros. Vejo as pessoas falando que meus métodos de treinamento estão ultrapassados, mas, desde que cheguei ao Palmeiras, ninguém vê meus treinos. Deixa falar. O povo brasileiro me trata com um carinho que vocês não imaginam”. Felipão, em entrevista publicada na ESPN, 26 de novembro de 2018

felipao5c07344da0d42
Felipão faz a festa com o título brasileiro de 2018. Foto: César Greco
 

No ano seguinte, o técnico não conseguiu ir bem na Libertadores, foi eliminado pelo Grêmio e, após uma derrota por 3 a 0 para o Flamengo de Jorge Jesus, foi demitido. Em 2020, retornou ao Cruzeiro, em apuros na Segundona, com o objetivo de evitar a queda do clube para a Série C. Ele conseguiu manter a Raposa na Série B, mas deixou o clube já em janeiro de 2021 para outra passagem curta pelo Grêmio, de novo sem sucesso. Em 2022, aceitou o desafio de comandar o Athletico-PR e levou o Furacão a uma decisão de Libertadores depois de 17 anos, com destaque para a classificação diante do Palmeiras de Abel Ferreira, na semifinal, após vitória por 1 a 0 na ida e empate em 2 a 2 na volta.

Na decisão, porém, o Furacão perdeu para o Flamengo e ficou com o vice, assim como em 2005. Felipão anunciou após a competição sua aposentaria do futebol, voltou atrás brevemente em 2023 para dirigir o Atlético-MG (sem sucesso) e se aposentou definitivamente em 2024. No ano seguinte, assumiu o cargo de coordenador técnico do Grêmio, provando que não consegue ficar longe do esporte que lhe deu tudo. 

felipao athletico62c18e62a2949
Em 2022, Felipão conseguiu levar o Furacão até a final da Libertadores. Foto: Reprodução/Athletico
 

De Passo Fundo a Yokohama, Felipão conseguiu feitos históricos, inimagináveis e heroicos. Formou esquadrões, forjou ídolos, criou novos torcedores, fãs. Foi o carrancudo que despistava sobre sua escalação, que criava caso, que bufava quando não gostava de algo. Foi um dos mais motivadores técnicos de todos os tempos. E também um dos mais vencedores. Podem dizer tudo e qualquer coisa, mas Felipão foi tudo e muito mais. Um técnico imortal.

Números de destaque:

  • Comandou a Seleção Brasileira em 75 jogos. Foram 58 vitórias, 7 empates, 10 derrotas, 125 gols marcados e 42 gols sofridos.
  • Comandou a Seleção Portuguesa em 74 jogos. Foram 42 vitórias, 18 empates, 14 derrotas, 129 gols marcados e 53 gols sofridos.
  • Comandou o Grêmio em 324 jogos. Foram 150 vitórias, 81 empates, 93 derrotas, 555 gols marcados e 349 gols sofridos.
  • Comandou o Palmeiras em 485 jogos. Foram 238 vitórias, 132 empates, 115 derrotas, 709 gols marcados e 461 gols sofridos.
  • Foram 1647 jogos, 817 vitórias, 450 empates, 380 derrotas, 2494 gols marcados, 1506 gols sofridos na carreira (clubes + seleção).

Licença Creative Commons
O trabalho Imortais do Futebol – textos do blog de Imortais do Futebol foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em imortaisdofutebol.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença.

1 COMENTÁRIO

  1. Felipão no auge era imparável como bem mostra seus títulos mas a decadência chega pra todos e assim ele se afundou com aquela barca furada em 2014 e hoje o título mundial de 2002 está tão distante que a vergonha do Mineirão virou uma marca indelével associada a ele mas faz parte e aquele Grêmio de 93-96 foi o time fora do eixo Rio São Paulo mais difícil que eu vi meu Corinthians enfrentar eram verdadeiras guerras lá e aqui.

Comentários encerrados.

Artigos populares