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Técnico Imortal – Vanderlei Luxemburgo

Nascimento: 10 de maio de 1952, em Nova Iguaçu (RJ), Brasil.

Times que treinou: Campo Grande-BRA (1983), Rio Branco (ES)-BRA (1983), Friburguense-BRA (1984), Al-Ittihad-ARS (1984), Democrata-BRA (1985), America-BRA (1987), Al-Shabab-EAU (1987-1988), Bragantino-BRA (1989-1990), Flamengo-BRA (1991, 1994-1995, 2010-2012 e 2014-2015), Guarani-BRA (1991), Ponte Preta-BRA (1992-1993), Palmeiras-BRA (1993-1994, 1995-1996, 2002, 2008-2009 e 2020), Paraná Clube-BRA (1995), Santos-BRA (1996-1997, 2004, 2006-2007 e 2009), Corinthians-BRA (1997-1999, 2001 e 2023), Seleção Brasileira (1998-2000), Cruzeiro-BRA (2002-2004, 2015 e 2021), Real Madrid-ESP (2005), Atlético Mineiro-BRA (2010), Grêmio-BRA (2012-2013), Fluminense-BRA (2013), Tianjin Quanjian-CHN (2016), Sport-BRA (2017) e Vasco-BRA (2019 e 2021).

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Capixaba (1983) pelo Rio Branco.

1 Campeonato Brasileiro- Série B (1989) e 1 Campeonato Paulista (1990) pelo Bragantino.

2 Campeonatos Brasileiros (1993 e 1994), 1 Torneio Rio-SP (1993) e 5 Campeonatos Paulistas (1993, 1994, 1996, 2008 e 2020) pelo Palmeiras.

1 Campeonato Brasileiro (1998) e 1 Campeonato Paulista (2001) pelo Corinthians.

1 Campeonato Brasileiro (2003), 1 Copa do Brasil (2003) e 1 Campeonato Mineiro (2003) pelo Cruzeiro.

1 Campeonato Brasileiro (2004), 2 Campeonatos Paulistas (2006 e 2007) e 1 Torneio Rio-SP (1997) pelo Santos.

1 Campeonato Mineiro (2010) pelo Atlético-MG.

1 Campeonato Carioca (2011) pelo Flamengo.

1 Campeonato Pernambucano (2017) pelo Sport.

Principal título por seleção: 1 Copa América (1999) pelo Brasil.

Principais títulos individuais: 

Melhor técnico do Mundo pela IFFHS: 1999

Melhor técnico do Campeonato Paulista: 1994, 1997, 1998, 2007, 2008 e 2020

Melhor técnico do Campeonato Mineiro: 2010

Melhor técnico do Campeonato Carioca: 2011

Recordista em títulos na história do Campeonato Brasileiro: 5 troféus (1993, 1994, 1998, 2003 e 2004)

Recordista em títulos na história do Campeonato Paulista: 9 troféus (1990, 1993, 1994, 1996, 2001, 2006, 2007, 2008 e 2020)

 

“O Pofexô”

Por Guilherme Diniz

Excêntrico, moderno, polêmico, visionário. E, acima de tudo, vencedor. Ele sempre foi contestado, mas muito elogiado. Montou alguns dos maiores esquadrões do futebol brasileiro nos anos 1990 e início dos anos 2000. Levou um desconhecido clube do interior ao título do Campeonato Paulista. Comandou uma série de estrelas no super Palmeiras da Parmalat. Quebrou recordes com o mesmo Palmeiras com o ataque dos 100 gols do Paulistão de 1996, tido até hoje como o maior time da história do torneio. Criou o “Todo-Poderoso Timão” que começou a vencer quase tudo no final dos anos 1990. Chegou ao comando da seleção brasileira e venceu uma Copa América. 

Venceu a primeira Tríplice Coroa da era moderna do futebol nacional, algo quase impossível por décadas (e dificílimo até hoje). Levantou outro título brasileiro, com o Santos, e chegou ao recorde de cinco troféus na competição. Rompeu fronteiras e se tornou o primeiro – e até hoje único – técnico brasileiro a dirigir o supremo Real Madrid – e em plena Era Galáctica! Quando todos achavam que ele estava acabado, venceu mais títulos e aumentou ainda mais sua coleção.

Foi, sem dúvida, um dos mais emblemáticos técnicos do nosso futebol. E um ícone. Vanderlei Luxemburgo da Silva, ou simplesmente Luxemburgo, construiu uma carreira recheada de títulos, histórias, polêmicas, anedotas, intrigas e contos que renderiam séries, livros e até filmes. Com fãs e críticos, Luxemburgo criou um jeito único de comandar seus times e sempre priorizou o futebol bem jogado, o toque de bola e a dominância sobre o adversário. Enfrentar seus times era tarefa para poucos e, se sua equipe gostasse do jogo, ia pra cima e não hesitava em golear ou quebrar recordes ao longo de uma competição. Não foi à toa que sua popularidade ganhou o mundo e ele chegou aonde poucos poderiam imaginar que chegaria. É hora de relembrar a carreira do eterno Pofexô.

Melhor ir para as pranchetas

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Como jogador, Luxa não conseguiu o brilho que esperava e teve que encerrar a carreira por causa de uma grave lesão.
 

Na juventude, Luxemburgo foi jogador de futebol e, flamenguista de coração, começou exatamente nas categorias de base do clube da Gávea nos anos 1970. Atuando como lateral-esquerdo, jogou nos juvenis em 1971 e subiu aos profissionais em 1972. O jovem era dedicado, mas não teve muitas chances no time principal por causa da ascensão de um certo Júnior, que seria titular absoluto do rubro-negro durante muito tempo e um expoente da era de ouro dos anos 1980. Com isso, Vanderlei acabou frequentando mais o banco de reservas do que o campo e deixou o Fla em 1978 para jogar no Internacional. Em seguida, passou um tempo no Botafogo até sofrer uma grave lesão no joelho que o fez abandonar a carreira de futebolista precocemente.

Apaixonado por esportes, Luxa decidiu cursar faculdade de Educação Física na Universidade Castelo Branco, expandindo seus estudos para uma pós-graduação como técnico de futebol em 1983. Antes, em 1982, conseguiu uma oportunidade como auxiliar técnico de Antônio Lopes no Vasco, onde ajudou o cruzmaltino a ser campeão carioca curiosamente em cima do rubro-negro. Aquele período como auxiliar, na visão do próprio Luxemburgo, foi fundamental para ele ganhar experiência e aprender como seria sua carreira dali para frente.

“Com liberdade de fazer aquilo que eu queria fazer, ele (Antônio Lopes) falava para realizar um treinamento e eu fazia. Um ex-jogador de futebol tem de se libertar do ex-jogador. Se sair de jogador para técnico, você bate na trave. O tempo em que fiquei de assistente do Lopes foi muito bom para me desvencilhar. Aí eu falei para ele que queria virar técnico, tomar as porradas que ele tomava”. – Vanderlei Luxemburgo, em entrevista ao Globoesporte.com, 09 de maio de 2019.

Já em 1983, aos 31 anos, Luxemburgo iniciou sua trajetória como técnico e comandou o Campo Grande, da Zona Oeste do Rio. De cabelo black power, ele comandou o promissor time carioca no Brasileiro da Série A – os alvinegros tinham vencido a Série B de 1982. O começo foi difícil, pois Vanderlei já demonstrou sua personalidade forte, a cobrança pra cima dos mais jovens e mudanças. Por outro lado, não hesitava em pedir conselhos aos mais experientes. 

“Ele sempre cobrava muito mais dos jogadores mais novos. Dizia sempre que a gente é que tinha que dar um algo mais”, comentou Pingo, revelação do Campo Grande na temporada 1982 e craque daquele time, em entrevista à Folha de S.Paulo, em 14 de dezembro de 2003.

“Ele cobrava muito mesmo, e acho que por isso se tornou um vencedor. Ele era um cara humilde e tratava bem a gente. Acho até natural que na época de Campo Grande ele tenha feitos alguns inimigos ocultos, pois quem está fora quer entrar. Mas esse era o jeito dele”, afirmou o ex-meia Lulinha.

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Luxemburgo (à dir.) no Campo Grande. Foto: Divulgação / Campo Grande
 

Nos treinamentos, Luxemburgo exigia muita dedicação, responsabilidade e entrega. Por isso, acabava arrumando desavenças com jogadores que não aprovavam seu estilo de treino e também com dirigentes. No Brasileiro de 1983, Luxemburgo durou oito partidas, com três empates, três derrotas e duas vitórias. Depois de terminar a primeira fase em 4º lugar, o Campo Grande teria de disputar uma repescagem, mas uma desavença com o vice-presidente Constantino Magalhães selou a saída do técnico do clube. 

“O Vanderlei Luxemburgo nunca admitiu interferência na escalação dos jogadores. Quando tentaram dar os palpites, ele não aguentou. Achou melhor sair e deixar o lugar para outro”, comentou o ex-volante Israel à Folha. 

Foi naqueles anos 1980 que Luxemburgo conheceu o preparador físico Antônio Mello e o assistente técnico Paulo César Gusmão, que seriam seus amigos e parceiros por muitos anos – Paulo César, inclusive, foi terceiro goleiro do Campo Grande na época em que Luxa era treinador. Depois de sua breve passagem pelo clube alvinegro, Luxemburgo foi treinar o Rio Branco, do Espírito Santo, e, apesar de sofrer com as críticas da imprensa e da torcida, deu a volta por cima e levou o Capa Preta ao título estadual, com destaque para as goleadas por 3 a 0 e 4 a 0 no Ibiraçu e 4 a 0 no Guarapari. Na final, contra a Desportiva, o Rio Branco venceu na casa do rival a finalíssima por 1 a 0 e ficou com o título, o primeiro de Luxemburgo como treinador. 

Do “sumiço” à vitrine Caipira

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Luxemburgo recusou treinar os juniores do Braga para assumir o time titular do clube naquele final de anos 1980. Sorte do Bragantino.
 

Depois do título capixaba, Luxemburgo treinou o Friburguense e foi parar no futebol árabe em 1984, até retornar ao Brasil em 1986 e voltar ao mundo árabe em 1987. Ainda sem um norte, o treinador precisava fincar pé em um clube que pudesse lhe oferecer um projeto duradouro, pois ele ainda não tinha conseguido emendar duas temporadas seguidas, nem mesmo uma completa e sólida, em uma só equipe. Foi então que, em meados de 1988 e início de 1989, Luxemburgo recebeu uma proposta de Nabi Abi Chedid, presidente do Bragantino, que conseguiu levar o treinador para o interior paulista. A princípio, Abi Chedid queria que Luxa treinasse o time de juniores, mas o técnico não aceitou tal função, pois desejava o time principal, que já contava na época com Mauro Silva, João Santos e Gil Baiano.

O primeiro grande desafio de Luxa foi no Campeonato Brasileiro da Série B, que contava na época com impressionantes 96 clubes (!), mas pelo menos não exigia tantos jogos do time que chegasse até a final – no máximo 20 partidas. Na primeira fase, o time paulista passou invicto com oito vitórias e dois empates e, na segunda fase, eliminou a Catanduvense com triunfo por 2 a 1 no placar agregado. Na terceira fase, duas vitórias sobre o Juventus (1 a 0 e 3 a 2) e, nas quartas de final, após perder por 1 a 0 para o Criciúma, o Bragantino aplicou 3 a 0 em casa e foi para a semifinal, onde encarou o Remo. Após dois jogos equilibrados que terminaram 0 a 0 tanto em Belém quanto em Bragança, a disputa foi para os pênaltis e o time carijó venceu por 4 a 1.

Luxemburgo (centro) e Marco Aurélio Cunha (à dir.) no Bragantino. Foto: Foto: Acervo/Gazeta Press
 

Na grande final, contra o São José-SP, o Bragantino se impôs e venceu tanto fora de casa (1 a 0), quanto em casa (2 a 1), e ficou com o título inédito da Segundona. No jogo decisivo, o time de Luxa entrou em campo com Marcelo Martelotte; Gil Baiano, Júnior, Nei e Biro-Biro; Mauro Silva, Ivair e Gatãozinho; Valmir, Mário (Tiba) e Luís Müller (Daniel Frasson). Em 20 jogos, o Bragantino venceu 14, empatou cinco e perdeu apenas um, com 29 gols marcados e oito gols sofridos.

A Linguiça Mecânica

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Apesar do título de 1989, o Bragantino só ganhou os holofotes em 1990, quando Luxemburgo fez um trabalho magistral e conduziu o time do interior ao título do Campeonato Paulista, algo dificílimo na época, pois Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo raramente davam chances aos rivais – apesar de o Verdão e o Peixe viverem angustiantes jejuns. O trabalho de Luxemburgo não se resumiu apenas ao campo de jogo. Com seu carro, por exemplo, ele buscava tijolos e materiais de construção e levava ao clube para ajudar na obra de uma sala para o departamento médico, que tinha como reforço Marco Aurélio Cunha, que marcou época no São Paulo dos anos 2000 – o célebre fisioterapeuta Luiz Rosan também foi contratado por interferência de Luxemburgo. O técnico também controlava os horários e qualidade das refeições, pedia materiais esportivos de qualidade e reclamava até das bolas de jogo. 

Muito exigente, Luxa não tolerava atrasos, inspirava seus atletas a vencer sempre e não se intimidava com nenhum adversário. Com a mesma base do ano anterior, ele criou um time compacto, que tocava muito bem a bola e não deixava o adversário jogar, principalmente no Estádio Marcelo Stéfani, casa do clube na época, onde o Bragantino era praticamente imbatível. Em 37 jogos, o time carijó venceu 18, empatou 12, perdeu sete, marcou 43 gols e sofreu apenas 22. Na final, o time encarou o Novorizontino, também do interior, o que deu à final o nome de Final Caipira. O Bragantino empatou os dois jogos e, por ter melhor campanha, foi campeão em um Marcelo Stéfani lotado com mais de 15 mil pessoas.

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Por conta do estilo de jogo eficiente, o time de Luxemburgo ficou conhecido como “Linguiça Mecânica”, em alusão à Holanda de 1974, e também à fama da cidade com relação às linguiças tão tradicionais por ali. Vencer um campeonato tão importante na época como o Paulistão deu à Luxemburgo a fama e o reconhecimento que ele tanto buscava. Foi no Bragantino que o técnico passou a fazer uso da motivação e elementos específicos para inflar seus atletas antes e durante os jogos. Suas preleções eram notáveis, com trechos de entrevistas de adversários, frases de efeito e muito combustível para feitos extraordinários. Em campo, o treinador não poupava nos berros e, se percebia um atleta fora de sintonia ou jogando mal, não pensava duas vezes e tirava ele de campo.

Embalado pelo título, o Bragantino foi confiante para a disputa do Brasileirão da Série A daquele ano e fez uma boa campanha nas duas primeiras fases, conseguindo o 6º lugar geral e uma vaga nas quartas de final. Nela, porém, o time paulista acabou eliminado pelo Bahia e deu adeus ao sonho do título nacional. No final do ano, Luxemburgo recebeu uma proposta do Flamengo e deixou o time de Bragança. Seria o primeiro grande desafio do treinador em uma equipe do primeiro escalão do futebol brasileiro.

Decepção na Gávea e estadia campineira

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Luxemburgo e o lateral Júnior: reencontro em 1991. Foto: William de Moura
 

Em 1991, Luxemburgo comandou um Flamengo que tinha acabado de vencer a Copa do Brasil e que contava com uma grande safra de jogadores jovens, justamente a matéria-prima que o técnico gostava de trabalhar e desenvolver. No entanto, o trabalho dele naquele ano foi breve e sem sucesso, pois o rubro-negro tinha graves problemas financeiros e Luxa se irritou com a falta de estrutura do clube, alegando até que “não tinha nem bolas para treinar”. Para piorar, o Fla perdeu a final da Supercopa do Brasil para o Corinthians. No mesmo ano, Luxemburgo foi para Campinas treinar o Guarani, também ficou pouco e pediu demissão depois de brigas com o então presidente Beto Zini, alegando não ter recebido salário em três meses de trabalho.

Do Bugre, Luxa foi para a Ponte Preta e fez um bom trabalho na Macaca, levando a equipe até as etapas finais do Campeonato Paulista. Foi nessa época que o treinador chamou a atenção de José Carlos Brunoro, que havia acabado de assumir o comando da recém-criada parceria do Palmeiras com a Parmalat. Sem grandes títulos desde 1976, o Verdão queria desesperadamente encerrar aquele jejum e via na parceria a chance de contratar grandes jogadores e ter um elenco competitivo. Para isso, a diretoria buscava um técnico arrojado, que soubesse domar egos e tivesse pulso firme no vestiário. E Luxemburgo, claro, era o nome ideal naquele momento. A vida do treinador mudaria para sempre a partir de 1993, bem como a história do Palmeiras.

Bicampeão brasileiro e o esquadrão alviverde

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Luxemburgo orienta seus craques, em 1993.
 

Luxemburgo chegou para substituir Octacílio Gonçalves, o Chapinha, já durante a disputa do Campeonato Paulista. Logo de cara, Luxa revolucionou as preleções e a maneira como iria transmitir suas ideias de jogo aos atletas. Zinho, craque do Verdão na época, comentou sobre esse momento à ESPN. 

“Pela primeira vez na minha carreira eu vi uma preleção com slide e computador. Como não tinha uma equipe de trabalho tão grande nem um pessoal de vídeo, como hoje em dia, muitas vezes ele pedia para que eu passasse os slides. Tinha um programa que os bonequinhos se mexiam, era sensacional. Lembro de uma preleção que o Amaral não entendeu nada (risos). Ele falou: Ô (César) Sampaio, lá no campo você fala quem eu sou porque nos bonequinhos não dá para saber’”, disse o meio-campista.

Luxa também investia em áreas pouco comuns no Brasil tanto na ciência do esporte como a preparação física individualizada para cada jogador, além de um trabalho integrado entre a fisiologia e a fisioterapia. Com tantos craques à disposição – Roberto Carlos, Mazinho, César Sampaio, Edílson, Zinho, Edmundo, Evair, Antônio Carlos, entre outros – Luxemburgo fez aquele time jogar bola devidamente e conduziu o Verdão à final, contra o Corinthians. 

O time alviverde havia perdido o título em 1992 para o São Paulo e via na decisão de 1993 a chance derradeira para acabar com o jejum. Só que, no primeiro jogo, o Timão venceu por 1 a 0, gol de Viola, que imitou um porco na comemoração, provocando o rival. Aquela cena fez com que Luxemburgo coletasse elementos para motivar seus atletas.

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Viola zombou dos alviverdes. E Luxa usou isso como combustível para a vingança.
 

“Nós ficamos a semana toda concentrados. Teve muita cobrança, fomos chamados de mercenários e de time de empresa. Lembro que na preleção antes do jogo, o Vanderlei colocou um vídeo com todas as coisas erradas que havíamos feito durante o campeonato, torcida nos vaiando e o Viola imitando o porco. O (técnico do Corinthians) Nelsinho Baptista e o Neto falavam que na final era hora do time do povo. Em seguida, colocou outro vídeo com tudo de maravilhoso que tínhamos feito na temporada e a torcida nos apoiando.

Quando acabou o vídeo, ele não entrou na parte tática. Ele só falou: ‘E aí? Vocês querem ficar marcados com esse vídeo da derrota ou vamos sair da fila hoje e ficarmos marcados para sempre na memória do palmeirense?’ Nisso, acabou a preleção e fomos para o ônibus ‘babando’ querendo o jogo. Estávamos com brilho nos olhos”. – Zinho, em entrevista à ESPN Brasil, 10 de maio de 2022.

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Verdão campeão em 1993. Em pé: César Sampaio, Gil Baiano, Cléber, Roberto Carlos, Sérgio e Antônio Carlos. Agachados: Edmundo, Mazinho, Evair, Edílson e Zinho.
 

Até hoje se comenta sobre essa preleção épica de Luxemburgo. Alguns jogadores choraram, outros chutaram cadeiras e muitos gritaram que dariam a vida pela vitória. Em campo, o Palmeiras surgiu imponente e deu show: fez 3 a 0 no tempo normal e, na prorrogação, marcou 1 a 0. O placar de 4 a 0 deu o título ao alviverde e acabou com o jejum de 16 anos sem troféus. A partir dali, o Palmeiras virou o principal clube brasileiro e, aproveitando o fim do reinado do São Paulo de Telê, foi o principal esquadrão brasileiro da época.

Ainda em 1993, o Verdão levantou o título do Campeonato Brasileiro – que não vinha desde o começo dos anos 1970 – e seguiu competitivo no ano de 1994, quando o clube, reforçado por Rivaldo, foi bicampeão paulista e bicampeão brasileiro – este em cima do rival Corinthians. Um outro momento de destaque foi a goleada de 6 a 1 sobre o Boca Juniors-ARG, no Palestra Itália, o maior revés dos xeneizes para um clube brasileiro em toda história.

Vanderlei Luxemburgo
Foto: AE
 

Um show tão grande que até o técnico do Boca na época, o lendário César Menotti, parabenizou Luxa após o jogo pela vitória maiúscula, que influenciou até mesmo na seleção brasileira que se preparava para a Copa do Mundo dos EUA, pois o palmeirense Mazinho ganhou uma vaga na equipe e, tempo depois, virou titular absoluto do time de Parreira, que estava no estádio naquele dia ao lado do coordenador Zagallo. 

Mesmo com a grande campanha na fase de grupos e o timaço que tinha, o Verdão acabou eliminado pelo São Paulo nas oitavas de final, provando que nem tudo era perfeito, principalmente no controle dos egos dos atletas, que vez ou outra discutiam com o técnico por causa de seu temperamento e intransigência. Inclusive, em um dos duelos contra o São Paulo pela Libertadores, Edmundo e Luxemburgo quase foram às vias de fato depois que o técnico substituiu o atacante e este reclamou efusivamente. Luxa quase partiu para cima do jogador, mas foi contido por Valdir de Morais, preparador de goleiros do time.

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Pelo Verdão, Luxemburgo passou a mudar sua imagem em campo. Foi um dos primeiros treinadores a utilizar terno e gravata nas partidas e passava um ar superior, de imponência. E, em jogos onde seu time estava prestes a ser campeão, deixava o gramado e se dirigia aos vestiários, sem participar da festa. Uns diziam que era marketing, outros, pelo fato de ele achar que aquele momento “era dos atletas”. 

“Nas primeiras vezes eu não percebia que ele ia embora para o vestiário antes, mas depois vimos as imagens dos jogos. Ele dizia que era um momento dos atletas. Não sei se era um marketing dele, nunca perguntei (risos). Já usava terno e gravata, já tinha uma visão europeia e estava preparando a carreira para a seleção. Ele sabia que tinha que ser diferente para chamar atenção”, relembrou Zinho.

Luxemburgo já pensava em ser um manager, um técnico que comandava não só o time, mas vários departamentos, a exemplo do que fazia Alex Ferguson no Manchester United e outros técnicos fariam décadas depois, como Jürgen Klopp e Josep Guardiola. Luxemburgo foi, sem dúvida, o melhor técnico em atividade no futebol brasileiro em 1994, obviamente beneficiado pelo enorme material humano que tinha. “O Palmeiras de 1994 foi o melhor time que dirigi. Tinha grandes jogadores em praticamente todas as posições”, afirmou o treinador em entrevista a Maurício Noriega no livro “Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro”.

Nova decepção no Flamengo e passagem-relâmpago no Paraná

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Branco, Luxemburgo e Romário: reforços do Flamengo para o ano do centenário.
 

Em 1995, o Flamengo contratou várias estrelas, entre elas Romário, para celebrar o centenário de sua fundação. A ideia era vencer tudo o que disputasse e, por isso, fez uma oferta a Luxemburgo, que mais uma vez não conseguiu recusar seu time do coração. Para muitos, foi uma regressão ao treinador pelo fato de o clube carioca ainda não ter condições estruturais para um bom trabalho, mesmo com o recente título brasileiro de 1992, que, para Luxemburgo, foi enganoso. “Em 1992 o Flamengo ganhou do Botafogo na final do Campeonato Brasileiro. Aquilo foi ruim porque foi enganoso. A estrutura continuava ruim”, disse o técnico em entrevista à Folha de S. Paulo em janeiro de 1995. Ele ressaltou, ainda na entrevista, que o time carioca iria jogar como o Palmeiras. 

“O Flamengo, como o Palmeiras antes, terá o futebol participativo como filosofia. As características dos jogadores são diferentes, mas todos serão exigidos tanto ofensiva como defensivamente. Será um time aplicado, aguerrido, determinado”.

Tudo era muito bonito na teoria, mas, na prática, o Flamengo de Luxemburgo e seu “melhor ataque do mundo” com Edmundo, Romário e Sávio fracassou e não ganhou nenhum título. Para piorar, no mais palpável de todos, o Campeonato Carioca, o rubro-negro perdeu a final épica contra o rival Fluminense por 3 a 2 com o famigerado “gol de barriga” de Renato Gaúcho. 

 
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Além da derrota, o treinador não se entendeu com Romário, que queria ter autonomia dentro e fora de campo e não se submetia às ordens de Luxa. O atacante havia exigido mudanças na comissão técnica, bem como avisara que não queria mais se concentrar com a equipe nem participar de todos os treinos. Furioso, Luxemburgo exigiu uma punição exemplar para o jogador, o que não aconteceu. Depois de conversar com Kleber Leite, presidente rubro-negro, Luxemburgo pediu demissão.

Tempo depois, Luxemburgo surpreendeu a todos e foi comandar o Paraná Clube, que vivia a melhor fase de sua história e uma franca ascensão com a conquista de um tricampeonato estadual, além de ser o único clube do Paraná na elite do futebol brasileiro na época. Foi no tricolor que Luxemburgo conheceu Ricardinho, meia que seria um de seus principais jogadores no Corinthians e no Santos, e também o preparador físico Carlinhos Neves, um dos mais vencedores do futebol nacional durante décadas. A ideia do Paraná era ter Luxemburgo por seis meses e com possibilidade de renovação na virada do ano. Porém, três meses depois, o Palmeiras seduziu o técnico novamente e conseguiu levá-lo de volta para SP. No tricolor, foram 14 jogos, 4 vitórias, 5 empates e 5 derrotas.

A volta por cima no “Ataque dos 100 gols”

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Luxemburgo e Müller: atacante foi “transformado” pelo treinador em 1996.
 

Com a experiência de ter sido o comandante do esquadrão de 1993-1994, Luxa ganhou a certeza de reforços para ajudar naquele novo trabalho. E eles vieram cedo. Destaques do Guarani naquela época, os jovens Luizão e Djalminha foram contratados prontamente no final do ano. Para a lateral-esquerda, Júnior seria contratado em 1996 para preencher a vaga deixada por Roberto Carlos. Com esse trio e a manutenção dos bons nomes que já estavam no time como Velloso, Cléber, Galeano, Amaral, Rivaldo e Müller, Luxemburgo começou a treinar aquele elenco e ver o que poderia ser feito. E, para a felicidade alviverde, o time daria (muita) liga.

O volume de jogo do time nos treinos era impressionante. A velocidade, contagiante. E os gols, em profusão. Mesmo com tantas estrelas no setor ofensivo, Luxa conseguia ter um time forte, também, na defesa, com a força e entrosamento dos zagueiros, o fôlego para ir, voltar e marcar dos laterais e a aplicação tática incrível de Amaral, Flávio Conceição e Galeano. Além de tudo isso, o jeito de comandar de Luxemburgo também fazia a diferença. Titular ou reserva, cada jogador era treinado da mesma maneira. Ele queria o máximo de cada um, um elenco disposto a vencer tudo e todos, sem brigas, sem vaidade, sem guerra de egos, todos amigos. Em uma partida, se ele precisasse tirar alguém com 15 minutos de jogo ele tirava, pois sabia que o substituto poderia fazer a diferença. Era treinar, jogar e ganhar. Foco máximo de um técnico brilhante na época, sem dúvida alguma um dos maiores do Brasil. 

Foto: AE.
 

O Palmeiras simplesmente não tomou conhecimento dos adversários no Campeonato Paulista e fez a melhor campanha da história do profissionalismo. Em 30 jogos, o Verdão venceu 27, empatou dois e perdeu apenas um. Foram assombrosos 102 gols marcados e míseros 19 gols sofridos. Um fato que chamava a atenção daquele time era a maneira como os placares eram construídos. A equipe marcava quase sempre antes dos primeiros 20 minutos de cada tempo. Começava sempre de maneira alucinante, rápida, para atordoar o adversário. Eram golpes e mais golpes seguidos. Chances e mais chances criadas. Bolas na trave, trabalho danada para os goleiros e nada de morosidade: Luxemburgo queria ver gol.

“Ele (Luxemburgo) não falava para a gente tocar a bola após um 2 a 0. Ele pedia para a gente ir pra cima. Falava que éramos superiores, que tínhamos que fazer mais gols”. – Djalminha, em entrevista ao documentário “20 anos do Paulista de 1996”, da TV Palmeiras.  

Ninguém perguntava se o Palmeiras iria vencer. Era óbvio. A pergunta que todos faziam era: “De QUANTO vai ser?”. E a maior apresentação daquele esquadrão seria a máxima de tudo isso e mais um pouco. E justamente em um território tão acostumado a bailes e apresentações de gala: a Vila Belmiro. Diante do Santos, o Palmeiras fez 6 a 0 e consolidou um dos maiores shows pra cima do rival na história. A fama do time de Luxemburgo foi parar do outro lado do Atlântico e estampou as páginas da tradicional revista italiana “Guerin Sportivo”. A manchete foi bilíngue: “Bianco, rosso e Verdão” (branco, vermelho e verde, as cores da bandeira italiana, e uma alusão ao apelido do Palmeiras). Em seguida, o texto começa com: “Massacram. Humilham. Vencem. Marcam”. Para continuar: “A orquestra do Palmeiras conta com 11 diretores e outros tantos primeiros-violinos”. 

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Em pé: Júnior, Cafu, Sandro Blum, Cléber, Galeano e Velloso. Agachados: Flávio Conceição, Rivaldo, Luizão, Djalminha e Müller. Esse foi o time que enfiou 6 a 0 no Santos na Vila Belmiro.
 
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Luizão, Rivaldo, Luxemburgo, Djalminha e Müller: expoentes de um Verdão histórico na icônica capa da Revista da Folha em 1996.
 

Depois do título, o caminho natural daquele Palmeiras era vencer a Copa do Brasil, competição na qual o Verdão nadou de braçadas e chegou até a final contra o Cruzeiro. Os mineiros, comandados por Levir Culpi, tinham um ótimo time com Dida, Vítor, Nonato, Palhinha, Ricardinho e Marcelo Ramos, mas, respeitosamente, seriam azarões contra o timaço alviverde. Porém, o time paulista viajou com problemas. Cafu, Sandro, Flávio Conceição e Djalminha não iriam jogar. Outra baixa no time era o atacante Müller, que acabou acertando uma transferência para o rival São Paulo às vésperas da final – a notícia saiu no dia 11 de junho, apenas três dias antes do primeiro jogo. 

Foi um balde de água fria enorme para a torcida e um problema gigantesco para Luxemburgo, que não tinha ninguém com a eficiência tática e técnica do atacante. Mesmo com tantas baixas, o Palmeiras empatou em 1 a 1 em BH e foi para SP com a vantagem de vencer por qualquer placar. Só que o time de Luxa perdeu de virada por 2 a 1 no Palestrazo alviverde e viu o rival ficar com o título. A dolorosa derrota e consequente perda da vaga direta à Copa Libertadores de 1997 iniciou uma debandada no clube. Rivaldo, Cafu, Luizão, Flávio Conceição e Djalminha foram para a Europa. Desmantelado, o Verdão nada fez no Brasileirão e, em fevereiro de 1997, Luxemburgo deixou o clube para dirigir o Santos.

Campeão na Vila, Brasileirão no Timão e a seleção

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Naquele final de anos 1990, o Santos passava por um momento de mudanças, com obras na Vila Belmiro e projetos de construção de novos centros de treinamentos. Com um elenco competitivo que tinha o goleiro Zetti, o lateral Ânderson Lima, o zagueiro Ronaldão, os meio-campistas Marcos Assunção e Vágner, o meia Robert e os atacantes Macedo e Alessandro, o Santos de Luxa conseguiu acabar com um jejum de títulos que perdurava desde 1984 e levantou o Torneio Rio-SP ao derrotar o Flamengo do técnico Júnior na final. No duelo de ida, o Santos venceu por 2 a 1 e, no Maracanã tomado por mais de 70 mil pessoas, empatou em 2 a 2 para ficar com a taça.

Ao longo daquela temporada, Luxemburgo começou a ser sondado pelo futebol internacional e o Deportivo La Coruña-ESP esteve perto de levar o técnico, com esboço de contrato feito em um guardanapo de papel em um restaurante de SP, mas as negociações não foram além. Havia ainda a expectativa de ele assumir a seleção logo após a Copa de 1998, independente do resultado conquistado pelo então técnico Zagallo – o Brasil acabou vice-campeão. 

Só que Luxa acabou indo para o Corinthians, que, a exemplo do Palmeiras, havia acabado de fechar uma parceria com a HTMF, que prometeu ao clube grandes contratações, um novo estádio e um canal de TV exclusivo. Só a primeira promessa foi cumprida, mas o suficiente para Luxa ter à sua disposição craques como Gamarra, Rincón, Marcelinho Carioca, Vampeta, Edílson e Ricardinho, que compuseram a espinha-dorsal de um esquadrão memorável e campeão brasileiro de 1998.

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Apesar de nutrir desavenças com Marcelinho, Luxa soube contornar os problemas e conduziu o Timão a um caneco histórico após finais eletrizantes contra o Cruzeiro. O título veio após dois empates e uma vitória por 2 a 0 na finalíssima, no Morumbi, com gols de Edílson e Marcelinho. O grande trabalho à frente do Timão ao longo daquela temporada pavimentou o caminho de Luxemburgo até a seleção brasileira. Seus títulos, claro, falavam por si e era inegável sua capacidade de vencer e formar esquadrões campeões. 

Logo após o título brasileiro, Luxa dirigiu a seleção em 1999 e conquistou o título da Copa América com grandes exibições e goleada de 3 a 0 sobre o Uruguai na final. O destaque naquele time foi a oportunidade dada ao jovem Ronaldinho Gaúcho, que marcou um gol emblemático ainda na primeira fase, contra a Venezuela, e começou a ter mais chances na equipe canarinho. Tudo levava a crer que o técnico viveria o período mais emblemático e sonhado da carreira. Mas foi a partir dali que um verdadeiro inferno astral sacudiu a carreira do treinador.

A pior fase

Luxemburgo começou a colecionar problemas dentro e fora de campo entre 1999 e 2000. Nas Eliminatórias para a Copa, ele teve resultados ruins – empate com o Uruguai, derrotas para o Paraguai (2 a 1, fora) e Chile (3 a 0, fora) – e, nas Olimpíadas de Sydney, não quis levar jogadores com idade superior a 23 anos por confiar nos jovens que haviam brilhado no Pré-Olímpico. As críticas foram imensas, principalmente pela ausência de Romário, mas Luxemburgo conseguiu levar o time até as quartas de final, quando acabou eliminado por Camarões mesmo com o rival sem dois jogadores (expulsos).

Na mesma época, denúncias de uma ex-secretária sobre sonegação de impostos e intermediação de jogadores balançaram a imagem do técnico. Além disso, uma reportagem da revista Época revelou que o técnico tinha dois registros de nascimento, com uma diferença de idade de quatro anos entre eles – essa diferença de idade, inclusive, ajudou Luxa a entrar nas categorias de base do Flamengo na época de jogador, por exemplo – e as famosas duas grafias de seu nome, a original, com ‘V’ e ‘I’ no final, e a posterior, com ‘W’ no início e ‘Y’ no final (por isso que ele usou durante muito tempo o nome Wanderley e não Vanderlei). 

Luxemburgo afirmou que foi mesmo um equívoco de seu pai o caso dos dois registros e que isso prejudicava suas declarações de impostos. Diante desse turbilhão de problemas pessoais e também na seleção, o técnico deixou a Amarelinha em outubro de 2000. Ele, de fato, estava no lugar certo, mas na hora errada.

A Coroa da (nova) volta por cima

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Foto: Auremar de Castro/Estado de Minas
 

Mesmo com a reputação abalada, Luxemburgo ainda tinha prestígio no futebol e não ficou parado. Já em 2001, acertou seu retorno ao Corinthians e, para manter a rotina, foi campeão do Campeonato Paulista após uma sequência de 10 vitórias seguidas e vitória sobre o Botafogo de Ribeirão Preto na final por 3 a 0, fora de casa, e empate sem gols no Morumbi. Porém, no segundo semestre, o time não vingou. Foi só o 18º colocado no Brasileiro e eliminado na Copa dos Campeões e na Copa Mercosul. Os fracassos e o desgaste com a cúpula corintiana culminaram com a demissão de Luxemburgo, que foi para o Palmeiras em 2002 e ficou alguns meses no Verdão, sem sucesso e com eliminações na Copa do Brasil – esta de maneira vexatória, para o ASA de Arapiraca dentro do Palestra Itália – e no Torneio Rio-SP. 

Em agosto de 2002, o treinador fechou um acordo com o Cruzeiro e assumiu o comando da Raposa já no Brasileirão daquele ano. O foco, na verdade, era 2003, quando teve uma temporada completa para trabalhar e montar o time à sua maneira. Com mais tranquilidade e sem a cobrança excessiva do eixo Rio-SP, o técnico conseguiu “paz” pela primeira vez na carreira. Foi, enfim, alçado à condição de manager, determinando como o dinheiro deveria ser gasto no departamento de futebol. E, com tal controle e grandes nomes como Gomes, Cris, Maurinho, Maldonado, Aristizábal, Zinho e Alex, fez do Cruzeiro o time da temporada no Brasil ao conquistar algo inimaginável: a Tríplice Coroa, justamente no ano em que começou o Campeonato Brasileiro por pontos corridos, que naquela época teve imensas 46 rodadas.

Luxa festeja com Alex no ano mágico de 2003. Foto: Acervo Folha.
 

No Campeonato Mineiro, o Cruzeiro foi campeão invicto, com 10 vitórias e dois empates em 12 jogos. Na Copa do Brasil, levantou o título diante do Flamengo após empate em 1 a 1 no Maracanã e vitória por 3 a 1 no Mineirão. E, no Brasileirão, fez uma campanha sensacional com 100 pontos em 46 jogos, sendo 31 vitórias, sete empates, oito derrotas, 102 gols marcados e 47 gols sofridos, um aproveitamento de 72%.

“O Cruzeiro se planejou para a competição. Nós temos um elenco versátil, com jogadores que atuam em mais de uma posição. O Maldonado, por exemplo, sabe jogar de volante e zagueiro. O Maurinho joga de lateral e volante. Então, você tem um elenco equilibrado e versátil e ainda tem a expectativa de usar os juniores. Isso é fundamental num campeonato de 46 jogos”, disse Luxemburgo, em 2003, à Folha de S. Paulo.

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Em pé: Artur, Maldonado, Márcio Nobre, Maurinho, Edu Dracena, Cris, Maicon, Thiago e Gomes. Agachados: Wendell, Augusto Recife, Leandro, Sandro, Mota, Felipe Melo, Alex Dias, Zinho e Alex. Foto: Paulo Fonseca / AE.
 

Na Copa do Brasil, episódios curiosos marcaram a campanha dos azuis. Após o primeiro jogo da final, Luxemburgo ficou sem zagueiros e precisou colocar o jovem Gladstone, de apenas 18 anos. Na preleção, o técnico entregou dois envelopes ao jovem e pediu para que ele abrisse na frente dos colegas. Em um deles, tinha uma fralda, no outro, uma faixa de campeão.

“Ninguém sabia que ele faria isso. O Vanderlei disse: ‘Qual deles você vai querer? Vai se borrar todo e usar a fralda ou vai vestir a faixa e ser campeão?’. O Gladstone respondeu que queria ser campeão. Daí, o Vanderlei mandou ele colocar a faixa. O olho do Gladstone brilhou! Ele foi bem e nós fomos campeões. Foi um trabalho psicológico com essas tiradas do Vanderlei”, disse Zinho à ESPN Brasil.

Quem também lembra do Cruzeiro de 2003 com carinho foi o meia Alex, que sempre elogiou o técnico descrito por ele como “agregador, trabalhador e moderno”.

“Se tivesse que escolher um time, seria o de 2003 (Cruzeiro) e explico porquê. Era um time que fazia um gol e o treinador exigia que fizesse o segundo, depois exigia que buscasse o terceiro. Lembro de frases do Luxemburgo dizendo: ‘isso aqui é o Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes, não é para ganhar ao acaso, é para ganhar como a história do Cruzeiro exige’. E aquilo se identificava com a minha forma de entender futebol e jogar. Pela exigência que o Luxemburgo tinha conosco, de fazer com que time, além de ganhar jogos, campeonatos, pudesse jogar em cima do que o pessoal que veio antes de nós tinha feito. Acredito que passamos perto”. – Alex, em entrevista ao Fox Sports Rádio, 09 de abril de 2020.

Pentacampeão brasileiro

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Foto: Robson Fernandjes / Agência Estado
 

Em 2004, Luxemburgo naturalmente focou seu trabalho no Cruzeiro na Libertadores, mas dizia que havia problemas de sintonia no clube e que isso iria prejudicar o desempenho na competição. Em fevereiro, após um empate pelo Campeonato Mineiro, Luxemburgo prosseguiu com as declarações: “Existe alguma coisa desconfortável neste momento”, e ganhou o apoio do meia Alex, que disse existir “assuntos pendentes” atrapalhando o rendimento do time – tal declaração foi interpretada como sendo a falta do pagamento da premiação pelo título do Brasileiro. Irritado com as declarações de Luxemburgo e Alex, o então vice-presidente de futebol, Zezé Perrella, disse que a premiação estava sendo paga em seis parcelas, conforme combinado com os atletas, e que ele não aceitava esse argumento. Isso foi o estopim para a demissão de Luxemburgo, em mais uma saída polêmica do treinador.

Meses depois, Luxa acertou com o Santos já em maio de 2004 e ajudou o Peixe a se classificar para as quartas de final da Copa Libertadores ao eliminar a LDU nos pênaltis de maneira dramática – na etapa seguinte, porém, o time foi vítima da zebra Once Caldas. A queda não abalou o treinador, que seguiu no comando e montou uma equipe muito forte e competitiva que brigou até o fim pelo título do Brasileirão. Mesmo com a dominância do Athletico-PR na reta final, o Santos soube aproveitar os tropeços do clube paranaense e conquistou o título no embalo de nomes como Elano, Robinho, Deivid, Ricardinho, Fabinho e companhia. Durante a campanha, o treinador teve que lidar com o sequestro da mãe do jogador Robinho e fez o que pôde para manter o astral do elenco elevado em busca do título.

“Ele falava: ‘Vocês vão concentrar mais forte do que extrato de tomate, mas no fim vai compensar. Vocês confiem em mim porque eu sou bom pra c***. Isso não é falta de humildade, mas reconhecimento do meu trabalho’. Na última rodada ele levou uma caixa no vestiário com camisas escritas ‘Santos, campeão brasileiro’. E fez a gente usar. O Robinho voltou a jogar e foi sensacional. Só pelo ambiente a gente já sabia que venceria”, disse o ex-volante Zé Elias, jogador do Santos na época, em entrevista à ESPN Brasil, 10 de maio de 2022.

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“O Vanderlei ficou mais de 14 anos no auge como um vencedor. Ele construiu uma história e mudou a forma de se pensar sobre os treinadores no Brasil. Antes, eles eram vistos apenas como mais uma peça. Essa importância que eles têm hoje em muito se deve ao Vanderlei”, finalizou Zé. 

O Santos foi campeão com 89 pontos (três a mais do que o Furacão), com 27 vitórias, oito empates, 11 derrotas, 103 gols marcados e 58 gols sofridos em 46 jogos. Com o 5º título brasileiro da carreira, Luxemburgo parecia ter chegado ao topo, apesar de não ter no currículo uma Libertadores, que ousava em escapar mesmo ele tendo comandado vários esquadrões, mas poucos na competição. Já com passagem pela seleção, o que mais ele poderia almejar? Talvez ir para outra Galáxia…

O Técnico dos Galácticos!

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Em dezembro de 2004, Luxemburgo recebeu um convite simplesmente irrecusável: treinar o Real Madrid. A notícia caiu como uma bomba e até parecia mentira, mas era verdade. Depois do título europeu de 2002, o Real havia perdido o rumo no seu arrojado projeto Galáctico, baseado na contratação das maiores estrelas do futebol mundial a qualquer custo. E a diretoria madrilena, composta na época pelo presidente Florentino Pérez, pelo diretor esportivo e ex-jogador Emilio Butragueño e ainda o diretor de futebol e ex-técnico Arrigo Sacchi, acreditava que um nome diferente e de peso seria a maneira de fazer aquele time voltar a jogar. 

“Estamos convencidos que era necessária uma mudança radical no time. Quando chegou Sacchi, já tínhamos dito que começaria uma nova época”, afirmou Butragueño na apresentação do brasileiro.

Luxa viajou à Espanha logo depois do título brasileiro pelo Santos e foi apresentado em 30 de dezembro. Trajando um sobretudo, Luxemburgo abusou do portunhol na entrevista. Falou “lo trabajo”, “lo profissionalismo” e que não poderia prometer “lo título”. Falou ainda em “implantar uma filosofia” e da “responsabilidade enorme de dirigir o maior clube do mundo”. O brasileiro iria comandar Ronaldo, Roberto Carlos, Zidane, Figo, Beckham, Michael Owen, Raúl, entre outros nomes. Roberto Carlos, que trabalhou com Luxa no Palmeiras, foi um dos pilares do técnico naquele início e ajudou a divulgar mais o trabalho do treinador na imprensa espanhola. “Ele é um técnico estupendo. Sabe montar equipes”, disse o lateral na época.

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Luxemburgo orienta Beckham: “faça o project!”
 

A primeira missão de Luxemburgo seria comandar o Real Madrid no “jogo de sete minutos” contra a Real Sociedad, pelo Campeonato Espanhol, em casa. O jogo era a continuação de uma partida adiada por causa de uma ameaça de bomba no Santiago Bernabéu e que estava empatada em 1 a 1. O técnico sabia que um bom papel naquele jogo seria fundamental para passar uma boa impressão. E, nos treinamentos, fez com que os atletas tivessem em mente que deveriam pressionar e atacar a Real Sociedad incessantemente até conseguir um gol, pois o adversário ficaria na retranca esperando pelo resultado.

Quando a bola rolou, o Real foi pra cima e, em determinado lance, Ronaldo foi derrubado dentro da área: pênalti. Na cobrança, Zidane cobrou e fez o gol da vitória por 2 a 1 digna dos Scenarios do game International SuperStar Soccer Deluxe, quando o jogador deveria escolher um jogo aleatório e, com pouco tempo, fazer um gol (ou até mais) e tentar a vitória. Foi um ótimo começo para o técnico na Espanha e que ajudaram a quebrar um pouco o gelo daquela estadia pouco comum de um sul-americano em Madri.

Apesar de ter emendado sete vitórias seguidas em La Liga, a sequência do trabalho do treinador não foi como esperado. No primeiro mês, foi eliminado nas oitavas de final da Copa do Rei pelo Valladolid. Tempo depois, conseguiu uma expressiva vitória por 4 a 2 sobre o Barcelona em La Liga, que na época já tinha Ronaldinho, Eto’o, Iniesta, Puyol e companhia. O título, porém, ficou com os blaugranas, que somaram 84 pontos contra 80 dos merengues. Na Liga dos Campeões da UEFA, a eliminação para a Juventus-ITA, em março de 2005, nas oitavas de final, pesou bastante no relacionamento do técnico com os astros, pois Luxa substituiu Ronaldo no primeiro jogo e Zidane no segundo, causando enorme descontentamento nas duas estrelas. O francês, inclusive, falou pessoalmente com o brasileiro.

“Senhor, você não trabalha no futebol europeu. Caso contrário, não teria tirado de campo eu e o Ronaldo porque saberia que os adversários têm medo de nós. Com essas mudanças, eles perderam o respeito que tinham”.

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Luxa e Zidane.
 

Justamente depois de tirar Zizou, o Real levou a virada da Juve e foi eliminado. Luxa ainda ficou nove meses no cargo, ganhou reforços como Robinho, Sergio Ramos (que jogava de lateral e começou a jogar como zagueiro exatamente sob o comando de Luxemburgo!) e Júlio Baptista, mas não conseguiu conduzir o Real a títulos e viu o Barça dominar o cenário espanhol na época. A gota d’água foi em dezembro de 2005, após vencer o Getafe por um magro 1 a 0. O presidente Florentino Pérez desceu das tribunas e foi cobrar uma atuação melhor da equipe. Começou, então, uma discussão que custaria o emprego de Luxa no clube merengue.

“Saí do campo, entrei no túnel, cheguei num espaço que era um hall. O Florentino Pérez desceu da tribuna de honra e me encontrou lá. Ele falou: ‘Mister, o que aconteceu?’. Respondi que não aconteceu nada. ‘Por que você tirou o Ronaldo?’. ‘Pô, presidente, estamos ganhando o jogo.’ E tinha gente para c… no hall”, continuou. Eu não estou preocupado com a torcida, estou preocupado com o Barcelona. Quero encostar neles. ‘Não, mas no Real Madrid temos que pensar no jogo e pensar no torcedor. Eles pagam, temos lotação máxima todos os jogos, eles pagam para ver espetáculo’, o Florentino falou. Aí retruquei:

Presidente, deixe-me falar um negócio para o senhor: não estou gostando muito disso, não. Não pedi ao senhor para vir para cá, você que foi no Brasil me contratar. Não vim para cá por favor, não. Vim para cá por que você foi no Brasil e me contratou, então vou fazer o que achar que tiver que fazer. Ele não falou mais nada. No dia seguinte, eu estava despedido”. – Vanderlei Luxemburgo, em entrevista ao Flow Sport Club e reproduzida na ESPN Brasil, 28 de janeiro de 2022.

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Ronaldo e Luxemburgo. Foto: AP Photo/Bernat Armangue
 
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Mesmo sem títulos, os números de Luxemburgo no Real não foram ruins: em 45 jogos, foram 28 vitórias, sete empates, 10 derrotas e 67,4% de aproveitamento. No vice-campeonato Espanhol de 2005, acumulou 16 vitórias, três empates e apenas três derrotas. Além da falta de troféus, algo que sempre pesa em um clube como o Real Madrid, Luxa teve problemas com o idioma, não conseguiu domar as estrelas do Real e perdeu o grupo, como bem disse Roberto Carlos anos depois, em entrevista ao Canal 11, no YouTube, em 2019.

“Eu e o Ronaldo chegamos no professor e falamos: ‘Temos uns costumes aqui e você vai ver, mas tenta não mudar. Não tira o vinho da mesa e os 20 minutos da cerveja antes do jantar porque senão vai ter problema’. Aí o que ele fez? Tirou primeiro a cerveja e depois as garrafas de vinho. Demorou três meses porque o mundo do futebol é pequeno, as notícias chegaram na diretoria e tchau. Era nosso ambiente de vestiário”.

Na despedida diante da imprensa espanhola, Luxemburgo não escondeu a insatisfação. “Quando eu cheguei ao Real Madrid, trazia um projeto comigo. Pensava que na Europa se respeitavam projetos e que eles não dependiam de um só resultado. Nunca pensei que perder um clássico (para o Barcelona, por 3 a 0 – alguns dias antes do duelo contra o Getafe -, com show de Ronaldinho em pleno Santiago Bernabéu) poderia gerar tanta instabilidade numa entidade da importância do Real Madrid. […] São coisas que, apesar de decepcionantes, me informam de como as coisas funcionam neste clube. Quando falava do meu currículo e defendia minhas ideias, não era por arrogância, mas apenas para estimular aqueles que não conheciam a minha história. E ela sempre mostrou que saí de maus momentos para grandes conquistas. Isso iria acontecer também no Real Madrid”.

Rei do Paulistão e queda na Libertadores

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Apenas dez dias após retornar ao Brasil, Luxemburgo voltou ao comando do Santos e permaneceu no alvinegro até o final de 2007. No período, fez o Peixe reconquistar o Campeonato Paulista após 22 anos de jejum e repetiu a dose em 2007. No Brasileirão de 2006, deixou o Santos na 4ª colocação e classificou o clube para a Copa Libertadores de 2007, competição na qual o alvinegro fez uma brilhante campanha. A equipe despachou o Blooming-BOL na primeira fase com um 6 a 0 no agregado e, no Grupo 8, terminou na primeira colocação com 100% de aproveitamento diante do Defensor-URU, Gimnasia y Esgrima-ARG e Deportivo Pasto-COL.

Nas oitavas, a equipe superou o Caracas-VEN com um 5 a 4 no agregado e eliminou o América-MEX após empate em 0 a 0 na capital mexicana e vitória por 2 a 1 na Vila, com gols de Jonas e Rodrigo Souto. Nas semifinais, o Peixe travou um duelo eletrizante contra o Grêmio e, na ida, perdeu por 2 a 0. Na volta, Diego Souza abriu o placar para o tricolor, mas o Peixe não se abateu e foi em busca da virada. Renatinho, duas vezes, e Zé Roberto, marcaram os gols da vitória por 3 a 1. No entanto, como na época ainda valia o gol qualificado, o placar agregado de 3 a 3 classificou o Grêmio, que avançou por ter marcado um gol fora – a equipe gaúcha acabou perdendo o título para o Boca de Riquelme. 

O time de Luxa disputou 14 jogos, venceu 11, empatou dois e perdeu apenas um. Fosse a Libertadores um campeonato, não uma copa, o Peixe seria líder, com 35 pontos em 14 jogos. Porém, o time foi eliminado mesmo tendo conquistado 83,3% dos pontos que disputou. O técnico comentou sobre a campanha do Peixe logo após a eliminação.

“Copa é assim mesmo, a regularidade não conta tanto. Importante é que deixamos a competição de cabeça erguida. […] As pessoas me criticam por eu nunca ter conquistado uma Libertadores. Mas isso não me machuca. Dizem que para se vencer Libertadores tem de dar pontapé, praticar anti-jogo. Eu prefiro buscar esse título jogando futebol envolvente e bonito, como todas as minhas equipes têm demonstrado”.

O Santos de Luxemburgo seguiu competitivo naquele ano de 2007, mas não conseguiu acompanhar o líder São Paulo e sua assombrosa defesa (foram 19 gols sofridos em 38 jogos) e terminou com o vice-campeonato. No final da temporada, o técnico não chegou a um acordo com o presidente santista, Marcelo Teixeira, e encerrou seu contrato com o Peixe.

Novo Paulistão, várias camisas e aposentadoria

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Luxemburgo comandou Ronaldinho no Flamengo, mas dupla não se entendeu.
 

Em 2008, Luxemburgo assumiu o Palmeiras pela quarta vez na carreira e conseguiu tirar o Verdão da fila mais uma vez. Sem vencer o torneio estadual desde 1996, exatamente com Luxa, o alviverde acabou com o jejum e levantou o caneco após duas vitórias sobre a Ponte Preta – 1 a 0 e 5 a 0 -, além de um triunfo marcante sobre o rival São Paulo na semifinal por 2 a 0. Naquele time, os destaques eram Alex Mineiro e Valdivia, além do zagueiro Henrique e dos meio-campistas Pierre e Léo Lima. 

Foi o oitavo título paulista do técnico, que se tornou o maior campeão da competição ao lado de Lula. Ele ainda focou na disputa do Brasileirão e chegou a liderar o torneio por duas rodadas no segundo turno, mas o time perdeu fôlego e o título ficou com o São Paulo mais uma vez. Durante a competição, um fato complicou a vida do treinador. Pelas quartas de final da Copa Sul-Americana, o Palmeiras enfrentou o Argentinos Juniors-ARG e perdeu em casa por 1 a 0. Na volta, Luxemburgo preferiu enviar um time reserva e seu auxiliar, Nei Pandolfo, para comandar a equipe. Ele queria focar no Brasileirão e deixou claro que a Sula não era prioridade. Curiosamente, Luxemburgo foi convidado para ser comentarista do jogo na TV Globo e teve o desprazer de ver seu time perder por 2 a 0 e dar adeus ao torneio… 

Luxa deixou o Verdão em 2009 e, após outra (dessa vez breve) passagem pelo Santos, assinou com o Atlético-MG no final do ano para focar no trabalho de 2010 – ele rejeitou propostas do CSKA-RUS e do Internacional na época – neste último, um erro, pois o Colorado tinha uma equipe competitiva e seria campeã da Libertadores exatamente em 2010… No Galo, Luxemburgo manteve a coleção de títulos atualizada e faturou o Campeonato Mineiro, mas não conseguiu bons resultados no decorrer do ano e deixou o clube já em setembro. No mês seguinte, voltou ao Flamengo pela terceira vez e, em 2011, com as contratações de Ronaldinho e Thiago Neves, levou o rubro-negro ao título Estadual e à 4ª colocação no Brasileirão. Em 2012, deixou o clube por atritos com a diretoria e com Ronaldinho. 

Nos anos seguintes, a carreira do treinador entrou em declínio. Apesar de ter feito um trabalho razoável no Grêmio, onde montou a base do time vice-campeão brasileiro em 2013, não repetiu os desempenhos de antes e foi ficando cada vez mais genioso. Sem sucesso, só voltou a levantar um título em 2017, ao ser campeão pernambucano pelo Sport. Após uma passagem pelo Vasco, retornou ao Palmeiras pela quinta vez, em 2020, e foi campeão paulista pela 9ª vez na carreira, superando Lula e se isolando como maior campeão da história. Luxemburgo ainda deixou a base para o Verdão levantar, depois de muito tempo, a Copa Libertadores, esta já sob o comando de Abel Ferreira.

Luxa comandou o Grêmio no último Gre-Nal do Olímpico, em 2012, mas só empatou e ainda foi expulso ao apartar uma briga envolvendo Anderson Pico (foto). Foto: Jefferson Bernardes/ Preview.com / Gazeta Press
 

No final de 2020, ainda em meio à Pandemia, foi dirigir o Vasco com a missão de salvar o clube da Série B. O técnico anunciou que não receberia dinheiro do clube caso não conseguisse salvá-lo do rebaixamento. Pois não teve jeito: o cruzmaltino terminou na 17ª colocação, foi rebaixado e Luxa deixou o clube. Após mais dois trabalhos fracos (Cruzeiro e Corinthians), Luxemburgo decidiu, após um hiato de dois anos, se aposentar das pranchetas. O anúncio foi feito em novembro de 2025, no programa Galvão e Amigos, na TV Band.

“Não quero mais ser técnico. Não falei para ninguém até hoje. Larguei de ser técnico. Não quero mais. Para eu voltar para o futebol, só tinha uma condição: eu fazer o que sempre fiz como Telê Santana, como Zagallo, no Real Madrid e nos clubes que trabalhei. Não quero mais ser técnico do jeito que está. Não quero ficar inferior ao diretor executivo, que vai mandar em mim”.

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Foto: Lucas Musetti Perazolli/UOL
 

Com isso, aos 73 anos, Luxemburgo pôs fim a uma trajetória que teve de tudo e dentro desse tudo, muitos títulos. Por mais polêmico que sempre foi, o técnico se consagrou como um dos maiores da história do futebol brasileiro e que marcou uma época de ouro do futebol nacional nos anos 1990. Mesmo quando a concorrência de outros treinadores e mentalidades começou a deixá-lo para trás, na segunda metade dos anos 2000 e começo dos anos 2010, ainda sim ele foi campeão e continuava a mostrar seu talento em entusiasmar atletas e mudar partidas. Com muitos projetos, o Pôfexo foi, sem dúvida, imortal.

Números de destaque:

  • Bragantino 1990 – 54 jogos, 24 vitórias, 19 empates, 11 derrotas, 62 gols marcados, 39 gols sofridos – 56,1% de aproveitamento
  • Palmeiras 1993 – 47 jogos, 33 vitórias, 8 empates, 6 derrotas, 84 gols marcados, 33 gols sofridos – 75,8% de aproveitamento
  • Palmeiras 1994 – 73 jogos, 45 vitórias, 16 empates, 12 derrotas, 145 gols marcados, 65 gols sofridos –  68,9% de aproveitamento
  • Palmeiras 1996 – 66 jogos, 47 vitórias, 10 empates, 9 derrotas, 176 gols marcados, 55 gols sofridos –  76,2% de aproveitamento
  • Corinthians 1998 – 59 jogos, 26 vitórias, 17 empates, 16 derrotas, 96 gols marcados, 76 gols sofridos – 53,6% de aproveitamento
  • Cruzeiro 2003 – 71 jogos, 50 vitórias, 13 empates, 8 derrotas, 168 gols marcados, 67 gols sofridos –  76,5% de aproveitamento
  • Santos 2004 – 52 jogos, 28 vitórias, 12 empates, 12 derrotas, 109 gols marcados, 61 gols sofridos –  61,5% de aproveitamento
  • Seleção Brasileira – 33 jogos, 22 vitórias, 6 empates, 5 derrotas, 87 gols marcados, 31 gols sofridos – 72,7% de aproveitamento
  • Santos 2007 – 75 jogos, 47 vitórias, 11 empates, 17 derrotas, 132 gols marcados, 77 gols sofridos –  67,5% de aproveitamento

Leia mais sobre os grandes esquadrões comandados por Vanderlei Luxemburgo aqui no Imortais!

Bragantino 1990

Palmeiras 1993-1994

Palmeiras 1996

Corinthians 1998

Cruzeiro 2003

Santos 2004

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1 COMENTÁRIO

  1. Luxa sem vaidade, humilde e focado no trabalho foi o melhor que eu vi no futebol brasileiro era o único que virava um jogo no intervalo. E podem reparar todos os grandes times que ele montou sempre jogaram um futebol vistoso era obrigação jogar bem e ganhar bem e quantos conseguem isso?

Comentários encerrados.

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