Por Guilherme Diniz
- Nome: Estádio Municipal de Braga
- Localização: Braga, Portugal
- Inauguração: 30 de dezembro de 2003
- Proprietário: Município de Braga
- Capacidade: 30.286 pessoas
- Recorde de público: 30.186 pessoas no Braga 2×1 Marítimo, 14 de fevereiro de 2010
Pode-se dizer que ele não foi construído, mas sim esculpido. Ver aquela encosta de granito e imaginar um estádio por ali parecia utopia pura naquele começo de anos 2000. Pois o arquiteto Eduardo Souto de Moura provou que tudo é possível com trabalho, projeto, estudo e ambição. Não foi à toa que ele venceu, anos depois, o mais importante prêmio da arquitetura mundial e fez daquela obra uma das mais impressionantes do mundo.
O Estádio Municipal de Braga, conhecido como A Pedreira, mudou para sempre a paisagem do Monte Castro e oferece uma experiência totalmente diferente para quem visita a cidade portuguesa e vai ver um jogo do SC Braga. Com capacidade para pouco mais de 30 mil pessoas, o estádio possui arquibancadas apenas de dois lados, e tem em suas extremidades o verde e as rochas como “estruturas” ímpares que o distingue de qualquer outro. É hora de conhecer a história de um dos estádios mais pitorescos do planeta.
Sumário
A obra fantástica
Ao longo de 50 anos, o SC Braga mandou seus jogos no Estádio 1º de Maio – conhecido por um tempo como Estádio 28 de Maio, em alusão à Revolução de 1926 em Portugal. A casa dos arsenalistas era bem tradicional: contava com uma pista de atletismo, arquibancadas largas, de um único lance em volta de quase todo o gramado e uma abertura em uma das pontas na qual se destacava uma torre de pedra. Mas a trajetória do clube no local ficou com os dias contados a partir do momento em que Portugal foi escolhido como sede da Eurocopa de 2004 e Braga uma das cidades-sede.

Muitos pensaram que o 1º de Maio seria reformado, mas a ideia era construir um novo e moderno estádio do zero, como forma de criar um marco arquitetônico para a cidade e seguir na mesma linha das obras que teriam destaque na época como o Estádio do Dragão, o Estádio da Luz e o Estádio José Alvalade. O projeto começou a ser desenvolvido em janeiro de 2000 e o local escolhido foi bem peculiar: uma pedreira desativada na encosta norte do Monte Castro, na região do Parque Norte de Braga, a 5km do Estádio 1º de Maio. Construir um estádio ali, com capacidade para 30 mil pessoas, seria um desafio imenso. Mas o projeto do arquiteto Eduardo Souto de Moura foi arrojado, sustentável e marcante. A obra deveria respeitar as características do vale e não interferir nas linhas de água existentes. Para preservar boa parte da pedreira e dispensar explosões excessivas, seriam erguidas apenas duas arquibancadas, com as extremidades preservadas. A montanha deixaria de ser apenas um cenário para fazer parte da arquitetura, a exemplo do que vemos em anfiteatros romanos.
A construção exigiu intervenções profundas na encosta de granito. Foram utilizadas explosões controladas para remover enormes volumes de rocha e abrir espaço para o campo, as arquibancadas e as estruturas de circulação. Aproximadamente 1,14 milhão de metros cúbicos de granito foram removidos do local e parte da pedra extraída foi britada e aproveitada na produção de concreto para a construção. Ou seja, havia até matéria-prima para o estádio ser construído! As explosões permitiram criar uma icônica face rochosa com cerca de 30 metros de altura em uma das extremidades do estádio, onde seria instalado um telão em LED.

Para se adequar às exigências da UEFA e da FIFA, o estádio deveria ter, além dos assentos numerados, uma cobertura. A pergunta era: como fazê-la em arquibancadas tão largas e que não permitiam colunas nem pilares? A solução foi adotar um sistema de cabos de aço que conecta as coberturas das duas arquibancadas, com inspiração nas antigas pontes suspensas utilizadas pela civilização inca no Peru, segundo o próprio arquiteto Eduardo Souto de Moura. Os cabos foram espaçados em intervalos de 3,75 metros em um vão de 200 metros, com uma curvatura única, sendo a sua estabilização à ação do vento garantida pelo peso da própria laje. O comportamento da cobertura foi verificado em ensaios realizados em um túnel de vento, recorrendo-se a um modelo rígido e a um modelo aeroelástico.



Além de dar sustentação, os cabos permitem que a água da chuva seja drenada na extremidade de cada cobertura, caindo em cascata para duas bacias de recolha de águas separadas. Essas bacias possuem “canais” horizontais em aço inox e suportados por pilares de concreto com alturas de 16,5m e 3,2m. Essa água é drenada pelo interior do pilar até ao sistema de drenagem local. No subterrâneo, existe ainda uma área de circulação de pessoas para acesso às arquibancadas e ainda um estacionamento.
Inauguração e fama mundial
As obras ocorreram entre janeiro de 2002 e dezembro de 2003 ao custo de aproximadamente 200 milhões de euros – superando em muito os 29 milhões previstos no pré-projeto e mais caro do que os já citados Estádio do Dragão, Estádio da Luz e Estádio José Alvalade. A inauguração aconteceu em 30 de dezembro de 2003, no amistoso entre Braga e Celta de Vigo-ESP, vencido pelos anfitriões por 1 a 0, gol de Paulo Jorge, aos 15’ do primeiro tempo. Em junho de 2004, o Estádio Municipal de Braga, que rapidamente ficou conhecido como A Pedreira, sediou duas partidas da Eurocopa: a vitória da Dinamarca sobre a Bulgária por 2 a 0, pelo Grupo C, e a vitória por 3 a 0 da Holanda sobre a Letônia, pelo Grupo D. A partir dali, a casa do Braga ganhou os holofotes de todo mundo graças à sua arquitetura única e aos prêmios que a equipe arquitetônica recebeu, com destaque para o Prêmio Secil em 2004 (Categoria Arquitetura), e em 2005 (Categoria Engenharia Civil) e o Prêmio Pritzker de 2011 a Eduardo Souto de Moura, premiação esta considerada o Nobel da arquitetura mundial.


Como forma de retribuir, o Braga iniciou uma fase marcante em sua história ao desempenhar grandes campanhas no futebol português e ainda na Europa, quando disputou a Liga dos Campeões da UEFA pela primeira vez em 2010-2011 e, na mesma temporada, chegou à final da Liga Europa da UEFA de 2010-2011 com uma campanha inesquecível e que teve vitórias marcantes na Pedreira contra clubes tradicionais do continente como Liverpool-ING e o compatriota Benfica na semifinal, evitando um Clássico com o Porto na final.

Depois de perder por 2 a 1 na ida, na Luz, o Braga venceu por 1 a 0 na Pedreira e garantiu a vaga na final graças ao gol qualificado. Na decisão, em jogo único na Irlanda, o Braga acabou derrotado pelo Porto por 1 a 0. Tempo depois, os arsenalistas foram campeões da Taça da Liga de Portugal de 2013 construindo a campanha no estádio, e faturaram as Taças de Portugal de 2015 e 2021 também com jogos essenciais no estádio.
Polêmicas e futuro incerto
Um ponto que sempre foi motivo de discussão na cidade foi o alto custo da construção da Pedreira. Em 2019, após a divulgação oficial dos valores gastos pela Câmara de Braga, muito se debateu sobre a necessidade de uma construção como aquela e o destino do dinheiro para aquele fim e não para outros setores do município, principalmente pelo fato de o estádio ter recebido apenas dois jogos na Eurocopa e esporádicas partidas da seleção portuguesa – entre 2004 e 2026, foram apenas seis jogos, com o sétimo marcado para novembro de 2026, pela Liga das Nações da UEFA.

A controvérsia prossegue com discussões sobre uma eventual venda do estádio ao Sporting de Braga e com os custos de manutenção do estádio. Em 2025, a imprensa portuguesa ainda noticiou propostas para a aquisição da Pedreira pelo clube, com o estádio avaliado em cerca de 15 milhões de euros, quantia muito inferior ao investimento público histórico. Porém, o Braga não nutre muita ambição em adquirir o estádio e já pensou até em reformar o 1º de Maio e passar a jogar por lá. Enquanto a indecisão norteia a cidade, a Pedreira permanece inabalável, certa de que não será esquecida e como um dos estádios mais icônicos do mundo.

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