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Craque Imortal – Marcelinho Carioca

Nascimento: 31 de dezembro de 1971, no Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 

Posição: Meia

Clubes: Flamengo-BRA (1988-1993), Corinthians-BRA (1994-1997, 1998-2001 e 2006), Valencia-ESP (1997-1998), Santos-BRA (2001 e 2006), Gamba Osaka-JAP (2002), Vasco-BRA (2003 e 2004), Al-Nassr-ARS (2003-2004), Ajaccio-FRA (2004-2005), Brasiliense-BRA (2005-2006) e Santo André-BRA (2007-2009).

Principais títulos por clubes:

  • 1 Campeonato Brasileiro (1992), 1 Copa do Brasil (1990) e 1 Campeonato Carioca (1991) pelo Flamengo.
  • 1 Mundial de Clubes da FIFA (2000), 2 Campeonatos Brasileiros (1998 e 1999), 1 Copa do Brasil (1995) e 4 Campeonatos Paulistas (1995, 1997, 1999 e 2001) pelo Corinthians.
  • 1 Copa Intertoto da UEFA (1998) pelo Valencia.
  • 1 Campeonato Carioca (2003) pelo Vasco.
  • 1 Campeonato Brasiliense – também conhecido como Campeonato Candango – (2005) pelo Brasiliense.
  • 1 Campeonato Paulista – Série A2 (2008) pelo Santo André.

Principais títulos individuais:

  • Maior artilheiro do Corinthians em Campeonatos Brasileiros: 52 gols
  • 5º Maior Artilheiro da história do Corinthians: 206 gols em 433 jogos
  • Jogador com mais assistências da história do Corinthians: 185 assistências
  • Um dos jogadores com mais gols de falta na história do futebol: 86 gols
  • Bola de Ouro da revista Placar: 1999
  • Bola de Prata da revista Placar: 1994, 1999 e 2003
  • Melhor jogador da Copa do Brasil: 1995
  • Jogador com mais assistências da Copa do Brasil: 1995 (6 assistências)
  • Jogador com mais assistências do Campeonato Brasileiro: 1998 (12 assistências) e 1999 (13 assistências)
  • Jogador com mais assistências da Copa Libertadores: 1999 (9 assistências) e 2000 (6 assistências)
  • Jogador com mais assistências do Campeonato Paulista: 1994 (18 assistências) e 1995 (13 assistências)
  • Melhor meia da América do Sul pelo jornal El País: 1998
 

“Pé-de-Anjo”

Por Guilherme Diniz

Cria do Flamengo, ele chegou meio a contragosto em São Paulo. No entanto, a sintonia entre aquele jogador de 1,65m e a camisa do Corinthians foi praticamente instantânea. Marcelo Pereira Surcin, mais conhecido como Marcelinho Carioca, se transformou no “carioca mais paulista” e um xodó da Fiel por suas atuações magistrais, passes precisos, enorme visão de jogo e declarações cheias de paixão que contagiaram a torcida alvinegra. Nos anos 1990, Marcelinho foi sem dúvida um dos mais decisivos e brilhantes meias do futebol brasileiro. 

Marrento, provocador e talentosíssimo, o meia marcou uma quantidade absurda de golaços – um deles ganhou até placa! -, deu mais de duas centenas de assistências na carreira (!) e foi um dos mais letais cobradores de faltas e pênaltis do Brasil – para muitos, um dos maiores de todos os tempos. Aliás, cobrar uma falta para ele era um ritual. Marcelinho ajeitava a redonda com carinho, ficava de joelhos, conversava com ela. Explicava como ela deveria ir, como se comportar e que o gol era o melhor lugar do mundo. Ela quase sempre acreditava. E entrava, seja de muito longe, de perto ou de meia-distância.

O Pé-de-Anjo (ele calçava chuteiras tamanho 35,5) era a referência no meio campo do time corintiano campeão da Copa do Brasil (ele marcou gols nos dois jogos das finais contra o Grêmio) e do Paulista de 1995 (de novo com gols de Marcelinho nos dois jogos contra o Palmeiras, um deles em cobrança de falta) e do esquadrão multicampeão entre 1998-2000. Pensar no Todo-Poderoso Timão daquela época era pensar em Marcelinho, o maior símbolo, o maior ídolo e estrela de uma era inesquecível e dominante do Corinthians. É hora de relembrar. 

Do Madureira à Gávea

Marcelinho Carioca no Madureira 1986 ou 1987
Marcelinho (segundo agachado, da esquerda para a direita), no Madureira.
 

Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro Sulacap, em família humilde, Marcelinho começou a enfrentar os desafios da vida desde pequeno, aos 7 anos, quando recolhia garrafas vazias de refrigerantes da praia junto com seus dois irmãos. Depois, vendeu picolés e trabalhou até como padeiro. Filho de um ex-lateral-esquerdo das categorias de base do Fluminense, Adilson Pereira Surcin, e da dona de casa Suely Surcin, Marcelinho naturalmente pegou gostou pelo futebol e tentou a sorte no Madureira, clube do bairro homônimo e responsável por revelar grandes talentos do futebol brasileiro como Evaristo de Macedo, Jair Rosa Pinto, Lelé e Isaías. Embora muito franzino, o jovem se destacava com a bola nos pés graças à habilidade, velocidade para se desvencilhar dos marcadores – que não tinham tempo de “chegar de jeito” nele -, e a visão de jogo.

Em 1988, o meia conseguiu uma vaga nos juvenis do Flamengo, onde começou sua carreira como profissional. Observado pelo então técnico rubro-negro, Telê Santana, Marcelinho ganhou espaço entre os profissionais e pôde conviver com seu ídolo: Zico, com quem aprendeu a arte de cobrar faltas precisas e infalíveis. Ele também nutria paixão pelo ofício ouvindo no radinho os gols de Éder Aleixo e Roberto Dinamite. 

Marcelinho Carioca

“Próximo da área ele [Zico] é o número 1. Eu aprendi com um grande mestre, um grande professor que é o Arthur Antunes Coimbra”, comentou Marcelinho, em entrevista ao UOL Esporte, em novembro de 2019. Já em seus primeiros anos, Marcelinho chamava a atenção pelos pés pequenos, o que lhe deu o famoso apelido de pé-de-anjo. Ele calçava 35,5 (dependendo da chuteira, 36) e o formato diminuto de seus pés acabava ajudando na hora de tocar a bola e cobrar faltas. “O tamanho do meu pé só ajuda. Encaixo ele totalmente na bola”, dizia o craque.  

A estreia do jogador aconteceu aos 17 anos, curiosamente substituindo Zico, em um Fla-Flu. Tempo depois, saiu seu primeiro gol como profissional, em dezembro de 1989, pouco antes de Marcelinho completar 18 anos – não foi de falta, mas foi no Maracanã. Em 1990, o jovem fez parte de um time lendário do Flamengo na Copa SP de Futebol Júnior e ajudou o rubro-negro a levantar o título. Jogando ao lado do zagueiro Júnior Baiano, do lateral-esquerdo Piá, do meio-campista e lateral Fabinho, do volante Fábio Augusto, do meio-campista Marquinhos, do meia Djalminha e dos atacantes Nélio e Paulo Nunes, Marcelinho ganhou reconhecimento e anotou um gol de falta durante a campanha vitoriosa na competição. Naquele mesmo ano, participou de alguns jogos da campanha do título do Fla na Copa do Brasil, o primeiro do clube no torneio.

Desavenças e a saída

marcelinho junior

Após muita concorrência no meio de campo, Marcelinho ganhou mais chances no ano de 1992 e virou figura frequente no time que seria campeão brasileiro daquele ano. Atuando como meia-esquerda e por vezes como ponta, Marcelinho já era tido como uma das grandes promessas do futebol brasileiro e teve lugar cativo no time em 1993, quando o Flamengo disputou a Copa Libertadores e a Supercopa da Libertadores. Nesse período no time principal, Marcelinho começou a nutrir alguns problemas de comportamento e deixou exposta sua personalidade forte. Em agosto de 1992, brigou com o diretor de futebol do Fla, Vinícius França, durante excursão do clube pela Europa. Em novembro do mesmo ano, criticou o técnico Carlinhos e foi afastado. E, em maio de 1993, se recusou a ficar no banco de reservas em um clássico contra o Vasco.

Esses episódios atrapalharam a relação de Marcelinho com o clube e a torcida. E, em 1993, a diretoria rubro-negra, precisando de dinheiro, resolveu vender boa parte de seus talentos, incluindo Marcelinho, que, mesmo com os problemas vividos na época, não queria deixar o Rio.

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Foto: Agência Estado / Vidal Cavalcante
 

“O presidente (Márcio Braga), na época, levou o Júnior Baiano primeiro na sala, falou, ‘ó, você vai para o São Paulo’. O Júnior Baiano, aquele grandalhão, chorando, com os olhos vermelhos. Chamou o Marquinhos, ‘você vai para o Palmeiras’, chamou o Djalminha, ‘você vai para o Guarani’. E eu fui um dos últimos, falou, ‘ó, você já está vendido para o Corinthians’. Eu falei, mas espera aí, joguei sete anos no Madureira e esperei esse tempo todo para jogar aqui no Flamengo, estou aqui há sete anos e vocês estão mandando a gente embora, vendendo a gente? Ele disse: ‘É porque nós temos que pagar o salário do Renato Gaúcho, e do Gaúcho centroavante na época’.

Eu falei que não queria ir. Não tinha parente em São Paulo, não conhecia nada em São Paulo. Falei: eu não vou. Aí eles disseram: ‘Não, você já está lá. Os três já foram, e você também’. Aí eu dou-lhe uma porrada na mesa, bati na mesa e falei assim, ó, vai chegar um tempo, um momento, vocês vão me buscar, vão pedir para eu voltar, e quem vai falar não vai ser eu, vocês nunca mais vão me ver aqui. Então, assim, eu sou muito grato à torcida do Flamengo, e ao clube, porque cuidou do jovem, do adolescente, do cidadão, e me ascendeu para o futebol brasileiro”. – Marcelinho Carioca, em entrevista a Emilio Botta e publicada no globoesporte.com, 29 de agosto de 2025.

A chegada de um ídolo

marcelinho carioca corinthians 1993
O presidente Alberto Dualib apresenta Marcelinho Carioca no Parque São Jorge, em 23 de dezembro de 1993 (Foto: Acervo/Gazeta Press)
 

Marcelinho foi apresentado no Corinthians em 23 de dezembro de 1993, ao som da sirene de grande contratação no Parque São Jorge, tradição que começou sob a presidência de Wadih Helou em 1968 e popularizada pelo folclórico Vicente Matheus nos anos seguintes. Naquele dia, o jogador já sentiu algo especial pelo clube. Principalmente quando viu a Fiel torcida no Pacaembu em sua estreia oficial (antes, ele jogou um amistoso contra o Comercial de Ribeirão Preto), em janeiro de 1994, contra a Portuguesa, que já teve gol do pé-de-anjo em cobrança de falta. “Essa galera empurra a gente”, disse o jogador de 22 anos após o jogo, vencido pelo Timão por 3 a 1, de virada. O craque comentou sobre sua estreia anos depois.

“Aí você faz o gol de falta e olha o anel do Pacaembu. Vê a galera gritando o seu nome. Aí, amigo, pulei no alambrado. Na semana, foi um rolo compressor. Aí, bateu. Bateu aqui (mostrando o coração)”. – Marcelinho Carioca, em entrevista ao UOL Esporte, novembro de 2019. 

Foi no Corinthians que Marcelinho passou a adotar a alcunha “Carioca”, pelo fato de no elenco já ter outro Marcelinho, o Paulista. Naquele ano de 1994, o meia não levantou títulos, mas mostrou seu poder de decisão ao anotar 33 gols em 70 jogos (!) disputados na temporada. Jogando mais avançado e com liberdade, o meia fez uma grande parceria com Viola no setor ofensivo e virou um xodó da torcida corintiana. No final do ano, ganhou ainda uma convocação de Zagallo para a seleção brasileira e entrou no decorrer do jogo amistoso contra a Iugoslávia, em Porto Alegre, que terminou com vitória canarinho por 2 a 0. O meia ainda venceu sua primeira Bola de Prata da revista Placar como um dos melhores meio-campistas do Brasileirão – o Timão foi vice-campeão. 

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Marcelinho substituiu Ronaldo Fenômeno em seu primeiro jogo pelo Brasil.
 

Em 1995, Marcelinho seguiu em alta e foi uma das peças-chave do Timão na conquista da inédita Copa do Brasil daquele ano. Na final, contra o poderoso Grêmio de Felipão – campeão da Libertadores -, Marcelinho deixou sua marca nos dois jogos: na ida, no Pacaembu, ele marcou um golaço de falta que desempatou o jogo e deu a vitória ao Timão por 2 a 1 – Danrlei nem foi na bola! O placar magro não garantia o título, pois o Grêmio era copeiro e muito forte jogando no Olímpico. Mas o Corinthians fez um grande jogo e, no segundo tempo, um contra-ataque mortal do alvinegro resultou em gol de Marcelinho, que aproveitou a sobra da zaga tricolor e bateu de primeira, sem chance para o goleiro tricolor. O 1 a 0 selou o agregado em 3 a 1 a favor do alvinegro paulista.

o ano que ficou marcado na historia de marcelinho carioca com o corinthians
Foto: PISCO DEL GAISO
 

Foi o primeiro grande título de Marcelinho pelo Timão, mas ele queria mais. Pouco tempo depois, em agosto, o craque viveu um momento histórico pelo Corinthians e justamente contra o rival Palmeiras, nas finais do Paulistão. Antes, na primeira fase, o craque já havia aumentado sua idolatria ao marcar os dois gols da vitória de virada sobre o Verdão por 2 a 1, no Pacaembu. Um deles foi um gol épico em cobrança de falta de muito, mas muito longe, no qual o goleiro alviverde Velloso nem pediu barreira, acreditando não ser necessário. Pois Marcelinho fez isso:

“Esse (gol) de falta foi meu primeiro gol contra o Palmeiras, num lance em que o Velloso não pediu barreira. Estava quase do meio-campo. Não tem como esquecer deste gol. Eduardo Amorim (técnico) no banco de reservas não botou fé: ‘Vai chutar daí?’ (risos)”, lembrou o craque no PodCast GE Corinthians, em 2019. 

“Acho que a identificação do torcedor comigo foi por conta dos gols no maior rival. Em 1994, eu ia no teatro, cinema, restaurante, e o torcedor me falava: ‘Você não fez gol nos caras, não adianta nada’. Eu vinha buscando esse gol, o Velloso sempre defendendo”.

marcelinho carioca comemora gol marcado no classico corinthians e palmeiras
Marcelinho extravasa: craque foi carrasco do Palmeiras em várias oportunidades. Foto: Antonio Gaudério / Folha Imagem
 

Após os dois gols, Marcelinho guardou mais para a final. No primeiro jogo, em Ribeirão Preto, o placar estava 0 a 0 quando o camisa 7 recebeu na meia-lua e bateu de primeira para fazer 1 a 0. O Palmeiras empatou nos acréscimos, com Nilson, e deixou tudo aberto para a volta, também em Ribeirão. Nilson abriu o placar aos 56’, até que o Corinthians teve uma falta a seu favor quatro minutos depois. Marcelinho cobrou e, claro, fez: 1 a 1. A partida foi para a prorrogação e Elivélton fez o gol da virada e do título estadual, o primeiro desde 1988. 

A conquista foi mais do que especial pelo fato de ser em cima do rival, que vivia uma fase recheada de conquistas e grandes nomes como Índio, Antônio Carlos, Cléber, Roberto Carlos, Flávio Conceição, Mancuso, Edílson, Válber, Rivaldo, Alex Alves, Müller, entre outros. Mesmo super favorito, o Verdão sucumbiu ao Timão, que contava, além de Marcelinho em fase esplendorosa, com o goleiro Ronaldo, o lateral Vítor, o ótimo defensor Célio Silva, o zagueiro Henrique, o lateral-esquerdo Sylvinho, o volante Zé Elias, o meia Souza, o talismã Tupãzinho e a dupla Viola e Marques.

O gol de placa

Marcelinho gol de placa

Em 1996, Marcelinho fez provavelmente um dos gols mais bonitos da história do futebol brasileiro e em um lugar muito simbólico: a Vila Belmiro. Em um duelo quente contra o Santos, pelo Paulistão, que terminou com quatro expulsões (duas para cada lado), os rivais alvinegros empataram em 2 a 2, mas tudo isso ficou em segundo plano. O grande momento daquele jogo foi o gol da virada corintiana, anotado por Marcelinho, aos 21’ do segundo tempo. O craque recebeu no meio, arrancou, passou pela marcação e tocou na direita para Tupãzinho, que foi conduzindo a bola até a entrada da área. Na esquerda, Marcelinho acompanhava tudo e pediu a bola, livre. Tupãzinho tocou e, do jeito que a bola veio, Marcelinho deu um toque que encobriu Ronaldo Marconato. Sem deixar a bola cair, o camisa 7 bateu de primeira e o goleiro Edinho só olhou a redonda entrar no fundo do gol. 

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Marcelinho recebe de Pelé a placa, no programa Cartão Verde, da TV Cultura.
 

Foi tão bonito, tão plástico, que virou Gol de Placa a pedido de ninguém mais ninguém menos que o Rei Pelé, que viu aquele gol ao vivo e pediu imediatamente para a diretoria santista confeccionar uma placa para Marcelinho, ainda mais pelo gol ter sido no filho do Rei, Edinho. 

“Foi um lance até inusitado pela plasticidade da jogada. Você vê a reação do jogador do Santos, o Marcos Adriano, ele falou, ‘caraca, o que você fez?’ Porque na hora não tem como você imaginar, foi uma coisa casual. Ela veio, veio aqui na minha direita, a única opção que tinha, não dava pra virar tudo, dá um lençol de chaleira, ela cai na frente, então estouro o goleiro com a chapa no pé, no contrapé do goleiro, que era o Edinho”. 

“Mas quando acaba o jogo, escutei uma voz numa emissora de rádio que ali eu tremi, parei, falou, ‘ó, você fez o gol contra o meu time, na minha casa, contra o meu filho, você merece uma placa’. Aí aquilo ali, aí você chora, você agradece, você não sabe o que você faz. Porque o Rei do Futebol, o Pelé, te dá uma placa, aí passa o outro domingo, ele me entrega uma placa no programa de televisão, e foi algo memorável. Eu recebi o fax do Zico, era fax ainda, o Zico no Japão mandou o fax, o Paulo Roberto Falcão, tanta gente, sabe, bem legal, parabenizando, fiquei extremamente feliz”.  – Marcelinho Carioca, em entrevista a Emilio Botta e publicada no globoesporte.com, 29 de agosto de 2025.

A breve saída e o “Disque-Marcelinho”

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Mesmo sem títulos de expressão em 1996, Marcelinho registrou 31 gols na temporada, embora tenha sofrido com uma punição de oito jogos após um incidente com o árbitro José Carlos Marcondes, em um jogo contra o Internacional, em Porto Alegre – o jogador foi punido por xingar e “desrespeitar” Marcondes, puxando-o pela camisa. Foi a sétima condenação do meia na época, somente no Tribunal Especial. Em 1997, após ser campeão de mais um Paulistão, Marcelinho despertou o interesse do Valencia-ESP e foi contratado pelo clube espanhol por 17 milhões de dólares. O jogador, no entanto, não se adaptou do clube e amargou a reserva na maioria das vezes por conta do técnico Claudio Ranieri, que achava o brasileiro “baixo e com pouca força”, e pediu para deixar o clube já no final de 1997.

Várias equipes brasileiras começaram a desejar o jogador, inclusive o Palmeiras, mas quem acabou comprando de volta o passe do atleta foi a Federação Paulista de Futebol (!), em uma manobra bastante inusitada e que custou 7 milhões de dólares. Ao saber que todos os grandes clubes de SP topavam repatriar o craque, a federação decidiu leiloar o meia através de uma ação chamada “Disque-Marcelinho”. 

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Foto: Sergio Tomisaki
 

Ao custo de três reais por telefonema, os torcedores dos quatro maiores clubes do estado – São Paulo, Palmeiras, Santos e Corinthians – deveriam ligar e escolher o futuro do jogador. “Fiquei preocupado, porque poderia dar Palmeiras, né? Falei para o Eduardo José Farah (presidente da FPF na época): e se der o Palmeiras? ‘Se der, você vai ter que ir’. Mas arrisquei, porque sabia que a torcida do Corinthians é fiel e iria mostrar o carinho que tem pela gente. E deu no que deu”, relembrou Marcelinho, anos depois, ao R7.

A Fiel torcida, claro, dominou as ligações e 62,5% foram para o Corinthians, com 20,3% para o São Paulo, 9,5% para o Santos e 7,7% para o Palmeiras. Mesmo assim, a federação ainda cobrou cerca de quatro milhões de dólares do Timão para cobrir parte do prejuízo que teve com a ação, que teve apenas 580 mil ligações e arrecadação de R$ 1,74 milhão, sendo que o valor esperado era de 5 milhões de dólares. Mesmo assim, o Disque-Marcelinho foi um marco do marketing esportivo na época.

O auge, bicampeonato brasileiro e Bola de Ouro

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Voltar ao Corinthians foi a melhor coisa que poderia acontecer para Marcelinho. Em 1998, o craque viveu uma temporada espetacular e que culminou com o título brasileiro do Timão. Ao longo da campanha, o camisa 7 comandou as ações ofensivas do alvinegro e anotou gols inesquecíveis, como nos 2 a 0 contra o Sport, na Ilha do Retiro, com um gol de falta e outro em “pênalti com bola rolando”, o legítimo golaço de pênalti. Com 19 gols, Marcelinho foi o artilheiro do Corinthians no Brasileirão e marcou gols nos três jogos das finais contra o Cruzeiro: um no 2 a 2 do Mineirão, um no 1 a 1 no Morumbi e um nos 2 a 0 também no Morumbi.


Marcelinho só não foi artilheiro máximo do campeonato por causa de uma briga que teve com o técnico Vanderlei Luxemburgo, em outubro. Ele criticou o esquema do técnico e ainda brigou com um segurança do clube. “Ele (Luxemburgo) tirou a minha artilharia do Campeonato Brasileiro de 1998. O Viola fez 21 gols, eu cheguei com 19, só que eu fiquei cinco jogos fora, nesses cinco jogos tiveram três pênaltis”, comentou Marcelinho, anos depois, ao UOL Esporte, sobre o episódio. Como ambos eram temperamentais, o meia e o treinador viviam uma relação conturbada que acabou explodindo naquela reta final. Felizmente, Marcelinho foi reintegrado a tempo e ajudou o Timão a levantar o caneco. 

“Em 1991 ele (Luxemburgo) me bota para jogar como titular, que quem montou o time campeão brasileiro do Flamengo em 1992 foi o Vanderlei em 1991. Ele montou toda a base, ele montou o time, trocou uma pecinha só, mas ele montou o time e ele me colocou como titular em 1991, como cobrador de falta oficial, de pênaltis, escanteio, de tudo, tendo o Júnior em campo, ficava até meio constrangido. É difícil de falar, porque eu e Vanderlei dentro de campo nos dávamos bem, daqui a pouco fora, a vaidade dele, vaidade minha, é fogo, é fogo, mas não tenho como ficar com raiva dele”. – Marcelinho Carioca, em entrevista a Emilio Botta e publicada no globoesporte.com, 29 de agosto de 2025.

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Luxa e Marcelinho: relação teve muitos atritos, mas rendeu títulos.
 
marcelinho carioca na final do campeonato brasileiro de 1998

Anos depois, ambos tiveram mais brigas, com imbróglios até na justiça. E esse relacionamento explosivo acabou interferindo na trajetória de Marcelinho na seleção brasileira. Em 1998, Luxemburgo já estava no comando da equipe canarinho após a Copa do Mundo e convocou Marcelinho para um amistoso contra a Iugoslávia. O craque marcou, de falta, o gol do Brasil no empate em 1 a 1 com os europeus. Marcelinho foi convocado mais uma vez, contra o Equador, e marcou o primeiro gol dos 5 a 1 do Brasil. No entanto, ele não teria mais chances após a discussão de outubro de 1998 e só voltaria a vestir a camisa verde e amarela uma vez, em 2001, sob o comando de Emerson Leão. Marcelinho disputou quatro jogos e marcou dois gols pelo Brasil na carreira.

Em 1999, o Corinthians passou a ser treinado por Oswaldo de Oliveira e Marcelinho não teve problemas como antes. Com isso, jogou seu futebol com ainda mais brilho e ajudou o Timão a vencer o Campeonato Paulista em cima do rival Palmeiras após vitória por 3 a 0 no primeiro jogo (com um gol de Marcelinho) e empate em 2 a 2 na segunda partida, com outro gol do craque. Tempo depois, foi a vez de conduzir o Corinthians ao bicampeonato brasileiro com 15 gols ao longo da campanha (só não conseguiu marcar nas finais contra o Atlético-MG), passes precisos e atuações decisivas que deram ao meia sua primeira Bola de Ouro como craque da competição. Assim como em 1998, ele marcou 32 gols na temporada com a camisa alvinegra.

“Paz e amor” e campeão do mundo

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O ano de 1999 coroou a maior fase do craque na carreira. Tranquilo e sem polêmicas, o meia focou no futebol e brilhou. O técnico Oswaldo de Oliveira até comentou sobre a fase do atleta na época, dizendo que “ele aprendeu com os erros e amadureceu”. Mesmo assim, nos hotéis onde o Corinthians se concentrava, o jogador ficava no mesmo andar que a comissão técnica e os seguranças… O período de inatividade de 1998, ainda sob o comando de Luxemburgo, foi crucial para o meia repensar sua postura no time, segundo o próprio.

“Foram os piores dias da minha vida. Ninguém imagina o que é ficar 19 dias na solitária, tendo que treinar sozinho, bater faltas e pênaltis sem ninguém por perto. Mas é na diversidade que a gente cresce. Se não tivesse passado por aquela provação, acho que não teria mudado. Ali, sozinho, refleti sobre minha vida, chorei e amadureci”. – Marcelinho Carioca, em entrevista à revista Placar, outubro de 1999. 

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Marcelinho Carioca

Os números do jogador, de fato, só realçaram a fase. Ele deu 27 assistências nos 61 gols do time e marcou 15 gols, três de falta e quatro de pênalti. “Neste ano (1999), passei a jogar mais para o time. Considero o Marcelinho de hoje bem mais solidário do que do ano passado (1998), com toda a certeza. Aliás, não só eu, mas o grupo todo está bem mais solidário que aquele grupo campeão brasileiro em 1998”, comentou o craque na época.

Embalado, o craque foi um dos pilares do Corinthians em mais um momento histórico: o título do Mundial de Clubes da FIFA de 2000, após vitórias sobre Raja Casablanca-MAR (2 a 0) e Al Nassr-ARS (2 a 0), e empate em 2 a 2 com o Real Madrid-ESP, na fase de grupos. Na final, após 0 a 0 no tempo regulamentar e na prorrogação contra o Vasco, a vitória veio nos pênaltis por 4 a 3, apesar de Marcelinho ter desperdiçado sua cobrança. Naquele dia, houve final feliz. Mas, meses depois, um erro do craque seria fatal.

O drama na Libertadores

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O pênalti de Marcelinho e a glória de Marcos.
 

No final de maio e começo de junho, Corinthians e Palmeiras fizeram dois jogos espetaculares pela semifinal da Copa Libertadores de 2000. O verdão lutava pelo bicampeonato, enquanto o Corinthians ainda buscava seu primeiro título. No primeiro jogo, vitória alvinegra por 4 a 3, com um dos gols anotados por Marcelinho. Na partida decisiva, o Corinthians jogava pelo empate, mas o Palmeiras venceu por 3 a 2 e forçou a disputa por pênaltis. Um a um, Marcelo Ramos, Roque Júnior, Alex e Asprilla, pelo Palmeiras, e Ricardinho, Fábio Luciano, Edu e Índio, pelo Corinthians, converteram seus chutes. Como não poderia deixar de ser, até naquele momento teve empurra-empurra, quando Edu fez seu gol e provocou Argel, que foi tirar satisfação e esquentou um duelo já em estado de ebulição. Júnior, principal nome do Palmeiras durante os 90 minutos, tinha a missão de bater o último pênalti do Palmeiras. O lateral mandou no meio e fez o quinto. 

Era hora do último pênalti do Corinthians. Na bola, Marcelinho, o maestro do meio de campo do Timão. Se o camisa 7 fizesse, os chutes continuariam com as cobranças alternadas. O meia ajeitou a bola com carinho e Marcos ficou concentrado no meio do gol. Marcelinho tomou distância até a linha da grande área. O gigante Marcos ficou no meio do gol, esperando o momento certo para pular. Quando Marcelinho correu, Marcos pressentiu que o chute de pé direito do meia iria para o canto direito. Marcelinho chutou forte, Marcos voou ainda mais forte e espalmou. Fim de jogo! 5 a 4 para o Palmeiras, classificado para a final – que seria perdida para o Boca de Bianchi. 

Para Marcelinho, foi o momento mais triste de sua trajetória no Corinthians, que motivou protesto da torcida no CT, bate-boca e vandalismo no carro do jogador, que foi atingido por ovos. “Se tivesse o VAR em 2000, eu estava bonito com o Marcão, porque o Marcão saiu antes. Eu brinco até isso com ele. Mas não tem nada de VAR, não. Ele foi lá, defendeu o pênalti. Foi brilhante. Qual goleiro que não sai antes? […] Ele usou um dos recursos, lógico. Se não adianta um pouco, não tem como chegar. Adiantou e tudo, mas fez uma defesa espetacular”, comentou Marcelinho anos depois, em entrevistas ao UOL Esporte e ao Meu Timão.

Últimos anos e aposentadoria

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A relação de Marcelinho com a torcida ficou estremecida naquele ano de 2000. O clube não se encontrou após o revés para o rival e fez uma péssima campanha na Copa João Havelange, o Brasileirão daquele ano – para sorte do Timão, não houve rebaixamento e o clube escapou da degola. Em 2001, após novas brigas com Luxemburgo (de volta ao Corinthians) e Ricardinho, Marcelinho foi jogar no Santos, onde ficou por três meses e, para sua surpresa, foi muito bem recebido, marcou cinco gols (um deles de falta, em vitória sobre o Grêmio por 4 a 2) em 15 jogos e ganhou até possibilidade de renovação de contrato. Apesar disso, preferiu jogar no futebol japonês e assinou com o Gamba Osaka para depois retornar ao Brasil e vestir a camisa do Vasco.

Em São Januário, Marcelinho viveu grande fase e virou referência ofensiva do clube carioca, ajudando-o na conquista do Campeonato Carioca e vencendo mais uma Bola de Prata na carreira. Após uma breve saída para o futebol árabe, retornou ao cruzmaltino em 2004 e completou 40 jogos e 19 gols pelo clube. “Os meus oito meses em 2003 na Colina e depois o período de 2004 tem o mesmo peso dos nove anos que joguei no Corinthians. Eu me arrepio só em falar. A honraria e respeito que sempre tive pelo presidente Eurico Miranda e todos no clube marcaram a minha vida”, relembrou o meia. Nos anos seguintes, o meia vestiu várias camisas, incluindo a do Corinthians, em 2006, do Ajaccio, do Brasiliense e do Santo André, ajudando o Ramalhão a subir para a elite do futebol brasileiro em 2007 e conquistado o Campeonato Paulista da Série A2 em 2008. Em 2009, o meia enfrentou o Corinthians vestindo a camisa do clube do ABC Paulista e marcou um gol de falta no empate em 1 a 1. 

Já com 39 anos, Marcelinho decidiu se despedir dos gramados em definitivo em 2010, ano do centenário do Corinthians e quando virou uma espécie de embaixador do clube como Senhor Centenário. A despedida foi em janeiro de 2010, no Pacaembu, em amistoso contra o Huracán-ARG. Marcelinho usou a camisa 100 e teve ótima atuação nos 45 minutos que participou. Ele foi substituído no intervalo e saiu ovacionado pela torcida, que cantou em coro seu nome (o Corinthians venceu por 3 a 0). Na despedida, ele se declarou para a torcida:

“Eu amo vocês. O que sou como atleta profissional de futebol eu devo ao Corinthians e a essa nação corintiana. Obrigado por me fazerem feliz e me ensinarem muito. Aprendi a ser homem e a ser cidadão, mas acima de tudo aprendi a ser o verdadeiro corintiano”.

marcelinho despedida 2010
Despedida de Marcelinho Carioca, ex-jogador do Corinthians, no Estádio do Pacaembu.

Apesar da homenagem, a maneira como foi organizada a despedida chateou o craque. “A despedida é uma coisa que ninguém sabe. Foi muito estranha. Não para o torcedor. Minha relação com o torcedor sempre foi a mil por hora, amável, de alegria, nunca teve contestação. Sempre nas alturas. Naquele dia contra o Huracán, em janeiro, chegaram para mim e falaram assim: ‘Vai ter o jogo lá no Pacaembu. Vai lá’. Eu peguei meu carro, minha chuteira e fui para o Pacaembu. […] Achei que iria para o hotel, almoçar com os jogadores, alguma coisa assim. É tipo uma coisa assim: ‘Você quer fazer despedida? Vai ter um jogo aí’. Me chateou demais”. – Marcelinho Carioca, em entrevista exclusiva à ESPN, 02 de abril de 2025.

Para sempre da Fiel

marcelinho busto corinthians
Marcelinho ganhou um busto no Parque São Jorge, em dezembro de 2020. Foto: José Manoel Idalgo / Agência Corinthians
 

Após a aposentadoria, o jogador se dedicou aos estudos, se formou em Jornalismo e passou a trabalhar em emissoras de TV. Tentou ainda a carreira política, mas sem sucesso. O fato é que Marcelinho Carioca se consagrou como um dos maiores ídolos da história do Corinthians, um dos mais talentosos meias do futebol brasileiro nos anos 1990 e um ícone alvinegro em todos os momentos. Foi um jogador que tratou o manto corintiano como “segunda pele”, e fez de tudo para dar alegria a uma torcida exigente e apaixonada. Mesmo com as brigas, as polêmicas e as frases de efeito, sua história foi enorme e jamais será apagada. O pé-de-anjo será sempre da Fiel. E um craque imortal.

Os gols de falta de Marcelinho na carreira:

  • Corinthians – 57 gols
  • Flamengo – 8 gols
  • Vasco – 7 gols
  • Al Nassr – 4 gols
  • Brasiliense – 3 gols
  • Santo André – 3 gols
  • Santos – 2 gols
  • Ajaccio – 1 gol
  • Brasil – 1 gol
  • TOTAL: 86 gols

Números de destaque:

  • Disputou 242 jogos e marcou 49 gols pelo Flamengo.
  • Disputou 433 jogos e marcou 206 gols pelo Corinthians.
  • Disputou 878 jogos e marcou 307 gols na carreira.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Zico sempre fala o carioca foi o melhor nas faltas e ponto final.o melhor três dedos da história também fora os gols olímpicos,gols do meio da rua,de fora,da lateral, pé direito,esquerdo e até de cabeça.obrigado pé de anjo pelas inúmeras alegrias proporcionadas com o manto sagrado do parque ídolo eterno.

  2. Um dos melhores batedores de falta que o Brasil já teve, sem sombra de dúvidas. Torcendo para o Palmeiras na época, ficávamos com raiva por ele ser carrasco. Época boa do final dos anos 90, quando o Derby era uma verdadeira arena de gladiadores, com jogos eletrizantes, cheios de craques e imprevisíveis. Marcelinho foi um desses craques.

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