
Grandes feitos: Campeã da Copa das Confederações da FIFA (2005) e Campeã da Copa América (2004).
Time-base: Dida (Júlio César); Cafu (Cicinho / Maicon), Lúcio (Luisão / Cris), Juan (Roque Júnior) e Roberto Carlos (Gilberto / Gustavo Nery); Emerson (Kléberson / Gilberto Silva), Zé Roberto (Renato), Kaká (Juninho Pernambucano / Edu) e Ronaldinho (Alex / Diego / Ricardinho); Ronaldo (Robinho / Luís Fabiano) e Adriano (Ricardo Oliveira / Fred). Técnico: Carlos Alberto Parreira.
“A melhor seleção que nunca existiu…”
Por Guilherme Diniz
A quantidade de craques era absurda. No planeta, a única seleção que podia formar dois, talvez três times competitivos. A prova máxima disso aconteceu em 2004, quando um time B disputou e venceu a Copa América, com direito a triunfo na final diante do time A da Argentina. Em 2005, veio o título da Copa das Confederações, derrotando pelo caminho a Alemanha e, de novo, a Argentina. Tais títulos, somados aos shows nas Eliminatórias, transformaram o Brasil no imenso favorito ao título da Copa do Mundo de 2006. Uma seleção estrelada, que tinha remanescentes do título de 2002 como Dida, Cafu, Lúcio, Roberto Carlos, Gilberto Silva, Kaká, Ronaldinho e Ronaldo, outros jogadores em grande fase como Emerson, Zé Roberto, Juninho Pernambucano e Adriano, e ainda Cicinho, Maicon, Cris, Robinho, Gilberto…
Acostumada a vencer – o Brasil vinha de três finais de Copa seguidas, com dois títulos e um vice -, sem rivais e certa de suas qualidades, a seleção brasileira tinha tudo para fazer história e superar em títulos a lendária geração 1958-1970. A Alemanha seria palco do show do Quadrado Mágico, como ficou conhecido o ataque formado por Ronaldinho (melhor jogador do mundo na época), Kaká, Adriano e Ronaldo. Bem, seria se aqueles craques tivessem a noção exata do que eles poderiam fazer na Copa. E tivessem foco. Desde o início, a preparação canarinho foi uma festa, com shows, excesso de repórteres, torcedores aos borbotões e até invasão de campo durante os treinamentos. Não tinha como criar qualquer estrutura vencedora e organizada sem organização. Para piorar, os craques do time chegaram ao Mundial fora de forma, longe de suas melhores fases e dispersos.
As vitórias na fase de grupos iludiram. O triunfo sobre Gana, nas oitavas, mais ainda. Até a realidade vir à tona nas quartas de final, quando a França de Zidane “deitou” sobre aquele time caricato, venceu por 1 a 0 e eliminou o Brasil da Copa. Chegava ao fim o sonho do hexa. O fim da melhor seleção que nunca existiu. Ficaram as lembranças dos títulos de 2004 e 2005 e de como seria a Copa se o técnico Parreira tivesse mudado algumas peças e apostado em nomes em melhor fase ao invés dos medalhões. Ali, terminava também a última fase de ouro do Brasil, que nunca mais conseguiu reunir tantos craques ao mesmo tempo e só colecionou papelões desde então. É hora de relembrar o Brasil 2004-2006.
Sumário
A safra mágica

Após derrotar a Alemanha por 2 a 0 na final e conquistar o pentacampeonato da Copa do Mundo da FIFA em 2002, o Brasil atingiu um patamar único e incontestável no futebol. Presente nas últimas três finais de Mundial e com duas conquistas a mais do que seus concorrentes diretos na época – Itália e Alemanha, ainda tricampeãs -, a seleção canarinho via um vertiginoso horizonte pela frente. Isso porque a maioria de seus craques tinha idade para brilhar em mais uma Copa e uma nova geração pedia passagem. Apesar da mudança no comando técnico – Felipão deixou a equipe após amistoso contra o Paraguai, em agosto de 2002, e deu lugar a Carlos Alberto Parreira -, a seleção teria como time-base o elenco campeão do mundo além do acréscimo de talentos que brilhavam por seus clubes na época.

Em sua reapresentação na CBF, Parreira (campeão do mundo com a seleção em 1994) salientou que não iria mais utilizar o esquema com três zagueiros do ex-técnico Felipão. “A seleção tem de ser marcada pela versatilidade e qualidade dos jogadores brasileiros. A equipe tem de ser equilibrada. Não podemos colocar os jogadores brasileiros em uma camisa de força”, disse o treinador, que teria a companhia de Zagallo como seu coordenador técnico, assim como em 1994. Parreira via com bons olhos jogadores como Diego e Robinho, estrelas do Santos campeão brasileiro de 2002, Luís Fabiano, artilheiro do São Paulo, Alex, cerebral meia do Cruzeiro campeão da Tríplice Coroa de 2003, os laterais Maicon (Cruzeiro) e Gustavo Nery (São Paulo), os zagueiros Luisão (Cruzeiro) e Juan (Bayer Leverkusen), os meio-campistas Renato (Santos) e Edu (Arsenal), e o goleiro Júlio César, grande nome do Flamengo.
Com o passar do tempo, novos nomes seriam acrescentados nas convocações – Zé Roberto, gastando a bola no Bayern; Juninho Pernambucano, artífice do super Lyon dos anos 2000, Cris, zagueiro do Cruzeiro e, posteriormente, do Lyon – e o Brasil teria um leque de opções que poderia ser explorado nas várias competições do ciclo pré-Copa. Era um horizonte de ouro, semelhante ao vivido pela safra pós-1958, que manteve o Brasil no topo até 1970.
Tropeços e de volta aos trilhos

O início daquele trabalho, no entanto, foi bem abaixo das expectativas. A equipe realizou cinco amistosos, venceu dois (3 a 2 na Coreia do Sul e 3 a 0 na Nigéria), empatou dois (0 a 0 com a China e 0 a 0 com o México) e perdeu um (2 a 1 para Portugal). Na primeira competição oficial, a Copa das Confederações de 2003, a seleção perdeu para Camarões (1 a 0), venceu os EUA (1 a 0, gol de Adriano) e empatou em 2 a 2 com a Turquia, placar que acabou eliminando o time brasileiro na fase de grupos, algo que não acontecia em um torneio da FIFA desde 1966.
No pós-jogo, Parreira minimizou a eliminação. “Nós perdemos cinco jogos nas Eliminatórias (da Copa de 2002), em algum momento o nosso futebol ficou desprestigiado? O futebol brasileiro é irretocável”. De fato, ainda era um período de muitos testes, como exemplo a escalação do Brasil no empate contra a Turquia: Dida; Maurinho, Lúcio, Juan e Gilberto (Kléber); Emerson, Kléberson, Ronaldinho e Ricardinho (Alex); Ilan (Gil) e Adriano.
Em setembro de 2003, a seleção virou a chave e iniciou as Eliminatórias com outra mentalidade. Já com boa parte dos titulares, o Brasil estreou com vitória diante da Colômbia, em Barranquilla, por 2 a 1, gols de Ronaldo e Kaká. Na sequência, a equipe derrotou o Equador, em casa, por 1 a 0 (gol de Ronaldinho), empatou em 1 a 1 com o Peru (gol de Rivaldo), fora, e empatou em 3 a 3 com o Uruguai em casa (dois gols de Ronaldo e um de Kaká), partida que gerou vaias e mostrou muitos erros da zaga canarinho, principalmente no jogo aéreo.

A seleção ainda não deslanchava e empatou os dois jogos seguintes – 0 a 0 com a Irlanda (amistoso) e 0 a 0 com o Paraguai (Eliminatórias). Só em abril de 2004 que a equipe de Parreira voltou a vencer, nos 4 a 1 sobre a Hungria, em Budapeste, gols de Kaká, Luís Fabiano (2) e Ronaldinho. No mês seguinte, o Brasil fez um amistoso emblemático contra a França, no Stade de France, como parte das celebrações do aniversário de 100 anos da FIFA, que convidou as duas seleções por serem as mais recentes campeãs mundiais (França-1998 e Brasil-2002). O jogo terminou empatado em 0 a 0 e cada equipe jogou com um uniforme retrô no primeiro tempo, como uma volta às raízes do futebol.

Tempo depois, a seleção fez outro amistoso, dessa vez contra a seleção da Catalunha, e venceu por 5 a 2. Nesses jogos, o time jogou melhor e mais fluído com as entradas de Juninho Pernambucano no meio e Luisão e Cris no miolo de zaga. Mas o ponto alto veio em junho, quando a equipe derrotou a Argentina por 3 a 1, no Mineirão, com três gols de pênalti de Ronaldo, todos originados após jogadas do Fenômeno. Foi um jogo marcante da equipe de Parreira, que abdicou do pragmatismo das partidas anteriores e foi bem mais ousada e criativa. Ronaldo ainda calou os críticos, que o chamaram de “gordo” antes do jogo e ele respondeu da maneira que mais gostava: com gols, em um palco onde ele brilhou em seu início de carreira, pelo Cruzeiro.
“Foi uma vitória merecida. Claro que não foi a melhor partida da seleção, mas o importante foi a vitória. Não há tempo para treinar. Acho que essa é a minha casa”, disse o craque após o jogo.

Na rodada seguinte, a equipe viajou até Santiago e vencia o Chile por 1 a 0 (gol de Luís Fabiano) até os 44’ do segundo tempo, quando Cafu derrubou Pérez na área e Navia marcou, de pênalti, o gol do empate. Líder das Eliminatórias, o Brasil teria um novo desafio pela frente: a Copa América, competição que seria realizada no Peru e na qual o técnico Parreira admitiu já após aquele duelo contra o Chile que não iria levar sua força máxima.
Primeiro, comentou que não levaria o capitão Cafu. Depois, rechaçou que “por vários motivos, a seleção poderá mesmo ser um pouco diferente da que jogou aqui”. Ronaldo foi outro que deixou claro que não queria disputar o torneio. “Prefiro tirar minhas férias. Estou muito cansado, quero esquecer um pouco o futebol para voltar com tudo na próxima temporada”, disse o camisa 9. Outro que também não seria convocado era o lateral-esquerdo Roberto Carlos, também alegando cansaço. Os dois atletas estavam entre os que defendiam o fim da Copa América na época, por entenderem que a competição prejudicava o time nas Eliminatórias, no velho debate sobre o calendário que ainda era bem brando se comparado com o atual.
Com isso, Parreira teria que quebrar uma sina de maus resultados da seleção quando jogava com sua equipe B. Em três edições de Copa das Confederações (1999, 2001 e 2003) e uma de Copa América (2001), o Brasil não conseguiu o título e fez campanhas bem ruins. Mas havia algumas diferenças com relação às campanhas citadas: o elenco à disposição de Parreira naquele ano de 2004 era bem melhor e, embora não tivesse vários titulares, ainda poderia contar com Adriano, que vivia grande fase e era uma arma para impor aos rivais um estilo de jogo explosivo, de chutes poderosos e de imposição. “Vamos montar uma equipe forte, de acordo com as tradições do futebol brasileiro”, garantiu Parreira.
O grupo pela América

Na convocação, Parreira apostou em vários nomes que já eram constantes nas Eliminatórias, em surpresas e acabou deixando os pentacampeões de fora (exceto Kléberson). Os convocados foram:
- Goleiros: Júlio César (Flamengo) e Fábio (Vasco)
- Laterais-Direitos: Maicon (Cruzeiro) e Mancini (Roma-ITA)
- Laterais-Esquerdos: Gustavo Nery (São Paulo) e Adriano (Coritiba)
- Zagueiros: Luisão (Benfica-POR), Juan (Bayer Leverkusen-ALE), Bordon (Stuttgart-ALE) e Cris (Cruzeiro)
- Meio-campistas: Renato (Santos), Kléberson (Manchester United-ING), Alex (Cruzeiro), Edu (Arsenal-ING), Dudu Cearense (Kashiwa Reysol-JAP), Júlio Baptista (Sevilla-ESP), Diego (Santos) e Felipe (Flamengo)
- Atacantes: Adriano (Internazionale-ITA), Luís Fabiano (São Paulo), Ricardo Oliveira (Valencia-ESP) e Vágner Love (Palmeiras).
A lista gerou ceticismo e até indignação no público peruano, que queria ver as estrelas do Brasil e fez com que não fossem vistas as demonstrações de euforia comuns que a equipe campeã do mundo causava nos lugares que ia. Parreira tinha um retrospecto bem ruim nas vezes que comandou a seleção no torneio (em 1983 e 1993): ganhou três jogos, empatou seis e perdeu outros três. Ele tinha a chance de enterrar de vez seu fantasma, embora não levasse a competição à sério.
“Não vou deixar de dormir, não estou preocupado com isso. O Brasil ficou 50 anos sem ganhar a Copa América [entre 1949 e 1989], e o que aconteceu com o futebol brasileiro? Deixou de ser respeitado? Qual a importância de perder a Copa América? O que dá prestígio é Copa do Mundo. A verdadeira medalha de ouro é a Copa. Essa sim tira o meu sono”, disse Parreira, em entrevista à Folha de S. Paulo, em julho de 2004.
Por outro lado, o treinador disse aos seus atletas que a Copa América era “um dos torneios mais importantes do mundo” e que estaria no mesmo nível da Eurocopa se fosse disputada a cada quatro anos – na época, a periodicidade variava muito. A competição seria um laboratório para o técnico testar os substitutos de Cafu e Roberto Carlos, além de buscar as peças ideais para assumir a titularidade na zaga e no meio de campo.
Rumo à final

Na fase de grupos, o Brasil jogou o suficiente para se classificar. Enfrentou na estreia o Chile e venceu por 1 a 0, gol de Luís Fabiano. Na sequência, bateu a convidada Costa Rica por 4 a 1, com três gols de Adriano e um de Juan, e garantiu a vaga na fase final. No último jogo do grupo, para definir a primeira posição, o Brasil acabou perdendo para o Paraguai por 2 a 1 e terminou em segundo lugar, com seis pontos, enquanto a albirroja avançou com sete. Nas quartas de final, o time de Parreira teve pela frente o México, que não viu a cor da bola: vitória canarinho por 4 a 0, com dois gols de Adriano, um de Alex e outro de Ricardo Oliveira.
Na semifinal, o adversário foi o Uruguai, que havia dado muito trabalho ao time brasileiro nas Eliminatórias. Parreira queria um time mais aplicado na marcação e que não deixasse o rival jogar. “Vamos acabar com essa história de que o Brasil joga e deixa jogar. Se melhorarmos essa condição, nosso futebol será quase imbatível”, disse o treinador, em entrevista reproduzida no jornal Folha de S.Paulo, em 21 de julho de 2004. Ele ainda ressaltou que não iria mais fazer testes e que já sabia quais atletas continuariam no projeto até a Copa.
“As observações foram feitas e quem sai enriquecido disso não sou eu e sim o futebol brasileiro. Nós temos uma equipe até 2010, mas agora temos que nos aplicar para chegar à final”.
Vivendo seu pior momento em décadas – a Celeste não se classificou paras as Copas de 1994 e 1998, caiu na primeira fase na Copa de 2002 e não iria se classificar para a Copa de 2006 -, o Uruguai costumava crescer quando enfrentava o Brasil e isso se repetiu naquela semifinal. Marcelo Sosa abriu o placar aos 22’ do primeiro tempo, em nova jogada pelo alto que vitimou a zaga brasileira. No segundo tempo, logo no primeiro minuto, Alex recebeu no meio e lançou para Luís Fabiano. O atacante bateu cruzado e a bola chegou para Adriano empurrar e marcar seu sexto gol no torneio. A partida permaneceu empatada e foi para os pênaltis. Na marca da cal, os batedores brasileiros foram perfeitos e Júlio César defendeu o chute de Sánchez, garantindo a vitória por 5 a 3 e a vaga na final. Era hora de enfrentar um velho rival: a Argentina, com sua seleção principal e sedenta por um título que não conquistava desde 1993.
A “primeira” final

Com décadas e décadas de história, Brasil e Argentina jamais haviam decidido uma Copa América em jogo único. E tal acontecimento seria visto de maneira inédita na decisão de 25 de julho de 2004, no Estádio Nacional de Lima. O fracasso argentino na Copa do Mundo de 2002 (caiu na primeira fase) colaborou para que o técnico Marcelo Bielsa levasse ao Peru sua força máxima em busca do troféu e do fim do jejum de 11 anos sem títulos. Repleta de estrelas como Abbondanzieri, Ayala, Heinze, Zanetti, Mascherano, Sorín, Kily González, Tevez e D´Alessandro, a Argentina caminhou até a final de maneira tranquila e sem grandes problemas. Na primeira fase, goleadas sobre Equador (6 a 1) e Uruguai (4 a 2) e apenas uma derrota, para o México (1 a 0). Nas quartas de final, vitória sobre o Peru, por 1 a 0, e triunfo por 3 a 0 sobre a Colômbia.
Antes da partida, o técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, tratou de jogar a responsabilidade para o lado argentino e disse que seus jogadores iriam “se divertir” na decisão. Já os Hermanos encaravam o duelo como a oportunidade única e indispensável para encerrar a seca de taças e comemorar um título continental sobre seu maior rival. A torcida alviceleste, claro, era só confiança e dizia que a “defesa do Brasil era frágil”, que “era só tirar a bola deles que o assunto estava encerrado” e que “os brasileiros não sabiam jogar coletivamente”. Times A e B a parte, o fato é que a final seria eletrizante e com todos os ingredientes possíveis para um clássico entre Brasil e Argentina. Ainda mais se tratando da primeira final legítima entre ambos na história.
O épico de Adriano e o título continental

Com um esquema muito bem montado por Bielsa, a seleção argentina não deu espaços para o Brasil e começou marcando o rival já no campo de ataque e pressionando a saída de bola da equipe canarinho. Sem poder pensar, os brasileiros tentavam a ligação direta entre a defesa e o ataque, sem grandes participações do meio de campo. Alex, o responsável pela criação, sofria com a marcação de Mascherano, uma das maiores revelações do torneio. No ataque, Luís Fabiano era novamente apático e Adriano sempre tinha mais de um defensor em sua cola. Com isso, o jogo era todo da Argentina e o trio de ataque formado por Rosales, Tevez e Kily González levava constantes perigos à nervosa zaga brasileira. Em cruzamentos ou jogadas pelas pontas, os Hermanos mostravam que queriam mesmo ser campeões e a tal “brincadeira” do Brasil tinha cara de vice-campeonato. Aos 19´, Lucho recebeu de Tevez nas costas de Maicon, entrou na área e foi derrubado por Luisão. Pênalti. Na cobrança, Kily González bateu e fez: 1 a 0.
O gol acordou ligeiramente o Brasil, que tentou adiantar a marcação e reter mais a bola. Em vão. Mais avançado, o time canarinho era desarmado com facilidade pelos argentinos, que tinham a bola em seus pés na maior parte do tempo. Estava dura a vida brasileira. Foi então que, nos acréscimos, quando a Argentina já pensava no descanso do intervalo, o Brasil teve uma falta a seu favor. Na cobrança, Alex. O meia bateu e colocou a bola na cabeça de Luisão, que empatou no último lance da primeira etapa: 1 a 1. O gol foi um balde de água gelada nos argentinos e uma dose extra de ânimo para os combalidos brasileiros. Para muitos, foi injusto pelo que a Argentina jogou. Mas, para a partida, era a mostra de que nada estava ganho e que os alvicelestes não eram lá tão favoritos assim.
Assim como na primeira etapa, a Argentina entrou ligada no segundo tempo e só não fez 2 a 1 logo aos quatro minutos porque a trave não deixou. Após um cruzamento de Lucho, a bola passou por toda a zaga brasileira, Tevez tocou e a redonda raspou a trave de Júlio César. Aos nove minutos, Kléberson se machucou e deu lugar a Diego. O Brasil perdia um volante de marcação e ganhava um meia armador. Era bom ou ruim? Àquela altura, poderia ser ruim. Mas, em longo prazo, seria muito bom.
Aproveitando os espaços e a saída do zagueiro Luisão, a Argentina foi pra cima e não arredou o pé até conseguir o segundo gol. Aos 42´, Zanetti cruzou, a zaga brasileira afastou, mas na sobra o volante Renato furou e deixou o caminho livre para Delgado dominar e fuzilar para o gol: 2 a 1. Era tudo o que não podia acontecer para os brasileiros. E tudo o que os argentinos haviam martelado para conseguir. O gol fez explodir a torcida alviceleste no estádio e o título parecia já ter um novo dono.

Restavam apenas mais cinco, seis minutos, e o Brasil teria que fazer pelo menos um gol para levar a decisão para os pênaltis. Levando em consideração que os portenhos tinham mais posse de bola, contavam com seu esquema de jogo completo e não tinham desfalques na zaga como o Brasil, a tarefa canarinho era praticamente impossível. E foi baseado nesse cenário que dois jovens queridinhos da torcida argentina começaram a fazer uma festa particular que teria um efeito totalmente contrário. Ao invés de gastar o tempo tocando a bola de maneira inteligente e com respeito, a Argentina permitiu que a dupla Tevez e D´Alessandro brincasse com a bola na lateral do campo como se fossem os donos do espetáculo.
Recuadinhas, passadas de pé, idas e vindas para lugar nenhum. Eles debochavam dos brasileiros e não viam a hora do árbitro encerrar a partida. Irados, os jogadores vestidos em amarelo, verde e azul se encheram de brio para recuperar a bola e tentar construir uma jogada. Apenas uma. Seria o bastante para o empate. Eles sabiam disso. E tinham talento para isso, embora muita gente desconfiasse. Aos 45´, o juiz assinalou três minutos de acréscimo. Nas TVs e nas rádios do Brasil, os comentaristas já diziam que “a Argentina merecia o título”, que “eles haviam se preparado mais”, enfim, que a vitória já era alviceleste. Ninguém acreditava em mais nada.
Aos 47´12”, Renato cobrou uma falta para a área argentina e a zaga rival afastou. Era o fim? Não. A bola voltou ao meio de campo e caiu nos pés canarinhos. Aos 47´27”, Diego recebeu, olhou para a frente e viu dois centroavantes de amarelo na área portenha. O meia correu, escapou da marcação de D´Alessandro e chutou alto. Luís Fabiano ganhou dos zagueiros e a bola escapou. Aos 47´34”, a bola sobrou para Adriano. Ele deu uma puxeta que tirou a redonda do zagueiro, trouxe para a frente e fuzilou com sua letal perna esquerda aos 47´36”. Abbondanzieri nem viu a cor da bola ou de onde veio o chute. GOL! Golaço! No último minuto do jogo, o Brasil respondia às brincadeiras e firulas argentinas com um gol épico e histórico do artilheiro daquela Copa América: Adriano, camisa 7, sete gols.
No Brasil, não houve uma pessoa sequer que não pulou, gritou, deixou cair o balde de pipoca ou que derrubou toda a garrafa de cerveja no barzinho no instante do gol de Adriano. Parecia final de Copa do Mundo! O gol foi a deixa para o árbitro Carlos Amarilla encerrar o duelo e dar início às cobranças de pênaltis. Como não poderia deixar de ser, os argentinos foram para cima dos brasileiros e por pouco uma grande briga não aconteceu. Se a Argentina era favorita antes e durante o jogo, nos pênaltis o Brasil tinha ampla vantagem, principalmente no lado emocional. O título canarinho estava bem próximo.



Na marca da cal, Adriano, Edu, Diego e Juan converteram suas cobranças, enquanto D’Alessandro (Júlio César defendeu) e Heinze (pra fora) erraram seus chutes. O placar de 4 a 2 deu o título continental ao time B do Brasil, campeão da Copa América sobre o time A da Argentina! A diversão, enfim, estava completa. Na primeira final legítima entre os dois maiores rivais do planeta, eis que os pentacampeões vencem de uma maneira que nem o mais saudosista ou fanático poderia imaginar. Anos depois, o “Imperador” Adriano comentou sobre o gol que selou o empate canarinho na final.
“Na verdade, eu fui dar uma cotovelada no zagueiro, acabei girando para o gol e a bola sobrou ali para mim. Virei, consegui bater no canto e fiz o gol. Isso (a cotovelada) não é certo, óbvio. Não estou dizendo que foi o certo, mas na hora da cabeça quente, eles estavam sacaneando, a gente perde a cabeça (risos). A bola bateu e sobrou para mim. Eu já tinha botado o braço para trás, já estava meio que virando. Então, deu para puxar a bola mais para frente e chutar no canto.” – Adriano, em entrevista ao globoesporte.com, 21 de junho de 2024.
“Eu tinha noção de onde o gol fica, o atacante tem a direção do gol. Não escolhi canto. Queria chutar, porque sabia que se eu chutasse forte era quase impossível o goleiro pegar”, completou o atacante, grande nome do Brasil no torneio e que garantiu sua vaga no elenco brasileiro para os próximos jogos e provavelmente para a Copa do Mundo. Parreira destacou a força do grupo e lembrou que os argentinos não respeitaram o Brasil.
“Não se brinca com o futebol pentacampeão. Eles estavam em vantagem e começaram fazer gracinhas na nossa frente. Admito tudo, mas não esse negócio de pisar na bola e dar toques de lado como eles fizeram”, disse Parreira, na coletiva de imprensa após o jogo. “Em nenhuma momento eu disse que seria fácil. O time argentino é mais rodado que o nosso e bem mais experiente. Ter chegado à final já era uma conquista muito boa. Agora ser campeão, só provou que o Brasil tem uma safra muito boa”.
Expandindo a fama e o Jogo da Paz

O título da Copa América aumentou ainda mais o peso da seleção brasileira no mundo do futebol. Vencer um título continental sem o time titular só reforçou a capacidade de se formar talentos no país, além da ótima fase de seus atletas. Ainda em 2004, o Santos seria campeão brasileiro e Robinho, grande estrela do time, entraria no radar de vários clubes da Europa até ser contratado pelo Real Madrid, em 2005. Adriano continuaria a brilhar pela Internazionale até ganhar o apelido de Imperador. No Barcelona, Ronaldinho viveria a melhor fase da carreira e a fazer coisas inacreditáveis com a bola nos pés, gerando comparações até com Pelé e Maradona. Ronaldo, mesmo enfrentando problemas com a balança, ainda marcava gols e era uma peça importante do Real Madrid dos Galácticos. E Kaká já era um xodó no Milan, onde seria campeão italiano em 2004 e chegaria à final da UCL de 2005.
Isso sem falar no restante do time, com Dida e Cafu titulares absolutos do Milan, Roberto Carlos titularíssimo no Real Madrid, Lúcio um expoente no futebol alemão tanto no Bayer Leverkusen quanto no Bayern, seu novo clube a partir de 2004, Emerson em plena forma pela Roma e, depois, pela Juventus, e Zé Roberto cada vez mais importante no esquema tático do Bayern.

Em agosto de 2004, a seleção teve até um papel humanitário ao participar do Jogo da Paz na cidade de Porto Príncipe, no Haiti, contra a seleção local. O amistoso foi realizado com o objetivo de iniciar o desarmamento no país caribenho, que vivia uma intensa Guerra Civil desde as comemorações do bicentenário de sua independência, em janeiro daquele ano. Os ingressos eram oferecidos em troca de armas, e mais de 15 mil pessoas compareceram ao estádio. Para aumentar o apelo, o Brasil levou ao Haiti várias de suas estrelas, entre eles Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos, Gilberto Silva, entre outros. O jogo foi um acontecimento no Haiti, com os jogadores brasileiros muito requisitados pelo povo haitiano.
Em campo, apesar dos pedidos do então presidente Lula para o Brasil “não marcar muitos gols”, a seleção goleou por 6 a 0, com três gols de Ronaldinho, dois do meia Roger e um de Nilmar. “Se tivessem facilitado, nós teríamos considerado uma humilhação. Nós preferimos perder e ficamos felizes porque os jogadores brasileiros tiveram um grande coração por vir fazer este jogo aqui”, comentou após o jogo Jean Marie, médico da seleção haitiana. Nas arquibancadas, a torcida nem ligou para o revés e torceu tanto para o Brasil quanto para o Haiti, em suas tímidas investidas ao ataque. Cada gol brasileiro foi celebrado, principalmente os de Ronaldinho, que arrancou sorrisos e aplausos de todos com seus belos gols e dribles desconcertantes – em um dos gols, passou por quatro marcadores e o goleiro antes de marcar.

Mesmo com o forte esquema de segurança e as barreiras montadas no estádio e nos arredores, não foi fácil tirar os jogadores do local após o amistoso. Torcedores haitianos e até os soldados brasileiros que participavam da missão em prol da paz cercaram os veículos blindados de combate que levaram os jogadores ao aeroporto. Os fãs atiraram sem parar camisetas para os jogadores, principalmente Ronaldo, em busca de autógrafos.
Por conta da iniciativa, a seleção ganhou da FIFA naquele ano o Prêmio Fair Play. A ONU instalou uma missão especial no Haiti em setembro de 2004 a fim de estabilizar o país e acabar com a guerra. Tal missão só foi encerrada em abril de 2017, em um longo e complicado processo. O “Jogo da Paz” virou até documentário, produzido por Caíto Ortiz e João Dornelas, chamado O Dia Em Que O Brasil Esteve Aqui.
Em busca de tranquilidade pela vaga na Copa

Após o título continental e o Jogo da Paz, o Brasil voltou suas atenções às Eliminatórias para a Copa do Mundo. Antes, encarou a Alemanha, no Estádio Olímpico de Berlim, em partida amistosa que reeditou a final da Copa de 2002. Comandada pelo novato Jürgen Klinsmann, a Alemanha tentava se reformular após a saída do técnico Rudi Völler e precisava de um novo time a fim de fazer bonito no Mundial em sua casa, dali a dois anos. Ronaldinho, em cobrança de falta, abriu o placar para a seleção, mas Kevin Kuranyi empatou e o placar ficou em 1 a 1. Na época, Parreira desejou “boa sorte” ao técnico Klinsmann e queria que aquele jogo fosse repetido em 2006, na grande final.
Após o amistoso, o time canarinho enfrentou a Bolívia, no Morumbi, e venceu por 3 a 1, com gols do trio Ronaldo, Ronaldinho e Adriano. Dias depois, em Maceió, o Brasil só empatou com a Colômbia (0 a 0), e, na sequência, perdeu para o Equador por 1 a 0, fora de casa, resultado que acabou com a invencibilidade do time nas Eliminatórias. Já em 2005, a equipe de Parreira deu a volta por cima ao vencer o Peru, em casa, por 1 a 0 (gol de Kaká), empatou em 1 a 1 com o Uruguai em Montevidéu (gol de Emerson) e goleou o Paraguai em casa por 4 a 1 (dois gols de Ronaldinho, um de Zé Roberto e um de Robinho), resultado que praticamente colocou a seleção na Copa.
Para se classificar na próxima rodada, o Brasil tinha que vencer a Argentina em Buenos Aires. No entanto, a Albiceleste estava “mordida” com o rival desde a final da Copa América e fez daquele jogo sua “final de Copa”. Com força máxima e Riquelme impecável, deu Argentina. O craque deu assistências, pintou, bordou e marcou um golaço simplesmente épico, para deixar até o artista Ronaldinho com inveja na época. O camisa 8 deu um toque de calcanhar fantástico para um companheiro no meio de campo, avançou, tabelou com Lucho González, se desvencilhou de Roque Júnior e acertou um chutaço de perna esquerda (a “menos calibrada”) sem chances para o goleiro Dida. O golaço embalou a Argentina, que venceu por 3 a 1 e se garantiu no Mundial.
Veja:

Naquele jogo, o Brasil não teve Ronaldo (poupado por Parreira, após conversa com o jogador), mas foi a campo com Dida; Cafu, Juan, Roque Júnior e Roberto Carlos; Emerson, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho Gaúcho; Robinho (Renato) e Adriano. A Argentina foi com Abbondanzieri; Ayala, Coloccini e Heinze; Lucho González (Zanetti), Mascherano, Kily González e Sorín; Riquelme, Saviola (Tevez) e Crespo. Dois timaços, obviamente, mas o revés foi muito acachapante pelo jeito que foi, pois o Brasil não foi nem um retrato do que havia sido nos últimos jogos.
“O adversário teve iniciativa e sufocou o Brasil. Um gol logo no início muda tudo. Eles tiveram sorte ao marcarem aos 3min”, disse Parreira na coletiva do pós-jogo. “Se o Adriano tivesse feito o gol…(o atacante acertou a trave aos 39min do 2º tempo). O final do jogo seria eletrizante. Perder para a Argentina não nos levará para o inferno. Ainda não garantimos a vaga na Copa da Alemanha, mas estamos muito perto disso. Falta uma vitória em três jogos, e nada irá abalar a nossa confiança”, completou o técnico. Antes, porém, a seleção teria mais um grande compromisso: a Copa das Confederações da FIFA.
Para manter o protagonismo

Campeão em 1997, o Brasil não conseguiu brilhar nas edições posteriores da Copa das Confederações da FIFA, torneio que passou a ser realizado a partir de 2005 sempre um ano antes da Copa do Mundo (antes, a periodicidade era bianual). A seleção canarinho foi vice em 1999, 4ª colocada em 2001 e nem passou da fase de grupos em 2003. Por isso, ir bem no torneio da Alemanha (sede da edição de 2005) era obrigação para uma equipe tão badalada. Parreira queria levar quase sua força máxima, com exceção de Cafu e Roberto Carlos, que seriam poupados para que o treinador seguisse testando novos laterais – Cicinho, em fase esplendorosa no São Paulo campeão da Libertadores, e Gilberto, eram os novos nomes no radar.
Ronaldo seria convocado, mas declarações do Fenômeno em maio de 2005 fizeram com que o treinador não levasse o camisa 9. Em entrevista à Folha, o atacante disse que “Estar com a seleção sempre é importante, mas a Copa das Confederações não tem o mesmo valor da Copa do Mundo, nem a mesma repercussão. Infelizmente, é igual à Copa América. Já ganhamos muitas nos últimos anos e daí? Ninguém fala, ninguém comenta, mas, se perder, é aquela confusão”. Ao saber disso, Parreira rebateu, dias depois:
“É muito gostoso jogar só Copa do Mundo. Eu também gostaria de treinar a seleção apenas na Copa e não passar pelos amistosos, pelas eliminatórias”.
Na sequência, a CBF anunciou que Ronaldo não seria convocado por conta de “problemas particulares”. Com isso, os convocados foram:
- Goleiros: Dida (Milan-ITA), Marcos (Palmeiras) e Gomes (PSV-HOL)
- Laterais: Cicinho (São Paulo), Maicon (Monaco-MO), Gilberto (Hertha Berlim-ALE) e Léo (Benfica-POR)
- Zagueiros: Lúcio (Bayern München-ALE), Roque Júnior (Bayer Leverkusen-ALE), Juan (Bayer Leverkusen-ALE) e Luisão (Benfica-POR)
- Meio-campistas: Emerson (Juventus-ITA), Zé Roberto (Bayern München-ALE), Gilberto Silva (Arsenal-ING), Renato (Sevilla-ESP), Juninho Pernambucano (Lyon-FRA), Edu (Arsenal-ING), Kaká (Milan-ITA) e Ronaldinho (Barcelona-ESP).
- Atacantes: Adriano (Internazionale-ITA), Robinho (Santos), Júlio Baptista (Sevilla-ESP) e Ricardo Oliveira (Real Betis-ESP).

Além do Brasil, favorito, a Copa das Confederações teria entre os destaques a Alemanha, anfitriã, a Argentina, classificada como vice-campeã da Copa América, e a Grécia, surpreendente campeã da Eurocopa. Na estreia, a seleção derrotou facilmente os gregos por 3 a 0, gols de Adriano, Robinho e Juninho. Na sequência, derrota por 1 a 0 para o México, que mais uma vez deixou a classificação em risco. No último jogo, contra o Japão, Robinho abriu o placar, Nakamura empatou e Ronaldinho deixou a seleção na frente. No finalzinho do jogo, porém, Oguro empatou, resultado que classificou o Brasil, mas na segunda colocação. Com isso, a seleção teve que enfrentar a Alemanha nas semifinais, pois os anfitriões foram líderes de seu grupo com o mesmo número de pontos da Argentina, mas maior saldo.
A partida entre brasileiros e alemães foi eletrizante e quem brilhou foi Adriano. O craque abriu o placar em cobrança de falta, aos 21’, e deixou o Brasil em vantagem. Podolski, dois minutos depois, subiu sozinho de cabeça e empatou. Aos 43’, Ronaldinho, de pênalti, deixou a seleção canarinho em vantagem, mas Ballack, também de pênalti, empatou nos acréscimos da primeira etapa. No segundo tempo, a equipe de Parreira foi pra cima e, aos 76’, Adriano recebeu um passe de Robinho, invadiu a área e chutou cruzado, estufando as redes do goleiro Lehmann.
O 3 a 2 colocou o Brasil na final e Adriano provou que era um dos melhores atacantes do mundo na época, recebendo elogios até do lendário Franz Beckenbauer, presidente do Comitê Organizador da Copa do Mundo. “O Adriano é fantástico. O jogo foi excitante, com cinco gols, e a Alemanha pagou pelo fato de ter um time muito jovem, ainda inexperiente para enfrentar um time como o Brasil”. Agora, adivinhe qual era o adversário do Brasil na final? A Argentina, um ano depois do épico na Copa América.
Show Imperial

O Brasil iria a campo com Kaká e Ronaldinho como articuladores e Adriano e Robinho no ataque, uma dupla que tinha velocidade, força e técnica e era muito bem assessorada não só por R10 e Kaká, mas também por Cicinho, que jogava quase como um ponta-direita e subia constantemente ao ataque. A Argentina iria mais precavida, com um esquema de jogo defensivo e apostando na genialidade de Riquelme pelo meio, jogando ao lado de Sorín, mais avançado do que de costume, com Delgado e Figueroa no ataque – embora Aimar e Tevez fossem opções mais favoráveis. Por se tratar de um clássico, havia equilíbrio. Mas, no papel e na prática, era inegável o favoritismo do Brasil.
Quando a bola rolou, ficou claro que a Argentina tentaria marcar o Brasil de todas as maneiras, evitando chegadas mais incisivas do rival. Só que o time brasileiro tinha muita qualidade e começou a encontrar os espaços que precisava com toques de bola precisos, envolvendo o adversário. As tabelas entre o meio de campo e os laterais funcionavam muito bem e isso ajudava o ataque a ter a liberdade necessária para criar chances de gol. E a primeira surgiu logo aos 11’, quando Cicinho recebeu de Lúcio pela direita e tocou para Adriano. O lateral saiu em disparada esperando a devolução para cruzar, mas o Imperador já sabia o que fazer. Ele dominou, deixou Heinze no chão e disparou um petardo de canhota que nenhum goleiro do planeta pegaria: 1 a 0. Que golaço!

Logo na sequência, a Argentina teve duas chances, a melhor delas em um chute da entrada da área de Riquelme, mas a bola acabou passando à esquerda do gol de Dida. Dois minutos depois, Cicinho inverteu o jogo para Robinho, na esquerda, que dominou no peito, esperou a chegada de Kaká e tocou para o camisa 8, que ajeitou e chutou de fora da área para marcar outro golaço, na gaveta: 2 a 0. Que começo de jogo do Brasil! Letal, o time de Parreira mostrava uma precisão cirúrgica. E não deixava a Argentina sequer chegar à sua área. Emerson e Zé Roberto comandavam o meio de campo de maneira plena, marcando e tocando bem a bola. O time dominava as ações, tomava para si os espaços. E, quando chegava, deixava em pânico a zaga argentina, bastante frágil e insegura.
No segundo tempo, logo aos 2’, Cicinho, endiabrado e imparável, deixou Sorín para trás com uma autoridade impressionante pela ponta direita, avançou e cruzou para Ronaldinho aparecer como um legítimo centroavante e fazer o terceiro gol. Se a Argentina tinha alguma esperança de reviravolta, aquele gol acabava com tudo! Embalado, o Brasil seguiu no ataque, com investidas de Gilberto, pela esquerda, e bolas alçadas por Ronaldinho.

A partir dos 16’, a seleção começou uma troca de passes digna dos mais saudosos tempos do futebol arte, do Jogo Bonito, com a bola passando de pé em pé, sem afobação, apenas esperando o momento certo para o bote. Após a redonda ser tratada com carinho e categoria por quase o time todo na base de dribles, cortes e lançamentos, Lúcio veio lá de trás, dominou, passou por um, por dois e lançou Robinho, na esquerda, que deixou para Ronaldinho e este inverteu o jogo para (adivinhe), Cicinho, com todo o espaço possível à sua frente. Parecia até que ele estava caminhando por uma avenida de Frankfurt, sem nenhum argentino para lhe atazanar. O lateral brasileiro olhou para a área e cruzou na cabeça de Adriano, o carrasco, o Imperador, fazer o quarto: 4 a 0. Um golaço, para ser visto e revisto várias e várias vezes:

Ali, o jogo poderia terminar. Não precisava mais nada. Uma goleada como aquela, com imensa categoria, em plena final e sobre a Argentina já era mais do que histórica. Era a síntese de uma era inesquecível para o futebol brasileiro, tempos da amarelinha devidamente representada por craques que sabiam o que fazer com a bola em seus pés. Uma seleção que arrancou aplausos da torcida alemã, encantada com aquele toque de bola, aquela plasticidade. A Argentina ainda fez um gol de honra com Aimar, após cabeçada para o fundo do gol de Dida, concluindo boa jogada de Zanetti e Delgado.
Aos 48’, o árbitro encerrou o jogo e o samba tomou conta de Frankfurt. O Brasil era bicampeão da Copa das Confederações e vencia a segunda final seguida contra o maior rival. Ninguém imaginaria uma goleada daquele tamanho, ainda mais se tratando de um Brasil e Argentina, cujas goleadas eram tão longínquas, remetendo às décadas de 1930, 1940 e 1960. O Brasil deu 10 chutes a gol contra seis da Argentina, desarmou o adversário 96 vezes e fez quatro gols. Até que foi pouco tamanho o volume e soberania em campo.

Anos depois, Parreira comentou sobre aquela final e o desempenho de Adriano.
“A fase de grupos foi complicada, mas o importante foi que o time foi se amoldando, foi se acertando e quando chegamos na semifinal contra a Alemanha, que era a dona da casa, e na final contra a Argentina, a gente já tinha melhorado o entrosamento, o rendimento, e o time cresceu de maneira assustadora […].
Adriano, naqueles dois anos que antecederam a Copa das Confederações, 2004 e 2005, vivia um momento mágico, ele esteve muito bem nas duas competições que ele jogou na seleção brasileira, foi fundamental na conquista da Copa América (2004) e foi fundamental na conquista da Copa das Confederações, com muita imposição, com muito poder decisão, um jogador que fazia muito bem aquele pivô, construía as jogadas, definia, e participava. Era realmente um tormento para as defesas adversárias. Foi com todo o mérito que ele foi chamado naquele momento de Imperador, e nós sentimos muita falta daquele momento dele na Copa do Mundo”. – Carlos Alberto Parreira, em entrevista ao globoesporte.com, 19 de abril de 2020.
Adriano foi o artilheiro com 5 gols e levou a Bola de Ouro de melhor jogador da competição, enquanto Ronaldinho levou a Bola de Bronze. O título só realçou o que todo mundo sabia: o Brasil não tinha adversários e era a melhor seleção do planeta, o time a ser batido e o imenso favorito para a conquista da Copa do Mundo de 2006.
Vaga garantida com show!

Em setembro de 2005, o Brasil entrou em campo no estádio Mané Garrincha precisando apenas de uma vitória simples sobre o Chile para se garantir na Copa. E ela veio de maneira inapelável: 5 a 0, com três gols de Adriano, um de Robinho e outro de Juan. Um passeio que acabou com os sustos vividos nas duas últimas Eliminatórias que a seleção disputou e garantiu, por antecipação, a vaga no Mundial. Para completar a campanha, o Brasil empatou em 1 a 1 com a Bolívia, na altitude de La Paz, e venceu a Venezuela por 3 a 0 em casa, na última rodada, com gols de Adriano, Ronaldo e Roberto Carlos. O resultado garantiu a liderança das Eliminatórias e foi a última partida da seleção diante de sua torcida antes do Mundial – o jogo foi em Belém (PA) -, que pôde ver um 11 que ilusionava: Dida; Cafu, Juan, Lúcio e Roberto Carlos; Emerson, Zé Roberto (Juninho Pernambucano), Kaká e Ronaldinho (Robinho); Adriano (Alex) e Ronaldo.
No papel e naquela época, era um time fantástico, puro talento, pura magia. Na sequência, o Brasil realizou três amistosos e venceu todos: 8 a 0 nos Emirados Árabes, 1 a 0 na Rússia e 4 a 0 na Nova Zelândia. Era só iniciar a preparação para a Copa. Com organização e seus craques, o Brasil tinha tudo, absolutamente tudo para ser hexacampeão mundial. Mas, com o passar dos meses e analisando algumas verdades, não seria bem assim.
Os convocados e a análise do terror

Quando Parreira confirmou os 23 jogadores para a Copa do Mundo da Alemanha em 2006, poucas pessoas contestaram a lista. O treinador só não chamou o zagueiro Roque Júnior, campeão em 2002, mais pela boa fase dos concorrentes do que a queda de rendimento do campeão. No papel, foi uma das melhores convocações da história do Brasil. Veja abaixo:
- Goleiros: Dida (Milan-ITA), Rogério Ceni (São Paulo) e Júlio César (Internazionale-ITA);
- Zagueiros: Lúcio (Bayern München-ALE), Juan (Bayer Leverkusen-ALE), Luisão (Benfica-POR) e Cris (Lyon-FRA);
- Laterais: Cafu (Milan-ITA), Roberto Carlos (Real Madrid-ESP), Cicinho (Real Madrid-ESP) e Gilberto (Hertha Berlim-ALE);
- Meio-campistas: Emerson (Juventus-ITA), Kaká (Milan-ITA), Ronaldinho (Barcelona-ESP), Zé Roberto (Bayern München-ALE), Gilberto Silva (Arsenal-ING), Mineiro (São Paulo), Juninho Pernambucano (Lyon-FRA) e Ricardinho (Corinthians);
- Atacantes: Adriano (Internazionale-ITA), Ronaldo (Real Madrid-ESP), Fred (Lyon-FRA) e Robinho (Real Madrid-ESP).
Pois é. Difícil acreditar que todo esse material humano não conseguiu vencer uma Copa do Mundo. O problema é que Parreira e sua comissão apostaram piamente nos nomes, no papel, ao invés de deixar o coração de lado e apostar no momento de cada um. Vamos por partes.
Na defesa, os laterais Cafu e Roberto Carlos não tinham mais o vigor, a velocidade e a intensidade dos anos anteriores. Eram lendas, óbvio, mas mesmo em um torneio de tiro-curto como a Copa, não inspiravam a confiança de antes, principalmente Roberto Carlos, já perto do adeus ao Real Madrid e contestado pela sempre crítica imprensa espanhola. Cafu poderia jogar meio tempo e, na outra metade, dar espaço ao lateral-direito Cicinho, que voou na Copa das Confederações e dava muito mais força ofensiva ao time de Parreira. Do lado esquerdo, Gilberto estava muito bem e podia dar segurança defensiva e ajudar no elo com o meio de campo.


No gol, a seleção estava muito bem servida. Dida era titular absoluto e peça essencial do grande Milan da época. Quem também estava em ótima fase era Rogério Ceni, melhor goleiro da América do Sul em 2005 e 2006, campeão de tudo com o São Paulo e iluminado nas trajetórias dos títulos da Libertadores e do Mundial de Clubes da FIFA de 2005 com o tricolor – em 2007, ele seria indicado pela France Football ao prêmio Ballon d’Or, o primeiro atleta fora do continente europeu a conseguir o feito na época. Júlio César, paredão da Internazionale, também vivia fase estável e era uma alternativa para o técnico Parreira.
O miolo de zaga não demonstrava problemas. Lúcio e Juan construíram um notável entrosamento naqueles anos e podiam não só jogar bem na zaga como aparecer no ataque em investidas por baixo e nas jogadas de bola parada. Seus suplentes, Luisão e Cris, mantinham a qualidade quando entravam e eram unânimes em seus clubes.
No meio de campo, o Brasil tinha peças de sobra para qualquer situação e não enfrentava problemas até certo ponto. Parreira utilizava mais Emerson e Zé Roberto, ambos em grande fase, principalmente este último, com seu invejável preparo físico, técnica irrepreensível e qualidade no desarme. Tinha ainda Gilberto Silva, experiente e muito eficaz, Juninho Pernambucano, que podia não só jogar mais recuado como também mais à frente, municiando o ataque e sendo arma, claro, nas bolas paradas, e ainda Mineiro, impecável no São Paulo e especialista nos desarmes e na marcação, além de aparecer como elemento surpresa em jogadas de ataque.
Kaká e Ronaldinho fechavam aquele meio de campo e iniciavam o “quadrado mágico” de Parreira. Só que nele começavam os problemas. O meia do Milan vinha de uma temporada bem puxada, ficou cinco semanas afastado por causa de uma lesão em fevereiro de 2006, mas conseguiu se recuperar, embora não estivesse 100%. Já Ronaldinho vinha de mais uma temporada de glórias pelo Barcelona, com o qual venceu a Liga dos Campeões da UEFA, mas teve atuação apagada na final contra o Arsenal. Aliás, a partir daquele jogo, o brasileiro iniciou um declínio assustador em sua carreira e a curva descendente seria agravada exatamente no período da Copa do Mundo.


No ataque, os dois problemas de Parreira eram Adriano e Ronaldo. O Imperador não estava “fininho” (longe disso!) como em 2004 e 2005 e não vinha de bons jogos pela Internazionale em 2006 – tanto é que o artilheiro da Inter na temporada 2005-2006 foi o argentino Julio Cruz, com 21 gols, contra 19 do Imperador (em 2004-2005, ele anotou 28 gols na temporada pela nerazzurri). Já Ronaldo estava mesmo acima do peso e não conseguia dar suas arrancadas características há algum tempo. Com Robinho no lugar de Ronaldo ou Adriano, o Brasil tinha mais velocidade, imprevisibilidade e ganhava um jogador que ajudava na marcação e liberava Ronaldinho no meio, por exemplo. E foi isso que vimos na Copa das Confederações, quando o atacante fez grandes jogos e uma ótima dupla com Adriano no ataque.
Enfim, Parreira precisava mexer no time e não apostar sempre no mesmo padrão, no mesmo 11 inicial só por causa do peso daquelas lendas e em suas histórias. Todos eles não precisavam provar mais nada a ninguém, mas poderiam subir ainda mais no Olimpo do futebol se conquistassem outra Copa. Para isso, teriam que abrir caminho, dar vez a outros nomes de alguma maneira. Mas isso, na preparação pré-Copa já na Europa, se mostrou um grande devaneio.
A bagunça em Weggis

A belíssima cidade de Weggis, na Suíça, foi escolhida pela CBF como base da preparação do Brasil antes da viagem à Alemanha. Era um lugar e tanto para os atletas se concentrarem e terem ainda mais inspiração para fazer uma grande Copa. Só que tudo deu errado. Como a CBF havia comercializado a presença da seleção em Weggis com uma empresa local, os jogadores teriam que cumprir certos compromissos para atender às demandas de patrocínio. E, com isso, teve excesso de público nas arquibancadas do CT, passistas de escola de samba e muita festa tanto em campo quanto fora dele.
Com uma população de pouco mais de 4 mil pessoas, a cidade recebeu cerca de 60 mil visitantes apenas na primeira semana de treinos da seleção (!), que ficou 13 dias na Suíça antes de viajar até a Alemanha. Moraci Sant’Anna, preparador físico da seleção na época, comentou sobre esse problema, anos depois, em entrevista ao ex-jogador Zico, no canal Zico 10.
“O meu trabalho era na sala de musculação. Uma sala até muito boa que eles montaram lá. Aí chega o Américo Faria [coordenar da delegação] e diz: “você tem que levar os jogadores para o campo, tem cinco mil pessoas que pagaram ingresso que estão lá” Então eu desci, e pus os caras para trotar.(..). Mas todo treinamento vai ser isso daí? Américo respondeu, tá no contrato, tem uma multa enorme. Tivemos que engolir aquilo. (…) Nós tínhamos pelo menos oito jogadores muito abaixo do nível [físico], alguns bem acima do peso, e que se não tivessem inscritos, era coisa para se cortar”.

O técnico Parreira admitiu, tempo depois, que muitos jogadores chegaram realmente fora de forma e, no curto período de preparação, seria impossível colocá-los todos em forma tão rápido.
“Eles (jogadores) chegaram de um jeito que não deveriam ter chegado. Só que não havia como fazer qualquer modificação na lista de convocados, a não ser por lesão. A convocação era imutável. Nós até conversamos com a FIFA sobre isso, mas era uma determinação clara. Se o cara chegou gordo ou chegou magro, não tinha como mudar”.
Para se ter uma ideia, o atacante Ronaldo tinha o maior índice de massa corporal entre todos os 736 jogadores do Mundial, algo assustador – na época, divulgaram que o Fenômeno estava pesando 90,5kg com 1,85m de altura (mas dizem que o peso era maior). Os jornalistas que cobriam a seleção perceberam que faltava intensidade nos treinamentos e que os atletas estavam ali como estrelas. Não havia treinos específicos nem aquela vontade vista em outras seleções da época como Portugal, Alemanha, Itália e França.
Ao invés de um período de treinos, aquilo foi um Big Brother do futebol, com 750 jornalistas credenciados para cobrir a seleção (450 do Brasil) e até cambistas vendendo ingressos que haviam ganhado de graça (!) para quem quisesse ver de perto a seleção. Com a parcimônia de Parreira e a falta de voz de Zagallo, que não estava bem de saúde e não era o Velho Lobo de outrora, aquele grupo precisava de comando e ordem – Parreira vivia muito isolado na época e parecia carente de seu parceiro. Anos depois, Kaká admitiu que faltou alguém para “bater na mesa” e exigir mais foco dos jogadores na época. E que muitos, por já terem uma Copa no currículo e todos os títulos possíveis, não se entusiasmaram como deveriam.
Um time que não joga

Na fase de grupos, o Brasil teve pela frente adversários bem brandos e que não iriam atrapalhar a caminhada em busca de uma vaga nas oitavas de final. Na estreia, em Berlim, contra a Croácia, o time canarinho não teve a movimentação esperada e a dupla Ronaldo e Adriano foi coadjuvante – o Imperador chegou a perder 13 das 29 bolas que recebeu no jogo. Quem salvou a atuação ruim foi Kaká, autor do gol da vitória por 1 a 0. Na partida seguinte, contra a Austrália, mesmo cenário, Ronaldinho errando passes bobos e um time bisonho de se ver. A vitória veio aos trancos e barrancos – 2 a 0 -, com mais críticas ao futebol ruim da seleção.
Só no último jogo, contra o Japão, que o Brasil, enfim, jogou bem. Mas sabe por quê? Porque Parreira escalou Cicinho e Gilberto nos lugares dos laterais Cafu e Roberto Carlos, os volantes Gilberto Silva e Juninho Pernambucano substituíram Emerson e Zé Roberto, e Robinho entrou na vaga de Adriano. O Brasil jogou muito mais leve, com criatividade, velocidade e alternativas. Ronaldinho ficou mais solto, teve espaço para criar e dar passes, Ronaldo marcou dois gols (um deles um belo gol, em tabelinha com Juan), Juninho fez outro e Gilberto também marcou o seu na vitória por 4 a 1. Foi o melhor jogo do Brasil na Copa e que lembrou muito o desempenho na Copa das Confederações.


Nas oitavas, o adversário foi a seleção de Gana, que não ofereceu grandes desafios e o Brasil venceu por 3 a 0 – gols de Ronaldo, Adriano e Zé Roberto -, apostando bem nos contra-ataques e no futebol pragmático. Ronaldo chegou aos 15 gols em Copas naquele jogo e se transformou no maior artilheiro dos Mundiais na época. Cafu, com 19 jogos, se isolou como jogador brasileiro com mais partidas em Mundiais. No coletivo, duas marcas foram ampliadas. A seleção se tornou a primeira a atingir 200 gols em Copas do Mundo (com o gol de Adriano, aos 46’ do 1º tempo) e alcançou a 11ª vitória consecutiva em Mundiais, deixando ainda mais para trás as sete vitórias seguidas da Itália nas Copas de 1934 e 1938.

Apesar do placar de 3 a 0, a vitória deixou mais alertas, em especial na imprensa internacional. O diário italiano Gazzetta dello Sport trouxe a manchete “Gana joga, Brasil vence”. “A goleada ocultou o verdadeiro Brasil”, estampou o La Nación, da Argentina. “A equipe de Parreira derrotou Gana por 3 a 0 e avançou às quartas-de-final, em uma partida na qual a equipe deixou evidente graves problemas defensivos e certa vulnerabilidade”, concluiu o periódico. A BBC, do Reino Unido, seguiu o discurso, dizendo que o jogo ficou marcado “pela ingenuidade do esquema defensivo africano do que pela bravura do ataque brasileiro”. Só o Record, de Portugal, destoou da linha de outros órgãos de imprensa: “Brasileiros ganham fácil de Gana”. Nas quartas de final, o Brasil teria seu maior desafio, daqueles para ver mesmo se aquele time estava disposto a ser campeão: a França, carrasco de 1998 e com Zidane tinindo.
Um Zidane, a França e a queda

Ao contrário do Brasil, a França tinha vários atletas que queriam ser campeões do mundo. Embora contasse com vários nomes de 1998 como Barthez, Thuram, Vieira, Henry, Trezeguet e Zidane, o time de Raymond Domenech vinha renovado com Gallas, Sagnol, Abidal, Makélélé, Malouda e Ribéry, atletas que davam ao conjunto francês uma força notável – maior, inclusive, do que 1998. Na primeira fase, a equipe se classificou aos trancos e barrancos após dois empates – 0 a 0 com a Suíça e 1 a 1 com a Coreia do Sul – e venceu o último jogo, contra Togo, por 2 a 0, para selar sua vaga em segundo lugar.
Mas foi a partir das oitavas que o time francês acordou e venceu a Espanha por 3 a 1, com grande atuação dele: Zidane, autor do gol que fechou a vitória. No dia do jogo, a expectativa era de mais um clássico histórico entre brasileiros e franceses, que tinha até aquele dia uma vitória do Brasil – 5 a 2, na semifinal de 1958 – uma vitória da França – 3 a 0, na final de 1998 – e um empate seguido de vitória da França nos pênaltis, nas quartas de final de 1986. Parreira decidiu escalar Gilberto Silva mais uma vez no meio de campo e dava a entender que colocaria Robinho no lugar de Adriano, mas Juninho Pernambucano foi o escolhido por “conhecer o futebol francês” graças ao seu papel decisivo no Lyon pentacampeão francês na época.
Porém, em nada aquilo iria agregar ao time na prática, pois não havia entrosamento e o time simplesmente não rendia por falta de interesse de seus personagens, pelo sacrifício físico de Kaká e um meio de campo aberto, cheio de espaços e nenhuma criatividade no ataque. Quem entendia de futebol sabia que a França era favorita. Mas os românticos tinham certeza de que o Brasil dos sonhos iria acordar naquele dia.


Quando a bola rolou, a mostra de que aquele seria o jogo de Zidane aconteceu nos primeiros segundos da partida, na escapada do maestro francês diante de Gilberto Silva, Zé Roberto e Juninho. Ali, o técnico Raymond Domenech disse anos depois que tinha certeza que venceria o jogo.
“Quando, no início, Zidane dá seu giro para driblar dois jogadores e pedala pra tirar um terceiro, viro para o banco e digo: ‘Ganhamos’. Porque correspondia a tudo que dizemos: escapar da pressão inicial e criar perigo”, disse o treinador à revista France Football.
O time brasileiro teve apenas dez minutos de sossego no jogo, quando estudou a França e ela idem. Depois disso, a França simplesmente tomou conta da partida e não foi agredida.
Mesmo assim, o gol não saiu na primeira etapa. Logo no início do segundo tempo, a França teve uma falta a seu favor e Zidane cobrou no meio da área para Vieira, que cabeceou rente à trave de Dida. O time bleu seguia dono do jogo e era uma injustiça tremenda o placar ainda estar empatado sem gols. Ainda mais depois que Zidane, ao receber uma bola no meio de campo, deu um chapéu em Ronaldo e completou a jogada tocando de cabeça para Abidal, na esquerda. Foi um lance simplesmente magnífico, plástico, que fez ecoar “ohhs” nas arquibancadas.
Zidane era o ser dominante daquele jogo. Mas ainda faltava o detalhe do gol. E, aos 12’, eis que a justiça foi feita. Em cobrança de falta pela esquerda, Zidane cobrou com sua precisão cirúrgica, a bola voou e encontrou Henry completamente livre, que pegou de primeira e mandou a redonda para o fundo do gol: 1 a 0. Foi uma falha clamorosa de marcação do Brasil, que deixou um atacante letal como Henry sem qualquer obstáculo.

Muito se falou de Roberto Carlos, que no momento da cobrança de falta estava ajeitando o meião, mas ele não tinha obrigação nenhuma de marcar o atacante francês, afinal, Henry tinha quase 1,90m de altura e Roberto Carlos pouco mais de 1,68m. Foi um erro geral de marcação e de atenção, pois não se comete uma infração naquela área do campo quando se tem Zidane como cobrador de faltas e jogadores perigosos na bola aérea.
A França continuava no campo de ataque e o Brasil não superava o rival, enquanto que Zidane seguia distribuindo dribles e outro chapéu – dessa vez em Gilberto Silva. Aos 16’, Ribéry aplicou lindo drible em Lúcio e chutou rasteiro, a bola bateu em Juan e quase entrou. Só aos 18’ que Parreira decidiu mudar o time ao sacar Juninho e colocar Adriano. Só que de nada adiantou. Aos 25’, em contra-ataque, Henry tocou para Ribéry, livre, mas Dida saiu bem do gol e interceptou a jogada. Minutos depois, Henry tentou de longe e Dida defendeu no meio do gol. Após os 30’, tanto Brasil quanto França fizeram alterações, mas nada mudou, nem mesmo com as entradas de Robinho e Cicinho.

O único chute do Brasil no jogo aconteceu aos 46’, com Ronaldo, que pouco exigiu do espectador do jogo, o goleiro Barthez. Aos 48’, o árbitro encerrou o jogo e a França se garantiu na semifinal, eliminando o Brasil pela segunda vez na história em uma fase de quartas de final – e acumulando o terceiro triunfo seguido sobre o país em Copas. Era o fim de um time de sonhos no papel, mas decepcionante em campo.
“Não posso fazer nada se jogadores são irresponsáveis a ponto de chegar para uma Copa do Mundo pesando 100, 101 quilos. Isso não tem cabimento. Na Alemanha eu tive nas mãos um time sem comprometimento, sem ambição, jogadores enriquecidos, não se preocupando de verdade com a competição. Atletas que não perceberam ou que esqueceram o que significa ganhar a Copa. Um time de barriga cheia. Cansado de conquistas. Se a legislação da FIFA permitisse, eu teria até tirado alguns deles do grupo…
Não quero falar nomes. Todos sabem muito bem quem estava acima do peso. E o que essas pessoas fizeram para a seleção brasileira no mundial. O ser humano precisa sempre de desafio. Ter o bolso cheio, falta de vontade de conquistar é fatal. Principalmente no futebol. Não foi só o Brasil que ficou decepcionado com algumas pessoas, eu também”, desabafou o técnico Parreira, em 2010, ao blog de Cosme Rímoli.

Quem também comentou sobre aquela decepção foi Ronaldinho, em entrevista ao jornal La Gazzetta dello Sport e reproduzida pelo ClicRBS, 04 de agosto de 2008. “A Copa de 2006 foi uma experiência horrível para mim e para todo o time. Antes, me consideravam o Pelé; depois, foram só críticas. Disseram que eu não tinha mais vontade de jogar, que eu tinha ido para a noite após o jogo. Ninguém me perguntou como é que eu me sentia. Eu poderia ter respondido o quanto fiquei decepcionado. Mas aprendi muito com tudo isso”.
O problema é que o camisa 10 estava no auge, com 26 anos, vinha de dois prêmios de melhor do mundo, campeão europeu com o Barcelona… Enfim, era a Copa dele. Ele tinha que chamar a responsabilidade. Assim como Cafu tinha que ter “gritado” mais como o capitão que era. E o grupo tinha que exigir mais diálogo com Parreira, algo que não existiu naquela Copa. A eliminação brasileira foi um choque, mas compreendida após analisar friamente o desempenho individual de cada estrela do Brasil e da grande atuação coletiva da França naquele jogo. Leia mais sobre esse jogo eterno clicando aqui.
À espera de tempos melhores

Ser eliminada da Copa de 2006 significou o fim de uma era para o futebol brasileiro. Dali em diante, o país entrou em uma terrível entressafra e não conseguiu encantar como encantou durante tantos anos. Em 2010, a equipe jogou um futebol burocrático, faltoso e foi eliminada nas quartas de final da Copa pela Holanda. Em 2014, o maior fiasco de todos os tempos com o 7 a 1. Em 2018, uma tímida melhora em relação às Copas anteriores em termos de time, mas nova eliminação nas quartas de final, diante da Bélgica. E, em 2022, outra eliminação em uma fase de quartas de final, dessa vez para a Croácia, nos pênaltis.

O problema da seleção a partir de 2006 passou a ser não só na administração (que era “maquiada” graças ao ótimo time), mas também em campo, o que escancarou de vez o amadorismo que sempre imperou na CBF, que passou a ser comandada por pessoas sem qualquer entendimento do que representa a camisa cinco vezes campeã mundial e seu legado para a história do esporte. E isso se estendeu aos jogadores, cada vez mais desinteressados com a seleção e incapazes de jogar o que jogam em seus clubes. Pouquíssimos demonstraram respeito e vontade de jogar e vencer pela seleção desde o título de 2002. E seguimos à espera de uma nova geração que possa ilusionar, encantar e vencer como as do passado.
Bônus: E se a seleção estivesse em forma?

Com uma licença poética, imaginamos como seria se o Brasil entrasse com vontade e com seu futebol pleno naquele jogo contra a França e nos demais. Confira a seguir:
Com Ronaldo e Robinho na frente e Cicinho na direita, o Brasil levou muito mais perigo ao time francês. Zidane deu um trabalho danado, claro, mas Ronaldo queria sua vingança. Ele abriu o placar, de cabeça, ainda no primeiro tempo, após cruzamento de Cicinho. A França empatou com Henry logo na sequência, após falta cobrada por Zidane, mas o gol da vitória brasileira saiu no último minuto, após Robinho pedalar pra cima de Thuram e ser derrubado perto da área. Em cobrança de falta perfeita, Ronaldinho fez o 2 a 1 e o fantasma foi exorcizado de vez. Zidane acabou aposentado pela seleção que ele destroçou em 1998.
Na semifinal, o Brasil enfrentou Portugal, de Felipão, em um jogo que entrou para a história. Ronaldo fez o primeiro gol, de bico (!), após receber passe preciso de Kaká no meio da área. Um novato Cristiano Ronaldo, em lindo gol de falta, empatou tempo depois. O jogo ficou engessado, bem ao estilo Felipão x Parreira, e a partida teve que ser decidida na prorrogação. Sem gols, o jogo foi para os pênaltis e o especialista Dida fez história ao defender os chutes de Figo e Maniche, garantindo a vitória por 4 a 2 e colocando o Brasil em sua quarta final de Copa seguida!
Na decisão, o Brasil enfrentou a Itália, freguesa das finais de 1970 e 1994. O jogo foi dramático, com a Azzurra querendo acabar com o jejum de 24 anos sem títulos. Bem marcado, Ronaldinho não conseguia criar e Ronaldo era presa fácil do gigante Cannavaro. No entanto, aos 35’ do segundo tempo, Kaká, jogador do Milan, brilhou justamente contra a seleção do país de seu clube e fez o primeiro gol após arrancar em velocidade, driblar Materazzi (da Internazionale) e tocar na saída de Buffon: 1 a 0.

A Itália foi com tudo pra cima, mas as entradas de Cafu (que recebeu a braçadeira de capitão de Ronaldinho, em momento emocionante e com uma enorme ovação no estádio Olímpico de Berlim) e Roberto Carlos nos lugares de Cicinho e Gilberto deram mais força defensiva ao Brasil, que se segurou como pôde. A dupla abdicou de suas características ofensivas e fechou as portas dos italianos com minutos perfeitos na direita e na esquerda, desempenho que só aumentou a imortalidade de ambos em Copas – principalmente Cafu, primeiro e único jogador a disputar quatro finais (!) de Copa seguidas.
Nos acréscimos, contra-ataque iniciado por Juan, na esquerda. Ele tocou para Zé Roberto, que deu de primeira para Ronaldinho. O camisa 10, sem olhar, tocou também de primeira para Ronaldo, que encontrou forças para arrancar, driblar Buffon e tocar para o gol vazio: 2 a 0. Brasil hexacampeão mundial. E 18º gol de Ronaldo em Copas, o maior artilheiro da história dos Mundiais.

Com o título, aquela seleção seria lembrada por décadas como uma das melhores da história, talvez a melhor da história. Ronaldo teria três Copas, como Pelé. Cafu, também. Roberto Carlos, Ronaldinho, Kaká, Ricardinho, Gilberto Silva, Rogério Ceni, Dida e Lúcio, teriam duas Copas em seus currículos, bem como Parreira. Zagallo seria pentacampeão (!).
Essa história poderia ter acontecido, mas tudo isso passou despercebido por todos. Focaram nos números pessoais, nos recordes, e se esqueceram do coletivo, do bem maior. E uma seleção que tinha tudo para ser muito mais do que imortal, ficou apenas marcada como a melhor que nunca foi…
Os personagens:
Dida: um dos maiores goleiros da história do Brasil, Dida foi um ícone nos anos 1990 e 2000. Despontou no Vitória, pelo qual alcançou o vice-campeonato brasileiro de 1993, e alcançou fama no Cruzeiro campeão da Copa do Brasil de 1996 e da Libertadores de 1997, entre outros títulos. No Corinthians, viveu o auge como exímio pegador de pênaltis e herói da Fiel no título brasileiro de 1999 e do Mundial de Clubes da FIFA de 2000. Já no Milan, o camisa 1 engrandeceu ainda mais sua lenda com dois títulos da Liga dos Campeões, um Mundial de Clubes e várias outras taças. Pela seleção, assumiu a titularidade plena após a Copa de 2002 e demonstrou muita segurança quando a equipe precisou e não teve culpa na eliminação de 2006. Acumulou 92 jogos pelo Brasil. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Júlio César: titular na conquista da Copa América de 2004 e decisivo na disputa de pênaltis contra a Argentina, o goleiro vivia grande fase no Flamengo da época até ser contratado pela Internazionale. Em Milão, se transformou em ídolo e ajudou a nerazzurri a conquistar o Treble e uma série de títulos. Virou titular da seleção no ciclo das Copas de 2010 e 2014 e disputou 87 partidas pela seleção.
Cafu: lenda incontestável da seleção e um dos três maiores laterais-direitos da história do Brasil, ao lado de Djalma Santos e Carlos Alberto Torres, Cafu chegou à Copa de 2006 consagrado, mas faltou ao capitão se impor mais dentro e fora de campo e pensar mais no coletivo do que nos números individuais. Teve um desempenho abaixo do esperado, jogando um futebol burocrático e sem o apoio ofensivo que o consagrou nas Copas anteriores. Ele segue até hoje como atleta que mais vestiu a camisa da seleção com 142 jogos, além de cinco gols marcados. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Cicinho: referência do São Paulo de 2005, o lateral-direito passou a ser convocado por Parreira naquele ano e ganhou a disputa com Maicon pela posição na Copa das Confederações. Jogando muito e parecendo um “Cafu das antigas”, apoiando constantemente o ataque, foi um dos símbolos do Brasil naquela trajetória do título e fez uma partidaça contra a Argentina na final. Em 2006, foi jogar no Real Madrid e seguia em forma na Copa, mas foi preterido por Parreira na reta final. Se tivesse jogado, com certeza daria mais força ofensiva ao time e muito mais velocidade. Após o Mundial, jogou três amistosos e nunca mais foi chamado. Conviveu com lesões e sua carreira declinou após 2007. Foram 17 jogos e um gol pela seleção.
Maicon: lateral de muita força física, velocidade e presença no ataque, Maicon fez uma grande Copa América em 2004, ajudando o Brasil a levantar o título continental. Na Copa das Confederações, perdeu espaço para Cicinho, em grande fase, e acabou não sendo convocado para a Copa de 2006. Deu a volta por cima ao participar do ciclo da Copa de 2010, na qual foi titular. Disputou 77 jogos e marcou 7 gols pela seleção.
Lúcio: um dos jogadores mais identificados com a seleção e 6º atleta que mais vestiu a camisa canarinho na história – 105 jogos, com 4 gols – Lúcio foi titular absoluto da equipe de Parreira e só ficou ausente da Copa América. Muito forte, com excelente impulsão e técnico, Lúcio podia sair jogando e driblando os adversários com muita categoria, o que lhe dava a possibilidade de iniciar contra-ataques. No Mundial de 2006, não comprometeu, foi regular e ficou 386 minutos sem cometer uma falta sequer. Seguiu na seleção até a Copa de 2010, quando foi capitão da Era Dunga.
Luisão: após brilhar no Cruzeiro da Tríplice Coroa, o zagueiro de 1,93m foi jogar no Benfica e virou ídolo dos encarnados, onde faturou 21 títulos entre 2003 e 2018. Na seleção, foi titular da equipe campeã da Copa América de 2004 e integrou os convocados da Copa de 2006. Foi titular na Copa das Confederações de 2009 e convocado para a Copa de 2010. Foram 47 jogos e 3 gols pelo Brasil na carreira.
Cris: outro grande zagueiro de sua época, Cris brilhou no Corinthians, no Cruzeiro e principalmente no Lyon, onde participou de quatro dos oito títulos nacionais seguidos conquistados pelos Gones nos anos 2000. Por conta da grande concorrência com Juan, Lúcio e até Luisão, sempre era a última opção, mas sempre foi lembrado por Parreira na época e integrou os elencos da Copa América e da Copa do Mundo. Disputou 17 jogos e marcou um gol com a camisa canarinho.
Roque Júnior: campeão do mundo em 2002, Roque Júnior foi convocado em boa parte do ciclo de Parreira na época, mas acabou perdendo espaço por conta das boas atuações de Juan, que assumiu o posto de titular ao lado de Lúcio. Na Copa de 2006, acabou de fora por conta de uma lesão. Foram 48 jogos e dois gols pelo Brasil na carreira.
Juan: zagueiro muito técnico, que sabia sair jogando e ainda aparecia no ataque, Juan foi um dos grandes defensores de seu tempo e referência da seleção entre 2004 e 2010. Com personalidade e regularidade, foi titular absoluto nas conquistas de 2004 e 2005, além de integrar a zaga titular na Copa de 2006. Seguiu na seleção até o Mundial de 2010 e acumulou 79 jogos e 7 gols.
Roberto Carlos: outro ícone do futebol brasileiro e um dos maiores laterais-esquerdos da história do país, Roberto vinha em declínio naquele ano de 2006 e não era mais o mesmo. Fez uma Copa bem ruim e sem a força ofensiva de outrora, o que já era esperado devido ao seu momento no Real Madrid. Ficou marcado por conta do gol da França nas quartas de final e foi muito criticado. Apesar disso, sua história jamais deve ser minimizada. Ele é o 4º atleta que mais vestiu a camisa da seleção com 125 jogos e 10 gols. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Gilberto: outro lateral-esquerdo que vivia grande fase, Gilberto podia ajudar na marcação e também apoiava bem o ataque com sua ótima técnica, categoria para dominar a bola e vigor físico. Fez uma grande Copa das Confederações e marcou até gol (curiosamente seu único com a camisa amarela) na Copa de 2006, nos 4 a 1 sobre o Japão. Outro que merecia mais tempo no Mundial. Disputou 35 jogos pela seleção na carreira.
Gustavo Nery: ficou com a vaga de titular na lateral-esquerda da seleção na Copa América de 2004 e não comprometeu. Apesar de ir bem na competição, perdeu espaço na sequência daquele ciclo para Gilberto e ficou de fora da maioria das convocações posteriores. Foram 9 jogos pelo Brasil.
Emerson: o volante deu um azar danado na Copa de 2002, quando foi cortado e perdeu a chance de ser campeão do mundo. Recuperado, seguiu na seleção e foi um dos principais nomes do time na campanha do título da Copa das Confederações e na trajetória da Copa de 2006. Muito forte fisicamente e com grande visão de jogo, organizava o meio de campo e dava combate e proteção à zaga. Foi uma referência da Roma e da Juventus naqueles anos 2000, além de seu grande passado vitorioso pelo Grêmio nos anos 1990. Disputou 75 jogos e marcou 6 gols pela seleção.
Kléberson: outro campeão do mundo em 2002 que esteve presente no início daquele ciclo, o meio-campista vivia grande fase na época após ser contratado pelo Manchester United (ele foi o primeiro jogador brasileiro a vestir a camisa dos Red Devils na história). Na Inglaterra, porém, não conseguiu repetir o grande futebol da seleção e do Athletico-PR, onde brilhou em 2001. Após integrar o Brasil campeão da Copa América de 2004, Kléberson perdeu espaço no time de Parreira e não foi mais convocado, retornando apenas em 2009. Foram 32 jogos e dois gols pela seleção.
Gilberto Silva: craque do meio de campo e um dos melhores volantes da época, Gilberto Silva era um expoente do super Arsenal e peça importante, também, na seleção. Campeão do mundo em 2002, integrou o time da Copa das Confederações e também da Copa do Mundo, onde alternou partidas como titular e também reserva. Seguiu na seleção até meados de 2010. Foram 89 jogos e 3 gols pelo Brasil na carreira.
Zé Roberto: era um dos jogadores em melhor fase na época e um dos poucos que saíram da Copa sem contestações. Com enorme vigor físico, velocidade, visão de jogo e muita regularidade, Zé Roberto deu dinamismo ao meio de campo brasileiro, mas sofreu com a falta de apoio dos companheiros em campo. Marcou um gol nos 3 a 0 sobre Gana, mas não foi mais convocado após o Mundial. Disputou 84 jogos e marcou seis gols pela seleção.
Renato: volante muito bom na organização e nos passes, Renato foi um dos destaques da campanha do título da Copa América de 2004, quando ainda jogava no Santos. Fez uma grande dupla ao lado de Kléberson e seguiu jogando muito nos anos seguintes, mas com a camisa do Sevilla, pelo qual levantou duas Copas da UEFA entre outros títulos. Integrou o elenco campeão da Copa das Confederações, mas ficou de fora da Copa do Mundo. Foram 29 jogos pela seleção.
Kaká: o meia foi um dos mais talentosos jogadores brasileiros dos anos 2000 e seguia em franca ascensão na época. Mesmo sem estar 100% fisicamente, fez uma boa Copa, além de ter sido um dos destaques na Copa das Confederações e em vários jogos das Eliminatórias. Seguiu jogando muito até 2009, foi eleito Melhor Jogador do Mundo em 2007, mas sofreu com muitas lesões a partir de 2010 e caiu de rendimento. Disputou 92 jogos e marcou 29 gols pelo Brasil. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Juninho Pernambucano: outro meio-campista em grande fase na época, Juninho era conhecido por seus jogos com a camisa do Sport e do Vasco nos anos 1990. Mas foi nos anos 2000 que o meia ficou ainda mais completo ao poder ajudar na marcação, na organização e iniciar ataques com seus passes precisos e, claro, decidir partidas nas bolas paradas, sua maior especialidade. Ganhou espaço com Parreira e esteve no time campeão da Copa das Confederações de 2005, além de aparecer em três jogos da Copa de 2006, incluindo a vitória sobre o Japão e o revés para a França. Neste jogo, foi o jogador mais emocionado em campo após a derrota e disse adeus à seleção naquele dia. Foram 40 jogos e 6 gols pela equipe canarinho. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Edu: o meio-campista foi titular na campanha da Copa América de 2004, fazendo dupla com Alex no setor de criação do time no Peru. Com bons passes e ótima visão de jogo, tinha o aval de Parreira justamente por ser essencial na hora de cadenciar o jogo e reter a bola, além de ajudar na marcação. Acabou de fora da Copa de 2006 por causa de uma séria lesão no joelho, que o impossibilitou de se recuperar a tempo.
Ronaldinho: o Bruxo tinha tudo para fazer da Copa de 2006 “a sua Copa”. Mas, infelizmente, não foi nem metade do que poderia ser. Em má forma, disperso e sem a magia que fez dele o maior espetáculo da Terra em 2004 e 2005, Ronaldinho decepcionou a todos e só deixou como bons momentos a campanha da Copa das Confederações e algumas partidas das Eliminatórias. Se tivesse mais foco e entendimento do que era aquela competição de 2006, certamente teria um lugar ainda maior na história do que já tem. Disputou 97 jogos e marcou 33 gols pelo Brasil. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Alex: o meia foi o capitão do Brasil na Copa América de 2004 e viveu naquele ano seu melhor momento com a amarelinha. Vindo de uma temporada espetacular pelo Cruzeiro, Alex tinha tudo para seguir nos planos de Parreira, principalmente após o título continental. Porém, quando o craque foi jogar na Turquia, acabou “desaparecendo” do radar do técnico, que preferiu focar mais em atletas que jogavam nas grandes ligas. O fato é que Alex nunca conseguiu repetir com a camisa amarela o que fez por clubes. Foram 51 jogos e 12 gols pelo Brasil na carreira. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Diego: talento do Santos, o meia foi jogar no Porto em 2004 e, no mesmo ano, ganhou espaço na seleção, onde participou da campanha do título da Copa América. Foi dele o passe que originou o gol épico de Adriano contra a Argentina, na final, e que levou a partida para os pênaltis. Após o torneio continental, só seria convocado novamente já na era do técnico Dunga. Disputou 40 jogos e marcou 9 gols pela seleção.
Ricardinho: o meia nunca foi titular absoluto, mas sempre foi lembrado por Parreira em diversas situações graças à sua regularidade, visão de jogo e excelência no passe. Por isso, foi convocado para a Copa de 2006 e deu o passe para o gol de Zé Roberto, nos 3 a 0 sobre Gana. Foram 22 jogos e um gol pela seleção.
Ronaldo: apesar dos problemas físicos, Ronaldo deixou a Copa de 2006 como o maior artilheiro da história dos Mundiais na época, até ser superado por Miroslav Klose, em 2014. O Fenômeno cumpriu seu papel nas Eliminatórias, ajudou demais o Brasil na campanha que garantiu a vaga no Mundial, mas o sobrepeso em 2006 atrapalhou seu rendimento, pois não conseguiu ser o atacante decisivo que fora anteriormente, sendo presa fácil para sistemas de marcação bem montados, como da França. Mesmo assim, foi uma lenda, inspiração e ídolo. Ronaldo marcou 62 gols em 98 jogos pela seleção. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Robinho: o atacante passou a ganhar mais espaço na seleção a partir de 2005, quando fez grande dupla com Adriano na campanha do título da Copa das Confederações. Muito habilidoso, driblador e rápido, vivia seu auge e poderia ser titular na Copa do Mundo, principalmente pelo fato de Adriano e Ronaldo estarem fora de forma. Pena que o técnico Parreira não entendeu assim. Em 100 jogos, marcou 28 gols pelo Brasil.
Luís Fabiano: o Fabuloso vivia grande fase pelo São Paulo e ganhou espaço com Parreira em 2004, quando fez dupla com Adriano e ajudou a seleção a vencer a Copa América. Na sequência, porém, perdeu espaço e acabou de fora da Copa. Retornaria anos depois, sob o comando de Dunga, e disputou a Copa de 2010. Foram 45 jogos e 28 gols pelo Brasil.
Adriano: o Imperador vivia seu auge entre 2004 e 2005 e era uma esperança notável para a Copa do Mundo. Seus gols e poder de decisão apresentados na Copa América e na Copa das Confederações eram seus cartões de visita. O problema é que o atacante chegou muito mal na Alemanha e decepcionou. A partir dali, sua carreira declinou e ele não foi mais o mesmo, exceto em meados de 2008 (quando fez bons jogos pelo São Paulo) e em 2009 (quando faturou o Brasileirão pelo Flamengo). Adriano disputou 48 jogos e marcou 27 gols pela seleção. Leia mais sobre ele clicando aqui!
Ricardo Oliveira: atacante que vivia o auge da forma na época, Oliveira integrou as equipes campeãs da Copa América e da Copa das Confederações, mas como opção no banco. Tinha oportunismo, velocidade e ótima finalização. Em 2006, era favorito para ser um dos convocados para a Copa, mas sofreu uma grave lesão que o tirou do Mundial. Disputou 16 jogos e marcou cinco gols pelo Brasil.
Fred: o atacante de 22 anos, na época jogando pelo Lyon, foi uma surpresa na convocação de Parreira para a Copa. Acabou brilhando na fase de grupos, quando marcou um dos gols da vitória sobre a Austrália. Fred teve mais chances na seleção a partir de 2011, quando passou a ser convocado regularmente e faturou a Copa das Confederações de 2013. Marcou 18 gols em 39 jogos pelo Brasil.
Carlos Alberto Parreira (Técnico): com uma constelação nas mãos, o técnico poderia ter ousado mais e perdeu uma chance única de construir uma seleção emblemática. Os títulos da Copa América e da Copa das Confederações foram enormes, claro, mas o treinador confiou demais nos medalhões e não soube renovar a equipe para uma competição tão importante e com grau de exigência muito maior. Parreira deveria abdicar das crenças e manias e apostar no time de 2005 sem ressentimentos com os veteranos, e utilizá-los ao longo de algumas partidas, apenas, não a todo momento. Essa teimosia custou a vaga e encerrou o sonho do hexa.

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Time absurdo no papel, tinha tudo pra vencer essa Copa. Uma pena…
Depois da onça morta fácil tirar foto com ela certo.ai vem o Cafu dizer que o time se perdeu nos embalos da Alemanha a noite e criticou o parreira dizendo que faltou pulso firme ao técnico mas quanto a falta de foco o mesmo Cafu era o capitão então porque não bateu na mesa e exigiu comprometimento do time mas não fez porque também se deixou levar pelo oba oba.o mesmo Cafu que junto do Roberto Carlos disse que estavam na Alemanha pra enterrar a era rei Pele na seleção.so rindo mesmo.
Treinadores como Felipão e principalmente tele jamais iriam permitir esse circo numa copa.pro tele jogador tinha que ter fome e ele usava duas expressões:cachorro magro e cachorro de açougue e aí perguntam pro tele no roda viva de 92 se ele queria no time o van basten com 25 anos rico ou o Romário com 25 anos meio pobre e ele diz que prefere o Romário pois ele tem fome cachorro magro e o van basten tá fora pois cachorro de açougue tá sempre de barriga cheia.esse era o mestre tele Santana.
Vocês lembram no pré copa quando o time faz uma vídeo conferência com o presidente lula e ele pergunta pro parreira se o Ronaldo está gordo e o treinador ficou amarelo e respondeu sem jeito que não estava apenas faltava ritmo pro fenômeno.mas aí o Ronaldo não gostou de ser exposto em rede nacional e retrucou pra imprensa dizendo que se ele estava gordo era tão verdade que o lula bebia pra caramba.a coisa pegou mal e só em 2009 no Corinthians eles fizeram as pazes.piada mesmo não.
Recentemente o Moraci preparador físico daquele time falou num podcast que o gaúcho estava dois quilos acima quando chegou mas Ronaldo com oito e Adriano com nove deixaram o parreira perplexo que disse Moraci salva nosso ataque mas como salvar eles se a CBF não deixou o Moraci trabalhar naquele circo todo e claro precisaria de mais tempo de preparação mas aí entra também os craques todos ricos,campeões de tudo,barriga cheia e sem foco.lembremos do Moraci em 94 quando ele banca o branco machucado na copa,recupera ele e o branco retribui muito nos três últimos jogos sendo destaque e campeão.
Definido o sorteio da copa meu pai veterano de guerra fala pra mim assim: passa do grupo mas não vai ser campeão pois tá com o salto muito alto e o idiota aqui ainda tenta argumentar dizendo que éramos brasileiros e acreditávamos no título pois bem aí contra Zidane e Cia meu pai fica quieto o primeiro tempo todo e quando sai o gol do Henry ele diz:não falei pra você,acabou pra nós e depois voltou a ficar em silêncio até o final.mas confesso que em mim doeu demais esse jogo pois ali naquela derrota eu me despedia de muitos ídolos da minha infância e acabou aquele amor eterno pelo brasil.
Deprimente seu texto, mas muito bom. Triste o que aconteceu com a seleção, desde aqueles dias. Adorei a licença poética e as imagens de IA. Sete anos prestigiando e o trabalho continua incrível.
Olá Cristiano! De fato, essa seleção nos decepcionou demais, apesar dos bons momentos de 2004 e 2005. Obrigado pelo prestígio! 🙂