Grandes feitos: Campeão da Recopa da UEFA (1968-1969) e Campeão da Copa da Tchecoslováquia (1967-1968). Conquistou o primeiro título continental da UEFA de um clube tchecoslovaco na história.
Time-base: Alexander Vencel; Josef Fillo (Ľudovít Zlocha), Alexander Horváth, Vladimir Hrivnák (Ján Popluhár) e Ján Zlocha; Josef Capkovic, Ľudovít Cvetler, Ivan Hrdlička e Ladislav Móder (Bohumil Bizon); Karol Jokl e Ján Capkovic. Técnicos: Ján Hucko (1967-1968) e Michal Vican (1968-1969).
“Superando um favorito e a geopolítica”
Por Emmanuel do Valle e Guilherme Diniz
São inúmeras as simbologias e os significados da conquista da Recopa Europeia de 1969 pelo Slovan Bratislava, maior clube da atual Eslováquia e que recentemente emendou uma sequência de sete títulos seguidos do Campeonato Eslovaco entre 2019 e 2025. Em meio a um período politicamente conturbado na antiga Tchecoslováquia, o clube se tornou o único do país – tanto antes quanto depois de sua divisão entre República Tcheca e Eslováquia, em 1993 – a disputar uma final continental, e mais ainda: a levantar a taça. Uma glória marcante que fez com que o clube se transformasse no principal fornecedor de jogadores para a seleção da Tchecoslováquia que disputou a Copa do Mundo de 1970 e que, anos depois, levantou a Eurocopa de 1976. É hora de relembrar.
Sumário
A crise política
A história turbulenta da Recopa da UEFA de 1968-1969 começa dez meses antes de os eslovacos derrotarem o favorito Barcelona-ESP por 3 a 2 na decisão disputada no estádio suíço de St. Jakob Park, na Basileia (SUI). No dia 10 de julho de 1968, em sua sede de Genebra, a UEFA sorteou os confrontos da primeira fase de suas duas competições da época, a Copa dos Campeões e a Recopa (a Copa das Cidades com Feiras, terceiro torneio de clubes do continente de então, era organizada por um comitê independente).
Naquele momento, a Tchecoslováquia vivia dias de apreensão. O chefe de Governo Alexander Dubček, secretário-geral do Partido Comunista do país, havia proposto uma série de reformas para uma abertura no regime socialista que não agradaram à União Soviética. Depois que as tentativas de diálogo falharam, em 20 de agosto os tanques do Pacto de Varsóvia (organização militar que reunia os soviéticos e seus países satélite da Cortina de Ferro) invadiram e ocuparam o país, gerando incerteza política, ainda que recebidos sem violência.

Uma semana depois, a UEFA convocou reunião de seu Comitê de Urgência em Zurique para tratar de suas copas de clubes diante dos últimos acontecimentos em Praga. Segundo nota publicada no jornal catalão Mundo Deportivo, a entidade deveria avaliar a posição do Celtic, que enfrentaria o Ferencváros-HUN pela Copa dos Campeões e se opunha à disputa de jogos contra equipes dos países que haviam participado da invasão da Tchecoslováquia.
Não era a primeira vez que questões políticas interferiam em torneios europeus: em 1956, a reação ao levante húngaro fez com que o grande time do Honvéd fosse obrigado a transferir para Bruxelas sua partida como mandante contra o Athletic Bilbao-ESP pela Copa dos Campeões, antes de sair pelo mundo em excursão. No fim de 1962, a Grécia se recusou a enfrentar a Albânia (que se classificou automaticamente) em Tirana pelas Eliminatórias da Eurocopa, sob a alegação de que os dois países estavam tecnicamente em guerra desde 1912.
Temendo que a contrariedade do Celtic encontrasse eco em outros clubes da Europa ocidental, o comitê decidiu simplesmente anular a tabela original e anunciar uma nova no dia 30, mantendo do sorteio anterior apenas os confrontos entre equipes do mesmo bloco político e remanejando os demais. A única exceção ficou por conta do jogo da Recopa entre o Torino-ITA e o Partizan Tirana, da isolada Albânia, o qual a entidade achou desnecessário alterar.

Foi então a vez de alguns países da Cortina de Ferro protestarem contra a interferência na formulação do torneio e ameaçarem levar a questão à FIFA. As ameaças de boicote não tardaram a aparecer: em 12 de setembro, dias antes do previsto para a realização dos jogos de ida da primeira fase, a federação polonesa anunciou que retiraria seus clubes de ambos os torneios caso a UEFA não voltasse atrás em sua medida, a qual considerava “ilegal”.
No dia seguinte, já era oficial: os búlgaros anunciaram sua retirada, seguidos um dia depois pelos húngaros. Também no dia 14, os alemães-orientais acenaram com a possibilidade de deixar os torneios caso a tabela original não fosse recuperada. Como a UEFA não recuou, todos os quatro países mais os soviéticos decidiram pelo boicote. Do bloco socialista, apenas Romênia, Iugoslávia e a própria Tchecoslováquia preferiram continuar no torneio sob a nova tabela.
Assim, os confrontos da Recopa entre Spartak Sofia-BUL e Union Berlin-ALE e entre Górnik Zabzre-POL e Dinamo Moscou-URSS não chegam a acontecer. O Dinamo Bucareste-ROM, por sua vez, avançou para a segunda fase diretamente, por desistência do Gyor húngaro. Embora tenha vencido de modo surpreendente o jogo de ida em casa contra o Torino, o Partizan Tirana foi batido na Itália e eliminado. Restou apenas o confronto entre o Slovan Bratislava e o pequeno Bor, da Iugoslávia.
O pequeno clube sérvio, fundado em 1919 por franceses numa região de mineração, havia vencido a segunda divisão iugoslava em 1968 e também alcançado a final da copa nacional no mesmo ano, mas não resistiu ao poderoso Estrela Vermelha, que aplicou um sonoro 7 a 0 na decisão e completou sua dobradinha. Porém, o Bor acabou herdando a vaga na Recopa, naquela que seria sua primeira e única participação nas taças europeias.
O time-base
Do outro lado, os Belasí (azuis celestes) – que nasceram como ČsŠK Bratislava também em 1919 e se tornaram Slovan em 1953 – já eram grandes na Tchecoslováquia, embora enfrentassem então um jejum de 13 anos na liga. Tinham ainda certa tradição europeia: foram os primeiros representantes do país na Copa dos Campeões, em 1956/57, e registraram alguns de seus melhores resultados na Recopa, caindo nas quartas de final em 1962/63 e 1963/64.
Na temporada 1967/68, seu rival Spartak Trnava conquistou seu primeiro título da liga na história, mas perdeu o técnico Anton Malatinský, que seguiu para a Áustria onde comandaria o Admira. Para o lugar, trouxe Ján Hucko, exatamente o comandante do Slovan, que havia sido vice na liga e levantado a Copa da Tchecoslováquia, batendo o Dukla Praga. Os Belasí então acertaram com Michal Vičan, que vinha fazendo ótimos trabalhos com o pequeno Jednota Trenčín.

Ex-zagueiro do próprio Slovan quatro vezes campeão nacional na virada dos anos 1940 para os 1950, Vičan se tornou um treinador adepto do futebol rápido e direto, levando com isso o Jednota ao vice-campeonato da liga em 1963 e a terminar em terceiro naquela temporada, além de ter chegado à final da Copa Mitropa em 1966, quando perdeu para a Fiorentina em Florença, depois de ter eliminado potências como o Estrela Vermelha e o Vasas.
No Slovan, Michal Vičan herdaria um elenco que mesclava experiência e juventude. Sua espinha dorsal era formada por quatro remanescentes da seleção tchecoslovaca que disputara, sem sucesso, as Eliminatórias para a Copa de 1966, perdendo a vaga no Mundial para Portugal de Eusébio: o seguro goleiro Alexander Vencel, o sólido zagueiro e capitão Alexander Horváth, o dinâmico meia Ivan Hrdlička e o habilidoso atacante Karol Jokl.
Além deles, havia um nome ainda mais experiente: o líbero Ján Popluhár, 33 anos, veterano das Copas de 1958 e 1962, e já em fim de carreira, com número reduzido de atuações. Outro jogador rodado era o atacante Ľudovít Cvetler, 30 anos, também com passagem pela seleção, mas ainda titular dos Belasí. Já a juventude era simbolizada pelos gêmeos Jozef e Ján Čapkovič (meia e atacante, respectivamente), ambos com 20 anos ao início da campanha.

Outra dupla de irmãos atuava pelas laterais: Ľudovít Zlocha atuou pelo lado direito na maior parte da campanha, perdendo a posição na reta final para Jozef Fillo. Já seu irmão três anos mais velho, Ján Zlocha, seguiu intocável na lateral-esquerda durante todo o torneio. Completavam aquela equipe-base o zagueiro Vladimír Hrivnák, que substituiu Popluhár na função de líbero, e o meia-atacante Ladislav Móder, que fazia dupla de pontas-de-lança com Jokl.
Uma mostra do potencial daquela equipe foi dada no fim de julho, quando o clube organizou um quadrangular em comemoração ao seu 40º aniversário de fundação e terminou levantando a taça após vencer por 1 a 0 o Hamburgo-ALE, que acabara de chegar à final da Recopa, na qual foi derrotado pelo Milan-ITA, e golear por 4 a 1 o Ajax-HOL, campeão holandês que alcançaria a decisão da Copa dos Campeões contra os mesmos rossoneri ao fim daquela temporada 1968-1969.
O começo da campanha
Na nova edição da Recopa, em 1968-1969, o Slovan estreou batendo sem dificuldade o Bor por 3 a 0 no estádio Tehelné Pole, em Bratislava, embora os gols só tenham saído na segunda etapa: Jokl abriu o placar logo aos três minutos e ampliou aos 24’. O meia Hrdlička completou a contagem aos 35’ com um gol que acabou sendo crucial para a classificação. Na volta, os donos da casa marcaram um gol em cada tempo, e o Slovan teve de conter a pressão para ficar com a vaga.
Nas oitavas de final, o adversário seria o Porto-POR, que eliminou no sufoco o Cardiff City-WAL, mas fez o suficiente para bater o Slovan por 1 a 0 com gol de Custódio Pinto no velho Estádio das Antas. Na volta, porém, os eslovacos amassaram os portugueses: Ján Čapkovič abriu o placar aos 22 minutos, Jokl ampliou logo depois do intervalo e, nos minutos finais, a goleada foi fechada em 4 a 0 com tentos de Jozef Čapkovič e outro de Jokl, cobrando pênalti.

Com a eliminação do Dínamo Bucareste frente ao West Bromwich Albion-ING ainda nas oitavas, o Slovan passava a ser o solitário representante do bloco socialista entre os oito quadrifinalistas. E, logo após a virada do ano, com a liga nacional suspensa pelo inverno, o time viajou à Argentina para disputar um torneio em Mar del Plata, no qual colheu alguns bons resultados, como uma vitória sobre o campeão mundial Estudiantes-ARG e um empate sem gols com o Palmeiras da Primeira Academia. Tempo depois, em agosto de 1969, o Slovan venceria outra vez o Estudiantes, por 2 a 1, pelo Troféu Joan Gamper, em Barcelona (ESP).
Em 19 de fevereiro, o Slovan saiu na frente nas quartas de final com uma grande vitória sobre o Torino em pleno Stadio Comunale por 1 a 0. O único gol aconteceu aos nove minutos da etapa final: o atacante Dušan Hlavenka, substituto de Móder naquele jogo, cruzou da direita, o goleiro Lido Vieri se antecipou a Čapkovič para tentar espalmar, mas a bola foi rebatida de cabeça por Cvetler e chegou a Jokl, que tocou longe do alcance do arqueiro italiano.
O bom time do Toro contava com o meia franco-argentino Nestor Combin, além de vários nomes da Azzurra, como o próprio Lido Vieri, o lateral Fabrizio Poletti, o volante Giorgio Puja e o meia e capitão Giorgio Ferrini. Mas acabou superado também na partida de volta, em Bratislava, no dia 5 de março, mesmo com o Slovan tendo de atuar por quase uma hora com um jogador a menos devido à expulsão de Hrdlička por jogo brusco aos 35 minutos da etapa inicial.
Naquela altura do jogo, o Slovan já vencia por 1 a 0, com um gol em chute de muito longe do zagueiro Horváth. E na etapa final, aos 18 minutos, Hlavenka ampliou o placar e a vantagem no mata-mata. Somente na última volta do ponteiro o Torino anotou seu gol de honra, com Alberto Carelli, quando a vaga já estava mais do que assegurada aos Belasí. Nas semifinais, o time pegaria o Dunfermline, da Escócia, que eliminara o West Bromwich num duelo britânico.

O time escocês, que começara aquela década sob o comando do lendário Jock Stein e levantando a Copa da Escócia, vivia bom momento em âmbito doméstico e também europeu: havia voltado à decisão da FA Cup de seu país outras duas vezes, reconquistando o troféu em 1968. Figurava com frequência entre os quatro primeiros da liga escocesa. E havia alcançado as quartas de final tanto na Recopa, em 1961/62, quanto na Copa das Feiras, em 1965/66.
No primeiro jogo, disputado no campo pesado do estádio de East End Park, o Slovan saiu atrás no marcador no último lance da primeira etapa, quando, após uma cobrança de falta para a área e uma falha da defesa em seguida, o meia Jim Fraser tocou com tranquilidade para as redes. Mas a oito minutos do fim da partida, após muita pressão do Dunfermline, veio o empate: Ján Čapkovič foi lançado no lado esquerdo do ataque e tocou de cobertura, na saída do goleiro.
A partida de volta em Bratislava foi uma verdadeira batalha, com os escoceses entrando forte e os donos da casa revidando. E ficou ainda mais pegado depois que o Slovan abriu o placar com um gol de Ján Čapkovič, aos 23 minutos. Na etapa final, o saldo do jogo truncado foi a expulsão do atacante Pat Gardner, do Dunfermline, aos 31 minutos. Com um a mais, os donos da casa se tranquilizaram e controlaram a partida, confirmando a passagem à final.
Enquanto isso, na Copa dos Campeões, o arquirrival Spartak Trnava também havia chegado entre os semifinalistas, repetindo o feito do Dukla Praga em 1966/67. Porém, sucumbira ao Ajax do jovem Johan Cruyff, perdendo por 3 a 0 em Amsterdã e vencendo por apenas 2 a 0 em casa. O fato de ter superado a campanha do rival tornou a classificação do Slovan à decisão ainda mais saborosa. Mas os Belasí também teriam pela frente um forte adversário.
A decisão
Já então um nome de prestígio no futebol europeu, o Barcelona vivia um momento não tão vitorioso. Estava bem no meio de um jejum na liga espanhola que duraria 14 anos (entre 1960 e 1974). Naquela década, havia levantado apenas duas taças nacionais e uma Copa das Feiras em 1966. Chegara, é verdade, à final da Copa dos Campeões em 1961, mas caíra diante do Benfica numa final em Berna, na mesma Suíça a qual voltava agora para decidir a Recopa.

Era, porém, uma equipe repleta de jogadores experientes. O zagueiro e capitão Ferran Olivella havia ostentado a braçadeira também da seleção espanhola no título europeu de 1964. Além dele, o goleiro Salvador Sadurní e os meias Josep Maria Fusté e Jesus “Chus” Pereda também estavam naquele elenco da Roja. Além disso, Olivella, Fusté e o lateral-esquerdo Eladio também haviam estado no Mundial inglês, dois anos depois.
Mas nem só de jogadores rodados vivia aquele Barça: o habilidoso ponta-esquerda Carles Rexach, de apenas 21 anos, despontava como promessa de talento (teria extensa carreira no clube e na seleção ao longo da década seguinte). Pelo maior peso no futebol continental do clube e de seus jogadores, o Barcelona era apontado pela imprensa e pelas casas de apostas como o grande favorito ao título da Recopa, na decisão da Basileia. Mas as surpresas não tardaram.

O Slovan abriu o placar com apenas 40 segundos. Uma bola interceptada no campo de defesa eslovaco chegou até a meia esquerda e de lá à intermediária ofensiva, com Hrdlička se projetando. Ele se infiltrou e passou a Cvetler na área. O chute do camisa 7 espirrou na defesa e voltou a Hrdlička, que novamente fez o passe. Cvetler, agora desmarcado no meio da área, cara a cara com Sadurní, bateu com o bico do pé direito antes da chegada do defensor. 1 a 0.
Aos 10’, os eslovacos quase ampliaram quando Ján Čapkovič foi lançado nas costas do lado direito da defesa blaugrana, avançou em diagonal e bateu cruzado, levando muito perigo ao gol adversário. Mas logo depois, aos 16’, quem marcou foi o Barcelona, que nesta altura já tinha mais o controle do jogo. Num contragolpe, a bola foi alçada da esquerda para a área e Carles Rexach escorou de cabeça para a finalização do capitão José Antonio Zaldúa.
E os catalães quase chegaram à virada numa falha do lado direito da defesa do Slovan, que Santiago Castro não aproveitou e bateu por cima do gol. Depois do susto, os eslovacos voltaram a ter mais a bola, e Jokl testou Sadurní com uma cabeçada. Até que, aos 30’, o Slovan recuou o jogo até os zagueiros, já postados na linha intermediária. Quando o central Hrivnák recebeu, ele arrancou para o ataque, tabelou, entrou na área, ganhou a disputa na bola espirrada com a defesa e bateu firme na saída de Sadurní para deixar os Belasí outra vez em vantagem.

Em busca do empate, o Barcelona começou a entrar mais duro nas divididas e quase tirou Hrivnák do jogo. Mais tarde, Zaldúa obrigou Vencel a uma grande defesa num chute de fora da área. Só que a defesa voltou a falhar aos 42 minutos: numa cobrança rápida de lateral de Jokl, o capitão Olivella furou bisonhamente e a bola sobrou para Ján Čapkovič, que, sozinho, bateu cruzado para marcar o terceiro gol e aumentar a vantagem dos eslovacos antes do intervalo.
Na etapa final, a primeira boa chance foi do Slovan, em contra-ataque iniciado por Jozef Čapkovič e concluído por Jokl, para a defesa de Sadurní. Mas quem dominou os minutos iniciais foi o Barça: Vencel precisou se desdobrar para espalmar um chute venenoso de Pellicer. Mas não conseguiu deter uma cobrança fechada e ainda mais enganosa de Rexach no escanteio resultante. Um gol olímpico recolocou os catalães no jogo. O Slovan teria de suportar a pressão.
E o empate blaugrana quase veio um minuto depois, numa cobrança de falta de Rexach – a figura responsável pelo crescimento dos catalães na partida – que Vencel defendeu em dois tempos, uma fração de segundo antes da chegada de Fusté. Com o andar do relógio, porém, o ímpeto do Barcelona foi esfriando, ainda que o Slovan não tenha tido muitas oportunidades de reter a bola no ataque. Para isso, aliás, o técnico Michal Vičan colocou o atacante Bohumil Bizon.

O Barcelona ainda perdeu uma chance incrível aos 27 minutos, quando Rifé faz jogada de ponta pela esquerda e rolou para a chegada de Zaldúa. Mas o camisa 9, na pequena área, com o goleiro batido, tocou por cima do gol e se desesperou. No fim do jogo, Sadurní quase entregou de vez o ouro numa saída errada da área que por pouco não o levou a ser encoberto por Cvetler, mas o arqueiro conseguiu voltar a tempo para a meta e espalmar.
Com o árbitro estendendo os acréscimos além do comum para a época, o Barcelona ainda teve uma última chance num chute forte de Fusté de fora da área que Vencel encaixou. Foi a senha para enfim o holandês Laurens van Ravens apitar o fim do jogo e dar início à festa do Slovan, o azarão que conquistou a Recopa, o dono de um feito histórico, o clube que escreveu o nome do futebol tchecoslovaco na galeria de campeões do futebol europeu. Em 9 jogos, foram 6 vitórias, um empate e duas derrotas, com 15 gols marcados e 7 gols sofridos. Karol Jokl, com 5 gols, e Ján Capkovic, com 4, foram os artilheiros da equipe na competição.
Campeões nacionais e o fim
O rival Sparta Trnava levaria o bicampeonato nacional em 1968-1969, mas o Slovan retomaria a taça do Campeonato Tchecoslovaco na temporada seguinte, 1969-1970, com três pontos de vantagem sobre o Sparta, um título que fez o clube servir como base para a seleção da Tchecoslováquia que disputaria a Copa do México, cedendo sete jogadores entre os 22 convocados: o goleiro Vencel, os zagueiros Hrivnák e Horváth, o lateral-esquerdo Ján Zlocha, o meia Hrdlička e os atacantes Jokl e Ján Čapkovič (Horváth, Hrdlička e Jokl enfrentariam o Brasil na partida de estreia).

Mais adiante naquela década, o clube conquistaria um bicampeonato nacional em 1974 e 1975, com uma equipe que novamente serviria de base para a seleção, e desta vez num momento de glória: seriam outra vez sete jogadores dos Belasí (entre eles, Vencel e Jozef Čapkovič) no grupo de 22 que conquistaria o título da Eurocopa, eliminando a Holanda de Johan Cruyff na semifinal e superando a Alemanha Ocidental na decisão, nos pênaltis.

Nas copas europeias de clubes, por outro lado, o Slovan nunca mais fez campanha digna de nota, embora fosse assíduo nos torneios. Assim como as equipes da antiga Tchecoslováquia (antes e após a divisão), nunca mais voltaram a uma decisão. As melhores campanhas terminaram sempre uma etapa antes, nas semifinais: o Sparta Praga (1973), o Banik Ostrava (1979) e o Dukla Praga (1986) na Recopa e o Bohemians (1983) e o Slavia Praga (1996) na Copa da UEFA. Por tudo isso, o Slovan Bratislava de 1967-1969 segue como absoluto e imortal.
Os personagens:
Alexander Vencel: ídolo do Slovan Bratislava, clube onde jogou por 12 anos, Vencel foi figura constante também na seleção tchecoslovaca, pela qual disputou 25 jogos entre 1965 e 1977 e integrou o plantel da Copa do Mundo de 1970. Conquistou 12 títulos com a camisa dos Belasí.
Josef Fillo: o defensor só jogou no Slovan Bratislava em toda carreira, entre 1963 e 1971, e brilhou principalmente no começo dos anos 1960, quando foi titular absoluto da lateral-direita. Apesar de ter perdido a posição em algumas partidas da campanha continental, retomou o posto na reta final e esteve na decisão diante do Barcelona.
Ľudovít Zlocha: jogador versátil e inteligente, o irmão mais novo de Ján Zlocha atuava principalmente como meio-campista e lateral-direito, destacando-se por sua consciência tática e consistência. Passou praticamente toda a sua carreira profissional no Slovan Bratislava, integrando a lendária equipe que alcançou a glória internacional no final da década de 1960. Um símbolo de disciplina, lealdade e sucesso europeu.
Alexander Horváth: capitão da equipe campeã europeia em 1969 e muito regular, o zagueiro foi um dos principais nomes do futebol tchecoslovaco naqueles anos 1960 e 1970 e outro a integrar a seleção de seu país na Copa do México. Horváth jogou durante sete temporadas no Slovan Bratislava e fez uma ótima dupla de zaga com Hrivnák. Além das boas atuações defensivas, costumava arriscar chutes de fora da área, artifício muito útil durante a caminhada do Slovan na Recopa da UEFA.
Vladimir Hrivnák: autor do segundo gol do Slovan na decisão europeia de 1969, Hrivnák foi revelado pelo próprio clube, em 1965, e tornou-se titular da equipe ao longo dos anos 1960 e 1970, destacando-se pela firmeza na marcação, boa leitura de jogo e liderança defensiva.
Ján Popluhár: presente em duas Copas do Mundo – 1958 e 1962 – o zagueiro foi um dos maiores de sua época e tido como melhor defensor da Tchecoslováquia no século XX, ganhando inclusive um prêmio no Jubileu da UEFA em 2003. O defensor jogou no Slovan Bratislava entre 1955 e 1969 e só perdeu espaço por conta da ótima fase dos da dupla Hrivnák e Horváth.
Ján Zlocha: formado no próprio Slovan em 1964, Zlocha tornou-se titular ainda jovem e destacou-se pela regularidade, disciplina tática e apoio constante ao ataque pelo lado esquerdo do campo. Foi um dos pilares da equipe que viveu o momento mais glorioso da história do clube no fim da década de 1960. Lateral confiável e comprometido, Ján Zlocha integrou uma geração que colocou o Slovan Bratislava definitivamente no mapa do futebol europeu.
Josef Capkovic: meia de muita força ofensiva e essencial nos contra-ataques e na distribuição do jogo, Josef Capkovic vestiu a camisa do Slovan Bratislava por 10 anos e foi essencial na campanha do título europeu. Foi convocado para a seleção só a partir de 1974 e esteve no elenco campeão da Eurocopa de 1976.
Ľudovít Cvetler: outro jogador que marcou época no Slovan Bratislava – foram 10 anos no clube – Cvetler anotou 54 gols em 232 partidas e foi muito consistente ao longo daqueles anos, além de poder jogar tanto mais aberto como centralizado. Esteve no time olímpico da Tchecoslováquia que ficou com a medalha de prata nos Jogos de Tóquio-1964.
Ivan Hrdlicka: com boa técnica e visão de jogo, Hrdlička destacou-se pela capacidade de organizar o meio-campo e participar ativamente das ações ofensivas. Durante os anos 1960, foi presença constante na equipe principal do Slovan, contribuindo para conquistas nacionais e, sobretudo, para o maior feito da história do clube. Além do sucesso pelo Slovan, Hrdlička também foi convocado para a Seleção da Tchecoslováquia, representando seu país internacionalmente e na Copa do Mundo de 1970.
Ladislav Móder: atuava principalmente no meio-campo e no ataque, mais aberto, contribuindo tanto na construção das jogadas quanto no apoio ofensivo, além de recuar e dar combate em busca da bola. Foi um dos integrantes do elenco que alcançou o maior feito da história do clube: a conquista da Recopa Europeia.
Bohumil Bizon: atuando no setor ofensivo, Bizon destacava-se pela mobilidade, oportunismo e capacidade de finalização. Por conta da boa fase dos companheiros titulares, foi reserva e só entrou em algumas oportunidades. Marcou sete gols em 45 jogos pelo Slovan entre 1968 e 1971.
Karol Jokl: artilheiro do time na campanha da Recopa da UEFA com 5 gols, Jokl conquistou nove títulos com a camisa do Slovan Bratislava e foi um dos principais goleadores da equipe entre 1963 e 1975. Rápido, habilidoso e com faro de gol, Jokl se movimentava bastante no setor ofensivo do time e era a referência de gols juntamente com Ján Capkovic.
Ján Capkovic: o parceiro ideal de Jokl no ataque do Slovan, Ján Capkovic foi vice-artilheiro do time na campanha da Recopa da UEFA com 4 gols – um deles na final – e foi um dos grandes ídolos do clube ao longo dos 10 anos em que vestiu a camisa dos Belasí. Em campeonatos domésticos, anotou 100 gols em 287 jogos. Pela seleção, anotou seis gols em 20 jogos pela equipe tchecoslovaca. Esteve na Copa de 1970.
Ján Hucko e Michal Vican (Técnicos): Hucko teve passagens pelo Slovan Bratislava em 1966–1968, além de retornar ao clube em 1971–1973 (e, mais tarde, em 1984). Seu ciclo de 1966–68 é frequentemente lembrado porque, apesar de o Slovan ter conquistado a Copa da Tchecoslováquia em 1967–68, Hucko deixou o cargo e foi para o Spartak Trnava; pouco depois, o Slovan viveu a campanha histórica da Recopa já com outro treinador: Michal Vican, conhecido pela organização tática e pela disciplina coletiva. Vičan soube potencializar uma geração talentosa e seu trabalho consolidou o Slovan como uma das grandes forças do futebol da Tchecoslováquia. Ele venceu ainda o título nacional de 1969-1970.
Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.

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