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Torneios Históricos: Copa das Cidades com Feiras

 

Por Guilherme Diniz

 

O mundo do futebol já teve – e tem – torneios com os mais diversos nomes e os mais diversos significados. Porém, se tem uma competição que até hoje desperta estranheza e reações como “hã?”, “Copa do quê?” é a Copa das Cidades com Feiras, realizada entre 1955 e 1971 e que reunia equipes de cidades onde eram realizadas feiras de comércio na Europa, que se tornaram muito comuns após a 2ª Guerra Mundial. Como, durante as feiras, havia partidas de futebol entre equipes das cidades, eis que surgiu na segunda metade da década de 1950 um torneio que desse mais corpo a tais jogos e mais prestígio às feiras. As características dessa Copa serviram como base para, anos depois, a UEFA criar a Copa da UEFA (atual Liga Europa), embora os campeões das Copas das Cidades com Feiras não sejam incluídos no rol de campeões da Copa da UEFA. É hora de conhecer mais sobre essa exótica e diferente competição.

 

A promoção das Feiras

O troféu, atualmente no Museu do Barcelona.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, o continente europeu precisou se reerguer economicamente da maneira mais rápida possível. E, entre as medidas, estavam a organização de feiras de comércio em determinados países, eventos que ajudavam a conexão entre vários setores como agricultura, pecuária, peças, entre outros. Durante essas feiras, como forma de entretenimento, era comum a realização de partidas de futebol entre equipes das cidades onde as feiras eram realizadas. Com isso, o vice-presidente da FIFA na década de 1950, o suíço Ernst Thommen, que era também magnata no ramo de loterias, decidiu tornar tais partidas um evento mais encorpado e atraente.

Thommen começou a tirar o projeto do papel em 1954, ano da Copa do Mundo da Suíça. Durante um evento que celebrava os 50 anos da federação sueca de futebol, Thommen conversou com dirigentes de vários países e expôs sua ideia de criar um novo torneio continental de clubes. No “garimpo”, o primeiro nome de peso que surgiu foi do italiano Ottorino Barassi, presidente da Federação Italiana de Futebol na época, guardião da Taça Jules Rimet no período da Segunda Guerra e um dos responsáveis pela criação da UEFA. Depois dele, outra figura importante abraçou a ideia de Thommen: Stanley Rous, ex-árbitro de futebol, membro da Football Association e organizador dos Jogos Olímpicos de Londres de 1948.

Thommen, Barassi e Rous, o trio que fundou a Copa das Cidades com Feiras. Foto: Acervo / Trivela

 

Com os três, o torneio começou a sair do papel e vários pontos eram benéficos como a ascensão dos voos comerciais, que encurtaram as distâncias das viagens, os refletores em alguns estádios, o que possibilitava a realização de jogos no período noturno, e, claro, o gosto pelo esporte que só crescia no continente. Na mesma época de 1954, Gabriel Hanot, jornalista do L’Équipe, disse que o continente precisava de um torneio reunindo os campeões de cada país em jogos de ida e volta, no que viria a ser a Copa dos Campeões – atual Liga dos Campeões da UEFA. Porém, a competição sonhada por Hanot só sairia do papel em 1955-1956. Com isso, em março de 1955, a Copa das Cidades com Feiras surgiu primeiro do que a Copa dos Campeões Europeus, curiosamente em um congresso da UEFA, embora a entidade não tenha dado seu aval nem nome ao torneio.

 

Formato e disputa

O Barcelona se vestiu de azul para disputar a Copa das Cidades com Feiras como Barcelona XI.

 

Como o nome diz, a Copa das Cidades com Feiras não tinha em suas primeiras edições clubes propriamente ditos, mas sim cidades. Portanto, se houvesse uma feira em Londres, a cidade seria representada pelo Londres XI, e não por Arsenal ou Chelsea, por exemplo. O processo de qualificação era aberto a todas as cidades que abrigavam feiras de comércio – quase 60 -, o que poderia resultar em uma competição bem complexa. Mas, para a sorte dos organizadores, apenas 12 cidades se inscreveram na primeira edição, que foi disputada entre 1955-1958, em datas bem flexíveis e preferencialmente durantes as feiras, para não atrapalhar os clubes em suas respectivas ligas nacionais. 

As cidades presentes no torneio inaugural foram Barcelona (ESP), Basileia (SUI), Birmingham (ING), Colônia (ALE), Copenhague (DIN), Frankfurt (ALE), Lausanne (SUI), Leipzig (ALE), Londres (ING), Milão (ITA), Viena (AUT) e Zagreb (IUG na época). Todas foram divididas em grupos com três equipes, que se enfrentaram em duelos de ida e volta. Cada líder de grupo iria para as semifinais e os vencedores iriam para a final. Das 12 cidades, nove foram formadas por combinados de atletas oriundos de outros clubes, enquanto três cidades preferiram levar um clube de fato: Birmingham (Birmingham City), Milão (Internazionale) e Lausanne (Lausanne-Sport). Vale lembrar que Viena e Colônia acabaram desistindo da participação pouco antes do início da disputa, enquanto Barcelona foi representada quase em sua totalidade pelo FC Barcelona e um atleta do Espanyol – a equipe usou outro uniforme e escudo para se diferenciar de sua vestimenta padrão e se adequar ao propósito do torneio.

Barcelona XI, Birmingham City, Lausanne-Sport e London XI foram os classificados para as semifinais. Nelas, o London XI venceu o Lausanne-Sport por 3 a 2 no agregado e o Barcelona XI superou o Birmingham City após três jogos bastante disputados, com uma vitória para cada lado e triunfo dos catalães na partida desempate por 2 a 1 – gols de Evaristo e Kubala, ambos do forte Barcelona da época. Na final, London XI e Barcelona XI fizeram jogos marcantes. No primeiro, em Stamford Bridge, empate em 2 a 2, com os gols ingleses anotados por Jimmy Greaves e Ernst Langley e os catalães por Eulogio Martínez e Tejada. Na volta, no Camp Nou, o time da casa goleou por 6 a 0 – dois gols de Luís Suárez Miramontes, dois de Evaristo, um de Martínez e um de Vergés -, e a primeira conquista ficou com a cidade catalã – o troféu, na verdade, ficou com o FC Barcelona. Evaristo e Murphy, com 4 gols cada, foram os artilheiros do torneio.

A edição seguinte foi disputada entre 1958-1960 com um novo formato de disputa: as equipes foram sorteadas em duelos eliminatórios de ida e volta e, de novo, algumas cidades foram representadas por clubes específicos e outras por combinados. Os clubes participantes foram Union Saint-Gilloise, Hannover 96, Roma, Birmingham City, Újpest, Chelsea, Lausanne-Sport, Barcelona, Internazionale e Lyon. Detentores do título, os catalães ficaram com o bi de maneira inquestionável: venceram Basel XI (7 a 3 no agregado), Internazionale (8 a 2 no agregado) e Belgrade XI (4 a 2 no agregado) até despacharem o Birmingham City na final após empate sem gols na Inglaterra e goleada de 4 a 1 no Camp Nou – gols de Martínez, Czibor (2) e Coll. O segundo troféu serviu como alento para a eliminação dos catalães na semifinal da Copa dos Campeões para o rival, Real Madrid, uma semana antes. Bora Kostic, do Belgrade XI, foi o artilheiro do torneio com 6 gols.

 

A UEFA começa a pressionar

A Roma foi a única italiana a vencer a competição.

 

Com o sucesso da segunda edição da Copa das Cidades com Feiras, a UEFA viu na competição uma concorrente para seu principal torneio de clubes. Por isso, ela exigiu que os clubes que participavam da Copa dos Campeões não poderiam disputar também a Copa de Feiras. E também que o torneio não se desenvolvesse mais por muito tempo. A solução dos organizadores foi encurtar a disputa para um ano, embora a terceira edição tenha começado em 1960 e terminado em outubro de 1961. Novamente com 16 clubes, a copa teve como campeão pela primeira vez uma equipe italiana: a Roma, que superou pelo caminho os belgas do Union Saint-Gilloise (4 a 1 no agregado), o Colônia XI (2 a 2 no agregado e 4 a 1 na partida desempate) e o Hibernian (5 a 5 no agregado e goleada de 6 a 0 na partida desempate).

O brasileiro Waldo se tornou o maior artilheiro da história da competição.

 

Na final, contra o Birmingham City, o duelo de ida terminou empatado em 2 a 2 no St. Andrews. Na volta, em Roma, a equipe da casa venceu por 2 a 0 e levantou seu primeiro título continental. Manfredini, com 12 gols, foi o grande artilheiro da competição – e o maior em uma só edição da copa. A partir de 1961, a competição passou a obedecer um calendário regular e sempre foi organizada ao longo de uma temporada. Em 1961-1962 e 1962-1963, o Valencia faturou o bicampeonato com vitórias marcantes sobre o Barcelona (7 a 3 no agregado) e Dinamo Zagreb (4 a 1 no agregado). Foi nessa época que o atacante brasileiro Waldo marcou época e se tornaria o maior artilheiro da história da copa com 31 gols, sendo inclusive artilheiro nas edições de 1961/62 (9 gols), 1962/63 (6 gols) e 1963/64 (6 gols).

 

“Intrusos” e domínio inglês

O Valencia campeão de 1963.

 

O Valencia bem que tentou o tricampeonato seguido em 1963-1964, temporada que marcou a consolidação dos clubes na competição e não mais combinados de cidades (exceto Copenhage, que ainda mandou um Copenhage XI naquele ano), mas acabou derrotado na final pelo compatriota Real Zaragoza, que vivia grande fase na época graças ao seu quinteto ofensivo formado pelos brasileiros Canário (ex-Real Madrid) e Duca (ex-Flamengo) e os espanhóis Marcelino (autor do gol do título da Eurocopa de 1964 da Espanha), Juan Manuel Villa e Carlos Lapetra. Na final, disputada naquele ano em jogo único, o Zaragoza venceu o Valencia por 2 a 1 (gols de Villa e Marcelino) e celebrou a conquista internacional, que se somou à Copa do Rei também conquistada em 1963-1964 e deu aquele time o apelido de Los Magníficos.

Los Magníficos, campeões de 1964.

 

O Ferencváros surpreendeu a Juventus e ficou com o título de 1965.

 

Na temporada seguinte, o leste europeu venceu pela primeira vez a copa com o Ferencváros-HUN, na mais “inchada” Copa das Cidades com Feiras até então: 48 equipes, sendo que a organização recebeu na época 77 inscrições! Querendo manter a hegemonia, o futebol espanhol teve cinco equipes na disputa do título pela primeira vez, mas o Ferencváros, uma das bases da forte seleção húngara da época (que seria bicampeã olímpica) e com o craque Flórián Albert, superou os adversários e levantou a taça. Pelo caminho, os alviverdes despacharam o Spartak Brno-TCH, Wiener Sport-Club-AUT, Roma-ITA e Athletic Bilbao-ESP até encontrarem a Juventus na decisão, disputada em Turim. Mesmo diante de 40 mil pessoas no Stadio Comunale, os húngaros venceram por 1 a 0 (gol de Fenyvesi) e celebraram um histórico título continental.

Barça foi o primeiro e único tricampeão.

 

Festa do Newcastle em 1969. Foto: PA Images

 

Em 1965-1966, o Barcelona voltou a levantar o torneio após vencer o Real Zaragoza na final – derrota por 1 a 0 em casa e vitória por 4 a 2 fora. Na temporada 1966-1967, outra vez o leste europeu fez a festa: o Dinamo Zagreb, que eliminou clubes do calibre de Juventus e Eintracht Frankfurt até derrotar o Leeds United na final com uma vitória por 2 a 0 na ida, em Zagreb, e empate sem gols na Inglaterra. Mas, a partir da temporada 1967-1968, os ingleses iriam dominar as quatro últimas edições. O Leeds, depois do revés em 1967, levantou seu primeiro título em 1968, quando superou o Ferencváros na final. Em 1968-1969, foi a vez do Newcastle United levar um raro troféu para sua galeria no triunfo diante do Újpesti (6 a 2 no agregado). 

 

Billy Bremner ergue a taça de 1971 do Leeds. Foto: © Colorsport

 

 

Na época 1969-1970, foi a vez do Arsenal celebrar seu primeiro título continental após superar o Anderlecht-BEL com uma vitória por 3 a 0 no jogo da volta após revés de 3 a 1 na ida. Antes, nas semifinais, os Gunners eliminaram nada mais nada menos que o Ajax de Rinus Michels e Johan Cruyff com uma sonora vitória por 3 a 0 em Highbury e derrota por apenas 1 a 0 em Amsterdã! Vale lembrar que, já na temporada 1970-1971, esse mesmo Ajax iniciaria uma hegemonia memorável na Copa dos Campeões, emendando três títulos seguidos e servindo como base para a seleção da Holanda vice-campeã mundial em 1974. Em 1970-1971, o Leeds United faturou o bicampeonato ao derrotar a Juventus na decisão graças ao critério do gol marcado fora: 2 a 2 na Itália, 1 a 1 na Inglaterra, um resultado ainda mais amargo para os italianos, que deixaram aquela Copa de Feiras invictos – oito vitórias e quatro empates.

 

O fim 

A partir da temporada 1971-1972, a UEFA, que ajudava de maneira extraoficial na organização da Copa de Feiras, decidiu em conjunto com os organizadores rebatizar a competição de Copa da UEFA, mantendo alguns critérios de qualificação presentes: 64 equipes que não haviam vencido nem campeonato nacional nem copa nacional, em duelos eliminatórios. Como forma simbólica de encerramento da competição, foi organizada em 1971 uma partida desempate para decidir quem ficaria com a posse definitiva do troféu. Os agraciados para o jogo foram o Barcelona, primeiro campeão e mais bem sucedido na disputa com três taças, e o Leeds United, bicampeão no geral e último campeão. O Barça venceu por 2 a 1, no Camp Nou, e ficou com o troféu original para sempre.

Nas primeiras edições da Copa da UEFA, os ingleses mantiveram a hegemonia – Tottenham e Liverpool venceram as primeiras edições – mas desde aquela época a UEFA deixou claro que eram competições distintas e que o passado da Copa das Cidades com Feiras não deveria integrar a história da Copa da UEFA. No entanto, se não fosse a ideia do trio Thommen (falecido em 1967), Barassi (falecido em 1971) e Rous (falecido em 1986), a Copa da UEFA (hoje, Liga Europa) nem sequer existiria e não chegaria ao patamar que chegou, ao desbancar a então segunda maior competição do continente – a Recopa da UEFA – e ficar, sozinha, como a segunda mais importante da Europa. 

 

Os Campeões

 

Curiosidades:

 

  • Com 3 títulos (1958, 1960 e 1966) e um vice-campeonato (1962), o Barcelona foi o maior campeão e mais bem sucedido da história da Copa das Cidades com Feiras. Os culés ainda conseguiram a posse definitiva do troféu;
  • Leeds United e Valencia, com 2 troféus cada, foram os outros clubes de destaque no torneio;
  • Juventus e Birmingham City foram os maiores vices: cada um perdeu duas finais;
  • O brasileiro Waldo foi o maior artilheiro da história da competição com 31 gols e três artilharias: 1961-1962 (9 gols), 1962-1963 (6 gols) e 1963-1964 (6 gols);
  • O escocês Peter Lorimer, do Leeds United, vem na sequência dos goleadores com 20 gols. Na 3ª posição aparecem empatados os húngaros Flórián Albert (Ferencváros) e Ferenc Bene (Újpest) e o espanhol José Antonio Zaldúa (Barcelona), com 19 gols cada;
  • O argentino Pedro Manfredini, da Roma de 1962-1963, é o maior artilheiro de uma só edição da história da Copa das Cidades com Feiras com 12 gols. Ele marcou também 6 gols na edição 1962-1963, totalizando 18 gols no geral.

 

 

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2 Comentários

  1. Parabens pelo post guilherme de todas as historias a que mais chamou atencao foi o valencia tri finalista com o super artilheiro waldo machado.esse cara e o maior artilheiro do fluminense e no valencia principalmente nas copas fez gols a rodo com tres artilharias.no brasil pouco mas voce o colocou nos imortais garantindo assim que waldo sempre sera lembrado.

  2. A Copa das Cidades com Feiras era um torneio que eu queria saber mais, seja pelo nome, seja pelos times exóticos. Eu ouvi falar dela mais por causa dos triunfos do Barcelona de Kubala e do Valencia de Waldo. De qualquer maneira, ela teve sua importância pelas histórias e por ser embrião da Copa da UEFA, atual Liga Europa!

    Mandou bem, Imortais! Eu queria muito ver essa Copa entre os torneios históricos! Abraço!

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