Data: 09 de julho de 2006
O que estava em jogo: o título da Copa do Mundo da FIFA de 2006.
Local: Estádio Olímpico de Berlim, Berlim, Alemanha.
Juiz: Horacio Elizondo (ARG)
Público: 69.000 pessoas
Os Times:
Itália: Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Materazzi e Fabio Grosso; Gattuso, Pirlo, Camoranesi (Del Piero, 86’) e Perrotta (De Rossi, 61’); Totti (Iaquinta, 61’); Luca Toni. Técnico: Marcello Lippi.
França: Barthez; Sagnol, Lilian Thuram, Gallas e Abidal; Vieira (Diarra, 56′) e Makélélé; Ribéry (Trezeguet, 100′), Zidane e Malouda; Henry (Wiltord, 107′). Técnico: Raymond Domenech.
Placar: Itália 1×1 França. Gols: Zidane-FRA, aos 7’ e Materazzi-ITA, aos 19’ do 1º T. Nos pênaltis, Itália 5×3 França. Pirlo, Materazzi, De Rossi, Del Piero e Grosso fizeram para a Itália. Wiltord, Abidal e Sagnol fizeram para a França. Trezeguet perdeu.
Cartão Vermelho: Zidane-FRA, aos 110’.
“A vingança e o tetra”
Por Guilherme Diniz
Estádio De Kuip, Roterdã, 02 de julho de 2000. Itália e França decidiam a Eurocopa e a Azzurra, graças a um gol de Delvecchio, aos 55’, ia levando um título que não vinha desde o longínquo ano de 1968. Era a consagração de uma safra marcante de craques como Toldo, Cannavaro, Nesta, Maldini, Albertini, Totti e Del Piero. Porém, enquanto os italianos já faziam planos para festas e desfile pelas ruas de Roma, a França mostrou sua força de campeã do mundo e, aos 90’+4’, empatou o jogo com o atacante Wiltord, levando o jogo para a prorrogação, com o famigerado Gol de Ouro. Esfacelada, a Itália não teve forças para buscar o título. Já a França foi pra cima e, aos 103’, Albertini errou o domínio de um passe de Cannavaro, permitindo que Pires driblasse Albertini e Cannavaro antes de cruzar para Trezeguet, que finalizou de primeira, no ângulo, para fazer o Gol de Ouro, da virada e que decretou o título francês.
A Itália padeceu. Era o segundo drama vivido contra a França em tão pouco tempo. Antes, em 1998, a Azzurra foi eliminada nos pênaltis, nas quartas de final da Copa, após 0 a 0 no tempo regulamentar. Falando em pênaltis, foi na marca da cal que a equipe também perdeu a final da Copa de 1994, contra o Brasil. E foi assim, em 1990, quando caiu diante da Argentina, em casa, na semifinal. A angústia não tinha fim. Só que tinha mais. Em 2002, nova Copa, novo drama, com eliminação polêmica diante da Coreia do Sul, com erros de arbitragem grotescos e derrota em mais um Gol de Ouro.
Várias lendas de outrora deixaram o manto azul, entre eles Maldini, tão premiado e laureado com seu Milan e com quatro Copas disputadas, abdicou da quinta chance. Será que a seleção italiana iria permanecer anos e mais anos sem títulos, como ficou entre o bicampeonato mundial dos anos 1930 e o título europeu de 1968? Eis que chegou o ano de 2006. Uma nova Copa do Mundo. Um novo time, um novo técnico e alguns remanescentes do revés da Euro de 2000, como Cannavaro, Nesta, Totti e Del Piero. Jogo a jogo, a Itália foi superando seus rivais e chegou à final de maneira épica, após eliminar a anfitriã Alemanha na semifinal.
E quem estava esperando pelos italianos? A França. De Barthez. Thuram. Vieira. Henry. Wiltord. Trezeguet. Zidane. Todos em campo naquele 02 de julho de 2000. Alguns, também nas quartas de final de Saint-Denis de 1998. Perder pela terceira vez para aquela geração? De jeito nenhum! A França até começou vencendo, em golaço de pênalti de Zidane – que fez da final da Copa sua despedida dos gramados -, mas o empate veio com o zagueiro Materazzi. O tempo passou e a bola não quis mais entrar. Veio a prorrogação. Em determinado lance, Zidane quase fez o segundo gol, de cabeça, mas Buffon fez uma defesa de cinema. Minutos depois, a mesma cabeça de Zidane acertou o peito de Materazzi, em um lapso de fúria chocante do camisa 10. Em tempos sem VAR, o quarto árbitro teve que avisar Horacio Elizondo sobre o ocorrido. Zidane foi expulso.
A França perdeu sua referência, seu capitão. E, com a confirmação dos pênaltis, perdeu também um batedor perfeito. A Itália teve que encarar outro fantasma. Mas ali, no gramado de Berlim, exorcizou todos os males e angústias. Seus cinco batedores acertaram. Já a França errou um. Adivinhe quem? Trezeguet, o mesmo que “matou” a Itália na final da Euro de 2000. O 5 a 3 fez da Azzurra tetracampeã mundial, 24 anos depois do título de 1982. Um roteiro mágico, inesquecível e que entrou direto para as enciclopédias do futebol. É hora de relembrar.
Sumário
Pré-jogo
Adversários naquela final de 2006, França e Itália tinham uma grande história em Copas do Mundo. O primeiro encontro foi em 1938, no Mundial realizado em solo francês. Com a base campeã mundial quatro anos antes e reforçada pelo artilheiro Silvio Piola, a Itália eliminou os anfitriões nas quartas de final com uma vitória por 3 a 1, embalando a equipe rumo ao bicampeonato. Exatos 40 anos depois, as equipes se enfrentaram na fase de grupos da Copa do Mundo da Argentina e o forte time italiano venceu de novo: 2 a 1, gols de Paolo Rossi e Zaccarelli.

A partir da década de 1980, porém, a sorte virou no clássico. Em 1986, o esquadrão comandado por Platini derrotou os italianos nas oitavas de final do Mundial do México por 2 a 0 e acabaram com a seca no duelo. Tempo depois, nas quartas de final da Copa de 1998, os franceses eliminaram os italianos nos pênaltis com vitória por 4 a 3, após empate sem gols no tempo normal. Eram tempos de glória da equipe de Zidane, Djorkaeff e companhia, que venceram os italianos na final da Euro de 2000 e consagraram uma geração de ouro.


Já em 2006, a Itália chegou à final com uma equipe muito forte nos contra-ataques e ainda mais na defesa, como manda a tradição da Nazionale. Na fase de grupos, a classificação veio sem sustos após vitórias sobre Gana (2 a 0) e República Tcheca (2 a 0) e empate em 1 a 1 com os EUA. Nas oitavas de final, sufoco, mas vitória por 1 a 0 sobre a Austrália, em gol de pênalti anotado por Totti no finalzinho do segundo tempo. Nas quartas, alivio e triunfo por 3 a 0 sobre a Ucrânia. Já nas semifinais, o jogo foi enorme: contra a anfitriã Alemanha. Mesmo com a pressão da torcida em Dortmund, a Itália foi valente e, na prorrogação, venceu por 2 a 0, com dois gols já no segundo tempo, um deles um golaço de contra-ataque finalizado por Del Piero.
Com apenas um gol sofrido – e contra, anotado pelo zagueiro Zaccardo -, a Itália tinha em Buffon, Cannavaro e Materazzi, que assumiu o posto do lesionado Nesta, os pilares defensivos que garantiam enorme segurança lá atrás, além do raçudo volante Gattuso, que dava suporte aos companheiros de defesa. Do outro lado, a França sofreu para garantir a vaga nas oitavas, pois empatou os dois primeiros jogos – 0 a 0 com a Suíça e 1 a 1 com a Coreia do Sul – e só foi vencer na última rodada, nos 2 a 0 sobre Togo. Nas oitavas, a equipe de Domenech cresceu e derrotou a Espanha por 3 a 1. Nas quartas, derrotou o badalado Brasil por 1 a 0, em recital de Zidane. E, nas semis, eliminou Portugal com um novo 1 a 0.

Experiente e acostumada a jogos grandes, a França vinha em uma crescente notável que começou na hora certa. E Zidane era o maestro de um time fortíssimo e que chegou à final com favoritismo, principalmente pela bola que o craque jogava e por ser sua despedida dos gramados. Obviamente que ele queria se despedir com o bicampeonato mundial. Já a Itália tinha a chance de acabar com o jejum de títulos e comprovar a força de sua zaga intransponível e de estrelas como Pirlo, Totti e Del Piero, já consagrados por clubes, mas que ainda precisavam de um título pela seleção.
As equipes foram a campo praticamente completas e com as formações habituais de seus treinadores. Do lado italiano, a baixa era Alessandro Nesta, que se lesionou ainda na fase de grupos e abriu espaço para o companheiro Marco Materazzi. No meio de campo, Marcello Lippi teria à disposição o volante De Rossi, de volta após uma suspensão de seis jogos por conta de um cartão vermelho na estreia da Azzurra na Copa. Do lado francês, Domenech só tinha um suspenso, mas que não iria fazer falta: o atacante reserva Louis Saha, que levou um segundo cartão amarelo no duelo contra Portugal e acabou suspenso.



A final da Copa seria o último jogo da carreira de Zinédine Zidane, craque francês que já havia se despedido do Real Madrid e deixou para o Mundial o seu adeus definitivo. O camisa 10 poderia alcançar um patamar único em Copas caso conseguisse o título, afinal, ele foi campeão em 1998 marcando dois gols na decisão contra o Brasil e, com suas atuações de gala em 2006, certamente brigaria para levantar como capitão o maior troféu do planeta. Zidane era o símbolo maior da ressurreição francesa e responsável por acabar com as decepções da equipe em Copas. Antes dele, a França só colecionava posições inferiores e jamais havia disputado uma final. Com ele, os Bleus chegaram a duas finais em apenas oito anos, com um título conquistado.
Antes do jogo, o técnico italiano Marcello Lippi disse que haveria equilíbrio na final. “As equipes se equivalem tecnicamente, então quem tiver mais fome de vencer vai ganhar. O banquete será servido em Berlim. Vamos ver quem consegue comer mais.” No último treino, o italiano quis um time veloz, para surpreender o experiente time francês. E, curiosamente, não treinou pênaltis – somente Totti, Camoranesi e Del Piero executaram mais de uma cobrança cada um. Do lado francês, muita serenidade e Zidane em silêncio, focado. “Ele não está aqui para explicar, e sim para se preparar e jogar”, disse Domenech aos jornalistas no último treino. O otimismo era grande entre os próprios jogadores. “Nós temos Zidane, e isso pode fazer a diferença”, disse o lateral Sagnol, ao comentar sobre o favoritismo na final.
Primeiro tempo – Golaço de pênalti e a volta por cima de Materazzi
Quando a bola rolou no belíssimo estádio Olímpico de Berlim, a França levou um baita susto logo no primeiro minuto, quando Thierry Henry se chocou com Fabio Cannavaro e caiu no gramado. Dois minutos depois, o atacante retornou e aliviou a torcida. A França começou melhor, presente no ataque e tentando invadir a área italiana. Conseguiu, aos 6’, quando Malouda recebeu dentro da área, foi derrubado por Materazzi e o árbitro Horacio Elizondo marcou pênalti. Controverso, pois o italiano nem encostou direito no meia francês.

Para a cobrança, claro, Zidane. O camisa 10 viu no gol o gigante Buffon. Precisava de um truque para vencer aquele paredão quase intransponível. Mas o quê? Oras, um golaço! Zidane olhou para Buffon, correu, bateu de cavadinha, a bola quicou no travessão, cruzou a linha e voltou para a pequena área. Alguns jogadores e o goleiro italiano pensaram até que a bola não havia entrado. Mas entrou, exatos 32 cm. França 1×0 Itália. O próprio Zidane comentou sobre o lance, tempo depois, à France Football.
“É um movimento diferente. Mas eu tinha que fazer isso porque o ‘Gigi’ Buffon estava me encarando. Ele me conhece bem demais. Eu também o conheço. Eu tinha que surpreendê-lo, e assim que peguei a bola, sabia que ia fazer isso. Normalmente, quando eu cobrava pênaltis, eu chutava da direita para a esquerda. Eu fechava meu pé [deixando a bola com efeito]. Em geral, eu fazia tudo instintivamente, com o coração, eu não calculava. É por isso que o futebol é tão incrível. Tem que ser espontâneo para ser criativo.”

Foi o terceiro gol de Zidane em finais de Copas. Além disso, o craque entrou para o seleto grupo de jogadores que marcaram gols em duas finais de Copas distintas, assim como Pelé (1958 e 1970), Vavá (1958 e 1962) e Paul Breitner (1974 e 1982) na época. O gol embalou os Bleus, que continuaram pressionando e ganharam escanteio aos 8’, após Materazzi desviar de cabeça um chute de Sagnol e quase marcar contra, para desespero dos torcedores italianos. Será que o zagueiro seria o grande vilão daquela tarde / noite em Berlim? Zidane cobrou no segundo pau e a bola se perdeu pela lateral-esquerda.
Só aos 13’ que a Itália teve um lance de perigo, quando Pirlo cobrou falta da direita e Thuram mergulhou para afastar a redonda e mandar para escanteio. Aos 17’, Gattuso fez belo lançamento para Fabio Grosso na esquerda. O lateral dominou e cruzou na área, mas a zaga francesa afastou o perigo. Na sequência, Camoranesi conseguiu um escanteio pela direita. Na cobrança, Andrea Pirlo. O craque mandou na área, bem alto. Apenas um italiano tinha altura suficiente para alcançar aquela bola: Marco Materazzi. Pois ele subiu mais do que Patrick Vieira e testou forte, sem chance alguma para o goleiro Barthez e ainda dos dois franceses plantados na linha do gol, Ribéry e Abidal. Itália 1×1 França.

Emocionado, Materazzi vibrou muito e ganhou o carinho de todos os companheiros. Foi um gol para lavar a alma e apagar a decepção por ter cometido o pênalti, mesmo que injustamente. O jogo pegou fogo e a França tentou a resposta aos 20’, quando Zidane tocou para Henry pelo meio, o atacante invadiu a área italiana, mas cometeu falta em Cannavaro. O time francês começou a pressionar a saída de bola italiana, tentando forçar o erro, mas pecava nas faltas e um pouco na afobação. Aos 27’, a Itália teve outro escanteio a seu favor, pela direita, que Pirlo mandou de novo na cabeça de Materazzi, mas Thuram afastou o perigo. O árbitro, no entanto, assinalou falta do zagueiro italiano em Vieira.

Aos 29’, Henry avançou pelo lado esquerdo do ataque e rolou para Malouda na entrada da área. O meia chutou fraco, na mão de Buffon. Aos 35’, novo escanteio para a Itália e dessa vez Luca Toni cabeceou forte, mas a redonda explodiu no travessão de Barthez. Quase a virada! Nos minutos seguintes, a França teve duas oportunidades, mas desperdiçou, enquanto a Itália chegou uma vez, quando Totti tentou lançamento para Perrotta e a bola saiu pela linha de fundo.
Após dois minutos de acréscimos, Elizondo encerrou um primeiro tempo bastante equilibrado, refletido no placar. As equipes demonstraram suas habituais forças defensivas e pecavam na finalização final no ataque. Zidane, apesar do gol, não conseguia criar e parava na intensa marcação que recebia.
Segundo tempo – Tensão e nada de gols
Logo no começo da etapa final, Henry passou como quis por cinco italianos, invadiu a área e chutou, mas Buffon defendeu com segurança. Na sequência, o atacante fez outra boa jogada, passou por três marcadores, invadiu a área e tentou cruzar no meio para Malouda, mas a bola foi desviada pela retaguarda italiana. A França teve controle da bola nos primeiros minutos assim como na etapa inicial, porém, a finalização seguia ruim. Malouda e Henry eram os principais expoentes ofensivos, só que não conseguiam aproveitar as chances que tinham e paravam na atuação memorável de Cannavaro, incansável no lado direito a zaga azul.

A Itália, acuada, decidiu mudar e, aos 15’, Totti e Perrotta deram lugar a Iaquinta e De Rossi, respectivamente. Já a França sacou Vieira e colocou Diarra. As mudanças acordaram a Azzurra e, aos 16’, Luca Toni escorou de cabeça uma falta cobrada lá de trás por Fabio Grosso, fez o gol, mas a arbitragem marcou impedimento do atacante. No minuto seguinte, Henry ficou mano a mano com Cannavaro, se livrou da marcação do xerife italiano na área (coisa rara naquele jogo, pois o capitão da Azzurra jogou demais) e chutou forte. Buffon fez bela defesa e evitou o gol francês.
Aos 23’, foi a vez de Ribéry receber de Henry na intermediária e soltar a bomba. A bola se perdeu e foi por cima do gol de Buffon. Aos 31’, Pirlo cobrou falta da intermediária e a bola tirou tinta da trave de Barthez. A partida ficou mais tensa e os times mais precavidos, conformados com a prorrogação iminente. E ela veio. Para alívio dos italianos, sem Gol de Ouro…
Prorrogação e pênaltis – A cabeçada de Zidane e a redenção italiana
Mais uma vez, a França começou melhor um tempo do jogo e criou as melhores oportunidades. A primeira foi com Ribéry, que pegou sobra na entrada da área e chutou rasteiro. A bola saiu “tirando tinta” da trave esquerda do gol de Buffon. Logo depois, o camisa 22 saiu para a entrada de Trezeguet, o carrasco italiano da Euro de 2000. Será que ele iria repetir a façanha de seis anos antes? Sem criatividade, a Itália não conseguia chegar e dava espaços que antes não dava.
E, aos 13’, Sagnol avançou pela direita, com liberdade. Dentro da área, os defensores italianos ficaram preocupados com Trezeguet e Malouda, mas não se atentaram que um camisa 10 apareceu por ali: Zidane. Sagnol viu o maestro lá na área e cruzou a bola na cabeça do craque. Aquela era uma jogada mortal. Zidane cabeceou e a bola foi com uma força que mais parecia um chute. Era gol. Só que, embaixo das traves, estava Buffon. E o camisa 1 italiano fez uma defesa simplesmente espetacular, daquelas para a memorabilia dos Mundiais. Sempre bem posicionado, Buffon percebeu a chegada de Zidane. Bastou um passo à sua direita para espalmar a bola para escanteio. Ele na verdade não espalmou, ele quase a segurou, tirando de Zidane a antecipação do bicampeonato mundial e de seu segundo gol na final. Zidane berrou, irado, por causa da chance perdida. Buffon retrucou também com um grito, inflando seus companheiros a não se intimidarem com aquele ser divino.

Minutos depois, começou o segundo tempo e, logo aos 3’, a partida teve seu momento mais marcante. Não foi um gol, uma jogada, um drible. Foi uma cabeçada. Na bola? Não, de um jogador em outro. Após uma disputa na área, Materazzi e Zidane se estranharam. O francês não gostou de ver o zagueiro ficar puxando sua camisa e disse: “depois te dou minha camisa”. Materazzi retrucou: “Prefiro a sua irmã do que a camisa”. Zidane não gostou do que ouviu. Poderia sorrir de maneira sarcástica e sair andando. Poderia dizer “você é muito feio para ela”, e sair andando. Mas estava com os nervos à flor da pele. E jamais levou desaforo para casa. O francês virou-se contra Materazzi e desferiu-lhe uma cabeçada no peito. O italiano caiu no chão na hora.



O árbitro Elizondo não viu o lance. Gigi Buffon correu em direção ao bandeirinha perguntando se ele não tinha visto o que tinha acontecido. O jogo parou e Elizondo perguntou ao seu auxiliar, que também não tinha visto o lance. Com isso, o árbitro teve que consultar o quarto árbitro, o espanhol Luis Medina Cantalejo, que viu nas imagens de TV a agressão. Elizondo foi em direção ao francês e expulsou o camisa 10. A imagem do camisa 10 em direção aos vestiários, com a Taça FIFA ao fundo, virou um dos momentos mais melancólicos dos Mundiais. Terminava daquela maneira, bem aquém de como ele merecia, a carreira de um gênio.
“Não sinto orgulho por aquele gesto. Por todos jovens, por todos técnicos, por todos voluntários que fazem do futebol uma coisa diferente. Mas é parte da minha carreira, da minha vida. É um dessas coisas que não são agradáveis, mas temos que aceitar, temos que digerir”, afirmou Zidane, anos depois, em entrevista à Telefoot.
Ele ainda comentou, em 2009, à France Football, que a expulsão foi justa.
“A expulsão foi uma coisa boa. Foi bom que Buffon (goleiro da seleção italiana) tenha avisado ao juiz, pois não foi bonito. Não sei como viveria com isso se a França fosse campeã mundial e eu continuasse em campo”.


Faltando 10 minutos para o fim do jogo, a França se viu sem seu capitão e com um jogador a menos. Por isso, tratou de cozinhar a partida e tentar a loteria dos pênaltis. A Itália tentou aproveitar a fragilidade emocional do rival, mas lances com Pirlo e Del Piero não resultaram em gol. Com isso, a final da Copa de 2006 foi para os pênaltis. De novo, com a Itália presente, assim como em 1994.
Por mais que o passado de derrotas na marca da cal causasse pânico e calafrios aos italianos, era inegável que o time de Marcello Lippi estava mais inteiro psicologicamente do que o time francês. A expulsão de Zidane mexeu muito com os jogadores, que estavam visivelmente tensos naquela disputa. A série começou com a Itália e Pirlo fez o primeiro. Wiltord, que entrou na prorrogação, também fez o seu. Materazzi foi para a segunda cobrança e foi vaiado pela ala francesa do estádio. O zagueiro não deu ouvidos e bateu rasteiro. Barthez até acertou o canto, mas não alcançou. Outro alívio para o camisa 23. A segunda cobrança francesa era de Trezeguet. O carrasco de 2000. O fantasma de pesadelos. Ele tentou bater alto, longe do alcance de Buffon. Só que a bola foi tão alto que bateu no travessão. A redonda ainda quicou no gramado, mas fora da linha do gol. Ele não era Zidane….

Com a vantagem, a Itália foi para a terceira cobrança com De Rossi, que viu praticamente a Copa inteira do banco de reservas, por causa da pesada suspensão que sofreu. De Rossi mostrou a Trezeguet como bater um pênalti alto, inalcançável, e mandou a bola no ângulo direito de Barthez para fazer 3 a 1. Abidal converteu a terceira cobrança francesa, deslocando o goleiro Buffon. Del Piero também bateu muito bem o seu pênalti e marcou o quarto gol italiano. Sagnol foi com a pressão de fazer e manter a França viva na disputa. Ele mandou uma paulada no canto oposto de Buffon e diminuiu.
A Itália foi para seu último chute. O escolhido? Fabio Grosso. Pouco badalado, sem estrelismo, o lateral teve a responsabilidade de encerrar o jejum de 24 anos sem títulos da Itália e dar ao país o tetracampeonato. O camisa 3 – a mesma que Maldini usou por muito tempo pela Azzurra – bateu forte, no canto oposto de Barthez, e fechou o placar em 5 a 3. Enfim, o drama dos pênaltis estava enterrado. O rival indigesto, derrotado. A glória, consolidada. Itália tetracampeã mundial de futebol.




Um título enorme, para premiar atletas históricos e um time que soube se levantar depois de tantos tropeços mesmo com gerações marcantes de craques. O tetra era para todos aqueles de 1990, do timaço que não levava gols e que padeceu na marca da cal de Nápoles. Era para Baggio, craque da geração vice-campeã de 1994. Era para o time azarado de 1998. E era para os injustiçados pela arbitragem de 2002. E era, claro, para Buffon, Cannavaro, Nesta, Pirlo, Totti e Del Piero, imortais do futebol que precisavam e mereciam uma Copa do Mundo para laurear ainda mais suas carreiras incontestáveis.
Se em 1990 a Alemanha foi campeã do mundo em Roma, a Itália foi campeã do mundo em 2006 em Berlim. Se Trezeguet acabou com o sonho europeu de 2000, Trezeguet viu o travessão impedir seu gol e abrir o caminho do mundo aos italianos em 2006. E se Zidane tinha tudo para sair do Estádio Olímpico com o bicampeonato e um status no Olimpo das Copas só superado por Pelé, deixou Berlim sem o fim que merecia. O futebol e seus roteiros épicos.
Pós-jogo: o que aconteceu depois?
Itália: o título da Azzurra em 2006, curiosamente, foi o último grande momento da seleção durante muito tempo. A equipe foi eliminada na fase de grupos das Copas de 2010 e 2014 e nem sequer se classificou para as Copas de 2018 e 2022. Na Euro, caiu na segunda fase de 2008 e perdeu a final de 2012 para a Espanha. Só em 2020 que a seleção voltou a brilhar e levantou o título da Eurocopa diante da Inglaterra, em Wembley. E adivinhe? Nos pênaltis (3 a 2), após levar 1 a 0 e empatar em 1 a 1 no tempo regulamentar com um gol de zagueiro (Bonucci), assim como em 2006… Leia mais clicando aqui!

França: a derrota em 2006 decretou o fim daquela geração de ouro e a seleção passou por um período de entressafra até 2016, quando voltou a formar um bom time e disputou a final da Eurocopa em casa, na qual acabou perdendo a final para Portugal. Em 2018, a volta por cima veio com estilo quando o time Bleu chegou à final da Copa e venceu a Croácia por 4 a 2, ficando com o bicampeonato mundial no embalo de craques como Varane, Kanté, Pogba, Griezmann e Mbappé, autor de um gol naquela final e também de três gols na final de 2022, quando superou Zidane e se tornou o maior artilheiro de finais de Copas na história com 4 gols. E, assim como Zizou, Mbappé não conseguiu o título em sua segunda final: perdeu para a Argentina de Messi e companhia.
E um adendo: Zidane e Materazzi nunca mais se reconciliaram após o ocorrido em 2006. “Desde aquele dia nunca mais falei com Zinédine. Não falei antes e não voltei a falar depois”, comentou o zagueiro, em 2024, ao Daily Mail (UK). Diante das circunstâncias, fica difícil ver a paz algum dia…

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