Data: 07 de julho de 1974
O que estava em jogo: o título da Copa do Mundo da FIFA de 1974
Local: Estádio Olímpico de Munique, Munique, Alemanha
Árbitro: Jack Taylor (ING)
Público: 75.200 pessoas
Os Times:
Alemanha: Sepp Maier; Vogts, Beckenbauer, Schwarzenbeck e Paul Breitner; Bonhof, Uli Hoeness e Overath; Grabowski, Gerd Müller e Hölzenbein. Técnico: Helmut Schön.
Holanda: Jongbloed; Suurbier, Rijsbergen (Theo de Jong), Haan e Krol; Jansen. Neeskens e Van Hanegem; Rep, Cruyff e Rensenbrink (René van de Kerkhof). Técnico: Rinus Michels.
Placar: Alemanha 2×1 Holanda. Gols: Neeskens (HOL), aos 2’, Breitner (ALE), aos 25’ e Gerd Müller (ALE), aos 43’ do 1º T.
“Como desmontar um Carrossel”
Por Guilherme Diniz
Nunca uma final de Copa do Mundo parecia tão decidida como a do dia 07 de julho de 1974. Ao longo de quase um mês, 16 seleções entraram em campo em solo germânico e apenas uma encantou de maneira incomparável: a Holanda. Com um esquema de jogo revolucionário no qual nenhum jogador guardava posição fixa, a equipe do técnico Rinus Michels e do genial Johan Cruyff aplicou vareios históricos sobre os mais diversos rivais, incluindo o trio sul-americano Uruguai, Argentina e Brasil, este tricampeão mundial quatro anos antes. Com vários craques e absoluta, a Laranja Mecânica ou Carrossel Holandês, como ficou conhecido aquele esquadrão, era candidato único ao título mundial, que iria coroar para sempre uma seleção espetacular.
Só que, do outro lado, estava uma equipe acostumada a derrubar por terra (ou melhor, por grama) qualquer favorito: a Alemanha, que na época era Alemanha Ocidental. Exatos 20 anos antes, na Copa de 1954, a Nationalelf viveu um roteiro idêntico na final do Mundial da Suíça ao encarar a avassaladora Hungria de Puskás, Kocsis e companhia, que praticava um futebol moderno, rápido e protuberante em gols. Pois aquela Alemanha conseguiu derrotar os húngaros mesmo levando 2 a 0 com menos de 20 minutos de jogo graças à frieza, à tática e às supostas travas de chuteiras anti-escorregões desenvolvidas por Adi Dassler, lendário fundador da adidas. A Alemanha venceu por 3 a 2 e ficou com um título improvável no “Milagre de Berna”, mas que nem foi tanto milagre assim com você pode ler mais clicando aqui.
Acontece que, na final de 1974, por mais que a Alemanha tivesse um timaço, a Holanda era ainda mais favorita do que a Hungria pelo futebol, pelas condições climáticas favoráveis e pelo embalo que a equipe vinha no Mundial – apenas um gol sofrido, quatro vitórias seguidas, três delas sem levar gols. Só que a Alemanha resgatou seu misticismo de 1954 e foi convicta de que iria neutralizar aquele time quase perfeito. Eles conseguiram anular as principais jogadas laranjas e deram à Johan Cruyff a maior marcação de sua vida. Resultado? Vitória alemã, de virada, por 2 a 1. Como era possível? É hora de descobrir.
Sumário
Pré-jogo
Os anos 1970 foram dominados pelo futebol holandês e alemão, e isso se viu naquela Copa de 1974. A equipe da casa havia vencido a Eurocopa de 1972 e era composta por atletas do Bayern München, que a partir de 1974 iria construir uma dinastia na Europa com três títulos da Copa dos Campeões (atual Liga dos Campeões), e do Borussia Mönchenbladbach, multicampeão nacional, bicampeão da Copa da UEFA e único grande time a enfrentar de igual para igual os Bávaros na época. Do lado holandês, a hegemonia foi um pouco mais cedo, com o título do Feyenoord na Copa dos Campeões em 1970 e o tricampeonato consecutivo do Ajax no mesmo torneio. E foi o Ajax, comandado por Rinus Michels, que serviu de inspiração para a seleção holandesa passar a encantar já nas Eliminatórias, quando se classificou sem qualquer susto após quatro vitórias, dois empates, 24 gols marcados e apenas dois sofridos em seis jogos, com Johan Cruyff artilheiro do time ao anotar 7 gols.

Cruyff era o expoente máximo do Futebol Total proposto por Rinus Michels. O jogador tinha um fôlego privilegiado, velocidade, inteligência tática fora do comum – a maior da história do esporte – e se movimentava em campo como nenhum outro. Era a voz em campo, dava orientações aos companheiros, explorava lacunas deixadas em marcações frouxas, marcava gols e dava tantos outros. Era o “jogador total” que pilotava o Carrossel, composto ainda pelo lendário defensor Ruud Krol, os meio-campistas Jansen, Van Hanegem e Neeskens e os atacantes Johnny Rep e Rob Rensenbrink.
Na Copa, a Holanda se classificou em primeiro lugar no Grupo 3 após uma emblemática vitória sobre o Uruguai por 2 a 0 – que poderia ter sido por 6 ou 7, tamanha superioridade laranja -, empate sem gols contra a Suécia e triunfo por 4 a 1 sobre a Bulgária. Na segunda fase de grupos, na qual apenas o líder garantia vaga na final, a Holanda não tomou conhecimento de seus adversários e goleou a Argentina por 4 a 0, bateu a Alemanha Oriental por 2 a 0 e venceu o Brasil por 2 a 0, resultados que colocaram o Carrossel na decisão.


A Alemanha Ocidental, comandada pelo experiente Helmut Schön, vinha em constante crescimento desde 1966, quando disputou a final da Copa e acabou derrotada pela Inglaterra. Em 1970, chegou até as semifinais, quando sucumbiu diante da Itália no Jogo do Século. E, em 1974, aliava vários remanescentes do Mundial anterior com outros grandes jogadores. Schön havia formado uma equipe extremamente competitiva e que exibia um equilíbrio notável em todos os setores. Na defesa, Sepp Maier era incontestável, um dos maiores goleiros do planeta, rápido, sempre bem colocado e capaz de defesas milagrosas com suas pontes e saltos marcantes. Nas laterais, Paul Breitner e Berti Vogts eram os titulares absolutos e aliavam técnica e robustez na marcação, com Breitner mais incisivo no ataque e Vogts um pouco mais contido.
No miolo da zaga, o espelho do Bayern: Franz Beckenbauer e Hans-Georg Schwarzenbeck, sem dúvida o maior “paredão” defensivo do mundo na época, principalmente com o Kaiser atuando muitas vezes como líbero. Capitão, Beckenbauer era um zagueiro fenomenal, que tinha enorme visão de jogo, senso de antecipação, perito em desarmes, técnica absurda e capaz de engatilhar contra-ataques graças à sua vocação ofensiva – antes de virar zagueiro, ele jogou no meio de campo, inclusive na seleção vice-campeã mundial de 1966.

No meio, Bonhof e Overath eram os “cães de guarda” que davam espaço para Uli Hoeness aparecer mais na criação e municiar o trio ofensivo composto por Grabowski e Hölzenbein pelas pontas e o matador Gerd Müller como centroavante, este um dos maiores finalizadores da história e com médias de gols absurdas tanto pela seleção quanto pelo Bayern. Naquela Copa, Müller estava mais econômico nos gols – havia anotado três -, mas ainda sim era a referência e o homem que levava medo a qualquer zaga.
No caminho alemão em busca da final, a equipe superou o Chile (1 a 0) na primeira rodada do Grupo 1, venceu a Austrália por 3 a 0 e perdeu para a Alemanha Oriental por 1 a 0, em jogo que até hoje levanta polêmicas pelo fato de o time Ocidental ter “tirado o pé” a fim de evitar um grupo mais difícil na etapa seguinte. A tática deu certo e Holanda, Brasil e Argentina saíram do caminho dos alemães ocidentais, que enfrentaram na etapa seguinte Iugoslávia, Suécia e Polônia, esta a única realmente mais complicada do grupo, com o artilheiro Lato e craques como Deyna, Gorgon, Szarmach e Gadocha. Como esperado, a Alemanha venceu iugoslavos (2 a 0) e suecos (4 a 2) e disputou a vaga na final contra a Polônia, na última rodada. Uma chuva torrencial caiu no dia do jogo e deixou o gramado totalmente encharcado, o que prejudicaria o futebol de toque de bola da Polônia e facilitaria a força dos alemães. Os poloneses tentaram adiar a partida, mas de nada adiantou, afinal, eles estavam na casa da Alemanha e jogariam contra a Alemanha.
No jogo, muita disputa, ótimas chances por parte da Polônia e destaque para o goleiro Tomaszewski, que chegou a defender um pênalti de Uli Hoeness. Mas o artilheiro Gerd Müller conseguiu fazer o gol que deu a vitória por 1 a 0 aos alemães, que foram para a final. Com a decisão da Copa confirmada, a Alemanha queria fazer a festa em casa e ficar com o bicampeonato mundial. Só que o time teria que encontrar uma maneira de parar a super Holanda e seu Carrossel. Seria também um confronto de muita rivalidade fora dos gramados, com o passado relativamente recente da invasão alemã aos Países Baixos durante a Segunda Guerra Mundial. Willem van Hanegem, por exemplo, dizia abertamente que tinha “ódio” dos alemães pelo fato de uma bomba ter matado seu pai e um de seus irmãos.

Diante de um cenário tenso, Helmut Schön preparou sua equipe para o jogo da vida de todos. A defesa teria que fechar os espaços e Johan Cruyff não poderia usufruir da liberdade que teve nos jogos anteriores. Vários dos atletas da Nationalelf, inclusive, conheciam o craque e haviam enfrentado ele em seus tempos de Ajax. A marcação diante do camisa 14 teria que ser perfeita e Schön delegou essa missão ao lateral Berti Vogts, especialista em combates um a um pelo Borussia Mönchengladbach. Mais à frente, a Alemanha iria apostar nos contra-ataques e em qualquer desatenção do time holandês, explorando as lacunas da intensa movimentação dos meio-campistas.
Um ponto que dava vantagem ao time alemão era a má condição física de Rensenbrink, que iria ao jogo no sacrifício por conta das pancadas que sofreu no duelo contra o Brasil. A expectativa era de um jogaço, com imenso favoritismo para a Holanda, mas ninguém poderia duvidar da capacidade alemã. Além da vitória e do título, estava em jogo a honra de ser o primeiro vencedor da novíssima Taça FIFA, que assumiu o lugar da Taça Jules Rimet, conquistada pelo Brasil em 1970.
Primeiro tempo – “Johan, vamos nos ver muito por aí”
Ainda no túnel de acesso ao gramado do belíssimo e lotado Estádio Olímpico de Munique, Berti Vogts disse a frase que você acabou de ler a Cruyff. Foi o recado claro de que ele seria o marcador do camisa 14 durante todo o jogo. Pois o holandês parece não ter acreditado muito nas palavras de seu adversário. A Holanda foi quem deu a saída e, durante 54 segundos, ficou com a bola sem a Alemanha tocar nela. A redonda passou de pé em pé e, claro, por Cruyff, que recuou em determinado momento para o meio de campo, como se fosse um volante. Ao receber o 14º passe, o camisa 14 (que curioso!) arrancou em direção ao ataque, chamou Berti Vogts para dançar, o camisa 2 não conseguiu acompanhar o passo e Cruyff seguiu até dentro da área, quando foi derrubado por Uli Hoeness. Jack Taylor apitou pênalti, até hoje o mais rápido da história das Copas: 55 segundos.

Atordoada, a Alemanha não entendeu o que tinha acontecido. Cruyff pediu a bola, mas quem foi para cobrança foi Neeskens, o batedor oficial do time. O craque estava acostumado a sempre bater no canto direito do goleiro, algo que certamente Sepp Maier sabia. Bem, para não restar dúvidas, Beckenbauer gritou segundos antes da cobrança para Maier: “é na sua direita!”. Neeskens ouviu. E ficou nervoso. “Ao longo da minha carreira, sempre estive muito confiante na cobrança de pênaltis, mas tenho que ser honesto: na final, fiquei subitamente nervoso”, explicou Neeskens com franqueza, ao site da FIFA, em abril de 2024 (meses antes de falecer).
“Eu mal havia tocado bola até então, foi muito rápido. Minhas pernas não estavam aquecidas. Além disso, havia 75 mil alemães gritando contra mim. Eu senti aquele frio na barriga.”
Neeskens precisava mudar o chute. Se chutasse na direita, Maier iria defender. O holandês correu pra bola e, num lapso de segundo, mudou a cobrança para o meio, forte. E fez o gol: 1 a 0. A Holanda estava na frente do placar. E Neeskens podia respirar aliviado.
“Eu não bati muito bem. Você pode ver a grama subindo um pouco. Felizmente o Maier mergulhou onde eu esperava e a bola voou para o meio. Foi uma sensação de imenso alívio!”

Sem que seu rival tivesse tocado na bola, a Holanda dava mostras de que aquela Copa do Mundo era mesmo dela. Um golpe cravado, cirúrgico, que poucos times iriam conseguir assimilar. Dois minutos depois do gol, Vogts, que já acompanhava Cruyff ainda mais de perto, levou cartão amarelo, aumentando ainda mais a tensão do lado germânico. Só que o camisa 2 alemão não iria mais dar margem para o azar a partir dali. Ele iria cumprir sua função de maneira impecável e Cruyff teria em seu cangote o Terrier em todos os cantos do campo. A Holanda apareceu de novo no ataque aos 4’, em chute cruzado de Ruud Krol, mas a bola acabou batendo na rede pelo lado de fora.
Com a boa marcação de Vogts, a Alemanha conseguia recuperar a bola já no campo de defesa, onde Beckenbauer reinava absoluto e distribuía a redonda com seus toques perfeitos, uma classe impressionante e digna de um dos melhores jogadores de todos os tempos. Ele erguia a cabeça e tocava. Erguia a cabeça e tocava. Parecia um mantra. E a bola ia sempre na direção que ele queria e mirava. A Holanda, claro, sabia jogar sem a bola e parava o rival normalmente com faltas, principalmente pelo lado esquerdo do campo, ora com Haan, ora com Jansen, além de Rijsbergen, que abusava dos carrinhos. A primeira chance clara da Alemanha veio apenas aos 9’, em chute de Paul Breitner que passou por cima do gol de Jongbloed. A posse era majoritariamente holandesa, mas o time de Rinus Michels não conseguia criar tanto como antes.


A bola ia de pé em pé, mas sem a pressão de jogos anteriores, o que gerava vaias da torcida alemã, que via aquela morosidade como uma humilhação. Parecia que os holandeses estavam com o jogo ganho ou que iriam acabar com a partida quando bem entendessem. Anos depois, Johnny Rep admitiu isso em entrevista publicada no livro “1974: nós éramos melhores”, de Auke Kok. O atacante atribuiu a derrota ao preciosismo e aos passes insistentes que enervaram os alemães.
“A cada minuto, você via que os alemães ficavam mais irritados. Eles realmente ficaram irados. Tudo isso, por nossa culpa. Acho que aquela troca de passes foi o pior erro da minha carreira. Depois do primeiro gol, achávamos que já tinha acabado. A gente tinha mesmo era de matar o jogo”, disse Rep.
E era a pura verdade. Imagine começar uma final de Copa vencendo por 1 a 0 com menos de dois minutos e poder explorar um adversário atordoado? A Holanda poderia ter feito pelo mais dois gols naqueles 10 minutos iniciais se tivesse mais ousadia e menos soberba. E, após os 20’, a Alemanha começou sua reviravolta. O time germânico apareceu mais no campo de defesa e, aos 23’, Gerd Müller foi empurrado sem a bola por Van Hanegem, brigou com o auxiliar e conseguiu com que o rival levasse cartão amarelo. Foi cavado, mas deu resultado. Aquele era o caminho para o empate: por que não explorar a falta de clareza da arbitragem e cavar mais faltas?

Três minutos depois, a Nationalelf seguiu pela esquerda, com Overath, que tocou para Breitner e este deixou com Hölzenbein. O camisa 17 seguiu livre, passou por Jansen e esperou a chegada mais incisiva do meio-campista para se jogar dentro da área quando ele tentou o desarme por baixo. O árbitro, sem pestanejar, marcou pênalti. Mas, se houvesse VAR na época, jamais seria marcado. Hölzenbein já estava se desequilibrando quando caiu e aproveitou o carrinho de Jansen para burlar a interpretação do árbitro. Paul Breitner foi para a cobrança e, ao ver um leve movimento de Jongbloed para o canto esquerdo, bateu forte no direito e fez 1 a 1.

O Estádio Olímpico de Munique virou uma festa. A Alemanha estava de volta ao jogo e via que a virada era possível. Foi a Nationalelf a protagonista ofensiva a partir dali, forçando a Holanda a correr atrás da bola. Quando sofria o ataque, a Alemanha demonstrava enorme poder de combate e marcava os rivais no mano a mano, reduzindo os espaços e sem deixar os laranjas pensarem. Cruyff era quem mais sofria e não aparecia diante de Vogts, perfeito na marcação e que teve até um momento para atacar, aos 29’, quando tabelou com Overath, chegou à grande área livre e acabou chutando em cima do goleiro. Nos minutos seguintes, a Alemanha dominou o ataque e teve pelo menos três chances, as mais claras quando Hoeness cruzou na pequena área e Rijsbergen tirou, aos 33’, e aos 36’, quando Beckenbauer cobrou falta de trivela (isso mesmo!) e Jongbloed espalmou para escanteio. Só o Kaiser para tanta classe!

A Holanda só foi aparecer na frente de novo aos 37’, quando Cruyff, enfim, escapou por um momento da marcação, tocou em Rep e Sepp Maier antecipou a saída de gol para rebater a finalização do atacante holandês. Até que, aos 43’, a Holanda cedeu os espaços que Schön previu. Com muito espaço pela direita, Bonhof avançou até perto da área e, mesmo cercado por Haan, conseguiu passar pelo adversário e cruzar rasteiro. Era a bola perfeita para ele: Gerd Müller. O Bomber dominou, bateu de perna direita, rasteiro, como adorava fazer, e não deu chance alguma para o goleiro Jongbloed. Um gol clássico da cartilha do centroavante matador: chutar forte e rasteiro, o pesadelo para qualquer goleiro. Alemanha 2×1 Holanda.


Müller vibrou muito e chegou ao seu 4º gol em Copas, o que fez dele na época o maior artilheiro da história dos Mundiais com 14 gols, superando o francês Just Fontaine, que tinha 13 gols. Gerd Müller só seria superado por Ronaldo (BRA), em 2006, e pelo compatriota Miroslav Klose, em 2014. Ainda sim, a média de gols de Müller é superior: 1,08 gols por jogo, contra 0,79 de Ronaldo e 0,67 de Klose.
Nos minutos finais do primeiro tempo, a Holanda demonstrou muito nervosismo, principalmente com a arbitragem. Quando Jack Taylor apitou o fim da etapa inicial, Van Hanegem chutou a bola em direção ao inglês, que a pegou com a mão e deu uma bronca no holandês – por pouco, não o expulsou. Johan Cruyff foi tomar as dores do companheiro e reclamou bastante com Taylor, que não hesitou e deu cartão amarelo para o camisa 14. O jogo havia mudado. Não era mais da Holanda. Era da Alemanha, assim como fora em 1954…
Segundo tempo – Carrossel desligado
Na volta do intervalo, Rinus Michels se viu em uma encruzilhada: Rensenbrink não aguentava mais as dores no fêmur e Rijsbergen havia sofrido uma lesão no tornozelo. Como Rensenbrink já havia entrado contundido no jogo, o técnico decidiu sacá-lo e colocou René van de Kerkhof em seu lugar. Já Rijsbergen permaneceria em campo por mais um tempo, pois o caso dele ainda não era tão grave quanto o de Rensenbrink e dava a Michels uma alternativa extra, pois na época só eram permitidas duas substituições, por isso, o treinador não queria queimar ambas no intervalo.

O problema é que ele deveria ter entrado já com outro atacante no lugar de Rob. Piet Keizer seria a melhor escolha, afinal, foi companheiro de Johan Cruyff no Ajax e tinha uma sintonia clara com o craque. Por mais que Rensenbrink fosse indispensável, entrar com o atacante em condições físicas ruins foi um erro grave que não poderia ter sido cometido, ainda mais em uma final de Copa do Mundo. E, de novo, manter Keizer no banco e preferir René van de Kerkhof foi outro fato que complicou demais as ações holandesas. Keizer, depois desse jogo, nunca mais falou com Rinus Michels, em uma demonstração clara de abatimento e descontentamento com o treinador.
Quando a bola rolou, a Holanda levou um susto logo aos 48’, quando Bonhof quase fez o terceiro gol, mandando a bola rente à trave direita após cobrança de escanteio. A laranja se recuperou, acelerou mais e foi ao ataque a partir dos 52’, quando a zaga alemã quase se complicou após escanteio mau rebatido por Maier e, aos 54’, quando Cruyff cobrou falta, Van Hanegem cabeceou e Sepp Maier defendeu. Cinco minutos depois, foi a vez da Alemanha responder. Grabowski tocou para Gerd Müller, livre, que tocou na saída de Jongbloed e fez o gol, mas foi anulado por impedimento – Haan, Rijsbergen e Krol fizeram a linha de impedimento -, porém, até hoje se discute se Gerd Müller não estava em condição legal.


Sem Cruyff, amarrado por Vogts, a Holanda se virava com Suurbier e Krol, pelas pontas, e com Neeskens e Rep mais à frente. Van der Kerkhof, bem no jogo, era outro que aparecia bastante no campo ofensivo com muita movimentação. E foi a partir dos pés dele que surgiu uma das grandes chances de gol da Holanda naquela etapa final. Aos 73’, o meia recuperou uma bola no campo de ataque, pelo lado esquerdo, parou e cruzou. A bola percorreu a área alemã como se fosse um escanteio e Neeskens surgiu na direita, emendando um chute fortíssimo de sem-pulo. Era gol certo. Mas na meta germânica estava Sepp Maier, que fez uma das grandes defesas de sua carreira e impediu o empate holandês – que, naquela altura, mudaria completamente a partida.
Um minuto depois, foi a vez de Theo de Jong – que entrou aos 69’, no lugar de Rijsbergen – exigir outra grande defesa de Sepp Maier. Aos 77’ e aos 79’, Johnny Rep teve duas chances, mas mandou as duas para fora. Aos 86’, Neeskens teve a última oportunidade clara de gol, ao bater forte de fora da área, mas a redonda passou à direita do gol de Maier. Por mais que tivesse a bola, a Holanda não conseguiu reverter aquilo em gol. Parou nas defesas de Maier. Parou na marcação ostensiva do bloco de defesa alemão e dos meio-campistas da Nationalelf. A Alemanha soube segurar o resultado com força, resiliência e da maneira que uma partida daquele tamanho exigia.


E, ao apito do árbitro Jack Taylor, a Alemanha conquistou o mundo pela segunda vez em sua história. De novo, derrotando na final um imenso favorito. De novo, de virada. As milhares de bandeiras tremulando nas arquibancadas do Olímpico de Munique saudavam os craques de um time lendário, que se tornou o primeiro a vencer em sequência a Eurocopa e a Copa do Mundo. Do outro lado, uma Holanda esfacelada, que demonstrou um visível cansaço fruto do estilo de jogo tão sagaz praticado ao longo da campanha, com a troca de posições, a pressão na saída de bola e as investidas em velocidade.
E ainda com Johan Cruyff refém de uma marcação implacável e também do enorme cansaço do craque, que esteve em todos os jogos e recebeu inúmeras faltas dos rivais. No entanto, se a Copa ficou com a Alemanha, a história ficou com a Holanda, até hoje mais cultuada e relembrada do que a própria campeã, num desses caprichos do futebol que jamais entenderemos, como bem disse certa vez Johan Cruyff, ao The Guardian (UK). “Talvez nós tenhamos sido os verdadeiros vencedores no final das contas. Acho que o mundo se lembra mais da nossa equipe.”
Pós-jogo: O que aconteceu depois?
Alemanha: vencer a Copa em cima de um time tão emblemático catapultou de vez nomes como Sepp Maier, Franz Beckenbauer e Gerd Müller ao Olimpo do esporte e à imortalidade. O trio virou um símbolo daquela geração e também do Bayern, que emendou as três Copas dos Campeões da Europa a partir dali e também entrou para a história. Em 1976, a Alemanha defendeu seu título na Eurocopa e chegou até a final como favorita absoluta, mas acabou perdendo, nos pênaltis, para a Tchecoslováquia de maneira surpreendente, sofrendo pela primeira vez do veneno que havia ela mesma aplicado em 1954 e 1974. O mundo só voltaria às mãos alemãs em 1990, no triunfo sobre a Argentina em Roma.

Holanda: apesar do vice, a seleção holandesa foi recebida com uma imensa festa em Amsterdã, em recepção calorosa da Rainha Juliana e do Príncipe Bernhard. Milhares de pessoas tomaram as ruas da capital e um verdadeiro carnaval tomou conta da Praça Leidseplein. A Holanda seguiu competitiva nos anos seguintes e, em 1978, disputou outra final, mas perdeu para a anfitriã Argentina por 3 a 1. A desforra contra a Alemanha só veio na Eurocopa de 1988, quando a equipe laranja eliminou o rival em Hamburgo por 2 a 1 e se classificou para a final, vencida sobre a URSS por 2 a 0 no mesmíssimo estádio Olímpico de Munique, onde a Holanda perdeu a Copa de 1974. O técnico daquela seleção? Rinus Michels, que não tinha um Carrossel, mas Van Breukelen, Ronald Koeman, Frank Rijkaard, Vanenburg, Ruud Gullit e Van Basten, expoentes que deram à laranja seu primeiro grande título. Dizem que não existe justiça no futebol. Mas, em 1988, ela existiu. Tardia, mas existiu…

O trabalho Imortais do Futebol – textos do blog de Imortais do Futebol foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em imortaisdofutebol.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença.





Vendo o jogo na íntegra Franz Beckenbauer teve atuação de Bola de Ouro uma nota 9.8 pro Kaiser impecável nem sujou o uniforme em compensação o árbitro Taylor e o assistente uruguaio Ramon Barreto foram mal errando lances capitais pros dois lados.
Sempre quis saber quando essa partida ia virar jogo eterno! O Carrossel Holandês parecia que ia sair sem problemas com o título, mas a Alemanha mostrou ser uma verdadeira especialista em destruir equipes mágicas, como fez em 1954! A Alemanha foi cirúrgica e a Holanda entrou em pane!
O jogador que mais lembro com esse jogo é o Vogts! Fico impressionado como ele conseguiu atormentar o Johan Cruyff! Essa é minha sugestão para você, Imortais: colocar Vogts entre os craques imortais, não só por essa partida brilhante, mas também por brilhar pelo Borussia Mönchengladbach na época! Abraço!
Foi um jogo eterno mesmo, Miguel! E Vogts terá seu merecido lugar aqui no Imortais em breve! Abraço! 🙂