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Esquadrão Imortal – Valencia 1978-1980

Grandes feitos: Campeão da Recopa da UEFA (1979-1980), Campeão da Supercopa da UEFA (1980) e Campeão da Copa do Rei (1978-1979). Foi o primeiro clube espanhol a vencer a Supercopa da UEFA.

Time-base: Carlos Pereira (José Luis Manzanedo / José Manuel Sempere); José Carrete, Ricardo Arias, Miguel Tendillo e Manuel Botubot (José Cerveró); Rainer Bonhof, Javier Subirats (Ángel Castellanos) e Daniel Solsona; Enrique Saura (Carlos “Lobo” Diarte), Mario Kempes e Pablo Rodríguez (Darío Felman / Fernando Morena). Técnicos: Bernardino “Pasieguito” Pérez (1978-1979 e 1980) e Alfredo Di Stéfano (1979-1980).

 

“El Matador e seus morcegos”

Por Guilherme Diniz

Após o título do Campeonato Espanhol de 1971, o Valencia entrou em um período de decepções e doloridas derrotas que deixaram o torcedor temeroso por um novo período de ostracismo. O clube já havia esperado mais de duas décadas para levantar um título de La Liga e não vencia a Copa do Rei desde 1967. Como voltar a brigar de igual para igual com os gigantes do país? Com um artilheiro nato. Em 1976, o clube desembolsou 35 milhões de pesetas (em torno de 500 mil dólares na época, uma fortuna) para levar ao Mestalla Mario Kempes, atacante argentino que desandava a fazer gols no Rosario Central. Pois “El Matador” virou a referência máxima do ataque valenciano com artilharias notáveis em La Liga e atuações de gala que encantaram o torcedor.

Em 1978, Kempes foi um dos destaques da Argentina campeã do mundo e, mesmo com tantas sondagens, decidiu permanecer no clube. Ele queria um troféu, que veio já na época 1978-1979, com a conquista da Copa do Rei em cima do Real Madrid com dois gols de Kempes na final. Na temporada seguinte, o técnico do título de La Liga de 1971 voltou: a lenda Alfredo Di Stéfano. E La Saeta Rubia conduziu os morcegos à final da Recopa da UEFA, na época o segundo mais importante torneio da Europa. O Valencia encarou o Arsenal-ING na decisão de Heysel e, após um tenso empate, conseguiu o título nos pênaltis e celebrou a inédita taça. De quebra, tempo depois, se tornou o primeiro clube espanhol a vencer a Supercopa da UEFA, derrotando o Nottingham Forest de Brian Clough na final.

Mas o Valencia não era apenas de Mario Kempes. Era de Ricardo Arias, Enrique Saura, Castellanos, Carrete, Botubot, Rainer Bonhof, Darío Felman, Fernando Morena entre outros. Um esquadrão que competia e dava show diante de sua fanática torcida no Mestalla. É hora de relembrar o Valencia 1978-1980.

Hora de competir

Depois do vice-campeonato de La Liga em 1971-1972 e dois vices nas Copas do Rei de 1970-1971 e 1971-1972, o Valencia entrou em um período de decepções. A diretoria cometia erros e vendia atletas que eram queridos pelos torcedores, como Juan Cruz Sol, negociado junto ao Real Madrid em 1975 por 30 milhões de pesetas, e técnicos não conseguiam fazer o time jogar bem, como o sérvio Dragoljub Milošević, muito criticado por desdenhar de atletas bem vistos pelos aficionados como Adorno, Aníbal, Antón e Jara. Por isso, a equipe terminava os campeonatos sempre na 10ª colocação ou abaixo, além de passar longe das fases mais decisivas da Copa do Rei.

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Em 1971, o Valencia levantou o título de La Liga. Porém, a partir daquele ano, o clube entrou em um período de vacas magras e decepções.

Por isso, em setembro de 1975, a situação ficou insustentável e o presidente Francisco Casares renunciou ao cargo. O clube acabou presidido interinamente por Alfredo Corral Cervera até janeiro de 1976, quando, sem eleições, uma candidatura unificada foi formada por figuras proeminentes do Valencia que tinham como objetivo tirar o clube da grave crise esportiva em que se encontrava. Dinheiro, o clube tinha, só não encontrava pessoas capazes de geri-lo da maneira correta e contratar bons atletas. Após várias reuniões, José Ramos Costa foi eleito presidente e, com ele, uma figura fundamental na história do clube: o ex-jogador e treinador Bernardino Pérez, mais conhecido como Pasieguito, que assumiu como secretário técnico responsável por trilhar os caminhos nos próximos anos e procurar reforços.

A temporada 1975-1976 terminou com o Valencia na 12ª colocação de La Liga e eliminado precocemente na Copa do Rei. Só que tudo aquilo começaria a mudar na temporada 1976-1977, quando Pasieguito e sua equipe foram atrás de um artilheiro que acumulava 94 gols em 123 jogos, sendo 89 gols só em torneios de primeira divisão do futebol argentino: Mario Kempes, estrela do Rosario Central e apelidado de El Matador pelo narrador argentino José María Muñoz. Para tirar Kempes de Rosário, o Valencia pagou um montante de 500 mil dólares, no que foi a maior transação envolvendo um futebolista argentino em toda a história na época.

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Um jovem Mario Kempes, pelo Rosario Central: craque foi uma das maiores contratações da história do Valencia.

As cifras pareciam uma loucura, mas Kempes justificava cada centavo. O atacante era inteligente, alto, oportunista, técnico e marcava gols de todos os jeitos, além de chutar bem e ter o faro goleador sempre apurado. Além dele, a comissão técnica do Valencia deu mais atenção aos garotos da base e promoveu ao elenco profissional o meio-campista Ricardo Arias e o também meio-campista Enrique Saura. Chegaram também o polivalente Ángel Castellanos, ex-Granada-ESP, que podia jogar na defesa e também como volante, o lateral-direito José Carrete, ex-Real Oviedo-ESP e exímio marcador, o goleiro Carlos Pereira, ex-Alavés-ESP, e o lateral-esquerdo e defensor Manuel Botubot, ex-Cádiz-ESP, que chegou no mercado de inverno.

Comandado pelo técnico paraguaio Heriberto Herrera, o Valencia terminou em uma modesta 7ª colocação no Campeonato Espanhol, mas o grande nome da temporada foi Mario Kempes. Com uma enorme facilidade para concluir a gol, o argentino levou a torcida do morcego ao delírio e foi um justo vencedor do Troféu Pichichi daquele ano ao marcar 24 gols em 34 jogos. O técnico Herrera acabou deixando o clube antes do término de La Liga e Manolo Mestre assumiu o time até junho de 1977, precedido posteriormente pelo francês Marcel Domingo.

Perto do topo

Na temporada 1977-1978, o Valencia seguiu com a mesma base e trouxe ainda o meio-campista Javier Subirats, das categorias de base, o goleiro Luis Fernández Manzanedo, ex-Burgos-ESP, e o atacante argentino Darío Felman, ex-Boca Juniors-ARG. Com tais reforços, o morcego terminou na 4ª colocação o Campeonato Espanhol e Kempes mais uma vez foi artilheiro do time e do campeonato com 28 gols em 34 jogos, faturando seu segundo Pichichi. O Valencia conseguiu uma campanha de destaque principalmente em casa, com 13 vitórias, dois empates e apenas duas derrotas. Os morcegos levaram apenas nove gols em 17 jogos jogando no Mestalla e derrotaram os gigantes Barcelona (1 a 0), Athletic Bilbao (3 a 1) e Real Madrid (2 a 0). 

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Johan Cruyff, capitão do Barcelona, e Mario Kempes, capitão do Valencia: lendas em La Liga naquele final de anos 1970.

Kempes chegou ainda aos 39 gols, somando os que anotou na Copa do Rei, na qual o Valencia caiu nas quartas de final. Ainda em 1978, o clube aprovou uma importante reforma do estádio Mestalla, já com foco na realização da Copa do Mundo de 1982, que seria na Espanha. O estádio se adequou a todos os órgãos regulatórios e às normas da FIFA da época para ser uma das principais sedes do Mundial.

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Kempes celebra um de seus dois gols na decisão da Copa do Mundo de 1978 contra a Holanda. Foto: Getty Images.

Falando em Mundial, na Copa de 1978 o atacante Mario Kempes viveu o auge da carreira ao marcar seis gols – dois deles na final contra a Holanda – na trajetória da Argentina rumo ao título. Super adaptado à Espanha e ao lado de sua família, que foi com ele por conta da desconfiança do jogador com o militarismo na Argentina, Kempes tinha paz e tranquilidade para jogar e viver. Suas arrancadas, os passes curtos, os chutes secos e sua velocidade contagiaram torcida e companheiros de time. Aquela boa fase só confirmava o talento do craque, que virou uma estrela do futebol logo após a Copa.

O ídolo permanece e mudança no comando

A fama de Kempes fez com que o Valencia recebesse diversas sondagens de outros clubes pelo futebol do jogador. Mas o atacante, humilde e feliz na cidade espanhola, quis permanecer e seguir em busca de um troféu com os morcegos. A diretoria ficou aliviada e decidiu investir ao trazer uma estrela de alto calibre para o meio de campo: Rainer Bonhof, ex-Borussia Mönchengladbach-ALE, super campeão alemão e vencedor da Eurocopa de 1972 e da Copa do Mundo de 1974 com a Nationalelf. O Valencia desembolsou 67 milhões de pesetas pelo jogador, que seria um dos principais nomes do time a partir dali. Quem também chegou foi o meia Daniel Sonsona, ex-Espanyol, e Miguel Tendillo, zagueiro das categorias de base que seria um dos grandes emblemas do Valencia nos anos seguintes e presença constante na seleção da Espanha.

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Rainer Bonhof, reforço imenso do Valencia para a temporada 1978-1979.

Ainda comandado por Marcel Domingo, o Valencia esperava repetir ou melhorar sua campanha anterior em La Liga, mas o time foi muito inconstante e, apesar de perder apenas um jogo em casa, terminou na 7ª colocação, além de cair precocemente nas oitavas de final da Copa da UEFA diante do West Bromwich Albion-ING. Essa falta de consistência e ainda a ligeira queda de rendimento ofensivo de Kempes fizeram a diretoria demitir o técnico Marcel Domingo em março de 1979. Sem tempo para correr atrás de um novo comandante e ainda brigando na Copa do Rei, o clube deixou a equipe sob os cuidados de Pasieguito, que teria uma missão gigante logo de cara: reverter uma derrota de 4 a 1 para o Barcelona nas oitavas de final da Copa do Rei.

Morcegos campeões

Depois de superar o Girona e a Real Sociedad, o Valencia enfrentou o Barcelona nas oitavas de final da Copa do Rei e levou de 4 a 1 no Camp Nou no duelo de ida, o que obrigou o time valenciano a marcar pelo menos três gols para levar o duelo para a prorrogação. Pois o Valencia contou com a força de seu caldeirão lotado e fez 3 a 0 no tempo normal, com gols de Lobo Diarte e Rainer Bonhof, duas vezes, em cobranças de pênaltis. Na prorrogação, logo aos dois minutos, o argentino Felman fez o quarto gol e classificou o Valencia às quartas de final.

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Kempes celebra: noites no Mestalla eram de puro delírio e gols!
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Bonhof anotou dois gols no épico 4 a 0 sobre o Barça.

A noite mágica no Mestalla embalou o Valencia, que começou a acreditar em um título que não vinha há mais de uma década. Nas quartas, a equipe se sobressaiu ao Deportivo Alavés e venceu tanto o duelo da ida (1 a 0) quanto da volta (3 a 0). Nas semis, os morcegos venceram em casa o primeiro jogo contra o Real Valladolid por 2 a 0 e nem a derrota por 2 a 1 na volta evitou a classificação para a grande final, marcada para o dia 30 de junho de 1979, em Madri, no Vicente Calderón, contra o Real Madrid de Stielike, Del Bosque, Santillana e Isidro.

Jogando com uma exótica camisa com as cores da bandeira da comunidade valenciana, a senyera, o Valencia se impôs e abriu o placar logo aos 24’ do primeiro tempo, com Kempes, que recebeu na esquerda, ganhou do marcador, invadiu a área e tocou no canto do goleiro. O Real Madrid ainda teve uma grande chance em cobrança de pênalti, mas Enrique Wolff mandou a bola na trave e manteve o Valencia na frente. No segundo tempo, já nos acréscimos, Kempes fez uma jogada parecida com a do primeiro gol, ganhou do marcador e chutou. O goleiro defendeu, mas, no rebote, o argentino chutou alto, sem chance alguma, e fechou o placar: 2 a 0.

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Enfim, depois de 12 anos, o Valencia sagrou-se campeão da Copa do Rei! Delírio puro dos torcedores, que viram o capitão Carrete receber o troféu das mãos do Rei Juan Carlos I. Uma curiosidade é que Mario Kempes marcou os dois gols com a perna direita, a “perna ruim”, como ele mesmo lembrou tempo depois.

“Não passa um dia sem que eu me lembre disso. E o melhor de tudo é que marquei os dois gols com a perna direita, que eu só usava para me apoiar e para subir no ônibus”.Mario Kempes, em entrevista ao jornal Levante (ESP), 15 de abril de 2008.

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Aquele troféu significou muito para quase todo o elenco, que disputou uma final pela primeira vez em suas carreiras, com exceção do próprio Kempes, do alemão Bonhof e do argentino Felman. “Aquela Copa do Rei era a única coisa ao nosso alcance, e nós a agarramos. Havia muitos jogadores que talvez não tivessem conquistado muito até então. Eu vinha praticamente da Copa do Mundo de 1978, Rainer (Bonhof) também havia vencido com a Alemanha, Felman havia conquistado o Mundial de Clubes com o Boca Juniors (em 1977)… e acho que para os outros era a primeira vez que jogavam uma final.”

“Com muita coragem e lutando juntos, ombro a ombro, conseguimos a vitória. Foi incrivelmente difícil porque a final era contra o Real Madrid, o atual campeão. Eles tinham vários jogadores lesionados, mas ainda eram jogadores importantes, e nós jogávamos fora de casa, já que a partida seria em Madri. A torcida estava enlouquecida porque nada havia sido conquistado desde 1971, e com o apoio deles, tínhamos que vencer. E vencemos”, relembrou Kempes.

O retorno de Di Stéfano

A diretoria do Valencia tratou o título da Copa do Rei como um divisor de águas para uma nova era de ouro. Por isso, precisava manter Pasieguito na função de coordenador e procurar um técnico consagrado e que pudesse conduzir os morcegos a mais títulos. E esse alguém chegou em julho de 1979: Alfredo Di Stéfano, justamente o técnico da conquista de La Liga de 1971. A lenda sabia competir como poucos e sua presença ao lado de Kempes seria um extra para a sintonia do clube ficar ainda maior. Muito querido pelos torcedores, La Saeta Rubia teve o melhor ambiente possível para seu trabalho. E, com a base mantida, o Valencia esperava brigar por todos os títulos.

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Alfredo Di Stéfano: lenda retornou para conduzir o Valencia a mais um título. Foto: Acervo / Valencia

Na Espanha, o time fez bons jogos dentro de casa, mas não conseguiu repetir o mesmo desempenho jogando fora de seus domínios e terminou na 6ª colocação, embora Kempes tenha anotado 22 gols no campeonato. Na Copa do Rei, a trajetória acabou já nas oitavas de final. Com isso, restou ao clube a Recopa da UEFA, segunda maior competição do continente e totalmente possível para os morcegos.

A saga europeia

O Valencia começou sua jornada diante dos dinamarqueses do Boldklubben 1903 e arrancou um empate de 2 a 2 no duelo de ida, em Copenhague, com gols de Castellanos e Arias. Na volta, em casa, os espanhóis venceram por 4 a 0, com dois gols de Kempes, um de Felman e outro de Saura. Nas oitavas de final, os morcegos enfrentaram o Rangers-ESC em casa e empataram em 1 a 1, com gol de Kempes, um resultado muito ruim que obrigava os espanhóis a vencerem em Glasgow. Pois Kempes, duas vezes, e Bonhof anotaram os gols da vitória por 3 a 1 que colocou o Valencia nas quartas de final.

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O adversário seguinte foi o compatriota Barcelona, então campeão da Recopa e na luta pelo bicampeonato consecutivo. Só que o clube catalão era freguês do Valencia na época e sofreu nos dois jogos diante dos morcegos. Na ida, no Camp Nou, Pablo Rodríguez fez o gol da vitória valenciana por 1 a 0, resultado que deu a vantagem do empate para a volta, no Mestalla. A partida foi frenética, mas o Valencia mostrou quem mandava por ali. Saura abriu o placar aos 10′, mas Canito, aos 15′, e Jesús Landaburu, aos 26′, viraram o jogo para os catalães. Três minutos depois, Bonhof empatou e, no segundo tempo, Saura fez o gol da virada valenciana. Aos 85′, Kempes, de pênalti, ampliou o marcador até Canito, aos 89′, fechar o incrível 4 a 3 que classificou o Valencia.

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No último desafio antes da final, o Valencia teve pela frente o forte Nantes-FRA da época. Na ida, fora de casa, os espanhóis perderam a primeira partida da campanha por 2 a 1, mas o gol de Kempes manteve a esperança da classificação. Na volta, a equipe valenciana fez um jogo perfeito e goleou por 4 a 0, com com mais dois gols de Kempes, um de Bonhof e outro de Subirats. Com um ataque devastador que já havia marcado 20 gols em apenas oito jogos, os morcegos estavam na final! E a um passo de conquistarem um inédito título continental.

Morcego da Europa!

O Valencia encarou o Arsenal-ING do goleiro Pat Jennings, do defensor David O’Leary e do atacante Alan Sunderland na final da Recopa, disputada em Heysel (BEL). Os Gunners haviam despachado na semifinal a favorita Juventus e queriam, assim como os espanhóis, levantar sua primeira taça da Recopa. Sabendo da força ofensiva do rival, o técnico do Arsenal, Terry Neill, armou uma equipe muito bem postada defensivamente que não deixou o Valencia criar as jogadas que estava habituado, muito menos dar espaços a Bonhof e Kempes. Por isso, a partida foi muito equilibrada e teve brilho dos goleiros, que realizaram grandes defesas, em especial Carlos Pereira, que conseguiu parar as boas chegadas do Arsenal durante a partida.

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Foto: Colorsport/Shutterstock

O 0 a 0 permaneceu no tempo normal e na prorrogação, levando a decisão para os pênaltis. A disputa começou com o Valencia e Mario Kempes viu seu chute ser defendido por Pat Jennings, um susto que deixou o torcedor espanhol temeroso pelo fim do sonho do título. Só que os morcegos tinham Carlos Pereira, que foi buscar a cobrança de Brady, no cantinho. Depois disso, todos os oito cobradores converteram até o início das cobranças alternadas. Na primeira, Ricardo Arias colocou o Valencia em vantagem. No chute seguinte, do Arsenal, Graham Rix bateu e Carlos Pereira defendeu, fechando o 5 a 4 que deu o título da Recopa da UEFA ao Valencia.

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O time campeão da Recopa: as chegadas de Bonhof ao ataque davam muita força e volume ofensivo ao time espanhol.

Inédita, a Recopa foi a terceira taça continental do Valencia, que venceu duas edições da antiga Copa das Cidades com Feiras nos anos 1960. Kempes, com 9 gols, foi o artilheiro da competição e entrou de vez para a história do clube como um dos mais importantes jogadores dos morcegos em anos. Di Stéfano provou também ter estrela e celebrou outra taça de peso com os Ches. Em 9 jogos, o Valencia venceu cinco, empatou três e perdeu um. Foram 20 gols marcados e 9 gols sofridos.

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Graham Rix (de amarelo, ao centro) lamenta após perder o pênalti decisivo. Valencia campeão! Foto: Colorsport/Shutterstock
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Foto: Evening Standard/Getty
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O lado triste foi a briga generalizada que aconteceu no pós-jogo envolvendo os hooligans ingleses contra torcedores do Valencia. A polícia belga teve que intervir e evitou um desastre maior, apesar de os hospitais de Bruxelas receberem vários feridos. Ninguém notou na época, mas era um prenúncio das fatalidades que seriam constantes nos anos 1980, com o estopim na Tragédia de Heysel, naquele mesmo estádio, na final da Liga dos Campeões da UEFA de 1985.

Supercampeões e o fim

Na temporada 1980-1981, o Valencia saiu da calmaria de duas temporadas de glórias para voltar à gangorra de emoções que o torcedor tanto se acostumou nos anos 1970. O craque Rainer Bonhof foi negociado junto ao Colônia-ALE e o técnico Alfredo Di Stéfano também deixou o comando da equipe – ele seria técnico do River Plate a partir de 1981. Essas saídas pegaram muito mal nos bastidores e foi uma grande decepção para os torcedores do Valencia. Além deles, os zagueiros Rafael Domingo (que foi para o Oviedo), José Palmer (transferido para o Levante) e Higinio García (que se transferiu para o Murcia) também deixaram o clube, assim como o meio-campista Juan Carlos Fàbregat (que decidiu se aposentar) e o atacante José Luis Albiol (que foi para o Deportivo).

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Jogadores do Valencia posam com o troféu da Supercopa da UEFA da época (bem diferente do atual).

Por outro lado, os morcegos contrataram o talentosíssimo atacante uruguaio Fernando Morena, que iria assumir o protagonismo do ataque da equipe dali em diante. Pasieguito assumiu novamente o comando técnico do Valencia e, logo de cara, conduziu a equipe na final da Supercopa da UEFA diante do bicampeão europeu, o Nottingham Forest-ING do técnico Brian Clough. Na época, o torneio era decidido em dois jogos, por isso, um bom resultado na casa dos ingleses era fundamental para o Valencia brigar pelo título inédito não só para o clube, mas para o futebol espanhol.

Na ida, no City Ground, Darío Felman abriu o placar para o Valencia no começo do segundo tempo, mas Ian Bowyer, aos 57’ e 89’, virou o jogo e deu a vantagem do empate aos ingleses para a volta, no Mestalla. O gol de Felman, por outro lado, dava ao Valencia a chance de vencer pela contagem mínima graças ao critério do gol qualificado ainda vigente. E, com um tento de Fernando Morena, aos 51’, os morcegos venceram por 1 a 0 e ficaram com o troféu de supercampeões da Europa!

Na sequência da temporada, o Valencia começou muito bem La Liga, com vitórias sobre o Barcelona em pleno Camp Nou por 3 a 0 – dois gols de Solsona e um de Morena – e um 2 a 1 sobre o Real Madrid, em casa, com dois gols de Kempes -, mas a eliminação precoce na Recopa da UEFA para o Carls Zeiss Zena-ALE e a grave lesão no ombro de Kempes, que o tirou de vários jogos e culminou com sua venda para o River Plate em março de 1981, fez com que o Valencia não conseguisse mais títulos – a equipe terminou La Liga em 4º lugar.

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Morena fez dupla de ataque com o argentino Kempes (à dir.), mas o companheiro do uruguaio se lesionou e quem acabou se destacando mais foi Morena.

Um fato que prejudicou bastante o rendimento do time foi a ausência de Fernando Morena por oito jogos no campeonato por problemas disciplinares. Ainda sim, o craque marcou 16 gols (24 no total da temporada). Morena retornaria ao Peñarol, seu clube do coração, já na temporada seguinte e o Valencia entrou em um período complicado, culminando com o rebaixamento do clube para a segunda divisão em 1985-1986.

Os bons momentos só voltariam na virada do milênio, quando um novo esquadrão fez do Valencia multicampeão na Espanha – com dois títulos de La Liga e uma Copa do Rei – e também na Europa – um título da Copa da UEFA -, além de ser vice-campeão de duas Ligas dos Campeões em 2000 e 2001, time que recolocou o Valencia nos holofotes assim como o timaço de 1978-1980, cultuado e relembrado eternamente pelo fanático torcedor do morcego.

Os personagens:

Carlos Pereira: depois de um início desastroso – levou cinco gols do Barcelona de Cruyff em 1974 -, o goleiro espanhol acabou emprestado na temporada seguinte e só retornou em 1976-1977, quando alternou jogos como titular e outros como reserva de Manzanedo. Mas sua volta por cima aconteceu na temporada 1979-1980, quando Di Stéfano deu voto de confiança ao goleirão e ele foi o herói na conquista da Recopa da UEFA ao defender dois pênaltis no duelo contra o Arsenal e garantir a conquista inédita. Tinha boa presença física e levava temor aos atacantes com suas saídas do gol. Disputou 129 jogos pelos morcegos até ir jogar no Atlético de Madrid em 1982.

José Luis Manzanedo: jogou no Valencia de 1977 até 1984 e foi um dos grandes goleiros da equipe no período, com destaque para seu desempenho na temporada 1978-1979, quando ajudou os morcegos a vencerem a Copa do Rei. Manzanedo ainda faturou o Troféu Zamora como goleiro menos vazado do Campeonato Espanhol ao sofrer 26 gols em 25 jogos.

José Manuel Sempere: cria das bases, o goleiro começou a aparecer entre os profissionais em 1979 e virou titular absoluto a partir de 1980-1981, quando se transformou em ídolo da torcida graças às suas defesas impressionantes e muita segurança, além de enorme senso de colocação. Não foi à toa que Sempere é até hoje um dos jogadores com mais jogos na história do Valencia: 470 partidas, sendo 363 delas oficiais. Jogou no clube até 1995, completando mais de 15 anos vestindo as cores dos morcegos.

José Carrete: capitão e ídolo naquele período de ouro, o lateral-direito foi absoluto no Valencia durante sete temporadas e um dos marcadores mais implacáveis do futebol espanhol. Ficou marcado para a história o embate do jogador com Maradona em setembro de 1982, quando o argentino jogava no Barcelona, e tantas outras marcações emblemáticas de Carrete pra cima de pontas-esquerdas habilidosos. O lateral disputou 338 jogos com a camisa do Valencia, marcou sete gols e deu 14 assistências.

Ricardo Arias: outro símbolo do Valencia e 2º jogador com mais jogos na história do clube – 521 partidas, além de dezenas de jogos amistosos -, Arias foi um dos principais defensores dos morcegos na época e jogou de 1976 até 1992, passando pelos bons e maus momentos. Atuava como zagueiro central, líbero ou volante. Alto e esguio, se impunha pelo porte físico e era ótimo na defesa e contenção.

Miguel Tendillo: outro jogador muito identificado com o Valencia e cria das bases, Tendillo jogou de 1979 até 1986 no clube e foi presença constante, também, na seleção espanhola, pela qual disputou a Copa do Mundo de 1982. Formou com Ricardo Arias uma verdadeira fortaleza na zaga valenciana e se destacava pela velocidade e precisão nos desarmes, além de ter boa saída de bola, muita técnica e fazer um importante elo com o meio de campo. Era também quase imbatível nas jogadas aéreas graças à sua ótima impulsão. Vestiu as camisas do Murcia, Real Madrid e Burgos.

Manuel Botubot: lateral-esquerdo muito raçudo, chegou ao clube em 1977 e permaneceu até 1984, sendo um dos mais utilizados atletas tanto do técnico Pasieguito quanto Di Stéfano. Conquistou a torcida com suas arrancadas e tiradas de bola cheias de energia, além de alguns gols – foram 12 em 359 jogos.

José Cerveró: o lateral-esquerdo revelado no Valencia alternou partidas como titular e outras como reserva, mas se destacou pela firmeza na marcação e por não ceder espaços aos rivais, com uma consistência admirável. Podia jogar igualmente bem em ambos os lados do campo, grudando no atacante e não lhe deixando outra opção a não ser recuar a bola. Foram 353 jogos com a camisa dos morcegos.

Rainer Bonhof: um dos maiores meio-campistas da história do futebol alemão e titular absoluto da super seleção campeã da Eurocopa de 1972 e da Copa do Mundo de 1974, Bonhof já era um atleta consagrado quando foi contratado pelo Valencia em 1978 para ser o grande nome do meio de campo dos morcegos. Bonhof era capaz de cobrir toda a área central do campo, tinha técnica refinada e força física admirável. O craque contribuiu com jogadas habilidosas e gols para um time que vivia um dos melhores momentos de sua história. Tinha presença imponente, altura, potência, resistência e posicionamento, além de um chute de perna direita simplesmente letal. Era ainda perigosíssimo em cobranças de falta e pênalti. Bonhof disputou 95 jogos pelo Valencia, todos como titular absoluto naquelas duas temporadas mágicas, marcou 21 gols e deu 12 assistências. Simplesmente gigante!

Javier Subirats: mais uma cria das bases e muito identificado com o clube, o meio-campista foi outro grande nome do Valencia nos anos 1980 e aparecia bem no ataque para marcar gols e dar passes para os companheiros. Foi titular absoluto da equipe naquela era de ouro e anotou 67 gols em 342 jogos pelos morcegos, além de dar 41 assistências. Após a aposentadoria, foi diretor de futebol do Valencia no final dos anos 1990 e ajudou o time na era de ouro do super esquadrão campeão espanhol e da Copa da UEFA.

Ángel Castellanos: era um jogador versátil, que começou como atacante, depois tornou-se zagueiro e terminou sua carreira como volante. Apesar de não ser técnico, compensava com muita raça e marcação no meio de campo, além de aparecer bem na frente e marcar gols. Jogou no Valencia durante uma década – 1976 até 1986 – e acumulou 363 jogos, com 22 gols marcados e 19 assistências.

Daniel Solsona: meio-campista com bom controle de bola, visão de jogo, grande técnica e passes sempre precisos, Solsona jogou de 1978 até 1983 no Valencia e foi outro jogador que brilhou intensamente nas campanhas dos títulos dos morcegos na época. Em 240 jogos, marcou 54 gols e deu 22 assistências.

Enrique Saura: meia decisivo, que atuava mais pela direita e chegava bem ao ataque, Saura jogou por mais de uma década no Valencia e foi importantíssimo para os gols de Kempes, Felman e companhia, além de ele mesmo marcar vários gols decisivos. Em 401 jogos, marcou 84 gols e deu 48 assistências. Integrou o elenco da Espanha na Copa de 1982.

Carlos “Lobo” Diarte: o atacante paraguaio de ótima condição física, velocidade e oportunismo chegou na temporada 1976-1977 ao Valencia, após passagens por Olimpia-PAR e Zaragoza-ESP. Provou seu valor logo de cara ao marcar 23 gols e dar 9 assistências em 36 jogos, além de demonstrar enorme sintonia com o argentino Kempes. Após sofrer uma grave lesão no joelho na época 1977-1978, passou por um longo período de recuperação e retornou longe de seus melhores momentos, mas ainda sim marcando alguns gols importantes e dando passes para os companheiros. Deixou o Valencia em 1979, logo após a Copa do Rei, para jogar no Salamanca. Em 115 jogos, foram 44 gols e 19 assistências.

Mario Kempes: o craque argentino foi, sem dúvida, a grande estrela do Valencia naquele período de ouro. Terceiro maior artilheiro da história do clube com 149 gols em pouco mais de 300 jogos (além de 63 assistências!), Kempes é tido por muitos como o maior jogador da história do clube e um ídolo atemporal. Sua chegada foi impactante e mudou completamente o dia a dia dos morcegos, que passaram a ser temidos tanto no futebol espanhol quanto na Europa. Os títulos vieram a partir de 1979 e poderiam ter sido mais se o Valencia tivesse um pouquinho mais de foco em La Liga, principalmente nas épocas 1979-1980 e 1980-1981. Mesmo assim, os canecos da Copa do Rei, da Supercopa e em especial da Recopa foram únicos e entraram para a galeria dos triunfos inesquecíveis dos valencianos. Kempes jogou até 1984 no Valencia e retornou ao futebol argentino, mas já longe da melhor forma. Leia mais sobre ele clicando aqui!

Pablo Rodríguez: com poucas oportunidades em seu início de clube, lá na temporada 1977-1978, o ponta-esquerda teve mais chances sob o comando de Alfredo Di Stéfano e fez vários jogos ao lado de Kempes no ataque do Valencia na época 1979-1980. Foi decisivo na campanha da Recopa, em especial nos duelos contra o Rangers-ESC. Em 147 jogos, marcou 29 gols e deu 23 assistências.

Darío Felman: campeão do Mundial Interclubes e da Libertadores de 1977 pelo Boca Juniors-ARG, Felman chegou um ano depois de Kempes e fez uma grande parceria com o compatriota no ataque dos morcegos. Jogador determinado, Felman não tinha um faro prolífico para marcar gols, mas aceitou prontamente o papel de coadjuvante. Sua melhor temporada foi a do título da Copa do Rei, em 1978-1979, quando marcou 15 gols e deu cinco assistências em 46 jogos. Foram seis temporadas no clube, 42 gols e 14 assistências em 192 partidas.

Fernando Morena: apesar dos jogos ausentes durante a temporada 1980-1981 – ele discutiu com um árbitro por não marcar um pênalti e pegou oito partidas de gancho -, Morena foi o grande herói do título da Supercopa da UEFA diante do Nottingham Forest-ING e o principal goleador da equipe em La Liga. Um dos maiores e mais decisivos atacantes do futebol sul-americano na época, o craque só não ficou mais no Valencia por “culpa” da torcida do Peñarol, que repatriou o atacante juntando dinheiro e fez o clube comprar de volta o passe do artilheiro. A missão deu certo e ele foi o grande astro do time carbonero campeão da Libertadores de 1982 e do Mundial Interclubes do mesmo ano. Fernando Morena anotou 24 gols em 40 partidas oficiais pelo Valencia. Leia mais sobre ele clicando aqui!

Bernardino “Pasieguito” Pérez e Alfredo Di Stéfano (Técnicos): discreto, Pasieguito sempre preferiu trabalhar longe dos holofotes, na área interna do clube, por isso nunca teve longos períodos no comando técnico. Mesmo assim, conseguiu dois títulos – Copa do Rei e Supercopa – apostando no talento do elenco e no entrosamento dos jogadores. Já Di Stéfano foi o responsável pela glória continental de 1980 e por fazer o Valencia romper com o estigma de não conseguir vencer um título com a chancela da UEFA. O time marcou muitos gols e usou a força do Mestalla como artífice para derrotar qualquer rival.

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