Data: 03 de julho de 2026
O que estava em jogo: uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo da FIFA de 2026
Local: Hard Rock Stadium, Miami Gardens, EUA.
Árbitro: Drew Fischer (Canadá)
Público: 64.478 pessoas
Os Times:
Argentina: Emiliano Martínez; Molina (Montiel, 104′), Romero, Lisandro Martínez e Medina (Tagliafico, 85′); De Paul (Paredes, 84′), Mac Allister, Enzo Fernández e Almada (Nico González, 63′); Lionel Messi e Lautaro Martínez (Julián Álvarez, 63′). Técnico: Lionel Scaloni.
Cabo Verde: Vozinha; Moreira, Pico, Diney e Sidny Lopes Cabral; Kevin Pina (Benchimol, 100′); Ryan Mendes (Willy Semedo, 80′), Laros Duarte (Monteiro 67′), Deroy Duarte (Yannick Semedo, 100′) e Jovane Cabral (Hélio Varela, 80′); Nuno da Costa (Livramento, 67′). Técnico: Bubista.
Placar: Argentina 3×2 Cabo Verde. Gols: Messi-ARG, aos 29′ do 1º T; Deroy Duarte-CBV, aos 14′ do 2º T; Lisandro Martínez, aos 2′ e Lopes Cabral-CBV, aos 13′ do 1º T da prorrogação; Diney (contra, para a Argentina), aos 6′ do 2º T da prorrogação.
“O drama da campeã do mundo diante dos Tubarões Azuis”
Por Guilherme Diniz
Era praticamente um consenso geral. De todos os jogos da fase de 16 avos de final da Copa do Mundo da FIFA de 2026, o que mais parecia barbada era a vitória da tricampeã mundial Argentina sobre a estreante seleção de Cabo Verde. Por mais que o time africano tivesse feito uma fase de grupos surpreendente, ninguém acreditava que os Tubarões Azuis pudessem resistir à então campeã mundial, ao seu meio de campo formidável, ao seu goleiro Dibu Martínez e, claro, a Messi, maior artilheiro da história das Copas e on fire naquele Mundial com 6 gols em apenas três jogos, uma surreal média de dois gols por partida e antes vista apenas nas Copas do século passado.
Quando a bola rolou, Messi, claro, abriu o placar. Só que o time albiceleste pareceu satisfeito. Certo de que venceria quando bem entendesse. Mas algumas coisas começaram a acontecer. Messi tinha chances claras de gol e o goleiro cabo-verdiano Vozinha defendia. O meio de campo tentava armar jogadas de gol e não conseguia. Uma fortaleza defensiva se postava na grande área e a Argentina não conseguia romper. E, no segundo tempo, Cabo Verde fez um lindo gol que empatou o jogo.
A Argentina levou um baque. Teve que ir atrás. Messi era derrubado frequentemente perto da área. Ah, ele vai marcar um gol de falta. Não marcou. Vozinha não deixou. Ah, mas logo a Argentina encontra uma brecha e faz. Não fez. Cabo Verde seguia firme. Se defendia, mas jogava. Tocava bem a bola, aparecia com perigo no ataque, fazia transições rápidas. Um vacilo argentino e eles poderia virar o jogo. O tempo correu. E a partida foi para a prorrogação.
Nela, a Argentina conseguiu seu segundo gol, com um zagueiro. Alívio? Que nada. Minutos depois, Sidny Lopes Cabral apareceu na ponta esquerda, ajeito e mandou um chutaço de fora da área. A bola foi no ângulo de Dibu Martínez. Um gol espetacular. Empate de Cabo Verde. A Argentina suava frio. Em seu barco que navegava em automático há anos, um tubarão azul batia forte, querendo derrubar aquela embarcação tida como inabalável. O tempo passava e nada fazia efeito. Cabo Verde resistia. Não era uma zebra. Era um time de futebol que sabia jogar na defesa e no ataque, com estratégia, sem medo, sem receio. Só que a Argentina tinha Messi. E ele cobrou um escanteio na cabeça de Romero, aos 6’, a bola bateu em um jogador caboverdiano e entrou, deixando os sulamericanos em vantagem novamente: 3 a 2.
Faltavam poucos minutos. E Cabo Verde ficou ali, no ataque, rondando e flertando com o empate. A Argentina ligou o modo sul-americano de garra. De Libertadores. O jogo que sempre gostou de jogar. E conseguiu se segurar. Ao apito final, a campeã respirou aliviada enquanto o tubarão foi nadando mais longe, em direção à sua casa, do outro lado do Atlântico. Nunca mais ela vai se esquecer daquele sofrimento. Do predador faminto. Sorrateiro. Traiçoeiro. Assim como ninguém jamais se esquecerá do feito de uma pequenina estreante em Copas. É hora de relembrar o espetacular Argentina 3×2 Cabo Verde 2026.
Sumário
Pré-jogo
A grande sensação da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 foi a estreante Cabo Verde, oriunda do pequenino arquipélago no oeste africano com pouco mais de 500 mil habitantes. Os Tubarões Azuis conseguiram a vaga no Mundial após somarem 23 pontos em 10 jogos no Grupo D das Eliminatórias, deixando para trás a tradicional seleção de Camarões e equipes como Líbia, Angola, Maurício e Essuatíni (antiga Suazilândia). Com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota, Cabo Verde conseguiu o feito justamente no ano (2025) em que o país completou 50 anos de sua independência. Para chegar até o Mundial, a federação de futebol cabo-verdiana recorreu a um planejamento que focou em jogadores vindos da diáspora do país, por conta da forte ligação com Portugal e também Holanda, mais precisamente na cidade de Roterdã.

No século passado, uma série de secas levou a uma grande emigração das ilhas cabo-verdianas. Além disso, a tradição marítima e a participação no comércio naval contribuíram para a formação de uma população considerável com raízes em Cabo Verde nos citados países europeus. Dos 26 convocados pelo técnico Pedro Leitão Brito – conhecido desde os tempos de jogador pelo apelido de Bubista -, 14 atletas nasceram fora de Cabo Verde, seis deles em Roterdã.
“A FCF tem feito progressos significativos graças à paixão, ao comprometimento e a um plano técnico bem definido. Os resultados que estamos vendo são, em grande parte, fruto de anos de trabalho consistente, forte crença e pessoas que dedicaram seus corações ao projeto”, afirmou Josina Freitas Fortes, membro do parlamento de Cabo Verde, à BBC (Reino Unido), em junho de 2026.
Uma curiosidade é que a federação utilizou todos os recursos para conseguir compor seu elenco no pré-Copa. Todos mesmo! O mais célebre foi um anúncio no LinkedIn, em meados de 2018, que ajudou a incorporar o zagueiro Roberto “Pico” Lopes (nascido em Dublin, Irlanda). Ele recebeu uma mensagem na rede social profissional do então técnico da seleção, Rui Águas, e pensou que era spam, pelo fato de a mensagem estar em português.

O treinador havia descoberto que o jogador possuía ascendência cabo-verdiana por parte de pai e queria saber se ele tinha interesse em defender a seleção nacional. A princípio, Pico ignorou a mensagem. Mas, em 2019, a federação insistiu, dessa vez com uma mensagem em inglês, e ele aceitou.
“Achei que a mensagem era um spam. Eu deveria ter usado o Google Tradutor antes”, comentou o zagueiro, tempo depois, ao site da FIFA.

O bom momento da seleção passava também pelo técnico Bubista, que comandava os africanos desde 2020 e tinha à sua disposição uma comissão técnica estável que montou uma equipe compacta e bem treinada, com defesa organizada, meio-campistas técnicos e atacantes talentosos. Outro fato relevante era a disciplina do elenco, que não cometia muitas faltas e jogava limpo, sem o ímpeto físico um pouco excessivo que sempre marcou muitas equipes africanas.
Em 2026, antes da Copa, Cabo Verde disputou quatro amistosos, com duas vitórias – 3 a 0 na Sérvia e 3 a 0 em Bermuda -, um empate (1 a 1, com a Finlândia) e uma derrota (4 a 2 para o Chile). Classificados no Grupo H, os africanos eram azarões em uma chave que tinha os favoritos Uruguai e Espanha, além da Arábia Saudita. Porém, jogo a jogo, a equipe de Bubista provou que não era nenhum saco de pancadas. Na estreia, contra a Espanha, Cabo Verde foi forte na zaga e empatou em 0 a 0, com destaque para o goleiro Vozinha, que fez pelo menos sete defesas marcantes e garantiu a meta intacta dos Tubarões. O resultado chocou a imprensa mundial, que ainda não conhecia o time e pensava que a Espanha iria golear.
No segundo jogo, contra o Uruguai, uma nova faceta foi demonstrada. Com mais presença no ataque e variações, Cabo Verde abriu o placar diante da Celeste aos 21’, com Kevin Pina. No final do primeiro tempo, os sulamericanos empataram e, nos acréscimos, viraram para 2 a 1. Era o fim do encanto africano? Que nada! Cabo Verde foi pra cima e, aos 61’, Varela empatou e garantiu mais um ponto para os Tubarões.
Na partida derradeira, um novo 0 a 0 diante da Arábia Saudita fez a seleção somar três pontos no total e, com a derrota do Uruguai para a Espanha, Cabo Verde conseguiu a vaga na fase 16 avos de final com o segundo lugar do grupo. Foi a primeira vez em 16 anos que um país estreante conseguiu se classificar para uma etapa eliminatória de Copa – o último havia sido a Eslováquia, em 2010. Após a partida, o técnico Bubista disse: “Para nós, nada é impossível”.

Só que o treinador não tinha ideia do que viria pela frente: simplesmente a Argentina, então campeã mundial e embalada após três vitórias em três jogos na fase de grupos, com destaque para os gols de Lionel Messi, artilheiro da competição com 6 gols. O camisa 10 vinha em grande fase e marcava de todos os jeitos. Mesmo assim, Bubista e sua comissão estavam confiantes. O auxiliar Humberto Bettencourt comentou sobre o craque argentino, mas disse que Cabo Verde iria manter sua identidade.
“Nós consideramos o Messi um jogador muito diferenciado, mas olhamos sempre para o coletivo. São relações que podem criar para dar espaços, eventualmente, para libertarem o Messi. Vivemos sempre em função do coletivo, não de forma individualizada. Não vamos mudar tanto nossa forma de jogar, nossa identidade, em função do adversário. O que deve sempre se ajustar são estratégias em preparação para um determinado jogo”. – Humberto Bettencourt, em entrevista ao GE, 30 de junho de 2026.
Além da comissão, os jogadores de Cabo Verde também demonstravam otimismo. O goleiro Vozinha foi categórico à imprensa no pré-jogo. “Talvez, para muitos de vocês, os jogadores de Cabo Verde não sejam bons o suficiente. Mas viemos aqui para mostrar que temos muita qualidade”. E, de fato, eles tinham mesmo…
Primeiro tempo – Domínio argentino
Com a bola rolando em Miami, a Argentina naturalmente teve o controle nos primeiros minutos e pressionou a saída de bola dos africanos. Mas, aos 6’, Lautaro foi tentar pressionar o goleiro Vozinha e levou um belo drible do veterano goleiro cabo-verdiano que levou a torcida dos Tubarões ao delírio. Na sequência, a primeira chegada efetiva foi de Cabo Verde, pela direita, quando Ryan Mendes avançou e acabou chutando fraco, com a bola desviando em Romero para a fácil defesa de Dibu Martínez. A Argentina continuou sua procura por brechas no campo defensivo, mas era difícil furar a bem postada zaga formada pelo técnico Bubista. Aos 14’, uma boa chegada pela esquerda em jogada do volante De Paul e do meia Almada terminou com a redonda nos pés de Messi. O camisa 10 achou um espaço e chutou rasteiro, mas a bola foi para fora. No minuto seguinte, o craque foi derrubado por Jovane Cabral perto da área e a albiceleste ganhou uma chance de ouro para abrir o placar. O capitão cobrou, mas Vozinha, bem colocado, encaixou firme e defendeu.

Na sequência, Molina recebeu lançamento em profundidade, deixou com Messi e Vozinha saiu do gol para defender. O camisa 1 de Cabo Verde era soberano na grande área até aquele momento. Ele esbanjava tanta confiança que, aos 18’, repetiu o drible seco pra cima de Lautaro Martínez em uma pressionada do atacante, mostrando que ali, dentro da área, quem mandava era o goleirão.
Após a pausa para hidratação, a Argentina voltou com Messi mais centralizado, como um legítimo camisa 9. E, aos 29’, esse posicionamento do craque gerou o primeiro gol. Do meio de campo, Lisandro Martínez fez um lançamento longo espetacular, digno dos mais lendários meias do futebol argentino, e mandou a bola para Messi. O camisa 10 dominou como só ele sabe fazer, ajeitou e bateu alto na saída de Vozinha, sem qualquer chance para o goleiro cabo-verdiano: 1 a 0.




Se os meias não conseguiam infiltrar, um zagueiro foi o responsável por destravar o bloqueio africano! Lindo gol! A partir dali, a Argentina ficou mais confortável e trocou passes sem pressa, explorando novas brechas para ampliar. Cabo Verde ainda não agredia e só foi se arriscar no ataque perto dos 40’, em chances com Jovane Cabral, que acertou bom passe para Moreira, mas este errou o chute na sequência. Um minuto depois, quando o mesmo Cabral avançou bem pela esquerda e ganhou de Molina, ele acabou tocando errado e teve que cometer falta de ataque.
Aos 44’, Enzo Fernández recebeu boa bola no meio e arriscou o chute, mas Vozinha defendeu. Após os acréscimos, o placar de 1 a 0 era justo pelo jogo eficiente da Argentina e a quase inoperância de Cabo Verde no ataque. Tudo levava a crer que a albiceleste iria se classificar sem sustos. Bem, isso até chegar a etapa complementar…
Segundo tempo – O ataque dos Tubarões
Cabo Verde retornou com outra postura para os 45 minutos finais. Sem medo, a equipe se lançou ao ataque e ganhou escanteio logo aos três minutos. Os africanos tentaram pressionar, ganharam outro escanteio, mas a bola não entrou. A Argentina ficou mais contida e surpresa com o ímpeto dos africanos. Aos 8’, Deroy Duarte aproveitou uma bola na entrada da área e chutou rasteiro, exigindo a defesa de Dibu Martínez. Na sequência, a Argentina conseguiu pressionar mais uma vez a zaga africana e, em um recuo de bola para Vozinha, o goleiro recebeu a companhia de Messi. Será que ele ia tentar o drible como havia tentado pra cima de Lautaro? De jeito nenhum! O goleirão se afastou e mandou a bola para lateral! Ele deve ter pensado: com lendas não se brinca!

Cabo Verde tinha mais a bola, trabalhava, tocava. E, aos 14’, Moreira conduziu na intermediária e tocou na direita para Ryan Mendes, que tocou rasteiro para dentro da área em direção a Deroy Duarte. O camisa 14 dominou e, mesmo com Lisandro Martínez à sua frente, chutou forte, rasteiro, para vencer Dibu Martínez: 1 a 1. Antes confortável e certa de que a partida estava ganha, a Argentina levava um baque. Cabo Verde era outro. Era ousado. Era um time que via a chance de brigar pelo resultado e (por que não?) pela vitória.
A albiceleste tentou a resposta rápida e, aos 17’, Lautaro recebeu perto da meia-lua, tocou com Messi e o craque saiu em disparada em direção à área. Na hora do chute, Vozinha se agigantou e evitou um tento certo do camisa 10. A partida era outra. Cabo Verde crescia tanto no ataque quanto na defesa. O técnico argentino Lionel Scaloni percebeu e mexeu na equipe logo após a chance perdida por Messi, colocando Julián Álvarez e Nico González nos lugares de Lautaro e Almada, respectivamente – ambos muito apagados. Tempo depois, Cabo Verde também mudou, com a entrada de Jamiro Monteiro no lugar de Laros Duarte.


A Argentina conseguiu ficar mais com a bola após os 22’ e repetiu a dominância do primeiro tempo, mas a finalização não saía. Por outro lado, a equipe ganhava faltas a seu favor, como uma aos 23’, em que Messi cobrou na barreira. Na sequência, outra falta muito perto da grande área a favor da Argentina. Messi foi de novo para a cobrança, bateu e Vozinha defendeu em um lance no qual o goleiro alegou não ter ouvido o apito – na verdade, ninguém ouviu! – e por pouco não foi pego desprevenido, pois o camisa 1 ainda arrumava a barreira no momento do chute.
Após a pausa para hidratação, a partida ficou ainda mais tensa e Cabo Verde fez mais duas modificações para dar mais fôlego ao sistema defensivo. Até que, aos 35’, a Argentina conseguiu uma brecha na área, Messi recebeu e abriu na direita com Molina, que cruzou rasteiro na área. Antes de a bola chegar a Enzo Fernández, livre, o zagueiro Pico Lopes tirou e praticamente fez um gol para Cabo Verde! Que alívio! E que susto, pois a bola passou perto da trave.

A albiceleste se mandou inteira para o ataque e tentou pelo meio, pelas laterais, mas nada de gol. Messi buscava a bola na intermediária, tentava cruzar na área, só que a zaga cabo-verdiana tirava todas. Porém, os africanos se arriscavam muito nas faltas perto da área. Em mais uma delas, aos 45’+3’, Messi bateu à meia altura, a bola desviou na barreira, mas Vozinha, muito bem colocado, defendeu de novo. Ele não permitia o segundo gol. A prorrogação era uma realidade. E ela veio, ao apito do árbitro Drew Fischer. A campeã do mundo pensou que seria fácil. Só que a vaga nas oitavas de final exigia mais. Muito mais.
Prorrogação – Choque de realidade e o drama dos campeões
Jogar 30 minutos extras, além dos acréscimos, em plena fase de 16 avos de final não estava nos planos da Argentina. Era mais suor e energia que poderiam fazer falta na sequência da Copa. Por isso, o time albiceleste precisava aproveitar ao máximo as oportunidades. Parar de errar. Vencer aquele adversário que se recusava a perder e seguia invicto após quatro jogos completos. E, logo aos 2’ do primeiro tempo extra, Messi cobrou escanteio, Mac Allister tocou de cabeça para trás, a bola sobrou para Lisandro Martínez, que dominou, ajeitou para a canhota e bateu alto, assim como Messi no primeiro gol, para vencer o goleiro Vozinha e marcar 2 a 1. Ufa, agora vai! Será?

Cabo Verde voltou a atacar após o gol. Era um adversário traiçoeiro. Ficava acuado, se defendendo. Mas, quando era agredido, revidava. E bem. Três minutos depois, uma cobrança de escanteio levou perigo quando Pico Lopes tentou de calcanhar uma bola sobrada na área. Após resistir um revide, Cabo Verde foi para o ataque mais duas vezes. Na primeira, um cruzamento da esquerda foi nas mãos de Dibu Martínez. Mas, no segunda, eis que aconteceu o extraordinário.
Sidny Lopes Cabral recebeu lindo passe na esquerda, livre. Mac Allister chegou para o combate, mas foi driblado. O camisa 13 de Cabo Verde ajeitou e olhou para a área. Ele poderia cruzar, mas a zaga argentina estava em linha e dificilmente perderia a bola. Por isso, ele decidiu chutar. Bateu forte, com efeito. A bola voou até o ângulo de Dibu Martínez, que saltou e não encontrou nada: 2 a 2.




Um golaço espetacular! Um dos mais bonitos da Copa do Mundo de 2026. E um gol que encheu de emoção os quase 600 mil habitantes do arquipélago africano. Na comemoração, Sidny Cabral correu em direção aos seus familiares, em puro êxtase, sem acreditar no que havia acontecido. Nos acréscimos, Messi ainda teve a chance de colocar a Argentina de novo na frente, mas seu chute rasteiro foi defendido por Vozinha.
O segundo tempo começou e a Argentina continuou seu roteiro ofensivo, com Cabo Verde na defensiva. Os africanos queriam, àquela altura, levar o jogo para os pênaltis. Ou, quem sabe, engatilhar um contra-ataque e tentar a virada histórica. Mas histórico já era o que eles estavam fazendo: colocando a campeã do mundo nas cordas. Causando pânico. Tensão. Angústia. Aos 4’, Nico González fez fila na marcação e acabou cortado na cara de Vozinha por Diney. Escanteio. Messi foi para a cobrança. Lá na área, os zagueiros e praticamente o time inteiro da albiceleste. O camisa 10 cobrou, Romero cabeceou, a bola ainda bateu na mão de Diney e entrou: 3 a 2.
Outro alívio para os sul-americanos. E outra sequência ofensiva de Cabo Verde. O torcedor argentino não conseguia cantarolar como sempre fazia após os gols de sua seleção. Não tinha forças. Ficava ali, compenetrado no campo, fechando os olhos a cada subida ao ataque daqueles azuis destemidos e que pareciam experientes de Copa do Mundo. Aos 8’, Monteiro fez um belo lançamento para Moreira, mas a bola foi muito forte e o camisa 22 não alcançou. Se ele dominasse, era o mesmo roteiro do primeiro gol e chance clara para o empate!
Na sequência, Varela ganhou na corrida de Montiel, foi derrubado e ganhou falta pela esquerda, muito perto da área. Na bola, Sidny Lopes Cabral. Os torcedores argentinos gelaram. Viam o gol do camisa 13 ainda fresco na memória. Sabiam que ele pegava muito bem na bola. Ele não cruzou. Chutou direto. Mas, dessa vez, Dibu Martínez estava atento. Se posicionou no meio do gol e fez uma defesaça para evitar o empate – o camisa 9 cabo-verdiano, Benchimol, ainda apareceu por ali em busca do rebote. Aos 13’, Cabo Verde construiu outra jogada de perigo pela lateral, a bola foi para a área e Benchimol apareceu livre para concluir, no entanto, Dibu Martínez foi bem no lance e conseguiu mandar a bola para escanteio!


Só dava Cabo Verde. A Argentina era a equipe na retranca. Papéis invertidos em um roteiro dramático. Nos acréscimos, os africanos continuaram ali, rodando o barco albiceleste, tentando a pancada fatal para virá-lo. Até quando tentou um contra-ataque, aos 15’+1’ do segundo tempo, a Argentina não conseguiu finalizar, pois Vozinha, como um líbero, interveio e manteve a bola sob controle dos africanos. Porém, faltava mais eficiência na hora da finalização. A última dela veio no penúltimo minuto, com Varela, que chutou para fora ao invés de tocar na esquerda.
Quando o árbitro encerrou a partida, os argentinos celebraram como um título. E a torcida, enfim, pôde vibrar e extravasar. A saga dos campeões do mundo em busca do tetra poderia seguir. Mas a fábula de Cabo Verde ficou para a história. Nunca uma equipe de um país tão pequeno e estreante fez tanto em uma Copa. Nunca uma equipe desconhecida deu tanta canseira em três seleções campeãs mundiais. E nunca a Argentina sofreu tanto em uma etapa eliminatória para um azarão como naquela noite de Miami. Foi um jogo de fases, contrastes, belos gols e muito futebol. Sem pancadaria, sem polêmicas. Tudo o que se espera de um duelo de Copa do Mundo. Simplesmente épico. E eterno.
Estatísticas do jogo
| ARGENTINA | CABO VERDE | |
| Posse de bola | 59,2% | 34,1% |
| Chutes a gol | 22 | 16 |
| Chutes no gol | 12 | 5 |
| Passes | 862 | 491 |
| Acerto de passes % | 93% | 87% |
Pós-jogo: o que aconteceu depois?
Argentina: apesar da classificação, a equipe de Lionel Scaloni teve muita coisa pra refletir após o jogo. Ficou claro que o time precisava melhorar, em especial na defesa, se quisesse mesmo ser campeã. Faltou fôlego na reta final da partida e mais poder de definição quando o jogo ainda estava 1 a 0. Por outro lado, o capitão Messi fez questão de destacar a qualidade do adversário.
“Foi um jogo muito duro, essa equipe dificultou o jogo contra a Espanha, contra o Uruguai. A gente demorou para encontrar nosso jogo, achamos que seria tudo tranquilo, mas foi tudo o contrário. Então nós perdemos a bola e acabamos sendo colocados para trás, não conseguimos pressionar bem. Eles nos machucaram com as suas armas”.


O craque ainda ressaltou que na fase eliminatória a Copa muda de figura. “Nós sabíamos que seria um jogo difícil, isso é mata-mata, ninguém te dá nada de graça. Nós sempre prestigiamos as seleções com nome, mas a gente sabia que seria um jogo bastante complicado. Esse Mundial está mostrando que as coisas estão muito iguais, muito complicadas e que as partidas vão ser dificílimas”. Nas oitavas, a Argentina teve pela frente o Egito e, em um novo roteiro dramático, conseguiu a vitória de virada por 3 a 2 e a vaga nas quartas de final, em um outro jogo eterno que em breve estará por aqui.
Cabo Verde: segurar a Argentina e fazer ela sofrer como fez Cabo Verde causou enorme comoção na mídia de todo mundo. O país ganhou o reconhecimento e sua história entrou direto para os grandes contos da Copa do Mundo.
“Obviamente, estamos um pouco tristes, acho que fizemos o suficiente para ganhar o jogo. Infelizmente, futebol é isso. A Argentina conseguiu marcar o terceiro gol num lance de bola parada. Mas estamos muito orgulhosos com nossa trajetória até aqui. Jogamos com o atual campeão do mundo, de igual para igual, e tivemos oportunidade de ganhar o jogo, temos que estar satisfeitos e orgulhosos. Obviamente estamos tristes, não queríamos ficar por aqui, mas estou muito grato por tudo…”, comentou o goleiro Vozinha, no pós-jogo, à CazéTV.
O técnico Bubista também ressaltou o trabalho de seu time. “Orgulho da equipe. Eles são campeões do mundo, demos a volta no resultado, empatamos duas vezes. Levar para a prorrogação. Mais do que tudo, é ter orgulho dos jogadores. Nosso país fica dignificado deste Mundial. Mostramos nossa caráter e identidade”. Na volta para casa, os atletas foram recebidos com enorme festa, que coincidiu com as celebrações da independência do país.


Se mantiver o trabalho sério e o elenco, Cabo Verde tem tudo para seguir escrevendo uma grande história e deve figurar entre as melhores seleções africanas em breve. E, com a experiência de uma Copa praticamente invicta, os Tubarões Azuis querem aprontar em 2030 como aprontaram em 2026. Leia mais sobre Cabo Verde 2026 clicando aqui!

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Espero que essa façanha de Cabo Verde seja um incentivo extra para que as seleções africanas voltem a fazer grandes campanhas em mundiais e claro a exceção hoje é Marrocos já consolidado no cenário mundial.
Meu caro Guilherme, você vai ter muito trabalho nessa copa, são muitos os jogos eternos, RS. Aguardando o jogo contra o Egito, bem mais dramático q esse. Parabéns a Cabo Verde, muito bom mesmo e o goleirao q se destacou e foi alvo da zoeira dos Brasileiros, mas merece todo respeito.
Verdade, Cristiano! Muitos jogos já estão na história! O Argentina x Egito estará por aqui em breve, assim como Inglaterra 3×2 México, entre outros!