Por Guilherme Diniz
- Nome: Arena Fonte Nova – por conta de naming rights, o nome oficial do estádio atualmente é Casa de Apostas Arena Fonte Nova
- Localização: Salvador, BA, Brasil
- Inauguração: 28 de janeiro de 1951
- Reinauguração: 05 de abril de 2013
- Partida Inaugural: Botafogo SB-BA 1×0 Guarany-BA, 06 de setembro de 1913
- Partida da Reinauguração: Vitória 5×1 Bahia, 07 de abril de 2013
- Proprietário: Governo do Estado da Bahia
- Capacidade: 48.661 pessoas
- Recorde de público: 110.438 pessoas no jogo Bahia 2×1 Fluminense, 12 de fevereiro de 1989.
- Recorde de público após a reinauguração: 51.227 pessoas no jogo Bélgica 2×1 EUA, 1º de julho de 2014
Até o começo dos anos 1950, a cidade de Salvador não tinha um estádio à altura da paixão que seu povo sempre nutriu pelo futebol. Mas isso mudou quando foi erguido na Ladeira da Fonte das Pedras, em Nazaré, o Estádio Octávio Mangabeira, vizinho ao icônico Dique do Tororó que, “além da linda morena”, virou ponto de encontro para centenas de torcedores ao longo das décadas irem ao colossal estádio que abrigou eletrizantes clássicos Ba-Vis, jogos lendários do Bahia e do Vitória e também partidas da seleção brasileira. A Fonte Nova foi palco de paixões, glórias, tragédias e manifestações populares que ajudaram a moldar a cultura esportiva baiana.
Mas essa história vai além do futebol. Ela começa em um momento de transformação urbana e política da Bahia, quando Salvador buscava modernizar sua infraestrutura e reafirmar sua relevância nacional com um estádio que simbolizou o progresso e o orgulho regional. Com sua reconstrução nos anos 2010, o estádio deu lugar a uma arena, mas segue como o mais importante pólo futebolístico da Bahia. É hora de conhecer a história desse ícone soteropolitano.
Sumário
O sonho de um grande estádio para Salvador
Até meados da década de 1940, Salvador ainda não possuía um grande estádio, apesar de o futebol já ter se consolidado como uma das principais formas de entretenimento popular da capital, impulsionado especialmente por clubes como Bahia, Ypiranga, Galícia, Botafogo-BA e São Cristóvão – o Vitória só passou a dar mais importância ao futebol em 1953, quando profissionalizou seu departamento. A infraestrutura disponível era limitada e os principais palcos eram modestos, como o Campo da Graça, inaugurado em 1920, com capacidade para pouco mais de 7 mil pessoas e que foi durante décadas o principal centro do futebol baiano, além de ter sido palco do primeiro Ba-Vi da história, em 1932, vencido pelo tricolor por 3 a 0. Charmoso e historicamente relevante, o estádio tinha, porém, limitações evidentes de capacidade e estrutura.

A discussão sobre uma modernização urbana ganhava força naquele período. Salvador vivia um processo de expansão e buscava reafirmar sua importância política e econômica no Brasil. E, dentro dessa lógica, a construção de um estádio de grande porte passou a ser vista não apenas como investimento esportivo, mas como símbolo de progresso. E foi nesse contexto que surgiu a figura central dessa história: Octávio Mangabeira, governador da Bahia entre 1947 e 1951. Seu governo defendia modernização administrativa, melhorias urbanas e grandes obras públicas. Entre essas iniciativas, a construção de um grande estádio tornou-se prioridade. Para ele, Salvador precisava de um estádio que colocasse a Bahia no mapa esportivo nacional.
Naquele momento, outras capitais brasileiras começavam a investir em grandes praças esportivas, afinal, o país vivia o entusiasmo do futebol em ascensão e, após a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 1950, a importância simbólica dos estádios aumentou ainda mais, em especial com a construção do colossal Maracanã, no Rio de Janeiro, que seria o maior estádio do mundo na época.

Mangabeira via a oportunidade de deixar um legado permanente naquele seu mandato e escolheu um terreno muito estratégico: uma área próxima ao Dique do Tororó, região central da cidade, relativamente acessível e cercada por forte simbolismo urbano. Desde a época colonial, a população de Salvador tinha como costume se abastecer nas águas do dique. E até uma tradicional quadrinha, popular até os dias de hoje, foi criada em alusão ao local:
Eu fui ao Tororó
Beber água e não achei
Encontrei linda morena
Que no Tororó deixei…
O local ficava nas imediações da histórica Ladeira das Fontes das Pedras, o que ajudaria, anos depois, a popularizar o apelido Fonte Nova, que se tornaria eterno.
O nascimento do projeto e a inauguração em 1951
Para transformar o sonho em realidade, o governo baiano selou uma parceria com um dos mais importantes arquitetos da história do estado: Diógenes Rebouças. Figura fundamental da arquitetura moderna da Bahia, Rebouças participou de diversas construções emblemáticas como o Hotel da Bahia e o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, além de contribuir no paisagismo urbano de Salvador.
A estrutura original desenhada por Rebouças previa um estádio de grande porte, com arquibancadas em formato elíptico, aproveitando a topografia do terreno e criando forte integração visual com o entorno. Um dos pontos de destaque da obra seria a abertura frontal para o Dique do Tororó, um detalhe marcante que daria ao estádio um emblema único e original perante outros grandes estádios. Tal abertura significaria menos espaços para o público, mas ainda sim o estádio teria capacidade para 30 mil pessoas em seu início, apenas com um lance de arquibancadas. O projeto previa um novo lance de arquibancadas superiores, que seriam construídas anos depois.


Para uma cidade que até então convivia com estádios modestos, a proposta era quase revolucionária e as obras começaram em 1947 sob ritmo acelerado, impulsionada pela urgência política do governo Mangabeira em entregar o estádio ainda durante seu mandato. Com isso, em 28 de janeiro de 1951, Salvador ganhou oficialmente o Estádio Octávio Mangabeira, nome escolhido em homenagem ao governador. Por causa da região das antigas fontes e da Ladeira Fonte das Pedras, o estádio passou a ser chamado simplesmente de Fonte Nova, nome incorporado instantaneamente ao cotidiano soteropolitano.
A inauguração foi um verdadeiro acontecimento cívico e a nova praça esportiva impressionava pelo porte. Para a época, era um dos maiores estádios do Brasil e um marco absoluto para o Nordeste. No entorno da Fonte Nova, teriam destaque também um ginásio poliesportivo (Balbininho) e uma vila olímpica com piscinas e pista de atletismo. O jogo inaugural reuniu o Botafogo de Salvador (clube até então tradicional do futebol baiano) e o Guarany-BA, que terminou com a vitória de 1 a 0 para o Botafogo, com o primeiro gol do estádio anotado por Antônio. Mas os verdadeiros protagonistas seriam Bahia e Vitória, gigantes que iriam transformar para sempre a Fonte Nova.
Os primeiros anos e a consolidação do templo baiano
A Fonte Nova rapidamente assumiu protagonismo absoluto no futebol do estado. Se antes o Campo da Graça representava a tradição, agora Salvador possuía um verdadeiro colosso. Os grandes jogos migraram para o novo estádio, clássicos locais passaram a atrair multidões e o Bahia, já em franca ascensão, encontrou ali sua principal casa. O Vitória, após profissionalizar seu futebol em 1953, também começou a utilizar regularmente o estádio, tornando a Fonte Nova território compartilhado da rivalidade mais importante do estado – a casa rubro-negra, o Barradão, só seria construída no final dos anos 1980.

Foi na Fonte Nova que o Bahia emendou vários títulos estaduais no final da década de 1950 e, em 1959, construiu a campanha histórica que lhe deu o título da Taça Brasil, conquistado sobre o Santos de Pelé após três jogos eletrizantes – o esquadrão tricolor entrou para a história como o primeiro clube do Nordeste a levantar um título nacional. Embora a finalíssima tenha ocorrido no Maracanã, a campanha transformou Salvador em centro das atenções e elevou ainda mais a importância da Fonte Nova como templo do futebol local. A atmosfera tornou-se lendária e era rotina ver as arquibancadas lotadas, bandeiras, batuques, tensão nos clássicos e a vibração característica da torcida baiana.


Mas o Vitória também teve motivos para comemorar naqueles anos 1950: em 1956, no aniversário de 25 anos de fundação do rival Bahia, o rubro-negro venceu o tricolor por 4 a 3 na final do Estadual (válido pela edição de 1955) e foi o primeiro campeão do Ba-Vi dentro da Fonte Nova. Anos depois, em 1969, a seleção brasileira fez seu debute na Fonte Nova em amistoso contra o Bahia, então multicampeão estadual, e venceu por 4 a 0 diante de quase 40 mil pessoas – isso mesmo com o estádio comportando “apenas” 30 mil! Os gols do Brasil foram de Pelé, Edu, Jairzinho e Tostão. Um ano depois, a seleção foi campeã mundial na Copa de 1970. Nos anos seguintes, o estádio receberia incontáveis decisões estaduais, jogos interestaduais e partidas memoráveis. A cada temporada, sua mística aumentava. Só que havia um problema: a Fonte Nova estava pequena demais para tanta gente…
A grande ampliação e o surgimento da “nova” Fonte Nova
A partir do fim da década de 1960 e ao longo da década de 1970, o futebol brasileiro entrou em uma era de explosão popular. Grandes públicos tornavam-se rotina, especialmente em clássicos, decisões estaduais e partidas envolvendo a Seleção Brasileira. E Salvador acompanhava esse movimento com intensidade. A paixão local simplesmente lotava a Fonte Nova que, na prática, já não comportava adequadamente a demanda crescente. Por isso, a proposta do governo era transformar o estádio em um gigante ainda maior, capaz de rivalizar com os grandes estádios brasileiros como Maracanã, Morumbi, Mineirão, Beira-Rio e também com os vizinhos que nasciam no Nordeste ou ganhavam expansões como o Castelão, em Fortaleza, o Machadão, em Natal, e o Arruda, no Recife, todos bem maiores do que a Fonte Nova na época.

Por isso, era mais do que necessário que a Fonte Nova entrasse em reforma para entrar de vez na “era das massas”. As primeiras intervenções começaram no fim da década de 1960, com destaque para o início da construção de um anel superior que mudaria completamente a silhueta da Fonte Nova e criaria a imagem clássica eternizada na memória dos torcedores. Essa expansão foi concluída em 1971 e, a partir dali, a nova configuração elevou drasticamente a capacidade de público — as estimativas variaram ao longo das décadas, mas a Fonte Nova passou a comportar multidões superiores a 100 mil pessoas em determinadas circunstâncias, algo comum na lógica dos estádios brasileiros da época, quando controle de ocupação e normas de segurança eram muito diferentes dos padrões atuais.
A transformação visual foi impactante. O anel superior criou a atmosfera de “caldeirão”, com o som reverberando de forma ensurdecedora e, em dias de clássico, a sensação de ebulição permanente. Se antes a Fonte Nova já era importante, agora se tornava um verdadeiro colosso popular. O único lado ruim dessa expansão aconteceu justamente no dia da reinauguração do estádio, em 04 de março de 1971, dia de rodada dupla na Fonte Nova, com o Bahia enfrentando o Flamengo no primeiro jogo e, horas depois, o Vitória enfrentando o Grêmio.

Mais de 112 mil pessoas estavam presentes, até mesmo nas marquises. Mas o público (pagante) divulgado foi de 94.972 pessoas. Na primeira partida, tudo ocorreu bem e a festa foi enorme com a vitória do Bahia por 1 a 0 sobre o Flamengo. Porém, às 19h, durante o segundo tempo de Vitória e Grêmio (empatado em 0 a 0), um boato de que o estádio estava desabando gerou pânico nos torcedores e várias pessoas começaram a pular do anel superior para o inferior, criando um efeito de cachoeira humana. Os jogadores deixaram o gramado e a partida teve que ser encerrada. O resultado foi trágico: duas mortes e mais de dois mil feridos. Informações da época garantem que os óbitos foram maiores, mas houve uma ‘operação abafa’ para mitigar os números e não gerar desconforto para o ditador Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil na época e presente no estádio no dia.


Até hoje ninguém sabe como o boato começou, mas dizem que foi após uma briga entre dois torcedores, quando um deles atirou uma garrafa no chão e, pelo barulho, alguém pensou ter sido uma luminária que havia caído. Além disso, semanas antes, muitos diziam que as obras de ampliação ainda precisavam de ajustes e que a reinauguração era cedo demais. Enfim, boatos e desinformação causaram a tragédia (que seria pequena diante da que iria acontecer décadas depois).
Recordes e multidões históricas
Após a ampliação, a Fonte Nova consolidou-se de vez como o coração esportivo da Bahia. Era ali que o futebol baiano se encontrava consigo mesmo e o clássico Bahia x Vitória transformava o estádio em território de tensão máxima. Não importava a fase dos clubes: clássico na Fonte Nova era sinônimo de lotação, pressão e atmosfera elétrica. Como ocorreu com diversos grandes estádios brasileiros do século XX, a Fonte Nova viveu a era dos públicos absolutamente gigantescos. Embora os números oficiais variem conforme a fonte histórica, alguns jogos ultrapassaram — ou chegaram muito perto de — 100 mil espectadores. E o auge aconteceu nos anos 1980 e 1990, que teve momentos distintos de Bahia e Vitória no cenário nacional.


Primeiro, com o Bahia, que colecionou títulos estaduais e viveu seu auge em 1988 e 1989, quando levantou o título do Campeonato Brasileiro de 1988 ao vencer o Internacional na final por 2 a 1, em uma Fonte Nova tomada por mais de 90 mil torcedores. Mas, na semifinal, a torcida tricolor conseguiu quebrar o recorde de público do estádio quando 110.438 pagantes viram o Bahia de Bobô, Charles e companhia vencer o Fluminense por 2 a 1 e se classificar para a final. Foi um dia histórico para a Fonte Nova e para o torcedor do tricolor, que mostrou para todo país seu amor e devoção pelo Bahia de maneira inesquecível.




Anos depois, foi a vez do Vitória levar multidões à Fonte Nova durante suas conquistas estaduais e na campanha do vice-campeonato brasileiro de 1993. No primeiro jogo da final, contra o poderoso Palmeiras, mais de 77 mil pessoas (sem contar os não-pagantes) lotaram a Fonte Nova para empurrar o Leão, que não conseguiu resistir à força de Edmundo, Evair, Zinho, Roberto Carlos e companhia e perdeu por 1 a 0. Na volta, no Morumbi, o Verdão venceu por 2 a 0 e levantou a taça. Em 1994, um Ba-Vi levou 97.240 pessoas à Fonte Nova, no empate em 1 a 1 que deu o título ao Bahia, no recorde de público da história do clássico dentro da Fonte Nova.
Em 1997, o Vitória venceu o Bahia no primeiro jogo da final da Copa do Nordeste por 3 a 0 com mais de 54 mil pessoas na Fonte Nova e praticamente colocou a mão na taça – ela veio, mesmo com derrota por 2 a 1 na volta, no Barradão. Dois anos depois, no ano de seu centenário, o Vitória fez a festa na Fonte Nova mesmo com derrota por 1 a 0 para o Bahia, pois venceu a ida por 2 a 0 no Barradão.
2007: A maior tragédia
A partir das décadas de 1990 e 2000, a realidade da Fonte Nova começou a mudar após as novas regras de segurança da FIFA para os estádios e as transformações estruturais, econômicas e organizacionais no futebol brasileiro. Muitos estádios históricos começaram a mostrar sinais evidentes de envelhecimento – como o Maracanã, que viu um grave acidente acontecer em plena final do Campeonato Brasileiro de 1992 -, e o templo do futebol baiano entrou no radar. Parado no tempo e com a última reforma sendo exatamente em 1971 (!), o estádio tinha problemas de manutenção, desgaste estrutural, inadequação às exigências de segurança e limitações operacionais eram cada vez mais perceptíveis.

Por conta disso, claro, a Fonte Nova não recebia mais públicos superiores a 70 mil pessoas há algum tempo naqueles anos 2000. Grandioso, o estádio ainda comportava mais de 50 mil torcedores, no entanto, um número acima disso era motivo de preocupação por conta das fragilidades. E elas se tornaram devastadoramente evidentes no dia 25 de novembro de 2007. O Bahia enfrentava o Vila Nova (GO), pela Série C do Campeonato Brasileiro, em uma partida que poderia marcar o acesso do tricolor à segunda divisão. Jogando pelo empate, o time da casa cumpria com sua missão e a torcida celebrava sem hesitar, pulando e cantando como sempre fez ao longo das décadas. O problema é que o estádio estava muito cheio. Eram mais de 60 mil pessoas, um número “pequeno” anos atrás, mas enorme para o estado das arquibancadas da Fonte Nova na época.

Com o placar em 0 a 0 e o Bahia garantindo a vaga na Série B, aos 35 minutos do segundo tempo, uma tragédia aconteceu. Parte da estrutura de concreto da arquibancada superior cedeu e um enorme buraco se abriu. Por ele, 11 torcedores despencaram de uma altura de 15 metros para a área inferior do estádio. Desses, seis morreram na hora e um não resistiu e faleceu a caminho do Hospital Geral do Estado. Mais de 300 pessoas ficaram feridas em decorrência do acidente e os quatro que sobreviveram à queda tiveram ferimentos graves, alguns com sequelas por toda vida.
“Foram 15 metros de altura, o que aconteceu comigo foi um milagre, fiquei preso nas lanças de cabeça para baixo. Perdi dois amigos que foram pro estádio comigo e nunca mais voltaram, (Joselito Júnior e Jadson Araújo). Eu fiquei com um problema na perna, uma perda de tecido, e uns problemas na coluna”, relembrou Jader Landerson, torcedor do Bahia, em entrevista ao UOL Esporte, 25 de novembro de 2017.

A cena foi devastadora e, mesmo com o fim do jogo e a festa da torcida – com invasão ao gramado dos centenas de milhares que ficaram do lado de fora do estádio -, as imagens do colapso correram o país e expuseram de maneira brutal o estado crítico de conservação do estádio, ofuscando um dia de festa que virou dia de luto. A Fonte Nova, que durante décadas foi um símbolo de paixão popular, agora tornava-se palco de uma das maiores tragédias da história dos estádios brasileiros. O mais sinistro é que a tragédia aconteceu no mesmo lado onde, em 1971, a confusão do boato de desabamento teve início lá na reinauguração do estádio. Parecia uma profecia se tornando realidade…

Após a tragédia, ficou impossível sustentar a continuidade operacional do estádio. As investigações apontaram problemas estruturais graves e falhas ligadas à deterioração da construção. Outro fato chocante é que o diretor-geral da Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb) na época era Raimundo Nonato, simplesmente Bobô, ídolo histórico do Bahia e líder do esquadrão campeão brasileiro de 1988. Ele, assim como o engenheiro Nilo dos Santos Júnior, foram indiciados por lesão corporal de natureza culposa e homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e por improbidade administrativa. O Ministério Público Estadual descobriu que a dupla foi negligente ao destinar R$ 1,6 milhão para realização de obras de fachada, quando tinham conhecimento de que a necessidade real era utilizar o dinheiro para obras estruturais. Dois anos depois, ambos foram inocentados e, no fim, ninguém foi culpado pela tragédia (como quase sempre vemos no Brasil, infelizmente…).
Copa de 2014 e a Arena Fonte Nova
Por conta do acidente, a Fonte Nova acabou interditada por tempo indeterminado e, com a escolha do Brasil como sede da Copa de 2014, começou o debate sobre a reforma ou reconstrução completa do estádio para fazer de Salvador uma das cidades-sede. Por conta da precariedade da estrutura, o governo decidiu pôr fim à Fonte Nova como todos conheciam e construir um estádio do zero. Com isso, em agosto de 2010, o estádio foi implodido e começou a dar lugar a uma arena multiuso que iria obedecer a todos os critérios de segurança da FIFA e inspirada no estilo de gestão da Johan Cruijff Arena, em Amsterdã (HOL).


A Arena teria três lances de arquibancadas e iria preservar a vista para o Dique do Tororó, além das cores dos assentos seguirem o padrão da antiga Fonte Nova, em tons de verde que simbolizam as águas esverdeadas do Dique do Tororó. O projeto arquitetônico apostou em linhas modernas, cobertura parcial e forte integração visual com o entorno urbano. A capacidade seria bem menor do que a do antigo colosso – pouco mais de 48 mil pessoas -, refletindo que o foco naquele momento seria conforto e segurança ao invés de multidões.
Após três anos de obras, a Arena Fonte Nova foi inaugurada em 07 de abril de 2013, com um amistoso festivo entre Bahia e Vitória acompanhado por quase 38 mil pessoas e carregado de simbolismo. E o rubro-negro foi o primeiro a fazer a festa no novo estádio: goleou o rival por 5 a 1, com o primeiro gol anotado por Renato Cajá, do Vitória. Se o último Ba-Vi da antiga Fonte Nova terminou com vitória rubro-negra por 6 a 5, o primeiro do novo estádio também teve vitória do Vitória!




Com cadeiras numeradas, áreas VIP, muita tecnologia e totalmente monitorada, a Arena Fonte Nova ofereceu ao povo baiano o que de melhor existia na área de estádios. Em 2013, o estádio foi um dos palcos da Copa das Confederações da FIFA e abrigou três jogos:
- Nigéria 1×2 Uruguai – Fase de Grupos
- Itália 2×4 Brasil – Fase de Grupos
- Uruguai 2×2 Itália – Itália 3×2 Uruguai nos pênaltis – Disputa pelo 3º lugar

Na Copa do Mundo, a Fonte Nova sediou seis partidas, entre elas o lendário Holanda 5×1 Espanha, na fase de grupos. Para comportar mais de 50 mil espectadores, o estádio ganhou arquibancadas provisórias no setor com vista para o Dique do Tororó. Logo após o Mundial, tais arquibancadas foram removidas e a capacidade ficou estipulada em pouco mais de 48 mil pessoas. Os jogos na Copa de 2014 foram:
- Espanha 1×5 Holanda – Fase de grupos
- Alemanha 4×0 Portugal – Fase de grupos
- Suíça 2×5 França – Fase de grupos
- Bósnia e Herzegovina 3×1 Irã – Fase de grupos
- Bélgica 2×1 EUA – Oitavas de final
- Holanda 0x0 Costa Rica – Holanda 4×3 Costa Rica nos pênaltis – Quartas de final
Consolidação
A nova arena inseriu Salvador no circuito dos grandes eventos internacionais e trouxe infraestrutura inédita para a cidade e de acordo com os padrões globais. O estádio virou um dos principais do país e marcou presença, também nos Jogos Olímpicos de 2016, sediando 10 partidas de futebol durante a competição. Em 2019, foi uma das sedes da Copa América e abrigou ainda várias finais do Campeonato Baiano e das Copas do Nordeste de 2015, 2018 e 2025.


A história da Fonte Nova é, em essência, a história da própria transformação do futebol brasileiro. Ela nasceu na era dos estádios gigantes voltados para as multidões. Virou símbolo do maior clássico do estado. E, quando esquecida pelo poder público, resistiu o quanto pôde e só parou depois da tragédia de 2007. Sob seus escombros, uma nova arena nasceu. Bem diferente, é verdade, mas ainda sim pronta para décadas de paixão, Ba-Vis, espetáculos e muito futebol. A Fonte Nova é parte integrante do cotidiano de Salvador. E patrimônio eterno da Bahia.
Curiosidades:
- A seleção brasileira já disputou 16 jogos na história da Fonte Nova, contando a antiga e a nova, e jamais perdeu. Foram 9 vitórias e 7 empates;
- O recorde de público em uma partida de clubes da Arena Fonte Nova é 48.464 torcedores no Bahia 1×1 Guarani, válido pelo Campeonato Brasileiro da Série B de 2022;
- Com a construção da nova arena, a Fonte Nova perdeu o ginásio poliesportivo e a piscina que antes eram vizinhos ao estádio;
- Multiuso, a Arena Fonte Nova já foi palco de vários shows marcantes como Ivete Sangalo, David Guetta, Elton John, Roberto Carlos, Paul McCartney, Sandy & Júnior, entre outros.
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