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Beira-Rio – Gigante Colorado

 

Por Guilherme Diniz

 

Nome: Estádio José Pinheiro Borda

Localização: Porto Alegre (RS), Brasil

Inauguração: 06 de abril de 1969

Partida Inaugural: Internacional 2×1 Benfica-POR, 06 de abril de 1969

Primeiro gol: Claudiomiro, do Internacional, no jogo Internacional 2×1 Benfica-POR

Proprietário: Sport Club Internacional

Capacidade: 50.842 pessoas

Recorde de público: 106.554 pessoas no jogo Seleção do Rio Grande do Sul 3×3 Seleção Brasileira, no dia 17 de junho de 1972.

 

No final dos anos 1950, se alguém dissesse que às margens do Rio Guaíba seria construído um estádio de futebol com capacidade para mais de 100 mil pessoas, certamente seria chamado de louco. Como fazer tal obra em um local tão hostil? Só se fosse para partidas de polo aquático! Pois tal utopia se consumou em realidade ao longo de 10 anos com perseverança, um notável trabalho de engenharia e apoio maciço dos apaixonados pelo Internacional, que ajudaram de todas as maneiras, jeitos e formas. Não demorou muito para a recompensa vir em forma de títulos e apresentações lendárias de esquadrões imortais do Inter, que venceram títulos estaduais, nacionais e, na virada do milênio, continentais. Em 2014, o estádio passou por uma remodelação e virou um dos palcos da Copa do Mundo. E provou ser Gigante para Sempre. O Estádio Beira-Rio é um dos maiores ícones do esporte brasileiro e um dos poucos no mundo que já comportou mais de 100 mil torcedores. É hora de conhecer a história dessa lenda.

 

E o Eucaliptos ficou pequeno

O estádio dos Eucaliptos: casa de grandes momentos do Inter. Foto: Acervo / Site oficial do Inter.

 

Entre 1912 e 1928, o Inter mandava seus jogos no pequeno estádio Chácara dos Eucaliptos, no bairro Menino de Deus, em Porto Alegre. O Colorado alugava o local do Asilo Providência até o proprietário decidir não alugar mais, o que motivou o clube a começar a construção de seu próprio estádio, que seria inaugurado em 1931 no mesmo bairro e batizado como Estádio Ildo Meneghetti, popularmente conhecido pelo nome de Estádio dos Eucaliptos – por conta das árvores homônimas que cercavam a casa colorada e cujas mudas foram trazidas pelo ex-presidente do Inter Oscar Borba. Com capacidade para pouco mais de 20 mil pessoas, a inauguração foi da melhor maneira possível: vitória por 3 a 0 sobre o rival Grêmio e com três gols de Javel – nem o lendário goleiro Lara foi capaz de evitar a derrota tricolor.

O goleiro Milton vibra em uma vitória do Inter sobre o Grêmio, em 1954. Foto: Acervo / Site oficial do Inter.

 

O estádio se consolidou nos anos seguintes como o mais famoso da cidade e tal fama ganhou o Brasil quando o timaço do Inter conhecido como Rolo Compressor levou milhares e milhares de pessoas ao local ao faturar oito dos nove torneios estaduais que disputou entre 1940 e 1948. Vários clubes de outros estados começaram a sondar os jogadores alvirrubros, mas os craques do Colorado permaneceram em Porto Alegre. A fama do time e de seu estádio ajudaram a fazer do Eucaliptos uma das sedes da Copa do Mundo de 1950, no Brasil, quando abrigou os jogos Iugoslávia 4×1 México e México 1×2 Suíça. A partir dali, todo jogo no Eucaliptos era sinônimo de casa cheia e a diretoria do Inter percebeu que muito em breve o estádio deveria ser ampliado – ainda mais quando o rival Grêmio inaugurou seu imponente estádio Olímpico, mais que o dobro do tamanho do Eucaliptos. 

Foi então que, em meados de 1956, o vereador Ephraim Pinheiro Cabral (ex-presidente do clube naquela mesma década), apresentou um projeto para doação de um grande terreno de 7,5 hectares localizado próximo ao Rio Guaíba. Bem, na verdade, boa parte desse terreno ficava dentro do rio! Isso mesmo! Se tudo corresse bem, o Inter teria que construir seu estádio dentro d’água! Será que aquilo ia dar certo?

 

A engenharia perfeita

Um estádio aqui?? Desafio aceito! Foto: Acervo / Site oficial do Inter.

 

O projeto de doação do terreno correu sem complicações na câmara pelo fato de a expansão do Estádio dos Eucaliptos ser prejudicial ao bairro e às várias casas no entorno, algo que gerou muita resistência dos moradores. Após a aprovação, o clube começou a traçar o audacioso plano de drenagem e aterro da área onde seria construído o estádio. Era algo simplesmente surreal pensar em um estádio naquela região. Para convencer a comissão, Ildo Meneghetti, então governador do Rio Grande do Sul e patrono do Inter, usou uma “artimanha” para provar que o negócio seria benéfico para a cidade. Existia um projeto de aterro da orla do Guaíba e, após a canalização do Dilúvio com a abertura da Avenida Ipiranga, seria uma das grandes obras da virada dos anos 1950. Meneghetti explicou na época:

 

“Existe uma planta baixa de um enorme aterro na Praia de Belas, do Arroio Dilúvio à Rua José de Alencar. Vamos criar uma grande área verde, um parque. Eu sugeri então que se prolongasse um pedaço de terra e se criasse um local de esporte. Só não falei que isso pode ser nosso. Se contarem na rua ou se a notícia sair no jornal, foi por um de vocês quatro. É segredo de Estado”. – Trecho extraído de reportagem do Zero Hora, 05 de abril de 2014.

 

Depois do apoio de Meneghetti e da doação, as obras, enfim, puderam começar. A “principal responsável” por fazer o estádio nascer foi a Draga “Ster”, que teria a missão de retirar a água da área inundada e fazer o aterro de onde ficaria a futura casa do Inter. Outras dragas chegaram tempo depois e despejaram toneladas de areia na orla para dar forma a uma estreita extensão de faixa de terra. Para ajudar no financiamento da obra, a diretoria começou a vender cadeiras cativas aos sócios. Tal fato acabou virando munição para os gremistas apelidarem a iniciativa de “boia cativa”, na descrença da construção. Só que tudo aquilo comoveu os torcedores colorados, que passaram a ajudar não só financeiramente, mas também na própria obra. Quando a diretoria iniciou a “Campanha do Tijolo”, com a venda de carnês, a maioria dos adeptos colorados não entendeu muito bem e começou a levar tijolos e diversos materiais de construção para ajudar. Alguns até ajudavam trabalhando de graça após o expediente.

 

A primeira estaca foi cravada em 1959 e o estádio levou 10 anos para ficar pronto. O presidente da Comissão de Obras do estádio, o português José Pinheiro Borda, foi um dos grandes entusiastas do estádio e usava uma frase como mantra:

“Arregaçarei as mangas, e só irei abaixá-las quando o Estádio estiver pronto”.

 

José Pinheiro Borda contempla a maquete do Beira-Rio. Foto: Acervo / Site oficial do Inter.

 

Uma imagem impressionante do estádio com água.

 

Infelizmente, Borda acabou falecendo em 1965, antes de ver o Beira-Rio pronto. Porém, o português ganhou a homenagem eterna do clube, que iria batizar oficialmente o estádio como Estádio José Pinheiro Borda. Durante esse período, o Inter conviveu com uma incômoda seca de títulos e a torcida se acostumou a torcer pelos “pedreiros” ao invés de torcer pelos jogadores tamanha expectativa que girava em torno do estádio. Foram utilizados 130 mil sacos de cimento e 1,2 mil toneladas de ferro na construção do Beira-Rio, que teria uma marquise cobrindo todo o estádio no projeto inicial, mas acabou ficando apenas na parte das sociais. Os números do Gigante eram superlativos:

  • 33 camarotes;
  • 37 banheiros revestidos com azulejos brancos e piso de cerâmica;
  • Mais de 20 bares, num total de 550 metros de balcão, além do bar da imprensa e o do bolão;
  • 28 cabines de imprensa, 20 para as rádios, quatro para as emissoras de TV e quatro para a imprensa escrita;
  • Placar eletrônico no setor sul, o primeiro em um estádio do Brasil na época;
  • Capacidade para 109.392 pessoas, uma das maiores do país e das Américas

 

Naquele final de década, o Beira-Rio já tinha sua forma imponente praticamente pronta, com lembranças do Estádio Olímpico de Tóquio e do Estádio Azteca, no México. Em 1968, começaram os primeiros testes com público, na decisão do Campeonato Gaúcho de futebol de praia, com 15 mil pessoas. Até que, em um domingo de páscoa, no dia 06 de abril de 1969, o Inter realizou seu sonho e inaugurou o Beira-Rio em um amistoso contra o Benfica-POR, que ainda contava com alguns ídolos do seu passado de glórias como Eusébio, José Torres, Cruz, José Augusto e Simões. O Colorado fez bonito e venceu por 2 a 1, com o primeiro gol anotado por Claudiomiro. Mais de 100 mil pessoas prestigiaram o evento, que teve música, corrida de karts e muita festa. Em 1973, o clube ainda inaugurou o ginásio poliesportivo Gigantinho, ao lado do Gigante do Beira-Rio.

 

Palco de esquadrões

O Inter octacampeão gaúcho.

 

Estrear sua nova casa foi um divisor de águas (literalmente!) para o Internacional. Nos anos 1970, o clube voltou a ser hegemônico no Rio Grande do Sul e emancipou sua força pelo Brasil com os títulos dos Campeonatos Brasileiros de 1975, 1976 e 1979 (este invicto). Todos os títulos foram conquistados em casa, com a torcida lotando as imponentes arquibancadas para ver os espetáculos de Manga, Figueroa, Vacaría, Valdomiro, Falcão, Batista, Mário Sérgio, Jair, Dadá, Flávio e tantos outros que vestiram o manto vermelho e branco. No primeiro caneco, em 1975, o Beira-Rio ainda mostrou seu lado místico ao iluminar Figueroa no gol que selou o título diante do forte Cruzeiro na decisão.

Figueroa e o “gol iluminado” Foto: Acervo / Site oficial do Inter.

 

Quem também marcou presença diversas vezes no estádio foi a seleção brasileira, que jogou pela primeira vez no Beira-Rio em 07 de abril de 1969, um dia após a inauguração oficial, e venceu o Peru por 2 a 1. Foi da seleção também o recorde de público na história do Gigante: 106.554 pessoas no empate de 3 a 3 da equipe canarinho contra a Seleção do Rio Grande do Sul, em 17 de junho de 1972. Jairzinho, PC Caju e Rivellino fizeram os gols do Brasil, enquanto Carbone (duas vezes) e Claudiomiro anotaram para os gaúchos. A seleção ainda faria vários jogos no estádio nos anos seguintes, com destaque para os 4 a 2 sobre a Argentina em 1999, com três gols de Rivaldo.

Rivaldo arrasou com a Argentina em 1999.

 

Embora já estivesse consolidado, o Beira-Rio passou por reformas naquela década de 1970 com participação inclusive do ídolo colorado Falcão, que ajudou nas obras de conclusão em 1979, um ano antes de ir para a Roma. Nos anos 1980 e 1990, o Inter voltou a disputar embates épicos em seu estádio, entre eles a primeira partida da final da Libertadores de 1980 – contra o Nacional-URU, que acabou campeão jogando em Montevidéu; o “Gre-Nal do século” de 1989, quando venceu o Grêmio por 2 a 1 na partida de volta da semifinal do Brasileirão do ano anterior e garantiu vaga na final; e a final da Copa do Brasil de 1992, quando o Colorado bateu o Fluminense por 1 a 0 (gol de Célio Silva) e faturou seu primeiro caneco da competição.

Falcão dando uma ajudinha nas obras do Beira-Rio, em 1979. Foto: Antônio Carlos Mafalda / Agência RBS.

 

Reformas, palco da América e da Copa

Nos anos 2000, o Inter começou a fazer uma remodelação no estádio com a desativação das arquibancadas do setor popular conhecido como coreia, um fosso sem assentos que ficava abaixo da arquibancada inferior, que obrigava os espectadores a ver a partida em pé, por ela ser no nível do campo – parecida de certa forma com a Geral do Maracanã. Isso fez com que o estádio passasse a comportar pouco mais de 55 mil torcedores. Em 2006, foi apresentado o projeto de cobertura do estádio e remodelação completa, que seria efetivada após a confirmação do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 e Porto Alegre como uma das cidades-sede.

Fernandão faz a festa: imortal do Inter.

 

No mesmo ano, o Inter começou a colecionar títulos continentais e fazer jus ao nome. Primeiro, veio a Copa Libertadores de 2006, em uma final eletrizante contra o São Paulo. No ano seguinte, o time faturou a Recopa Sul-Americana e, em 2008, a Copa Sul-Americana, em final angustiante contra o Estudiantes de Verón. Em 2010, a segunda Libertadores veio de novo no Beira-Rio, na vitória por 3 a 2 sobre o Chivas Guadalajara-MEX. E, em 2011, o bicampeonato da Recopa selou uma era copeira inesquecível do Colorado no cenário sul-americano.

O bi da América em 2010. Foto: Alexandre Lopes.

 

Já com foco na reforma do Beira-Rio, o Inter vendeu seu antigo estádio, o Eucaliptos, para ajudar no financiamento e iniciou as obras em 2012. A arquibancada inferior foi demolida e os morros de terra do antigo aterro foram escavados para aumentar o espaço de construção de áreas de circulação, salas de imprensa, vestiários e afins. A cobertura, grande chamariz do novo Beira-Rio, foi construída em fibra de vidro coberta de teflon, material de baixa manutenção e que se limpa apenas com a água da chuva, além de ter resistência de até 25 anos – para a instalação, foram contratados alpinistas ucranianos (!). 

As obras da remodelação do Beira-Rio duraram 15 meses e a reinauguração aconteceu em 06 de abril de 2014, em vitória por 2 a 1 sobre o Peñarol-URU, com dois gols do ídolo D’Alessandro. Com capacidade para pouco mais de 50 mil pessoas, o estádio se transformou, sem dúvida, em um dos mais bonitos do Brasil tanto internamente quanto externamente, com sua cobertura sensacional e o Guaíba ao lado. Entre as melhorias, destaque para:

  • 44 lojas na área externa do estádio
  • 66 bares / lanchonetes
  • 70 suítes e 60 reservados
  • 55 camarotes superiores
  • 10 cabines de imprensa para rádio, 4 para TV e 60 postos para imprensa escrita

 

Na Copa do Mundo, o Beira-Rio sediou cinco jogos e teve o privilégio de ver as futuras finalistas (Alemanha e Argentina) e a terceira colocada (Holanda):

  • França 3×0 Honduras, Grupo E
  • Holanda 3×2 Austrália, Grupo B
  • Coreia do Sul 2×4 Argélia, Grupo H
  • Nigéria 2×3 Argentina, Grupo F
  • Alemanha 2×1 Argélia, oitavas de final
O Beira-Rio em um jogo da Copa do Mundo de 2014.

 

A média de público foi de 42 mil pessoas e o estádio provou mesmo ser palco de jogaços com muitos gols e grandes atuações de craques como Benzema, Robben, Van Persie, Sneijder, Messi, Özil, Thomas Müller, Schweinsteiger, Lahm e companhia.

 

Gigante para Sempre

Com mais de 50 anos de história, o Beira-Rio é um ícone do esporte nacional, casa de jogos memoráveis, esquadrões lendários e também muitos shows e espetáculos como o Canta Brasil de 1982; o Grande Encontro de 1998, com Roberto Carlos e Luciano Pavarotti; Paul McCartney, em 2010; Rolling Stones, em 2016; Aerosmith, em 2016; Guns N’Roses, em 2016; Elton John, em 2017; Bon Jovi, em 2017; The Who e Def Leppard, em 2017; Phil Collins, em 2018; Andrea Bocelli, em 2018, entre outros. Moderno, mas sem deixar o clássico para trás, o estádio provou ao longo das décadas que resiste a tudo e está sempre com seus astros cintilantes no céu, trazendo à torcida e aos amantes do futebol alegres emoções de um Colorado de Ases celeiro.

Curiosidades:

  • Em abril de 2011, o Beira-Rio entrou para o Guinness Book por ser palco da maior sessão de cinema da história: no dia 07 de dezembro de 2010, 27.022 pessoas viram o filme Absoluto – Internacional bicampeão da América;
  • Excluindo o jogo da seleção brasileira contra a seleção gaúcha, o maior público do Beira-Rio antes da reforma foi no empate em 1 a 1 entre Internacional e Grêmio, em 30 de maio de 1971, com 85.072 pessoas;
  • A final do Brasileiro de 1976 entre Inter e Corinthians detém o terceiro lugar da lista de maiores públicos com 84 mil pessoas;
  • O maior público do “novo” Beira-Rio não traz boas lembranças ao torcedor colorado: foi na decisão da Copa do Brasil de 2019, quando o Athletico Paranaense bateu o alvirrubro por 2 a 1 e ficou com o título diante de 50.355 pessoas;
  • Desde 1969, o Internacional já conquistou 32 títulos dentro de seu estádio: 18 estaduais, 5 títulos de turno ou returno, 3 Brasileiros, 2 Libertadores, 2 Recopas Sul-Americanas, 1 Copa Sul-Americana e 1 Copa do Brasil;
  • Por outro lado, outros clubes já fizeram a festa no Beira-Rio diante do Colorado: 

Bahia, campeão brasileiro de 1988

Grêmio, campeão gaúcho em 1980 e em 2006; 

Juventude, campeão gaúcho de 1998;

Corinthians, campeão da Copa do Brasil de 2009

Athletico Paranaense, campeão da Copa do Brasil de 2019;

 

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