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Craque Imortal – Dunga

Nascimento: 31 de Outubro de 1963, em Ijuí, RS, Brasil.

Posição: Volante

Clubes: Internacional-BRA (1983-1984 e 1999-2000), Corinthians-BRA (1984-1985), Santos-BRA (1986), Vasco-BRA (1987), Pisa-ITA (1987-1988), Fiorentina-ITA (1988-1992), Pescara-ITA (1992-1993), Stuttgart-ALE (1993-1995) e Jubilo Iwata-JAP (1995-1998).

Principais títulos por clubes: 2 Campeonatos Gaúchos (1983 e 1984) pelo Internacional.

1 Campeonato Carioca (1987) pelo Vasco.

1 Copa Mitropa (1987-1988) pelo Pisa.

1 Campeonato Japonês (1997) pelo Jubilo Iwata.

Principais títulos por seleção: 1 Copa do Mundo da FIFA (1994), 2 Copas América (1989 e 1997), 1 Copa das Confederações da FIFA (1997) e 1 Medalha de Prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984) pelo Brasil.

Principais títulos individuais:

  • Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA: 1994 e 1998
  • Eleito para a Seleção do Campeonato Japonês: 1997 e 1998
  • Melhor Jogador do Campeonato Japonês: 1997
  • Eleito para o Time dos Sonhos do Internacional do Imortais: 2020
  • 8º Melhor Jogador do Mundo pela FIFA: 1994
  • World XI: 1990 e 1991
  • Golden Foot: 2010

“O Capitão do Tetra”

Por Guilherme Diniz

Ele viu seu nome marcar a decepção brasileira na Copa do Mundo de 1990. Mas soube dar a volta por cima com um futebol vibrante, cheio de raça, qualidade nos passes, técnica no domínio de bola e muita liderança. Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga, foi um dos maiores símbolos da Seleção Brasileira nos anos 1990 e um dos craques mais injustiçados do nosso futebol. O estigma do Mundial da Itália sempre perseguiu o volante por causa do defensivismo do Brasil naquela Copa e do apelido “Era Dunga”. Só que o que muita gente nunca entendeu é que Dunga tinha qualidades excepcionais para um meio-campista. Após virar capitão do Brasil na Copa de 1994, Dunga comandou o meio de campo da seleção de Parreira com desarmes precisos e construiu muitos ataques que até resultaram em gols. Sua imagem erguendo aos céus a Taça FIFA foi o maior “cala a boca” aos críticos que tanto o azucrinaram na época.

Anos depois, mesmo com a idade chegando, o volante seguiu com muito vigor e liderança até a Copa de 1998. Com desarmes precisos, bons passes e seu estilo raçudo, capitaneou o Brasil no vice-campeonato mundial. Podem dizer o que quiserem, mas ele foi um dos maiores volantes do futebol brasileiro. Os títulos, as inúmeras voltas por cima e sua presença nos dois All-Star Teams das Copas de 1994 e 1998 só confirmam isso, além dos brilhantes jogos que fez por clubes do Brasil, Itália, Alemanha e Japão. É hora de relembrar.

O apelido e o futebol

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Nascido em Ijuí, no norte do Rio Grande do Sul, Dunga ganhou o apelido que o acompanhou a vida inteira ainda na infância por ser baixinho, ter as pernas grossas e parecer com o introspectivo anão da Branca De Neve. Foi o padrinho do garoto, Emídio Perondi, quem deu o apelido de Dunga e a alcunha pegou para sempre. Na infância, Dunga viu seu pai, Edelceu, jogar como centroavante, mas sem seguir carreira. O tio, Marimba, também se arriscou como meio-campista no Grêmio e conquistou o Gauchão de 1954. Só que as inspirações familiares não foram bem vistas pelo pai de Dunga, que não queria que ele ficasse jogando pelada na rua e às vezes batia no filho por causa disso. “Eu sempre quis ser jogador e no fundo tinha certeza de que um dia seria. Era uma coisa muito forte em mim, desde criança”, disse Dunga, em 1998, ao Diário Lance!.

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Depois de contornar as objeções do pai, o garoto teve suas primeiras oportunidades no futebol pelo Ouro Verde, pequenino clube de Ijuí e que disputava campeonatos amadores. A passagem pelo clube foi importante para o jovem adquirir experiência e dar um salto maior: jogar por um grande clube. Antes, perdeu peso e passou a trabalhar mais a parte física seguindo os conselhos de um de seus primeiros treinadores, José Zambonato. O foco do garoto era o Internacional, para onde foi aos 15 anos. 

Naquela época, ele jogava mais avançado, como meia-direita, e gostava de arriscar chutes fortes da entrada da área. Nos treinamentos, se não conseguia fazer lançamentos longos, treinava até aprender. Se não chutava tão bem com uma perna, treinava até melhorar o calibre. Era persistente, dedicado, comprometido. Chegava ao limite e queria sempre provar seu valor e suas condições. Certa vez, o então técnico Colorado, Dino Sani, percebeu que faltava velocidade e mais técnica para Dunga jogar na meia-direita. Por isso, recuou o jovem para a cabeça de área e ele passou a jogar como volante. Sábia escolha. A partir dali, a carreira do jovem mudaria completamente.

Primeiros títulos e a seleção

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O Inter de 1983. Em pé: Paulo Roberto, Chico, Benê, Aloísio, Jandir e Pedro Paulo. Agachados: Dunga, Nilson, Otávio, Renê e Tato.
 

No começo dos anos 1980, Dunga ganhou uma vaga no time principal do Internacional e integrou a equipe campeã gaúcha de 1983, além de brilhar em vários campeonatos juvenis. No mesmo ano, foi convocado para a seleção sub-20 e provou que sua sintonia com a amarelinha teria futuro: foi campeão do Campeonato Sul-Americano e também do Mundial Sub-20 da FIFA, este jogando ao lado de grandes talentos da época como Geovani, Bebeto e Mauricinho. O título veio no mítico Estádio Azteca, diante de 110 mil pessoas, em vitória por 1 a 0 sobre a rival Argentina. 

Um ano depois, Dunga e aquela turma voltaram a defender o Brasil em um grande torneio: as Olimpíadas de Los Angeles. O escrete canarinho era composto praticamente por atletas do Internacional – dos 17, 11 eram do Colorado! – e jogadores pontuais de outros clubes como Gilmar Popoca (Flamengo) e Chicão (Ponte Preta). O Brasil tinha um timaço com Gilmar Rinaldi, Mauro Galvão, Pinga, Luis Carlos Winck, André Luiz e, claro, Dunga. Era a primeira vez que a seleção tinha reais chances de ir longe no torneio que ainda não tinha conquistado. E, de fato, o Brasil foi muito bem.

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A seleção passou pela primeira fase com vitórias sobre Arábia Saudita (3 a 1, com um gol de Dunga), Alemanha (1 a 0) e Marrocos (2 a 0, com outro gol de Dunga). Nas quartas de final, empate em 1 a 1 e vitória nos pênaltis sobre o Canadá e, nas semis, vitória por 2 a 1 sobre a Itália, na prorrogação. Na decisão, porém, o time brasileiro sucumbiu diante da França e terminou com a medalha de prata, que foi a primeira do futebol masculino na história das Olimpíadas.

Visibilidade e grandes jogos

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Brilhar em nos Jogos de Los Angeles foi importante para Dunga ganhar reconhecimento e despertar o interesse de outros clubes. E, ainda em 1984, o volante – já bicampeão gaúcho pelo Inter – foi jogar no Corinthians. Embora não tenha vencido títulos, marcou seu nome no clube ao ajudá-lo a emendar uma série de 16 jogos sem perder no Campeonato Paulista – do qual saiu vice-campeão mesmo com um timaço composto por nomes como Carlos, Wladimir, Biro-Biro, Eduardo Amorim, Casagrande e Zenon. Na sequência, foi jogar no Santos, onde se adaptou muito bem à cidade praiana e levantou títulos em torneios do exterior. No Peixe, faltou um troféu de expressão e, em 1987, o volante acabou indo jogar no Vasco, onde ficou poucos meses, mas o suficiente para integrar um esquadrão lendário que foi campeão do Campeonato Carioca daquele ano.

Dunga formou um meio de campo inesquecível para o torcedor cruzmaltino ao lado de Geovani e Tita, que dava toda a tranquilidade e “munição” para Roberto Dinamite e Romário destruírem as zagas rivais. “Foi uma grande passagem pelo Vasco. Além do time excelente que montaram, fiz muitos amigos no clube como Roberto (Dinamite), Romário, Paulo Roberto e Geovani, que já conhecia desde 1983”, comentou o volante sobre sua passagem por São Januário. Pelo Vasco, Dunga ganhou, enfim, suas primeiras chances na seleção principal e ganhou a primeira convocação em um amistoso contra a Inglaterra, que terminou empatado em 1 a 1. No mesmo ano e em seu terceiro jogo, marcou o primeiro gol com a seleção principal, na vitória por 4 a 0 sobre Israel.

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Na época, o volante demonstrava enorme vigor físico, explosão e já se caracterizava pelo jogo combativo e liderança. Com enorme gana para vencer e garra, entusiasmava os colegas de time e não desistia de nenhuma jogada. Ao contrário do que muitos diziam e pensavam, Dunga não era apenas raça e “destruição”. Ele dava passes precisos, enxergava bem o jogo, ajudava na organização tática e protegia a defesa, além de iniciar preciosos contra-ataques e esbanjar vigor para conduzir a bola e distribuí-la mais à frente. Era um volante muito moderno para sua época, que não tinha o estereotipo do meio-campista driblador e cerebral que o futebol brasileiro estava acostumado desde os anos 1950. Por isso, muitos críticos sempre torceram o nariz para o jogador. Mas, na Europa, Dunga teve o reconhecimento que merecia a partir daquele mesmo ano de 1987.

Estrela no Calcio e a Copa América

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Dunga debutou no futebol europeu com a camisa do Pisa, da Itália, e rapidamente ganhou o carinho dos torcedores e jogadores graças ao futebol de alto nível, enorme controle do meio de campo e perigosos chutes de média e longa distâncias – em novembro de 1987, anotou um golaço diante da Internazionale de Trapattoni e deu a vitória por 2 a 1 ao seu time. Ao contrário do que acontecia com muitos brasileiros que iam jogar no futebol europeu naquela década de 1980, principalmente na Itália, Dunga não teve dificuldades para se adaptar ao país, não sofreu com o frio nem contusões. “O Pisa representou para mim uma abertura de mercado na Itália. O grande objetivo do clube era não cair para a segunda divisão e acabamos conseguindo o objetivo”, disse Dunga, em 1998, ao Diário Lance!. 

De quebra, o volante ainda levantou o título da Copa Mitropa de 1987-1988, antigo torneio interclubes do Velho Continente. Com mais voz, o brasileiro conseguiu convencer o técnico a deixá-lo jogar mais avançado, para marcar gols, e a tática deu certo, pois Dunga foi um dos principais nomes do setor ofensivo do time azul e negro. Já em 1988, o brasileiro foi jogar na Fiorentina e ganhou ainda mais destaque no Calcio. 

Foi na Viola que ele conheceu e jogou ao lado do italiano Roberto Baggio, que anos depois teria uma participação crucial no maior momento da carreira do volante. Em Florença, Dunga ajudou a equipe a se classificar para a Copa da UEFA de 1989-1990, competição na qual a Fiorentina fez grande campanha e chegou até a final, perdida para a experiente Juventus-ITA de Tacconi, De Agostini, Sergio Brio, Casiraghi e Schillaci.

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O Brasil campeão da Copa América de 1989 – Em pé: Mazinho, Taffarel, Mauro Galvão, Ricardo Gomes, Aldair e Branco. Agachados: Bebeto, Romário, Silas, Dunga e Valdo.
 

Em 1989, Dunga foi convocado pelo técnico Sebastião Lazaroni para a disputa da Copa América, no Brasil. O torneio serviu para o jogador começar a sentir na pele as delícias e os dramas de jogar pelo time brasileiro em solo nacional. Na fase de grupos, o Brasil começou bem e venceu por 3 a 1 a Venezuela. Mas, na sequência, os empates em 0 a 0 contra Peru e Colômbia despertaram a ira da torcida baiana – os três jogos iniciais foram na Fonte Nova, em Salvador. Só na partida derradeira, no Recife, contra o Paraguai, que Bebeto garantiu a vitória por 2 a 0 e a classificação para a etapa final.

No quadrangular decisivo, o Brasil teve pela frente a Argentina logo de cara e, com vitória por 2 a 0 diante de 130 mil pessoas no Maracanã (com direito a gol antológico de Bebeto), a seleção ganhou a confiança do torcedor. E Dunga demonstrava a cada jogo o enorme meio-campista que era: marcava, desarmava, pensava e jogava. E quase deixou sua marca em um chute de longe que o goleiro Pumpido pegou no susto! Embalado, o Brasil destroçou o Paraguai na partida seguinte – 3 a 0 – e encarou o Uruguai na partida decisiva, que era uma final, pois ambos tinham chance de título. Mas o Brasil provou sua força, venceu por 1 a 0 – gol de Romário – e celebrou um título que não vinha desde o longínquo ano de 1949, da lendária seleção de Barbosa, Zizinho, Ademir de Menezes e companhia.

O estigma da Era Dunga

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O título continental cravou de vez a vaga de Dunga como titular absoluto do Brasil. O meio-campista seguiu na campanha das Eliminatórias para a Copa de 1990 e virou um estandarte do estilo de jogo e plano tático do técnico Lazaroni. “O Lazaroni foi um técnico importante na minha carreira. Soube valorizar o meu estilo de jogo e foi inclusive muito criticado por isso”, disse Dunga, anos depois do Mundial da Itália. A seleção daquela época tinha grandes nomes, talentos inquestionáveis, mas adotava um estilo mais pragmático, com controle de bola, proteção defensiva e o esquema 3-5-2 com o uso de um líbero, tática muito em voga na época. Por conta disso e por Dunga ser um dos principais jogadores do time, o volante se transformou na personificação desse estilo mais competitivo, tático e sem a “arte” que o torcedor viu nos Mundiais de 1982 e 1986. E a geração de 1990 ficou conhecida como Era Dunga.

De fato, Dunga ficou mais “preso” em alguns jogos do Brasil no Mundial e não apareceu tanto à frente como gostava de fazer. Era um cabeça de área e isso prejudicou seu futebol. O Brasil se classificou em primeiro lugar no Grupo C após vitórias sem brilho sobre Suécia (2 a 1), Costa Rica (1 a 0) e Escócia (1 a 0). Mas, nas oitavas de final, embora tenha feito seu melhor jogo na Copa e acertado a trave três vezes – uma delas com Dunga -, o Brasil perdeu para a Argentina por 1 a 0 e deu adeus ao tetra.

“Tinha que haver um bode expiatório e o escolhido fui eu. É claro que fiquei muito magoado, principalmente pelo fato de ter virado símbolo de algo que não era positivo”. – Dunga, em entrevista ao Diário Lance!, 1998.

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Dunga na cola de Maradona: Copa de 1990 foi um marco negativo na carreira do craque brasileiro.
 

Aquela derrota fez com que o jogador se ausentasse por três anos da seleção. Acontece que aquele revés não foi culpa dele, obviamente. Foi culpa de um trabalho mal feito e da desunião de um grupo que brigou por dinheiro, criou confusão com patrocinadores e ainda teve que aguentar indecisões do técnico Lazaroni em cima da hora. Passado o Mundial, Dunga trabalhou para retornar à seleção. Era questão de honra e orgulho.

“As pessoas me viam apenas como um destruidor, um cara que não tinha a capacidade para iniciar e concluir jogadas. E minha função na seleção ficava reduzida a isso: destruir. Não arriscava um passe mais longo. Pensava que outros jogadores poderiam fazer isso melhor. Quando terminou a Copa da Itália, resolvi mostrar que tenho capacidade para fazer muitas coisas além de destruir”. – Dunga, em entrevista à revista Placar, agosto de 1995.

O retorno triunfal

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Dunga sempre dizia que só precisava de “uma chance” para provar seu valor. Só uma. E ela veio em 1993, em amistoso contra a Argentina, em Buenos Aires, justamente o adversário da decepção de 1990. O Brasil empatou em 1 a 1 e Dunga ganhou a confiança do então técnico Carlos Alberto Parreira e do coordenador Zagallo, dupla que admirava bastante o futebol do volante, principalmente o Velho Lobo, que via o meio-campista como sua extensão dentro de campo por assimilar as mesmas ideias e liderança. Com isso, Dunga foi absoluto no time brasileiro na dura caminhada das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Em 1993, marcou um gol após chutaço sem chance alguma para o goleiro, e garantiu a vitória por 2 a 0 sobre o Equador, no Morumbi. Na comemoração, raiva e explosão, num exemplo de que ele não queria mais guardar seus sentimentos e expressava toda sua ira contra os que o criticavam.

O Brasil seguiu aos trancos e barrancos e conseguiu a vaga no Mundial após vitórias emblemáticas sobre Bolívia e Uruguai. Nos EUA, após a saída de Raí do time titular, Dunga virou capitão e teve a liderança que tanto sonhou. E jogou como nunca para ajudar o Brasil na caminhada até a decisão. Com ele no meio, mais solto, e a proteção de Mauro Silva, o camisa 8 fez um Mundial simplesmente assombroso. Ninguém deu mais passes – 692 – nem desarmou mais vezes – 57 – do que ele naquele Mundial.

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Dunga e Bergkamp no Brasil 3×2 Holanda, das quartas de final. Foto: Fábio Salles / AE.
 

Aliás, NINGUÉM deu mais passes e desarmou mais vezes em uma só Copa em todos os tempos! Nem o espanhol Xavi (foram 657 passes em 2010), nem o alemão Lahm (651 passes em 2014) conseguiram o que o brasileiro conseguiu. Uma enormidade que encerra qualquer discussão sobre a importância e capacidade de Dunga em campo.

Entre seus muitos passes e desarmes naquele Mundial, Dunga desarmou um adversário no meio de campo e deu aquele passe milimétrico de trivela para Romário ficar na cara do gol e abrir o placar contra Camarões, no segundo jogo brasileiro na fase de grupos. Um exemplo perfeito de técnica, antecipação e visão. 

O Brasil chegou à final contra a Itália e, após a extenuante batalha de 120 minutos no calor do Rose Bowl, o time canarinho foi campeão nos pênaltis, com vitória por 3 a 2 sobre a Azzurra. Dunga converteu sua cobrança com categoria, chutando forte, sem firulas, e celebrou como nunca. O tetra veio após o erro de Roberto Baggio e Dunga pôde erguer o troféu que ele tanto sonhou. No pódio, o brasileiro proferiu xingamentos e desabafou para todo mundo (literalmente!) ouvir. “Esta é pra vocês, traíras, filhos da p***!”.

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Foto: Getty Images / Acervo FIFA
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A glória máxima de Dunga: melhor volta por cima possível! Foto: Getty Images.
 

O jornalista Marcelo Barreto foi quem definiu com a maior precisão aquele momento: “Bellini (capitão em 1958) inventou o gesto de levantar a taça. Carlos Alberto (capitão em 1970) inventou o gesto de beijar a taça. E Dunga inventou o gesto de xingar a taça”. Bem, era o estilo Dunga de celebrar, de extravasar e colocar para fora toda a angústia guardada desde 1990. Taffarel, goleiro brasileiro naquela Copa e em 1990, comentou sobre o amigo.

“Dunga sempre foi assim. Não adianta nada se revoltar porque faz parte da personalidade dele. O perfil sempre será de um cara exigente, que busca a perfeição até o último grau. A gente, na seleção, não esperava nada diferente do que isso. Pelo contrário, na minha opinião, até precisávamos disso. Era reclamão, sim senhor, mas mantinha todo mundo na linha. Frequentemente, quando via que o pessoal estava se empolgando demais, seja com uma vitória ou mesmo um deslumbre natural por estar na seleção, ele era o primeiro a pôr os nossos pés no chão”. – Taffarel, em entrevista a Sidney Garambone no livro “Os 11 Maiores Volantes do Futebol Brasileiro”, Contexto, 2010.

Sobre a conquista, Dunga comentou, anos depois: “O que mais senti naquela hora foi felicidade no rosto das pessoas que acreditaram em mim. Quando sai da Copa de 1990, não imaginava que estaria erguendo a taça em 1994. Mas tinha confiança de que, se precisassem de mim, estaria pronto. E estava”. O capitão que ficou estigmatizado com a Era Dunga virou, a partir daquela tarde de sol no Rose Bowl, o Capitão do Tetra. E uma lenda das Copas do Mundo.

Novas camisas e multicampeão

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Após sua passagem pela Fiorentina e uma rápida pelo Pescara, Dunga foi contratado pelo Stuttgart-ALE e se tornou o primeiro brasileiro a vestir a camisa do clube alemão na história para substituir ninguém mais ninguém menos do que Karl Allgöwer, maior ídolo da história dos Die Roten. Pois logo na estreia, o volante marcou um gol e provou que seria um grande reforço aos alemães. Foram quatro gols e quatro assistências nos primeiros 28 jogos pelo clube, desempenho que fez a torcida nem sentir a falta do antigo ídolo. Dunga, porém, não conquistou títulos e pegou uma fase de transição do clube, que não tinha mais a base campeã alemã de 1991-1992. 

Em 1995, o capitão foi contratado pelo Jubilo Iwata-JAP e enfrentou algumas dificuldades, principalmente com o idioma. Ele teve que utilizar um intérprete, que o acompanhou por vários anos do outro lado do mundo. Pela seleção, Dunga seguiu líder e capitão sob o comando de Zagallo e levantou a Copa Umbro de 1995 e ainda a Copa América de 1997, a primeira da seleção longe do Brasil.

O volante só ficou de fora das Olimpíadas de 1996, pois Zagallo preferiu levar Aldair, Rivaldo e Bebeto na cota dos atletas acima de 23 anos. Pois a ausência do craque fez falta nos jogos de Atlanta e o Brasil perdeu um jogo inacreditável para a Nigéria e teve de se contentar com o bronze. Ainda em 1997, Dunga foi o grande destaque da campanha do título japonês do Jubilo Iwata, que tinha ainda os brasileiros Adilson e Alessandro Cambalhota. Dunga foi eleito para o time da competição e ganhou o prêmio de melhor jogador do torneio. 

Os altos e baixos da Copa de 1998

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O Brasil da Copa. Em pé: Taffarel, César Sampaio, Rivaldo, Aldair, Júnior Baiano e Cafu. Agachados: Ronaldo, Roberto Carlos, Leonardo, Bebeto e Dunga.
 

Jogando em uma liga pouco conhecida, Dunga voltou a despertar algumas dúvidas sobre suas condições no ano da Copa do Mundo. Algumas pessoas temiam pela competitividade do volante e se ele iria conseguir jogar como havia jogado entre 1994 e 1997. Pois Dunga não só jogou muito como voltou a liderar o Brasil em mais uma caminhada até a final da Copa, embora com alguns percalços. O principal deles aconteceu ainda na fase de grupos, quando teve uma briga com o atacante Bebeto no duelo contra Marrocos.

O lance aconteceu aos 35’ do primeiro tempo, quando a seleção se preparava para uma cobrança de falta na entrada da sua área e Dunga gritou para o atacante Bebeto voltar rapidamente para o campo de defesa. Depois da bronca, Dunga virou-se para o gol e Bebeto retrucou o capitão. Irritado, Dunga voltou-se rapidamente para Bebeto, o xingou e acertou uma leve cabeçada no rosto do atacante. Leonardo interveio, afastando Dunga de Bebeto. “Eu converso com meus amigos. Você não discute com seus colegas de trabalho? Eu tenho que falar durante o jogo. Houve uma falta e ele estava voltando lentamente…”, disse Dunga, irritado, após a partida.

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O bom clima entre os dois jogadores só foi resgatado tempo depois, quando Bebeto iniciou a jogada do segundo gol, marcado por Rivaldo, após cruzamento de Cafu. Na comemoração, Dunga abraçou Bebeto no caminho para o campo de defesa, passou a mão em sua cabeça e lhe deu um pequeno beijo na face. “Ganhamos o jogo (3 a 0). Melhoramos em relação ao último jogo. Quando existe uma falta nas proximidades da área, os atacantes precisam voltar rapidamente para a defesa. Jogo é jogo, meu filho”, disse o jogador no pós-jogo.

Após aquele episódio, Dunga começou a sair dos treinamentos e ir direto para seu quarto, evitou os gritos mais fortes diante das câmeras nos treinamentos e demonstrou certa introspecção. Ele não resolveu os problemas internos do grupo como costumava fazer, como no caso de Giovanni, que foi sacado do time titular e passou a se arrastar nos treinos, e Edmundo, que demonstrava irritação clara por não ter mais minutos em campo. 

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Dunga e Davids: expoentes do meio de campo no duelo semifinal entre Brasil e Holanda.
 

Por outro lado, Dunga, Ronaldo e Rivaldo resolveram as coisas dentro de campo e o Brasil se classificou para a decisão após vitórias sobre Chile (com passe de Dunga para o gol de César Sampaio), Dinamarca (outro passe de Dunga, para o segundo gol brasileiro, de Rivaldo) e na agônica semifinal contra a Holanda, quando Dunga converteu sua cobrança de pênalti e garantiu os 4 a 2 do time canarinho.

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Na final, o drama de Ronaldo no pré-jogo abalou todo time e a derrota de 3 a 0 para a França em Saint-Denis encerrou o sonho do penta. Aquele foi o último jogo de Dunga pela amarelinha – foram 91 partidas, 64 vitórias, 20 empates e apenas sete derrotas, impressionantes 81,3% de aproveitamento, além de seis gols marcados e 11 assistências. Mesmo com o vice, ele foi eleito para seu segundo All-Star Team como melhor volante do Mundial. Era o fim de um gigante e um dos mais decisivos e fundamentais meio-campistas brasileiros em Copas.

Salvador colorado e aposentadoria

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Em 1999, Dunga retornou ao futebol brasileiro para vestir pela última vez a camisa do seu querido Internacional. No começo do ano, tentou o título gaúcho, mas acabou com o vice diante do rival Grêmio, em uma final para esquecer: o volante foi “chamado para dançar” por um abusado garoto chamado Ronaldinho Gaúcho, que aplicou talvez os dribles mais desconcertantes que Dunga levou na carreira, entre eles um chapéu seco, perfeito, que não deu nem tempo de Dunga tentar correr atrás para brecá-lo com falta. 

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Ronaldinho deu show pra cima de Dunga. Só ele conseguiu…
 

Mas a decepção daquele dia foi recompensada por Dunga meses depois, em um último ato de volta por cima do capitão. Após uma campanha pífia no Brasileirão, o Inter chegou à última rodada precisando vencer o Palmeiras, no Beira-Rio, para escapar de um ainda inédito rebaixamento. O placar estava 0 a 0 quando o Inter teve uma falta a seu favor, aos 36’ do segundo tempo. Celso alçou a bola na área e o goleiro Marcos foi certo de que a redonda era sua. Só que, no meio do caminho, apareceu Dunga. De peixinho, o volante mandou a bola para o gol: 1 a 0. O Beira-Rio quase veio abaixo. E Dunga, de novo, dava a volta por cima. A vitória magra salvou o Inter e o volante pôde se aposentar de cabeça erguida e dever cumprido.

Dunga deixou o Inter no começo de 2000, após rusgas com o técnico Emerson Leão, que o deixou de fora de um Gre-Nal. O volante assinou a rescisão do contrato e pendurou as chuteiras aos 37 anos. Anos depois, o capitão se aventurou na carreira de técnico e levou o estilo competitivo e voraz para as pranchetas. Teve um relativo sucesso com a seleção e venceu a Copa América de 2007 e a Copa das Confederações de 2009, mas sucumbiu nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010 diante da Holanda. Crítico com a imprensa, nunca foi uma unanimidade e deixou o comando da amarelinha de maneira melancólica. Retornou tempo depois para uma breve passagem, dessa vez sem sucesso. Por clubes, foi campeão gaúcho com o Internacional em 2013.

Mas a grande marca de Dunga foi mesmo dentro de campo. Vencedor, aguerrido e líder, construiu uma trajetória de grandes jogos por clubes e ainda mais pela seleção, com a qual viveu os melhores e mais emblemáticos momentos de sua carreira. Com ele, o Brasil teve garra, brigou até o fim e venceu de todos os jeitos, de todas as maneiras. E jogadores como ele fazem uma falta danada ao escrete canarinho. Afinal, vez ou outra, nos pegamos vendo um jogo da seleção e dizemos “poxa, falta um Dunga nesse time…”. Falta mesmo. Um craque imortal.

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Foto: DANIEL DUARTE / AFP
 

Números de destaque:

  • Disputou 110 jogos e marcou 9 gols pelo Internacional.
  • Disputou 23 jogos e marcou 3 gols pelo Vasco.
  • Disputou 154 jogos e marcou 12 gols pela Fiorentina.
  • Disputou 128 jogos e marcou 17 gols pelo Jubilo Iwata.
  • Disputou 54 jogos e marcou 7 gols pelo Stuttgart.
  • Disputou 91 jogos e marcou 6 gols pela seleção do Brasil.

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3 COMENTÁRIOS

  1. De todos os volantes do brasil que ganharam copas Dunga sempre foi o mais representativo deles um craque que o tempo fez justiça para com ele.e o meu pai quando vê o meio campo do brasil no arrasto sempre diz: falta um Dunga nesse time frase icônica dele há anos que vocês reproduziram no texto.grande Dunga difícil de encarar mesmo.

  2. Quando eu penso em volante, penso no Dunga! Um grande jogador! De injustiçado em 1990 a destaque em 1994! Craque, cheio de vontade e um dos jogadores que mais identificados com a amarelinha! Vê-lo levantar a taça da Copa em 1994 foi icônico! Ele merecia aquele momento!

    Um dos jogadores que eu mais queria ver nos craque imortais! Mandou bem, Guilherme! Dunga foi um volante inesquecível! E imortal! Abraço!

    • Olá, Miguel! Sim, mesmo com tantos críticos, Dunga sempre jogou futebol e calou todos eles com títulos, números incontestáveis e grandes atuações. Um dos maiores do nosso futebol! Abraço!

Comentários encerrados.

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