Data: 29 de agosto de 1993
O que estava em jogo: a vitória, claro, e pontos essenciais na disputa por uma vaga na Copa do Mundo da FIFA de 1994.
Local: Estádio do Arruda, Recife, Brasil
Árbitro: Oscar Velásquez (Paraguai)
Público: 75.325 pessoas (96.990 total)
Os Times:
Brasil: Taffarel; Jorginho, Ricardo Rocha, Ricardo Gomes e Branco; Mauro Silva, Dunga, Raí e Zinho (Palhinha, aos 58’); Bebeto (Evair, aos 72’) e Müller. Técnico: Carlos Alberto Parreira.
Bolívia: Trucco; Rimba, Quinteros, Sandy e Cristaldo; Borja, Melgar, Baldivieso e Etcheverry (Juan Peña, aos 42); Sánchez e Ramallo (Alvaro Peña, aos 72). Técnico: Xavier Azkargorta.
Placar: Brasil 6×0 Bolívia. Gols: Raí-BRA, aos 12’, Müller-BRA, aos 19’, Bebeto-BRA, aos 23’, Branco-BRA, aos 37’ e Ricardo Gomes-BRA, aos 44’ do 1º T; Bebeto-BRA, aos 14’ do 2º T.
“O início do Tetra”
Por Guilherme Diniz
Pela primeira vez, a seleção brasileira via o risco de ficar de fora de uma Copa do Mundo. Jogando bem abaixo das expectativas e sofrendo com as críticas da imprensa e torcida, a equipe vivia um momento incomum e hostil em sua história. Para reverter aquela situação, só vencendo a Bolívia naquela tarde de 29 de agosto de 1993. Pois a seleção não só venceu como massacrou justamente o algoz de sua primeira derrota na história das Eliminatórias, ocorrida um mês antes, em La Paz. Só no primeiro tempo, 5 a 0. No segundo, ritmo de treino e mais um gol. Placar final: 6 a 0. Foi o maior presente possível para uma torcida que, desde a chegada da seleção no Recife, abraçou o time e lhe deu o apoio necessário para a virada na chave. Ali, diante de mais de 95 mil pessoas no Arruda, o Brasil iniciou sua caminhada rumo ao tetracampeonato mundial. É hora de relembrar o Brasil 6×0 Bolívia 1993.
Sumário
Pré-jogo

O ano de 1993 foi bastante conturbado para a seleção. Após ser eliminada da Copa América pela Argentina nas quartas de final, a equipe iniciou sua trajetória nas Eliminatórias para a Copa em julho, pelo Grupo B, cujos rivais seriam Uruguai, Equador, Bolívia e Venezuela. No regulamento, todos jogavam contra todos em turno e returno e os dois primeiros ganhavam a vaga na Copa. Antes de começar sua caminhada, o Brasil participou de uma reunião na Conmebol e solicitou junto à entidade que seus quatro primeiros jogos fossem fora de casa e os quatro últimos fossem em casa, uma ideia que partiu do próprio técnico Carlos Alberto Parreira.
“Eu que fiz a tabela. Eu fui representar o Brasil na reunião e nós impusemos isso. Imagina se nós tivéssemos que fazer esses jogos fora no fim. Disputar com a Bolívia uma vaga, tem que empatar com a Bolívia. Não vou deixar pra decidir com a Bolívia lá na altitude”. – Parreira, em entrevista ao globoesporte.com, 07 de setembro de 2023.
Acontece que os jogos do Brasil no turno foram bem ruins. Primeiro, empatou sem gols com o Equador. Depois, sofreu uma derrota por 2 a 0 para a Bolívia, em La Paz, a primeira da seleção em 40 anos de Eliminatórias. A vitória por 5 a 1 sobre a Venezuela foi protocolar, pois na época a equipe Vino Tinto era o “saco de pancadas” do continente. E, em agosto, empate em 1 a 1 com o Uruguai, em Montevidéu. No returno do grupo, a pressão tomou conta do Brasil, que precisava vencer seus jogos em casa e ainda torcer por tropeços dos rivais se quisesse ir aos EUA. No primeiro compromisso, vitória por 2 a 0 sobre o Equador, no Morumbi, com muitas vaias e xingamentos ao futebol burocrático e sem brilho da equipe de Parreira.

Antes desse jogo, a CBF até se reuniu com os representantes das principais torcidas organizadas de SP a fim de evitar problemas, mas o apoio prometido não foi cumprido e o ambiente hostil acabou muito criticado pelos jogadores brasileiros. Uma semana depois, o Brasil teria a Bolívia pela frente. A seleção alviverde vivia o melhor momento de sua história e liderava a chave com cinco vitórias em cinco jogos, graças à sua temível altitude, claro, e ao talento de nomes como Marco ‘El Diablo’ Etcheverry e Erwin ‘Platini’ Sánchez. Com os bolivianos praticamente garantidos em sua primeira Copa desde 1950, restava uma vaga para Brasil, Equador e Uruguai, embolados logo após a Bolívia na chave.
Vencer a líder era o único cenário possível para o Brasil continuar sonhando com a vaga. E, de preferência, com goleada, pois as vitórias na época ainda valiam apenas dois pontos, por isso, ter um bom saldo de gols seria um critério de desempate precioso. A partida contra a Bolívia estava marcada para o Recife, no estádio do Arruda, casa do Santa Cruz. E desde a chegada da seleção na cidade até o dia da partida, o cenário foi totalmente diferente do vivido uma semana antes, em SP. Milhares de pessoas recepcionaram os jogadores já no aeroporto dos Guararapes e encheram o treinamento pré-jogo, aberto ao público a pedido dos jogadores, no Arruda.


No dia da partida, mais de 70 mil pessoas pagaram ingressos para ver o duelo decisivo, enquanto mais de 20 mil entraram com gratuidades ou convites. Com isso, as enormes arquibancadas do Arruda receberam mais de 96 mil pessoas (!), um dos recordes na história do estádio. Para mostrar a união do grupo e provar o peso que o carinho do torcedor causou nos jogadores, o zagueiro Ricardo Rocha teve a ideia de os 11 atletas entrarem no gramado de mãos dadas, um gesto que seria repetido dali em diante e nos próximos cinco anos, incluindo as Copas de 1994 e 1998. Com tanta gente ao seu lado e querendo vingança pelo revés de La Paz, o Brasil estava sedento pela vitória. E, nos primeiros 45 minutos, faria um de seus maiores jogos em todos os tempos.
Primeiro tempo – Mão cheia

Mesmo sem Romário no ataque, que na época vivia às turras com a comissão técnica brasileira, embora estivesse em fase esplendorosa pelo Barcelona, o Brasil tinha um grande ataque com Raí e Zinho na criação e os velozes Müller e Bebeto na frente, além dos ótimos Jorginho e Branco nas laterais e a proteção de Dunga e Mauro Silva no meio. Quando a bola rolou, ficou claro que o Brasil não sofreria como em La Paz e que o dono do jogo era ele. A primeira grande chance veio com Mauro Silva, que arrancou da intermediária, passou por três marcadores e chutou forte, mas por cima do gol de Trucco. O volume de jogo da seleção continuou alto e Jorginho também teve sua chance, após boa jogada de pé em pé.
E foi de pé em pé que saiu o primeiro gol. A jogada começou lá de trás, com Ricardo Rocha, Mauro Silva e Branco, que tocou mais à frente para Müller. O camisa 9 se desvencilhou da marcação, correu na diagonal e deu um toque magistral para Bebeto, que invadiu a área e chutou, mesmo marcado pela zaga. A bola foi defendida parcialmente pelo goleiro e sobrou para Raí, que completou pro gol: 1 a 0. Explosão no Mundão do Arruda! Foi o tento que abriu as porteiras bolivianas. A equipe alviverde ainda tentou responder após cobrança de escanteio, mas a zaga brasileira conseguiu desviar o chute do rival. O Brasil não apostava apenas em um lado e alternava seus ataques, rodando a bola de maneira inteligente, explorando a velocidade de Müller, a visão de Raí e Dunga pelo meio, os cruzamentos de Jorginho.

Foi assim que Dunga tocou para Bebeto, pelo meio, e o atacante chutou rasteiro, quase ampliando o marcador. E, aos 19’, em ótimas brigadas pela bola na direita, Raí recuperou de carrinho, deixou com Jorginho e este cruzou na cabeça de Müller, que testou firme para fazer 2 a 0. Logo após o gol, uma pequena confusão se instaurou no meio de campo, com os bolivianos nitidamente nervosos, mas rapidamente o jogo prosseguiu. Três minutos depois, Müller recebeu na esquerda, cruzou e Bebeto, de primeira, tocou por cima do goleiro e anotou um golaço: 3 a 0.
A fase era tão boa que, em uma chegada boliviana após os 23’, Taffarel matou no peito um chute do rival e demonstrou que a falha em um dos gols bolivianos em La Paz era coisa do passado. Já aos 37’, escanteio cobrado da direita e Branco, de cabeça, fez o quarto gol. Etcheverry tentou descontar para a Bolívia na sequência, de cabeça, mas a bola foi por cima do gol. Quase perto do fim, Bebeto cobrou escanteio da esquerda e Ricardo Gomes, de cabeça, fez o quinto. A festa era absurda no Arruda, mesmo debaixo de chuva. Há tempos que uma torcida não ficava tão alegre, tão em êxtase com a seleção como aquela. E há tempos que os jogadores não demonstraram tanta alegria em campo com a amarelinha.
Ao fim do primeiro tempo, a torcida aplaudiu efusivamente os jogadores na saída ao intervalo, enquanto os atletas se abraçavam orgulhosos do triunfo enorme. “Acho que fizemos uma das melhores partidas. Entramos com tanta garra que você pode olhar o jogo aí. Brincamos de jogar bola”, comentou Bebeto, anos depois, ao GE.
Segundo tempo – “Seis”sacional!

Com a vitória garantida, o Brasil não precisou se esforçar na etapa complementar. Tocando a bola com inteligência, o time canarinho administrou o placar e, após algumas tentativas frustradas da Bolívia, Raí recuperou a bola no meio de campo, aos 14’, e iniciou contra-ataque com Bebeto, que deixou na esquerda com Müller, este cruzou, a zaga bateu cabeça e Bebeto apareceu por ali para chutar e fazer 6 a 0. Nem a expulsão de Dunga, aos 33’, após falta em Carlos Borja, atrapalhou a festa, que seria ainda maior se o goleiro boliviano não tivesse defendido um chutaço de Müller dentro da área.
O jogo seguiu sem sustos para o Brasil e, ao apito final, a festa iniciada ainda no primeiro tempo foi consumada. A vaga na Copa estava mais perto! Como ficou mais perto o torcedor de sua seleção naquele dia histórico. Afinal, a partir dali, o tetra passou a ser uma realidade, em uma virada de chave que mudou a trajetória daquela equipe. Um ano depois, 10 dos 11 atletas que estiveram em campo naquela tarde do Recife estavam no Rose Bowl para a grande final da Copa, diante da Itália. Eles se lembraram da torcida no Arruda. Dos mais de 95 mil torcedores. Da paixão. Da alegria. E, com tudo isso na memória e no coração, venceram o tetra. Foi por eles. E por milhões. O tetra começou no Recife, em 29 de agosto de 1993.
Pós-jogo: o que aconteceu depois?
Brasil: a seleção goleou a Venezuela na partida seguinte por 4 a 0 e foi para a última rodada precisando de um triunfo sobre o Uruguai para ficar com a vaga. Com Romário de volta, o Brasil bateu a Celeste por 2 a 0, em um jogo épico do baixinho, e garantiu sua vaga nos EUA com a primeira colocação, um ponto à frente a segunda colocada, a Bolívia. Nos EUA, os jogadores brasileiros decidiram que, em caso de título, a primeira parada na viagem de volta seria no Recife. Dito e feito. Após derrotar a Itália nos pênaltis, o Brasil foi até o Recife com a taça de campeão mundial e milhares de pessoas pararam a capital pernambucana. Um cartaz icônico com os dizeres “Brasil 6×0 Bolívia: o tetra começou aqui” sintetizou aquele momento, que arrancou lágrimas de Parreira na época. “Foi a primeira vez que eu chorei. Antes da Copa, durante a Copa, campeão do mundo, você tá tão tenso que não deu pra relaxar. Só quando a gente chegou aqui em cima em Recife, eu me lembro até hoje. Não sai da cabeça”, disse o treinador, ao GE, em 2023.

Bolívia: a seleção alviverde perdeu para o Uruguai por 2 a 1 seu compromisso seguinte, fora de casa, e empatou em 1 a 1 com o Equador, também fora, resultados que garantiram a equipe boliviana no Mundial graças ao segundo lugar. Nos EUA, a equipe de Etcheverry não conseguiu repetir o brilho das Eliminatórias e terminou na lanterna de seu grupo após perder para a Alemanha (1 a 0), empatar com a Coreia do Sul (0 a 0) e perder para a Espanha (3 a 1). Anos depois, em 1997, os bolivianos tiveram uma grande chance de tentar um troco na seleção brasileira quando enfrentaram a equipe canarinho na final da Copa América, em La Paz. No entanto, mesmo jogando em casa, com a famigerada altitude e vários remanescentes do duelo de 1993, a Bolívia perdeu de 3 a 1 e foi obrigada a ver outra festa canarinho…

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Lembro desse jogo como se fosse agora e na boa foi o melhor primeiro tempo da história do brasil amigos pois parecia a encarnação do carrossel holandês de 74 misturado com a máquina magiar húngara de 54 e com tanto quatro em 94 deu tetra kkkk.ai Guilherme antes de viajar pra copa o brasil recebeu a Argentina no arruda em Recife e com dois gols do Bebeto ganhou mas foi um dos jogos mais violentos entre eles com incríveis 68 faltas e fica a deixa.