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Jogos Eternos – Alemanha Oriental 1×0 Alemanha Ocidental 1974

Data: 22 de junho de 1974

O que estava em jogo: a vitória e uma melhor colocação no Grupo 1 da Copa do Mundo da FIFA de 1974

Local: Volksparkstadion, Hamburgo, Alemanha Ocidental

Árbitro: Ramón Barreto (URU)

Público: 60.350 pessoas

Os Times:

Alemanha Oriental: Jürgen Croy; Bernd Bransch, Siegmar Wätzlich, Gerd Kische e Konrad Weise; Lothar Kurbjuweit, Hans-Jürgen Kreische, Reinhard Lauck e Harald Irmscher (Erich Hamann); Jürgen Sparwasser e Martin Hoffmann. Técnico: Georg Buschner.

Alemanha Ocidental: Sepp Maier; Berti Vogts, Schwarzenbeck (Höttges), Beckenbauer e Paul Breitner; Bernhard Cullmann, Wolfgang Overath (Netzer) e Uli Hoeness; Grabowski, Gerd Müller e Heinz Flohe. Técnico: Helmut Schön.

Placar: Alemanha Oriental 1×0 Alemanha Ocidental. Gol: Sparwasser-AOR, aos 32’ do 2º T.

 

“A Guerra Fria no Futebol”

Por Guilherme Diniz

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha viu os Aliados – EUA, Reino Unido, França e União Soviética – ocuparem seu território até uma nova ordem ser estabelecida para o país se reestruturar. Só que o mundo era outro. Estava dividido entre o ocidente e o oriente. Capitalistas e socialistas. Isso fez com que a Alemanha passasse a ser dividida em dois países, a Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha), aliada aos EUA e aos ideais do ocidente, e a Alemanha Oriental (República Democrática da Alemanha), aliada do bloco soviético, que adicionou não só a RDA, mas vários outros territórios da Europa Central e Oriental libertados da Alemanha nazista. A Alemanha Oriental foi oficializada de vez em 07 de outubro de 1949. A cidade de Berlim, localizada dentro da zona soviética, também foi dividida e, em 1961, a construção do Muro de Berlim tornou essa separação física e simbólica ainda mais dramática.

Essa divisão separou tudo, incluindo esportistas e a própria seleção de futebol germânica, que passou a ser diferenciada por Ocidental e Oriental a partir dos anos 1950, quando ambas começaram a disputar as competições de maneira mais regular. A equipe Ocidental, por estar em uma região maior do país e com os principais clubes, acabou beneficiada e se deu bem, vencendo inclusive a Copa do Mundo de 1954 e chegando ao vice-campeonato de 1966. Já a Oriental só foi disputar sua primeira partida em 1952 e jamais flertou com uma vaga na Copa. Isso até chegar 1974, quando a FIFA realizou em território alemão-ocidental o Mundial. E, como direito do país-sede, a Alemanha Ocidental tinha vaga garantida. A Oriental? Não.

Só que a RDA brigou por sua vaga dentro de campo e conseguiu a vaga no Mundial. O tempo passou e, no sorteio dos grupos, quis o destino que Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental se enfrentassem. Seria um confronto inédito, tenso e aguardado por todos. A segurança foi reforçada como nunca para o dia do jogo, em Hamburgo. Havia medo de deserção de torcedores, hostilidade. Mas, felizmente, houve apenas futebol. E, quando a bola rolou, a favorita Alemanha Ocidental perdeu para a Oriental por 1 a 0, em gol de Sparwasser no segundo tempo. Naquele dia, o mundo viu a Guerra Fria nua e crua em um gramado de futebol: a divisão que provocou o confronto entre um mesmo país. É hora de relembrar um dos jogos mais pitorescos (e com muito pano de fundo) da história das Copas: Alemanha Oriental 1×0 Alemanha Ocidental 1974.

Pré-jogo

Sem vaga garantida na Copa de 1974, a Alemanha Oriental lutou pelo lugar que deveria ser seu em condições normais (e sem Guerra Fria) em campo, nas Eliminatórias europeias. Os germânicos estavam no Grupo 4, ao lado de Romênia, Finlândia e Albânia. Com um time muito bom e formado com base nos principais times do lado oriental, o Carl Zeiss Jena e o Magdeburg – que venceria em 1974 a Recopa da UEFA -, a seleção comandada pelo técnico Georg Buschner começou muito bem sua caminhada e venceu a Finlândia, em casa, por 5 a 0 e derrotou a Albânia por 2 a 0. No terceiro jogo, os alemães perderam para a Romênia por 1 a 0, fora de casa, mas golearam a Finlândia na sequência por 5 a 1, deram o troco na Romênia e venceram por 2 a 0, em casa, e bateram a Albânia no último jogo do grupo por 4 a 1.

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O famigerado Muro de Berlim: símbolo de um país dividido.
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As Alemanhas: o lado ocidental, em azul, e o lado oriental, em vermelho. Em amarelo, a cidade de Berlim.
 

Com cinco vitórias e uma derrota em seis jogos, 18 gols marcados e três sofridos, a Alemanha Oriental se classificou para uma Copa pela primeira vez na história, confirmando a ótima fase de seu futebol e de nomes como Bernd Bransch, Jürgen Pommerenke, Hans-Jürgen Kreische, Joachim Streich – artilheiro das Eliminatórias da UEFA daquele ano com 7 gols, ao lado de lendas como Johan Cruyff (HOL) e Gigi Riva (ITA) – Jürgen Sparwasser e Martin Hoffmann. 

A classificação em si foi uma enorme conquista para a RDA, em especial para o bloco soviético, que via com frequência os clubes do país perderem para vários adversários do ocidente, isso até o Magdeburg levantar a Recopa da UEFA de 1974 com uma campanha histórica e com o talento de jogadores que foram convocados para o Mundial, caso de Pommerenke, Sparwasser, Seguin e Hoffmann. O Magdeburg ainda contava com a participação na Supercopa Europeia contra o vencedor da Copa dos Campeões, o Bayern München, mas o duelo foi vetado ao Magdeburg pela federação de futebol da Alemanha Oriental – na época, a desculpa foi “falta de datas”. 

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Sparwasser, estrela da Alemanha Oriental e do Magdeburg.
 

Contudo, o acaso fez com que o confronto acontecesse nas oitavas de final da Copa dos Campeões da temporada 1974-1975. No jogo de ida, no Estádio Olímpico de Munique, o Magdeburg abriu vantagem de 2 a 0 no primeiro tempo. Porém, na etapa complementar, o Bayern, com o maior esquadrão de sua história, virou o jogo com dois gols de Gerd Müller e um de Wunder e venceu por 3 a 2. No jogo de volta, uma derrota por 2 a 1 em casa eliminou o Magdeburg.

Falando em Bayern, o clube de Munique era, ao lado do Borussia Mönchengladbach, a base da seleção da Alemanha Ocidental, que vinha em uma notável ascensão naqueles anos 1970 e conquistado em 1972 a Eurocopa. Com craques como Sepp Maier, Beckenbauer, Berti Vogts, Paul Breitner, Günter Netzer, Overath, Uli Hoeness e Gerd Müller, a seleção do técnico Helmut Schön era fortíssima e uma das favoritas ao título. Sem precisar disputar as Eliminatórias, a Nationalelf se preparou como nunca para a Copa e não teve problemas – bem, apenas um interno, por conta de desavenças entre Beckenbauer e Netzer, com o Kaiser ganhando o jogo de braço na liderança do elenco, o que causou a reserva de Netzer, que só jogaria alguns minutos durante a Copa – curiosamente o duelo contra a Alemanha Oriental.

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Breitner e Beckenbauer, grandes nomes da Alemanha de 1974.
 

Quando os grupos da Copa foram sorteados e as Alemanhas entraram em rota de colisão, o duelo era tido como o mais importante para o lado oriental, mesmo sendo o último das equipes na primeira fase e com o futuro de ambas podendo já estar definido àquela altura. Em suas estreias, ambas venceram: a Ocidental derrotou o Chile por 1 a 0 e a Oriental venceu a Austrália por 2 a 0. Na segunda rodada, a Ocidental venceu a Austrália por 3 a 0 e a Oriental só empatou com o Chile em 1 a 1. 

Tais resultados deram a vaga antecipada à Alemanha Ocidental, que só não sabia em qual posição iria ficar. Já a Oriental ainda corria risco de ser eliminada, pois o Chile tinha pela frente a eliminada Austrália e, se vencesse por uma boa margem de gols e a Alemanha Oriental perdesse para a Ocidental, os sulamericanos é que ficariam com a vaga – já que na época as vitórias ainda valiam dois pontos e não três. Mas o jogo dos chilenos aconteceu antes do das Alemanhas e terminou empatado em 0 a 0. Ou seja, a partida entre os vizinhos serviria apenas para determinar quem seria o primeiro colocado e quem seria o segundo colocado. Parecia pouco, mas era tudo.

Ser líder naquela chave significava enfrentar uma chave mais difícil na segunda fase, que seria composta por dois grupos com quatro equipes cada, com os vencedores de cada grupo classificados para a final. E os possíveis adversários do primeiro colocado, após os resultados dos outros grupos e o chaveamento predefinido pela FIFA, poderiam colocar Brasil, Argentina e Holanda no caminho, simplesmente os mais difíceis rivais que qualquer uma das Alemanhas poderia ter. Já o segundo colocado poderia ter pela frente equipes como Iugoslávia, Suécia e Polônia, bem mais tranquilos do que o primeiro trio, com exceção da Polônia, que tinha na época a melhor seleção de sua história.

Isso fez com que muitos prevessem um jogo mais brando da Alemanha Ocidental, enquanto que do lado Oriental uma vitória seria algo único e fundamental para o orgulho soviético. No entanto, aquele jogo teria, sim, disputa. Principalmente por ser o primeiro envolvendo as duas seleções principais das Alemanhas e o primeiro desde o duelo entre ambas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, quando a Alemanha Oriental, jogando com seu time principal – pois seus atletas não eram profissionais, como em todo bloco soviético -, venceu a Alemanha Ocidental – jogando com sua equipe de juniores – por 3 a 2 no Estádio Olímpico de Munique tomado por 80 mil torcedores. 

alemanha oriental x alemanha ocidental 1972

Naquele jogo, Pommerenke, Streich e Vogel fizeram os gols dos orientais, enquanto Ottmar Hitzfeld (que mais tarde seria um dos mais vitoriosos técnicos da Alemanha) e Uli Hoeness (este então com 20 anos e que estaria no elenco da Copa de 1974) fizeram os gols da Alemanha Ocidental. Os orientais terminaram com a medalha de bronze, enquanto os ocidentais foram eliminados. 

A preparação para aquele jogo, assim como para a Copa do Mundo de 1974, foi cercada de medo e reforços em segurança. As autoridades da Alemanha Ocidental queriam evitar a repetição da violência chocante dos já citados Jogos Olímpicos de 1972, quando o grupo militante palestino Setembro Negro assassinou cinco atletas israelenses e seis treinadores. Pouco antes da Copa, o consulado chileno em Berlim foi alvo de um ataque incendiário, o que fez com que os sul-americanos treinassem em um campo cercado por arame farpado. Enquanto isso, a Escócia estava preocupada com o IRA e havia também o temor real de que o grupo Baader-Meinhof estivesse planejando algo grande, após uma carta ameaçadora anunciar que o Volksparkstadion, em Hamburgo e palco do duelo entre as Alemanhas, seria explodido.

O centro de treinamentos da Alemanha Ocidental em Malente, ao norte de Hamburgo, assemelhava-se a uma “fortaleza”, segundo Paul Breitner. Os jornais alemães lembraram que Helmut Schön havia nascido no lado oriental e treinado equipes do lado soviético antes de fugir para o ocidente. Por isso, ele não queria, mas “precisava” vencer os orientais para ir à segunda fase com mais tranquilidade e acabar com as intrigas do elenco, que ainda negociava valores da premiação em caso de título com a federação alemã – os atletas queriam 100 mil marcos cada um, mas a federação oferecia apenas 30 mil. No fim, chegou-se ao consenso de 70 mil marcos.

Alemanha Oriental 1x0 Alemanha Ocidental 1974
As seleções entrando em campo. Foto: Imago
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O policiamento foi reforçado para o duelo de Hamburgo e os 1500 torcedores da Alemanha Oriental no Volksparkstadion foram escolhidos de maneira criteriosa pela polícia, para maior controle e evitar fuga de possíveis desertores ao ocidente – ou seja, foram ver o jogo apenas apoiadores do regime soviético. Mesmo com o clima político delicado, o momento entre os países era relativamente menos tenso graças à Ostpolitik, política de aproximação promovida pelo chanceler da Alemanha Ocidental, Willy Brandt.

Quando as seleções entraram no gramado, mais de 60 mil torcedores viam duas seleções que deveriam ser uma só. Era um duelo bizarro entre um mesmo país. Um mesmo idioma. Os gritos de “Deutschland, Deutschland” que ecoavam das arquibancadas eram para qual país? Era uma situação inusitada, histórica, constrangedora, triste. Era a Guerra Fria escancarada no maior palco do futebol mundial.

Primeiro tempo – Nem tão favoritos

Quando o árbitro uruguaio Ramón Barreto apitou o início da partida, Gerd Müller tocou a bola para Overath e o jogo entre as Alemanhas teve início. A tensão era palpável e o desejo de vitória existia em ambos os lados, mas também a consciência da pressão que os 22 jogadores sofriam, cada um representando uma doutrina, uma nação. Ninguém queria cometer erros e a cautela era vista nos ataques de ambos os times. As divididas eram brandas, sem violência, e os ânimos bem controlados, com respeito mútuo.

Era compreensível, mas isso fez com que o primeiro tempo da partida se tornasse um tanto monótono. A Alemanha Oriental marcou forte, fechou espaços e dificultou bastante a circulação de bola da Ocidental. Chances reais foram poucas, com a primeira vindo dos pés de Flohe, em chute da entrada da área que passou perto do goleiro Croy. Em outro lance, na metade do primeiro tempo, Beckenbauer deu um passe perfeito para Gerd Müller, que avançou pela esquerda e cruzou rasteiro, mas Grabowski perdeu a chance embaixo do travessão, após ser interceptado cirurgicamente por Bransch. Minutos depois, Paul Breitner recebeu boa bola na esquerda, mas seu chute foi muito longe do gol.

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Foto: picture alliance / ZB | Werner Schulze
 
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O gol perdido da Alemanha Oriental.
 

Apesar dessas três chances, o jogo era travado, tenso, nervoso. A Alemanha Ocidental tinha mais posse, mas pouca fluidez. A Alemanha Oriental parecia confortável com esse cenário. Até que, já nos minutos finais, Kurbjuweit cobrou lateral, deixou com Lauck e este atraiu a marcação e o goleiro Sepp Maier para o canto. O meia cruzou para a área e Kreische recebeu completamente livre, na pequena área, mas o camisa 10 conseguiu isolar a bola de maneira inacreditável! 

Tempo depois, foi a vez de Lauck receber pela ponta-esquerda, avançar e chutar cruzado, tirando tinta da trave de Sepp Maier. A Alemanha Oriental, mesmo com poucas chances, levava perigo real ao gol da Ocidental, que não conseguiu transformar sua dominância, habilidade e volume de jogo em gols. Ao término do primeiro tempo, o 0 a 0 mantinha a Ocidental em primeiro lugar do grupo e a Oriental em segundo. 

Segundo tempo – A vitória improvável

As equipes voltaram sem alterações, apenas com uma mudança curiosa: o goleiro Sepp Maier trocou sua camisa preta por uma verde, talvez para não causar confusão com o uniforme do árbitro. Com a bola rolando, a Alemanha Ocidental continuou sua pressão pelo gol e criou uma boa oportunidade pela esquerda, quando Gerd Müller deixou com Grabowski e este chutou por cima do gol. A equipe de Helmut Schön enfrentava uma sólida muralha azul de defensores que bloqueava qualquer finalização, e o empate começou a parecer cada vez mais inevitável.

As autoridades de Berlim Oriental teriam que se contentar com um empate honroso e a classificação para a próxima fase, enquanto a Ocidental via uma vitória tida como certa e até por goleada virar uma igualdade bem decepcionante e que gerava dúvidas quanto ao sucesso do time no restante da competição.

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Foto: picture-alliance / dpa | Werner Baum
 

A Alemanha Oriental, porém, tentava em chutes de fora da área e explorava os espaços que a Ocidental deixava em contra-ataques. Com pouco mais de 65 minutos jogados e alguns jogadores começando a demonstrar cansaço, o técnico oriental Georg Buschner substituiu o meio-campista Harald Irmscher por Erich Hamann – doze minutos depois, a mudança se provaria crucial. No outro banco de reservas, Schön também mexeu e tirou o zagueiro Hans-Georg Schwarzenbeck, que frequentemente dava a estabilidade necessária à defesa para que Beckenbauer pudesse se lançar ao ataque, e colocou Horst-Dieter Höttges. O treinador também substituiu Overath pelo habilidoso Günter Netzer. 

Sem grandes emoções ofensivas, o jogo mudou completamente aos 77’. Tudo começou no campo de ataque da Alemanha Ocidental, quando Uli Hoeness tentou cruzar de costas para o gol e a bola sobrou tranquila para o goleiro Croy, que engatilhou um contra-ataque rápido pela direita, com Hamann, que tinha entrado há pouco tempo e esbanjava fôlego. O meia avançou com liberdade até pouco depois do meio de campo e viu a chegada de Sparwasser. Hamann fez o lançamento pelo alto, Sparwasser dominou com a cabeça, ajeitou com o peito, ganhou da marcação de dois ocidentais à sua frente, venceu Beckenbauer na corrida e chutou forte, alto, sem qualquer chance para o goleirão Sepp Maier: 1 a 0.

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O lendário gol. Foto: AFP via Getty Images
 

Sparwasser celebrou como se tivesse feito um gol em uma final de Copa, dando uma cambalhota, algo que ele admitiu depois “nunca ter feito antes na vida”. Metade do time foi celebrar com ele na beira do gramado, enquanto nas arquibancadas os poucos torcedores do lado oriental celebravam tremulando suas bandeiras e vibrando. Os ocidentais demonstraram incredulidade e desapontamento. Era o castigo pelas chances desperdiçadas no primeiro tempo e pela letargia naquela etapa final. Havia pouco tempo para tentar a virada.

A Alemanha Ocidental tentou na base dos chuveirinhos e chutes de longa distância, mas nada ameaçou o goleiro Croy, exceto uma falta cobrada por Uli Hoeness da entrada da área, mas muito bem defendida pelo camisa 1 oriental. Nos segundos finais, a Alemanha Oriental quase entregou o ouro em uma saída errada de bola, mas conseguiu se salvar. E, ao apito do árbitro, os jogadores vestindo azul celebraram a vitória histórica, com um batalhão de fotógrafos entrando no gramado para captar aquele momento único.

“Foi (uma vitória) importante porque era a Copa do Mundo e porque era Alemanha contra Alemanha. […] Mas é claro que foi glorificado pelos políticos, mas isso acontece em todo lugar. Todos os países tentam tirar proveito político do sucesso esportivo”, comentou anos depois o goleiro Croy sobre o triunfo de sua equipe.

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Foto: picture-alliance / dpa | Werner Baum
 

A vitória da Alemanha Oriental foi uma surpresa enorme na época e tida como zebra, pois a Alemanha Ocidental era superior, embora não tanto quanto esperavam. A outra surpresa após o jogo foi a reação dos jogadores. Não houve tensão nem intrigas, muito pelo contrário, como lembrou o meio-campista oriental Hans-Jürgen Kreische. 

“Após o apito final, todos os jogadores trocaram de camisas, embora não tenhamos feito isso em campo porque oficialmente era proibido. Mas nos demos muito bem. Afinal, falávamos a mesma língua. Foi uma partida difícil, mas justa”.

Do lado ocidental, Gerd Müller lembrou ao site da FIFA anos depois que “foi um inferno em nosso campo de treinamento quando perdemos. Helmut Schön estava de bom humor, e ficamos acordados até tarde para tentar descobrir como havíamos perdido”. O fato é que aquele duelo ficou marcado na história como um dos mais icônicos e até fascinantes da história das Copas. O dia em que a Guerra Fria fez um país dividido jogar contra si mesmo.

Pós-jogo: o que aconteceu depois?

Alemanha Oriental: terminar na liderança do grupo teoricamente daria à Alemanha Oriental vantagens na segunda fase. Mas o critério de classificação da época era diferente e a equipe teve o azar de enfrentar Holanda, Brasil e Argentina na luta pela vaga na final. Na primeira partida, os orientais perderam para o Brasil por 1 a 0 (gol de Rivellino) e, no duelo seguinte, não ofereceram qualquer resistência contra a Holanda de Cruyff, que bateu os orientais por 2 a 0. Eliminada, a RDA encerrou sua participação com empate em 1 a 1 diante da Argentina.

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Matthias Sammer (terceiro na foto, com a bola), craque da Alemanha Oriental e que brilhou com a camisa da Alemanha reunificada. Foto: Getty Images.
 

Nos anos seguintes, o país ainda teve outro momento de brilho nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976, quando conquistou a Medalha de Ouro na final diante da Polônia, vencendo por 3 a 1. Em 1980, a RDA ficou com a Prata nos Jogos de Moscou, que simbolizou o fim da era de ouro da seleção, que nunca mais conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo e também não enfrentou mais a vizinha Ocidental. Com a reunificação da Alemanha, em 1990, a seleção oriental deixou de existir e disputou sua ultima partida em 12 de setembro de 1990, em Bruxelas, contra a anfitriã Bélgica, em jogo que seria válido pelas Eliminatórias da Eurocopa de 1992, mas acabou virando um amistoso por conta do fim da seleção. E a RDA venceu por 2 a 0, com dois gols de Matthias Sammer, que tempo depois vestiria a camisa da Alemanha reunificada e seria um símbolo da conquista da Eurocopa de 1996.   

Alemanha Ocidental: a segunda colocação acabou dando aos comandados de Helmut Schön uma trajetória mais fácil na Copa. A equipe derrotou a Iugoslávia por 2 a 0, a Suécia por 4 a 2 e garantiu a vaga na final ao vencer a Polônia por 1 a 0. Na grande decisão de Munique, os ocidentais venceram de maneira surpreendente a favorita Holanda por 2 a 1 e celebraram o bicampeonato mundial.

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Muito se falou sobre a suposta “entrega” da Alemanha Ocidental naquele jogo contra a vizinha, mas isso jamais foi comprovado. Em 2003, o jornalista alemão Ulrich Hesse-Lichtenberger disse no livro Tor! The Story of German Football (Gol! A História do Futebol Alemão) que essa teoria é “uma das alegações mais absurdas já feitas em relação ao futebol”. Segundo o autor, “a Alemanha Oriental não era um adversário normal e o jogo não era apenas uma partida qualquer, mas uma ocasião com ressonância histórica profunda”.

A Alemanha seguiu forte nos anos seguintes e, nos anos 1980, venceu outra Eurocopa (em 1980) e disputou três finais de Copa do Mundo consecutivas – 1982, 1986 e 1990 -, ficando com os vices nas duas primeiras e vencendo a última, curiosamente no ano da reunificação. A partir dali, o país virou um só e manteve a sina competitiva, demonstrada já em 1996, quando levantou o tricampeonato da Eurocopa com atletas do ocidente e do oriente. Enfim, de uma só Alemanha. 

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1 COMENTÁRIO

  1. Curioso até hoje em muitas publicações sobre a Copa de 74 se fala que a Alemanha de Beckenbauer tirou o pé e se deixou perder para pegar uma chave mais fácil na segunda fase mas eu revi o jogo e eles atacaram muito realmente tentando vencer e foram vítimas dos contra ataques bem elaborados do time Oriental mas ainda fica a dúvida em muitos.E no fim como disse Jurgen Sparwasser: Se na minha lápide estiver escrito apenas Hamburgo 1974 todos vão saber quem está lá embaixo.Muito bom mesmo.

Comentários encerrados.

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