Por Guilherme Diniz
- Nome: Estádio Palestra Italia (sim, a palavra Italia era sem acento)
- Localização: São Paulo, SP, Brasil
- Inauguração: 03 de maio de 1902
- Fechado em 10 de julho de 2010
- Partida Inaugural: Mackenzie 2×1 Germânia, 03 de maio de 1902
- Proprietário: SE Palmeiras
- Capacidade: 27.650 pessoas
- Recorde de público: 40.283 pessoas no jogo Palmeiras 1×0 XV de Piracicaba, 18 de agosto de 1976
Ao longo de mais de um século, ele foi um dos principais palcos esportivos de São Paulo. Se transformou em um verdadeiro templo. Abrigou a primeira partida oficial de futebol do Brasil. Os maiores esquadrões da história do Palmeiras. Craques da mais alta estirpe, de Romeu Pellicciari a Ademir da Guia, passando por Evair, Edmundo, Rivaldo, Alex e companhia. Sempre acolheu o torcedor palestrino de maneira plena, que ia de todos os jeitos até aquele local onde o Verdão levantou 16 títulos e viveu momentos de alegria, tristeza e emoção. Antes da Rua Turiassu ser o endereço da já consagrada arena alviverde conhecida atualmente como Nubank Parque, o Estádio Palestra Italia, também conhecido como Parque Antarctica, foi o caldeirão que fez do Palmeiras o gigante que é hoje, em uma história que mistura imigração, industrialização, paixão popular e transformação urbana. É hora de relembrar.
Sumário
Da recreação ao futebol
Poucos estádios “nascem” antes de um clube. Pois o Palestra Italia inverteu a ordem natural e já existia muito antes do Palmeiras. Tudo começou no final do século XIX, quando a Companhia Antarctica Paulista, que originalmente produzia cerveja e posteriormente estendeu sua participação no ramo de bebidas, passando a industrializar, também, refrigerantes, decidiu criar em uma parte de seu amplo terreno na Água Branca um parque para os mais diversos fins. Com isso, em 1902, foi aberto ao público geral – e não só aos funcionários da empresa – o Parque da Antarctica Paulista, uma área de 300 mil metros quadrados com enorme área verde, jardins, lagos, espaços para piquenique, bailes, reuniões, restaurantes, pistas de atletismo, quadras de tênis e campo de futebol.

Falando em campo de futebol, ele passou a ser um dos mais requisitados do local e começou a ser alugado pela Antarctica para a prática do esporte já em 1902, graças à popularização do futebol como um todo. O primeiro jogo aconteceu entre o Mackenzie College e o Sport Club Germânia, com vitória do Mackenzie por 2 a 1, no que foi o primeiro jogo oficial de futebol no Brasil e válido pelo primeiro campeonato oficial do país, o Campeonato Paulista.
O Germânia foi o primeiro locatário do campo para treinos e partidas, mesmo com o espaço ainda sem arquibancadas ou estrutura de um estádio propriamente dito. O Parque Antarctica virou referência também para a prática de diversas atividades ao ar livre, como lutas de boxe e corridas de automóveis – em 27 de julho de 1908, o local serviu como ponto de chegada da primeira corrida de carros realizada no Brasil e, em 19 de fevereiro de 1911, foi realizado ali o primeiro vôo da América Latina, quando um avião de correio partiu e voltou ao Parque, inclusive com presença de público pagante para acompanhar a exibição.
O início do namoro com o Palestra
Em 1914, o então chamado Palestra Italia (sem acentos, como o futuro nome do estádio) foi fundado pelo imigrante italiano Luigi Cervo e começou a disputar jogos de futebol na capital. Após estrear em competições oficiais em 1916, o Palestra sublocou o Parque Antarctica do América FC, então locatário do campo, em 1917, a fim de mandar jogos do Campeonato Paulista no local. A estreia do time de imigrantes italianos foi em 21 de abril de 1917, com goleada palestrina sobre o Sport Club Internacional-SP por 5 a 1. O primeiro gol alviverde foi de Caetano e Heitor anotou os outros quatro tentos. Dias depois, o primeiro Derby Paulista aconteceu no Parque, com vitória do Palestra por 3 a 0 sobre o Corinthians, com três gols de Caetano.


Já com capacidade para cerca de 15 mil pessoas, o Parque Antarctica virou objeto de desejo da diretoria do Palestra diante da frágil situação econômica do América FC, que não conseguia alugar sozinho o campo e precisava das sublocações, como a do Palestra, para ficar em dia com a Antarctica. Em 1920, o América se afundou de vez e deixou de existir, o que abriu ainda mais o caminho para o Palestra pensar na compra do espaço. Até que, em 27 de abril de 1920, o clube alviverde conseguiu comprar o terreno do campo de futebol e de boa parte do Parque Antarctica por 500 contos de réis, um valor absurdo para a época e tido como uma loucura por diretores e simpatizantes.
O clube teve que pagar metade à vista (quitada com o auxílio das Indústrias Matarazzo e de doação de diversos sócios e torcedores) e a outra metade em duas prestações anuais de 125 contos de réis. Era uma aposta muito ousada, mas que seria uma das mais acertadas da história não só por dar ao Palestra um estádio próprio em tempos tão remotos, como adquirir um terreno em uma área nobre e bem localizada de São Paulo – e que hoje vale centenas de milhões de reais. Com a venda, a Antarctica decidiu transferir suas instalações para o bairro da Mooca, onde conseguiu ampliar sua produção de bebidas e expandiu seus negócios em definitivo. A companhia ainda garantiu um contrato perpétuo com o clube para a comercialização de bebidas dentro do estádio.
Melhorias e consolidação
De fato, a compra do Parque Antarctica exigiu muito dos cofres do Verdão, que, em 1922, para conseguir pagar a última parcela, teve que vender uma parte do terreno às Indústrias Matarazzo – onde hoje existe um shopping center. Passado o “susto”, o Palestra fez ao longo dos anos uma série de reformas a fim de transformar o Parque Antarctica em uma referência na cidade e oferecer as melhores condições para seu torcedor. O clube substituiu as arquibancadas de madeira pelas de concreto armado, ampliou o alcance das arquibancadas para que elas praticamente fechassem o gramado e criou um setor para a imprensa – foi o primeiro estádio a ter um setor exclusivo para a mídia no Brasil, antes, os repórteres ficavam em meio ao público ou à beira do gramado.


No lado oeste, foi construída uma tribuna coberta, reservada aos associados do clube. Do lado oposto, havia uma outra arquibancada de cimento. Outras novidades para a época eram as instalações existentes na parte da tribuna, como um grande bar para o público e os vestiários das duas equipes e dos árbitros. Mesmo durante as reformas, o clube continuou atuando no local e levantou o Campeonato Paulista de 1926 no Parque Antarctica, além do Paulista Extra de 1926, do Torneio Início do Campeonato Paulista de 1927 e das Taças Competências de 1926 e 1927.
Em 1933, enfim, o Stadium Palestra Italia foi inaugurado oficialmente em 13 de agosto de 1933, quando o Verdão venceu o Bangu por 6 a 0, em jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo. A casa alviverde era na época o maior e mais moderno estádio do país, além de ser o primeiro da capital paulista a ter arquibancadas de concreto. A capacidade total era de 30 mil pessoas. Naquela mesma época, o clube transferiu sua sede social, antes no centro, para os arredores do estádio.
Casa de Academias e novas reformas
A partir de 1933, o Palestra embalou de vez e se transformou em um dos principais clubes não só de SP, mas do Brasil. O clube fez do estádio seu alçapão e colecionou grandes vitórias no local, além de levantar os Paulistas de 1933 e 1936 e o Torneio Rio-SP de 1933. Em 1937, o estádio ganhou iluminação e, em 1949, alambrados. Com a construção do Pacaembu na década de 1940, o Verdão passou a utilizar o estádio em grandes jogos, por ele ter capacidade superior, e deixou o Palestra Italia para partidas com menor demanda.

Isso acabou privando a casa alviverde de abrigar a lendária Arrancada Heroica, quando, em 1942, o Palestra virou Palmeiras e “nasceu” campeão no Pacaembu, após vencer o São Paulo por 3 a 1 no primeiro jogo após sua mudança de nome de Palestra Itália para Palmeiras, devido às consequências da 2ª Guerra Mundial, quando Getúlio Vargas declarou apoio aos países Aliados e começou a reprimir qualquer alusão aos países do Eixo – no qual estava a Itália. Com isso, várias instituições e agremiações tiveram de mudar de nome. Naquele dia 20 de setembro de 1942, o Verdão foi campeão paulista e a frase do técnico Armando Del Debbio ganhou os livros: “O Palestra morre líder, e o Palmeiras nasce campeão”.
Nos anos 1950, com a construção da piscina olímpica, o Palmeiras teve que remover as arquibancadas atrás de um dos gols e, em 1958, o Stadium Palestra Italia foi renomeado para Estádio Palestra Italia, nome que seria utilizado até seu fim. No entanto, o Parque Antarctica sempre foi bastante comum entre torcedores e imprensa, assim como a Vila Belmiro é utilizada em referência ao Urbano Caldeira, etc.

Nos anos 1960 e 1970, o Palmeiras formou esquadrões fabulosos e multicampeões e, apesar de jogar vários jogos decisivos no Pacaembu, também jogou em sua casa. Vários craques desfilaram pelo gramado palestrino e fizeram nascer gerações inteiras de torcedores. Julinho Botelho, Djalma Santos, Ademir da Guia entre outros foram só alguns que brilharam na Primeira Academia palmeirense que conseguiu enfrentar de igual para igual o Santos de Pelé. E foi graças à Academia que, a partir de 1962, após fazer caixa com a venda de Chinesinho para o futebol europeu, que o Palmeiras realizou novas reformas no Palestra Italia.
Durante dois anos e meio, o clube fez a elevação do gramado em cerca de três metros, visando acabar com os alagamentos que ocorriam por ali em dias de chuvas fortes, o que fez o gramado ser apelidado de “Jardim Suspenso”. Embaixo do campo, foram instalados os vestiários e os departamentos médico e administrativo. Além disso, a arquibancada atrás do gol foi unida a uma das arquibancadas centrais, gerando um formato semelhante a uma ferradura que ampliou a capacidade para cerca de 40 mil pessoas.


Apesar das melhorias, o Palmeiras continuou a mandar seus grandes jogos para o Pacaembu e, nos anos 1970, para o Morumbi, que virou o maior estádio do estado. Com isso, só em 1976 que o Palestra Italia voltou a abrigar um título alviverde: o Paulistão daquele ano, que teve ainda o recorde de público da história do estádio: 40.283 torcedores na vitória do Verdão por 1 a 0 sobre o XV de Piracicaba, com gol de Jorge Mendonça. No mesmo ano, o Palestra abrigou o último Derby de sua história, no empate em 1 a 1 entre Verdão e Timão. Dali em diante, os clássicos seriam disputados majoritariamente no Morumbi ou no Pacaembu para, posteriormente, serem realizados nas casas de cada clube a partir dos anos 2010.
Anos 1990: era de ouro e a volta do caldeirão
Mesmo sem jogar muito em sua casa, o Palmeiras conseguiu uma expressiva marca de 68 jogos de invencibilidade no Palestra Italia entre 1986 e 1990, um recorde notável. A partir dali, o clube passou a dar mais importância para sua casa e utilizou o estádio para muitos jogos tanto de torneios nacionais quanto internacionais. Foi no Palestra que o clube aplicou goleadas históricas e realizou jogos memoráveis, como os 6 a 1 sobre o Boca Juniors, na Libertadores de 1994, os 5 a 1 sobre o Grêmio, na Libertadores de 1995, e vários jogos da campanha do Paulistão de 1996, quando o ataque dos 100 gols fez a maior campanha da era do profissionalismo. Apesar de perder a final da Copa do Brasil de 1996 para o Cruzeiro no Palestra, o Palmeiras venceu a Copa Mercosul de 1998 sobre a mesma Raposa no Palestra.


No ano seguinte, em 1999, o Palmeiras levantou sua primeira Libertadores em uma noite mágica no Palestra Italia, quando bateu o Deportivo Cali-COL por 2 a 1 e, nos pênaltis, venceu por 4 a 3 com apoio maciço da torcida, que empurrou o esquadrão de Felipão à Glória Eterna. Mas não foi apenas o Palmeiras que fez a festa em sua casa na época: em 1999, o Flamengo foi campeão da Copa Mercosul após empate de 3 a 3 no Palestra Italia. E, em 2000, o Vasco levantou a mesma competição diante do Verdão na épica virada de 4 a 3 que consagrou o time de Romário e companhia.

Ainda em 2000, o São Caetano usou o Palestra Italia como palco do primeiro jogo da final da Copa João Havelange – o Brasileirão daquele ano – e empatou em 1 a 1 com o Vasco. Na volta, o Azulão acabou perdendo para os cariocas no Maracanã. Em 2004, foi a vez do Santo André utilizar o estádio como “sua casa” para a primeira partida da final da Copa do Brasil, contra o Flamengo, que terminou empatada em 2 a 2. Na volta, no Maracanã, o Ramalhão venceu por 2 a 0 e ficou com o título histórico.
Últimos anos e adeus
Naqueles anos 2000, o Palestra Italia já dava sinais de que precisava de uma reforma ampla ou mesmo um projeto audacioso de renovação. Os torcedores ficavam cada vez mais exigentes e as normas de segurança da FIFA fizeram com que o estádio encolhesse consideravelmente, abrigando pouco mais de 27 mil pessoas na época. Não tinha mais condição de o clube seguir em um estádio acanhado como aquele, mesmo com tanta história e tantas emoções vividas pelos palestrinos ali.

Com isso, logo após a conquista do Campeonato Paulista de 2008 – último título levantado pelo Palmeiras no Palestra -, o Conselho Deliberativo aprovou um projeto de reformas com o intuito de transformar o estádio em uma arena multiuso, mais tarde ratificado pela assembleia dos associados, em 30 de agosto. O novo estádio seria construído no exato local do Palestra, com capacidade para 45 mil pessoas – número até hoje contestado, pois se esperava um estádio para pelo menos 60 mil espectadores – e extremamente moderno, atendendo a todos os padrões da FIFA.
Após a parceria com a WTorre Arenas, do grupo WTorre, o Palmeiras começou a s despedir de sua casa e, em 2010, realizou seus últimos jogos no Palestra. O último jogo oficial foi uma vitória por 4 a 2 sobre o Grêmio, em maio, pelo Campeonato Brasileiro, com os gols do Verdão anotados por Ewerthon (2), Maurício Ramos e Cleiton Xavier. O último jogo em definitivo foi um amistoso contra o Boca Juniors-ARG, adversário clássico do Verdão ao longo dos anos 1990 e 2000, que estragou a festa alviverde e venceu por 2 a 0 diante de 17.786 pessoas.

Era o fim de uma história mais do que centenária e de muitas alegrias. O Palestra Italia começou a ser demolido em 2010 e o novo estádio alviverde, chamado Allianz Parque, nasceu em 2014, ano do centenário do Verdão. O estádio se transformou no principal palco de grandes shows de SP, superando o Morumbi, e uma fonte inesgotável de receita do Palmeiras, que viu suas finanças decolarem e ter um artífice para seu sucesso dentro e fora de campo, principalmente no final dos anos 2010 e nesta década de 2020. Em 2026, o Allianz Parque virou Nubank Parque, cujo naming rights ficará em vigor por cerca de 18 anos.

O que o torcedor do Verdão sente falta na verdade é o aspecto clássico que o atual estádio nunca teve. O Palestra Italia tinha a alma palmeirense, a identidade do clube e deixava o torcedor bem próximo ao gramado e aos jogadores, além de possibilitar uma experiência de futebol completamente diferente do atual, mais focado no conforto e no visual. Mesmo assim, o Palmeiras fez do Nubank Parque sua nova fortaleza e palco de conquistas como os Campeonatos Paulistas de 2020, 2022, 2023 e 2024, da Recopa Sul-Americana de 2022, da Copa do Brasil de 2015 e de 2020, e dos Campeonatos Brasileiros de 2016 e de 2022, mostrando que a alma do Palestra segue ali, viva e inspiradora.
Curiosidades:
- Em 1570 jogos no Palestra Italia, o Palmeiras registrou 1065 vitórias, 317 empates e 188 derrotas, com 3693 gols marcados e 1485 gols sofridos;
- O goleiro Marcos foi o recordista de jogos no Palestra com 212 partidas. Ademir da Guia (184 jogos), Heitor (171 jogos), Galeano (167 jogos) e Velloso (153 jogos) completam a lista;
- Heitor, com 175 gols, foi o maior artilheiro da história do Palestra Itália. Caetano Imparato (72 gols), Luizinho Mesquita (65 gols), Lara (61 gols) e Evair (54 gols) completam a lista;
- Em 1914, o estádio Palestra Italia sediou a primeira partida internacional do Corinthians. E, mesmo ainda não sendo do Palmeiras, tratou de mostrar que ali o Timão não teria vez: os alvinegros perderam por 3 a 0 para o Torino-ITA;
- Foi no Palestra que o Verdão aplicou a maior goleada da história do Derby: 8 a 0;
- Vários shows históricos foram realizados no Palestra Italia. Destaque para as apresentações de Bruce Springsteen (1988), A-ha (1989), David Bowie (1990), Iron Maiden (1992 e 2008), Metallica (1993), Charlie Brown Jr. (1997 e 2006), Evanescence (2007), Rod Stewart (2008), Ozzy Osbourne (2008), Guns N’ Roses (2010) e Aerosmith (2010), este responsável por “encerrar” os grandes shows internacionais da história do estádio.

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