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Estádio Mané Garrincha – Gigante do Centro-Oeste

Por Guilherme Diniz

Nome: Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha (atualmente, Arena BRB Mané Garrincha, por motivos de patrocínio)

Localização: Brasília, DF, Brasil

Inauguração: 10 de março de 1974

Reinauguração: 18 de maio de 2013

Partida Inaugural: CEUB 1×2 Corinthians, 10 de março de 1974

Partida da Reinauguração: Brasília 0x3 Brasiliense, 18 de maio de 2013

Primeiro gol: Vaguinho, do Corinthians

Primeiro gol da reinauguração: Bocão, do Brasiliense

Proprietário: Governo do Distrito Federal

Capacidade: 72.788 pessoas

Recorde de público: 71.244 pessoas no jogo Corinthians 2×0 Flamengo, 01 de fevereiro de 2026

Pouco tempo depois de ser inaugurada, Brasília precisava de um estádio à altura de sua importância política e simbólica. Por isso, no começo dos anos 1970, a cidade ganhou um estádio com capacidade para pouco mais de 40 mil pessoas, que naquele primeiro momento supriu com a demanda da cidade. Porém, ainda faltava um local grande o suficiente, que refletisse a imponência da capital e fosse referência não só para o futebol, mas para grandes eventos. Com isso, em 2013, Brasília ganhou não só um estádio, mas um verdadeiro monumento imponente que se transformou no segundo maior estádio do Brasil, um dos maiores da América do Sul e um dos mais modernos do mundo. Belíssimo, com enormes colunas e uma acústica impressionante, o Estádio Mané Garrincha carrega o nome do eterno Anjo das Pernas Tortas e bicampeão mundial Garrincha, e o faz com maestria, mesmo com as polêmicas em torno dos custos de sua obra. É hora de conhecer a história do Gigante do Centro-Oeste.

Primórdios do Mané 

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O antigo Mané Garrincha.
 

Elaborado com base no projeto de Ícaro de Castro Mello, o primeiro grande estádio de Brasília foi inaugurado em 1974, sob nome Estádio Governador Hélio Prates da Silveira, em alusão ao governador do Estado na época. Com capacidade para pouco mais de 45 mil pessoas, o estádio tinha desenhos simples e lembrava os muitos estádios do Brasil na época, com dois lances de arquibancadas de concreto, uma pista de atletismo em volta do gramado, um setor de arquibancadas cobertas e grama alta. Mesmo inacabado, o estádio foi inaugurado oficialmente em 10 de março de 1974, em partida válida pela primeira rodada do Campeonato Brasileiro daquele ano, entre o CEUB e o Corinthians, que terminou com vitória do Timão por 2 a 1. O primeiro gol foi de Vaguinho, da equipe paulista. 

“Eu tinha 24 anos. Não lembro como foi o gol. Recordo de duas arquibancadas, uma de cada lado, e um vão atrás. Havia muita gente sentada na grama. Nosso Corinthians era um timaço desfalcado e o CEUB, um bom adversário”, recordou Vaguinho ao jornal Correio Braziliense, em 10 de março de 2024. 

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Na inauguração, o Timão venceu o CEUB por 2 a 1. Fotos: Arquivo Nacional
 

Com o novo estádio, a maioria dos grandes jogos da cidade passou a ser realizada ali, enquanto o Pelezão, no Guará, virou palco apenas de jogos menores e de campeonatos amadores até ser desativado na década de 1980. Como boa parte dos clubes do DF não tinha estádio próprio em suas respectivas cidades-satélites, o Estádio Governador Hélio Prates da Silveira virou a grande praça de eventos da cidade, principalmente pela boa localização, no Eixo Monumental, e de fácil acesso a qualquer ponto de Brasília.

Já na década de 1980, mais precisamente em 1983, o estádio mudou de nome para Estádio Nacional Mané Garrincha, em homenagem ao craque Garrincha, que faleceu naquele ano e causou enorme comoção no país. A mudança de nome representou também um rompimento simbólico com o passado político do estádio. Ao substituir o nome de um governador pelo de um ídolo popular, genial e querido pelo povo, Brasília optou por celebrar a arte do futebol, a alegria e a identidade cultural brasileira. Por ter se aposentado em 1972, Garrincha acabou não jogando no estádio.

Anos 1990 e 2000 – eventos, recorde e reconstrução

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Mesmo sem grandes clubes do DF na elite do futebol de maneira regular, Brasília vez ou outra era lembrada para a realização de jogos e eventos esportivos. Em 1991, uma partida das seleções de masters de Brasil e França agitou a capital com a presença de lendas como Zico, Platini, Wladimir, Serginho Chulapa entre outros, e terminou com vitória brasileira por 6 a 1. No mesmo ano, o pugilista brasileiro Maguila colocou em jogo o cinturão de campeão sul-americano contra o chileno Miguel “Foreman” Cea. A luta foi difícil, mas o brasileiro venceu e manteve o título. Por causa de uma briga envolvendo patrocinadores, a luta quase foi cancelada e acabou trazendo prejuízos ao próprio Maguila. Foram pouco mais de 1,5 mil pessoas nas cadeiras improvisadas no centro do gramado colocadas em volta do ringue.

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O ringue da luta entre Maguila e Miguel Foreman Cea. Foto: Antônio Cunha / CB / DA Press
 

Anos depois, em 1998, o Mané Garrincha recebeu 51.200 pessoas, recorde histórico do estádio na época, na partida que decidiu o Campeonato Brasileiro da Série B daquele ano. O Gama, líder do quadrangular, venceu o Londrina por 3 a 0, ficou com a taça e garantiu o acesso à elite diante de sua torcida. 

“Foi uma das histórias mais bonitas que teve no futebol de Brasília. Conseguimos colocar mais de 50 mil pessoas aqui para ver uma final de Série B. E o Gama foi campeão, vencendo o Londrina por 3 a 0. Na Série A, tivemos vários jogos aqui no Mané Garrincha com times grandes. Lotava também. Trazia muito público”, lembrou o ex-zagueiro Gérson, ao globoesporte.com, em 10 de março de 2013.

Com o passar do tempo, a falta de manutenção adequada e a evolução das exigências de segurança fizeram com que o estádio entrasse em declínio. No início dos anos 2000, sua estrutura já apresentava problemas significativos e os próprios times do DF deixaram de utilizar com frequência o estádio. O Brasiliense, por exemplo, em seu auge nos anos 2000, quando disputou até uma final de Copa do Brasil em 2002, jogava mais na Boca do Jacaré, em Taguatinga, do que no Mané Garrincha.

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O Gama no dia do recorde de 1998.
 

Após a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo da FIFA de 2014, o governo do DF viu a oportunidade para incluir Brasília como uma das sedes do Mundial. Para cumprir com as exigências da FIFA, o Mané Garrincha teve que ser completamente reconstruído. O projeto de Eduardo Castro Mello e do escritório alemão Gerkan, Marg and Partner (gmp), responsável por icônicas obras como o Estádio Olímpico de Kiev (UCR), a reforma do Estádio Olímpico de Berlim (ALE), o Waldstadion (ALE) entre outros, redesenhou completamente o Mané Garrincha e transformou o estádio em um imponente palco para mais de 70 mil pessoas, além de ampliar o espaço dos arredores a fim de abrigar restaurantes, parques, estacionamento e muito mais. 

As arquibancadas seriam cobertas e, em volta do estádio, 288 colunas de mais de 50 metros de altura iriam sustentar a cobertura de concreto, as estruturas metálicas, telões, aparelhos de som, entre outros. A expectativa era enorme e o novo Mané seria, de fato, maravilhoso. Mas polêmicas começaram a surgir e quase sepultaram até a homenagem ao nosso eterno craque.

Superfaturamento e comoção

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Orçado em R$ 697 milhões em meados de 2010, ano de sua licitação, o estádio alcançou um custo que superou os R$ 1,6 bilhões (!), o que fez do estádio um dos três mais caros do mundo na época de sua inauguração, em 2013. O governo alegou que o orçamento do contrato inicial não previa itens como cobertura, gramado, placares eletrônicos e assentos. De qualquer maneira, o Tribunal de Contas do Distrito Federal encontrou irregularidades e indícios de superfaturamento causado por vários erros ao longo da obra como:

– Compra indevida de material;

– Cálculos equivocados;

– Perdão, por parte do governo, de multas por atrasos da obra;

– Transporte de peças pré-fabricadas. Um exemplo: a fábrica ficava a 1,5 km do estádio, mas a distância foi calculada em 240 km, entre Goiânia e Brasília;

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O Mané Garrincha, por dentro: imponente e com uma acústica marcante. Foto: André Borges / Agência Brasília
 
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Foto: Ana Volpe / Agência Senado
 

Esse superfaturamento acabou manchando bastante a imagem do estádio e sua obra foi uma das mais polêmicas dentre todas as realizadas para a Copa do Mundo de 2014. E ela aumentou ainda mais quando, em 2010, foi decidido que o nome do remodelado estádio seria Estádio Nacional de Brasília, ignorando completamente o passado. Isso causou uma enorme revolta no meio esportivo e, tempo depois, o nome oficial passou a ser Estádio Nacional Mané Garrincha. Com isso – e o aval da FIFA -, o estádio foi o único da Copa de 2014 a ter um nome em homenagem a um ex-jogador.

Em maio de 2013, ainda incompleto como em sua inauguração lá em 1974, o novo Mané foi reinaugurado na final do Campeonato Candango entre Brasília e Brasiliense, que terminou com vitória do Brasiliense por 3 a 0 diante de 20 mil pessoas. Elza Soares, icônica esposa de Garrincha, participou da cerimônia de abertura e cantou o hino nacional antes da partida. Enfim, o Mané estava de volta. E pronto para uma nova era na capital.

Copa do Mundo, Olimpíadas e grandes jogos

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Higuaín fez o gol da classificação da Argentina diante da Bélgica nas quartas de final da Copa de 2014. Foto: Sky Sports
 

Em junho de 2013, o Mané Garrincha foi palco da partida inaugural da Copa das Confederações da FIFA entre Brasil e Japão, vencida pela seleção canarinho por 3 a 0 diante de 67 mil pessoas, de cara o recorde na história do estádio desde os pouco mais de 51 mil de 1998. Um ano depois, o Mané foi um dos principais palcos da Copa do Mundo e abrigou sete jogos, com destaque para o duelo vencido pela França sobre a Nigéria por 2 a 0, nas oitavas de final; a vitória da vice-campeã Argentina sobre a Bélgica, nas quartas de final, por 1 a 0 (gol de Higuaín); e o triunfo da Holanda de Van Persie, Robben e companhia sobre o destroçado Brasil, na disputa pelo 3º lugar, dias depois do eterno 7 a 1:

  • Suíça 2×1 Equador – Grupo E – 68.351 pessoas
  • Colômbia 2×1 Costa do Marfim – Grupo C – 68.748 pessoas
  • Camarões 1×4 Brasil – Grupo A – 69.112 pessoas
  • Portugal 2×1 Gana – Grupo G – 67.540 pessoas
  • França 2×0 Nigéria – Oitavas de final – 67.882 pessoas
  • Argentina 1×0 Bélgica – Quartas de final – 68.551 pessoas
  • Brasil 0x3 Holanda – Disputa pelo 3º lugar – 68.034 pessoas

Dois anos depois, o Mané recebeu 10 partidas de futebol – sendo sete do masculino e três do feminino – nas Olimpíadas do Rio-2016. A seleção brasileira masculina, medalha de ouro naquele ano, jogou duas vezes no estádio, porém, não venceu: empatou sem gols com a África do Sul e com o Iraque, ambas as partidas pelo Grupo A. Já a medalhista de prata, a Alemanha, goleou Portugal por 4 a 0 no Mané Garrincha, nas quartas de final, diante de mais de 55 mil pessoas. No feminino, a Suécia derrotou a favorita seleção dos EUA nos pênaltis por 4 a 3 – após empate em 1 a 1 – e seguiu rumo à final (perdida para a Alemanha).

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Gabigol ergue a Supercopa de 2020.
 
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Em 2023, foi a vez do Palmeiras, de Raphael Veiga (foto), celebrar o título da Supercopa no Mané Garrincha. Foto: Getty Images.
 

Em 2020, o estádio abrigou a primeira final da Supercopa do Brasil (atualmente Supercopa Rei), após um hiato de décadas sem o torneio dar as caras no calendário nacional. A partida foi disputada entre Flamengo e Athletico-PR e o rubro-negro carioca, vivendo grande fase, venceu por 3 a 0 e levantou o troféu diante de quase 50 mil pessoas. O Mané Garrincha recebeu também outras três finais:

  • 2021 – Flamengo 2×2 Palmeiras (Flamengo 7×6 Palmeiras nos pênaltis);
  • 2023 – Palmeiras 4×3 Flamengo;
  • 2026 – Corinthians 2×0 Flamengo – este jogo teve o maior público da história do estádio, com 71.244 pessoas.

Em 2021, o Banco de Brasília adquiriu os naming rights do estádio e o rebatizou como Arena BRB Mané Garrincha. No mesmo ano, o estádio foi um dos palcos da Copa América, realizada no Brasil de maneira polêmica por ter ocorrido em meio a pandemia da COVID-19 – todos os oito jogos no estádio foram sem público. A campeã Argentina venceu sua partida semifinal, contra a Colômbia, no gramado do Mané nos pênaltis por 3 a 2, após empate em 1 a 1. Messi deixou sua marca e fez o primeiro gol da disputa. A final aconteceu no Maracanã e a Argentina derrotou o Brasil por 1 a 0.

Consolidado no cenário esportivo brasileiro

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Fotos: Arquivo Pessoal
 

Além de finais e grandes jogos, o Mané Garrincha é frequentemente utilizado por clubes de outros estados para partidas do Brasileirão, de campeonatos estaduais e copas regionais. Encravado no Complexo Poliesportivo Ayrton Senna, que inclui também a Arena BRB Nilson Nelson, o Autódromo Internacional Nelson Piquet e outras instalações esportivas, culturais e gastronômicas, o estádio Mané Garrincha já é um dos mais importantes e notáveis estádios do Brasil e palco certo de grandes jogos e eventos. Referência da capital nacional há mais de 50 anos, o estádio acompanhou a evolução do esporte, renasceu e segue lindo e pleno todos os dias e noites no Eixo Monumental. E com a aura inabalável do eterno Mané Garrincha.

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Foto: Arquivo Pessoal
 

Curiosidades:

  • O desde os anos 1980 que o Mané Garrincha recebe apresentações musicais de peso. Entre as mais famosas, destaque para os shows do Menudos (1985), Sting (1987), Legião Urbana (1988), A-Ha (1991), Mamonas Assassinas (1996 –  foi a última apresentação da banda antes do trágico acidente ocorrido em 02 de março daquele ano), Lenny Kravitz (2005), RBD (2006), Iron Maiden (2009), Beyoncé (2013), Whitesnake e Aerosmith (2013), Paul McCartney (2014 e 2023), Kiss (2015), Pearl Jam (2015), Guns N’ Roses (2016), Roger Waters (2023), Andrea Bocelli (2024), Bruno Mars (2024), entre outros;
  • Além da Supercopa Rei, o Mané Garrincha abrigou várias finais estaduais e ainda a final da Copa Verde de 2014, entre Brasília e Paysandu, vencida pela equipe do DF por 7 a 6 nos pênaltis, e até a Recopa Sul-Americana de 2021 entre Palmeiras e Defensa y Justicia-ARG, vencida pelos argentinos por 4 a 3 nos pênaltis;
  • O recorde de público do estádio é de 2026, na final da Supercopa Rei entre Corinthians 2×0 Flamengo, com 71.244 pessoas. Na sequência, vem o jogo da seleção brasileira contra a Colômbia, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, realizado em 20 de março de 2025, com 70.027 pessoas na vitória canarinho por 2 a 1 sobre os Cafeteros.

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