Grandes feitos: Campeão do Campeonato Alemão (1965-1966), Campeão da Copa da Alemanha (1963-1964) e Vice-campeão da Recopa da UEFA (1964-1965).
Time-base: Petar Radenkovic; Manfred Wagner (Bernd Patzke) e Rudolf Steiner; Rudolf Zeiser (Stevan Bena), Alfons Stemmer (Hans Reich) e Otto Luttrop (Željko Perušić); Engelbert Kraus (Peter Grosser), Wilfried Kohlars, Rudolf Brunnenmeier, Hans Küppers (Friedhelm Konietzka) e Alfred Heiß (Hans Rebele). Técnico: Max Merkel.
“A Era de Ouro dos Leões de Munique”
Por Guilherme Diniz
Antes do Bayern München se transformar no maior clube de Munique (e da Alemanha), a cidade da Baviera teve um outro clube que rivalizava com os vermelhos e brigava por títulos: o 1860 München, um dos clubes mais antigos do país. Campeão da Copa da Alemanha em 1941-1942, o Leão conseguiu acabar com um longo jejum de títulos na década de 1960 e, a partir de 1963-1964, fez história ao levantar novamente o título da Copa da Alemanha, conquistar seu primeiro Campeonato Alemão na época 1965-1966 e alcançar a final da Recopa da UEFA de 1964-1965, quando despachou pelo caminho equipes como Porto-POR, Legia Warsaw-POL e Torino-ITA, mas acabou sucumbindo na final diante do West Ham United-ING de Bobby Moore, Martin Peters e Geoff Hurst. Comandado pelo técnico Max Merkel e pelo ídolo Rudolf Brunnenmeier, o 1860 München marcou época com um futebol altamente competitivo e um ataque prolífico que se impunha tanto em casa quanto fora. É hora de relembrar.
Sumário
Para voltar a brilhar no futebol
Fundado em maio de 1860, o TSV (abreviação de Turn- und Sportverein, Associação de Ginástica e Esportes, em tradução livre) 1860 München nasceu como um clube de ginástica e atletismo e se consagrou ao logo das décadas pelos diversos esportes que passou a oferecer aos atletas – hoje, são mais de 50 modalidades. Já o futebol começou a ser praticado no clube em abril de 1899, antes mesmo do Bayern, que foi fundado em 1900. O primeiro grande momento do 1860 aconteceu só em 1931, quando a equipe chegou até a final do Campeonato Alemão – que reunia várias ligas regionais, as Oberligas Norte, Sul, Oeste, Sudoeste e Berlim, com seus campeões disputando a fase final do torneio -, mas foi derrotado pelo Hertha Berlim por 3 a 2.

Só em 1942 que os alviazuis conseguiram seu primeiro grande título ao levantarem a Copa da Alemanha, vencida após triunfo por 2 a 0 sobre o Schalke 04 na final, com um dos gols anotados pelo polonês Wilimowski, primeiro jogador na história das Copas a marcar quatro gols em um só jogo – em 1938 – e único jogador na história a fazer quatro gols na seleção brasileira, exatamente naquele Mundial, no pirotécnico Brasil 6×5 Polônia.
Ainda nos anos 1940 e 1950, os Leões venceram títulos menores até tudo começar a mudar na década de 1960, quando o 1860 München foi um dos fundadores da Bundesliga, a nova liga profissional da Alemanha que passou a ser disputada na temporada 1963-1964. Com regras pouco convincentes na época, o novo torneio estipulava que apenas um clube de cada cidade poderia participar da competição. E, como Munique tinha o 1860 e o Bayern, a vaga acabou caindo no colo do 1860, com o Bayern tendo que começar da segunda divisão. Um fato determinante para a classificação do 1860 München foi a conquista da Oberliga Sul, um dos torneios de regiões que compunham o complexo campeonato nacional antes da Bundesliga.

Disputar a edição inaugural da Bundesliga veio em um momento muito oportuno ao 1860 München, que vinha crescendo novamente no futebol e contava desde 1961 com o técnico austríaco Max Merkel, que incorporou ao time principal grandes talentos das categorias de base dos Leões, entre eles o atacante Rudolf Brunnenmeier, que rapidamente se transformou no principal artilheiro do time e capitão. Além dele, Hans Rebele (atacante), Manfred Wagner (defensor), o ponta Alfred Heiß e o meio-campista Hans Reich foram outros talentos que subiram ao time principal naquele período.
Formando a base
Além de jogadores pincelados das categorias de base, o 1860 München foi certeiro nas contratações. Para o gol, o clube trouxe o goleiro iugoslavo Petar Radenković, que iniciou sua carreira no Estrela Vermelha e vinha de boas temporadas pelo OFK Belgrado até começar a jogar pelos Leões em 1962. Radenković se destacava não só pelas boas defesas, mas também por saber sair jogando com as mãos e pés e iniciar bons contra-ataques. O defensor Rudolf Steiner foi outro que chegou em 1960, após quatro temporadas no clube local SC München von 1906. Hans Küppers, meio-campista do Schwarz-Weiß Essen, chegou em 1961 e o meia Wilfried Kohlars, ex-Eintracht Duisburg, passou a vestir a camisa alviazul em 1963.

Com um elenco renovado e que deixou para trás aquela faceta de equipe envelhecida, o 1860 München começou a ser montado pelo técnico Max Merkel de forma progressiva. O austríaco combinava preparo físico muito acima do padrão da época, futebol vertical, muitos jogadores de ataque e as contratações cirúrgicas para corrigir a defesa, ponto fraco do time nos anos anteriores. O dinheiro para as negociações vinha do apaixonado presidente Adalbert Wetzel, que assumiu o clube em 1952 e começou a investir pesado para transformar o Leão em uma potência. Wetzel, um empresário de sucesso na Alemanha, investiu boa parte de sua fortuna e chegou a hipotecar sua mansão em prol do 1860 München.
O início, claro, não foi fácil. Merkel chegou até mesmo a dizer anos depois que ficou espantado com o estado do departamento de futebol e com os jogadores quando desembarcou no clube em 1961.
“Os jogadores? Terríveis, um desastre. O clube esportivo? Dos vestiários aos campos de treinamento, parecia Carcóvia depois de um bombardeio” , disse Merkel em entrevista publicada no site TZ (Alemanha).
O cenário só mudou após 1962, com as contratações certeiras e a ascenção de Brunnenmeier, Heiß, Küppers e companhia, que cativaram os torcedores com um estilo de jogo ofensivo. Merkel levava frequentemente os jogadores para a concentração a partir de terça-feira e utilizava exercícios com bolas medicinais. Poucos times alemães estavam tão preparados fisicamente quanto o 1860 München naqueles anos 1960. O austríaco ainda incorporou aos treinos o campeão alemão de arremesso de peso Dieter Urbach à preparação física, buscando dar ao time mais força que seus adversários e sustentar um futebol ofensivo e intenso durante muito tempo.

Na temporada 1962-1963, a estreia da Bundesliga e do 1860 no novo torneio, Merkel já contava com a espinha dorsal que faria história. Petar Radenković no gol; Manfred Wagner, Rudolf Zeiser e Otto Luttrop entre os defensores; Peter Grosser e Hans Küppers no meio; e Fredi Heiß, Hans Rebele e Rudi Brunnenmeier no ataque. Com isso, os Leões fizeram um bom campeonato e colecionam resultados expressivos como uma goleada de 9 a 2 sobre o Hamburgo de Uwe Seeler (a maior goleada da competição), um 6 a 1 no Borussia Dortmund, dois 7 a 1, um sobre o Saarbrücken e outro sobre o Schalke 04, e um 5 a 0 sobre o Nuremberg. O problema da equipe foi o desempenho fora de casa, pois os Leões venceram apenas dois jogos dos 15 que disputaram longe de casa.
A zaga ainda não estava alinhada e os Leões sofreram 50 gols em 30 jogos, número muito alto e impossível de se sustentar na briga pelo título. O campeão da Bundesliga inaugural acabou sendo o FC Köln, e o 1860 München terminou na 7ª colocação, com 11 vitórias, nove empates, 10 derrotas, 66 gols marcados, 50 sofridos e 31 pontos (na época, as vitórias valiam dois pontos). Rudolf Brunnenmeier anotou 19 gols e foi o 3º maior artilheiro do torneio, ficando atrás apenas de Uwe Seeler (30 gols) e Friedhelm Konietzka (20 gols). Mas a torcida dos alviazuis teria uma grande alegria naquela temporada 1963-1964.
A glória nacional depois de 22 anos
Na Copa da Alemanha, torneio de tiro curto, com jogos únicos em mandos a definir por sorteio, o 1860 München teve um adversário fortíssimo logo de cara: o Borussia Dortmund, campeão alemão de 1963 e um dos melhores times da Alemanha naquela década de 1960, com nomes como Tilkowski, Breuer, Cyliax, Emmerich e Konietzka, base de um esquadrão que seria campeão da Recopa da UEFA de 1965-1966. Pois o München não se intimidou com o adversário e venceu por 2 a 0 jogando em casa, resultado que classificou os Leões para as oitavas de final, quando enfrentaram o Kaiserslautern também em casa e venceram por 4 a 2. Nas quartas, a equipe enfrentou o Saarbrücken, fora de casa, e venceu por 3 a 1.

Nas semifinais, a equipe enfrentou o surpreendente Altona FC, em Hamburgo, e saiu atrás do placar no segundo tempo. Faltando cinco minutos para o fim, Berti Kraus empatou e levou o duelo para a prorrogação. Nela, a equipe do técnico Max Merkel provou que estava com o preparo físico em dia e marcou três gols, com Luttrop, aos 94′, Brunnenmeier, aos 100′, e Küppers, aos 109′, fechando um categórico 4 a 1 que colocou o 1860 München na grande final.
Dias antes da decisão, Merkel fez seu time treinar todos os dias ao meio-dia em altas temperaturas, já preparando o condicionamento dos atletas para o calor previsto para aquele 13 de junho de 1964 em Stuttgart, palco da final. Os jogadores não gostaram nada disso, claro, e reclamavam bastante com o treinador. Quando contestado, ele dizia:
“Estou feliz que esteja tão quente.” – “Por quê?”, perguntavam os jogadores, intrigados. Merkel dizia: “Porque se eu não estivesse feliz, também estaria quente, aí vocês estariam ferrados”.

Os treinamentos foram cruciais para o desempenho do time na decisão, contra o Eintracht Frankfurt. Wilfried Kohlars, aos 43’, fez 1 a 0 para os azuis. No segundo tempo, Brunnenmeier ampliou, aos 63’, e o placar de 2 a 0 deu o título ao 1860 München, que celebrou uma grande conquista nacional depois de 22 anos de jejum. De quebra, o clube ganhou uma vaga na Recopa da UEFA, então segunda mais importante competição da Europa, atrás apenas da Liga dos Campeões (na época chamada de Copa dos Campeões). Outro destaque foi o atacante Brunnenmeier, artilheiro daquela Copa da Alemanha com 5 gols.
Melhorias e as campanhas em casa
Na temporada seguinte, Merkel elevou o nível de seu time não só preenchendo posições, mas adaptando o elenco às necessidades do sistema. Com isso, Rebele, meia-atacante, virou ponta-esquerda; Rudi Steiner, que começou como atacante, virou defensor e lateral; Wilfried Kohlars começou como atacante graças à capacidade no jogo aéreo e depois passou à defesa, porque seu jogo mais viril encaixava melhor ali; e Manfred Wagner, que havia começado a carreira como ponta-direita, consolidou-se como defensor no 1860 München.
Mas foi a dupla Grosser e Brunnenmeier a grande responsável pela “explosão” ofensiva e de talento do time naquela temporada 1964-1965. Grosser era o cérebro do time, dono de enorme qualidade técnica, visão de jogo e capacidade de encontrar o passe certo para os vários atacantes que o 1860 tinha. Além de ditar o ritmo, ele marcava muitos gols e aparecia bem no ataque. Já Brunnenmeier era o centroavante de enorme entrega, um lutador até o último minuto que brigava com os defensores e atacava continuamente. Na zaga, apesar de o time ficar muito exposto com os constantes ataques, a alternância de atletas por ali dava fôlego para a temporada nos jogos mais complicados.

Na Bundesliga, o título ficou com o Werder Bremen, mas o 1860 München terminou na 4ª colocação com 14 vitórias, sete empates, nove derrotas, 70 gols marcados (melhor ataque) e 50 gols sofridos, com 35 pontos – seis a menos do que o campeão. Os jogos do time, em especial dentro de casa, eram incríveis e repletos de emoção: venceram o Hertha Berlim por 6 a 4; empataram com o Borussia Dortmund em 4 a 4; golearam o Hannover (4 a 0), Karlsruher (9 a 0) e Hamburgo (4 a 1) e, fora de casa, golearam o Karlsruher por 5 a 1.
Brunnenmeier foi o grande artilheiro da competição com 24 gols, além de Peter Grosser também aparecer entre os principais goleadores com 12 tentos. Na Copa da Alemanha, os alviazuis venceram o Wolfsburg por 4 a 3 na primeira fase, mas acabaram eliminados nas oitavas de final pelo Mainz, após empate em 2 a 2 e derrota por 2 a 1 no replay.
A trajetória do vice na Recopa da UEFA
Apesar de ter uma equipe capaz de disputar várias competições, o 1860 München tratou a Recopa como grande objetivo naquela temporada. Era um torneio europeu de prestígio e que poderia fazer do clube o primeiro alemão a levantar um troféu continental na história. Por isso, os comandados de Merkel trilharam um grande caminho até a final. Na primeira fase, vitórias fáceis sobre o Union Luxembourg-LUX por 4 a 0 fora de casa e 6 a 0 em casa. Nas oitavas de final, os alemães tiveram pela frente o Porto-POR, mas conseguiram vencer a ida, em pleno Estádio das Antas, por 1 a 0, gol de Heiß. Na volta, em um Grünwalder Stadion tomado por mais de 36 mil pessoas, o 1860 München abriu o placar novamente com Heiß, aos 37′, e o 2 a 0 no agregado deixou os alemães confortáveis na partida. O gol de Valdir para o Porto não atrapalhou, pois o 2 a 1 colocou a equipe de Munique nas quartas de final.
O adversário seguinte foi o Legia Warsaw-POL, que sempre complicava as coisas sob seus domínios. Só que o 1860 München realizou uma de suas melhores partidas naquela campanha e aplicou sonoros 4 a 0 nos poloneses, com dois gols de Heiß (vivendo excelente fase), um de Grosser e outro de Küppers. E um detalhe: todos os gols saíram no segundo tempo, em mais uma amostra da força física dos alemães. Na partida de volta, o placar sem gols foi suficiente para a vaga na semifinal.

O último desafio antes da final foi o Torino-ITA de Roberto Rosato, Luigi Meroni e Gerry Hitchens. Na primeira partida, em Turim, os Leões sofreram seu primeiro revés e perderam por 2 a 0, com gols de Rosato, aos 9’, e um contra de Luttrop, aos 41’. Precisando de pelo menos dois gols para forçar uma partida desempate, o 1860 München tinha que fazer valer a força de seu estádio – que recebeu mais de 42 mil pessoas. Porém, o técnico Max Merkel preparou uma pequena armadilha psicológica: logo na saída de bola, determinou que vários atacantes do 1860 corressem simultaneamente em direção ao jogador que estivesse conduzindo a redonda. Isso fez com que os italianos ficaram sem entender o que estava acontecendo e que essa jogada incendiou psicologicamente os próprios jogadores do 1860.

Logo aos 12’, Luttrop fez 1 a 0. Heiß, aos 25′, ampliou, e Luttrop, de pênalti, fez 3 a 0, aos 52′. O placar dava a vaga na final ao 1860 München, mas Lancioni, aos 74′, jogou água na cerveja dos alemães e uma partida desempate teve que ser marcada em campo neutro, oito dias depois. O duelo aconteceu em Zurique (SUI) e o 1860 venceu por 2 a 0, com gols de Rebele, aos 60’, e Luttrop, aos 90’, resultado que colocou o time de Munique em uma inédita final europeia.
A decisão da Recopa aconteceu em Wembley, na Inglaterra, e o 1860 München enfrentou um time local: o West Ham United, que teve o privilégio de jogar em casa aquela final. Os Hammers eram favoritos não só por essa condição, mas por terem um grande time com o capitão e lenda Bobby Moore, o meia Martin Peters, o centroavante Geoff Hurst (estes três campeões do mundo com a Inglaterra em 1966), o volante Ken Brown e o técnico Ron Greenwood.


Com mais de 97 mil pessoas, Wembley era praticamente todo azul e grená, por isso, o 1860 München tentou definir cedo, com Brunnenmeier recebendo boas bolas, Grosser chegando em jogadas individuais e Küppers arriscando cruzamentos pela direita. O jogo foi aberto, com chances para ambas as equipes, mas foi o West Ham que soube aproveitar melhor: os ingleses venceram por 2 a 0 com dois gols de Alan Sealey no segundo tempo e praticamente em sequência: um aos 70’ e outro aos 72’. No primeiro, Ronnie Boyce enfiou uma bola entre dois defensores e Alan Sealey marcou de um ângulo difícil. No segundo, uma cobrança de falta a favor do West Ham não foi afastada e Bobby Moore cruzou. O goleiro Radenkovic não conseguiu segurar a bola e Sealey marcou de novo, decretando a vitória e o título inédito dos Hammers.
A derrota foi dolorida e o 1860 München teve que ver o Borussia Dortmund como primeiro clube alemão a vencer um torneio continental na temporada seguinte, em 1965-1966, quando os aurinegros levantaram a Recopa da UEFA. Mas, se o pioneirismo continental alemão não foi dos Leões, pelo menos em Munique eles seriam os primeiros a vencer a nova Bundesliga.
O título histórico na Bundesliga 1965-1966
Max Merkel tinha uma equipe forte ofensivamente, mas ele fez questão de ir atrás de outro atacante com mais técnica e que pudesse fazer uma dupla ainda mais forte com Brunnenmeier. E ele encontrou no Borussia Dortmund: Friedhelm “Timo” Konietzka, um jogador extremamente inteligente, frio e letal quando ficava cara a cara com o goleiro. Essa contratação aliviou as funções de Brunnenmeier, que não precisava mais carregar sozinho a produção ofensiva, pois Konietzka acrescentou presença de área, frieza e capacidade de definição. Além dele, o clube teve ainda as entradas de Bernd Patzke na zaga e do iugoslavo Perusic no meio de campo, este com função de organizar o jogo e proteger a retaguarda quando o time sofresse contra-ataques.
Se nas copas o 1860 München não foi bem – caiu na primeira fase da Copa da Alemanha e foi eliminado nas quartas de final da Copa das Cidades com Feiras pelo Chelsea-ING -, a história foi diferente na Bundesliga. E tudo começou da melhor maneira possível: vitória por 1 a 0 (gol de Konietzka) sobre o Bayern München, que já tinha na época o trio Sepp Maier, Beckenbauer e Gerd Müller e estreou na Bundesliga naquela temporada. A equipe alviazul apresentou naquele dia e ao longo da temporada um futebol físico, vertical e agressivo, mas tecnicamente refinado pela qualidade de seus homens de criação.

O 1860 ainda venceu os dois jogos seguintes – 4 a 1 no Nuremberg (fora, com triplete de Brunnenmeier) e 5 a 0 no Hannover 96 (casa, com triplete de Konietzka) -, resultados que colocaram o time na liderança. Nas rodadas seguintes, o Bayern assumiu a ponta graças aos tropeços dos Leões diante do Kaiserslautern (derrota por 3 a 0) e Stuttgart (0 a 0). A liderança só foi reconquistada na 8ª rodada, após vitória por 2 a 0 sobre o Werder Bremen em pleno Weserstadion. Dali em diante, o 1860 München engatilhou uma sequência invicta de 10 jogos, que viraram 13 partidas se somarmos os jogos anteriores ao triunfo sobre o Werder Bremen. A série foi:
- 0 a 0 Stuttgart (casa)
- 3 a 2 Meidericher (fora)
- 2 a 1 Köln (casa)
- 2 a 0 Werder Bremen (fora)
- 3 a 0 Schalke 04 (casa)
- 4 a 2 Eintracht Frankfurt (casa)
- 2 a 2 Eintracht Braunschweig (fora)
- 4 a 1 Borussia Neunkirchen (casa)
- 5 a 0 Tasmania 1900 (fora)
- 2 a 0 Karlsruher (casa)
- 2 a 1 Borussia Dortmund (casa)
- 2 a 1 Hamburgo (fora)
- 1 a 1 Borussia Mönchengladbach (fora)
Absolutos, os Leões pareciam intocáveis na liderança e o título era só uma questão de tempo. O problema é que as vitórias só valiam dois pontos na época e isso impossibilitava uma equipe disparar muito na ponta como hoje. E o técnico Max Merkel quase colocou tudo a perder no inverno. Motivo? É que o austríaco, ciente de que a preparação física havia ajudado a construir aquele time, intensificou demais os treinamentos nos meses de dezembro e janeiro. Os jogadores reclamaram que estavam exaustos. E, antes do dérbi contra o Bayern, por exemplo, Merkel colocou a equipe para realizar trabalhos de força orientados por Dieter Urbach. O meia Grosser disse posteriormente que os jogadores “passaram a semana com dores musculares”. Resultado? O Bayern venceu por 3 a 0.

Merkel, ao invés de aliviar, aumentou ainda mais a carga. E o resultado foi pior. O 1860 ganhou apenas uma das seis primeiras partidas da segunda metade da temporada e perdeu a liderança para o Borussia Dortmund. Em março, os Leões venceram Werder Bremen (3 a 1, casa) e Schalke 04 (2 a 0, fora), mas levaram de 5 a 2 do Eintracht Frankfurt, fora, e outra vez a briga pelo título ficou comprometida. Mas o 1860 ganhou um “reforço”: o técnico Max Merkel teve um problema de saúde e ficou aproximadamente duas semanas afastado. Isso fez com que a intensidade dos treinamentos diminuísse e os jogadores pudessem se recuperar.
A partir da 28ª rodada, os alviazuis não perderam mais e colaram no Borussia. Após o empate em 1 a 1 com o Eintracht Braunschweig, em casa, o 1860 venceu Kaiserslautern (4 a 2, casa), Borussia Neunkirchen (9 a 1, fora), Tasmania 1900 (4 a 0, casa) e empatou com Karlsruher (1 a 1, fora) e Borussia Mönchengladbach (3 a 3, casa). Faltando duas rodadas para o fim, o 1860 München encarou o Borussia Dortmund, fora de casa, em uma verdadeira final. Os Leões precisavam vencer para voltar à liderança. Já de volta, Merkel decidiu mudar a estratégia. Ele reforçou a defesa e planejou atacar o Dortmund partindo de posições mais recuadas. Além disso, surpreendeu colocando Rudolf Zeiser, que não atuava havia várias semanas, para segurar o perigoso Sigi Held. Deu certo.

Com gols de Brunnenmeier, aos 66′, e Grosser, aos 89′, o 1860 München venceu por 2 a 0, assumiu a liderança e ficou dois pontos à frente do Dortmund. Como na época a vitória valia dois pontos, o Borussia ainda poderia alcançar o 1860 na última rodada. Além disso, o critério de desempate — o famigerado Torquotient, a razão entre gols marcados e sofridos — favorecia o Dortmund. Por isso, ao 1860 München bastava um empate diante do Hamburgo, em casa, para assegurar o título.
Mais de 44 mil pessoas lotaram o Grünwalder e viram Brunnenmeier abrir o placar logo aos 6’. No segundo tempo, Uwe Seeler empatou, mas a festa já estava garantida antes disso, pois o Borussia Dortmund perdeu por 4 a 1 para o Eintracht Frankfurt e deu adeus a qualquer chance de conquista. No fim, o 1860 celebrou o título inédito com 50 pontos, três a mais do que o Dortmund. Em 34 jogos, os Leões venceram 20, empataram 10 e perderam apenas quatro, com 80 gols marcados (melhor ataque) e 40 gols sofridos. Konietzka, com 26 gols, Peter Grosser, com 18 gols, e Brunnenmeier, com 15, foram os artilheiros da equipe na competição. Konietzka só ficou atrás de Lothar Emmerich, do Dortmund, que anotou 31 gols.
O ano de 1966 foi mágico para o futebol de Munique, pois, além do título do 1860 na Bundesliga, o Bayern faturou a Copa da Alemanha, o que fez da cidade a capital do futebol no país. Anos depois, Peter Grosser comentou que aquela conquista da Bundesliga foi pouco para o clube azul.
“É um pouco vergonhoso que não tenhamos vencido mais títulos do campeonato com aquela grande equipe. Mas, claro, não foi ruim, pois nos tornamos heróis na época”, destacou o meia ao site AZ (ALE), em maio de 2016.
O fim do encanto
Na temporada 1966-1967, o 1860 München disputou pela primeira vez em sua história a Copa dos Campeões, mas deu azar de enfrentar logo na segunda fase o Real Madrid, campeão da temporada anterior. Os alemães venceram a ida, em casa por 1 a 0, e abriram o placar na volta, no Santiago Bernabéu. O 2 a 0 dava uma enorme vantagem aos alemães, mas os merengues ligaram o “modo Rei” e viraram para 3 a 1, resultado que eliminou o time de Munique.

Na Bundesliga, a equipe brigou até o fim pelo título, mas acabou com o vice – dois pontos a menos do que o campeão, o Eintracht Braunschweig – em uma temporada com muita turbulência interna devido a saída do técnico Max Merkel em dezembro de 1966, o que prejudicou o desempenho da equipe na reta final da temporada. A relação com parte do elenco estava desgastada e Peter Grosser e Petar Radenković participaram ativamente do movimento que levou à saída do treinador. Os Leões tiveram outros dois treinadores naquela época – Hans-Wolfgang Weber ( de 17/12/1966 a 14/02/1967) e Gunther Baumann (a partir de 15/02/1967) -, mas ambos não conseguiram conduzir a equipe aos títulos. Na Copa da Alemanha, o drama foi maior pelo fato de a equipe ser eliminada na semifinal para o rival Bayern (derrota por 3 a 1).
Nos anos seguintes, o clube começou a despencar – foi apenas o 12º colocado na temporada 1967-1968 -, desmantelou todo o time sem repor os atletas à altura, se atolou em dívidas, foi rebaixado em 1970 e viu a ascenção do Bayern, que tomou para si o protagonismo da cidade e da Alemanha como um todo. Nunca mais o 1860 München conseguiu se reerguer, principalmente após a saída do presidente Adalbert Wetzel em 1969.
Os Leões passaram a conviver com a falta de dinheiro, rebaixamentos constantes e situações calamitosas que fizeram o clube falir nos anos 1980 e ser obrigado a passar 13 anos disputando apenas campeonatos da Baviera, voltando à Bundesliga apenas em 1993-1994.
No novo milênio, a crise seguiu e o 1860 continua nas manchetes mais por causa do caos financeiro que vive do que pelas honras esportivas. Com isso, restam as memórias de um time forte, vencedor e que foi, pelo menos por um período, o protagonista do futebol em Munique. Um esquadrão imortal.
Os personagens:
Petar Radenković: o goleiro iugoslavo chegou ao München em 1962 e virou titular absoluto do gol alviazul até 1970, quando se aposentou. Era extremamente moderno para sua época, pois não ficava restrito à pequena área: saía do gol, jogava com os pés, conduzia a bola e participava do início das jogadas. Há inclusive relatos de suas famosas arrancadas com a bola em direção ao meio-campo. O próprio Radenković contou posteriormente que o técnico Merkel foi o primeiro treinador a apoiar sua maneira pouco convencional de jogar, em vez de simplesmente obrigá-lo a permanecer debaixo das traves. Disputou mais de 250 jogos pelo clube e virou ídolo. Uma curiosidade é que o goleiro também era músico e lançou, em 1965, um single que fez enorme sucesso na Alemanha: Bin i Radi, bin i König (Eu sou Radi, Eu sou o Rei), que vendeu 400 mil cópias no país.
Manfred Wagner: originalmente atacante, Wagner atuou por muito tempo como ponta-direita, mas foi transformado em defensor e tornou-se uma peça muito mais conservadora no time do 1860. Era duro nas divididas e um dos jogadores com mais raça na equipe. Jogou de 1963 até 1970 nos Leões.
Bernd Patzke: marcador muito forte, era tecnicamente e taticamente muito bom, o que lhe deu várias convocações para a seleção alemã da época – Patzke integrou os times germânicos nas Copas de 1966 e 1970. Jogou de 1964 até 1969 nos alviazuis.
Rudolf Steiner: outra transformação do técnico Merkel, que converteu Steiner de atacante para defensor, e deu ao 1860 München um atleta muito importante na marcação e na saída de bola, além de ter bom passe. Foram quase 10 anos vestindo a camisa dos Leões.
Rudolf Zeiser: era o “cão de guarda” perfeito quando se tratava de marcar um atacante adversário individualmente e de maneira mais assídua. Podia jogar como lateral-direito, volante e zagueiro. Só vestiu a camisa do 1860 München na carreira.
Stevan Bena: o iugoslavo foi um reforço para a temporada 1964-1965 e jogou mais frequentemente na campanha da Recopa da UEFA, atuando mais centralizado no meio de campo. Após o vice, não permaneceu na equipe e foi jogar no Hannover.
Alfons Stemmer: foi meio-campista do 1860 München de 1955 até 1964, e integrou o time na conquista da Copa da Alemanha de 1963-1964. Com a chegada de outros nomes para o setor, acabou perdendo espaço na época seguinte e deixou o clube.
Hans Reich: era ótimo na organização da defesa, tinha excelente posicionamento e enorme força no jogo aéreo. Veio das categorias de base e jogou de 1960 até 1969 no clube alviazul, atuando majoritariamente no centro do meio de campo e na cabeça de área, às vezes como líbero. Foram mais de 180 jogos pelos Leões na carreira.
Otto Luttrop: ficou conhecido como “Atom-Otto”, por causa de seus chutes poderosíssimos de fora da área e em cobranças de falta. Podia atuar mais aberto, pela esquerda, ou também recuado, ajudando na marcação. Vestiu a camisa dos alviazuis por mais de três temporadas e venceu a Copa da Alemanha e a Bundesliga, além de participar ativamente da campanha do vice da Recopa com 5 gols marcados – um dos vice-artilheiros da competição.
Željko Perušić: meio-campista incansável e uma espécie de faz-tudo, capaz de cobrir qualquer setor que precisasse de ajuda, Perusic chegou em 1965 e foi essencial na campanha da Bundesliga, participado de todos os 34 jogos. Era perito em perseguir e dificultar o trabalho do principal organizador adversário e exercia funções de contenção e equilíbrio. Foi campeão olímpico com a Iugoslávia em 1960 e permaneceu no 1860 München até 1970.
Engelbert Kraus: ponta-direita que brilhou com a camisa do Kickers Offenbach entre 1952 e 1963, além de integrar a seleção da Alemanha na Copa de 1962, Kraus chegou ao 1860 München em 1963 e fez bons jogos na campanha do título da Copa da Alemanha, jogando sempre aberto pela direita. Com a concorrência no ataque, acabou deixando os Leões em 1965 para retornar ao Kickers Offenbach.
Peter Grosser: apesar de ter iniciado sua carreira no Bayern, foi no 1860 München que Peter Grosser se transformou no Regisseur, o regente do meio de campo do time alviazul durante seis anos incríveis. Grosser tinha enorme qualidade técnica, visão de jogo e capacidade de encontrar o passe correto. Com o tempo, tornou-se definitivamente o armador ofensivo do 1860. Dentro de campo, Grosser era o “Taktgeber und Denker” – algo como ditador do ritmo e cérebro da equipe. Além de criar muito, Grosser aparecia no ataque e marcava gols importantíssimos. Na Bundesliga de 1965-1966, foram 18 gols em 32 partidas na Bundesliga 1965/66, um número enorme para um jogador responsável pela organização do meio de campo. O detalhe é que ele era um meia-armador que tinha a liberdade concedida pelo técnico Merkel para chegar constantemente à área. Um ídolo e lenda do 1860 München.
Wilfried Kohlars: outro polivalente do 1860 München, Kohlars podia jogar recuado, como volante ou mesmo defensor, mais centralizado no meio de campo e até como atacante. Vestiu a camisa do 1860 de 1963 até 1970 e participou dos grandes momentos do clube no período.
Rudolf Brunnenmeier: legítimo centroavante que brigava com os defensores e atacava continuamente, além de se movimentar muito, Brunnenmeier foi uma lenda do 1860 München e essencial nos títulos e grandes campanhas da equipe dentro da Alemanha e no âmbito europeu. Jogou de 1960 até 1968 nos Leões e marcou mais de 140 gols em pouco mais de 210 jogos pelos alviazuis. Sofria bastante com o alcoolismo, que prejudicou demais seu rendimento após 1967. Morreu em abril de 2003, em decorrência do próprio alcoolismo, aos 62 anos.
Hans Küppers: meia-atacante muito eficiente na preparação de jogadas, fez uma boa dupla com Grosser e foi um dos destaques do time naquela era de ouro. Foram sete anos no 1860 e 47 gols em 120 jogos.
Friedhelm Konietzka: posicionamento, inteligência, frieza e definição. Essas são as quatro características clássicas do atacante que mudou o ataque do 1860 na temporada 1965-1966 e deu ao clube seu primeiro título de Bundesliga. Com 26 gols em 33 jogos, foi o artilheiro do time e a referência no ataque ao lado de Brunnenmeier. Só não teve mais chances na seleção da Alemanha no começo dos anos 1960 pelo fato de o técnico Sepp Herberger achá-lo “muito inconstante”.
Alfred Heiß: sua principal função era fornecer cruzamentos e abrir espaços pela direita. Tinha imensa qualidade no drible e nas fintas de corpo, além de marcar gols importantíssimos: fez 10 gols em 31 partidas na temporada do título alemão e anotou 5 gols na campanha do vice da Recopa de 1964-1965, sendo vice-artilheiro da competição. Só vestiu a camisa do 1860 na carreira, totalizando 243 jogos e 59 gols.
Hans Rebele: era o equivalente de Heiß pelo lado esquerdo. Como não havia espaço para ele no meio-campo, foi deslocado para a ponta e adaptou-se muito bem. Muito rápido e técnico, foi essencial nas conquistas dos Leões da época e vestiu a camisa do 1860 München de 1961 até 1972.
Max Merkel (Técnico): apesar do temperamento complicado e os métodos de treinamentos exigentes, o austríaco fez história ao comandar melhor 1860 München da história e fazer do clube um vencedor na Alemanha. Soube como poucos a extrair o melhor de cada jogador, transformou as posições de vários atletas e levantou títulos inesquecíveis. Após sua saída do 1860, foi campeão alemão pelo Nuremberg em 1968 e campeão espanhol pelo Atlético de Madrid no começo dos anos 1970.

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