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Técnico Imortal – Bobby Robson

Foto: Arquivo / These Football Times

 

Nascimento: 18 de fevereiro de 1933, em Sacriston, Inglaterra. Faleceu em 31 de julho de 2009, em County Durham, Inglaterra.

Clubes que treinou: Vancouver Royal Canadians-CAN (1967), Fulham-ING (1968), Ipswich Town-ING (1969-1982), Seleção da Inglaterra (1982-1990), PSV-HOL (1990-1992 e 1998-1999), Sporting-POR (1992-1994), Porto-POR (1994-1996), Barcelona-ESP (1996-1997) e Newcastle United-ING (1999-2004).

Principais títulos por clubes: 1 Copa da UEFA (1980-1981), 1 Copa da Inglaterra (1977-1978) e 1 Texaco Cup (1972-1973) pelo Ipswich Town.

2 Campeonatos Holandeses (1990-1991 e 1991-1992) e 1 Supercopa da Holanda (1998) pelo PSV.

2 Campeonatos Portugueses (1994-1995 e 1995-1996), 1 Taça de Portugal (1993-1994) e 1 Supertaça Cândido de Oliveira (1994) pelo Porto.

1 Recopa da UEFA (1996-1997), 1 Copa do Rei (1996-1997) e 1 Supercopa da Espanha (1996) pelo Barcelona.

Principais títulos individuais:

Prêmio Tributo da FWA: 1992

Melhor técnico do Ano da Europa: 1996-1997

UEFA President’s Award: 2002

LMA Special Merit Award: 2002

Inserido no Hall da Fama do Futebol Inglês: 2003

PFA Merit Award: 2003

BBC Sports Personalidade do Ano – Lifetime Achievement: 2007

FIFA Fair Play Award: 2009

Ordem ao Mérito da FIFA: 2009

Ordem ao Mérito da UEFA: 2009

Inserido no Hall da Fama do Ipswich Town: 2009

 

“Sir Bobby Football”

 

Por Guilherme Diniz

 

Ele teve uma das mais longevas carreiras de treinador da história – quase 40 anos. E, durante esse período, se consagrou como um dos mais respeitados, cultuados e vencedores técnicos do futebol. Adepto da conversa, da união e do foco nas categorias de base, sempre foi uma figura paterna para os atletas e conseguiu extrair ao máximo as qualidades de seus comandados, além de adaptar esquemas táticos e times em prol da vitória. Robert William Robson, mais conhecido como Bobby Robson, é um daqueles nomes incontestáveis e que despertam simpatia por qualquer apaixonado pelo futebol. Ele conseguiu conduzir o Ipswich Town a títulos históricos, incluindo um continental. Depois, levou a Inglaterra a boas campanhas em duas Copas do Mundo. E, nos anos 1990, foi ídolo no futebol português, ensinou a arte de comandar equipes a um tal de José Mourinho, fez Ronaldo Fenômeno explodir ainda mais no mundo com a camisa do Barcelona e dirigiu o Newcastle na lendária era Alan Shearer. Condecorado com o título de Sir, Bobby deixou seu nome para sempre como um dos mais inteligentes treinadores de seu tempo. É hora de relembrar.

 

Atacando com a prancheta

Foto: PA Archive

 

Nascido em Sacriston, em County Durham, norte da Inglaterra, Robson foi o 4º dos cinco filhos de Philip e Lilian Robson e atuou como atacante e ponta durante sua carreira de futebolista. Bobby Robson começou no Fulham, onde jogou por seis anos, teve uma prolífica passagem pelo West Bromwich, retornou ao Fulham e encerrou a carreira no Vancouver Royal Canadians. Além de atuar por clubes, Robson também defendeu a seleção da Inglaterra nas Copas do Mundo de 1958 e 1962. Antes de pendurar as chuteiras, ele já tinha recebido conselhos para seguir a carreira de treinador. Foi em 1959, quando Walter Winterbottom sugeriu que Robson fizesse o curso de técnico promovido pela FA no Lilleshall. Ele seguiu a recomendação do colega, fez o curso e comandou nos intervalos dos jogos como jogador o time da Oxford University. Em 1968, após treinar brevemente o Vancouver, Robson retornou à Inglaterra para dirigir o Fulham, que vivia um péssimo momento. Novato e sem grandes atletas, Robson não evitou o rebaixamento do time para a segunda divisão naquele ano e deixou o clube na sequência. 

Em 1969, ele aceitou uma proposta do Ipswich Town e assumiu o time com o ambiente e tempo necessários para expor seu ritmo de trabalho. Com seriedade, paciência e olho nas categorias de base, Robson desenvolveu atletas, criou uma mentalidade competitiva e, após quatro temporadas medianas, colocou o Ipswich Town na 4ª posição do Campeonato Inglês em 1972-1973, além de conquistar o título da Texaco Cup daquele ano, torneio que reunia alguns clubes da Inglaterra, Irlanda e Escócia. Na final, os Tractor Boys derrotaram o Norwich City com duas vitórias por 2 a 1. O título, embora não tivesse tanta expressão, serviu para provar o sucesso de Robson no clube, além de dar confiança para os próximos anos. Em 1974-1975, o Ipswich foi 3º colocado no campeonato nacional, ficando dois pontos atrás do campeão Derby County. O time manteve-se entre os primeiros ao longo daquela segunda metade de anos 1970, tendo apenas a época 1977-1978 como ruim – foi 18º colocado.

Foto: Colorsport | Crédito: Colorsport

 

As boas colocações em casa deram naquela época vagas aos torneios europeus à equipe de Robson, algo que não acontecia há mais de uma década. Primeiro, os Tractor Boys disputaram a Copa da UEFA de 1973-1974 e eliminaram o Real Madrid, Lazio (este em confrontos tensos, com vitória por 4 a 0 do Ipswich na ida e derrota por 4 a 2 na volta, com triunfo no agregado por 6 a 4 dos ingleses e muita confusão da torcida romana, que obrigou os ingleses a irem ao vestiário  até a polícia acalmar os ânimos após o final do jogo) e Twente, chegando com muita moral às quartas de final. Nelas, porém, os ingleses perderam nos pênaltis para o Lokomotive Leipzig-ALE e deram adeus ao sonho do título. Os ingleses voltaram ao torneio europeu em 1974-75 e 1975-76, mas também caíram antes da final. 

O Ipswich Town de 1981. Fila de cima: John Wark, Kevin Beattie, Steve McCall e Kevin O’Callaghan. Fila do meio: Bobby Robson (técnico), Arnold Mühren, Paul Mariner, Alan Brazil, Frans Thijssen, Allan Hunter e Bobby Ferguson (auxiliar). Fila de baixo: Terry Butcher, Russell Osman, Laurie Sivell, Mick Mills, Paul Cooper, George Burley e Eric Gates.

 

Àquela altura, o Ipswich Town já era um dos times mais competitivos do continente e um dos mais prolíficos também. Com um ataque muito forte, em especial com o atacante Whymark, o time de Robson merecia um título para coroar aquela grande fase. E, enfim, ele veio na temporada 1977-1978. O Ipswich Town levantou sua primeira Copa da Inglaterra após derrotar o Arsenal na decisão de Wembley – tomado por 100 mil pessoas! – por 1 a 0, gol de Roger Osbourne, aos 77’. Mesmo encarando um rival tradicional e com nomes como Pat Jennings, David O’Leary e Malcolm MacDonald, o Ipswich dominou os Gunners e acertou as traves de Jennings três vezes antes de marcar seu gol! Em êxtase, Robson comentou após o jogo:

 

“Que dia para nós. Nós merecemos. Jogamos um futebol muito decente, não jogamos?”

 

Foi uma vitória marcante que abriu caminho para o clube ter mais capital e ser um dos primeiros do país a contratar atletas nascidos fora do Reino Unido. Os reforços foram Arnold Mühren, holandês ex-Twente, e o armador holandês Frans Thijssen. Vale lembrar que, nos 13 anos em que comandou o Ipswich, Robson só contratou 14 atletas. Ele priorizou sempre as categoria de base e revelou atletas como Terry Butcher, George Burley, John Wark, Mick Mills, Colin Viljoen, Alan Brazil, Trevor Whymark, Brian Talbot, Kevin Beattie e Eric Gates, todos reconhecidos mundialmente naqueles anos e nos anos 1980.

 

A glória europeia

Mick Mills e Harald Schumacher antes de Ipswich x Köln.

 

Com muita troca de passes, bola no chão e dinamismo, o estilo de jogo de Robson casou perfeitamente com os holandeses trazidos para aquele final de anos 1970 e início de anos 1980. E, com conversa, treinamento e companheirismo, ele uniu seu time em busca de novos troféus. A primeira tentativa foi na Recopa da UEFA de 1978-1979, mas os ingleses foram eliminados nas quartas de final pelo Barcelona-ESP por causa do critério do gol qualificado – os catalães seriam campeões. Na temporada 1979-1980, os Tractor Boys fizeram um primeiro turno terrível no Campeonato Inglês e estavam na 20ª colocação em novembro de 1979, com nove derrotas em 14 jogos. Porém, Robson, entusiasta nato, mexeu com seu time e fez com que o Ipswich Town permanecesse 23 jogos sem perder, saltando para o 3º lugar e garantindo uma vaga na Copa da UEFA! Nesse período, a equipe de Robson aplicou goleadas impressionantes em alguns rivais, como os 4 a 0 no Manchester City, 6 a 0 no vice-campeão Manchester United (neste jogo, o time de Robson ainda perdeu três pênaltis!) e 4 a 0 no Everton.

Na competição europeia, Robson escalou o que tinha de melhor e conduziu com maestria sua equipe rumo à glória inédita. O primeiro compromisso foi contra o Aris-GRE, derrotado na Inglaterra por 5 a 1 (com quatro gols de John Wark). Na volta, a vitória dos gregos por 3 a 1 foi insuficiente para tirar a vaga do Ipswich Town, que superou o Bohemians Prague-TCH na etapa seguinte com um 3 a 2 no agregado. Nas oitavas, a equipe de Bobby Robson despachou o Widzew Lódz-POL com uma goleada de 5 a 0 em casa e derrota por apenas 1 a 0 na Polônia. Nas quartas, foi a vez de enfrentar os franceses do Saint-Étienne, dos craques Michel Platini e Johnny Rep. Os Tractor Boys não se intimidaram com os quase 40 mil torcedores no duelo de ida, em Saint-Étienne, e venceram por 4 a 1, com dois gols de Mariner, um de Mühren e outro de Wark – este o principal artilheiro do time na competição. No jogo seguinte, outra vitória fácil – 3 a 1.

Steve McCall (centro, de azul) e Michel Platini (à esq.). Foto: Colorsport

 

Nas semifinais, os ingleses enfrentaram o Köln-ALE, repleto de grandes nomes como Harald Schumacher, Harald Konopka, Herbert Zimmermann, Bernd Cullmann, Rainer Bonhof, Dieter Müller e Pierre Littbarski. Jogando em casa o duelo de ida, o Ipswich venceu por 1 a 0 e foi para a Alemanha precisando apenas do empate. Diante de 55 mil pessoas em Colônia, a equipe de Robson fez uma partida tática excelente e venceu por 1 a 0, sacramentando a vaga na sonhada final. O rival foi o AZ Alkmaar-HOL e os ingleses fizeram o primeiro jogo em casa, como na maioria dos duelos eliminatórios anteriores. Contando com o apoio de sua torcida – quase 30 mil pessoas em Portman Road -, o Ipswich fez o primeiro com Wark, de pênalti. Aos 2’ do segundo tempo, Thijssen ampliou e Mariner, aos 55’, selou a vitória por 3 a 0 que deixou os Tractor Boys com a mão na taça.

Os Tractor Boys campeões da Europa: força ofensiva e muito dinamismo.

 

Na volta, na Holanda, Thijssen abriu o placar logo aos 4’ para o Ipswich, deixando a vida inglesa ainda mais tranquila. O AZ empatou três minutos depois e Metgod virou, mas o artilheiro Wark anotou seu 14º gol na competição e empatou. Pier Tol fez o terceiro gol do AZ ainda no primeiro tempo e Jonker fez 4 a 2 aos 73’, mas era tarde demais: o placar agregado de 5 a 4 fez do Ipswich Town campeão da Copa da UEFA! E invicto jogando em casa, com seis jogos, seis vitórias, 20 gols marcados e apenas dois sofridos. Os 14 gols de Wark fizeram ele igualar o recorde de gols em uma só competição europeia na época, antes de autoria apenas do ítalo-brasileiro José Altafini, que anotou 14 gols pelo Milan na Copa dos Campeões de 1962-1963. O título europeu foi histórico não só pelo peso da taça, obviamente, mas por simbolizar o apogeu de Bobby Robson no clube. 

Mariner exibe a Copa da UEFA à torcida na cidade. Ao seu lado, John Wark.

 

Bobby Robson com a taça da Copa da UEFA.

 

A prova do trabalho bem feito foi que, mesmo com problemas de lesão de vários atletas causados pela maratona de jogos, o Ipswich Town terminou com o vice-campeonato inglês – apenas quatro pontos atrás do Aston Villa -, teve o melhor ataque com 77 gols em 42 jogos, e alcançou a semifinal da Copa da Inglaterra. Ao término da temporada, o Ipswich Town foi eleito pela France Football a equipe do ano na Europa, John Wark venceu o prêmio de melhor jogador da PFA graças aos 36 gols marcados e quatro atletas do clube foram eleitos para a seleção da temporada na votação dos atletas.

 

Ascenção ao English Team

Depois de brilhar por mais de uma década no Ipswich Town, Bobby Robson recebeu um irrecusável convite para dirigir a seleção inglesa. Mesmo com a proposta de um contrato de 10 anos e um vertiginoso aumento de salário por parte do Ipswich Town, Robson não pôde recusar o English Team. Era o topo da carreira para ele, principalmente por não ter treinado nenhum dos grandes clubes do país e mesmo assim ser reconhecido por seu talento. Seu início não foi lá muito satisfatório, pois o país acabou de fora da Eurocopa de 1984 após derrota para a Dinamarca no Grupo 3, que deixou os ingleses com um ponto a menos do que os alvirrubros. Robson chegou a entregar uma carta de demissão e Brian Clough, lendário técnico do Nottingham Forest, era o favorito para assumir a seleção. Porém, Bert Millichip, diretor da FA, não aceitou e bancou a permanência de Robson com foco na classificação para a Copa do Mundo de 1986.

Utilizando grandes talentos do país na época como John Barnes, Woodcock, Bryan Robson, Gary Lineker, Glenn Hoddle, Chris Waddle e Mark Hateley, além do goleiraço Peter Shilton, o técnico Bobby Robson conduziu sem problemas o English Team no Grupo 3 das Eliminatórias europeias e ficou com a vaga no Mundial após quatro vitórias e quatro empates em oito jogos, com 21 gols marcados e apenas dois sofridos, deixando para trás Irlanda do Norte, Romênia, Finlândia e Turquia. Na Copa, a Inglaterra começou perdendo para Portugal (1 a 0), empatou com Marrocos (0 a 0) e derrotou a Polônia com um triplete de Gary Lineker. Nas oitavas, a vitória de 3 a 0 sobre o Paraguai colocou os ingleses na quartas de final. E diante da Argentina de Maradona

Foto: AFP/Getty Images

 

O jogo foi simplesmente espetacular e um dos mais lendários de todos os Mundiais. Foi nele que Maradona marcou o gol com “la mano de Dios”. E também aquele no qual driblou meio time da Inglaterra antes de colocar a bola pra dentro. A Argentina venceu por 2 a 1, mas Bobby Robson jamais digeriu aquela partida, como sintetizou em sua autobiografia “Farewell But Not Goodbye”, lançada em 2005:

 

“Não foi a mão de Deus. Foi a mão de um malandro. Deus não teve nada a ver com isso. Naquele dia, Maradona ficou diminuído aos meus olhos para sempre”.

 

Após a Copa, Robson continuou no comando da seleção, mas voltou a sofrer críticas após a eliminação na fase de grupos da Eurocopa de 1988 e também após um insosso empate diante da Arábia Saudita, que fez com que os jornais ingleses estampassem em suas capas: “em nome de Alá, vá embora!”. Robson mais uma vez ofereceu seu cargo, e outra vez Millichip rejeitou – o diretor da FA confiava muito no treinador. Com isso, a Inglaterra se classificou para a Copa do Mundo de 1990 com três vitórias, três empates e sem conceder um gol sequer nos seis jogos que disputou contra Suécia, Polônia e Albânia. 

 

No Mundial, os ingleses foram líderes de seu grupo com quatro pontos, após empates em 1 a 1 com a Irlanda do Norte e 0 a 0 com a Holanda e vitória por 1 a 0 sobre o Egito. Apostando na dupla Gascoigne e Lineker, ele montou uma seleção competitiva, mas não hesitou em fechar mais o time, como no duelo contra a temida Holanda, quando colocou cinco homens na defesa para conter a dupla Gullit e Van Basten. Nas oitavas, a Inglaterra venceu a Bélgica por 1 a 0 na prorrogação – gol de Platt – e passou pelo surpreendente Camarões com uma vitória por 3 a 2 também após 120 minutos.

Gascoigne disputa a bola com Andreas Brehme, da Alemanha. Foto: Mark Leech.

 

A Inglaterra de 1990: mais proteção na defesa e ataque econômico.

 

O último desafio antes da final era a Alemanha, carrasco dos ingleses incontáveis vezes nos últimos anos. E, após empate em 1 a 1 no tempo normal e prorrogação, o duelo foi para os pênaltis. Na marca da cal, a Alemanha venceu por 4 a 3 e foi para a final, da qual sairia campeã. Na disputa pelo terceiro lugar, muito abatida e sem Gascoigne, a Inglaterra perdeu para a Itália por 2 a 1 e terminou em 4º lugar, a melhor colocação dos ingleses em uma Copa desde o título de 1966. Aquele foi o fim para Bobby Robson na seleção. Antes mesmo da Copa, ele já sabia que não teria seu vínculo extendido pela FA. O consolo para os ingleses foi o prêmio FIFA Fair Play recebido pela seleção após a Copa como mais disciplinada do torneio. Em 1991, Robson foi agraciado com uma Ordem do Império britânico por seu trabalho à frente do English Team nos anos 1980 e, claro, no Ipswich Town, fato que deu a ele o título de Sir.

 

Títulos na Holanda

Foto: Ben Radford / Getty Images.

 

Os Países Baixos marcaram muito a carreira de Robson de várias maneiras. Ele enfrentou vários clubes daquela região em diferentes momentos pelo Ipswich Town, havia conquistado seu então maior título da carreira contra um clube de lá e sofreu duras críticas após perder para a Holanda na fase de grupos da Euro de 1988. Por isso, Robson decidiu ir para o outro lado ao aceitar uma proposta do PSV no começo dos anos 1990. A missão do inglês seria duríssima, afinal, ele substituiu ninguém mais ninguém menos que Guus Hiddink, treinador do clube nos dourados anos 1980, quando o PSV venceu a Liga dos Campeões da UEFA, um Treble e 4 títulos nacionais consecutivos.

Embora tenha sido recebido com críticas pela imprensa holandesa, Robson tratou de impor seu estilo e não aceitou que vícios e manias de alguns atletas prejudicassem seu trabalho. Ele comentou certa vez que, na Inglaterra, “um jogador aceita quando vai para o banco ou tem que atuar em outra posição”. Mas, na Holanda, qualquer reserva ia falar com ele após os jogos. Outro fator que ele teve que contornar foi o estilo do brasileiro Romário, que na época já era conhecido por ser avesso às concentrações e treinos excessivos. Robson admitiu que não aprovava o jeito do brasileiro, mas sabia que “dentro de campo ele era cintilante”.

O Baixinho aprontava, mas sempre correspondia dentro de campo!

 

Robson tentou “mudar” Romário com conversas traduzidas por seu assistente, Frank Arnesen, mas nenhuma surtiu efeito. Pelo menos em campo o PSV foi bem: venceu dois títulos holandeses em 1990-1991 e 1991-1992, com Romário como artilheiro na primeira conquista (25 gols). No entanto, o PSV acabou fracassando em suas campanhas continentais e a diretoria do clube decidiu encerrar o contrato de Robson já em julho de 1992. Foi no começo de anos 1990 que Bobby Robson foi diagnosticado pela primeira vez com um câncer colorretal, operado com sucesso em 1992. Ele enfrentaria outros problemas de saúde nos anos seguintes, mas, com muita força de vontade, seguiria trabalhando. E fazendo história.

 

Sucesso em Portugal

José Mourinho e Bobby Robson: dupla foi pura sintonia em Portugal e, depois, no Barcelona. Foto: Acervo / Record.pt

 

Em 1992, Robson comandou o Sporting, onde teve o auxílio de um intérprete que seria seu fiel escudeiro por muito tempo: José Mourinho. O futuro Special One ajudou bastante na adaptação de Robson no futebol português e, claro, aprendeu muito com o inglês para projetar no futuro sua carreira de treinador. Mourinho, em 2009, comentou sobre Robson à Sky Sports:

 

“O que ele me deu? Não conseguiria descrever com palavras e não iria na direção do futebol”.

 

Mourinho também frisou que “uma das coisas mais importantes que aprendi com Bobby Robson é que quando você vence, não deve presumir que é do time e, quando perde, não deve pensar que é um lixo”. No dia a dia, Mourinho dava as instruções em português após ouvir de Robson o que fazer e, claro, discutia táticas e estilos de jogo com o inglês. Mesmo sem grandes nomes e estrutura, Bobby Robson levou o Sporting ao 3º lugar na liga portuguesa, mas não foi o suficiente para a diretoria renovar seu contrato. Antes mesmo de pensar em procurar emprego, ele foi contratado pelo Porto, que levou não só Robson, mas Mourinho, agora como assistente, para o Estádio das Antas. 

No Porto, Robson teve o ambiente necessário para retomar o caminho das glórias. Em 1994, o clube derrotou curiosamente o Sporting na final da Supertaça de Portugal após empate em 0 a 0 na ida e vitória portista por 2 a 1 na volta – o time venceu também a Taça de Portugal diante do Sporting. Na liga 1994-1995, o Porto levantou o caneco com 7 pontos de vantagem sobre o Sporting. Na temporada seguinte, veio o bicampeonato, dessa vez com 9 pontos de vantagem sobre o rival Benfica. Naquela época, após o Porto vencer alguns jogos por 5 a 0 e 6 a 0, Bobby Robson ganhou o apelido de Bobby Five-O. No Porto, em 1995-1996, outra vez Bobby Robson teve um problema de saúde ao descobrir um melanoma maligno – e vencê-lo.

Àquela altura, Robson desejava retornar ao futebol inglês e tinha esperança de dirigir o Arsenal. Porém, antes de voltar para casa, ele recebeu uma proposta do Barcelona. E, junto com Mourinho, o técnico foi para a Catalunha em 1996 após atingir 71% de aproveitamento no comando do Porto. E, de olho em tudo no futebol, ele ajudou os blaugranas na assinatura de contrato de um atacante que vinha destroçando os rivais no futebol holandês: um tal de Ronaldo…

 

Temporada de ouro

A época 1996-1997 foi talvez uma das mais emblemáticas da carreira de Robson. Ele dirigiu um Barcelona que até hoje desperta suspiros e grandes memórias no torcedor. Foi um time que conquistou três títulos e teve Ronaldo em uma fase avassaladora, para muitos, a melhor do craque na carreira. Rápido, explosivo, goleador, intempestivo e decisivo, o brasileiro anotou espantosos 47 gols em 49 jogos, marcou gols espetaculares e virou o melhor do mundo por dois anos consecutivos – 1996 e 1997. E é claro que o técnico Bobby Robson teve grande participação nesse desempenho ao dar todas as condições e liberdades para o brasileiro dentro de campo. Com um esquema de jogo focado para dar bolas ao camisa 9, Ronaldo se esbaldou. E Robson não poderia ficar mais feliz. Certa vez, ele disse:

 

“Ronaldo poderia pegar a bola do meio-campo e todo o estádio pegaria fogo. Ele foi a coisa mais rápida que já vi correndo com a bola em toda minha vida. Se ele tivesse conseguido ficar livre de lesões, ele teria todas as chances de se tornar o melhor jogador de futebol de todos os tempos”.

 

O Barça de Robson tinha remanescentes do Dream Team – Guardiola, Bakero, Stoichkov, Ferrer, Sergi, Amor – e novos nomes como Figo, Amunike, Fernando Couto, Luis Enrique, Pizzi e, claro, Ronaldo. Se o título de La Liga ficou com o Real Madrid por dois pontos – mesmo com o Barça anotando 102 gols, contra 85 dos merengues -, o time catalão abocanhou os outros três que disputou: Supercopa da Espanha, após 6 a 5 no agregado diante do Atlético de Madrid, Copa do Rei – após vitória sobre o Betis na final por 3 a 2 -, e a Recopa da UEFA, conquistada de maneira invicta e com um triunfo por 1 a 0 sobre o PSG na decisão.

Uma das escalações do Barça de 1997: ataque devastador e com vários opções graças aos talentosos meias do time e, claro, a Ronaldo.

 

José Mourinho, Bobby Robson e Ronaldo.

 

O Barcelona daquela temporada mostrou um poder de fogo espetacular e capacidade de reverter placares impossíveis. O maior exemplo aconteceu nas quartas de final da Copa do Rei. Após empatar em 2 a 2 com o Atlético de Madrid no Vicente Calderón, o Barça levou 3 a 0 no primeiro tempo no Camp Nou. Diante de 90 mil pessoas, Bobby Robson não poderia deixar seu time ser eliminado daquela maneira. Ele enervou seus comandados, mudou a tática da equipe e foi pra cima de maneira demolidora. E o Camp Nou viu uma virada de cinema bem antes dos 6 a 1 sobre o PSG de 2017. 

José Mourinho, Bobby Robson e Ronaldo com a taça da Recopa.

 

Ronaldo fez o primeiro com 2’. Fez outro quatro minutos depois. Pantic, que havia anotado três gols no primeiro tempo, fez mais um e dificultou ainda mais a situação do Barça. Mas Figo, em um chutaço aos 67’, fez o gol de empate. Aos 81’, Pizzi fez o gol da virada e da vitória por 5 a 4 que manteve o time catalão vivo em busca do título. Na época, Ronaldo elogiou Robson dizendo que “como treinador, sem dúvidas, ele é um dos melhores do mundo”. Em 58 jogos na temporada, o Barcelona de Robson venceu 38, empatou 12 e perdeu 8, um aproveitamento de 65,5%. Foram 143 gols marcados e 69 gols sofridos. Leia mais sobre esse Barça clicando aqui!

 

Últimos anos e o fim

Foto: Ben Radford / Getty Images.

 

Na época 1997-1998, Louis van Gaal, após seu brilhante trabalho no Ajax, foi contratado pelo Barcelona para ser o técnico do time naquela temporada, enquanto Bobby Robson passou a ser diretor geral, o que deu ao técnico um “ano sabático” das pranchetas. Só em 1998-1999 que ele voltou para comandar o PSV em uma breve passagem na qual venceu a Supercopa da Holanda e classificou o time para a Liga dos Campeões da UEFA. Na época seguinte, ele voltou para casa e assumiu o Newcastle United, que tinha o goleador Alan Shearer. Mesmo com problemas no corpo diretivo e baixo salário, Robson manteve o time alvinegro competitivo e brigando por títulos, mas eram tempos complicados, pois os rivais eram mais fortes e tinham grandes estrelas em seus elencos.

Em 2001-2002, o Newcastle atingiu a 4ª colocação e chegou a disputar a Liga dos Campeões, mas Robson acabou deixando o clube em 2004 após desavenças com a diretoria, em especial o controverso Freddie Shepherd. Em 2006, Robson descobriu mais dois tipos de câncer, um no pulmão e outro no cérebro, conseguiu superá-los, mas acabou com uma paralisia parcial do lado esquerdo, o que fez com que ele parasse de vez de treinar. Em 2007, novos cânceres foram descobertos em seus pulmões, estes sim terminais. Sem poder trabalhar, ele dedicou sua vida ao combate do câncer e criou, em março de 2008, a Sir Bobby Robson Foundation, que teve como objetivo arrecadar fundos para o tratamento da doença e sua detecção nos estágios iniciais. A fundação teve como patronos outros nomes do esporte como Alan Shearer, Mick Mills e Robbie Elliott. Em julho de 2009, Bobby Robson acabou falecendo em decorrência do câncer de pulmão, aos 76 anos.

Bobby Robson e Alan Shearer. Foto: David Rogers / Getty Images

 

Seu adeus despertou muitos sentimentos no mundo do esporte e homenagens dos mais diversos nomes, sejam jogadores, presidentes, diretores e técnicos. O Ipswich Town fez uma estátua em homenagem ao técnico, assim como o Newcastle. Ele também recebeu várias homenagens póstumas da FIFA, da FA e da UEFA. Com uma carreira longeva e respeitada, Bobby Robson foi sem dúvida um dos mais marcantes técnicos do século XXI e de todo futebol. Competitivo e amigo, foi o verdadeiro Sir Football. Um técnico imortal.

 

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