Por Guilherme Diniz
- Quando começou: no dia 28 de setembro de 1924, na vitória do Palmeiras sobre o Vasco por 2 a 0.
- Quem mais venceu: Palmeiras – 66 vitórias (até novembro / 2026). O Vasco venceu 32. Foram 42 empates.
- Maiores goleadas: Palmeiras 5×0 Vasco, 12 de março de 1967
- Palmeiras 1×5 Vasco, 24 de janeiro de 1999
- Vasco 4×0 Palmeiras, 18 de dezembro de 1927
- Vasco 1×4 Palmeiras, 26 de julho de 2015
O futebol brasileiro possui vários clássicos com particularidades, rixas enormes e histórico de brigas. Mas nenhum chega perto da paz que reina em Palmeiras x Vasco, talvez o único duelo onde o clima amistoso e de respeito predomine em qualquer situação, até mesmo em jogos decisivos ou eliminatórios. Isso é fruto de um passado de união que começou entre jogadores e dirigentes e migrou para as próprias torcidas, que se ajudam e se unem em diversos jogos. Ao longo das décadas, os clubes tiveram inclusive ídolos em comum que brilharam e conquistaram títulos tanto por Palmeiras quanto pelo Vasco, principalmente nos anos 1990. E foi tudo isso que criou o nome Clássico da Fraternidade, que já teve grandes decisões, viradas épicas e muitos gols. É hora de conhecer essa história.
Sumário
Irmãos imigrantes
A relação fraterna entre alviverdes e cruzmaltinos possui laços semelhantes nas origens dos dois clubes, pois ambos foram fundados por imigrantes: o Palmeiras por italianos e o Vasco por portugueses. Outra curiosidade é que os dois clubes nasceram em um mês de agosto – o Vasco em agosto de 1898 e o Palmeiras em agosto de 1914. Além disso, cruzmaltinos e palestrinos sofreram represálias por conta de seus passados e atitudes em diferentes épocas.
O Vasco, nos anos 1920, quando foi convidado para se unir à AMEA, recebeu a condição de que só poderia se filiar se excluísse os 12 jogadores de seu plantel que eram oriundos da classe operária, negros e analfabetos, por “não estarem em acordo com os padrões morais necessários para a prática do futebol”. Isso motivou a Resposta Histórica de 07 de abril de 1924, quando o clube enviou uma carta por meio de seu presidente, José Augusto Prestes, negando a filiação, em uma resposta ao racismo e ao preconceito, fato que aumentou ainda mais a simpatia pelo clube e ajudou a enriquecer a história do Vasco, que levava cada vez mais gente por onde passava e era um dos clubes mais populares do estado.

Já o Palmeiras tinha em suas origens os italianos operários que eram chamados de maneira pejorativa de “carcamanos”, que chegavam ao Brasil muitas vezes apenas com a roupa do corpo nos navios que atracavam em Santos. Tempo depois, no auge da Segunda Guerra Mundial, o clube, seus simpatizantes e seus torcedores conviveram com duras críticas por conta da ditadura de Benito Mussolini e seu elo com Adolf Hitler no Eixo, mesmo o Palmeiras – na época chamado de Palestra Itália – não tendo nada a ver com isso.
Os atletas alviverdes de origem italiana eram chamados de “fascistas e traidores” até que, em 1942, com a entrada do Brasil na Guerra, o clube e todas as agremiações com influências italianas no país tiveram que mudar de nome. Durante aquele período conturbado, o capitão do exército Adalberto Mendes, vascaíno e diretor de esportes do clube de São Januário, chegou a São Paulo para exercer sua função na brigada paulista.

Na cidade, Mendes encontrou um velho amigo, Ernani Jota, fortemente ligado ao Palestra Itália e que serviu de “ponte” entre o militar e os dirigentes palestrinos. Rapidamente, Adalberto Mendes criou um vínculo com os membros do clube e virou torcedor do Palestra, a ponto de se tornar vice-presidente após nomeação de Ítalo Adami, o presidente alviverde na época. Mendes foi o porto seguro que conseguiu amenizar as tensões entre governo e clube e ajudou a batizar o Palestra com o nome Palmeiras, mostrando que a agremiação tinha suas raízes com o Brasil.
No dia 20 de setembro de 1942, quando o Palmeiras entrou em campo para enfrentar o São Paulo, no Pacaembu, Mendes fez questão de entrar fardado junto com os atletas, além de orientar o elenco a exibir uma bandeira do Brasil. Nascia ali a Arrancada Heroica.
“Boatos diziam que haveria um clima de muita hostilidade por parte da torcida para com nossos jogadores, que realmente estavam preocupados. Percebi isso e notei também que nosso treinador, Del Debbio, tinha em mãos uma bandeira brasileira. Eu sabia que a exibição do pavilhão nacional só era permitida em eventos internacionais, mas chamei a responsabilidade para mim e orientei nossos atletas a entrarem, ao meu lado, carregando-o e o exibindo à toda a torcida que superlotava o estádio do Pacaembu. Após alguns segundos de surpresa por parte de todos, fomos muito aplaudidos e nenhum ato hostil nos foi desferido”, lembrou o próprio Adalberto Mendes, em depoimento ao conselheiro Luiz Carlos Granieri, em 1982.
O Verdão venceu por 3 a 1 e sagrou-se campeão paulista, colocando na história a frase “o Palestra morreu líder e o Palmeiras nasceu campeão”. A imagem que marcou aquele clássico é a da entrada do time no Pacaembu com a bandeira brasileira, capitaneado por Adalberto Mendes, que tinha o quepe na mão. A partir dali, Palmeiras e Vasco criaram uma ligação que jamais seria quebrada.
Os primeiros jogos e as alianças nas arquibancadas
Antes mesmo do episódio de 1942, Palmeiras e Vasco já haviam se enfrentado algumas vezes em amistosos e competições oficiais. O primeiro duelo aconteceu em setembro de 1924, em amistoso disputado no campo da Andaraí, no Rio, com vitória alviverde por 2 a 0. No mesmo ano, outro amistoso foi disputado em SP, com empate em 1 a 1. O Vasco venceu a primeira em dezembro de 1927, e por goleada: um 4 a 0, no Rio. Só em 1933 que aconteceram os primeiros jogos oficiais, válidos pelo Torneio Rio-SP. Em São Januário, o Verdão venceu por 2 a 1, e, no Palestra Italia, repetiu o placar, resultados que ajudaram a equipe paulista a levantar o título pela primeira vez.

Em 1936, o Verdão aplicou sua então maior goleada – um 4 a 0, em amistoso disputado em SP -, e, em 1943, um amistoso também em SP terminou com vitória vascaína por 5 a 4, jogo eletrizante e até hoje o recordista em gols na história do confronto. No final dos anos 1940 e no início da década de 1950, os duelos passaram a ser ainda mais frequentes, com destaque para os Torneios Rio-SP de 1950 (vitória do Vasco por 3 a 2) e 1951 (vitória do Palmeiras por 4 a 1) e as semifinais da Copa Rio de 1951, com triunfo alviverde sobre o Vasco por 2 a 1 no duelo de ida e empate sem gols na volta, embora os dois jogos tenham acontecido no Rio de Janeiro.
Na final, contra a Juventus-ITA, o Palmeiras contou com o apoio maciço da torcida do Vasco nas duas partidas realizadas no Maracanã e, após vitória na ida por 1 a 0 e empate em 2 a 2 na volta, a equipe paulista celebrou o título da competição, que serviu para amenizar a dor do público brasileiro após a perda da Copa do Mundo no ano anterior para o Uruguai em pleno Maracanã. Aquela aliança nas arquibancadas aumentou ainda mais o clima fraterno do clássico, que seguiu forte a medida em que tanto Palmeiras quanto Vasco aumentavam suas rixas contra Corinthians e Flamengo, respectivamente, sendo os opositores diretos de tais clubes em seus estados. O sentimento de um para com seu rival era o mesmo e, por isso, até nisso alviverdes e cruzmaltinos tinham similaridades.
Ídolos em comum
Entre 1951 e 1959, o Palmeiras ficou 12 jogos seguidos sem perder para o Vasco, sendo oito vitórias e 4 empates, série que só foi quebrada nos 3 a 0 do Vasco em abril de 1959, pelo Torneio Rio-SP. O cruzmaltino repetiu o placar no Rio-SP de 1960, mas o Palmeiras voltou a colecionar boas vitórias ao longo dos anos 1960 graças ao seu timaço conhecido como Primeira Academia, que teve entre os destaques no período 1961-1964 o artilheiro Vavá, que havia jogado no Vasco na década de 1950 e já era consagrado como o Peito de Aço bicampeão mundial com a seleção brasileira nas Copas de 1958 e 1962. Antes dele, outro jogador que brilhou pelos dois clubes foi o meia Jair Rosa Pinto, que defendeu o Vasco entre 1943 e 1946 e o Palmeiras entre 1949 e 1955.


Nos anos seguintes, Emerson Leão, lendário goleiro do Palmeiras ao longo dos anos 1970 e multicampeão, vestiu o manto cruzmaltino entre 1978 e 1980 e ajudou o time carioca a ser vice-campeão brasileiro em 1979. Mas seria na década de 1990 que três personagens seriam icônicos em um e outro: Edmundo, atacante do Verdão no timaço da Parmalat, também foi um ícone do Vasco campeão brasileiro de 1997. Evair, presente no time da Parmalat e ainda no campeão da Libertadores, repetiu a parceria com Edmundo no Vasco de 1997. E Luizão, artilheiro implacável do Verdão campeão paulista de 1996, foi o homem-gol da conquista da Libertadores do Vasco em 1998.
Outros jogadores que brilharam por ambas as equipes foram Pedrinho, Euller, Juninho Paulista, Diego Souza, Alan Kardec, Alecsandro e Fernando Prass, personagens de diferentes épocas, títulos especiais e grandes momentos.
Decisões e os jogos espetaculares
A partir dos anos 1990, o clássico ganhou destaque no cenário nacional por conta das boas fases de ambas as equipes. Em 1997, o Vasco venceu o Palmeiras por 2 a 1 na primeira fase do Brasileirão e reencontrou o time paulista na grande final. Por ter melhor campanha, o Vasco só precisava empatar os dois jogos que seria campeão. Dito e feito: 0 a 0 em SP, 0 a 0 no Rio e título para o Gigante da Colina. No duelo do Maracanã, aliás, foi registrado o maior público da história do clássico: 95.481 pessoas (89.200 pagantes).


O ano de 1997 foi o ano de Edmundo, que marcou incríveis 29 gols em 28 jogos no Brasileirão e quebrou o recorde de gols na história do torneio na época – em 1997, o Animal marcou 42 gols em 52 partidas. No ano seguinte, o Vasco levantou a Libertadores pela primeira vez, feito alcançado pelo Palmeiras em 1999. Aliás, em 1999, o Vasco conseguiu sua maior goleada sobre o Verdão: 5 a 1, válido pelo Rio-SP, com três gols de Guilherme, um de Juninho Pernambucano e outro de Donizete. O placar, no entanto, ainda não supera os 5 a 0 do Verdão no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1967.
Falando em 1999, o Palmeiras conseguiu eliminar o Vasco nas oitavas de final da Copa Libertadores, no primeiro grande duelo eliminatório entre a dupla desde a final nacional de 1997. Após empate na ida em 1 a 1, em SP, o Palmeiras fez 4 a 2 na volta em pleno São Januário e seguiu firme rumo ao título. Já em 2000, o clássico teve momentos distintos de alegria para ambos os lados. No começo do ano, o Palmeiras celebrou o título do Torneio Rio-SP em cima do Vasco ao vencer os cariocas na grande final. Na ida, no Rio, vitória alviverde por 2 a 1. Na volta, em SP, goleada alviverde por 4 a 0.
Meses depois, a dupla fez a final da Copa Mercosul, que poderia ter três jogos caso houvesse um vencedor diferente nos primeiros dois jogos. O campeão só iria sair em dois jogos se ele vencesse as duas partidas ou vencesse uma e empatasse a outra. Na ida, no Rio, o Vasco venceu por 2 a 0 e foi para SP com a vantagem do empate. O Verdão venceu por 1 a 0 e forçou o terceiro jogo, também em SP. Havia a expectativa de equilíbrio, só que, a partir dos 36’ do primeiro tempo, o Palmeiras começou a nocautear o Vasco e, em apenas nove minutos, fez três gols. Ao apito final, desolação carioca de um lado e gritos de “é campeão!” vindos das arquibancadas alviverdes paulistas.


Os quase 30 mil torcedores palmeirenses se deliciavam com um segundo tempo inteiro pela frente e a certeza absoluta de ter apenas o trabalho de gritar “olé” a cada troca de passes de seu time e esperar o árbitro apitar o final do jogo para celebrar mais uma conquista daquele Palmeiras que não se cansava de ganhar. Porém, ninguém deu bola para o imponderável, para o Clube de Regatas Vasco da Gama e para um dos maiores centroavantes da história do futebol mundial: Romário. O segundo tempo começou e Romário fez um. Fez dois. Juninho Paulista, endiabrado e responsável direto pelos dois primeiros tentos do Baixinho, marcou o gol de empate. Detalhe: o Vasco já tinha um jogador a menos – Júnior Baiano foi expulso.
Nos acréscimos, eis que a bola sobrou na área, limpinha, pronta para um leve toque do atacante que sempre a tratou tão bem: Romário. Palmeiras 3×4 Vasco. Em apenas um tempo, o Palmeiras havia feito três gols. Em apenas outro tempo, o Vasco acabava de fazer quatro. E de ganhar uma improvável, incrível e inédita Copa Mercosul. Ninguém acreditava. A Virada do Século estava consolidada. Leia mais sobre esse jogo eterno clicando aqui!
Século XXI: dos anos difíceis à boa fase alviverde
Dois anos depois daquela derrota amarga, o Palmeiras foi rebaixado pela primeira vez no Brasileirão e o clássico não aconteceu em 2003, algo inédito desde o hiato de 1986, quando a dupla também não se enfrentou. Depois de alguns jogos pelo Brasileirão pós-2004, cariocas e paulistas se enfrentaram na primeira fase da Copa Sul-Americana de 2008, quando o Palmeiras conseguiu eliminar o Vasco após duas vitórias – 3 a 1 e 3 a 0. O time carioca deu o troco em 2011 e eliminou o Palmeiras na Sul-Americana de 2011, também na primeira fase, após vencer a ida por 2 a 0 e perder a volta por 3 a 1, se garantindo na fase seguinte graças ao critério do gol qualificado.

Naquele ano, o Vasco venceu a Copa do Brasil, feito repetido pelo Palmeiras em 2012. Porém, a dupla teria dramas seguidos. Em 2012, o time paulista foi rebaixado no Brasileirão pela segunda vez. E, em 2013, foi a vez do Vasco ser rebaixado no Brasileirão também pela segunda vez.
A partir de 2017, o clássico foi realizado majoritariamente pelo Brasileirão e com uma hegemonia impressionante do Palmeiras, que passou a viver uma grande fase de conquistas, enquanto o Vasco entrou em profundo declínio e ainda somou mais dois rebaixamentos – 2015 e 2020. Entre maio de 2017 e outubro de 2025, o Palmeiras venceu 10 e empatou quatro dos 14 jogos realizados, uma sequência invicta notável e que superou aquela dos anos 1950. Só na 5ª rodada do Brasileirão de 2026 que o Vasco conseguiu quebrar a escrita de 11 anos e venceu o Verdão por 2 a 1. No returno, porém, o Palmeiras venceu em casa por 4 a 1.

Em novembro, cariocas e alviverdes vão se enfrentar pela primeira vez na Copa do Brasil, na etapa semifinal. Será o primeiro duelo eliminatório entre ambos desde a Copa Sul-Americana de 2011. Independente de quem vencer, os jogos têm tudo para ser muito disputados e, claro, com gols, afinal, um Palmeiras x Vasco raramente termina em 0 a 0 (o último foi em 2010). E sempre tem confraternização, churrasco e muita conversa depois, na fraternidade única que vemos há mais de um século entre alviverdes e cruzmaltinos.
Números e retrospecto entre Palmeiras x Vasco:
- 140 jogos
- 66 vitórias do Palmeiras
- 32 vitórias do Vasco
- 42 empates
- 227 gols do Palmeiras
- 170 gols do Vasco
- Em finais, a vantagem é do Vasco, que venceu o Campeonato Brasileiro de 1997 e a Copa Mercosul de 2000. O Palmeiras venceu o Torneio Rio-SP de 2000;
- Em duelos eliminatórios, a vantagem é palmeirense: vitórias na Copa Rio de 1951 (semifinal), na Copa Libertadores de 1999 (oitavas de final) e na Copa Sul Americana de 2008 (segunda fase);
- Já o Vasco eliminou o Palmeiras na semifinal do Torneio João Havelange de 1993 e na segunda fase da Copa Sul-Americana de 2011.

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