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Jogos Eternos – Santos 7×6 Palmeiras 1958

Data: 06 de março de 1958

O que estava em jogo: a vitória, claro, em partida válida pela 3ª rodada do Torneio Rio-SP de 1958.

Local: Estádio do Pacaembu, São Paulo, SP, Brasil.

Árbitro: João Etzel Filho

Público: 43.068 pessoas

Os Times:

Santos: Manga; Hélvio e Dalmo; Fioti, Ramiro (Urubatão) e Zito; Dorval, Jair, Pagão (Afonsinho), Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Palmeiras: Edgar (Vitor); Edson e Dema; Valdemar Carabina, Waldemar Fiume e Formiga (Maurinho); Paulinho, Nardo (Caraballo), Mazzola, Ivan e Urias. Técnico: Oswaldo Brandão.

Placar: Santos 7×6 Palmeiras. Gols: (Urias-PAL, aos 20’, Pelé-SAN, aos 21’, Pagão-SAN, aos 25’ e aos 45’+1’, Nardo-PAL, ao 26’, Dorval-SAN, aos 32’ e Pepe-SAN, aos 38’ do 1º T; Paulinho-PAL, aos 16’, Mazzola-PAL, aos 19’ e aos 27’, Urias-PAL, aos 34’, e Pepe-SAN, aos 38’ e aos 41’ do 2º T).

 

“A Partida dos Infartos”

 

Por Guilherme Diniz

 

Era uma noite chuvosa em São Paulo. Mesmo assim, mais de 40 mil pessoas lotaram o Pacaembu para ver o duelo entre Santos e Palmeiras pela 3ª rodada do Torneio Rio-SP de 1958. A partida não era decisiva, longe disso. Mas parecia que toda aquela gente já previa o que iria acontecer. O Palmeiras estava em um momento de transição, ainda sem os principais nomes que fariam dele a Academia de Futebol dos anos 1960. Já o Santos estava em formação, já com nomes que fariam dele o maior esquadrão do Brasil e do planeta em boa parte dos anos 1960. E, quando a bola rolou, o que se viu foi um jogo espetacular, pirotécnico, único. O Verdão abriu o placar, mas o Santos virou. E foi fazendo mais gols. Ao apito do árbitro no final do primeiro tempo, o placar registrava 5 a 2 para o Peixe. Nos vestiários, os jogadores do Santos estavam focados em continuar a marcar gols e aplicar provavelmente a maior goleada da história do clássico. Mas o Palmeiras voltou disposto a reverter aquela peleja pela honra, para fazer jus ao hino do alviverde imponente. Marcou um. Dois. Três. Quatro gols. Virou para 6 a 5. As arquibancadas foram ao delírio, pessoas passavam mal de tanta emoção. Mas o Peixe tinha um ataque devastador, que sabia o que fazer num toque, num gesto, num olhar. E o Canhão da Vila, Pepe, tratou de anotar mais dois gols e virar de novo aquele placar para 7 a 6.

Foi o grande clássico brasileiro com maior número de gols da história. Uma partida emocionante, única, que rendeu histórias e fábulas contadas até hoje por quem viu ou viveu aquele jogo eterno. Não por acaso, ficou conhecida como “a partida dos infartos”, por ter supostamente causado cinco infartos em torcedores que não aguentaram a emoção de tantos gols, viradas e lances memoráveis. É hora de relembrar.

 

Pré-jogo

Pelé e Pepe.

 

O ano de 1958 seria mágico para o futebol brasileiro por conta da Copa do Mundo da Suécia, a primeira vencida pela seleção. E, por estarem em um dos principais centros futebolísticos do país, Santos e Palmeiras tinham vários jogadores que lutavam por uma convocação ao torneio da FIFA. O Verdão tinha nomes famosos como Valdemar Carabina, Waldemar Fiume e José Altafini, também conhecido como Mazzola, este que disputaria sua última temporada pelo Verdão antes de fazer história no Milan. A equipe do Palestra Itália passava por um período de transição, e começaria em 1959 a formar o elenco que iria compor a Primeira Academia, único esquadrão paulista que seria capaz de duelar de igual para igual com um esquadrão que começava a se formar naquele ano de 1958: o Santos.

Mazzola, craque do Verdão.

 

A equipe da Vila já era comandada por Lula e tinha nomes como o zagueiro Dalmo, o volante Zito e os atacantes Dorval, Pagão, Pepe e um jovem de 17 anos que se destacava no cenário nacional, mas ainda não era tão famoso: Pelé. Já com a fama de ser um time prolífico no ataque, o Santos despertava muita expectativa na torcida, principalmente quando jogava no Pacaembu. Já o Palmeiras tinha sua torcida fiel e sempre levava muita gente por onde ia. Por isso, as mais de 40 mil pessoas no estádio municipal foi uma contagem já esperada mesmo por ser um jogo sem grandes ambições e ainda de noite, com uma chuva bem chata. Mas os felizardos que ali estavam seriam muito bem recompensados.

 

Primeiro tempo – Goleada santista

Favorito disparado para vencer a partida, o Santos tinha mais opções de ataque do que o rival, que se baseava mais no talento de Mazzola e ainda não tinha a força pelas pontas que teria nos anos 1960 com as chegadas de Djalma Santos e Julinho Botelho. Mas o técnico Oswaldo Brandão conseguiu equiparar as coisas no começo do jogo e, aos 20’, o ponta-esquerda Urias abriu o placar para o Palmeiras. Só que o Verdão não teve muito tempo para celebrar a vantagem, pois o jovem Pelé empatou um minuto depois. O tento alvinegro inspirou a reação santista, que virou a partida na sequência, com Pagão. Nardo manteve o Palmeiras na briga ao empatar um minuto depois.

Os times em campo: eram tempos de esquemas ofensivos e muitos, muitos gols!

 

Porém, o Santos engatou uma sequência de gols e praticamente liquidou o jogo naquele primeiro tempo: Dorval, aos 32’, Pepe, aos 38’, e Pagão, já nos acréscimos, aumentaram para 5 a 2 e davam como certa a vitória santista. Foi ali que os santistas tiveram certeza que iriam golear ainda mais o rival. “Eu cheguei no vestiário dizendo: “Cinco vira, dez acaba”. Vamos detonar o Palmeiras hoje”, lembrou Zito, em entrevista tempo depois. O goleiro palmeirense Edgar, envergonhado pelos gols, começou a chorar, dizendo que não iria retornar ao segundo tempo. Com isso, o técnico Brandão acabou substituindo o titular pelo reserva, Vitor, e decidiu também colocar o uruguaio Caraballo no lugar de Nardo, para dar mais força à Mazzola na frente.

Diante daquele cenário de terra arrasada, Oswaldo Brandão tratou de mexer com o brio de seus atletas e inspirar uma reação. O goleiro Vitor, com o voto de confiança que ganhou, também entrou para a etapa final muito disposto a conter as investidas santistas. E o Pacaembu seria palco de uma virada simplesmente inesquecível.

 

Segundo tempo – Pirotecnia 

 

Com vocação ofensiva extrema, o Santos seguiu atacando, mas o goleiro Vitor começou a fazer defesas que surpreenderam os atletas alvinegros. Com a frustração de não poder marcar mais gols, o Peixe possibilitou espaços e contra-ataques. E, aos 16’, Paulinho, de pênalti, descontou para o Verdão. Três minutos depois, o atacante Mazzola começou a aparecer de vez e marcou o seu. Ao 27’, Mazzola anotou mais um e empatou: 5 a 5. O estádio já vivia uma ebulição de emoções e incredulidade, com os torcedores perplexos pela reação palmeirense. Só que tinha mais. Aos 34’, Urias, o mesmo que abriu o placar, marcou o gol da virada heroica do Palmeiras e fez explodir a massa alviverde no Pacaembu: 6 a 5.

Os narradores da época ficaram extasiados. Edson Leite, um dos grandes locutores de seu tempo, disse: “Milagre no Pacaembu. Estamos testemunhando o maior espetáculo que já vi no futebol”. Parecia exagero, mas não era. Imagine um time estar perdendo por 5 a 2 no primeiro tempo e simplesmente virar para 6 a 5, mesmo diante de um adversário letal no ataque? Era algo absurdo. Mas ainda mais absurdo foi o que aconteceu nos minutos seguintes. 

Com o orgulho ferido, os atacantes santistas trataram de colocar a bola no chão e mostrar que eles eram os donos da noite. Os reis dos gols. E Pepe, aproveitando a marcação não tão eficiente de Valdemar Carabina, foi o responsável por ajudar o Santos a conseguir a quarta virada da noite. Aos 38’, o Canhão da Vila marcou o gol de empate, de cabeça. E, faltando quatro minutos para o fim, fez o seu terceiro gol no jogo e o que fechou a contagem pirotécnica, monstruosa, inimaginável: Santos 7×6 Palmeiras. “O técnico do Palmeiras era o Oswaldo Brandão, que resolveu colocar o Valdemar Carabina, um zagueiro alto e forte, na direita, para me marcar. Fiz um salseiro pela esquerda, foi o maior clássico entre Santos e Palmeiras. Terminou 7 a 6 para o Santos e eu fiz três gols”, comentou Pepe ao Estadão tempo depois.

Ao apito do árbitro, aquele jogo entrou de vez para a história como um dos mais espetaculares em toda a história do futebol brasileiro. E, segundo alguns relatos e lendas, cinco pessoas sofreram infartos por causa da emoção vivida naquela noite. “Essa partida é tida como a mais emocionante da história. Faleceram cinco pessoas por causa dela, três delas com registro, sendo uma dentro do Pacaembu“, comentou o cineasta Aníbal Massaini, que produziu o filme Pelé Eterno e encontrou em suas pesquisas alguns gols desse jogo memorável. Veja a seguir:

Relatos em diversos sites e jornais dizem que três pessoas acabaram falecendo de problemas cardíacos. Uma no Pacaembu, e duas escutando a partida pelo rádio, sendo uma em São Paulo e outra em Campinas. Há fontes, sem documentação ou registro, que mais duas também teriam falecido escutando a partida. O fato é que o Santos 7×6 Palmeiras é simplesmente um jogo daqueles para as enciclopédias, memórias e qualquer amante do futebol se esbaldar pelos gols e reações diversas em apenas 90 minutos. 

 

Pós-jogo: O que aconteceu depois?

 

Santos: a vitória foi um sinal dos tempos de ouro que o Peixe iria viver naquele final de década de 1950 e em toda a década de 1960. A equipe foi campeã do Campeonato Paulista de maneira inquestionável e com o jovem Pelé anotando 58 gols. No Rio-SP, porém, o alvinegro fez uma campanha bem ruim e terminou apenas na 7ª colocação – o título ficou com o Vasco. Ainda em 1958, o Brasil foi campeão do mundo e teve em seu elenco três jogadores santistas: Pelé, Zito e Pepe, todos presentes na pirotecnia do Pacaembu.

Um jovem Pelé, feliz da vida, após a vitória histórica.

 

Palmeiras: após passar o ano de 1958 sem títulos, o Verdão venceu o Paulistão de 1959 diante do Santos e já com nomes que iriam brilhar pela Academia como Djalma Santos, Zequinha, Chinesinho e Julinho Botelho. Aliás, foi o Palmeiras o responsável por evitar que o Peixe vencesse todos os títulos paulistas nos anos seguintes, ao abocanhar também as taças de 1963 e 1966, além de torneios nacionais e interestaduais. Em 1958, na trajetória do Brasil na Copa do Mundo da Suécia, a seleção teve um só jogador alviverde: Mazzola, o autor de dois gols na pirotecnia do Pacaembu…

Didi, Mazzola, Pelé e Pepe, craques do Brasil em 1958.

 

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4 Comentários

  1. Para mim, esse é o jogo mais espetacular da história do futebol brasileiro de clubes. Imagino eu no Pacaembú naquela noite. Provavelmente teria passado mal de tanta emoção. E nem importa tanto que meu time tivesse saído derrotado. Testemunhar a peleja valeria o ingresso. Tem uma anedota desse jogo que vale ser mencionada. Ao descerem pro vestiário após a derrota, o Mazzola confirmou que o cartola que tinha recolhido a parte da bilheteria para o Palmeiras, deu todo o dinheiro pros atletas a título de bicho. Foi tão emocionante que ele nem quis ficar com o dinheiro.

  2. Que registro maravilhoso. Sem dúvida, a maior partida da história do futebol brasileiro. Por favor, no próximo jogo eterno, escreva sobre a partida Chelsea 4 X 4 Liverpool pelas Quartas de final da UEFA Champions League de 2009. Forte Abraço

  3. Uma (ótima) loucura que dificilmente vemos nos tempos atuais. Santos e Palmeiras fizeram um jogo que merece ser lembrado por toda a eternidade, sem dúvida! E acho que foi também um sinal verde para os esquadrões imortais que os dois apresentariam nos anos seguintes.

    Parabéns, Guilherme! Esse jogo foi, sim, eterno! Mas também tenho uma sugestão: você lembrou que o título do Rio-SP 1958 ficou com o Vasco. O Vasco, entre 1956 e 1958, teve feitos que eu acho que foram dignos de esquadrão imortal! Abração para você!

  4. Parabens pelo texto guilherme bom nem tem muito o que falar de um jogo de 13 gols mas um detalhe:pele e mazzola juntando as idades dava apenas 36 anos na epoca e meses depois dois garotos marcariam 8 gols e ganhariam a copa.mas falando de infartes alem desses ai teve um no paulista de 54 quando o corinthians virou para 3 x 2 contra o sao paulo e um corinthiano morreu ali mesmo no pacaembu e tambem tem registros de pelo menos 2 infartes no brasil x italia de 82.o choque da derrota foi tao grande que o coracao dessa gente parou mesmo.coisas do futebol ne kkk.

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