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Jogos Eternos – Holanda 2×1 Argentina 1998

Bergkamp finaliza a obra-prima.

 

Data: 04 de julho de 1998

O que estava em jogo: uma vaga para as semifinais da Copa do Mundo da FIFA de 1998.

Local: Stade Vélodrome, Marselha, França.

Árbitro: Arturo Brizio Carter (México)

Público: 55.000 pessoas

Os Times:

Holanda: Van der Sar; Reiziger; Stam, Frank de Boer e Numan; Jonk, Davids, Ronald de Boer (Overmars, aos 19’ do 2ºT) e Cocu; Bergkamp e Kluivert. Técnico: Guus Hiddink.

Argentina: Roa; Sensini, Ayala e Chamot (Balbo, aos 44’ do 2º T); Zanetti, Almeyda (Pineda, aos 23’ do 2º T), Verón, Ortega e Simeone; Batistuta e Claudio López. Técnico: Daniel Passarella.

Placar: Holanda 2×1 Argentina. Gols: (Kluivert-HOL, aos 12’, e Claudio López-ARG, aos 17’ do 1º T; Bergkamp-HOL, aos 45’ do 2º T).

Cartões Vermelhos: Numan-HOL, aos 31’ do 2º T; Ortega-ARG, aos 42’ do 2º T.

 

“Obra-prima em laranja”

 

Por Guilherme Diniz

 

Os amantes do futebol ganharam um presentão quando ficou definido um dos duelos das quartas de final da Copa do Mundo de 1998: Holanda e Argentina, reedição da final da Copa de 1978, exatamente 20 anos depois. Estava longe de ser uma revanche pois não se tratava da decisão, mas é claro que os holandeses entraram um pouco mais entusiasmados para aquela partida. A Argentina vinha de um duelo histórico contra a Inglaterra decidido apenas nos pênaltis, como você já relembrou aqui no Imortais e era um grande time, com Ortega, Batistuta – então artilheiro da Copa – Simeone, Zanetti, Almeyda… Mas a Holanda não ficava atrás e tinha em seu plantel nomes como Van der Sar, Stam, Frank de Boer, Reiziger, Davids, Cocu, Bergkamp e Kluivert. Seria um jogaço! E, de fato, foi. Com jogadas incisivas, velocidade e grandes lances, holandeses e argentinos proporcionaram 90 minutos de futebol em estado puro naquela tarde ensolarada no Vélodrome. Kluivert abriu o placar logo aos 12’. A Argentina empatou cinco minutos depois. A trave evitou mais gols e o jogo seguiu equilibrado até Numan levar cartão vermelho e deixar a Holanda em apuros nos 16 minutos finais. Só que a Argentina também ficou com um a menos perto do fim, com a expulsão de Ortega.

Quando o jogo parecia que ia para a prorrogação, Frank de Boer levantou a cabeça e viu Dennis Bergkamp lá na área argentina. De Boer lançou. A bola voou. Bergkamp, que tinha medo de voar, esperou ela ficar à meia altura o suficiente para ele dominar com um toque. Com outro toque, cortou Ayala passando a bola por entre suas pernas. Com mais um toque, mandou a bola para o gol de Roa. Uma obra de arte. Um golaço. Um dos gols mais bonitos da história das Copas do Mundo em todos os tempos. Um gol de classificação para a semifinal. O gol que sepultou a Argentina, o antigo algoz de 20 anos atrás. E que manteve vivo o sonho do título inédito da Holanda. É hora de relembrar um dos mais lendários jogos da história dos Mundiais.

 

Pré-jogo

Em pé: Van der Sar, Bergkamp, Stam, Cocu, Jonk e Kluivert. Agachados: Numan, Davids, Reiziger, Frank de Boer e Ronald de Boer. Sim, leitor, nem assim eles venceram uma Copa… 🙁

 

Presentes nas listas de favoritos ao título, Holanda e Argentina honraram tais condições com uma boa campanha até aquele momento da Copa. Com a maior safra de craques desde o título europeu de 1988, a Holanda passou em primeiro lugar na fase de grupos ao empatar sem gols contra a vizinha Bélgica, golear a Coreia do Sul por 5 a 0 e empatar em 2 a 2 com o México. Nas oitavas de final, a equipe laranja venceu a forte Iugoslávia por 2 a 1 – gols de Bergkamp e Davids – e garantiu a vaga nas quartas de final. Com uma dupla de zaga que aliava raça e técnica (Stam e Frank de Boer), um meio de campo criativo e marcador com Davids, Jonk, Ronald de Boer e Cocu, um atacante do calibre de Dennis Bergkamp e opções no banco como Zenden, Overmars e Seedorf, a Holanda tinha um dos elencos mais fortes do Mundial. E ainda havia uma boa notícia para o técnico Guus Hiddink: o retorno do atacante Patrick Kluivert, expulso na estreia do time na Copa e que voltaria de suspensão exatamente no duelo contra a Argentina. 

Batistuta e Simeone celebram o primeiro gol argentino no duelo contra a Inglaterra.

 

Já a seleção albiceleste conseguiu superar a polêmica pré-Copa causada pelo técnico Daniel Passarella – que vetou jogadores de cabelo comprido (!) no elenco, atitude que deixou de fora nomes como Claudio Caniggia e Fernando Redondo -, e se classificou com 100% de aproveitamento para a fase final após vencer Japão (1 a 0), Jamaica (5 a 0) e Croácia (1 a 0). Nas oitavas de final, a Argentina fez um duelo histórico contra a Inglaterra e, após empate em 2 a 2, venceu o English Team nos pênaltis por 4 a 3. A equipe de Passarella tinha uma forte defesa e um meio de campo magnífico composto por Almeyda, Verón e Simeone, que ainda recebiam o apoio de Zanetti, pela direita, e de Ortega, o camisa 10. Na frente, Claudio López e Gabriel Batistuta formavam um dos ataques mais letais do planeta e causavam muitos problemas às zagas rivais.

 

E a seleção sul-americana ainda se dava ao luxo de manter nomes como Marcelo Gallardo, na criação, e Hernán Crespo, sempre artilheiro, no banco de reservas! Eram dois times muito ofensivos e criativos, por isso, o duelo era o mais esperado de toda aquela fase de quartas de final – que teria também outros jogaços como Brasil x Dinamarca, França x Itália e Alemanha x Croácia.

 

Primeiro tempo – Todos ao ataque

Davids, motor turbo do meio de campo da Holanda de 1998.

 

No dia do jogo, muito sol em Marselha, quase 30º C e torcidas eufóricas. E, assim como nas outras partidas, a Holanda foi para a sua tática do sufocamento: time no ataque, jogadas incisivas e tentativas de gol até balançar as redes rivais. Aos 4’, Jonk, num de seus habituais petardos de fora da área, mandou uma bola na trave de Roa. A Argentina tinha muita dificuldade para sair jogando e não conseguia chegar perto da área de Van der Sar, pois a marcação dos laranjas era ferrenha. Até mesmo os atacantes Kluivert e Bergkamp apertavam a saída de bola do trio Sensini, Chamot e Ayala. Porém, quando tinha a bola, a equipe sul-americana sabia o que fazer, impunha velocidade e não deixava o torcedor piscar. Aos 10’, quando Ortega tentava escapar da marcação de Stam com sua habilidade, o argentino foi derrubado e fez com que o defensor holandês levasse o primeiro cartão amarelo do jogo. Na cobrança ensaiada, Batistuta chutou forte, mas a bola explodiu na barreira.

Kluivert corre pro abraço: após a suspensão, atacante voltou já com gol sobre a Argentina. Foto: Reuters.

 

 

Até que, aos 12’, em ótima jogada do ataque laranja, Ronald de Boer chutou aparentemente torto, mas a bola tinha endereço certo: o atacante Bergkamp, que escorou providencialmente de cabeça, desnorteou a zaga argentina e a redonda ficou livre para Kluivert fazer o primeiro gol. Que jogada! Insaciável, a Holanda seguiu no ataque e tentou os espaços para aumentar o placar, mas a Argentina conseguiu se defender. Porém, tanto apetite pelo ataque custou caro aos laranjas: aos 17’, em uma linha de impedimento mal feita, Verón fez um passe perfeito para Claudio López, que ficou cara a cara com Van der Sar e empatou: 1 a 1.

Claudio López tocou por entre as pernas de Van der Sar e empatou. Foto: AP.

 

O jogo era bastante equilibrado. A Holanda, no ataque, com tabelinhas, toques de primeira, dribles e os habituais lançamentos longos de Frank de Boer. A Argentina, apostando no contragolpe, recuada. Davids, em uma arrancada fulminante do meio de campo, entrou na área e quase marcou um gol antológico, aos 25’, e, quatro minutos depois, arriscou de longe para a boa defesa de Roa. Com muito apetite pela bola, os jogadores não escaparam dos cartões, e Numan, aos 17’, e Chamot, aos 22’, foram amarelados pelo árbitro mexicano. Aos 34’, Cocu arriscou de longe, mas Roa fez outra grande defesa. A resposta argentina veio aos 37’, quando Ortega chutou de fora da área e acertou a trave de Van der Sar. Ao apito do árbitro, o empate parecia pouco diante das oportunidades criadas. A expectativa era de muitos gols na etapa complementar.

 

Segundo tempo – Dennis Bergkamp…

No segundo tempo, depois de algumas oportunidades mornas do lado holandês, a primeira grande chance de gol surgiu aos 18’, quando Batistuta recebeu passe de Verón, cortou o defensor e ia fazer um golaço, mas acertou a trave de Van der Sar! Que judiação com o Batigol! O jogo seguiu com fortes emoções e, um minuto depois, Kluivert, em uma de suas cabeçadas letais, só não fez mais um porque o goleiro Roa operou um verdadeiro milagre. Aos 31’, Numan acertou em cheio Simeone, e, como já tinha amarelo, foi expulso – um balde de água fria para o time holandês, que tinha acabado de fazer uma modificação com a entrada do veloz Overmars no lugar de Ronald de Boer. Sem Numan, a equipe laranja teria que se precaver mais para evitar os contragolpes argentinos.

Os times em campo: muita velocidade e boas chances de gols para ambos os lados. Foto: criada com o Share my tactics.

 

Àquela altura, ficava a pergunta: será que a Holanda iria sucumbir diante da Argentina como em 1978 de novo? Aos 35’, Batistuta subiu mais alto do que Stam, mas cabeceou para fora. Quatro minutos depois, Verón chutou de fora, mas Van der Sar defendeu sem sustos. Mas aí, aos 42’, Ortega levou um cartão amarelo por simular um pênalti. Quando foi levantar, acertou o nariz de Van der Sar (na verdade, ele fingiu…) e o juiz viu. Cartão vermelho para o camisa 10. E igualdade numérica também de jogadores.

 

O tempo ia ficando cada vez mais escasso em Marselha. A Holanda já temia uma prorrogação. Muito mais, os pênaltis, sempre indigestos para os holandeses em competições oficiais. Até que, no último minuto, aconteceu um daqueles momentos que não cabem palavras suficientes. Momentos que são definidos pela genialidade de seus envolvidos, pelos astros do futebol, pelas camisas. Pela alma. Sim, o futebol tem alma. Seleções em Copas têm alma. E, naquele último minuto de jogo, a Holanda mostrou a sua. Frank de Boer, o camisa 10 na zaga, o zagueiro que fazia lançamentos que centenas de meias no mundo inteiro não tinham noção nem capacidade alguma de fazer, conduziu a bola com calma, sutileza, maestria. Ele levantou a cabeça. Viu Dennis Bergkamp na área e mais três argentinos à espreita, sem contar o goleiro. Mesmo assim, De Boer lançou. 

 

A bola voou por dois, três segundos. Bergkamp, que tinha medo de voar, esperou ela ficar à meia altura o suficiente para ele dominar com um toque. Com outro toque, cortou Ayala passando a bola por entre suas pernas. Com mais um toque, mandou a bola para o gol de Roa. Uma obra de arte. Um golaço. Um dos gols mais bonitos da história das Copas do Mundo em todos os tempos. O gol da classificação para a semifinal. O gol que sepultou a Argentina, o antigo algoz de 20 anos atrás. O gol mais importante da carreira de Bergkamp segundo o próprio.

 

Veja o golaço, com narração holandesa:

A “anatomia” de um golaço: Frank de Boer lança de longe, muito longe. Bergkamp recebe, dribla Ayala e fuzila Roa. Pintura.

 

Bergkamp vibra após marcar um dos gols mais fantásticos de sua carreira.

 

Nos acréscimos, a Argentina não teve forças para o empate. Nem poderia. Depois de um gol daqueles, a vaga era da Holanda por puro merecimento. Os laranjas, pela primeira vez desde 1978, estavam entre os quatro melhores do mundo. Dava gosto ver aquele time jogar. Como era um privilégio ver tantos craques com uma só camisa. E como foi um privilégio ver aquele gol de Bergkamp. Antológico. Único. Eterno.

 

Pós-jogo: O que aconteceu depois?

 

Holanda: depois de encarar a albiceleste, a equipe laranja teve pela frente o Brasil e, mais uma vez, protagonizou outro jogaço histórico. Depois de um primeiro tempo morno, o segundo tempo foi de matar e terminou empatado em 1 a 1. Na prorrogação, que na época tinha Gol de Ouro, muita emoção e chances dos dois lados. A igualdade persistiu e o jogo foi para os pênaltis. Na marca da cal, o Brasil venceu por 4 a 2 e foi para a decisão. A Holanda teve que se contentar com a disputa pelo terceiro lugar, perdida para a Croácia por 3 a 0

A equipe laranja acabou de fora da Copa de 2002 e só retornou em 2006, quando caiu no “Grupo da Morte” ao lado da Costa do Marfim, Sérvia e Montenegro e Argentina. Mas a Holanda conseguiu se classificar ao lado da equipe sul-americana e ambas foram para as oitavas de final – os europeus foram eliminados por Portugal, enquanto a albiceleste passou pelo México, mas perdeu para a Alemanha nas quartas de final. Os laranjas reencontraram a Argentina em Copas só em 2014, na semifinal, quando foram derrotados nos pênaltis e perderam a chance de disputar a final.

Em 2014, a Argentina deu o troco e eliminou a Holanda na semifinal da Copa. Foto: REUTERS / Michael Dalder.

 

Argentina: depois da dolorosa eliminação, a Argentina encarou a Holanda mais duas vezes em Copas: em 2006, na fase de grupos, no empate em 0 a 0 que classificou ambas para as oitavas de final, e em 2014, na semifinal. No duelo entre Robben x Messi, melhor para o camisa 10 argentino. Após empate sem gols no tempo normal e na prorrogação, a albiceleste deu o troco pela derrota de 1998 e venceu nos pênaltis por 4 a 2, garantindo sua participação na final. Porém, a albiceleste perdeu para a Alemanha por 1 a 0 e o sonho do tri foi adiado.

 

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