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St. James’ Park: A Catedral do Newcastle

Por Guilherme Diniz

  • Nome: St. James’ Park
  • Localização: Newcastle upon Tyne, Inglaterra
  • Inauguração: 03 de setembro de 1892
  • Proprietário: Newcastle United FC
  • Capacidade: 52.719 pessoas
  • Recorde de público: 68.386 pessoas no Newcastle 1×0 Chelsea, 03 de setembro de 1930

Ele nasceu antes mesmo de seu futuro dono, em uma área com vizinhos hostis em Newcastle upon Tyne, que eram contra a “intolerável e sem sentido” prática do futebol por ali, lá no final do século XIX. Mas ele resistiu. Cresceu. E se tornou um dos principais estádios não só da região, mas de toda Inglaterra. Só que aquela vizinhança não arredava pé e impedia a modernização daquele estádio, que acabou de fora da Copa do Mundo de 1966 justamente por causa disso. Ele correu risco de desaparecer, até que uma longa briga permitiu, enfim, que obras fossem feitas para adequar o estádio às normas e regras que outros já seguiam. 

O tempo passou e Newcastle upon Tyne criou uma simbiose profunda com aquele estádio, que hoje é parte integrante e intocável da região. O St. James’ Park é um dos mais antigos, clássicos e tradicionais palcos do futebol inglês e patrimônio máximo do Newcastle United, que conta com sua fanática torcida para proporcionar uma das maiores experiências para desfrutar de uma partida de futebol. É hora de conhecer a história da Catedral da Colina. 

Primórdios e os vizinhos complicados

A localização do St. James’ Park possui enorme influência na região de Newcastle upon Tyne. Com um declive acentuado, a área era utilizada por diversas pessoas, em especial criadores de bovinos, que levavam os animais para pastar por ali antes do abate. Ao sul, a colina era vizinha à sádica forca da cidade, cujo último enforcamento público aconteceu em 1844 e originou o nome Gallowgate End à arquibancada sul de St. James’ Park. Tempo depois, o futebol começou a ganhar a simpatia de várias pessoas na cidade, que começaram a procurar espaços para a prática do esporte. E um dos locais escolhidos foi exatamente aquele terreno, que passou a ser delimitado pelo Leazes Park e pelo requintado Georgian Leazes Terrace, construído para abrigar algumas das elegantes senhoras e cavalheiros de Tyneside.

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Newcastle East End, clube que originou o Newcastle United

Com as casas ao redor, o campo passou a ser muito cobiçado por times amadores e, claro, por clubes. Apesar de não ter arquibancadas nem nada parecido com um estádio – apenas as marcações no chão -, o Newcastle Rangers foi o primeiro a jogar por ali já em 1880, após mudar de casa em 1882 e encerrar suas atividades em 1884. Tempo depois, o Newcastle West End também atuou no local a partir de 1886 e começou a rivalizar com o Newcastle East End, que se destacou na liga local a ponto de se tornar, em 1889, o primeiro clube profissional de Newcastle. Já nos anos 1890, o East End viu o rival entrar em colapso financeiro e decretar falência em 1892, o que motivou vários atletas do clube a passarem a vestir a camisa do East End. Como o clube jogava na época no acanhado Chillingham Road, eles decidiram comprar o terreno de St. James’ Park e passaram a jogar lá a partir de 1892, construindo as primeiras arquibancadas de madeiras.

Essa nova fase motivou ainda a mudança de nome do clube, que passou de Newcastle East End para Newcastle United, após votação entre os membros e torcedores pelo fato de este último nome simbolizar que Newcastle contava naquele momento com apenas uma equipe, a qual teria a missão de “unir todos os torcedores, inclusive aqueles que antes eram rivais”. A primeira partida do clube na nova casa e tida como a primeira na história de St. James’ Park como um “estádio” aconteceu em 03 de setembro de 1892, na derrota por 1 a 0 para o Celtic-ESC e vista por 7 mil pessoas.

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st james park More than 100 years ago
Foto: Newcastle Photo Archive

A partir dali, começaram as intrigas com os moradores do Georgian Leazes Terrace, que ameaçaram tomar medidas legais para impedir o “incômodo intolerável” de jogar futebol no local. O clube não pôde avançar nas obras de modernização até 1898, quando foi promovido à elite do futebol inglês e conseguiu, enfim, melhorar as condições do gramado – que vivia cheio de lama e com buracos -, melhorar a terraplanagem e construir mais arquibancadas após arrendar quatro acres adicionais ao local.

O gramado foi deslocado para oeste, criando espaço adicional no lado de Leazes Terrace, enquanto arquibancadas em forma de terraços foram abertas nos barrancos naturais, dando ao estádio uma capacidade para 30 mil pessoas, em pé, a partir de 1899.

Crescimento e as multidões

Um plano de desenvolvimento grandioso foi colocado em ação apenas cinco anos depois, quando uma reconstrução completa do terreno ocorreu. A notável ascenção do Newcastle United exigia mais espaço para os torcedores, principalmente no começo dos anos 1900, quando o clube venceu os campeonatos nacionais de 1904–05, 1906–07 e 1908–09. Foi construída uma enorme arquibancada central na Barrack Road – atual Milburn Stand -, que simplesmente dobrou a capacidade de St. James’ Park para incríveis 60 mil pessoas, tornando o estádio o maior da Inglaterra e o melhor do país.

St. James’ Park
Newcastle Photo Archive

St. James’ Park virou sinônimo não só de futebol, mas de esportes em geral, pois foi construída uma vasta piscina sob o stand com instalações e vestiários, um toque de luxo que trouxe inveja a todos os clubes da Liga inglesa. As melhorias foram apresentadas pela primeira vez em setembro de 1905 com pompa e cerimônia. Tyneside na época tinha um estádio para se orgulhar. E o Newcastle retribuiu vivendo uma era de ouro que teve três títulos do Campeonato Inglês, uma Supercopa inglesa e ainda a participação em cinco finais da Copa da Inglaterra em sete anos: 1905, 1906, 1908, 1910 (campeão) e 1911. Além do futebol, o estádio abrigou ainda partidas de rugby em 1908 e 1909. 

Após a Primeira Guerra Mundial, o St. James’ Park fez parte também da popularização do futebol feminino, que atraiu multidões pelo país na época e algumas equipes femininas, formadas em sua maioria por trabalhadoras das fábricas de munição, disputaram pelo menos 26 partidas no St. James’ Park. No entanto, a FA acabaria proibindo partidas femininas em campos afiliados à entidade em 1921.

st james park old

Foi nos anos 1920 que o Newcastle planejou novas melhorias em seu campo com inspiração nos estádios assinados pelo renomado arquiteto Archibald Leitch, responsável por vários estádios icônicos da Europa como Highbury, Celtic Park, Old Trafford, Hampden Park, Anfield Road, Ibrox, entre outros. A expectativa dos dirigentes do Newcastle era enorme, principalmente com o projeto de arquibancadas cobertas nos quatro lados, além de melhorias estéticas e estruturais.

st james park 1900

Só que o sonho dos Magpies ruiu por causa de um antigo problema: os vizinhos. O Leazes Terrace, colado ao estádio, impossibilitava a expansão planejada por Leitch, além de outros terrenos e área, como a do Leazes Park, também frearem qualquer tipo de obra maior. Construído entre 1829 e 1834 e projetado por Thomas Oliver, o enorme conjunto residencial georgiano era classificado como Grade I, nível máximo de proteção patrimonial britânica. Ou seja, nada poderia avançar para perto dele nem ao menos causar danos estruturais ao local.

Por isso, entre 1921 e 1929, o projeto de Leitch foi drasticamente reduzido. Foram incluídas apenas novas barreiras de segurança, túneis para os vestiários e tímidas modernizações da Main Stand. Em 1929, uma cobertura simples foi inaugurada no Leazes End, enquanto as propostas de cobrir a arquibancada leste e construir uma arquibancada de dois andares no Gallowgate End foram rejeitadas. E seria com aquela arquitetura que St. James’ Park permaneceria nos próximos 70 anos.

Frustrações e ausência na Copa do Mundo de 1966

A impossibilidade de grandes intervenções tornou a casa do Newcastle “velha” demais em pouco tempo. Com outros estádios espalhados pelo país livres para obras e crescendo, St. James’ Park não acompanhou essa evolução e contava nos anos 1930 e 1940 com apenas 5 mil lugares para pessoas sentadas e quase 50 mil para pessoas em pé – e ainda sem cobertura! Esse período improdutivo veio de encontro à queda do Newcastle no cenário nacional, com o clube ficando longe de brigar por grandes títulos entre 1933 e 1950.

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Os refletores de St. James’ Park (à direita).

Só nos anos 1950, mais precisamente em 1953, que St. James’ Park ganhou um alento: a inauguração de iluminação artificial, em partida na qual o Newcastle derrotou o Celtic por 2 a 0, em fevereiro daquele ano, diante de 42 mil pessoas. A luz “inspirou” o clube, que voltou a brilhar naquela década e venceu as Copas da Inglaterra de 1951, 1952 e 1955.

O sistema de iluminação do estádio passou tempo depois por uma modernização significativa em 1958, quando o Newcastle United pagou 40 mil libras por quatro torres de 190 pés (aproximadamente 58 metros) de altura. Eram as maiores e melhores da Grã-Bretanha na época, e o horizonte da cidade ganhou um novo elemento marcante. Porém, aquilo ainda era pouco perto das modernidades que outros estádios tinham na época.

O estopim para a crise entre Newcastle, prefeitura e vizinhança veio entre 1963 e 1966, período no qual a Inglaterra se preparava para sediar a Copa do Mundo da FIFA de 1966. No processo de seleção das sedes, Newcastle naturalmente era uma escolha de peso pelo passado e o sucesso recente dos Magpies, que seriam inclusive campeões da Copa das Cidades com Feiras de 1968-1969. Só que as exigências da FIFA para com o estádio eram impossíveis de serem feitas por causa dos já citados problemas com o Leazes Terrace e as intermináveis disputas urbanísticas e políticas que impediam as reformas necessárias. 

St James Park 31st July 1963
Vista aérea do estádio, em 1963. Note o Leazes Terrace, à esquerda da foto.

No fim, St. James’ Park ficou de fora da Copa e deixou uma das cidades mais apaixonadas pelo futebol sem poder ver de perto a maior competição do esporte. A diretoria dos Magpies tentou pôr em prática um novo projeto de complexo esportivo para o estádio, mas outra vez os trabalhos foram rejeitados. Sem qualquer perspectiva, o clube começou a pensar em deixar St. James’ Park. Seria o fim da Catedral da Colina?

Do quase fim às obras – 50 anos depois!

O Newcastle United ficou à beira de se mudar de St. James’ Park naquele final de anos 1960 e início de anos 1970. As opções na mesa eram construir um outro estádio, em Gosforth – a 5 km de St, James’ Park-, mudar para outro local mais longe ou até dividir um novo estádio com o Sunderland – a 25 km de Newcastle upon Tyne. Vendo tudo aquilo, a prefeitura, enfim, cedeu, graças à uma intervenção providencial do ministro dos esportes da época Denis Howell. Depois de muita conversa, ficou aprovado um plano de expansão e modernização no mínimo peculiar: as arquibancadas poderiam ser ampliadas e até mesmo duplicadas, mas o lado do famigerado Leazes Terrace deveria permanecer com a mesma altura e com intervenções cuidadosamente fiscalizadas.

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O estádio mudou completamente de visual após a permissão de novas obras.

Com isso, as obras começaram em 1972 na East Stand, 50 anos depois das últimas mudanças estruturais lá na Main Stand. Em 1978, o antigo Leazes End foi parcialmente demolido com a intenção de se construir uma nova North Stand. A fundação e alterações no terraço foram realizadas, porém, com o rebaixamento do Newcastle e enormes dificuldades financeiras, a arquibancada planejada simplesmente não apareceu e o estádio ficou, durante anos, com aspecto irregular e parcialmente inacabado.

Em 1987, foi a vez da West Stand ser demolida devido a problemas estruturais e suas obras de reconstrução duraram pouco mais de um ano, sendo inaugurada em 1988, com capacidade para 6.600 pessoas. Em 1990, a arquibancada ganhou o nome de Milburn Stand, em homenagem ao ídolo Jackie Milburn, tricampeão da Copa da Inglaterra com os Magpies nos anos 1950.

Anos 1990: a revolução de Sir John Hall

Após o executivo Sir John Hall adquirir quase 80% do Newcastle United em 1991 e, no ano seguinte, trazer o técnico Kevin Keegan, o St. James’ Park recebeu ótimos aportes financeiros que possibilitaram reformas marcantes. Após a tragédia de Hillsborough e o Taylor Report, os grandes estádios ingleses precisavam abandonar os gigantescos terraços e disponibilizar assentos numerados aos torcedores. Entre março de 1993 e agosto de 1995, o clube gastou mais de 23 milhões de libras em melhorias que incluíam:

  • Construção da Sir John Hall Stand no lugar do antigo Leazes End (o nome voltaria anos depois);
  • Fechamento dos cantos do estádio;
  • Modernização do Gallowgate End;
  • Utilização de blocos de tom arenoso, aço cinza e estruturas tubulares brancas nas novas estruturas, criando uma icônica aparência visual;
  • Nova capacidade para 36.610 espectadores
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Um já moderno St. James’ Park e o vizinho Leazes Terrace.

Era praticamente um estádio novo construído dentro do velho endereço. E isso deu de presente ao St. James’ Park uma grande competição de seleções pela primeira vez: a Eurocopa de 1996, com três partidas realizadas na casa dos Magpies. Foi nos anos 1990 que o clube encantou sua torcida com grandes jogos, um time altamente competitivo e que teve o atacante Alan Shearer deslumbrando com seus gols e recordes. A equipe não levantou títulos – foi vice-campeã da Premier League de 1995-1996 e 1996-1997 -, mas proporcionou embates épicos contra os gigantes do país, em especial o Manchester United, com uma série de encontros que entraram para a história do Campeonato Inglês.

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Alan Shearer foi a maior estrela de St. James’ Park no final dos 1990 e parte dos anos 2000.

Com muitos torcedores em filas de espera para conseguir ingressos, a diretoria iniciou um no projeto de expansão do estádio, visando aumentar a capacidade para até 70 mil pessoas. O local escolhido seria Castle Leazes, praticamente ao lado do estádio existente. Mas, de novo, o plano ambicioso foi por água abaixo por causa da forte oposição, principalmente por envolver áreas protegidas e espaços verdes próximos ao Leazes Park e Town Moor. A solução foi incluir outro lance de arquibancadas na Milburn Stand e na Sir John Hall Stand, incluindo o canto entre elas. As obras duraram dois anos, entre 1998 e 2000, e foi feita uma enorme cobertura, além de os camarotes também receberem uma repaginação.

No fim, St. James’ Park ganhou a faceta que traduz bem sua história: de um lado, a Milburn Stand e Leazes End gigantescos. Do outro, a East Stand e Gallowgate consideravelmente menores. Não fossem os vizinhos, o estádio certamente seria um dos maiores da Inglaterra, com capacidade superior a 80 mil torcedores, mas o público máximo ficou definido em pouco mais de 52 mil pessoas.

Século XXI: uma lenda do esporte

Adequado a todas as exigências da FA e da FIFA, o St. James’ Park cravou seu lugar entre os principais estádios do Velho Continente e seguiu na vitrine dos grandes eventos, recebendo shows memoráveis, partidas de futebol dos Jogos Olímpicos de 2012, da seleção inglesa, de rugby e tem presença confirmada como uma das sedes da Eurocopa de 2028, que será realizada no Reino Unido e na Irlanda. O estádio também conserva a história de seus ídolos, com estátuas externas do ex-técnico Bobby Robson, do ídolo Jackie Milburn, do artilheiro Alan Shearer e uma placa a Joe Harvey, histórico jogador e treinador dos Magpies.

st james park noite

Após ser adquirido por um grupo saudita em 2021, o Newcastle United ganhou mais força financeira para novas melhorias no estádio e estuda uma ampliação e até a construção de um novo, apesar da resistência da diretoria e torcedores. Em 2026, o clube adquiriu uma parte do famigerado Leazes Terrace, abrangendo as fachadas norte, sul e oeste – incluindo as áreas voltadas para o estádio e a maior parte da fachada leste. Algumas residências privadas, no entanto, permaneceram fora do negócio. Apesar de continuar como patrimônio Grade I, o Leazes Terrace agora dá ao Newcastle muito mais controle sobre um dos elementos que restringiram o desenvolvimento do estádio, com o próprio clube descrevendo a aquisição como estratégica ao planejamento de longo prazo.

Com mais de 130 anos de história, St. James’ Park é uma verdadeira lenda do futebol que resistiu a vários embargos para se consolidar e crescer na medida do possível, acompanhando um clube cuja torcida é uma das mais apaixonadas da Inglaterra e aprendeu a resistir e se adaptar, sob todas as circunstâncias, como sua Catedral.

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