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Ibrox Stadium – A Fortaleza do Rangers

Por Guilherme Diniz

Nome: Ibrox Stadium

Localização: Glasgow, Escócia

Inauguração: 30 de dezembro de 1899

Partida Inaugural: Rangers 3×1 Hearts, 30 de dezembro de 1899

Proprietário: Rangers Football Club

Capacidade: 51.700 pessoas

Recorde de público: 118.567 pessoas no Rangers 2×1 Celtic, em 02 de janeiro de 1939

A Edmiston Drive, em Glasgow, possui um imponente edifício que mais parece uma fábrica. Com seus tijolos clássicos e uma estrutura icônica, aquele local nasceu no século XIX, se consolidou durante todo o século XX e segue sua lenda no século XXI. Isso mesmo: ele possui mais de 125 anos! Mas esse local tão clássico não é uma fábrica. Bem, poderia ser, mas de emoções, vibrações e gols. Patrimônio maior do Rangers, o Ibrox Stadium é um dos estádios mais antigos do mundo e exemplo máximo da evolução pela qual as construções de estádios passaram ao longo das décadas. As arquibancadas de madeiras deram lugar às de concreto armado. As escadas íngremes deram lugar às bem feitas e largas. E as tribunas apertadas deram lugar aos assentos numerados e confortáveis. Ver o Ibrox é ver a história, um híbrido de futebol clássico com moderno. Mas também recordar que a precariedade leva a tragédias, como as duas graves que ocorreram no estádio em 1902 e 1971, ambas com dezenas de mortes. É hora de relembrar.

Primórdios do Ibrox Park

Fundado por quatro adolescentes enquanto passeavam pelo West End Park (atual Kelvingrove Park), em março de 1872 (!), onde discutiram a ideia de formar um clube de futebol, o Rangers teve como primeiro estádio o Fleshers’ Haugh, em Glasgow Green, seguido pelo Burnbank Park e depois pelo Kinning Park. O clube ainda perambulou por outros campos públicos e só foi encontrar um lugar para chamar de seu quando se mudou para o subúrbio de Glasgow, em Ibrox, onde os mandatários dos Gers construíram um estádio para 1.200 pessoas em uma área adjacente onde seria o futuro Ibrox Stadium. A nova casa foi inaugurada em 1887, em amistoso contra o Preston North End-ING que foi encerrado aos 70 minutos por conta de uma invasão de campo – os ingleses venciam por 8 a 1…

O antigo pavilhão do Ibrox Park
 

Tempo depois, o Rangers fez uma série de melhorias que elevaram a capacidade do estádio para 7 mil espectadores e, posteriormente, para cerca de 30 mil, o que possibilitou a realização de jogos de seleções e partidas válidas pelo Campeonato Britânico, além de uma final da Copa da Escócia, em 1890, entre Queen’s Park e Vale of Leven, vencida pelo Queen’s Park após empate em 1 a 1 e vitória por 2 a 1 no replay. Com arquibancadas de madeira e muito simples, o Ibrox não atendia a nenhum requisito básico de segurança na época e era frequentemente vetado para jogos com grande público. Na final da Copa da Escócia de 1893, por exemplo, a partida entre Celtic e Queen’s Park foi cancelada por conta dos problemas do estádio – lotado, com 30 mil pessoas – e da condição do gramado, o que obrigou a realização de um novo jogo com metade do público – vencido pelo Queen’s Park por 2 a 1. 

Fleshers Haugh
Foto atual de Flesher’s Haugh, onde o Rangers jogou sua primeira partida.
 

Três semanas depois, o Ibrox Park apresentou mais problemas quando sediou um jogo internacional entre Escócia e Inglaterra: uma arquibancada desabou, causando duas mortes. Com a ascensão do Celtic Park, casa do rival Celtic, o Rangers viu seu estádio ficar cada vez mais de lado e o clube entendeu que precisava de uma mudança urgente. Na verdade, recomeçar do zero. Com isso, os Gers adquiriram um terreno adjacente ao Ibrox Park e, em 1899, inauguraram definitivamente sua nova casa, também chamada de Ibrox Park, com base no projeto de Archibald Leitch, um dos mais célebres arquitetos do Reino Unido e que tinha como característica desenvolver estádios funcionais ao invés de esteticamente elegantes, claramente influenciados por seus trabalhos em edifícios industriais. 

Tipicamente, as arquibancadas tinham dois níveis, com balaustradas de aço entrecruzadas na frente do nível superior, e eram cobertas por uma série de telhados inclinados, construídos de forma que suas extremidades ficassem voltadas para o campo de jogo; o vão central do telhado seria distintamente maior e incorporaria um frontão característico. O material principal, claro, era a madeira, especialmente nos assentos e escadas. E isso seria um dos motivos para a primeira grande tragédia do estádio três anos depois de sua inauguração.

A tragédia de 1902

O novo Ibrox tinha capacidade para 80 mil pessoas naquele começo de século XX e o Rangers queria ser referência no país em jogos para grandes públicos. Só que esse anseio pela multidão vinha em tempos nos quais o concreto armado ainda não era o material principal dos estádios. E isso tinha um preço. Em 05 de abril de 1902, em um duelo entre Escócia e Inglaterra válido pelo Campeonato Britânico, mais de 68 mil pessoas lotaram a casa dos Gers e suas arquibancadas de madeira. Logo no começo da partida, parte da estrutura da recém-construída bancada oeste colapsou, abrindo um buraco no qual caíram centenas de torcedores. Mais de 500 ficaram feridos e 25 acabaram falecendo. 

1902 ibrox tragedy
Imagine ver um jogo de futebol em arquibancadas como esta!?
 

Foi instaurado um inquérito sobre as mortes e foi constatada que a madeira de qualidade inferior utilizada no terraço foi a causa do acidente. O jogo foi interrompido, mas seria retomado após uma pausa. Houve receio de despertar (ainda mais) pânico, até porque muitas pessoas não tiveram noção real do sucedido.

“Os jogadores pensavam que era uma situação de esmagamento, mas sem casos graves. Viam pessoas retiradas para o pavilhão, mas julgavam que era por desmaio, e não por algo grave. A verdade é que era uma tragédia a desenrolar-se e muitas pessoas só perceberam no final do jogo”. – David Mason, historiador do Rangers, em entrevista ao jornal A Bola (Portugal), 14 de março de 2024.

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Archibald Leitch
 

O arquiteto Archibald Leitch havia expressado preocupação com a capacidade máxima e visitou o local antes da partida para verificar a arquibancada, mas um inspetor da época “considerou o estádio adequado para o uso”, sendo que, anteriormente, havia relatos de oscilações significativas na estrutura. Ninguém foi responsabilizado pela tragédia, mas ela mudou a forma de construir estádios no Reino Unido, principalmente no que diz respeito à utilização de estruturas de madeira. O acidente abalou bastante o Rangers, que teve que prestar auxílio financeiro às vítimas e às respectivas famílias, além de investir na renovação do estádio. “Tiveram de vender alguns dos melhores jogadores, e isso atrasou o desenvolvimento do clube alguns anos”, disse Mason. Tetracampeão escocês consecutivo antes da tragédia, o Rangers só voltaria a celebrar títulos no campeonato nacional em 1911.

Reformas e consolidação

Archibald Leitch, que era torcedor do Rangers, ficou inconsolável com o incidente e implorou ao clube por uma chance de corrigir os erros cometidos, dizendo que aquilo lhe causou “uma angústia indizível”. Ele foi recontratado pelo clube e fez um formato patenteado de arquibancadas, que seria sua marca dali em diante, formado por solo firme – essencialmente aterros – para torná-los mais resistentes. Ele também apresentou barreiras de contenção tubulares de aço, construídas na encosta e formando uma rede de aço e concreto sobre o talude.

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O Ibrox nos anos 1920.
 

Após o acidente, o uso de estruturas de madeira sobre armações de aço para campos de futebol foi amplamente desacreditado e substituído em todo o Reino Unido por arquibancadas apoiadas em terraplenagem ou concreto armado. Alguns dos estádios beneficiados por esse novo estilo de construção de Leitch foram o Craven Cottage, do Fulham, e Stamford Bridge, do Chelsea.

O Ibrox teve sua capacidade reduzida para pouco mais de 25 mil torcedores após 1902 e, posteriormente, voltou a receber mais de 60 mil pessoas com a conclusão das obras de Leitch. Com isso, naqueles anos 1910, Glasgow tinha os três maiores estádios de futebol do mundo: Ibrox, Celtic Park e Hampden Park. Nos anos 1920, o Ibrox ganhou mais melhorias, com a inauguração da icônica Main Stand (arquibancada principal) em 1929, que possui a conhecida varanda em forma de cruz no estilo Leitch e uma fachada de tijolos vermelhos, com capacidade para 10.000 pessoas sentadas e acomodações para torcedores em pé.

ibrox record attendance

A arquibancada principal do Ibrox é considerada por muitos como a maior obra de Leitch e resplandece depois de mais de um século com os tijolos vermelhos sob um manto moderno de vidro e aço – os assentos originais eram feitos de ferro fundido e carvalho. Nos anos 1930, o Ibrox ganhou ainda mais espaço e, em um Old Firm de janeiro de 1939, 118.567 lotaram a casa do Rangers, no maior público da história do estádio e jamais superado. Para a alegria da torcida, os Gers venceram o rival por 2 a 1 e ficaram com o título nacional naquela temporada, a última antes da paralização por conta da Segunda Guerra Mundial.

A tragédia de 1971

Por mais que já estivesse consolidado como um dos principais estádios da Europa e a fama de possuir uma das atmosferas mais intensas do mundo, com multidões compactadas em setores de arquibancadas em pé (terracing), o Ibrox não recebeu grandes melhorias em infra estrutura no pós-Guerra nem nas décadas seguintes. Apesar de sua imponência, o modelo de estádio baseado em grandes áreas de pé trazia riscos evidentes, especialmente em jogos de alta demanda. 

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Alguns sinais foram dados nos anos 1960, quando, em setembro de 1961, dois torcedores morreram quando uma barreira desabou na famosa Escadaria 13 da arquibancada leste, causando um tumulto. Aquela escadaria era extremamente íngreme e, com centenas de torcedores, era um risco enorme para quedas. O problema é que ela era uma saída popular do setor leste devido à sua proximidade com a estação de metrô Copland Road e com os estacionamentos para os ônibus dos torcedores do Rangers.

Após esse incidente, o Rangers instalou alguns avisos de segurança, mas outros acidentes ocorreram em tumultos na Escadaria 13 tanto em 1967 quanto em 1969. Em 23 de outubro de 1968, a arquibancada principal do Ibrox foi atingida por um incêndio. Apenas sete meses depois, outro incêndio destruiu mais de 200 assentos atrás do camarote dos diretores. Parecia que a bruxa estava solta por ali, justamente em um período no qual o rival do Rangers, o Celtic, colecionava taças no país e até na Europa e o clube ficava “a quilômetros de distância”, como diziam os jornais da época.

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E tudo piorou ainda mais no fatídico Old Firm de 02 de janeiro de 1971. Com mais de 80 mil pessoas no estádio, o jogo parecia decidido a favor do Celtic em 1 a 0 quando torcedores começaram a deixar o estádio pela famigerada Escadaria 13. Nos instantes finais, Colin Stein marcou o gol de empate, gerando uma reação imediata de parte do público — alguns tentaram retornar, enquanto outros continuavam saindo. Esse movimento contrário, somado à inacreditável inclinação da escada e ao grande volume de pessoas, provocou um efeito dominó. Relatos dizem que uma criança caiu dos ombros de seu pai e isso desencadeou um efeito cascata, quando as pessoas começaram a cair, sendo esmagadas pela multidão atrás. O resultado foi catastrófico: 66 pessoas morreram asfixiadas e pisoteadas nas escadarias do estádio e outras 200 ficaram feridas. Irvine Smith, oficial de segurança de Glasgow na época, comentou sobre o acidente.

“Pelo que consta das provas, o Conselho nunca sequer considerou que deveria analisar a questão da segurança naquela escadaria em particular […] e parece – e digo isso sem rodeios – ter procedido com a ideia de que, se o problema fosse ignorado por tempo suficiente, acabaria por desaparecer […] Aliás, vai mais além disso, porque certas ações só podem ser interpretadas como uma tentativa deliberada e aparentemente bem-sucedida de enganar os outros, fazendo-os acreditar que estavam a fazer algo, quando na verdade não estavam a fazer nada”.

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A fatídica escadaria do Ibrox.
 
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Foi a pior tragédia do futebol escocês e uma das piores do futebol britânico. Como consequência, o Rangers teve que fazer uma profunda reformulação em seu estádio, liderada inclusive pelo técnico do clube, William Waddell, que visitou o Westfalenstadion, casa do Borussia Dortmund, como inspiração para as melhorias estruturais das arquibancadas e entradas. As obras durariam três anos e puderam ser feitas sem atrapalhar o uso do Ibrox pelo Rangers no período. Waddell foi importante, também, no apoio aos familiares das vítimas e no trabalho emocional aos jogadores para a temporada 1971-1972. Décadas depois, o clube inaugurou um monumento em homenagem às vítimas, com o capitão John Greig, líder do time na época, no topo.

Um novo Ibrox

As reformas do Ibrox trouxeram enormes benfeitorias que serviram de exemplo, mais uma vez, a outros estádios do Reino Unido. Foi feita a eliminação gradual das áreas em pé, introdução de setores totalmente all-seater (com assentos), melhorias nos acessos, saídas e controle de fluxo de torcedores e redução da capacidade para cerca de 44 mil pessoas – para priorizar segurança e conforto. O “novo Ibrox”, concluído nos anos seguintes, tornou-se referência mundial em arquitetura e segurança de estádios — antecipando conceitos que só se tornariam obrigatórios na Europa décadas depois, especialmente após a Tragédia de Heysel e o Desastre de Hillsborough.

Todas essas obras exigiram bastante financeiramente do Rangers, que, após o histórico título da Recopa da UEFA de 1972, passou por um período complicado nos anos 1980, quando entrou a fase aguda da reforma. Entre 1979 e 1986, por exemplo, o clube não conseguiu terminar o campeonato nacional em nenhuma posição acima do terceiro lugar, e viu a ascensão de clubes que antes ele via lá embaixo, como o Aberdeen. Nos anos 1990, o clube voltou a levantar títulos e conseguiu modernizar ainda mais seu estádio, com a ampliação de áreas corporativas e hospitalidade, criação de áreas VIP, camarotes e espaços para patrocinadores, além de ajustes em acessos, saídas de emergência e circulação interna, tornando o fluxo de torcedores mais eficiente e seguro. Vestiários, áreas de imprensa e infraestrutura operacional também foram modernizados para padrões internacionais.

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ibrox anos 2002
Ibrox Stadium

Em 1997, o Ibrox deixou de ser chamado Ibrox Park e virou Ibrox Stadium, iniciando uma nova e definitiva era no local. Apesar de um novo período de crise financeira do clube, o Ibrox teve sua capacidade expandida para pouco mais de 51 mil torcedores, ganhou o famoso Bar 72, um setor com configuração segura para torcedores que preferem assistir aos jogos em pé, uma tentativa moderna de resgatar a atmosfera tradicional sem abrir mão da segurança. Além do futebol, o estádio é usado frequentemente para grandes shows musicais e já abrigou lutas de boxe e partidas de rugby.

O Ibrox Stadium segue como um dos mais importantes estádios da Escócia e do mundo. Ele é provavelmente o estádio que mais ficou marcado por tragédias e foi um centro de mudanças que serviu de exemplo para outros palcos não cometerem os mesmos erros. Tudo teve um preço, mas ele resistiu firmemente e segue pronto para muitos e muitos anos de histórias em Glasgow.

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