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Flamengo x Vasco – Clássico dos Milhões

 

Por Guilherme Diniz

 

A rixa: o Flamengo já era um dos mais tradicionais clubes de regatas da cidade quando o Vasco começou a brigar de igual para igual nos campeonatos de remo. Quando o futebol passou a rivalizar como esporte preferido dos torcedores, o Flamengo também criou seu departamento de futebol após uma dissidência de sócios do Fluminense. Depois de anos de rivalidade com o tricolor, os rubro-negros viram o Vasco criar um time de futebol em 1915 e levantar já em 1923 um título estadual com quebra de parâmetros e uma afronta à chamada normalidade da época. Mais do que isso, o cruzmaltino inaugurou o maior estádio do país em 1927.

No mesmo ano, um simbólico troféu de “clube mais querido” foi colocado em disputa na cidade pelo Jornal do Brasil, em parceria com a empresa de água mineral Salutaris, no qual as torcidas deveriam votar no time que torcia e levar os papéis à sede do jornal. O Flamengo, percebendo que o Vasco iria vencer graças à popularidade que tinha e à imensa colônia portuguesa – que comprava os jornais com os cupons diretamente dos jornaleiros -, usou disfarces de portugueses, fingiu sotaques e usou as cores dos cruzmaltinos na hora do recebimento dos papeizinhos no dia da apuração. Os rubro-negros jogaram fora vários papéis vascaínos nas latrinas do próprio jornal. E o Flamengo venceu o troféu. Somando tudo isso, os esquadrões que ambos formaram nos anos seguintes, as torcidas que cresciam sem parar e os duelos eletrizantes, não teve jeito. A rivalidade ganhou o Brasil e se transformou em milhões de apaixonados pelo rubro-negro e pelo alvinegro. Se transformou no “Clássico dos Milhões”.

 

Quando começou: no dia 26 de março de 1922, na vitória do Flamengo sobre o Vasco por 1 a 0, em partida válida pelo Torneio Início, e de maneira mais assídua um ano depois, no dia 29 de abril de 1923, na vitória do Vasco sobre o Flamengo por 3 a 1, já pelo Campeonato Carioca.

Maior artilheiro: Roberto Dinamite (Vasco): 27 gols

Quem mais venceu: Flamengo – 164 vitórias (até junho / 2024). O Vasco venceu 139. Foram 119 empates.

Maiores goleadas: Vasco 7×0 Flamengo, 26 de abril de 1931

Flamengo 6×1 Vasco, 02 de junho de 2024

Vasco 5×1 Flamengo, 23 de abril de 2000

Vasco 5×1 Flamengo, 06 de outubro de 2001

Flamengo 5×1 Vasco, 19 de janeiro de 1938

Flamengo 6×2 Vasco, 03 de outubro de 1943

 

Tudo entre eles sempre foi grandioso. Nunca uma partida foi acompanhada por poucos. Sempre falamos de milhões. Jogando por baixo, uns 50, 60 milhões de apaixonados pelo rubro-negro e pelo alvinegro e sua cruz de malta. De norte a sul do país, ou mesmo espalhados por vários países no mundo, os torcedores desses clubes param quando veem seus queridos pavilhões em campo. Ou na quadra. E durante vários anos no remo. Ambos unem as maiorias no Rio de Janeiro. As maiores torcidas. A maior quantidade de títulos. Alguns dos maiores esquadrões de toda a história do esporte brasileiro – e alguns deles até mesmo do futebol mundial. A grandeza de um Flamengo x Vasco é ímpar. Pode ser adjetivada, mas jamais explicada. Basta ver a história do clássico para entender essa dimensão toda. Os craques que vestiram as camisas rubro-negra e cruzmaltina. As massas que colocavam 140, 150 mil pessoas nos bons tempos do Maracanã. As decisões épicas. Os gols nos últimos minutos. As invencibilidades. As hegemonias. Os artilheiros. Os golaços. Os ídolos. É hora de conhecer melhor um dos clássicos mais eletrizantes e consagrados do futebol.

 

Das águas para os gramados

 

Fundados na virada do século XIX como clubes de regatas, Flamengo e Vasco já travavam intensas disputas no remo carioca no início dos anos 1900. O rubro-negro, fundado em 1895, era um dos mais populares clubes de regatas do Rio até passar a disputar torneios e títulos com o Vasco, fundado em 1898 no ano do 4º centenário da descoberta do caminho marítimo para as índias, grande feito do almirante Vasco da Gama, daí o nome escolhido pela rapaziada no bairro da Saúde. A partir de 1905, com o futebol crescendo em popularidade, os sócios do Vasco decidem criar um departamento de futebol após uma excursão de um combinado português que animou a colônia lusitana no Rio. Em 1915, o clube filiou-se à Liga Metropolitana de Sports Athléticos e iniciou suas atividades na terceira divisão. Ano após ano, o clube subiu e alcançou a elite – de onde não sairia mais. Em 1922, o Vasco tirou o técnico Ramón Platero do Flamengo e já deixou o rubro-negro ressabiado. No ano seguinte, o clube faturou seu primeiro título carioca de maneira histórica, contrapondo o polo aristocrático do futebol da cidade como o primeiro clube fora da Zona Sul ou da Tijuca a vencer o torneio estadual. E tal título veio com direito a uma vitória por 3 a 1 sobre o Flamengo na Rua Paissandu, no primeiro jogo oficial entre a dupla – um ano antes, pelo Torneio Início, o Flamengo havia vencido o Vasco por 1 a 0.

Os “camisas negras” do Vasco de 1923.

 

A conquista vascaína naquele ano foi crucial para o desenvolvimento da rivalidade. Por ter em seu plantel jogadores negros, mulatos, pobres, comerciários e operários – algo jamais visto nos clubes cariocas na época -, o Vasco era taxado de “time de caixeiros e negros”, e sofria muito preconceito. Tanto é que, quando Flamengo venceu o Vasco naquele mesmo torneio por 3 a 2 – derrota que muitos achavam que iria prejudicar a caminhada do cruzmaltino rumo ao título -, uma enorme festa foi realizada pelas ruas da cidade, com zombaria das torcidas para com o Vasco. Uma estátua de Pedro Álvares Cabral foi enfeitada com réstias de cebola e passeatas tomaram as ruas como se fosse final de campeonato. Mas de nada adiantou, o Vasco foi campeão, rompeu paradigmas e sacramentou a vitória contra o preconceito e contra o racismo.

Mas é claro que a “elite” não iria deixar barato aquele título. Logo na sequência, Flamengo, Fluminense, América e Botafogo fundaram a Associação Atlética de Esportes Amadores (AMEA) e deixaram o Vasco de fora. O cruzmaltino insistiu em fazer parte da entidade, que investigou a vida de cada um dos jogadores para invocar a “pureza” do amadorismo. Sem encontrar nada, a AMEA criou outro empecilho: “analfabetos não poderiam jogar”. E lá foi o Vasco contratar professores para ensinar a maioria dos jogadores a escrever pelo menos seus nomes nas súmulas de jogo. Foi então que o clube teve a ideia de provar sua grandeza perante a todos: construir um estádio. E, em 1927, inaugurou o São Januário, maior estádio do Brasil na época. Em maio, o Flamengo visitou o estádio pela primeira vez. E perdeu para o Vasco por 3 a 1.

 

A artimanha do “Mais Querido”

A Taça Salutaris “conquistada” pelo Flamengo.

 

Mas o estopim para a rivalidade foi mesmo após a criação da famigerada Taça Salutaris de “clube mais querido”, que seria entregue à agremiação com mais torcedores, em concurso promovido pelo Jornal do Brasil, em parceria com a empresa de água mineral Salutaris, anunciado em outubro de 1927. As edições do jornal iriam trazer cupons para os torcedores elegerem qual era o clube mais amado do país. Com uma imensa colônia portuguesa, seu estádio recém-inaugurado e crescendo perante a classe popular, o Vasco saiu na frente da disputa e era tido como favorito. Além disso, os portugueses compravam jornais e mais jornais diretamente dos jornaleiros antes dos exemplares chegarem às escassas bancas da cidade só para preencher os cupons. Sem chance de combater os rivais, que lideravam as prévias com mais de 60 mil votos, os torcedores do Flamengo preparam um contragolpe exatamente para o dia da apuração, já em 1928.

Disfarçados com bigodes, sotaques portugueses e até camisas com botões de lapela com o brasão do Vasco, os flamenguistas se posicionaram de maneira estratégica em frente a sede do jornal, na Avenida Central, e recebiam os sacos cheios de cupons dos torcedores vascaínos. Enquanto um recebia, este passava para outro flamenguista, que se dirigia à sede do jornal e olhava os papéis. Se estivesse com o nome do Vasco, ia para a latrina. Se estivesse em branco, eles escreviam Flamengo e colocavam na urna (!). Com as privadas entupidas, os flamenguistas começaram a procurar alternativas para os votos vascaínos. E encontraram: os poços dos elevadores. Aí não teve jeito. Após a apuração, o Flamengo venceu com 254.850 votos contra 183.742 do clube de São Januário. E a Taça Salutaris foi para o rubro-negro, para desespero dos vascaínos, que só foram descobrir a artimanha no dia seguinte, quando receberam um “presente” do rival: um penico com vários votos vascaínos e botões de lapela. Estava mais do que consolidada a rivalidade entre os clubes. E um longo caminho para histórias ainda mais engraçadas e icônicas.

 

As “respostas” dentro de campo

Em 1931, o Vasco recebeu o Flamengo em São Januário pelo Campeonato Carioca e aplicou a maior goleada da história do clássico e jamais repetida desde então: 7 a 0, com quatro gols de Russinho, dois de Mário Mattos e um de Sant’Anna. Em 1939, o clássico teve o jogo com maior número de gols da história: Flamengo 6×4 Vasco, com show dos rubro-negros Leônidas da Silva (dois gols) e Caxambu (três gols). Até que, em 1941, o rubro-negro iniciou uma inesquecível invencibilidade de 11 jogos diante do rival, com sete vitórias e quatro empates entre 1º de junho de 1941 e 03 de outubro de 1943, data dos 6 a 2 do Fla diante do rival, a maior goleada rubro-negra na história do confronto. A sequência de 11 partidas sem derrotas para o Vasco seria repetida entre 1971 e 1973 e 1994 e 1996.

No ano seguinte, o Vasco acabou com a seca e venceu por 5 a 2 o rival logo no primeiro clássico da temporada, mas foi o Flamengo que venceu o Campeonato Carioca de 1944 contra um Vasco tido como favorito e que já tinha a espinha dorsal do que viria ser o Expresso da Vitória, com Rafagnelli, Lelé, Isaías, Chico, Ademir de Menezes e Djalma. Mas de nada adiantou. Em um jogo na Gávea visto por mais de 20 mil pessoas, o Flamengo venceu por 1 a 0 com gol do argentino Valido, que havia voltado da aposentadoria só para ajudar o rubro-negro na reta final. O Mengo faturou o título e a festa ficou ainda maior pelo fato de os vascaínos reclamarem de uma falta do atacante no lance do gol. “Aquele título foi uma verdadeira epopeia de paixão e garra. O Vasco tinha o melhor time, mas nós nos superamos por puro amor à camisa”, disse o eterno Zizinho sobre a vitória flamenguista.

Zizinho, craque do Flamengo no primeiro tri.

 

Só que o futebol dá voltas e o Vasco dominou o clássico entre 13 de maio de 1945 e 25 de março de 1951 com a maior invencibilidade da história do confronto: 20 partidas, sendo 15 vitórias e cinco empates, além de oito vitórias seguidas nesse período. Era mesmo difícil bater o Expresso da Vitória em seu auge, com Barbosa, Danilo, Ademir e tantos outros craques que iriam compor a base da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950.

O Expresso de 1949-1950.

 

Em 1949, na campanha do título estadual, o Vasco ainda venceu o rival por 5 a 2 após estar perdendo por 2 a 0 no primeiro tempo. E tal derrota gerou uma imensa crise no Flamengo, com vários protestos da torcida que não aguentava mais ver seu time perder para os cruzmaltinos. Em 1952, já na reta final do timaço vascaíno, a equipe foi campeã com o Flamengo como vice pela primeira vez desde 1923, passando à frente nas disputas diretas. O feito seria repetido em 1958. Nos anos 1960, com o predomínio do Botafogo de Garrincha e companhia, a dupla passou por uma entressafra e os grandes clássicos só voltariam nos anos 1970.

 

A era de ouro no Maracanã

O Templo do Futebol já recebia o Clássico dos Milhões desde setembro de 1950, quando o Vasco venceu o Flamengo por 2 a 1 ainda sob a tristeza do vice-campeonato brasileiro na Copa do Mundo, mas foi só a partir dos anos 1970 que o estádio passou a abrigar confrontos épicos e decisões de tirar o fôlego. Em 1974, ano do primeiro título brasileiro do Vasco, o Flamengo estragou o que seria uma temporada perfeita para o rival faturando o título estadual em cima dos cruzmaltinos após um 0 a 0 no triangular final que decidiu o título. Aquela foi a primeira decisão com Zico e Roberto Dinamite frente a frente, dupla que seria um estandarte para tempos inesquecíveis aos torcedores.

Em 1976, o Maraca foi palco do maior público da história do clássico: 174.770 pessoas foram ver a vitória do Flamengo por 3 a 1 sobre o Vasco pela fase de classificação do Carioca daquele ano (leia mais no site Trivela, parceiro do Imortais!). Outros 19 jogos tiveram mais de 110 mil pessoas, sendo cinco deles com mais de 150 mil! Números que ajudaram a elucidar o nome do clássico como Clássico dos Milhões, dos milhões arrecadados em bilheterias e dos milhões de aficionados espalhados pelo Rio e pelo Brasil.

Adílio, Dinamite, Carpegiani… O Clássico dos Milhões ganhou muitas feras nos anos 1970 e 1980.

 

Em 1977, veio a desforra do Vasco, campeão carioca sobre o Flamengo com vitória por 5 a 4 nos pênaltis após 0 a 0 no tempo normal. No entanto, o Flamengo iria emendar uma sequência de conquistas sobre o rival em 1978, 1979 e 1981, esta última emblemática pelo duelo entre Zico e Dinamite. Após os três primeiros turnos, as duas equipes fizeram a decisão e o Vasco tinha a ingrata tarefa de ter que vencer três jogos contra o Flamengo se quisesse ser campeão pelo fato de o rubro-negro ter vencido dois turnos e os cruzmaltinos apenas um (era um regulamento maluco mesmo). Pois bem. No primeiro duelo, um domingo, Roberto Dinamite marcou dois gols e deu a primeira vitória ao Vasco: 2 a 0.

 

Zico e Roberto Dinamite.

 

No segundo, já na quarta-feira, num dia de chuva torrencial, o placar marcava 0 a 0 aos 42’ do segundo tempo e a torcida flamenguista já gritava “é campeão!”. Foi então que Roberto viu a bola cair em uma poça d’água dentro da área. Ele simplesmente tirou a bola dali com uma bomba e viu a redonda explodir dentro do gol flamenguista: 1 a 0. Vasco vivo na decisão! Isso porque Zico disse que “dificilmente” o Flamengo perderia dois clássicos seguidos… Só no duelo seguinte que o Fla, enfim, venceu por 2 a 1. E, graças ao regulamento, faturou o caneco. Dias depois, o rubro-negro viajou ao Japão, sapecou o Liverpool-ING e faturou o título mundial, coroando um ano simplesmente mágico.

Maaaas, sabe como é clássico, não é? Em 1982, o Flamengo, campeão do mundo no ano anterior e com a base campeã, era o favorito máximo para a conquista do título carioca. Mas o Vasco cresceu ao longo do torneio com raça, obstinação e as mexidas do técnico Antônio Lopes, que barrou cinco titulares – Mazarópi, Geovani, Nei, Marquinho e Rosemiro – e colocou Galvão, Acácio, Ivan, Ernâni e Jérson (com “j” mesmo). A tática deu certo e o cruzmaltino venceu o rival, em novembro de 1982, por 3 a 1. Na sequência, bateu o América por 1 a 0 e venceu outra vez o rival rubro-negro, por 1 a 0, gol de Marquinho, resultados que deram o título estadual ao Vasco.

Zico e Dinamite nos anos 80: expoentes de uma era de ouro do futebol.

 

O troco rubro-negro veio em 1986, com mais um título estadual após vitória por 2 a 0 na finalíssima. E, em 1987 e 1988, o Vasco superou o rival, sendo a vitória mais emblemática a de 1988. Na final contra o Flamengo, em dois jogos, o Vasco venceu o primeiro por 2 a 1, gols de Bismarck e Romário. Na grande decisão, um empate bastava para o bi, mas o reserva Cocada não entendeu assim. Ele entrou no lugar de Vivinho, aos 41´do segundo tempo, marcou o gol da vitória por 1 a 0 aos 44´e foi expulso de campo aos 45´por comemorar tirando a camisa. Ele ligou? Nem um pouco! A torcida fez a festa junto com ele: Vasco bicampeão carioca. Era a consagração dos garotos de São Januário (que venceram 21 dos 27 jogos da equipe na competição) e de Romário, que ficou na vice-artilharia com 16 gols, um a menos que Bebeto. Aquele foi o último título do baixinho com a camisa do Vasco, já que o craque partiria para o PSV-HOL. No ano seguinte, o Vasco coroou a boa fase com o título do Campeonato Brasileiro, com Bebeto no elenco após uma conturbada saída do Flamengo. O atacante foi tido como traidor por vestir o manto vascaíno.

Cocada saiu do banco, fez gol, tirou a camisa, foi expulso e entrou para a história!

 

Na última década do milênio, o Vasco teve mais alegrias que o rival no assunto títulos. Embora tenha perdido o Carioca de 1996 para o Fla, o cruzmaltino deu o troco com uma histórica vitória por 4 a 1 sobre o Flamengo nas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1997, com show de Edmundo, que marcou três gols e fez até dancinha para provocar o rival. Na final, o Vasco faturou o título brasileiro. No ano seguinte, veio o título estadual e, em 2000, a inesquecível goleada de 5 a 1 sobre o Flamengo, com três gols de Romário, no triunfo que ficou conhecido como “Chocolate de Páscoa”, em alusão ao período do ano.

Edmundo acabou com o Flamengo no Brasileiro de 1997.

 

Aquela foi a maior goleada do Clássico dos Milhões dos últimos 50 anos do confronto na época – e, desde então, só foi igualada uma vez pelo próprio Vasco em 2001, no Campeonato Brasileiro. Além da goleada, o Vasco ainda tirou onda com Pedrinho, que fez embaixadinhas e por pouco não levou uma tesoura do zagueiro Juan! Na sequência, muita confusão e nervos ao máximo.

 

Veja o lance:

O curioso é que mesmo com títulos e sucesso continental, o Vasco não teve a hegemonia no clássico naqueles anos 1990. O Flamengo emendou 11 jogos sem perder para o rival entre 1994 e 1996 e, veja só, entre 16 de setembro de 1990 até os 5 a 1 do Vasco em 23 de abril de 2000, o Flamengo venceu 24 clássicos contra apenas 10 do Vasco! No período, foram nove empates. Tudo isso já era uma amostra do que viria pela frente: o Flamengo estava preparando uma era de desforras e imposição de sofrimento profundo ao rival…

 

A hegemonia rubro-negra no novo Milênio

A bola de Pet no ângulo do goleiro Helton de 2000 ainda está na memória dos flamenguistas.

 

O Flamengo começou a azucrinar o rival a partir de 1999, quando venceu o Carioca em cima do Vasco. Em 2000, mesmo com o rival em melhor fase e com mais time, venceu de novo. E, em 2001, veio mais um tricampeonato, mas com ares épicos. Pelo terceiro ano seguido, o Clássico dos Milhões decidia o Campeonato Carioca. Naquela terceira, o filme parecia se encaminhar para um final diferente. O Vasco tinha a vantagem de perder por até um gol de diferença. Tinha, no papel, até mais time que o rival. Era experiente. Vinha de grandes momentos desde 1997. Mas o rubro-negro contava com uma inspiração extra: o tricampeonato. Algo para poucos no futebol do Rio, mas muito comum para o Flamengo, dono de três ‘tris’. Ele queria o quarto. A chance era única. Ter uma oportunidade como aquela poderia demorar anos, décadas. Desde 1979 que ele não era tri. E o último no estado havia sido o próprio Vasco, em 1994, status que ele queria manter.

O Flamengo tinha Zagallo no banco, pé quente, Velho Lobo de grandes momentos do futebol, de grandes títulos. Tinha um novato Júlio César no gol. Um grande zagueiro (Juan). Um capetinha goleador e artilheiro no ataque (Edílson). E um maestro com a camisa 10, camisa que fora de seu ídolo e que ele vestia tão bem: Petkovic. Só que o Flamengo foi para o intervalo com um empate de 1 a 1. O título era do Vasco. A torcida cruzmaltina não via a hora. Chega de perder para o rival! Uma vez tudo bem, duas já era insuportável, mas três? Veio o segundo tempo. Petkovic começou a aparecer. Nas bolas paradas, azucrinava. Mas também aprontava com ela rolando, como no momento em que efetuou um cruzamento perfeito para o pequenino Edílson virar gigante e cabecear também de maneira perfeita para o gol logo no comecinho da segunda etapa: 2 a 1. O tempo passava e a bola não entrava. Melhor para o Vasco. Até que, aos 43’, Pet teve a seu favor uma cobrança de falta.

Era a bola do jogo. Se ela entrasse, o Flamengo era tricampeão. O torcedor terminava de roer os últimos vestígios de unhas. Mordia a bandeira embrulhada. Colocava a mão no rosto. Outros não queriam nem olhar. Pet treinava à exaustão cobranças de falta. Mas repito: era de muito longe. Tinha a barreira. Tinha Helton, um ótimo goleiro, no gol. Era um desafio enorme. Por mais especialista que ele fosse, acertar dali seria uma enormidade. Pet bateu. A bola passou pela barreira. Helton saltou demais, elástico, voador. Mas a bola conseguiu passar pela única lacuna disponível no ângulo do gol do Maracanã. Ela entrou, foi se aconchegar no lindo véu de noiva que era aquele gol enorme do saudoso colosso de concreto. Foi gol. Do Flamengo. Gol de Pet. Que transformou seu apelido em uma sigla. Perfeição Épica do Tri. Foi talvez a cobrança de falta mais incrível da história daquele estádio. Era algo quase inacreditável. Inexplicável. Inesquecível. Foi um dos gols mais gritados da história do Flamengo em uma das finais mais épicas do Clássico dos Milhões. Leia mais clicando aqui!

 

E veja o golaço abaixo:

Pet correu pro abraço…

 

E deitou no gramado do Maracanã feliz e realizado: Flamengo campeão!

 

E o Flamengo não parou por ali. O clube venceu absolutamente todas as finais que disputou contra o rival nos anos seguintes: Campeonatos Cariocas de 2004, 2014 e 2019 e ainda um bônus: a Copa do Brasil de 2006, primeira final nacional entre a dupla na história. Uma pena que ela tenha sido disputada em um Maracanã praticamente frankenstein, com capacidade para pouco mais de 45 mil pessoas e cheio de “buracos” nas arquibancadas por causa da reforma pela qual ele passava na época. Mesmo sem a quantidade de gente que merecia, o duelo foi outra grande página na história do clássico. O Flamengo venceu os dois jogos: 2 a 0, no primeiro, e 1 a 0, no segundo. Só em 2015 que o Vasco conseguiu um ligeiro troco ao eliminar o rival nas oitavas de final da Copa do Brasil após vitória por 2 a 1 no agregado.

Final de 2006 foi em um Maracanã cheio de arquibancadas vazias.

 

As vitórias frequentes sobre o rival aumentaram o retrospecto favorável do rubro-negro na história do clássico. Ambos ficaram nas primeiras posições do Campeonato Carioca em 23 oportunidades e o Flamengo foi campeão em 13, contra 10 do Vasco. Nas decisões diretas entre a dupla, a vantagem rubro-negra é absoluta: 8 a 1 em finais diretas e empate em 3 a 3 em finais de jogos decisivos, mas sem final. No total, foram 15 finais entre ambos, com 11 vitórias do Flamengo e apenas quatro do Vasco.

Flamengo faturou o Carioca de 2019 após vitória sobre o rival.

 

Nesta década, o Flamengo ainda quebrou seu próprio recorde de invencibilidade perante o rival ao alcançar 17 jogos sem perder para os cruzmaltinos – superando a histórica série de 11 partidas -, sequência iniciada em 25 de fevereiro de 2017 e que teve grandes capítulos em 2019, com título carioca sobre o rival após vitória por 2 a 0, goleada de 4 a 1 no primeiro turno do Brasileiro e empate alucinante de 4 a 4 no returno do torneio nacional, esta uma partida marcante por estabelecer números expressivos como o primeiro 4 a 4 da história do clássico; ser o jogo com mais gols desde 1943; ter duas viradas e ainda ser o jogo com mais gols da história do clássico no Maracanã. Só em abril de 2021 que o Vasco acabou com o jejum e venceu por 3 a 1, com direito a dancinha de Morato imitando uma semelhante feita por Edmundo, em 1997.

O empate de 4 a 4 de 2019 entrou para a história do clássico.

 

Ao longo dos anos, o clássico também ganhou espaço nas quadras, areia e até nas piscinas, com intensos duelos no basquete, vôlei, natação, futebol de areia, judô e até futebol americano. Não importa a modalidade, não importa o lugar. Um Flamengo x Vasco sempre será um clássico eletrizante, com nervos à flor da pele e presenciado por milhões. E que alento para o esporte brasileiro ter ao seu lado dois clubes tão gigantescos, tão cheios de história. Milhões agradecem. E jamais deixarão de contemplar esse clássico titânico.

 

Curiosidades:

 

  • Embora tenha sido revelado pelo Vasco, o craque Romário também foi ídolo no Flamengo. O baixinho marcou 204 gols pelo rubro-negro. No entanto, ele fez mais pelo Vasco: foram 326;
  • Vários jogadores vestiram as camisas dos dois clubes, entre eles Tita e Bebeto, dupla bastante identificada com o Flamengo, mas que também levantou títulos pelo Vasco;
  • Em 1975, o Vasco perdia para o Flamengo por 2 a 0 e conseguiu a virada para 3 a 2, triunfo que fez a torcida consolidar o famoso bordão “o Vasco é o time da virada”. Em 1944, o time já havia conseguido uma outra virada marcante após estar perdendo por 2 a 1 e virar para 5 a 2, no tempos do famoso Expresso da Vitória;
  • Em 1978, o zagueiro Rondinelli marcou o gol da vitória por 1 a 0 em cima do Vasco que garantiu o título do Flamengo no Campeonato Carioca daquele ano. Por conta disso e pela atuação de gala do defensor, que conseguiu neutralizar o sempre perigoso Roberto Dinamite, Rondinelli ganhou o apelido de Deus da Raça. Além disso, aquele título iniciou a mais vertiginosa era do clube da Gávea, que culminaria nos títulos do início da década de 1980;
O gol de Rondinelli.

 

  • No dia 27 de agosto de 1964, o Flamengo venceu o Vasco por 2 a 1 após um gol de Nelsinho, que chutou fraco, mas a bola passou entre as pernas do goleiro Marcelo. Chorando, o vascaíno pediu para deixar o gramado e nunca mais voltou a jogar;
  • No Carioca de 1958, Botafogo, Flamengo e Vasco disputaram um supercampeonato carioca após empatarem em pontos na classificação geral. No “supercampeonato”, novo empate em pontos, o que acabou gerando um “super supercampeonato” (acredite, isso existiu mesmo!). E, após vencer o Botafogo por 2 a 1 e empatar em 1 a 1 com o Flamengo diante de mais de 130 mil pessoas (!), o Vasco garantiu o super supertítulo de campeão carioca no Super supercampeonato carioca de 1958. Haja super! Rsrsrs;
  • Na despedida de Roberto Dinamite dos gramados, em 1993, Zico vestiu a camisa cruzmaltina em uma partida comemorativa no Maracanã em homenagem ao amigo. Dinamite disse que também vestiria a camisa do Flamengo como retribuição;
Zico vestido com a camisa do Vasco: cena improvável foi vista na festa do adeus de Dinamite

  • Flamengo e Vasco possuem as maiores torcidas do Rio de Janeiro. O rubro-negro corresponde a 50% do geral, enquanto o Vasco ostenta 20%. No Brasil, o Flamengo é o líder com 20% da preferência dos torcedores, enquanto o Vasco possui 4%;
  • O Clássico dos Milhões já foi disputado em 26 estádios diferentes;
  • A rivalidade é tão grande que quase sempre temos discussões e até brigas tanto entre jogadores quanto entre torcedores. Os nervos de flamenguistas e vascaínos ficam bastante exaltados. É um duelo perigoso!;
  • Na disputa entre maiores artilheiros do clássico, melhor para Roberto Dinamite. O craque do Vasco anotou 27 gols, enquanto Zico fez 19 para o Flamengo;
  • Existe certo equilíbrio na história do Clássico dos Milhões quando o assunto é Brasileirão. São 61 jogos, com 22 vitórias do Flamengo, 17 do Vasco e 22 empates.

 

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Comentários encerrados

5 Comentários

  1. excelente texto, quem leu tudo entendeu que o Vasco é MUITO maior que o Flamengo, Vasco sempre lutou contra tudo e contra todos desde a decada de 20 quando nos expulsaram do campeonato só porque tinha negros, operários no time, aí veio a Taça Salutaris premio de mais querido do Brasil, flamengo ganhou ROUBANDO, como sempre foi na história, ganhando as coisas de forma suja, trapaceando, depois desse premio a torcida do Flamengo que era MENOR que a do Vasco na época, começou a crescer claro e ai decada de 50/60 veio a Globo cujo fundador é flamenguista e aí n preciso falar mais nada né, deu pra entender que o Flamengo é um clube inventado pela mídia, Flamengo é uma FARSA!

  2. Globoesporte.com, cadê vocês para fazer uma parceria com o “Imortais”, já passou da hora!!! Sobre o Clássico dos Milhões, serei claro: embora respeite todas as rivalidades, para mim só comparo Vasco x Flamengo com Grêmio x Internacional, são os dois clássicos mais tensos e vibrantes de nosso futebol, daqueles que envolvem jogadores, dirigentes e até jornalistas para a história!!! No caso dos cariocas, tudo faz esse clássico ganhar contornos de amor, ódios e até traumas para ambas as torcidas… Demais!!!

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