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Celtic x Rangers – The Old Firm Derby

 

Por Guilherme Diniz

 

Este é o maior clássico do mundo de uma lista especial do Imortais. Confira a relação completa no link ao final deste texto!

 

A rixa: católicos de um lado. Protestantes do outro. Sectarismo puro entre Ulsters Scots (Rangers) contra os Irish Scots (Celtic), dividindo torcedores nas Irlandas. Os católicos defendem a doutrina do Celtic. Os protestantes, do Rangers. Eles começaram a se enfrentar em 1888. E a rivalidade começou a tomar contornos muito maiores que o esporte. A religião literalmente entra em campo quando os dois se enfrentam. E ainda têm questões ideológicas de Conservadorismo e Socialismo. A rixa chegou a um ponto de o Rangers não assinar com nenhum jogador que fosse católico entre 1920 e 1989. Pronto. Está formado o mais complexo clássico do mundo.

Quando começou: no dia 25 de maio de 1888, na vitória do Celtic sobre o Rangers por 5 a 2.

Maior Artilheiro: Ally McCoist-ESC (Rangers): 27 gols

Quem mais venceu: Rangers – 168 vitórias (até setembro / 2022). O Celtic venceu 162. Foram 101 empates.

Maiores goleadas: Rangers 8×1 Celtic, 1º de janeiro de 1943

Rangers 5×0 Celtic, 1º de janeiro de 1894

Rangers 5×1 Celtic, 26 de novembro de 2000

Celtic 7×1 Rangers, 19 de outubro de 1957

Celtic 5×0 Rangers, 21 de março de 1925

Celtic 5×0 Rangers, 29 de abril de 2018

 

Fundado em 1872 pelos irmãos McNeil e com origens na área protestante da Escócia e da Irlanda do Norte, o Rangers era um dos 11 membros fundadores da Liga de Futebol Escocesa, assim como o Celtic, fundado em 1887 pelo católico irlandês Andrew Kerins, conhecido pelo nome religioso de Brother Walfrid, membro do Instituto dos Irmãos Maristas. Em 1888, o Celtic iniciou suas atividades oficialmente em uma partida amistosa vencida por 5 a 2 contra o Rangers. Naquele duelo, diz a lenda que os locutores já disseram que seria um jogo de “dois velhos, firmes amigos”, na primeira referência ao termo Old Firm.

Antes da final da Copa da Escócia entre a dupla, em 1904, o jornal esportivo Scottish Referee publicou uma charge com os dizeres “patronize a velha firma, Rangers Celtic Ltda.”, também em uma alusão ao apelido. Mas todos estavam enganados quanto à conotação do clássico. Nada de amigos. Nada de velha firma. Aquele duelo seria de aversão profunda ao outro. Repelir o verde e branco: mantra pelas bandas do Rangers. Odiar o azul: lema número 1 no Celtic. E tais características ganharam ainda mais força com a frequência de duelos entre ambos, como na final da Copa da Escócia de 1894, vencida pelo Rangers por 3 a 1; na de 1899, vencida pelo Celtic por 2 a 0; e na citada decisão de 1904, vencida pelo Celtic por 3 a 2.

A charge que ajudou a moldar o nome Old Firm. Foto: The Telegraph.

 

Foi então que chegou o mês de abril de 1909. Outra final de Copa da Escócia entre Rangers e Celtic. No primeiro jogo, disputado no dia 10, empate em 2 a 2 no Hampden Park. Uma semana depois, veio o replay, no mesmo estádio. Novo empate, em 1 a 1. A torcida acreditava que haveria prorrogação. Mas, quando ficou claro que não teria tempo extra, mas sim a possibilidade de um novo jogo, que forçaria os escoceses a gastarem mais dinheiro com ingressos, começou o caos. Eles invadiram o gramado. Houve brigas entre as torcidas. Duelos com a polícia. Garrafas e pedras arremessadas. Tentativa de invasão dos vestiários. As traves foram quebradas. Atearam fogo em alguns pontos graças aos galões de gasolina trazidos de fora para dentro do Hampden Park.

A polícia não tinha controle daquela ira, que tomou conta da entrada de Somerville Drive, também em chamas. Foram mais de duas horas de caos. Centenas de feridos. O maior de todos os caos em uma partida de futebol da história de Glasgow, segundo o jornal “The Glasgow Herald”. A final não teve replay nem vencedor. Ambos os clubes foram penalizados em 150 libras cada. Dinheiro de pinga, quer dizer, de cerveja, perto do que aconteceu. Dali em diante, o Old Firm estava estabelecido como o maior clássico da Escócia, um dos mais famosos do mundo e o com mais ingredientes extra-campo de todos.

No começo do século XX, a ira religiosa ainda não era aflorada no duelo. Ela só começou a ficar mais deflagrada após o incidente da final de 1909 e com a instalação do estaleiro da Harland & Wolff, empresa naval de Belfast (Irlanda do Norte), em Glasgow, bem próximo ao estádio do Rangers, em 1912. Enfrentando problemas financeiros, a Harland & Wolff viu na Escócia a chance de progresso e geração de empregos na região. No entanto, eles tinha a política de não contratar católicos. Com isso, quem ainda não torcia para o Rangers nem era protestante, acabou se unindo às duas causas, além dos Ulster protestantes da Irlanda irem até Glasgow para trabalhar. Com a deflagração da I Guerra Mundial e a Revolta da Páscoa de 1916 na Irlanda – organizada por republicanos que buscavam a independência do Reino Unido -, aumentaram ainda mais a identidade de união do Rangers, contrariando o lado rebelde dos irlandeses que compunham boa parte da torcida e identidade do Celtic.

A gota d’água desse sectarismo aconteceu em 1920, quando o Rangers, aproveitando a popularidade da Ordem de Orange (organização protestante que atuava no Reino Unido e na Irlanda desde o século XVIII) em Glasgow, decidiu não contratar mais jogadores católicos para o seu elenco profissional de futebol. Essa política ficou desconhecida do público e era apenas off the records até 1965, quando o jogador Ralph Brand disse a um jornal que o clube possuía uma política de “apenas protestantes” quando foi jogar no Manchester City. E o clube confirmou tal costume tempo depois. “Faz parte da nossa tradição… Nós fomos formados em 1873 como um clube protestante. Para mudar isso nós perderíamos um número considerável de torcedores”, disse o vice-presidente do clube na época, Matt Taylor, em 1967. Mesmo assim, alguns jogadores católicos conseguiram atuar pelo Rangers ocultando suas ideologias. Só em 1989 que tal critério de seleção foi dissipado pelo clube azul.

O estádio Ibrox cheio: cena comum nos clássicos dos anos 30 e 40.

 

Em campo, os rivais construíram uma história de muito equilíbrio, duelos épicos e protagonismo puro no futebol escocês. Em 1928, o Rangers venceu a Copa da Escócia com uma goleada de 4 a 0 sobre o Celtic. Em 1939, mais de 118 mil pessoas lotaram o Ibrox para o Old Firm que terminou com vitória do Rangers sobre o Celtic por 2 a 1, no último duelo oficial entre ambos antes da II Guerra Mundial. Durante o conflito bélico, os rivais se enfrentaram em duelos não-oficiais (o futebol estava suspenso em todo Reino Unido), mas o Rangers contabiliza nesse período a goleada de 8 a 1 sobre o rival em 1943, o maior resultado da história do confronto. O troco aconteceu em 1957, quando o Celtic aplicou a maior goleada em uma final de um torneio britânico em todos os tempos: sonoros 7 a 1, na decisão da Copa da Liga Escocesa em um Hampden Park tomado por mais de 82 mil pessoas. O show em campo inspirou músicas, poemas e até livros. Foi como um prenúncio da década de ouro que o clube alviverde viveria nos anos 60.

Sob o comando de Jock Stein – que era protestante, mas podia atuar no Celtic pelo fato de o clube não possuir políticas sectárias – a equipe alviverde dominou o futebol nacional e ainda faturou a Liga dos Campeões da UEFA de 1966-1967, quando os alviverdes venceram cinco títulos em uma só temporada, um recorde no futebol britânico. Aliás, Jock Stein dava preferência para jogadores protestantes no Celtic. Ele dizia que o foco do time deveria ser nas promessas protestantes, afinal, os católicos não seriam contratados pelo rival, por isso, a chance de enfraquecê-lo com essa atitude era maior. A cereja no bolo foi a goleada de 4 a 0 do Celtic sobre o rival na final da Copa da Escócia de 1969, jogo com maior público da história de um Old Firm: 132.870 pessoas no Hampden Park! Vale lembrar que o Celtic emendou nove títulos nacionais seguidos entre 1966 e 1974, algo que seria igualado pelo rival entre 1989 e 1997 (ambos detém a maior série de títulos seguidos na história do campeonato).

Nos anos 70, começaram a acontecer episódios trágicos e tristes no duelo. O primeiro foi em 1971, no antigo e tradicional Old Firm do Ano Novo (que era disputado no dia 1º ou 2 de janeiro), quando 66 pessoas morreram nas escadarias de número 13 do estádio Ibrox. Relatos dizem que uma criança caiu dos ombros de seu pai e isso desencadeou um efeito dominó, o que culminou na tragédia. O pior é que tal escada já havia sido motivo de alerta das autoridades de segurança desde 1963, mas nada foi feito até o fatídico 02 de janeiro de 1971.  No ano seguinte, o Rangers se reergueu de um ano ruim e foi campeão da Recopa da UEFA, conquistando seu primeiro título continental.

McCoist, maior artilheiro do clássico. Foto: Getty Images.

 

Em 1980, outro caso grave envolvendo as torcidas num Old Firm válido pela final da Copa da Escócia. O Celtic venceu por 1 a 0, mas o que ficou em evidência foi a invasão de campo de torcedores de ambos os times, que começaram a brigar entre si e causaram uma confusão imensa, muito por causa do excesso de álcool consumido por ambas as partes – isso motivou o banimento de bebidas alcoólicas em partidas de futebol na Escócia. Além disso, os clubes foram multados em 20 mil libras e mais de 200 pessoas foram presas.

No final daquela década, em 1989, Mo Johnston tornou-se o primeiro jogador declarado abertamente católico a atuar pelo Rangers desde a política sectária do clube lá dos anos 1920. Nos anos 90, a rivalidade continuou alimentada até mesmo pelos jogadores, como no ano de 1998, quando Gascoigne simulou tocar uma flauta como um “legítimo membro da Orange Order” para provocar os católicos do Celtic. Ele chegou até a receber ameaças do IRA após o episódio e recebeu uma multa de 40 mil libras da Associação Escocesa de Futebol.

Torcida de ambos os times invadiram o gramado em 1980 e causaram uma bagunça tremenda. Foto: Daily Record.

 

A polícia teve que intervir para evitar o pior. Foto: The Mirror.

 

Foto: Daily Record.

 

Foto: The Scotish Sun.

 

Pelo Rangers, Gascoigne tocou flauta como um legítimo protestante e provocou os católicos do Celtic…

 

Em 1999, o Rangers foi campeão escocês dentro da casa do Celtic em um jogo cheio de controvérsias, com moeda jogada na cabeça do juiz, briga entre jogador do Celtic expulso e o árbitro, invasão de campo e muita hostilidade. Ao longo da semana do título, centenas de incidentes relacionados ao duelo foram reportados e 113 pessoas foram presas! Nos anos 2000, o clássico ganhou o tempero da boa fase do Celtic contrastando com a queda brutal do Rangers, que enfrentou a falência em 2012 e ganhou até uma faixa “comemorativa” do rival. O duelo só voltou a acontecer pelo campeonato nacional em 2016. O Celtic começou a colecionar grandes goleadas sobre o Rangers, incluindo um 5 a 1, em 2017, e um 5 a 0 em casa que decretou o sétimo título nacional seguido, em 2018. Felizmente, a violência no Old Firm cessou um pouco neste século XXI graças ao policiamento ostensivo. Mas a hostilidade segue intacta mesmo com a heterogeneidade entre torcedores e nas contratações de ambos os lados.

Sobrou até para o juiz no Old Firm de 1999. Foto: The Scotish Sun.

 

A torcida do Celtic assustou o rival à beira da falência, em 2012. Foto: The Scotish Sun.

 

Festa do Rangers no primeiro clássico da temporada 2021-2022: vitória por 1 a 0 foi a sexta vitória em sete clássicos desde dezembro de 2019. Foto: Imago / One Football.

 

Até hoje, Celtic e Rangers fizeram 15 finais de Copa da Escócia, com sete vitórias para cada um e uma sem vencedor. Na Copa da Liga Escocesa, foram 15 finais, com nove vitórias do Rangers e seis do Celtic. Mesmo com o período de hiato nas divisões inferiores, o Rangers continua na dianteira em número de títulos do campeonato nacional – 55 a 52, com a mais recente glória dos azuis em 2020-2021, encerrando um jejum de 10 anos sem títulos. Mais antigo dérbi do planeta, o Old Firm ainda resiste como um dos mais emblemáticos clássicos do mundo. E pronto para novos e intensos capítulos.

 

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