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Esquadrão Imortal – Manchester City 2022-2023

Em pé: Haaland, Ederson, Rodri, Akanji, Stones e Rúben Dias. Agachados: Grealish, Aké, De Bruyne, Bernardo Silva e Gündogan.

 

Grandes feitos: Campeão do Mundial de Clubes da FIFA (2023), Campeão Invicto da Liga dos Campeões da UEFA (2022-2023), Campeão do Campeonato Inglês (2022-2023), Campeão Invicto da Copa da Inglaterra (2022-2023) e Campeão da Supercopa da UEFA (2023). Conquistou a primeira UCL da história do clube e se tornou o 2º time a vencer um Treble na história do futebol inglês.

Time-base: Ederson; Akanji (Cancelo), Rúben Dias e Nathan Aké (Kyle Walker); Stones (Rico Lewis) e Rodri; Bernardo Silva, De Bruyne (Phil Foden), Gündogan (Mahrez) e Grealish; Haaland (Julián Álvarez). Técnico: Josep Guardiola.

 

“Treble City”

Por Guilherme Diniz

 

Durante muito tempo, apenas um clube na Inglaterra podia se gabar de ter conquistado o tão sonhado Treble em uma única temporada: o Manchester United de 1998-1999, comandado por Sir Alex Ferguson, que certa vez disse sobre o City: “Não será fácil para eles conquistar algo, mesmo com os jogadores que contrataram. Não posso olhar para eles como nossos principais adversários. Liverpool e Chelsea são os principais adversários”. Era 2009 quando ele disse isso. De fato, os rivais do United na época eram outros. Mas muito tempo se passou. Naquele ano, Ferguson perdeu sua primeira final de Liga dos Campeões para um tal Pep Guardiola e seu Barcelona. Dois anos depois, ele perdeu outra UCL. De novo para Pep Guardiola e seu Barcelona. Mais algum tempo se passou, Ferguson se aposentou e o tal rival que o United sempre desdenhou cresceu. Apareceu. Começou a empilhar títulos e mais títulos. Ficou rico, claro, mas soube investir com planejamento e sem comprar jogadores apenas por nome. E contratou Pep Guardiola… O técnico espanhol fez o City evoluir. Criou um time encantador. Conquistou títulos e mais títulos, quebrou recordes (venceu uma Premier League com 100 pontos!), menos a bendita Liga dos Campeões da UEFA. Chegou perto em 2021, mas sofreu uma derrota amarga para o Chelsea na final. Ele aprendeu com o revés. Sofreu outro na semifinal de 2022. Até que, na época 2022-2023, Guardiola e seu City chegaram ao Olimpo do futebol. 

Com um desempenho coletivo irrepreensível e o reforço de uma máquina de fazer gols chamada Erling Haaland, o Manchester City venceu sua primeira Liga dos Campeões da UEFA, venceu a Premier League e venceu a Copa da Inglaterra para repetir o rival lá de 1999 e faturar um Treble histórico, marcante e sensacional. E um desses troféus, a Copa da Inglaterra, foi levantado exatamente sobre o United, algo que tornou a façanha dos Citizens ainda mais emblemática. O esquadrão de Guardiola, De Bruyne, Bernardo Silva, Rodri, Gündogan, Stones, Grealish e Haaland reivindicou seu lugar na história e conseguiu. Afinal, não é sempre que vemos um time vencer tantos rivais de maneira categórica e aplicar 3 a 0 no Bayern, 4 a 0 no Real Madrid (este em semifinal de Liga dos Campeões!!), 4 a 0 no Chelsea, 4 a 1 no Liverpool, 6 a 3 no United… É hora de relembrar.

Índice

Tá aí o seu centroavante!

Erling Haaland: o reforço que o City precisava.

 

Após a saída do ídolo Agüero em 2021, o City passou a temporada 2021-2022 sem um artilheiro nato, um matador. Embora a equipe tivesse como ponto forte o jogo coletivo e a troca de passes, não ter um goleador enfraqueceu o time nos momentos decisivos daquela temporada, em especial na semifinal da Liga dos Campeões da UEFA diante do Real Madrid, quando a equipe criou inúmeras chances na partida de ida e não conseguiu aumentar o placar – foi 4 a 3. Os gols “não-feitos” fizeram falta no Santiago Bernabéu e o Real acabou vencendo por 3 a 1, se classificando para a decisão. Mahrez, com 24 gols, foi o principal artilheiro do time, enquanto De Bruyne foi o artilheiro dos Citizens na campanha do título da Premier League com 15 gols. Era visível que aquele time precisava de um homem de área, pois o City criava muitas chances, mas pecava algumas vezes na hora da conclusão.

Por isso, em meados de maio de 2022, a diretoria confirmou o acerto com Erling Haaland, ex-Borussia Dortmund, por cerca de 60 milhões de euros. Era a realização de um sonho para o atacante norueguês, que cresceu vendo seu pai jogando no clube nos anos 2000 e acompanhou inclusive jogos dos celestes em Maine Road, antiga casa do City. Na campanha de marketing, o City até resgatou uma antiga foto de Haaland com a camisa do clube, sentado em um sofá, e reproduziu a imagem atualizada. O reforço era a peça que faltava para Guardiola ter um elenco, enfim, completo. Falando em peças, o City fez uma “limpa” em nomes excedentes e vários atletas deixaram o clube como Zinchenko, Gabriel Jesus, Sterling, Fernandinho (este para já focar na aposentadoria, após anos brilhantes pela equipe) entre outros, o que gerou aos cofres do clube mais de 180 milhões de libras. Além de Haaland, chegou também o defensor Akanji, ex-Borussia Dortmund, para complementar o sistema defensivo.

O que muitos perguntaram na época era como o treinador iria incorporar Haaland ao jogo coletivo do City. Seria necessário abrir mão de um meia, posição que tanto o treinador valoriza, mas, aos poucos, ele encontrou um jeito. Para não precisar se desfazer de um jogador central, Guardiola fez do zagueiro Stones um atleta polivalente, capaz de atuar na zaga, na lateral-direita ou como segundo volante ao lado de Rodri. Na retaguarda, o time jogaria com três homens e, na frente, Haaland seria o camisa 9. O esquema preferido de Guardiola seria o 3-2-4-1, ou mesmo o 3-2-5, quase uma volta ao passado e aos consagrados esquemas WM tão difundidos por Herbert Chapman ou invertidos pela Hungria de Puskás.

O City não ia precisar de laterais que avançam, pois teria os ponteiros Grealish e Bernardo Silva. Não precisaria de um companheiro para Haaland, pois De Bruyne e Gündogan iriam aparecer para oferecer-lhe a bola ou eles mesmos marcarem – principalmente Gündogan. O City iria continuar com o jogo coletivo, a intensidade, mas teria uma arma extra para surpreender os rivais. E, jogo a jogo, essa fusão do homem-gol com um time construtor seria devastadora.

 

A metamorfose 

O primeiro desafio da temporada do City foi a Supercopa da Inglaterra, contra o Liverpool. Ainda num 4-3-3 e com Haaland acompanhado de Mahrez e Grealish, o time de Guardiola mostrou pouca sintonia e perdeu por 3 a 1, resultado que jogou uma ducha de água fria nas imensas expectativas em torno do desempenho da equipe celeste. Mas, na Premier League, as coisas foram fluindo melhor do que o esperado. Com sete vitórias e dois empates nos primeiros nove jogos – e um jogo a menos por causa da morte da Rainha Elizabeth II – o City fincou o pé na vice-liderança e demoliu os adversários com os gols de Haaland. Logo na estreia, contra o West Ham fora de casa, o norueguês marcou os dois gols da vitória por 2 a 0. Na terceira rodada, deixou sua marca nos 3 a 3 contra o Newcastle United e, nos seis jogos seguintes, marcou em todos. Quer dizer, destruiu em todos, como um cometa de gols. Ele marcou:

 

  • 3 gols nos 4 a 2 sobre o Crystal Palace;
  • 3 gols nos 6 a 0 sobre o Nottingham Forest;
  • 1 gol no empate em 1 a 1 com o Aston Villa;
  • 1 gol nos 3 a 0 sobre o Wolverhampton;
  • 3 gols nos 6 a 3 sobre o rival Manchester United;
  • 1 gol nos 4 a 0 sobre o Southampton

 

A sequência só foi encerrada diante do Liverpool, que derrotou o City por 1 a 0 em Anfield na rodada 11. Além dos gols na Premier League, Haaland seguiu goleador, também, na Liga dos Campeões da UEFA. O City venceu os três primeiros jogos e o atacante marcou em todos: 4 a 0 sobre o Sevilla (dois gols), 2 a 1 sobre o Borussia Dortmund (um gol) e 5 a 0 no Copenhagen (dois gols). De fato, era visível o alto nível daquele time de Guardiola. Haaland levava perigo, atraía a marcação, escapava dela e marcava gols em profusão. Além de marcar, ainda dava passes para os companheiros – seriam 9 assistências ao término da temporada. Sem a obrigação de fazer gols e ter uma referência lá na frente dava ainda mais tranquilidade para os outros jogadores do time exercerem suas funções de maneira plena. O City não era infalível nem imbatível, mas, quando jogava com intensidade e ávido, não encontrava adversários à altura.

 

Queda de rendimento

Embora o City fizesse uma boa campanha na Premier League, o líder da competição era o Arsenal, que também jogava bem, mas tinha um elenco jovem e mais limitado se comparado ao do City. No final de 2022, o clube celeste alternou a perda de pontos importantes na Premier League – derrota para o Brentford por 2 a 1 e empate em 1 a 1 com o Everton, após a Copa do Mundo – com a classificação tranquila em primeiro lugar para as oitavas de final da UCL, após dois empates sem gols com Borussia e Copenhagen e vitória por 3 a 1 contra o Sevilla. Porém, já em janeiro de 2023, a equipe de Guardiola perdeu o clássico para o Manchester United por 2 a 1, resultado que deixou os Citizens cinco pontos atrás do Arsenal. Eliminados da Copa da Liga Inglesa após derrota por 2 a 0 para o Southampton, dava a impressão de que o time havia perdido a intensidade do começo da temporada. E, com a saída de João Cancelo para o Bayern, havia incertezas sobre a sequência da equipe.

 

Modo apelação ativado!

Haaland deixou o dele na vitória sobre o Arsenal em pleno Emirates Stadium. Foto: GLYN KIRK / AFP via Getty Images / One Football.

 

Foi no mesmo mês de janeiro que o City percebeu que precisava engatilhar uma nova sequência positiva se quisesse almejar títulos. Não havia mais margem para erros na Premier League e a Copa da Inglaterra já aparecia no radar. Após derrotar o Chelsea por 4 a 0 na estreia do torneio, os Citizens enfrentaram o Arsenal no dia 27 de janeiro também pela Copa da Inglaterra e venceram por 1 a 0, gol de Aké, partida que serviu como prévia para o encontro entre a dupla semanas depois, pela Premier League. Antes, os Citizens derrotaram Tottenham (4 a 2), Wolves (3 a 0) e Aston Villa (3 a 1) e perderam o jogo atrasado para o Tottenham por 1 a 0. 

Já no dia 15 de fevereiro, a equipe de Guardiola encarou o Arsenal no Emirates Stadium e, mesmo diante de 60 mil pessoas, se impôs e mostrou que ainda podia brigar pelo título: vitória por 3 a 1, gols de De Bruyne, Grealish e Haaland, resultado que colocou o City na liderança provisória. Dias depois, a equipe enfrentou o RB Leipzig-ALE, fora de casa, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões da UEFA e empatou em 1 a 1. Na sequência, despachou o Bristol City na Copa da Inglaterra por 3 a 0 e iria engatilhar dali em diante uma série invicta que só terminaria na última rodada da Premier League.

Phil Foden (centro) disputa a bola com Saka.

 

Depois de empatar em 1 a 1 com o Nottingham Forest, na 24ª rodada da Premier League, o Manchester City fez 4 a 1 sobre o Bournemouth, fora de casa, bateu o Newcastle United por 2 a 0, em casa, e venceu o Crystal Palace, fora, por 1 a 0. Na partida de volta da Liga dos Campeões da UEFA, a equipe simplesmente destruiu o RB Leipzig com uma goleada de 7 a 0, com cinco gols de Haaland, que entrou para a seleta lista dos atletas que anotaram cinco gols em um jogo de UCL. Ele só não fez mais porque Guardiola decidiu poupar seu artilheiro – os outros gols foram de De Bruyne e Gündogan, que vivia uma fase esplendorosa e goleadora. 

Grealish e De Bruyne celebram a goleada sobre o Liverpool.

 

Quatro dias depois, outra goleada – 6 a 0 – sobre o Burnley, pela Copa da Inglaterra, com mais três gols de Haaland. E, no dia 1º de abril, o City fez 4 a 1 no Liverpool (mesmo sem Haaland, com uma pequena lesão) e seguiu firme em busca da liderança, já que o Arsenal vivia muito inconstante e perdendo pontos cruciais, além de o City ter partidas a realizar na época e também um confronto direto contra os Gunners, em casa. A linha crescente de qualidade do City ficou explícita naquele período, ainda mais pela força do elenco, que dava conta de qualquer desafio se algum titular absoluto não pudesse jogar. Julián Álvarez, por exemplo, sempre jogava bem quando atuava no lugar de Haaland. 

Álvarez foi o vice-artilheiro do time na temporada. Foto: Divulgação / Manchester City.

 

No dia 08 de abril, Haaland voltou e marcou dois gols na vitória por 4 a 1 sobre o Southampton, fora de casa, com direito a um de voleio, em partida na qual ele alcançou a impressionante marca de 30 gols na Premier League e caminhava para quebrar o recorde de Alan Shearer. Na semana seguinte, o City recebeu o sempre temido Bayern München-ALE na partida de ida das quartas de final da Liga dos Campeões da UEFA e, como se enfrentasse um clube de meio de tabela da Premier League, impôs outro show no Etihad Stadium: 3 a 0, com gols de Rodri, Bernardo Silva e Haaland. 

Foto: Mike Hewitt / Getty Images.

 

Além de atacar muito o rival alemão, o City ainda demonstrou muita segurança defensiva e um nível de concentração notável. O esquema 3-2-4-1 de Guardiola estava mais do que consolidado àquela altura, com Rúben Dias fazendo partidas monumentais – principalmente na UCL -, Stones já bem adaptado à sua função de volante que recuava e também atacava, além de Nathan Aké e Akanji estarem bem como defensores pelas laterais. Quando precisava de mais força de marcação, Guardiola tinha Kyle Walker como opção para neutralizar atacantes mais rápidos e perigosos. Ederson, vivendo grande fase no gol, e Rodri também eram atletas essenciais naquela caminhada invicta do City. 

Contra o Bayern, City enfiou 3 a 0 na ida e praticamente liquidou a disputa.

 

Depois do triunfo sobre o Bayern, o time celeste bateu o Leicester City por 3 a 1 (dois gols de Haaland e um de Stones) na Premier League e, na partida de volta diante dos bávaros, em Munique, empatou em 1 a 1 (gol de Haaland, em falha de Upamecano) um jogo que soube resistir ao clima hostil da Allianz Arena e jamais deixar o Bayern “gostar” do jogo, resultado que colocou o City em sua terceira semifinal seguida de UCL. Para fechar uma quinzena perfeita, a equipe de Guardiola venceu o Sheffield United por 3 a 0 (três gols de Mahrez) e selou sua vaga na final da Copa da Inglaterra. Mas ainda faltava colocar uma cereja no suculento bolo de abril: vencer o duelo direto contra o Arsenal pela 33ª rodada da Premier League.

 

Aprendam, garotos…

De Bruyne deixou o dele na “final”.

 

No dia 26 de abril, o Manchester City lotou seu Etihad Stadium (quase 54 mil pessoas) para a “final” contra o Arsenal. Com dois jogos atrasados e vendo o time de Londres empatar três partidas seguidas, o City só iria depender dele mesmo se vencesse o duelo, pois ficaria dois pontos atrás do Arsenal, só que com seis pontos para disputar, ou seja, os Citizens poderiam abrir quatro de vantagem. Sabendo disso, Guardiola foi com sua força máxima, reforçou o sistema defensivo com Akanji e Walker nas laterais e Dias e Stones mais recuados e partiu pra cima do Arsenal com Rodri, Gündogan e De Bruyne no infalível tridente do meio de campo, Bernardo Silva e Grealish nas pontas e Haaland no ataque.

Logo aos 7’, De Bruyne encheu o pé da entrada da área para fazer 1 a 0. A partida ficou um pouco truncada, mas o City não deixou o Arsenal criar e ficou no campo de ataque. Ramsdale evitou mais gols, mas não conseguiu impedir o polivalente Stones de cabecear uma bola alçada por De Bruyne e fazer 2 a 0. Na segunda etapa, o Arsenal teve que ir para o tudo ou nada, mas deu espaços ao City. E isso é fatal. Os Gunners saíram jogando errado, De Bruyne interceptou e tocou para Haaland. O cometa avançou até a entrada da área e viu três jogadores do Arsenal à sua volta. Do lado esquerdo, De Bruyne apareceu livre. Aí foi só tocar para o belga, que bateu como quem dá uma tacada de sinuca e fez 3 a 0. 

Foi a deixa para a torcida começar o show nas arquibancadas, o Arsenal se entregar de vez e o City só administrar. Os Gunners ainda descontaram, mas Haaland, já nos acréscimos e com sua cabeleira solta, fez o quarto gol: 4 a 1. Era clara a diferença entre as equipes. Se o Arsenal já dava mostras de que não aguentaria até o fim com um elenco jovem e sem peças de reposição, a gota d’água foi mesmo o revés para o City, absoluto, avassalador, imbatível. Em casa, então, era um time monstruoso, que dominava seus rivais e marcava pelo menos dois gols há muito tempo. 

Guardiola enalteceu seus jogadores e reforçou que seu time “se sentia muito confortável em casa”. Por outro lado, lembrou que ainda estava atrás do Arsenal na tabela, a fim de evitar o clima de já ganhou. Do lado dos Gunners, o técnico Mikel Arteta não escondeu que o rival foi muito superior. 

 

“A análise é clara: o melhor time venceu. Provavelmente eles estavam em seu melhor, especialmente no primeiro tempo, e nós não estávamos nem perto do nosso nível. Quando isso acontece, as distâncias se tornam muito grandes. Nos primeiros 30 minutos, todas as coisas básicas que você precisa fazer contra um time excepcional – em termos de competir, ganhar duelos, entender o que o jogo requer – nós não conseguimos fazer e fomos punidos. Poderíamos ter sido ainda mais punidos”, comentou.

 

Recorde do cometa e preparação para a revanche

Foto: Carl Recine / Reuters.

 

Quatro dias depois, o Manchester City visitou o Fulham e venceu por 2 a 1, em jogo que ficou marcado por Haaland igualar o recorde de 34 gols em uma só edição de Premier League de Alan Shearer e Andy Cole, além do golaço anotado por Julián Álvarez. Na rodada seguinte, Haaland marcou seu gol nº 35 na vitória por 3 a 0 sobre o West Ham e virou o maior artilheiro em uma só edição da Premier League em todos os tempos. E isso em apenas 31 jogos, uma média superior a um gol por partida! Após o jogo, Haaland confessou que iria comemorar de maneira pouco usual: “Não posso ficar pensando nesses recordes ou ficarei louco na minha cabeça. Vou para casa jogar videogames”, disse o norueguês. O triunfo colocou o City na liderança após nove rodadas como vice-líder. Em maio, foi a vez de Gündogan virar o homem-gol do time nas vitórias sobre Leeds United (2 a 1, dois gols do alemão) e Everton (3 a 0, dois gols de Gündogan e um de Haaland).

Nesse período, o City começou o imenso desafio de encarar o Real Madrid-ESP na semifinal da Liga dos Campeões da UEFA. O duelo entre ingleses e espanhóis foi tratado como “final antecipada” da competição europeia, afinal, por terem grandes elencos e muita badalação, a dupla se sobressaiu em relação a outra semifinal, que tinha enorme peso histórico por se tratar do Derby della Madonnina entre Inter de Milão e Milan, mas os italianos estavam longe de possuírem esquadrões temidos e tinham jogadores bem mais modestos do que os endinheirados City e Real. O clube madrileno vinha da conquista da Copa do Rei e buscava mais uma final continental e fazer prevalecer a condição de Rei da Europa. Com Vinícius Júnior em ótima fase, os merengues apostavam na vaga e no peso da camisa que tanto brilhou no mata-mata da temporada anterior.

Eliminação do City para o Real em 2022 ainda causava pesadelos nos ingleses.

 

Embora existisse condição de equilíbrio entre as duas equipes pelo peso da história do Real na UCL, era inegável que o City tinha um elenco mais forte e coeso. Os ingleses levavam poucos gols e marcavam muitos, enquanto que o Real levava gols em demasia e tinha uma zaga muito contestada, algo notável desde a temporada passada. O ataque era ótimo, claro, mas ainda sim não tinha Benzema tão fazedor de gols como em 2021-2022. Guardiola sabia que não perder o primeiro jogo, no Santiago Bernabéu, era fundamental. E ele queria a vingança pela eliminação na semifinal da temporada passada. E, sabendo sofrer e com muita frieza, o City arrancou o empate em 1 a 1 dos merengues (gol de De Bruyne) e celebrou bastante o resultado, enquanto os espanhóis perceberam que não vencer a ida foi um desastre.

De Bruyne fez o gol que manteve o City vivo para a volta.

 

Para a volta, Ancelotti surpreendeu ao escalar o zagueiro Éder Militão no lugar de Rüdiger, isso mesmo com o alemão tendo um desempenho fantástico na marcação de Haaland, que pouco fez no Bernabéu. O técnico madrileno preferiu apostar no “11 ideal” e na base do time campeão europeu, além de manter Camavinga na lateral-esquerda e Rodrygo no ataque pela direita. Já Guardiola escalou o mesmo time que empatou na ida, com três defensores, Bernardo Silva e Grealish bem abertos, como alas, Stones fazendo a dupla de volantes com Rodri e Gündogan e De Bruyne responsáveis pela criação e por fazer a bola chegar no matador Haaland. Era hora de mostrar a força do Etihad e despachar de vez o temido Rei europeu.

 

Apoteose dos imortais

Bernardo Silva foi o grande nome da goleada. Foto: Manchester City.

 

No dia do jogo, o Etihad Stadium virou um caldeirão, com mosaico, cânticos e uma atmosfera contagiante. A noite foi chegando na cidade inglesa e esquentando mais e mais graças à torcida do time azul, que emanava todas as vibrações possíveis para que nenhum fantasma pairasse sobre aquele gramado. Era preciso pulsar, abalar as estribeiras do rei da Europa, soberbo, aquele que não se entrega nunca e que encontra forças sabe-se lá onde para empatar e virar jogos perdidos. O Manchester City teria que jogar tudo, absolutamente tudo o que era capaz de jogar para ficar com a vaga na final. E, quando a bola começou a rolar no gramado do Etihad, ela parecia estar sob posse única dos Citizens. Com uma voracidade impressionante, o time de Guardiola empurrou o Real Madrid para seu campo e mostrou quem iria dar as cartas naquela partida. 

O City seguiu criando chances e, até pouco mais dos 10’, o Real não havia sequer passado de seu campo de defesa. Aos 12’, Grealish fez boa jogada pela esquerda e cruzou para Haaland, que cabeceou e Courtois defendeu, para Alaba afastar o perigo na sequência. Um minuto depois, Grealish arriscou o chute de fora, mas a bola foi por cima. Era uma pressão descomunal. Mais descomunal ainda era o Real ainda estar com a meta intacta. Só podia ser o pacto com o “coisa ruim”, não era possível! O torcedor do City cantava, empurrava, mas começava a ficar receoso. E se aquele hostil rival engatilhasse um contra-ataque e fizesse um gol? Imagine a injustiça? Podia acontecer. Era o Real Madrid, oras!

Stones disputa a bola com Modric.

 

Mas, aos 23’, o caminho foi aberto. Em cobrança de escanteio curta, Walker tocou para De Bruyne. O belga poderia acionar Haaland, mas o norueguês, como sempre, estava marcado. Porém, Bernardo Silva estava livre, tratado com desdém pela retaguarda madrilena, que deve ter pensado “nosso perigo é o cometa, é o Haaland”. Só que o perigo era outro… Bernardo chutou forte, no canto oposto ao de Courtois e abriu o placar: 1 a 0. A torcida simplesmente enlouqueceu no Etihad! Se o clima já era de caldeirão, aumentou mais ainda após aquele gol da libertação, da abertura do caminho. Sofrendo do próprio veneno, o Real Madrid tentou responder o mais rápido possível, mas sequer esboçou qualquer perigo naqueles minutos. 

O City amassou o Real do começo ao fim com pressão no campo de defesa merengue, inversões de jogadas e posições e um futebol primoroso.

 

Aos 30’, a posse de bola do City era de 81%, um número assustador, nem tanto para um time comandado por Guardiola, mas pelo fato de do outro lado estar o Real Madrid! Aos 37’, depois de nova troca de passes, Gündogan recebeu de Grealish na grande área e, com liberdade, chutou e a bola pegou em Militão. No rebote, Bernardo Silva cabeceou no canto de uma maneira que Alaba, plantado no gol, não pudesse alcançar: 2 a 0. Nova festa no Etihad! Que jogo do City! Movimentação, intensidade, troca precisa de passes. A equipe de Guardiola colocava o Real Madrid na roda. Não deixava o rei dar as cartas: tirava elas da mão dele e tacava na cara do véio!

Sem alterações, as equipes voltaram do intervalo e o Real até que teve mais a bola sob seu domínio nos primeiros minutos, o que gerou até o primeiro cartão amarelo do jogo, para Rúben Dias, que segurou Vini Júnior e impediu um ataque do brasileiro. Mesmo com mais posse, o City ainda era dominante e chegou mais três vezes entre os 11’ e os 16’. Quando o Real recuperava a bola, a torcida da casa azucrinava os espanhóis, tirava a concentração e a bola voltava ao City. O esquadrão de Guardiola comandava principalmente o meio de campo, com Rodri fazendo uma partida absurda e Gündogan, formidável.

O Real era impreciso e, aos 19’, Ancelotti decidiu tirar Modric, que não fez absolutamente nada, para a entrada de Rüdiger, que foi para a zaga, com Alaba indo para a lateral-esquerda e Camavinga para o meio. A esperança era ter mais combate, recuperar a bola, mas nada adiantou. O City tinha mais espaço e De Bruyne começou a jogar mais à frente, quase como um segundo atacante. Aos 24’, Kroos saiu para a entrada de Asensio e, sem muita organização no meio, o Real foi para a tática do kamikaze de uma vez. Mas quem criava era o City. E, aos 27’, Haaland tocou para Gündogan, que devolveu de calcanhar para o norueguês, que chutou e Courtois defendeu, mandando a bola por cima do gol – ela ainda tocou no travessão antes de sair. Que lance!

Três minutos depois, Camavinga derrubou Grealish, cometeu a falta e levou o cartão amarelo. Na cobrança, De Bruyne cruzou na área, para Akanji, mas quem desviou a bola foi Militão e ela foi parar dentro do gol. Na hora, o gol foi creditado contra, mas, na súmula, o gol ficou para Akanji. Era o golpe para liquidar de vez o time merengue. Naquele momento, o torcedor poderia respirar aliviado. Cantar sem engasgar. Sonhar com a final. Nos minutos seguintes, as duas equipes mexeram e a sensação era de que o jogo estava encerrado. Só aos 36’ que Ceballos exigiu uma defesaça de Ederson, em grande fase. Já nos acréscimos, Foden roubou a bola, tabelou com Mahrez e tocou para o campeão do mundo Julián Álvarez, que havia acabado de entrar no lugar de Haaland. O argentino tocou bem sutil na bola, o suficiente para deslocar Courtois: 4 a 0.

Que placar! Que atropelo! Que espetáculo! O Manchester City estava na final da Liga dos Campeões da UEFA pela segunda vez em sua história. Foi a vitória que lavou a alma do torcedor e daquele próprio time. No geral, o City teve:

 

  • 61% de posse de bola
  • 68 ataques contra 27 do Real;
  • 16 chutes a gol contra 7 do Real;
  • 43 bolas recuperadas contra 24 do Real;
  • 90% de eficiência de passes

 

Foi a 15ª vitória seguida do Manchester City em casa na temporada, com 53 gols marcados e apenas 7 sofridos. Bernardo Silva foi o terceiro jogador a marcar dois gols em cima do Real Madrid em uma semifinal de Liga dos Campeões, igualando o feito de Messi, em 2011, e Lewandowski, em 2013 (lembrando que Lewa fez quatro gols naquela ocasião). Foi um jogo para a história que manteve vivo o sonho do Treble do Manchester City, afinal, o clube seguia líder da Premier League, iria disputar a final da Copa da Inglaterra contra o rival Manchester United e estava na final da Liga dos Campeões.

 

 

Os jornais exaltaram a performance do esquadrão de Guardiola, que relembrou até mesmo o Barcelona de 2008-2012, tão cultuado por exercer a pressão, ter a bola e buscar o ataque como o City fez contra o Real. Muito entusiasmado, o técnico dos Citizens comentou sobre o duelo no pós-jogo: 

 

“Ficamos incomodados por um ano pelo que aconteceu na temporada passada. Acho que hoje tudo aconteceu como queríamos, foi tão doloroso na temporada passada e as pessoas dizem que faltou personalidade a esses jogadores, mas durante esse ano mostramos o quanto esse grupo de jogadores é especial”. 

O espanhol acrescentou: “Não tivemos que sair de um 3 a 1 contra, precisamos apenas vencer um jogo, sermos nós mesmos. O Real Madrid é, meu Deus, que time! Na temporada passada, o que aconteceu, aconteceu. Não tivemos sorte para vencer, mas hoje desde o primeiro minuto tive a sensação que as pessoas estavam prontas. Foi calmo, eles fizeram muitas piadas esses dias, então eu não senti nenhuma tensão ou ansiedade. Eu senti que estávamos prontos para ter um grande desempenho”. 

 

Faltava pouco para uma temporada de sonho se concretizar. Vencer um Treble era algo surreal e façanha que apenas o rival Manchester United tinha na Inglaterra. E essa caminhada teria o United como obstáculo, na final da Copa da Inglaterra. Nem nos maiores devaneios que o torcedor celeste poderia esperar um enredo como aquele.

 

Tricampeões e o double

Gündogan marcou gols decisivos na reta final da temporada – dois na final da FA Cup!

 

Sem precisar entrar em campo, o Manchester City faturou o título da Premier League antes mesmo de enfrentar o Chelsea, na antepenúltima rodada, afinal, o Arsenal tropeçou de novo e deu de bandeja o tricampeonato nacional consecutivo aos Citizens. Não foi uma campanha avassaladora como de outros anos, mas foi o título que consolidou a hegemonia do maior esquadrão da Inglaterra e de um time que cresceu no momento certo e soube usar a força do elenco para despachar os rivais. Diante do Chelsea, vitória protocolar por 1 a 0 com time quase todo reserva e entrega da taça para a alegria da torcida no Etihad Stadium. Nos dois últimos jogos, o City empatou com o Brighton em 1 a 1 e perdeu para o Brentford, fora de casa, por 1 a 0. A equipe terminou a competição com 89 pontos (cinco a mais do que o Arsenal) em 38 jogos, sendo 28 vitórias, cinco empates, cinco derrotas, 94 gols marcados e 33 sofridos. Haaland, com 36 gols, foi o artilheiro da competição.

Troféu 1: Premier League. Foto: Isaac Parkin – MCFC/Manchester City FC via Getty Images.

 

Nos dias seguintes à conquista, o City já começou a se concentrar em busca da Tríplice Coroa. Todos no elenco sabiam da importância dela e o quão importante seria para a história do clube. O defensor Kyle Walker chegou a dizer que “para estarmos lá no alto entre os maiores de todos os tempos, temos que conquistar a tríplice coroa”. E foi com essa mentalidade que o City entrou em campo no belo e lotado Wembley para a final da Copa da Inglaterra do dia 03 de junho de 2023. Mais do que a final, era o primeiro clássico de Manchester que valia taça na tradicionalíssima competição inglesa e a chance de aumentar ainda mais a frustração dos Red Devils, tão encostados no protagonismo da cidade e que tanto sofreram diante do City no final dos anos 2010 e boa parte do início dos anos 2020. 

O City do Treble: WM? Volta aos anos 1950? Guardiola montou um time brilhante, demolidor e que marcou quase três gols por jogo na temporada!

 

Troféu 2: FA Cup

 

E, com apenas 12 segundos (!) de jogo, o City abriu o placar em um lindo chute de Gündogan de fora da área que desmoronou toda e qualquer tática que o United pretendia para aquela decisão. Bruno Fernandes até empatou em cobrança de pênalti, aos 33’, mas Gündogan fez mais um no começo do segundo tempo e o placar de 2 a 1 deu o título ao City. A festa do lado azul em Wembley foi gigantesca, ainda mais em campo, com os jogadores em êxtase por mais um troféu e um passo a mais em busca do Treble. Só faltava um objetivo. O maior de todos. O inédito. Aquele que escapou em 2021: o troféu da Liga dos Campeões da UEFA.

 

Welcome to the Treble City!

Rodri, autor do gol do título europeu. Foto: Paul Terry / Sportimage/Icon Sport

 

Antes da final da UCL, ao contrário de anos anteriores nos quais tirava o peso e a importância de se conquistar um título europeu, Guardiola disse que o City precisava da Velhinha Orelhuda para dar “um passo definitivo como grande clube”. O espanhol sabia que não ter a UCL era algo que marcava seu trabalho de maneira negativa. Por mais que tivesse títulos e mais títulos e fosse o melhor técnico do mundo, ele precisava da UCL pelo City. E o City precisava da UCL para entrar de vez no rol dos imortais. A final estava marcada para Istambul, mesma cidade do Milagre de 2005 entre Milan e Liverpool. E, por ironia do destino, mais uma vez um clube italiano de Milão – a Internazionale – e um clube inglês estavam na final. A expectativa diante do duelo era enorme, pois a nerazzurri vinha de uma classificação contundente diante do rival Milan.

Já o City foi a campo com um 11 inicial parecido com o que enfrentou o Real Madrid, com exceção de Kyle Walker, que ficou no banco para a entrada de Nathan Aké. O City, claro, era favorito pelo futebol que jogava, mas quando a bola rolou, o primeiro tempo da final em Istambul foi um choque para quem imaginava o time inglês amplamente superior, pois a Inter pressionou os Citizens com uma marcação muito forte, embora não conseguisse criar chances claras de gol. Bem marcado, Haaland não levou perigo e o meio de campo nerazzurri foi superior. E tudo parecia conspirar para os italianos quando De Bruyne se lesionou e enfraqueceu o time inglês.

Foto: Amin Mohammad Jamali /Getty Images.

 

Mas, na segunda etapa, a intensidade da Inter diminuiu, e, mesmo com a entrada de Lukaku, o time não conseguiu criar boas chances. Em uma bobeada da zaga inglesa, Lautaro teve uma chance clara na qual poderia tocar para Lukaku ou Brozovic, mas preferiu chutar em cima do goleiro Ederson. Foi um erro fatal, pois, minutos depois, Akanji tocou para Bernardo Silva, este tocou no meio, a bola desviou em Acerbi e sobrou limpa para Rodri, tão sumido na primeira etapa, chutar no canto e fazer 1 a 0. Que gol do espanhol. E justo ele, tão monumental naquela campanha europeia, para fazer o gol do título!

A Inter foi para o tudo ou nada e quase empatou em cabeçada de Dimarco que bateu no travessão. Lukaku ainda teve uma chance clara, mas perdeu. O City também quase fez outro com Phil Foden, mas o meia chutou fraco, para fácil defesa de Onana. Na reta final, o goleiro Ederson ainda fez grandes defesas e o placar ficou mesmo 1 a 0. City campeão pela primeira vez da Liga dos Campeões da UEFA. Aliás, campeão invicto, com 13 jogos, 8 vitórias, 5 empates, 32 gols marcados e apenas cinco gols sofridos. Inter, pela terceira vez em seis finais, vice-campeã. Assim como o rival Milan em 2005, a nerazzurri não teve sorte em Istambul. E o título ficou com a Inglaterra outra vez.

Troféu 3: enfim, a Velhinha Orelhuda!

 

Com o Treble pelo City, Guardiola se tornou o primeiro técnico da história a alcançar o feito por dois clubes diferentes (ele foi campeão pelo Barça em 2009).

 

Haaland, com 12 gols, foi o artilheiro da competição, enquanto Rodri foi eleito o melhor jogador do torneio. De Bruyne, com 7 assistências, foi o “maior garçom” da UCL. O título fez do City o segundo clube na história da Inglaterra a vencer o Treble, e colocou o time no mesmo rol onde estão Barcelona (2008-2009 e 2014-2015), Bayern München (2012-2013 e 2019-2020), Celtic (1966-1967), Ajax (1971-1972), PSV (1987-1988), Manchester United (1998-1999) e Inter de Milão (2009-2010), os outros clubes também vencedores de Trebles. Em entrevista ao BT Sport e reproduzida no site Trivela, parceiro do Imortais, Guardiola disse: 

 

“Estava escrito nas estrelas que ganharíamos esta temporada. E ganhamos. Me sinto cansado, calmo e satisfeito. Este maldito troféu é tão difícil de vencer. Sabíamos que seria difícil. A Inter é muito boa. Estávamos muito ansiosos no primeiro tempo, mas era uma questão de sermos pacientes. Eu disse a eles no intervalo para serem pacientes. Você tem que ter sorte. Ederson ou eles erram, eles poderiam ter empatado. Esta competição é como jogar uma moeda para cima”.

 

Foi o 14º troféu do espanhol no City. E, sem dúvida, o mais desejado e cobiçado. Se faltava alguma coisa para aquele esquadrão celeste entrar para a história, não faltava mais. Eles já eram imortais. E, nos meses seguintes, ainda venceram a Supercopa da UEFA e o Mundial de Clubes da FIFA, este com um show: vitória por 4 a 0 sobre o Fluminense-BRA, com dois gols de Álvarez, um contra de Nino e outro de Foden. E isso que o time inglês nem jogou com De Bruyne e Haaland, contundidos! 

 

Inesquecíveis

Imagem: Reach Sport Shop.

 

 

A temporada 2022-2023 já está marcada como a melhor da história do Manchester City. Foi a coroação de um projeto de 15 anos, que começou com gastos sem propósito até o entendimento de que é preciso planejamento e as pessoas certas para formar um time campeão. Não basta gastar a esmo (não é, PSG?…) se não existe um bom técnico, um equilíbrio entre os atletas, peças que se encaixam em todos os setores do campo, enfim, não adianta formar um time sem ter um time. E o Manchester City provou mesmo ter uma equipe sensacional em uma temporada dos sonhos, na qual abdicou de laterais, jogou como nos anos de ouro do futebol ofensivo e trucidou rivais tanto em casa quanto fora com autoridade, disciplina, inteligência e a experiência para não cometer os erros do passado. O City de 2022-2023 será lembrado daqui um ano, dois, dez. Enfim, para a eternidade. Um esquadrão imortal.

Elenco desfilou pelas ruas de Manchester com as taças do Treble.

 

Números da temporada 2022-2023:

  • 61 Jogos
  • 44 Vitórias
  • 10 Empates
  • 7 Derrotas
  • 151 gols marcados (média de 2,47 gols por jogo)
  • 46 gols sofridos
  • Aproveitamento de 72,13%

Os personagens:

 

Ederson: o brasileiro chegou em 2017 ao City e rapidamente ganhou a vaga de titular graças à sua regularidade, grandes defesas e capacidade de sair jogando com os pés, características fundamentais para o estilo de jogo proposto pelo técnico Guardiola. Eleito duas vezes para o Time do Ano da Premier League e Luva de Ouro do torneio em três temporadas, Ederson é um dos principais jogadores do City há anos e também um dos mais respeitados goleiros do mundo. Na temporada 2022-2023, o brasileiro começou de maneira irregular, mas cresceu na reta final e permaneceu 18 jogos dos 47 jogos disputados sem levar gols. Foi gigante na final da UCL com defesas importantíssimas que garantiram o título europeu.

Nathan Aké: o jovem defensor holandês foi um dos mais utilizados por Guardiola na temporada graças à capacidade para atuar tanto pelas laterais quanto no miolo de zaga. Com excelente qualidade nos passes, visão de jogo e bom nos desarmes, Aké ainda aparecia no ataque e marcou três gols. É um dos mais talentosos defensores do futebol atualmente e deve crescer ainda mais nos próximos anos.

Kyle Walker: o lateral-direito chegou em 2017 ao City e foi titular em boa parte dos jogos do time nas conquistas do período. Com força física e eficiência na marcação, deu boa proteção pelo setor direito da defesa, embora não subisse tanto ao ataque. Disputou 39 jogos na temporada 2022-2023 e brilhou nas semifinais diante do Real Madrid, quando conseguiu neutralizar o perigoso Vinícius Júnior e impediu o brasileiro de aprontar das suas.

Rúben Dias: zagueiraço, o português foi ainda melhor na época 2022-2023 e se consagrou como um dos melhores do mundo. Forte no jogo aéreo, nas roubadas de bola, na marcação e na cobertura do miolo central, foi a referência defensiva do time e estupendo nos jogos finais da temporada. 

Akanji: após quatro temporadas no Borussia Dortmund, o suíço chegou em 2022 ao City e ganhou espaço no time, deixando Laporte no banco. Outro jogador com eficiência nos passes e na antecipação, podia atuar pelas laterais da zaga ou mais centralizado. Disputou 48 jogos na temporada e marcou um gol.

Cancelo: o lateral português fez uma grande temporada em 2021-2022, mas problemas de relacionamento com Guardiola minaram sua estadia no clube e ele acabou sendo emprestado ao Bayern München em janeiro de 2023. Enquanto esteve atuando pelos Citizens na temporada, Cancelo disputou 26 jogos, marcou dois gols e deu cinco assistências.

Stones: outro jovem zagueiro lapidado pelo técnico Guardiola, Stones chegou ao City em 2016 e se destaca pela técnica e visão de jogo, além de ter bons passes e eficiência na antecipação. Na época 2022-2023, o inglês virou um coringa importante no esquema tático do time ao atuar como segundo volante e também como zagueiro e até meia em algumas ocasiões. Marcou três gols e deu três assistências em 34 jogos.

Rico Lewis: cria das bases do City, o inglês atuou em 23 jogos na temporada e demonstrou polivalência, podendo atuar no meio de campo e nas duas laterais.

Rodri: o espanhol fez uma temporada monumental e foi um dos grandes responsáveis pela força do City ao longo dos jogos. Dono de passes perfeitos, capaz de sair da pressão de maneira impressionante e com ótima condução de bola, Rodri ajudou na marcação, na contenção e no ataque. Foram 56 jogos (recordista do time), 4 gols e 7 assistências na temporada, incluindo o gol do título europeu, um tento tão lendário quanto o gol de Agüero de 2012.

Bernardo Silva: mais um polivalente do setor ofensivo do City, o português chegou em 2017 e, mesmo com a concorrência no setor, conseguiu aos poucos cravar seu espaço entre os titulares graças a capacidade em jogar como meia-armador, ponta, atacante e até mais recuado. Com muito fôlego, visão de jogo e bons passes, participou de 55 jogos, marcou sete gols e deu seis assistências na temporada. Já é um dos maiores jogadores da história recente do City.

De Bruyne: o técnico Pep Guardiola já havia lapidado estrelas como Xavi e Iniesta em seus tempos de Barcelona. E, no City, o principal diamante lapidado pelo treinador foi o belga Kevin De Bruyne. É inegável o crescimento do craque sob o comando de Pep, que transformou o meia em um dos melhores do mundo e em um dos mais talentosos meio-campistas deste século. Tímido e concentrado fora de campo, mas uma fera dentro dele, De Bruyne é o jogador que qualquer um queria ver no time: ele constrói jogadas, destrói as do adversário, rouba bolas, vê espaços onde ninguém vê e dá passes como poucos conseguem dar. 

A ferrenha concorrência com outras estrelas vem privando o belga de um prêmio de melhor jogador do mundo ou do Ballon d’Or, mas ele certamente merecia há tempos uma honraria desse porte. Mas, quem sabe, ele consiga no futuro. Outra vez foi o recordista em assistências no time em 2022-2023 com absurdos 29 passes para gols, além de ter marcado 10 gols nos 49 jogos que disputou. Deu azar novamente em uma final de UCL ao não conseguir disputá-la por inteiro, assim como em 2021, mas dessa vez conquistou o título. Ídolo do City, tem até música própria da torcida: “Oooooo, Kevin De Bruuuuuyne, Oooooo, Kevin De Bruuuuyne”.

Phil Foden: cria das bases do City, Phil Foden começou a ser inserido entre os profissionais em 2016, mas foi debutar na equipe principal apenas em 2017. Guardiola foi treinando mais o jovem e, aos poucos, passou a dar espaços ao talentoso meia, que virou um dos xodós da torcida e também um dos mais valiosos atletas do futebol mundial. Capaz de atuar na esquerda, na direita e mais centralizado do meio de campo para frente, é uma peça importante para a parte tática e oferece diferentes alternativas ao time. Em 48 jogos na temporada, marcou 15 gols (3º maior artilheiro do time) e deu 9 assistências.

Gündogan: um dos mais versáteis e talentosos meio-campistas do mundo, o alemão virou capitão do City em 2022 e teve a honra de erguer os históricos troféus da temporada de ouro do clube. No Manchester City desde 2016, Gündogan cravou de vez seu lugar entre os melhores do mundo graças à sua capacidade de chegar ao ataque e acertar poderosos chutes de média e longa distâncias. Criativo e brigador, Gündogan consegue ditar o ritmo do jogo como poucos e fazer funcionar o ataque de várias maneiras. Anotou 11 gols (dois na final da Copa da Inglaterra) e deu 6 assistências em 51 jogos. Deixou o City para jogar no Barcelona a partir da época 2023-2024. Em sete temporadas pelos Citizens, Gündogan disputou 304 jogos, marcou 60 gols e conquistou 14 títulos.

Mahrez: ídolo do Leicester City campeão inglês em 2016, Mahrez chegou já consagrado ao City em 2018 e ajudou a equipe a ter mais fôlego no setor ofensivo, além de ajudar nos chutes de fora da área e nos gols. Foi o artilheiro do time em 2021-2022 com 24 gols até a chegada de Haaland. Na época 2022-2023, perdeu espaço no time titular, mas ainda sim disputou 47 jogos e marcou 15 gols (4º maior artilheiro do time) além de dar 13 passes para gols.

Grealish: criticado na época 2021-2022, o inglês deu a volta por cima na época 2022-2023 e foi uma das principais armas ofensivas do City na caminhada do Treble. Incisivo pela esquerda, rápido e driblador, Grealish deu 11 passes para gols e anotou cinco tentos. Disputou 50 jogos na temporada. 

Haaland: 53 jogos, 52 gols, 9 assistências, artilheiro da Premier League com 36 gols em 35 jogos, artilheiro da Liga dos Campeões da UEFA com 12 gols em 11 jogos, Chuteira de Ouro da Europa, Melhor Jogador da temporada na Premier League, Futebolista do Ano da FWA, Melhor Jogador Jovem da Premier League e Eleito para o Time do Ano da Liga dos Campeões da UEFA. Erling Haaland conseguiu tudo isso em sua primeira temporada pelo Manchester City. Nunca um jogador foi feito tanto para um time e nunca um time foi tão feito para um jogador. Simbiose perfeita. Haaland devastou a Europa. Pulverizou recordes. Entrou para a história. E tudo em um ano. Se continuar assim, deve ser o melhor do mundo muito em breve. Simplesmente impressionante!

Julián Álvarez: o argentino poderia ter mais tempo de jogo no City e provou isso com 17 gols e 4 assistências em 48 jogos. Vice-artilheiro do City no ano, Álvarez alcançou o Treble na mesma temporada em que foi um dos destaques da Argentina campeã da Copa do Mundo de 2022. Talentosíssimo, é um dos melhores atacantes do mundo e deve melhorar ainda mais nos próximos anos. No Mundial de Clubes, o atacante anotou dois gols na final contra o Flu.

Josep Guardiola (Técnico): se ainda precisava provar algo no City, Guardiola não precisa mais. Com novas mudanças no time em 2022-2023 e um esquema tático ousado e pouco comum em tempos de 4-3-3, o técnico alcançou um patamar ainda maior com o Treble e por transformar jogadores dentro e fora de campo. Dizer que “ah, com dinheiro é fácil” é uma frase dita por aqueles que não são capazes de reconhecer o mérito de um treinador emblemático e que já está no rol dos maiores de todos os tempos. 

Guardiola soube em 2022-2023 como montar uma equipe competitiva e que sabia controlar o jogo e também o que fazer em momentos de pressão. Mais do que isso, soube criar um nível altíssimo de concentração em seus atletas nos jogos decisivos da temporada, em especial na reta final da UCL e na final da Copa da Inglaterra. Não é sempre que vemos um clube vencer um Treble – vimos apenas 10 vezes. E, desses 10 esquadrões, Guardiola comandou dois, o Barça de 2009 e o City de 2023. PS: Guardiola alcançou 413 jogos pelo City desde 2016, com 72,6% de aproveitamento, 300 vitórias, 55 empates, 58 derrotas, absurdos 1015 gols marcados e 336 gols sofridos. Não tem contestação. Ele é bom mesmo. E imortal.

 

 

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Comentários encerrados

Um Comentário

  1. Foi a melhor temporada citizen! Um trabalho muito bem feito por um esquadrão que mostrou que queria fazer história e pintou a Inglaterra, a Europa e o mundo de azul claro e branco com estilo! E goleadas! Uma pessoa que merece aplauso é Pep Guardiola. Para mim, o maior técnico de futebol do Século XXI! E tetra do Mundial de Clubes (ele venceu em 2009, 2011, 2013 e 2023).

    Abraço, Guilherme! E se prepara porque em 2024 vai ter mais história!

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