Por Guilherme Diniz
A seleção brasileira quase sempre impõe medo nos adversários e raros são os times que não sentem o peso da amarelinha em campo. Mas apenas um pode dizer que jamais foi derrotado pela única equipe pentacampeã mundial: a Noruega. Em cinco jogos na história, a seleção nórdica venceu três (dois deles em Copas!) e empatou dois, um retrospecto invejável para qualquer outra seleção do planeta. É hora de relembrar os grandes jogos entre Brasil x Noruega.
Sumário
Noruega 1×1 Brasil – Amistoso – 1988
O primeiro duelo entre os países aconteceu em 1988, na cidade de Oslo (NOR). A Noruega estava longe de ser uma seleção forte e vivia um jejum de décadas sem participar da Copa do Mundo – sua única presença datava do longínquo ano de 1938, quando perdeu para a Itália por 2 a 1 logo no primeiro jogo e foi eliminada. Já o Brasil era comandado na época por Carlos Alberto Silva, treinador que ficou marcado pelo título brasileiro conquistado pelo Guarani em 1978, além de ter levantado outros troféus por São Paulo, Atlético-MG e Santa Cruz.

O técnico fazia na época testes para a seleção olímpica e mandou a campo vários dos atletas que seriam utilizados nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, como Taffarel, Jorginho, Ricardo Gomes, Geovani, Edmar e Romário. Mesmo assim, a Noruega abriu o placar no começo do segundo tempo com Fjørtoft e segurou a vantagem até os 81’, quando Edmar empatou. Nas Olimpíadas, o Brasil chegou até a disputa do Ouro, mas perdeu para a URSS por 2 a 1, de virada, e ficou com a prata.
Noruega 4×2 Brasil – Amistoso – 1997
Após um período de testes no elenco entre 1995 e 1996, o técnico da seleção brasileira na época, Mário Zagallo, passou a convocar com mais frequência o que de melhor havia no futebol brasileiro. E é claro que um jogador estava incluído nessa lista: Romário, que passaria já no primeiro amistoso do ano, contra a Polônia (vitória brasileira por 4 a 2), a fazer dupla de ataque com Ronaldo, já uma estrela mundial e jogando muito no Barcelona. Dali em diante, o Brasil se transformou em uma máquina de fazer gols. Nos dois amistosos seguintes, goleadas de 4 a 0 contra Chile (dois gols de Ronaldo e dois de Romário) e México (três gols de Romário e um de Leonardo).
No quarto jogo do ano, porém, o Brasil visitou a Noruega em Oslo e sofreu uma derrota contundente por 4 a 2 que colocou fim a uma invencibilidade de 42 meses da equipe canarinho – o último revés datava de novembro de 1993, para a Alemanha (2 a 1). E, para piorar, desde junho de 1989 que a equipe brasileira não levava quatro gols em um só jogo (desde os 4 a 0 para a Dinamarca). Apático no ataque e errando muito na defesa – formada na época por Márcio Santos e Célio Silva -, a seleção acabou surpreendida por uma Noruega que marcava forte, saía com velocidade em rápidos contra-ataques e já contava com o time-base que levaria o time viking a Copa do Mundo de 1998.

O primeiro gol saiu aos 8’, quando Strandli driblou Célio Silva e tocou para Rudi, que passou por Taffarel e marcou um belo gol. O segundo saiu dez minutos depois, após cruzamento da esquerda em que Leonhardsen apareceu sozinho, dentro da área, e tocou para trás. Tore André Flo, que acompanhava a jogada, completou. O Brasil descontou três minutos depois com Djalminha, após boa jogada de Romário. Aos 32’, a Noruega chegou ao terceiro gol quando Alf-Inge Haaland (ele mesmo, o pai de Erling Haaland!) roubou a bola de Márcio Santos na esquerda e cruzou para a área. Tore André Flo dominou e tocou sem chances para Taffarel.
No segundo tempo, Romário fez o segundo gol do Brasil, aos 68’, mas a esperança ruiu aos 77’, quando a Noruega aproveitou nova desatenção da zaga para marcar o quarto gol. Márcio Santos ficou sozinho na pequena área para marcar dois noruegueses. Eles tabelaram, e o atacante Ostentad ficou livre para anotar o gol, na frente de Taffarel: 4 a 2. O Brasil foi a campo naquele dia com: Taffarel; Cafu, Célio Silva, Márcio Santos e Roberto Carlos; Dunga, Mauro Silva e Leonardo; Djalminha; Ronaldo e Romário. A Noruega jogou com: Grodas (Thomas Grill); Haaland (Halle), Berg, Johnsen e Skammelsrud; Leonhardsen (Solbaken), Rekdal e Mykland; Rudi (Ostentad) e Strandli (Jostein Flo); Tore André Flo.
Noruega 2×1 Brasil – Fase de Grupos da Copa do Mundo da FIFA de 1998
Um ano depois, brasileiros e noruegueses voltaram a se enfrentar, dessa vez no Grupo A da Copa do Mundo da França. O técnico norueguês, Egil Olsen, chegou a dizer antes do Mundial, em entrevista à Folha de S.Paulo que “na realidade, o Brasil não está tão bom tecnicamente como sugere sua posição no ranking da FIFA (1º lugar). Por isso, não é improvável que venha a ser eliminado precocemente”, aliviando o tom na sequência ao dizer que “embora exista uma possibilidade de o Brasil não ir longe na Copa do Mundo, não creio que isso venha realmente a acontecer na prática”.



Quando a Copa começou, porém, o Brasil venceu seus dois primeiros jogos: 2 a 1 sobre a Escócia e 3 a 0 diante de Marrocos, enquanto a Noruega só empatou com os marroquinos na estreia (2 a 2) e também diante da Escócia (1 a 1). Com isso, o último jogo tinha extrema importância para os nórdicos, que precisavam da vitória diante do Brasil, já classificado, para seguir rumo às oitavas de final, já que Marrocos também tinha chances de classificação.
Zagallo aproveitou para alfinetar o técnico Olsen, dizendo que “se (ele) estivesse mais preocupado com sua equipe, não estaria em posição complicadíssima na tabela”. Bem, quando a bola rolou no Vélodrome, em Marselha, o Brasil manteve o 0 a 0 no primeiro tempo, enquanto no outro jogo do grupo a seleção de Marrocos vencia a Escócia e garantia sua vaga nas oitavas de final. A vida dos africanos melhorou ainda mais quando Bebeto, aos 78’, abriu o placar para a seleção. A Noruega, porém, passou a lançar bolas na área brasileira, o grande ponto fraco do time de Zagallo.
E, aos 83’, Tore André Flo invadiu a área, deu um drible desconcertante em Júnior Baiano e chutou para empatar – foi o terceiro gol do atacante em dois jogos contra o Brasil, o que fez ele ganhar o apelido de “Flonaldo”, em alusão ao craque Ronaldo. O gol da virada veio seis minutos depois, em lance polêmico no qual o árbitro marcou pênalti de Júnior Baiano em Tore André Flo, apesar de não ficar claro se o brasileiro tocou mesmo no adversário. Porém, imagens por outro ângulo provaram que foi, sim, pênalti. Rekdal cobrou, Taffarel até acertou o canto, mas a bola entrou: 2 a 1. A Noruega, com 5 pontos, conseguiu a vaga nas oitavas de final em segundo lugar, enquanto Marrocos, com 4, acabou eliminado.



Após a partida, os jogadores brasileiros demonstraram muita irritação, entre eles Ronaldo Fenômeno. “Faltavam sete minutos, resolvemos reter a bola, como se o jogo estivesse ganho, relaxamos e aí deu no que deu. Em jogo de Copa você não pode relaxar nunca”. Por outro lado, Zagallo demonstrou o mesmo otimismo de sempre:
“Foi uma derrota rumo ao penta. […] Ela (a derrota) veio na hora certa, quando podíamos perder. Nos desconcentramos depois do gol, a 7 minutos do fim. Eu falei que, mesmo com vaias, tínhamos que ficar tocando a bola, até eles se abrirem, acabando com o marasmo das linhas de quatro e cinco jogadores só defendendo”.
A festa dos noruegueses foi gigantesca e aquele triunfo é celebrado até hoje como um dos grandes momentos da história da seleção. Em entrevista ao repórter Bruno Freitas, do UOL Esporte, em setembro de 2017, Tore André Flo comentou sobre a partida.
“Definitivamente, (a partida de 1998) mudou minha vida. Para muitos noruegueses aquele é o melhor jogo da seleção nacional em todos os tempos. Havia sido muito difícil se qualificar para a Copa do Mundo. E aquela vitória nos levou para a próxima fase da Copa. Com certeza é algo grande. Frequentemente as pessoas na Noruega falam sobre esse jogo, contam como elas celebraram, como foi especial em suas vidas. Sabíamos que seria muito difícil, que iríamos enfrentar provavelmente a melhor equipe do mundo. Mas sabíamos também que era possível, em razão do jogo do ano anterior. A gente tinha um bom time, talvez o melhor que a Noruega já teve. Mas sabíamos que era difícil”.
Na segunda fase, o Brasil despachou Chile, Dinamarca e Holanda e fez a final contra a França, quando perdeu por 3 a 0 e acabou com o vice. Já a Noruega encontrou a sua asa negra na época – Itália -, perdeu por 1 a 0 e foi eliminada. Os nórdicos só voltariam a uma Copa 28 anos depois, em 2026.
Noruega 1×1 Brasil – Amistoso – 2006
Logo após o fiasco na Copa de 2006, quando foi eliminada pela França mesmo com vários craques, o Brasil iniciou uma reformulação sob o comando do técnico Dunga, lendário meio-campista dos anos 1980 e 1990. E o primeiro jogo daquela nova era foi justamente contra a Noruega, em Oslo, em amistoso disputado no dia 16 de agosto de 2006. O Brasil foi a campo com Gomes; Cicinho (Maicon), Juan (Alex), Lúcio e Gilberto; Gilberto Silva, Edmílson (Dudu Cearense), Elano (Júlio Baptista) e Daniel Carvalho (Vágner Love); Robinho e Fred, enquanto a Noruega entrou com Myhre; Rambekk, Hangeland, Hagen (Waehler) e Riise; Hastad, Stromstad (Grindheim), Andresen e Pedersen (Arst); Solskjær (Iversen) e Carew.

Depois de um primeiro tempo sem gols, a Noruega abriu o placar logo aos 5’ da etapa final, com Pedersen, que cobrou falta da direita, ninguém do Brasil cortou, e a bola entrou. Aos 16’, o Brasil conseguiu empatar após Daniel Carvalho tocar para Gilberto na esquerda e o lateral cruzar na área. A bola passou por dois brasileiros e voltou para o pé de Daniel, que bateu colocado no canto direito e fez 1 a 1. A seleção ainda teve duas boas chances de gol, mas não conseguiu a virada e manteve a sina de jamais vencer a Noruega: quatro jogos, duas derrotas e dois empates.
Noruega 2×1 Brasil – Oitavas de final da Copa do Mundo da FIFA de 2026

Exatos 20 anos depois, brasileiros e noruegueses voltaram a se enfrentar em uma partida oficial e pela segunda vez em uma Copa do Mundo. Ao contrário de 1998, o duelo valia muito para ambas as equipes: uma vaga entre os oito melhores do Mundial de 2026. O Brasil tinha a chance de ouro de acabar com sua última asa negra no futebol em grande estilo. Só que a Noruega provou outra vez que é um carrasco assustador. Logo com três minutos, o time nórdico abriu o placar, mas o tento foi anulado por causa de impedimento. Na sequência, a equipe de Haaland, Odegaard e companhia teve a posse de bola até o Brasil ter um pênalti a seu favor. Bruno Guimarães cobrou e o goleiro Nyland defendeu.


O erro baqueou o Brasil, que viu a Noruega ter a bola, embora não conseguisse converter a vantagem em gols. Na segunda etapa, o Brasil voltou melhor e teve algumas chances, uma delas claríssima com Endrick, mas o atacante chutou pra fora. A Noruega seguia com a bola e tentava uma brecha para seu matador. E ela veio aos 79’, quando uma bola na área foi na cabeça de Haaland, que ganhou de Gabriel Magalhães e fez 1 a 0. O Brasil foi para o tudo ou nada, só que deu espaços e a possibilidade de contra-ataque. E, aos 90’, Haaland recebeu outra bola, dessa vez rasteira, dominou, ajeitou e bateu cruzado, de fora da área, sem chances para Alisson: 2 a 0. Era o fim. O Brasil ainda teve outro pênalti a seu favor, converteu com Neymar, mas era tarde. Noruega classificada para as quartas de final de uma Copa do Mundo pela primeira vez na história. E Brasil eliminado em uma oitavas de final pela primeira vez desde 1990. De fato, enfrentar a Noruega é um pesadelo para o Brasil. Sempre foi. E segue sendo….
Retrospecto
- 5 jogos
- 3 vitórias da Noruega
- 2 empates
- 10 gols da Noruega
- 6 gols do Brasil

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Esses dias eu revi o sacode de 4 x 2 de 97 e incrível como a defesa do Brasil já dava sinais de que faria água um ano depois na copa.nesse jogo Márcio Santos já decadente e Célio Silva sempre limitado foram uma baba e na copa com Aldair morto e o folclórico Júnior Baiano fazendo trabalhadas a coisa foi ladeira abaixo.