Top 5 dos mais lidos da semana

Posts relacionados

Atlético-MG x Lanús – As finais da Copa Conmebol e da Recopa Sul-Americana

Por Guilherme Diniz

Adversários na final da Copa Sul-Americana de 2025, Atlético Mineiro e Lanús disputaram a terceira decisão sul-americana entre si na história. Tudo começou em 1997, quando o Galo levantou a Copa Conmebol sobre o Granate com direito a goleada em plena Argentina e uma briga campal deplorável. Anos depois, em 2014, foi a vez de a dupla decidir a Recopa Sul-Americana, quando o Galo, campeão da Libertadores do ano anterior, encarou o Lanús, campeão da Copa Sul-Americana, e venceu novamente o rival argentino. Confira a seguir os detalhes desses lendários duelos entre Atlético-MG x Lanús.

Atlético-MG x Lanús – Final da Copa Conmebol de 1997

Jogo de ida – Ciudad de Lanús (ARG) – Lanús 1×4 Atlético-MG

Jogo da volta – Mineirão (BRA) – Atlético-MG 1×1 Lanús

galo lanus

Muito antes da consolidação da Copa Sul-Americana como segundo torneio mais importante da América do Sul, o continente teve, entre 1992 e 1999, a Copa Conmebol, que reunia os melhores classificados nos torneios nacionais de cada país membro da entidade sul-americana. Mesmo com curta duração, a competição marcou época e se sobressaiu diante de outros torneios como a Supercopa da Libertadores e a Copa Ouro. Campeão em 1992 e vice em 1995, o Atlético-MG entrou na competição de 1997 graças ao 3º lugar no Brasileirão de 1996 e eliminou logo de cara a Portuguesa, vice-campeã nacional, com uma vitória por 4 a 1 no primeiro jogo e empate sem gols no segundo.

Nas quartas de final, a equipe brasileira eliminou o América de Cali-COL e, na semifinal, passou fácil pelo Universitario-PER com um 6 a 0 no agregado. O rival dos brasileiros na final foi o então campeão Lanús, que seguia forte rumo ao bicampeonato após eliminar os bolivianos do Real Santa Cruz nas oitavas de final com um 6 a 1 no agregado, passar pelo Vitória-BRA após derrota por 1 a 0 no Brasil e vitória por 3 a 1 em casa e superar o compatriota Colón, nas semis, com vitória por 2 a 0 fora de casa e empate em 1 a 1 em casa.

Na final, o Lanús apostava na força de sua torcida no Estádio Ciudad de Lanús e na experiência do zagueiro Ruggeri, campeão do mundo com a Argentina em 1986, no lateral-direito Serrizuela e no atacante Ariel López. Já o Galo tinha um elenco competitivo e com nomes como o goleiro Taffarel, campeão do mundo com a seleção em 1994, o lateral Dedê, o meio-campista Doriva e a afiada dupla de ataque Marques e Valdir Bigode. Mais técnico, o time atleticano se impôs desde o início no caldeirão argentino e, mesmo após sofrer o primeiro gol, de Ibagaza, conseguiu o empate ainda no primeiro tempo, em chute de fora da área de Bruno Heleno, com “grata colaboração” do goleiro Rómoli.

briga lanus

No começo do segundo tempo, um cruzamento na área desviou em Serrizuela, que fez contra o gol da virada brasileira. Quatro minutos depois, Hernâni chutou de média distância, no cantinho, e fez o terceiro gol. Aos 80’, Valdir Bigode aproveitou cruzamento da direita e, meio de que barriga, fez o quarto. Muito superior, o time brasileiro poderia até fazer mais, só que os argentinos começaram a apelar para faltas mais duras, aproveitando a vista grossa do árbitro Gustavo Gallesio. O jogo seguiu até o fim, mas, ao apito do uruguaio, tudo desandou. Irritados, jogadores e torcedores do Lanús encurralaram os jogadores e a comissão técnica do Atlético em um alambrado. E os brasileiros começaram a ser espancados.

“Argentino não gosta de perder pra Brasileiro, e lá eles acharam que ia ser mole. A gente foi com a garotada, tínhamos muitos garotos e alguns experientes. Fomos jogar. Quando eles acordaram, já estavam apanhando de 4 a 1. E não admitiram isso. Quando acabou, eu vi um zagueiro deles, veterano, Ruggeri, partindo pra cima do Jorginho (então meia do Galo). O Jorginho, logicamente, saiu correndo, e eu parti contra ele (Ruggeri). E ele parou na minha frente e ficou quieto. Quando percebi, já estava uma briga muito grande. Torcedores, seguranças, jornalistas, funcionários. A gente não podia nem dar um soco na orelha de alguém, porque tínhamos que defender nossa molecada”. – Emerson Leão, técnico do Atlético na época, em entrevista ao globoesporte.com, 19 de abril de 2020.

A briga começou justamente pelo entrevero entre Ruggeri e Jorginho. O meia atleticano, após o final da partida, tentou pegar a bola para comemorar a goleada e teria sido agredido e perseguido pelo zagueiro veterano Ruggeri – durante a partida, Ruggeri já havia tentado acertar um pontapé em Jorginho. Ele correu em direção ao túnel que dava acesso aos vestiários, mas foi perseguido pelos jogadores argentinos, que encurralaram o meia e ainda o volante Doriva, o lateral Dedê e o técnico Leão.

A partir daí, o que se viu foram cenas de pura violência. Vários jogadores do Atlético, encurralados entre o túnel e a tela que divide as arquibancadas, foram surrados com socos e pontapés. Outros apanharam com paus, como foi o caso do zagueiro Sandro Blum.

LEIA TAMBÉM – Craque Imortal – Emerson Leão

Leão foi quem mais sofreu com a briga e teve que ser levado ao hospital e operar o rosto por conta das lesões sofridas durante a pancadaria – ele teve que colocar 14 parafusos de titânio no rosto. “Nesse calor de pegar um, levar pro vestiário, pegar outro, eu tomei uma pancada no rosto muito forte. Não sei se foi um soco inglês ou uma barra de ferro. Ainda bem que tenho uma base grande e não caí. Fomos para o hospital depois que acalmou. Mas eram uns 200 contra 25, 30. Mano a mano ninguém briga. Aquilo foi uma coisa fora do normal. Tanto que aquele que provocou tudo aquilo não veio até aqui (Ruggeri foi suspenso e não jogou a partida de volta). E aqui foi uma beleza pra eles, não aconteceu nada, a Polícia de BH fez o que devia fazer, cercou, não deixou ninguém mexer. Fomos campeões”, disse Leão.

“Foi uma covardia o que fizeram com o nosso time, que apenas jogou futebol. É lamentável. O brasileiro vem aqui e apanha pra caramba. Lá (no Brasil) eles sempre são bem tratados”, disse Doriva, à Folha de S. Paulo, na época. ”A gente ganha e para chegar em casa, para chegar à família, tem que apanhar. Os argentinos são covardes”, disse o goleiro Taffarel. 

leao fratura lanus
Leão, com o rosto muito inchado após deixar o hospital.
 

valdir bigode foi campeao da conmebol pelo atletico mg em 1997 sobre o lanus da argentina 1366207106619 615x470 615x400 1

Na partida de volta, em Belo Horizonte, um forte esquema de segurança foi montado e o jogo transcorreu sem problemas. O Atlético abriu o placar logo aos 10’, justamente com Jorginho, e Trimarchi, no segundo tempo, empatou. O resultado de 1 a 1 deu o bicampeonato ao Galo, que fez a festa diante de sua torcida no Mineirão. Uma curiosidade é que mesmo com o inconveniente da briga campal na Argentina, Emerson Leão voltou a brilhar em uma Copa Conmebol e faturou o troféu no ano seguinte, de novo contra um clube argentino, mas dessa vez dirigindo o Santos.

Atlético-MG x Lanús – Final da Recopa Sul-Americana de 2014

Jogo de ida – Ciudad de Lanús (ARG) – Lanús 0x1 Atlético-MG

Jogo da volta – Mineirão (BRA) – Atlético-MG 4×3 Lanús

2823197858 atletico mg bate lanus e conqusita recopa sul americana

Campeão da Copa Libertadores de 2013 com uma campanha histórica, o Atlético entrou em 2014 longe de sua melhor forma, principalmente após o fiasco no Mundial de Clubes da FIFA, quando foi eliminado ainda na semifinal diante do Raja Casablanca-MAR, e na Libertadores de 2014, quando caiu já nas oitavas de final. No segundo semestre, o clube passou a ser treinado por Levir Culpi, que percebeu que faltava mais garra e vontade a um time acostumado aos bons resultados recentes e visivelmente acomodado com sua situação (a tradicional “zona de conforto” que acomete muitos times campeões de grandes torneios). E a primeira chance de sacudir aquela equipe e entrar no segundo semestre com o fogo aceso seria a final da Recopa Sul-Americana, que seria disputada entre os dias 16 e 23 de julho, contra os argentinos do Lanús, campeões da Copa Sul-Americana de 2013 após derrotarem a Ponte Preta na final. 

Levir começou a moldar o time à sua maneira dando espaço para o zagueiro Jemerson, o lateral-esquerdo Emerson Conceição e o volante Leandro Donizete, além de manter Diego Tardelli e Jô como principais referências no ataque. Ronaldinho, perto de seu adeus ao Galo, comandava as ações no meio de campo como sempre e também era peça intocável. No primeiro jogo, na Argentina, o Galo mostrou personalidade e venceu por 1 a 0, gol de Tardelli, mesmo em um cenário hostil e com as lembranças da pancadaria de 1997 ainda vivas. Felizmente, nada de grave aconteceu e o time brasileiro foi com a vantagem do empate para a volta, no Mineirão lotado.

ronaldinho reu
Ronaldinho (à dir.) disputa a bola com o zagueirão Gustavo Gómez. Foto: Reuters.
 
bruno cantini atletico atletico lanus e1761873208660
Diego Tardelli, artilheiro do Galo, na final. Foto: Bruno Cantini / CAM
 

A torcida tinha certeza de mais um título inédito, mas dessa vez sem dramas como na Libertadores. No entanto, novos filmes dramáticos esperavam os torcedores alvinegros. Tardelli abriu o placar logo aos seis minutos de jogo, mas Ayala empatou em seguida. Ainda no primeiro tempo, Santiago Silva virou, e Maicosuel empatou para os brasileiros. No segundo tempo, o Lanús manteve a pressão e o Atlético não conseguiu reverter os espaços cedidos pelo clube argentino em gols. Com isso, a partida seguiu dramática até os acréscimos, quando Acosta aproveitou um rebote do goleiro Victor e fez o gol da vitória dos argentinos por 3 a 2, que levou o duelo para a prorrogação por conta do empate no agregado em 3 a 3.

Nela, Luan mostrou faro de decisão e cruzou a bola que desviou no zagueiro Gustavo Gómez e traiu o goleiro Marchesín: 3 a 3. O empate devolvia a taça ao Galo. Mas o time da casa não quis mais brincar com a sorte e, em nova contribuição da zaga, Ayala cabeceou contra seu próprio gol e decretou a vitória por 4 a 3 e o título da Recopa ao Atlético há exato um ano após a conquista da Libertadores. Com isso, o Galo seguiu invicto contra o rival argentino, com três vitórias, um empate e dois títulos em quatro jogos.

Atlético-MG 0x0 Lanús – Lanús 5×4 Atlético-MG nos pênaltis – Final da Copa Sul-Americana de 2025

Atlético-MG x Lanús

Mais de uma década depois do último encontro, brasileiros e argentinos voltaram a se enfrentar em uma decisão, dessa vez na Copa Sul-Americana, em jogo único, no Paraguai. O Galo queria manter a hegemonia sobre o rival e faturar seu terceiro título continental sobre o Lanús. Já o Granate buscava o bicampeonato da competição e acabar de vez com a freguesia para o alvinegro. Quando a bola rolou, a partida foi muito tensa e com poucas oportunidades – a melhor delas foi do Galo, em uma cobrança de falta que bateu na trave. Os times erraram muito, chutaram pouco e o calor acabou atrapalhando bastante o jogo, que transcorreu muito travado e sem emoções. Na prorrogação, o Galo errou na hora de finalizar e teve pelo menos duas chances para “matar” o jogo, a principal delas nos pés de Biel, que chutou em cima do goleiro.


O placar de 0 a 0 levou a decisão para os pênaltis e os primeiros cobradores de cada time erraram – Bou (Lanús) e Hulk (Galo). Na sequência, argentinos e brasileiros converteram suas cobranças até Biel errar. Com 2 a 2 no placar, Lautaro Acosta teve a chance do gol do título, mas chutou pra fora. Nas cobranças alternadas, enfim, o Lanús conseguiu a vitória e acabou de vez com a “zica” diante do adversário brasileiro para levantar sua segunda Copa Sul-Americana. Já o Galo amargou pelo segundo ano seguido um vice-campeonato em um torneio da Conmebol – em 2024, perdeu a Libertadores para o Botafogo.

Licença Creative Commons
O trabalho Imortais do Futebol – textos do blog de Imortais do Futebol foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em imortaisdofutebol.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença.

Artigos populares