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Jogos Eternos – Palmeiras 2×1 Deportivo Cali 1999

 

Data: 16 de junho de 1999

O que estava em jogo: o título da Copa Libertadores da América de 1999

Local: Estádio Palestra Itália, em São Paulo, Brasil.

Juiz: Ubaldo Aquino (PAR)

Público: 32.000 pessoas

Os Times:

Sociedade Esportiva Palmeiras: Marcos; Arce (Evair), Júnior Baiano, Roque Júnior e Júnior; César Sampaio, Rogério, Zinho e Alex (Euller); Paulo Nunes e Oséas. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Asociación Deportivo Cali: Dudamel; Pérez (Gavíria), Mosquera, Yepes e Bedoya; Zapata, Viveros, Betancourt e Candelo (Hurtado); Córdoba (Valencia) e Bonilla. Técnico: José Hernández.

Cartões Vermelhos: Mosquera-DCA, aos 34’ do 2º T, e Evair-PAL, aos 49’ do 2º T.

Placar: Palmeiras 2×1 Deportivo Cali. (Gols: Evair-PAL, aos 20’, Zapata-DCA, aos 25’, e Oséas-PAL, aos 31’ do 2º T).

Nos pênaltis, Palmeiras 4×3 Deportivo Cali. Júnior Baiano, Roque Júnior, Rogério e Euller fizeram para o Palmeiras. Zinho perdeu.

Dudamel, Gavíria e Yepes fizeram para o Deportivo Cali. Bedoya e Zapata perderam.

 

“A lendária e alviverde noite libertadora da América”

 

Por Guilherme Diniz

Os 32 mil ingressos colocados à venda para a decisão da 40ª Copa Libertadores da América foram vendidos em apenas oito horas, com filas que deram voltas no quarteirão do saudoso Palestra Itália. Era um mar de gente que queria ver seu time campeão da competição que ousava escapar de um clube tão acostumado a levantar títulos. Foi assim em 1961, quando Ademir da Guia e companhia nada limitada não foram capazes de derrotar o Peñarol-URU de Spencer e Joya. Foi assim em 1968, quando o alviverde não conseguiu superar as artimanhas do Estudiantes-ARG de Bilardo e Verón. Porém, naquele ano de 1999, todos acreditavam que a história seria diferente. Nunca o Palmeiras tivera um elenco tão “libertador”. Tão malandro. Tão técnico. Tão aguerrido. Tão competitivo. Letal nas jogadas aéreas e também nas tabelinhas por baixo. Forte na defesa, protegido pela revelação de um goleiro santo. Imparável pelas laterais. Criativo ao extremo no meio de campo. E cheio de possibilidades no ataque.

Sim, aquele Palmeiras estava pronto e em prosa para ser campeão da América. Mas, seguindo a cartilha da primeira vez, aquela taça seria levantada com muita angústia. No primeiro tempo, nada de gols. E eles precisavam de dois. Na segunda etapa, um talismã do fim do jejum lá de 1993 saiu do banco para abrir o placar. Só que um pênalti desnecessário colocou quase tudo a perder. São Marcos não defendeu. Ficou tudo igual. Mas o alviverde foi atrás de mais um gol poucos minutos depois. Só faltava um! Mas a bola não entrou mais. Como não tinha prorrogação, vieram os temidos pênaltis. Palestrinos, segurai vossos corações. Poupai vossas unhas da onicofagia, mais conhecida como roeção. Olhai atentamente para o gol. Mandai todas as vibrações positivas aos vossos jogadores e vosso goleiro. Logo no primeiro chute, o experiente Zinho carimbou o travessão. Mau agouro? Nada, era tempero para mais emoção.

O rival também mandou uma bola na trave. E os jogadores foram convertendo seus chutes até a derradeira cobrança do capitão colombiano. O estádio inteiro gritava “Fora! Fora!”. E a bola, como um ser inanimado e com vida, fez exatamente o que lhe pediram para não ser castigada ou até furada no pós-jogo: foi correndo para longe do gol. Ufa! Enfim, o Palmeiras era campeão da América em uma das mais emocionantes finais da história da competição, daquelas inesquecíveis, que todo torcedor guarda com carinho. Foi uma noite mágica no Palestra Itália. É hora de relembrar.

 

Pré-jogo

Júnior disputa a bola com Zé Maria, do Vasco: Verdão despachou os cariocas nas oitavas de final.

 

Após a efetivação da parceria com a Parmalat, em 1992, o Palmeiras iniciou um dos períodos mais vertiginosos e vitoriosos de sua história, que teve como grande marca o fim do jejum de títulos – que perdurava por mais de uma década – no ano de 1993, com as taças do Campeonato Paulista e também do Campeonato Brasileiro. Com o capital injetado pela empresa multinacional italiana, craques do mais alto calibre foram contratados e o torcedor se acostumou a ver verdadeiros desfiles em campo. Entre 1993 e 1994, o Verdão levantou taças históricas, passou por um ano de entressafra em 1995 e voltou às glórias em 1996, com a conquista do Campeonato Paulista sob o comando do lendário ataque dos 100 gols. Em 1998, mais uma taça – a Copa do Brasil – e vaga garantida na competição que ainda não era tratada com a devida atenção pelo clube na época: a Copa Libertadores.

O Verdão queria seguir o embalo dos clubes brasileiros na competição sul-americana após uma série de conquistas iniciada pelo São Paulo, em 1992 e 1993, e emancipada pelo Grêmio, em 1995; Cruzeiro, em 1997; e Vasco, em 1998. Nunca o Brasil havia acumulado tantos times campeões da América em uma só década. E, enfim, as equipes nacionais davam a importância a um torneio antes restrito, sobretudo, aos clubes argentinos e uruguaios. E, para mudar aquele estigma de decepções em solo continental, o Palmeiras foi buscar no futebol japonês um treinador que entendia muito bem de Libertadores: Luiz Felipe Scolari, campeão com o Grêmio em 1995.

Ele chegou em 1997 e, após o vice-campeonato brasileiro daquele ano, conquistou a Copa do Brasil de 1998 e a vaga na Libertadores de 1999. Com os velhos conhecidos Arce e Paulo Nunes (dos tempos de Grêmio) e um elenco muito forte, Felipão moldou o Palmeiras à sua maneira e conseguiu a classificação para o mata-mata sem grandes sustos em um grupo ao lado do rival Corinthians-BRA, Cerro Porteño-PAR e Olimpia-PAR.

Marcelinho e César Sampaio: Libertadores foi palco de quatro clássicos em 1999. Foto: AE.

 

Nas oitavas, o alviverde despachou o Vasco – empate em 1 a 1 e vitória por 4 a 2 – e reencontrou o Corinthians nas quartas de final. Após dois placares de 2 a 0, um para cada lado, a decisão foi para os pênaltis. E deu Verdão: 4 a 2, com os primeiros milagres do goleiro Marcos na meta alviverde e uma vaga comemoradíssima por se tratar, claro, de ser justamente em cima do maior rival. Nas semis, outra pedreira: o River Plate-ARG, que venceu o duelo de ida no Monumental por 1 a 0 e ainda obrigou Marcos a realizar mais alguns milagres. Na volta, o Palmeiras se impôs e goleou: 3 a 0, num claro exemplo de tudo o que aquele time reunia: técnica, malandragem, qualidade, grupo e sangue frio. Felipão armou um time perfeito para a Libertadores.

Classificado para a final, o alviverde teria pela frente o Deportivo Cali-COL, que vinha de triunfos sobre Colo-Colo-CHI, Bella Vista-URU e Cerro Porteño-PAR. Os colombianos tinham um bom time, com o arrojado goleiro Dudamel, o zagueiro Yepes, o volante Zapata, o veloz Bedoya e o artilheiro Bonilla. Eles queriam levantar a taça que escapou lá em 1978, quando foram os primeiros colombianos finalistas de uma Libertadores na história, mas perderam para o Boca Juniors-ARG. No duelo de ida, em Cali, o Palmeiras perdeu por 1 a 0 – gol de Bonilla – e precisava de uma vitória por dois gols no tempo normal se quisesse o título. Triunfo por um gol levava o jogo para os pênaltis. Qualquer empate dava Deportivo.

Festa alviverde nas quartas: Verdão classificado!

 

Mesmo com o revés, o torcedor tinha plena esperança em seu time. Prova disso foram as filas de até 11h para comprar os ingressos da finalíssima no Palestra Itália. Alguns torcedores começaram a esperar na noite de segunda feira, dia 14 de junho, e enfrentaram frio e chuva para garantir uma das 32 mil entradas colocadas à venda. Nem a derrota para o rival Corinthians no primeiro jogo da final do Campeonato Paulista daquele ano abalou o torcedor, que àquela altura dava de ombros para o “Paulistinha” (by Paulo Nunes).

Torcedores buscam ingressos antes da final. Foto: Arquivo / Folhapress.

 

Bonilla (à dir.) foi o carrasco do Palmeiras no primeiro jogo. Foto: Folhapress.

 

No dia do jogo, o Palestra Itália pulsava como poucas vezes em sua história. Bandeiras brancas com o escudo do Palmeiras no centro tremulavam embaladas pelos gritos e cantos de apaixonados que fariam tudo para empurrar seu time rumo a um título inédito. Era uma força impressionante que emanava daquelas arquibancadas e que atingia o emocional dos jogadores. Do lado de fora, centenas de milhares tentavam, em vão, um lugar naquele caldeirão e acabaram gerando uma série de confrontos com a polícia – 18 pessoas ficaram feridas e um policial acabou baleado. Eram mais de 10 mil torcedores sem ingresso que queriam uma brecha naquelas arquibancadas tomadas ou mesmo um mísero ingresso de algum insano que tivesse desistido de ver o jogo. Como não aconteceu nem um nem outro, os nervos ficaram à flor da pele. Felizmente, em campo, todos iriam ver apenas futebol.

 

Primeiro tempo – Ô bola que não entra!

A principal tática de Felipão para aquele duelo era explorar as bolas aéreas. O goleiro Dudamel era bom nas jogadas rasteiras, mas fraco pelo alto. Por isso, o técnico fez com que seu time usasse e abusasse do chuveirinho. E deu certo. A cada bola na área colombiana, Dudamel saía de maneira estranha ou atrasada. Com menos de um minuto, Arce já mandou na cabeça de Oséas, mas a cabeçada saiu fraca. A torcida começou a gritar “olê, porco!” e tremular as bandeiras. Do lado de fora, continuava a tensão das milhares de pessoas sem ingresso que queriam entrar, criando-se a impressão de que haviam dois Palestras, um dentro, outro fora, de tanta gente nos arredores da Barra Funda naquela noite. Mais tarde, toda aquela tensão fez uma vítima: um taxista sofreu um infarto perto do estádio, foi levado ao hospital e faleceu. Aos 2’, Júnior recebeu, a zaga pensou que era impedimento, ele encheu o pé e Dudamel defendeu, gerando escanteio na sequência. Aos 4’, roubada de bola do Deportivo pela direita, cruzamento, a bola passou por Bonilla, ele recuperou, tentou passar no meio de dois, mas foi desarmado por Arce, absoluto pela direita.

Jogo foi muito faltoso desde o início.

 

Quando tinha a bola, o Deportivo era azucrinado por apitos das arquibancadas e não conseguia se comunicar em campo. Mas, aos 10’, duas sequências de ataques do time colombiano preocuparam a torcida. Primeiro, com toques na entrada da área, mas o último chute, de Betancourt, falho. Depois, numa rápida investida do campo de defesa com a bola passando de pé em pé, até ser tomada antes de chegar à intermediária por Roque Júnior. Aos 11’, a primeira grande chance: Paulo Nunes recebeu na direita, cruzou e Alex, sozinho, cabeceou à esquerda do gol de Dudamel, que outra vez saiu de maneira bisonha do gol. Aos 13’, Oséas balançou a rede pela primeira vez, mas estava impedido após cair na linha de impedimento dos colombianos, arriscada, mas até aquele momento eficiente.

Aos 14’, após triangulação entre Alex, Oséas e Paulo Nunes, o diabo loiro não conseguiu alcançar, mas o esforço na linha lateral valeu o reconhecimento da torcida e os gritos de “ah, é Paulo Nunes!”. Era impressionante como a galera jogava junto, a cada instante, a cada lance. Pertinho do gramado, os alviverdes sentiam o jogo como jamais a torcida sente ou sentirá algum dia no Allianz Parque, por exemplo. Era outra coisa. Outro futebol.

Paulo Nunes jogou bem mais aberto pela direita. Foto: Acervo Gazeta Press.

 

Aos 17’, falta perigosa para o Deportivo na entrada da área. O Palmeiras errava muitos passes no meio e gerava contra-ataques. E, com isso, só parando com falta. Na cobrança, a bola explodiu na barreira e não gerou perigo. No recomeço, o time ficou mais calmo, colocou a bola no chão e, de pé em pé, a qualidade transbordava. Alex e seus dribles. Zinho e sua visão de jogo. Rogério e sua fibra. Júnior e sua velocidade. Era só ter calma que o gol iria sair. Aos 22’, Felipão foi à beira do gramado pedir para seu time ir para cima, pressionar mais e parar de dar de graça contra-ataques ao adversário. Aos 23’, a pressão chegou e, após intenso bombardeio na área colombiana, a bola sobrou para Júnior, na esquerda, que chutou cruzado, a bola ainda passou na frente do gol vazio, de Júnior Baiano e foi para fora. Por poucos centímetros o zagueirão não fez o primeiro gol!

Aos 26’, outra jogada pela direita iniciada após desarme de Arce, que tocou com Paulo Nunes e este cruzou na área para Alex, que cabeceou, mas a bola foi para fora. Era nítida a intenção alviverde de tentar o gol na jogada aérea. Mas a bola teimava em não entrar. Alex jogava praticamente como atacante, com Paulo Nunes como ponta direita. Aos 28’, eis que o Deportivo quase silenciou o Palestra. Quase porque, após ótima tabelinha, Bonilla venceu a disputa com César Sampaio, invadiu a área, chutou e Marcos fez uma defesa excepcional. Que chance dos colombianos! E que fase do camisa 12 alviverde! Aos 29’, a resposta palmeirense veio com o time no ataque e Arce, simplesmente absoluto, ganhando e recuperando todas as bolas, até aquela mais perdida possível.

Os times em campo: Verdão foi para o ataque desde o início, mas o Deportivo assustou bastante. No final, prevaleceu a insistência e maior técnica do time brasileiro.

 

Felipão queria cruzamentos na primeira trave, para surpreender o goleiro, que ficava do meio para cima. Aos 32’, o Deportivo já tinha feito 17 faltas contra apenas cinco do Palmeiras. Aos 33’, Rogério invadiu a área, cruzou rasteiro e a bola teimou em passar por Oséas, que não chegou a encostar. Na sobra, Júnior tentou cruzar, mas Pérez dificultava bastante as ações por ser muito bom marcador – ele fora volante antes de assumir a lateral-direita do Deportivo. Aos 37’, falta na meia lua para o Palmeiras. Já eram 21 faltas colombianas contra cinco do Verdão! Batia sem dó o time do Deportivo! Rogério chutou, mas a bola bateu na barreira. Aos 41’, Arce cobrou falta, Roque Júnior subiu, cabeceou e a bola beijou a trave! Já eram 15 bolas levantadas do Palmeiras e apenas quatro do Deportivo. Nos minutos finais, o Palmeiras foi com tudo, fez triangulação, cruzou para a área pela enésima vez, Oséas preferiu testar ao invés de tocar, seguiu na entrada da área, ganhou escanteio aos 47’, mas nada de gol.

Na volta para o segundo tempo, Zinho disse: “vamos jogar a nossa vida”. O atacante Paulo Nunes, em entrevista ao Baú do Esporte, do SporTV, em março de 2018, disse que os mais experientes ajudaram bastante naquele retorno. “O Clebão (zagueiro, reserva na época) e o César Sampaio tinham a força de tranquilizar o elenco, passar energia. Quando fomos para o intervalo, eles diziam ‘calma, gente, temos que colocar a bola no chão. É só fazer o primeiro que a gente é campeão’. E a energia da torcida era incrível. Ela acreditava. Nós sentíamos a vibração. Com toda aquela motivação, nós fomos mais ligados”.

 

Segundo tempo – Euforia, tensão, alívio e trapalhadas arbitrais

Mesmo com as palavras de seus líderes, o Palmeiras começou a segunda etapa ainda tenso e bloqueado pela marcação do rival, que fazia, apesar do excesso de faltas, um grande jogo. Nos primeiros minutos, nada de lance de perigo, mas investidas pontuais do Deportivo. Aos 8’, Bonilla cobrou falta rasteira, a barreira abriu e levou perigo. Um minuto depois, outra chegada de Bonilla, que ganhou de Júnior Baiano no corte, partiu em direção ao gol e sofreu a falta na entrada da área. Na cobrança, a bola foi parar nas piscinas do Palestra Itália…

Só aos 11’ que aconteceu a primeira investida real do Palmeiras: jogada pela esquerda com César Sampaio, após desarmar um adversário. Como um lateral, o volante olhou para a área e cruzou no meio para Alex. Livre, o camisa 10 girou e tocou na direita para Paulo Nunes. O camisa 7 bateu de primeira e Dudamel espalmou para escanteio! Uuuuuuhhhhhh! Logo em seguida, Felipão tirou Arce para a entrada de Evair, em uma mudança contestável, pois o treinador poderia tirar Rogério e armar o time no 4-3-3, mas preferiu sacar o paraguaio e deixar o camisa 16 na direita.

Mais veloz, o Palmeiras foi pra cima. E, aos 14’, Júnior tabelou com Evair, que deu de calcanhar para o camisa 6 cruzar e Dudamel defender. Aos 17’, Rogério cobrou falta na entrada da área, Paulo Nunes escorou de cabeça em direção a Oséas, mas antes de a bola chegar nele, o zagueiro Yepes colocou o braço na bola para afastar. Paulo Nunes foi rapidamente em direção ao árbitro gesticulando pênalti, assim como Júnior Baiano e quem mais de verde estivesse por ali. Sem nem saber quem foi, o paraguaio apitou. Pênalti! Na bola, Evair. Ele bateu rasteiro, a bola ainda quicou no morrinho artilheiro e foi parar no cantinho do gol de Dudamel: gol! Explosão no Palestra!

Evair, maior artilheiro do Palmeiras na década de 90, prepara a bola: primeiro gol saiu dos pés dele. Foto: Rogério Pallatta.

 

O Palmeiras queria mais. Precisava de mais. Aquele placar levava o jogo para os pênaltis. A partida ficou elétrica. Só que o Verdão não podia sair tanto para não levar o contra-ataque. Do outro lado, o Deportivo seguiu pressionando em busca do empate até que, aos 23’, em enfiada de bola para Bedoya dentro da área, Júnior Baiano apareceu como um trator e atropelou o lateral colombiano. Não precisava, né?! E o juizão deu pênalti. Zapata bateu, Marcos foi para o canto oposto e a bola foi parar no fundo do gol: 1 a 1. O Verdão precisava de dois gols em 20 minutos se quisesse levantar a taça no tempo normal. O estádio esfriou um pouco. Mas esquentou de novo aos 25’, após escanteio cobrado por Rogério, quando a zaga tirou e no rebote Alex mandou de cabeça para a defesa de Dudamel. Outro escanteio. Em nova chance, a bola sobrou para Evair, que emendou uma bicicleta, mas a bola foi para fora.

A torcida voltou a gritar. E, aos 30’, pouco depois de Euller entrar no lugar de Alex, o “filho do vento” sofreu falta. Júnior cobrou rápido, tocou com o capitão César Sampaio no meio, recebeu de volta, passou por sua sombra (de codinome Pérez), tocou para Euller, que deixou no meio para Evair e este, como um meia, devolveu na esquerda para Júnior, que confundiu a marcação e ficou sozinho. O camisa 6 recebeu, cruzou pela 87867876ª vez e, pela primeira vez, aquela bendita bola foi tocada por alguém e parou no fundo do gol: Oséas, num só toque, rasteiro, conseguiu a proeza de, enfim, marcar: 2 a 1. Gol de matador! Gol de final! Gol da emoção! Gol com participação direta dos dois suplentes que entraram naquele segundo tempo. Mas ainda tinha muito jogo!

Aos 32’, Euller se mandou em velocidade pela esquerda, cruzou para Paulo Nunes, ele chutou, a bola bateu na zaga, voltou para Euller e o atacante bateu na rede pelo lado de fora. O Palmeiras criava muito, mas errava demais também. O Deportivo demonstrava cansaço e não queria mais saber de jogo. Fazia cera, demorava na reposição e aproveitava a vista grossa do árbitro. Do outro lado, sobrava fibra e fôlego ao Verdão. Aos 34’, Mosquera deu um golpe de karatê em Oséas por trás e levou cartão vermelho. O jogo ficou ainda mais tenso. O Palmeiras corria e corria, continuava a mandar bolas na área, mas Dudamel e a zaga conseguiam tirar. Após os 40’, praticamente só o Palmeiras que atacava. Aos 45’, eram 22 faltas do Palmeiras e 35 do Deportivo. Aos 46’, Zinho chutou da direita, mas a bola foi para fora. O juiz deu mais cinco minutos de acréscimos. Pouco perto da quantidade de tempo em que o jogo ficou parado naquela segunda etapa, com momentos de duas bolas em campo, jogadores do Deportivo fazendo corpo mole e também a demora de Mosquera em sair de campo.

Expulsão de Evair deixou o torcedor preocupado.

 

Aos 49’, em um lance confuso, Evair foi expulso após reclamar de maneira energética com o árbitro por causa de uma marcação equivocada de falta. Era, de fato, uma das arbitragens mais patéticas da história da Libertadores – embora isso seja chover no molhado se pensarmos nas tantas arbitragens ridículas ao longo da competição, principalmente naquela época e nas décadas de 60, 70 e 80. Prejuízo ao Palmeiras, que perdeu um ótimo batedor de pênaltis para a disputa que se consolidou quando o juiz apitou pouco depois dos 50 minutos. Se faltava mais um ingrediente para aquela decisão ser uma genuína decisão de Libertadores, não faltava mais.

 

Pênaltis – As arquibancadas mandam. A bola obedece. E a história acontece.

Decidir uma Libertadores nos pênaltis: haja coração!

 

Com os jogadores extenuados, a torcida começou a cantar o hino do Verdão a fim de enviar energia para seus heróis. Disputa de pênaltis sempre é o momento mais tenso possível no futebol. Em uma final, mais ainda. E em Libertadores, isso ganha ares dramáticos. Após a definição dos batedores, o gol que ficou definido para os chutes era exatamente o que recebeu os dois tentos do Palmeiras. E o que tinha a maior quantidade de torcedores, do lado oposto ao das piscinas. Todos começaram a rezar. Torcer. Nunca a chance de um título como aquele fora tão palpável. Ainda mais dentro de casa. Zinho era o primeiro batedor. Experiente. Campeão mundial com a seleção em 1994. Um jogador tarimbado, que sabia como poucos a jogar uma partida daquelas. Ele correu, chutou forte, mas a bola explodiu no travessão. Putz… Que maneira de começar… Será que tudo estava mudando? Evair expulso, Zinho errando…

Dudamel, goleiro do Deportivo, foi para a cobrança do primeiro dos colombianos. Ele bateu de um lado, Marcos foi pro outro, e gol. O Palestra ficou silencioso. Júnior Baiano foi para o segundo do Palmeiras. Vixe… Zagueirão batendo pênalti não é bom, pensou o mais cismado palmeirense. Ele chutou no meio e fez: 1 a 1. A torcida vibrou e se animou de novo! Gavíria foi o próximo do lado colombiano. Ele também bateu no meio, Marcos já tinha caído, tentou voltar, mas a bola entrou: 2 a 1. Roque Júnior foi para a terceira cobrança. Chutou no canto esquerdo, Dudamel acertou, mas a bola foi como um foguete: 2 a 2. Yepes partiu para o seguinte do Deportivo. Ele bateu no mesmo canto esquerdo, Marcos também acertou, e a bola também entrou: 3 a 2.

O Palmeiras não podia mais errar. E precisava de um erro do adversário. Rogério cobrou o quarto e chutou no ângulo do goleiro, indefensável, firme: 3 a 3. Bedoya era o seguinte. A torcida gritava “Fora! Fora! Fora!”. Bedoya chutou no pé da trave, ela passou por trás de Marcos e se mandou dali, assustada. Palmeiras vivo! Tudo igual! Euller era o último batedor do Palmeiras. Ele chutou rasteiro, mas tão rasteiro, que a bola foi se pintando de verde até parar no cantinho do gol, com Dudamel como mero espectador daquilo tudo lá no outro canto: gol! 4 a 3.

Na última cobrança do Deportivo, de Zapata, autor do gol no tempo normal, o Palestra Itália inteiro gritava “Fora! Fora! Fora!”. Era um barulho ensurdecedor. Intimidador. Aterrorizante. Zapata fingiu que não sentiu. Ahhh, mas sentiu. E um ser sentiu ainda mais: a bola. Zapata correu, bateu, e a redonda se escafadeu dali. Ela não era nem louca de entrar! Tratou de seguir as instruções daquela gente. Foi para fora. Talvez pela primeira vez na história uma torcida conseguiu interferir na trajetória de uma bola em uma partida de futebol. Como era possível? Vá saber…

Após ver a bola fora…

 

… O goleiro Marcos saiu pro abraço: campeão!

 

Ao ver a redonda lá longe, tremendo à beira da placa de publicidade, o goleiro Marcos saiu correndo para a galera: o Palmeiras era campeão da Copa Libertadores! Enfim, o troféu que tanto se esquivou da galeria alviverde ao longo de mais de 30 anos estava laçado. A festa tomou conta do gramado, dos jogadores e da comissão técnica. O capitão César Sampaio, que passou a semana inteira antes do jogo fazendo tratamento muscular e jogou no sacrifício, era um dos mais emocionados. E, enquanto ele não levantou a taça, ninguém ousou em arredar o pé das arquibancadas. Ficaram todos os 32 mil torcedores ali, esperando o momento da consagração, da história sendo escrita e da consolidação de uma era de ouro do clube. Não precisava de mais nada. Naquela noite, não havia ser no mundo mais feliz que o torcedor do Palmeiras, que jamais se esquece daquele jogo. E da noite alviverde libertadora da América.

 

 

Pós-jogo: o que aconteceu depois?

 

Palmeiras: sem tempo para descansar, o time de Felipão foi disputar a final do Campeonato Paulista dias depois contra o maior rival. Os jogadores pintaram os cabelos de verde e trataram como questão de honra não perder e não deixar o alvinegro carimbar a faixa dos campeões. Dito e feito: terminou 2 a 2. Quer dizer, não terminou, pois Edílson fez embaixadinhas e uma briga generalizada tomou conta do Morumbi em um dos momentos mais conturbados da história do Derby. No fim das contas, o título ficou com o Corinthians, mas o palmeirense nem ligou. Meses depois, o mundo não foi conquistado por detalhes, pois o Palmeiras jogou melhor do que o Manchester United-ING, mas perdeu muitos gols e foi derrotado por 1 a 0.

No ano seguinte, outra vez o Verdão tratou a Libertadores como objetivo principal e reencontrou o Corinthians no mata-mata. Dessa vez na semifinal. E de novo deu Palmeiras, com ares épicos em uma história que você pode ler mais clicando aqui. Naquele ano, o Verdão preferiu jogar a finalíssima contra o Boca no gélido Morumbi. Um grande erro. Sem o calor de sua torcida e sem o poder das arquibancadas do Palestra Itália, ela não teve como controlar a bola em uma nova decisão por pênaltis. E o título ficou com os argentinos…

Festa alviverde de 1999 segue na memória dos torcedores. Foto: Acervo / Folha Press.

 

Deportivo Cali: aquele foi o último grande momento do clube colombiano no cenário continental. Com a natural debandada de jogadores, o time só voltou a ir longe em 2004, quando caiu nas quartas de final da Libertadores daquele ano diante do River. Em casa, a equipe até conquistou títulos, mas não conseguiu mais repetir os feitos de 1999.

 

Leia mais sobre o Palmeiras de 1998-2000 clicando aqui!

 

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Comentários encerrados

7 Comentários

  1. Que matéria sensacional!!!!!

    Como palmeirense, já li inúmeras falando sobre este jogo, mas está daqui está de arrepiar, a melhor de todas sem sobra de dúvida.

    Meus Parabéns!

    • Parabéns pela qualidade das matérias, fruto de pesquisas aprofundadas.
      Tenho observado que, em muitas ocasiões, o site aproveita a data de aniversário de grandes conquistas ou do nascimento de grandes jogadores para divulgá-las.
      Desse modo, vale lembrar que neste ano completam-se 40 anos da conquista do único Campeonato Brasileiro, obtido de forma invicta, pelo Internacional, após a vitória por 2×1 sobre o Vasco da Gama em 23/12/1979.
      Como acredito que muitos dos leitores deste ótimo site buscam conhecimento sobre a história do futebol mundial, independentemente da preferência clubística ou da nacionalidade, sugiro uma matéria sobre o “Rolo Compressor”, equipe do Internacional dos anos 1940 que varreu o Rio Grande do Sul e que tinha nas suas fileiras jogadores do porte de Oswaldo Ávila, Nena, Tesourinha e Carlitos, maior artilheiro da história do clube.
      Parabéns aos palmeirenses pelo aniversário da conquista e ao site pelo nível de excelência.

  2. Belo texto Guilherme! Na minha opinião, o Palmeiras campeão da Libertadores de 1999 foi a última grande equipe que o alviverde tivera. Palmeiras com um time muito competitivo, de muita garra e de muitos craques: Veloso-Marcos, Roque Júnior, J.Baiano Arce, Rogério, Júnior, C.Sampaio, Alex, Zinho, Paulo Nunes, Oséias + Cléber, Euller, Evair e cia. Além de ter o Felipão, um técnico que soubera como poucos usar das artimanhas de como ganhar a Libertadores, sofrível nos pênaltis como manda o seu estilo, mas que de nenhuma forma diminui a grandeza daquele elenco que durante aquela edição de Libertadores eliminara os seguintes rivais: nas oitavas o forte Vasco- atual campeão, o arquirrival Corinthians nas quartas nos pênaltis com São Marcos iluminado e Dinei e Vampeta perdendo as suas cobranças: “Toda nudez será castigada”. Posteriormente, o River Plate campeão da Libertadores em 1996 pelas semifinais, sufoco no 1º jogo e passeio no 2º . E por fim, a consagração do título da Libertadores de 1999 viera frente ao Deportivo Cali de modo épico após a vitória na marca da cal. O título foi merecido pelo fato de o Palmeiras na época ter uma grande equipe, ter se tornado campeão numa época em que o nível entre as equipes era bem mais elevado do que é hoje, onde o número de participantes na Libertadores era mais limitado. Até 2000 o futebol era de muita emoção, daí em diante muita coisa mudou, bons tempos que não volta, a saudade sempre será eterna.
    Dicas
    Esquadrão Imortal: América de Cali- 1985-1987 : Três finais de Libertadores e três vices consecutivos. O América de Cali de Gabriel Ochoa Uribe- Um grande time e uma triste história.
    Craque imortal: Verón, Edmundo e Mauro Galvão,
    Jogos imortais: River Plate 4 x 2 Botafogo- Sulamericana 2007- “Há coisas que só acontecem ao Botafogo” A queda do Carrossel Alvinegro.
    Jogos Imortais: Corinthians 2 x2 Portuguesa-SP- Jogo Polêmico pelas Semifinais do Paulistão 1998- O último grande momento da Lusa, o choro do zagueiro César e a polêmica arbitragem de Javier Castrilli.

  3. Agradeço desde já pelo texto excelente, o site se supera sempre, Parabéns. Por sinal, deixo anotada aqui, apenas como sugestão curiosa, a biografia de Gilvanildo Oliveira, o treinador que mais ganhou estaduais e acessos à série A.

    A poprósito (como diria o Chaves…): 87867876ª vez… kkk…

Técnico Imortal – Muricy Ramalho

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