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Esquadrão Imortal – Grêmio 1977

Grêmio 1977
Em pé: Eurico, Victor Hugo, Corbo, Cassiá, Oberdan e Ladinho. Agachados: Tarciso, Tadeu Ricci, André Catimba, Yura e Éder Aleixo.
 

Grandes feitos: Campeão do Campeonato Gaúcho de 1977. Encerrou um jejum de 8 anos sem conquistar o título estadual e interrompeu a sequência de oito títulos seguidos do rival Inter.

Time-base: Corbo (Remi); Eurico, Oberdan (Cassiá), Ancheta e Ladinho; Victor Hugo, Tadeu Ricci e Yura (Vílson); Tarciso; André Catimba (Alcindo) e Éder Aleixo. Técnico: Telê Santana.

 

“A Ressurreição do Imortal”

Por Guilherme Diniz

Não havia sofrimento maior. Naquele ano de 1977, chegar em Porto Alegre ou qualquer cidade do Rio Grande do Sul e topar com um gremista, era ver alguém triste, sem esperança, em profunda agonia. Há oito anos que o clube tricolor não vencia absolutamente nada. Pior do que isso era ver o maior rival, Internacional, simplesmente dominar o futebol do estado e ainda do Brasil. Eram oito títulos gaúchos seguidos, algo inédito e jamais igualado na história do torneio. E dois títulos brasileiros, em 1975 e 1976, com vitórias soberbas sobre grandes equipes do país da época. Até jogadores do Grêmio diziam que “não aguentavam mais perder do Inter”. Era muita angustia, algo inexplicável. Tudo bem que os colorados eram excelentes, mas deixá-los vencer oito títulos seguidos? Caramba…

Foi então que, em 1976, a diretoria tricolor trouxe o técnico Telê Santana para começar a mudar aquele cenário de terra arrasada. O mineiro fez com que os atletas acreditassem mais em si e perdessem o medo de enfrentar o Colorado. Deu padrão de jogo, contratou jogadores e reforçou o elenco. E, em 1977, o Grêmio fez uma campanha irrepreensível no Gauchão até chegar à final contra… O Internacional. Se vencesse em casa, era campeão. Se empatasse ou perdesse, haveria um segundo jogo, no Beira-Rio. Ou seja, não havia outra opção. Era vencer ou vencer. Foi dramático. Teve pênalti perdido. Mas, ainda no primeiro tempo, André Catimba recebeu de Yura e marcou provavelmente um dos gols mais importantes da história tricolor. 

Na comemoração, tentou a cambalhota, mas sentiu uma lesão e teve que abortar a pirueta. Caiu com tudo no chão. Mas nem se importou. O placar de 1 a 0 foi mantido com garra, orgulho e honra. O Grêmio foi campeão gaúcho depois de oito anos. Não foi apenas um título estadual. Foi o título “transformador”, que mudou a história do clube para sempre. Dali em diante, o imortal conquistou o Brasil (1981), a América e o mundo (1983). É hora de relembrar o Grêmio 1977.

Chega de perder!

internacional 1976
Os carrascos do Grêmio naquela década de 1970. Em pé: Manga, Cláudio, Figueroa, Vacaria, Marinho Peres e Falcão. Agachados: Valdomiro, Jair, Dario, Caçapava e Lula.
 

A virada de chave na história gremista começou no final do 1976, quando Hélio Dourado, um dos mais importantes presidentes do clube (para muitos, o maior), iniciou seu mandato e, entre as metas, estava reconstruir a saúde financeira do Grêmio, concluir o anel superior do Estádio Olímpico e trazer novos jogadores que pudessem pôr fim à hegemonia angustiante do rival Inter no futebol gaúcho. Para ajudar naquele trabalho, Dourado trouxe à Porto Alegre o técnico Telê Santana, que substituiu Paulo Lumumba e vinha de títulos pelo Fluminense (Campeonato Carioca de 1969) e Atlético-MG (Campeonato Brasileiro de 1971 e Campeonato Mineiro de 1970).

Telê ganhou carta branca da diretoria e passou a dispensar atletas que não teriam mais serventia ao clube para começar a busca por novos nomes a fim de tornar o elenco mais competitivo. Cejas, Beto Fuscão e Bolívar foram alguns dos dispensados, enquanto vieram o goleiro uruguaio Corbo, o zagueirão Oberdan, o lateral Ladinho, o meio-campista Tadeu Ricci – muito elogiado por Telê a fim de dar força ao setor central do tricolor -, o atacante baiano André Catimba e o ótimo ponta-esquerda Éder Aleixo, revelado pelo América-MG e especialista em chutes poderosíssimos de média e longa distâncias. Além deles, Telê transformou o jeito de jogar do atacante cria da casa Tarciso, que gostava de atuar mais centralizado e passou a jogar na ponta-direita, posição na qual ele se transformou a partir daquele ano no “Flecha Negra”, graças à velocidade e habilidade.

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Telê saúda a torcida tricolor: treinador mudaria a história do clube em 1977. Foto: Armênio Abascal Meireles / Agencia RBS
 

Telê ganhou a confiança do elenco no dia a dia e trabalhou bastante o setor do meio de campo, principal virtude do rival Inter. Ter um sistema central eficiente, segundo Telê, seria crucial para derrotar o maior rival. E Tadeu Ricci foi a grande aposta do treinador. Com muita preparação física, tranquilidade e eficiência nas bolas paradas, o jogador assumiu a responsabilidade e seria um dos principais nomes do tricolor em 1977. Ajudava na marcação, era fundamental na organização das jogadas e aparecia na área para concluir. Enfim, era o cérebro por trás do funcionamento do time.

Yura, o jogador-torcedor, também ganharia a confiança do torcedor após ser lapidado por Telê. Na zaga, quem iria brilhar seria Oberdan, ex-Santos, que disse categoricamente em sua apresentação que “o Escurinho não cabeceia mais na área do Grêmio”, em alusão ao grande atacante colorado da época e tido como um dos mais letais cabeceadores do futebol brasileiro, ao lado de Dadá Maravilha e Neca. Escurinho costumava entrar no final das partidas e, após cruzamentos precisos de Valdomiro, sempre marcava gols de cabeça no Grêmio. Pois Oberdan cumpriu a promessa naquela temporada e o atacante colorado não aprontou na área tricolor…

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Oberdan, xerife da zaga gremista.
 

Oberdan ainda ajudou Telê na contratação de André Catimba, estrela do Vitória naqueles anos 1970. Em um bate-papo, comentou: “Esse aí joga muito, é um grande centroavante. Ele é uma praga para a defesa, por causa de sua insistência em marcar gols e não deixar se amedrontar por jogo duro”. Telê gostou do que ouviu e respondeu: “É ele quem eu gostaria de ter no meu time”. Dois meses depois, Catimba foi contratado para ser o centroavante tricolor, já que o veterano e ídolo Alcindo estava prestes à se aposentar. Em sua apresentação, Catimba disse: “Preciso ser campeão aqui pelo Grêmio. Sei que o time não é campeão há oito anos, mas venho para fazer força e conseguir esse título”. E, assim, foi outro a ganhar a confiança da torcida para o fim do martírio.

Primeiros desafios

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Com disciplina, marcação forte, movimentação e jogadores solidários, o Grêmio de 1977 seria bem diferente das temporadas anteriores. Confiante e com jogadores de muito talento, o tricolor disputou o Campeonato Gaúcho desde o início disposto a somar o maior número de pontos possíveis a fim de evitar decidir o título na casa do rival Inter. Antes dos compromissos pelo Gauchão, o tricolor disputou uma série de amistosos que serviram para Telê preparar o time e fazer testes. Tudo começou em janeiro, no 1 a 1 com a seleção uruguaia, no Centenário, resultado muito satisfatório pelo fato de a Celeste contar na época com grandes craques como o goleiro Rodolfo Rodríguez, o lateral Morales, o meio-campista e defensor Darío Pereyra e o goleador Fernando Morena.

Na sequência, o Grêmio empatou com o Caxias (0 a 0), goleou o Defensor-URU por 5 a 0, bateu a Chapecoense por 1 a 0, empatou com o Atlético Carazinho (0 a 0), perdeu para o Independiente Medellín-COL (1 a 0), venceu o Deportivo Cali-COL por 4 a 1, perdeu para o Cruzeiro por 2 a 0 e bateu o Independiente-ARG de Bochini, Trossero e companhia por 2 a 0, estes dois últimos jogos válidos pelo Troféu Triangular de Caracas (VEN). Entre fevereiro e março, o time gaúcho disputou mais 10 amistosos e saiu invicto, com sete vitórias e três empates. Só em 27 de março que aconteceu, enfim, a estreia no Campeonato Gaúcho: uma vitória por 4 a 0 sobre o Cruzeiro de Cachoeirinha, no Olímpico, com gols de Eurico, Tadeu Ricci, Tarciso e Éder.

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Tarciso, o “Flecha Negra”
 
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Falcão e Éder, em dia de Gre-Nal: lendas do nosso futebol!
 
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Tadeu Ricci, em destaque na Manchete Esportiva.
 

O tricolor estava no Grupo B e precisava terminar em primeiro lugar para se classificar para a final da Primeira Fase, que dava ao vencedor uma vaga na final. Sem tomar conhecimento dos rivais, o tricolor venceu todos os primeiros seis jogos até enfrentar pela primeira vez o Internacional, no Olímpico, em 17 de abril. O rival foi a campo com o que tinha de melhor: Manga; Cláudio Duarte, Marião, Hermínio e Chico; Falcão, Caçapava e Batista; Pedrinho, Dario e Escurinho. Já o Grêmio foi com o goleiro Remi, os laterais Eurico e Ladinho, a dupla de zaga Ancheta e Oberdan, o meio de campo com Victor Hugo, Tadeu Ricci e Yura e o ataque com Tarciso, Alcindo (André Catimba só iria estrear em junho) e Éder Aleixo.

E o jogo provou que aquele Grêmio era mesmo diferente. Com personalidade, o tricolor abriu o placar aos 19’, em cobrança de falta de Tadeu Ricci que o goleiro Manga acabou falhando. O segundo gol saiu no segundo tempo, após boa jogada pela direita que terminou em gol de cabeça do artilheiro Alcindo. Já no finalzinho, Tadeu Ricci aproveitou outra bola cruzada vinda da direita e completou pro gol, aproveitando trapalhada da zaga colorada: 3 a 0. Que vitória! E muita moral para o decorrer do campeonato!

Tropeços e foco no segundo turno

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Yura (à dir.), no Gre-Nal em que marcou o gol mais rápido da história do clássico.
 

Após a vitória no Gre-Nal, o tricolor manteve o embalo e venceu mais cinco jogos até reencontrar o Inter, dessa vez no Beira-Rio, em 08 de maio, quando acabou perdendo por 1 a 0, gol do atacante Santos. Mesmo assim, o time de Telê terminou na primeira colocação de seu grupo, com 12 vitórias e uma derrota em 13 jogos e garantiu a vaga na final da Primeira Fase contra o Inter. No primeiro jogo, em casa, o Grêmio sucumbiu com um gol no último minuto do jogo de Dario e perdeu por 1 a 0. Na volta, no Beira-Rio, o Inter segurou o empate sem gols que lhe deu o título e a vaga por antecipação na grande final.

Após o revés, o Grêmio precisava vencer a Segunda Fase – que teria dois turnos – de qualquer maneira. E foi com tudo para “gabaritar” aquela etapa. No primeiro turno, venceu seis jogos e empatou três, com direito a goleada de 10 a 0 sobre o Pelotas e vitória por 2 a 1 sobre o Inter, no Olímpico, com gols de Yura e Tarciso. Um destaque é que o gol de Yura foi o mais rápido da história dos Gre-Nais e aconteceu aos 14 segundos de jogo! De André para Tadeu, para Ladinho, para Éder e novamente a André, que se antecipa pela esquerda e abre espaço para Yura. O volante, em passadas largas, deixa Gardel no chão e vence Manga com um toquinho por cima. Ele comentou sobre o gol histórico anos depois.

“Para a nossa felicidade, aconteceu esse gol, que foi fantástico, num momento realmente muito difícil da história do Grêmio, porque nós vínhamos perdendo há oito anos seguidos. E era o momento de dar um basta. É uma coisa de Deus. Eu fui um cara que sofreu muito. Parte da torcida me odiava e parte me amava. Quando eu fiz esse gol, eu abri bem os braços, porque queria abraçar todo mundo. Eu sofria duas vezes: porque era gremista e jogador do clube. E Deus me iluminou. Até hoje, por onde eu vou, todos comentam esse gol”. – Yura, em entrevista ao globoesporte.com, 01 de março de 2017.

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O Grêmio de 1977: timaço, enfim, campeão!
 
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Tarciso e Yura correm pro abraço!
 

Com 21 gols marcados e apenas um sofrido naquele primeiro turno, o Grêmio queria repetir o sucesso no segundo turno para levantar o título da Segunda Fase e garantir a vaga na final. Logo na estreia, o tricolor fez 6 a 0 no Novo Hamburgo e em seguida derrotou o Brasil de Pelotas por 3 a 0. Na terceira rodada, tropeço diante do Esportivo (1 a 0), mas a recuperação veio rápido e o time de Telê venceu o Cruzeiro de Cachoeirinha (3 a 1), o Caxias (2 a 1), o Pelotas (2 a 0), empatou com o Juventude (0 a 0), venceu a Associação Santa Cruz (1 a 0) e encarou o rival Inter na última rodada, no Beira-Rio, precisando da vitória para sacramentar a vaga na decisão. 

Pois o Grêmio conseguiu vencer novamente o Inter por 2 a 0, gols de Tadeu Ricci e Tarciso, terminou campeão do segundo turno, da Segunda Fase – por ter vencido os dois turnos – e começou a contagem regressiva para a decisão do título Gaúcho. Por ter melhor campanha, o Grêmio poderia ser campeão se vencesse o primeiro jogo contra o Inter em casa. Se perdesse ou empatasse, haveria obrigatoriedade de uma segunda partida, mas no Beira-Rio, algo que os tricolores não queriam de jeito nenhum. Afinal, o psicológico poderia pesar e velhos fantasmas aparecerem. O Olímpico tinha que ser amuleto. Vencer era a única alternativa para o Grêmio na tarde de 25 de setembro de 1977.

Drama, gol, cambalhota e redenção

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André Catimba no Gre-Nal de sua vida.
 

Quase 60 mil pessoas lotaram o Olímpico para a final do Campeonato Gaúcho de 1977. Em um dia de sol na capital gaúcha, o cenário era o mais perfeito possível para um grande jogo de futebol. Do lado tricolor, Telê tinha praticamente o time completo, com exceção do zagueiro Ancheta, lesionado, substituído por Cassiá. Já o Inter não teria seu melhor jogador, Falcão, que acabou substituído por Luisinho, com Batista jogando mais recuado e Caçapava mais aberto pela direita. Quando a bola rolou, o Grêmio tentou encurralar o Inter e levou mais perigo. Foi então que, aos 22’, o tricolor teve um pênalti a seu favor. Na cobrança, o ponta Tarciso. Mas o que era para ser um momento de glória para o Flecha Negra foi de pesadelo, pois ele mandou a bola para fora.

“Todo mundo sabia que eu batia no canto direito, mas era uma pancada forte. Quando tu vai bater o pênalti, não pode decidir na hora que corre para a bola. Eu saí indeciso na hora de cobrar. Quando puxei a perna e bati, pensei “troquei”. E ninguém saiu na foto, nem a bola e nem o Benítez. Foi uma vontade de cavar um buraco e sair em Minas Gerais. Se eu achasse um buraco… 

Quando vai para a cobrança, é um silêncio total, tu escuta as pessoas, teus companheiros, há uma pressão muito grande. Tu olha para trás e não tem com quem dar a mão. É contigo. Tu é o cara da espada. Até hoje eu penso: Por que não bati no meio?”. – Tarciso, em entrevista ao globoesporte.com, 25 de setembro de 2017.

Apesar do erro, o Grêmio não se abateu e continuou pressionando. Ávido, ele não podia dar terreno ao rival nem deixar espaço. Foi então que, aos 42’, em uma saída errada de bola de Caçapava, a bola sobrou para Victor Hugo, que lançou no meio, viu Tadeu Ricci dar um corta-luz e a redonda ir ao encontro de Yura. O camisa 10 gremista percebeu a zaga colorada desajustada e deu um passe nas costas de toda defesa, em um lance treinado exaustivamente por Telê Santana. Por lá, estava André Catimba, que correu em diagonal e encontrou a liberdade que precisava na grande área para chutar de três dedos e vencer o goleiro Benítez: 1 a 0.

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A lendária foto de Catimba. Foto: Armênio Abascal Meireles / Agencia RBS
 

Na comemoração, Catimba preparou uma de suas tradicionais cambalhotas. Quando já estava no ar, sentiu uma fisgada na virilha. Teve que abortar o salto mortal e se espatifou no chão. “Eu vim numa velocidade muito estúpida. Quando dei um impulso para dar um salto mortal, senti o rasgão. Eu estava na altura de um travessão e quis voltar, mas fui de cara no chão. Era uma dor muito forte”, comentou o atacante, em 2017, ao Globo Esporte. O craque teve que dar lugar ao ídolo Alcindo, que manteve a força ofensiva no segundo tempo e perambulou pela zaga colorada, sempre atenta a ele. A foto de André Catimba no ar, captada por Armênio Abascal Meireles, da Agência RBS, virou uma das mais belas imagens da história do futebol brasileiro e o símbolo máximo da conquista tricolor.

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No segundo tempo, o time de Telê manteve-se intacto na defesa, atento a cada jogada e como uma fortaleza. Aos 42’ do segundo tempo, mesmo minuto do gol de Catimba, torcedores começaram a invadir o gramado, em puro êxtase, para celebrar a conquista que se aproximava. A polícia até tentou conter a multidão, mas não conseguiu e o jogo teve que ser encerrado, com direito a voadora de um torcedor (!) no árbitro Luís Torres e ainda agressões aos colorados Luisinho e Escurinho, que tiveram que ir ao hospital. Jogadores do Inter ainda chamaram os próprios torcedores a também entrarem no gramado, como uma iniciativa de defesa. Só bem depois que a bagunça cessou e a festa no Olímpico ganhou apenas três cores.

Durante a festa, quem apareceu por ali foi o astro da música Gilberto Gil, amigo de Catimba. O cantor, emocionado, celebrou: “Já estava na hora do Grêmio ganhar, não é mesmo? Agora, tomara que vença dez anos seguidos. Viva o Grêmio!”. A campanha tricolor foi irrepreensível: em 34 jogos, venceu 26, empatou cinco e perdeu apenas três. Marcou 70 gols e sofreu míseros 9, uma das melhores defesas da história da competição – a melhor defesa foi do próprio Grêmio, no título de 2019, quando levou apenas um gol em 17 jogos. Tarciso, com 12 gols, e Tadeu Ricci, com 10, foram os artilheiros do clube na competição.

O título que iniciou a Era de Ouro

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“Eu afirmo com tranquilidade. O time de 1977 modificou toda a história do Grêmio. Não devíamos pra ninguém do Brasil naquela época”. A frase de Yura resume bem a importância do título estadual daquele ano ao tricolor. Ainda em 1977, o tricolor enfiou 4 a 0 no Inter em pleno Beira-Rio, pelo Brasileirão, embora tenha terminado apenas na 13ª colocação. Mas foi a partir do título de 1977 que o clube se transformou em um dos maiores do Brasil.

A diretoria terminou as obras do estádio Olímpico, que virou Olímpico Monumental, e em 1981 o Grêmio conquistou o Brasileirão pela primeira vez. Em 1982, foi vice-campeão, mas em 1983 alcançou o topo com os títulos da Libertadores e do Mundial, conquistas que o rival não tinha na época. “Aquele título (de 1977) nos deu o sonho. Aquele sonho de criança, em que tu vai em busca do cavalinho do Papai Noel. Pensamos que ‘se somos campeões gaúchos, podemos ser campeões brasileiros’. E a Libertadores seria um salto enorme na frente do rival”, comentou Tarciso, em 2017, ao Globo Esporte.

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Campeão brasileiro de 1981…
 
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E campeão mundial em 1983: tudo começou lá em 1977.
 

De fato, podemos definir o Grêmio Antes de 1977 e Depois de 1977. Antes, se resumia a 19 títulos gaúchos. Depois, colecionou três Libertadores, um Mundial, duas Recopas Sul-Americanas, dois Brasileiros, cinco Copas do Brasil, uma Supercopa do Brasil e alcançou mais de 40 estaduais. A geração de 1977 é, sem dúvida, imortal. Como o tricolor.

Os personagens:

Corbo: cria do Racing de Montevidéu, o uruguaio chegou em 1977, após seis temporadas no Peñarol, e jogou no tricolor até 1978. Embora não fosse muito alto (tinha 1,78m), possuía reflexos apurados e realizava grandes defesas, além de ser muito arrojado nas saídas de bola e ser um exímio pegador de pênaltis. Disputou 118 jogos com a camisa do Grêmio e não levou gols em 66 deles.

Remi: cria do Grêmio, o goleiro acabou perdendo espaço com a chegada de Corbo, embora tenha sido titular nos principais jogos do primeiro semestre de 1977. Retomou seu espaço em 1978 e jogou até 1982, oscilando entre titular e reserva.

Eurico: lateral-direito experiente e multicampeão pelo Palmeiras no começo dos anos 1970, Eurico chegou em 1976 ao tricolor e permaneceu até 1980 como principal nome do elenco no setor. Apoiava bem o ataque sem descuidar da marcação e se transformou em um ícone gremista que ajudou o tricolor a vencer não só o Gaúcho de 1977, mas também os de 1979 e 1980. Disputou 195 jogos com a camisa do imortal. 

Oberdan: zagueiro técnico, experiente e que vinha de tempos marcantes pelo Santos, onde fez uma memorável dupla de zaga com Ramos Delgado, Oberdan chegou para assumir a liderança da zaga gremista mesmo com o uruguaio Ancheta por ali. Perito em sair jogando, ótimo nos desarmes e de presença imponente dentro da área, virou ídolo da torcida e foi crucial na campanha do título de 1977. Virou “carrasco” de Escurinho ao neutralizar o atacante colorado em diversos jogos e não permitir que ele marcasse gols contra o Grêmio com ele em campo. Disputou 78 jogos e marcou 13 gols pelo Grêmio – 6 deles na campanha do título Gaúcho de 1977. Encerrou sua carreira já em 1978, aos 33 anos.

Cassiá: o zagueiro jogou de 1977 até 1980 no Grêmio e, durante a campanha do título estadual de 1977, alternou jogos como titular e reserva, sendo a primeira opção quando Oberdan ou Ancheta não podiam jogar. Não comprometeu.

Ancheta: foi um dos maiores defensores da história do futebol uruguaio. Com muito estilo, força e disposição, jogou muito no Nacional de 1965 até 1971, participando da conquista da Libertadores – ele foi um dos oito jogadores do Nacional a integrar o elenco da seleção uruguaia 4ª colocada na Copa do Mundo de 1970. Deixou o time após a conquista da América para defender outro tricolor: o Grêmio, onde ficou até 1980 e venceu a Bola de Ouro como melhor jogador do Brasil em 1973, atuando como zagueiro e também como lateral. Muito seguro e com personalidade, virou ídolo e é um dos recordistas em jogos na história do Grêmio com 428 partidas disputadas, além de 26 gols. Conquistou os Gaúchos de 1977, 1979 e 1980.

Ladinho: o lateral-esquerdo catarinense chegou ao Grêmio em 1977 e foi um dos pilares do setor defensivo do Grêmio naquele ano histórico. Costumava avançar bastante ao ataque graças à sua velocidade. Magro e esguio, conseguia escapar da marcação, dava bons passes e era muito bom na saída de bola. Foram 157 jogos e 12 gols pelo tricolor entre 1977 e 1979.

Victor Hugo: apesar de ter começado a carreira no Inter, foi no Grêmio onde o volante se consagrou como um dos mais eficientes do futebol gaúcho naqueles anos 1970. Victor Hugo era o protetor da zaga gremista e dava tranquilidade a Oberdan e Ancheta quando o Grêmio era atacado. Com um fôlego de leão, raçudo e incansável, se desdobrava em campo e possibilitava as investidas ao ataque de Ricci e Yura. Foram 285 jogos e 3 gols com a camisa tricolor, além dos títulos gaúchos de 1977, 1979 e 1980.

Tadeu Ricci: grande maestro do meio de campo tricolor em 1977, Tadeu Ricci veio a pedido de Telê Santana e organizou por completo o setor gremista. Com enorme visão de jogo, passes precisos, muita inteligência tática e lealdade – não era daqueles jogadores brucutus que iam nas pernas dos adversários – Ricci foi crucial para o título gremista e um ícone que marcou época no Olímpico. Foram 122 jogos, 25 gols e 6 assistências pelo clube entre 1977 e 1978.

Yura: franzino e com as pernas finas, ele podia despertar a dúvida quanto ao seu rendimento dentro de campo. Só que Júlio Titow, o Yura, era um verdadeiro gigante nos gramados. Incansável, cheio de raça, veloz e capaz de brigar pela bola do primeiro segundo ao último, Yura foi um ídolo gremista e ajudou o time a encerrar a hegemonia do Inter no estado com o título gaúcho de 1977, repetindo a dose em 1979. Após 359 jogos e 61 gols pelo tricolor, Yura encerrou a carreira precocemente, com 27 anos, após sofrer uma grave lesão na tíbia.

Vílson: cria das bases, podia jogar nas duas laterais e tinha enorme vigor físico, além de apoiar bem o ataque e aparecer na frente para marcar gols. Jogou no Grêmio de 1975 até 1979, disputou 256 jogos e marcou 26 gols.

Tarciso: outro imortal e ídolo tricolor, Tarciso foi um dos grandes nomes do ataque gremista nos anos 1970 e 1980. Ganhou oito títulos no clube, com destaque para o Gaúcho de 1977, o Brasileiro de 1981, a Libertadores de 1983 e o Mundial do mesmo ano. Foi uma das armas mais letais do clube nas partidas decisivas, levando os marcadores à loucura. É o jogador que mais vezes vestiu a camisa tricolor na história (721 jogos) e o 2º maior artilheiro da história do Grêmio com 222 gols. Podia jogar tanto na ponta-direita como na ponta-esquerda e era um jogador extremamente eficiente no ataque, capaz de tabelas precisas com os companheiros, chutes potentes e muito oportunismo. Ganhou duas Bolas de Prata vestindo a camisa tricolor.

André Catimba: antes do gol de Renato Portaluppi contra o Hamburgo, na final do Mundial de 1983, o gol de André Catimba era o mais importantes da história gremista. E podemos dizer que o gol de Renato só aconteceu graças ao gol de Catimba, que acabou com o martírio tricolor e iniciou uma nova e inesquecível era no clube gaúcho. Muito talentoso, com presença de área e enorme senso de colocação, André Catimba foi o centroavante que o Grêmio precisava após o fim da era Alcindo. Com 13 gols em 34 jogos na temporada 1977, o atacante deixou sua marca para sempre no coração do torcedor tricolor e virou ídolo. Catimba jogou até 1979 no tricolor e acumulou 65 gols em 133 jogos.

Alcindo: foram 12 gols em Gre-Nais. Mais de 200 com a camisa do Grêmio. Presença em cinco dos sete campeonatos estaduais conquistados pelo tricolor entre 1962 e 1968. Alcindo, o “Bugre Xucro”, é o maior artilheiro da história do Grêmio. Presente na Copa do Mundo de 1966, o atacante marcou seu nome no Grêmio com gols, oportunismo e um estilo de jogo marcante. Alcindo rompia defesas sozinho, tinha uma força absurda e jogou no Santos a pedido de Pelé, que ficou abismado com seu futebol. Após deixar o Grêmio no começo dos anos 1970, voltou em 1977 já veterano para ajudar o clube a quebrar a hegemonia de oito anos do Inter no Gauchão – ele anotou 7 gols na campanha. 

Éder Aleixo: um dos mais habilidosos pontas do futebol brasileiro nos anos 1970 e 1980 e presente na fabulosa seleção brasileira de 1982, Éder Aleixo despontou de vez para o estrelato com a camisa do Grêmio, que vestiu entre 1977 e 1979 e levantou os Gaúchos de 1977 e 1979. Com um míssil na perna esquerda, marcava golaços de fora da área e de falta e era uma arma letal nos contra-ataques e jogadas em velocidade. Marcou 70 gols em 159 jogos pelo tricolor, além de ter dado 6 assistências. Foi jogar no Atlético-MG em 1980, onde também brilhou.

Telê Santana (Técnico): um dos maiores técnicos da história do futebol deixou sua marca eterna no Grêmio com o título gaúcho de 1977 e a construção de uma equipe solidária, organizada e muito eficiente tanto no ataque quanto na defesa. Com carta-branca da diretoria, pôde trazer as peças que faltavam no elenco e montou um timaço que desbancou o poderoso Inter e acabou com a hegemonia colorada. Depois de seu período no Grêmio, Telê treinou o Palmeiras e foi comandar a seleção brasileira, que encantou o mundo, mas acabou eliminada pela Itália na Copa de 1982. Sua volta por cima aconteceu nos anos 1990, quando venceu tudo com o São Paulo. Pelo Grêmio, entre 1976 e 1978, Telê acumulou 175 jogos, 102 vitórias, 49 empates, 24 derrotas, 332 gols marcados e 116 gols sofridos, um aproveitamento de 67,6%. Leia mais sobre o Mestre clicando aqui!

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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo excelente trabalho sobre o Grêmio!! Ansioso pelo próximo esquadrão imortal do Grêmio!!! De 1985 a 1990 ou 2001 a 2003 ou 1956 a 1968.

  2. Vocês poderiam fazer um artigo sobre o Coritiba entre 2010 e 2012, com a questão das duas finais da copa do Brasil, o tetra paranaense e o recorde de 24 vitórias consecutivas.

Comentários encerrados.

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