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Ajax x Feyenoord – De Klassieker

Por Guilherme Diniz

 

A rixa: historicamente, as cidades de Amsterdã e Roterdã sempre divergiram em termos econômicos e culturais sobre qual delas é a mais importante da Holanda, a célebre picuinha que existe em vários países e grandes metrópoles. No caso dos holandeses, um duelo entre os “artistas” de Amsterdã e os “trabalhadores” de Roterdã. Após a Primeira Guerra Mundial, o Ajax, na primeira divisão, passou a duelar a partir de 1921 com o Feyenoord, recém-promovido da divisão B. E, logo no primeiro duelo, o Ajax não gostou de ter que ir até Roterdã disputar o primeiro jogo da história do duelo contra o Feyenoord. Em campo, mais discussão e um acalorado empate em 2 a 2 marcou o início do clássico mais quente e com as duas maiores torcidas da Holanda. Nascia o De Klassieker.

Quando começou: no dia 09 de outubro de 1921, no empate em 2 a 2 entre a dupla, em Roterdã, pela 1ste Klasse.

Maior artilheiro: Sjaak Swart (Ajax): 18 gols

Quem mais venceu: Ajax – 93 vitórias (até setembro / 2023). O Feyenoord venceu 61. Foram 49 empates.

Maiores goleadas: Feyenoord 9×4 Ajax, 29 de novembro de 1964

Feyenoord 9×5 Ajax, 28 de agosto de 1960

Ajax 8×2 Feyenoord, 18 de setembro de 1983

Ajax 7×1 Feyenoord, 08 de outubro de 1933

Feyenoord 7×3 Ajax, 11 de novembro de 1956

Feyenoord 6×2 Ajax, 27 de janeiro de 2019

 

“Enquanto os de Amsterdã sonham, nós trabalhamos”. Essa é uma das anedotas clássicas que o povo de Roterdã costuma falar sobre os vizinhos da capital sobre qualquer assunto. E é claro que essa rivalidade cultural e econômica saltou para o esporte quando Ajax e Feyenoord começaram a se enfrentar no futebol. E mal sabiam os holandeses que o De Klassieker se transformaria no maior duelo do país, com clubes multi vencedores e que iriam dominar o cenário futebolístico nacional por muito tempo e brilhar, também, em torneios continentais (a dupla é a maior vencedora do país em troféus da UEFA com 11 títulos no total). 

Tudo começou no já citado encontro de 1921, quando Ajax e Feyenoord duelaram em Roterdã pela primeira divisão do campeonato nacional. Fundado em 1900, o Ajax já era um clube bastante tradicional do país e tinha dois campeonatos holandeses conquistados em 1917–18 e 1918–19, além de uma Copa da Holanda em 1916-17. Já o Feyenoord foi fundado em 1908 e só naquela temporada de 1920-1921 que havia conseguido participar da elite do futebol holandês pela primeira vez. Por isso, o clube queria cravar seu espaço entre os principais do país. E fazer um jogo de igual para igual contra os alvirrubros da capital era essencial para o orgulho da equipe. 

No dia do jogo, em Roterdã, o Ajax abriu 2 a 0 no final do primeiro tempo, em gols de Theo Brokmann e Frans Rutte. E foi esse gol de Brokmann que iniciou uma imensa discussão, pois a bola bateu na trave e saiu, gerando dúvidas se ela realmente passou da linha do gol ou não. No segundo tempo, o Feyenoord descontou e teve um pênalti a seu favor, que causou a expulsão do capitão do Ajax, Joop Pelser. Na cobrança, o goleiro do Ajax Jan de Boer defendeu o tiro de Bul e inspirou o time de Amsterdã, que fez 3 a 1 com Hein Delsen. O Feyenoord descontou de novo, com Formenoy, e o placar de 3 a 2 selou a vitória do Ajax. Bem, na verdade, não. Os jogadores do Feyenoord protestaram contra a arbitragem e, posteriormente, com a comissão oficial por causa daquele primeiro gol dos alvirrubros e o resultado acabou sendo 2 a 2. Com todo esse enredo, o duelo passou a ser chamado de “O Clássico” e sempre mobilizou todo o país e as imensas torcidas de ambos os clubes. 

 

Disputa acirrada

Já em 1922-1923, o Feyenoord venceu seu primeiro título holandês e repetiu o feito em 1927-1928, se igualando em número de títulos com o rival. Foi naquela época que a dupla começou a rivalizar não só em conquistas, mas também em quem tinha o maior estádio. Em 1928, o Estádio Olímpico de Amsterdã foi inaugurado com capacidade para pouco mais de 31 mil pessoas. Até que, em 1937, o Feyenoord inaugurou seu caldeirão, o De Kuip, com capacidade para 64 mil espectadores. O Ajax respondeu adicionando um novo anel de arquibancadas no Olímpico, chegando aos mesmos 64 mil lugares. Só após a Segunda Guerra Mundial que o De Kuip superou o rival com uma expansão que deu ao estádio de Roterdã a capacidade de 69 mil – que seria reduzida nos anos 1990 para 51 mil.

 

Na década de 1930, o Ajax venceu os torneios de 1930–31, 1931–32, 1933–34, 1936–37, 1938–39, enquanto o Feyenoord levantou os troféus de 1935–36, 1937–38 e 1939–40. Na época, a dupla ainda se equiparava em títulos, mas a Segunda Guerra Mundial acabou afetando bastante o futebol holandês e o Feyenoord teve até que parar de jogar em seu estádio por conta da ocupação nazista em Roterdã. Isso afetou o rendimento do Feyenoord e a população da cidade, que perdeu o interesse pelo esporte e focou mais na reconstrução do local no pós-guerra. Isso explica pelo fato de que entre 1947-1948 até 1955-1956, o clássico não foi disputado em partidas oficiais, apenas escassos amistosos. 

Só na segunda metade dos anos 1950, com o profissionalismo do futebol do país e a criação da Eredivisie em 1954-1955, da qual o Feyenoord, juntamente com o rival Ajax, foi um dos fundadores, que o duelo voltou em definitivo. Na temporada 1956-1957, enfim, aconteceu o primeiro clássico válido pela liga profissional e o clube de Roterdã goleou o rival por 7 a 3, a maior goleada desde os 7 a 1 aplicados pelo Ajax lá em 1933. Porém, o campeão inaugural da Eredivisie daquele ano foi o Ajax. Em 1959, o clube de Amsterdã deu o troco e aplicou 5 a 0 nos rivais fora de casa, mas não demorou muito para vir a revanche do Feyenoord: em 1960-1961, ano do título nacional do clube de Roterdã depois de 21 anos de jejum, a equipe aplicou um pirotécnico 9 a 5 no Ajax, até hoje a partida com maior número de gols da história do clássico – Henk Schouten, do Feyenoord, anotou quatro gols! O De Stadionclub ainda venceu os torneios de 1961–62, 1964–65, 1968–69, enquanto o Ajax faturou as taças de 1965–66, 1966–67, 1967–68, 1969–70. Nesse período, o Feyenoord fez 9 a 4 no rival em 1964 e aumentou a contagem das grandes goleadas a seu favor.

 

A era de ouro

No início da década de 1970, Amsterdã e Roterdã foram as capitais do futebol da Europa e do mundo. Foi nesse período que os rivais venceram não só torneios nacionais, mas também competições continentais e colocaram de vez a Holanda entre os países protagonistas do esporte. Primeiro foi o Feyenoord, campeão da Liga dos Campeões da UEFA de 1969-1970, do Mundial Interclubes de 1970 e da Copa da UEFA de 1973-1974, época em que teve craques como Rinus Israël, Wim Jansen, Willem van Hanegem, Ove Kindvall e Coen Moulijn, além do célebre técnico Ernst Happel. Foi o maior esquadrão da história do Feyenoord e um time cultuado até hoje pelos torcedores de Roterdã e da Europa. 

Festa dos jogadores do Feyenoord após a conquista da UCL de 1970.

 

Mas o Ajax não deixou por menos e teve, entre 1971 e 1973, um esquadrão dos sonhos, até hoje um dos maiores de todos os tempos. Nesse período, o clube alvirrubro venceu três Ligas dos Campeões da UEFA consecutivas, um Mundial Interclubes e uma Supercopa da UEFA, títulos que marcaram para sempre jogadores como Wim Suurbier, Ruud Krol, Arie Haan, Sjaak Swart – maior artilheiro da história do clássico com 18 gols – Piet Keizer, Johan Neeskens e o maior de todos, Johan Cruyff, expoente do futebol total ao lado do técnico Rinus Michels

Com Cruyff (com a bola), Ajax protagonizou momentos espetaculares.

 

Neeskens e Cruyff erguem a Liga dos Campeões.

 

O ponto máximo desse time foi, sem dúvida, a temporada 1971-1972, quando fez 5 a 1 no Feyenoord em plena Roterdã e levantou sua segunda taça europeia diante da Inter de Milão no estádio De Kuip, casa do rival Feyenoord. Sem dúvida, um sabor ainda maior para o torcedor alvirrubro, que viu naquela noite uma das maiores finais da história do torneio, afinal, o Ajax venceu por 2 a 0, mas o placar não refletiu o que foi o jogo: um verdadeiro espetáculo de futebol. Nos anos 1970, o Ajax aumentou sua dominância no futebol holandês com mais cinco títulos nacionais, enquanto o Feyenoord venceu apenas dois troféus.

 

Anos 1980 e 1990: desavenças, sucesso só de um lado e brigas

A partir da década de 1980, o radar do Ajax mudou um pouco para o sul, mais precisamente para a cidade de Eindhoven. É que naquela época o outro rival do clube, o PSV, passou a incomodar mais e a levantar títulos em profusão, principalmente entre 1985 e 1990, quando levantou quatro torneios nacionais, três copas nacionais e uma Liga dos Campeões da UEFA. O Ajax conseguiu se renovar e manteve o caminho dos títulos, mas houve uma temporada que reacendeu os ânimos do De Klassieker. Em 1983-1984, Johan Cruyff respondeu à diretoria do Ajax, que não quis lhe oferecer um novo contrato na época, assinando com o Feyenoord, algo que chocou o mundo do futebol na época – era como se Messi, em seu auge no Barcelona, fosse jogar no Real Madrid, por exemplo.

 

No início da temporada, muitos torcedores do Feyenoord protestaram contra aquela contratação, com cartazes como “Feyenoord forever, Cruyff, never”, enquanto outros não iam ao De Kuip se Cruyff estivesse em campo! Mas foi com a maior lenda da história do futebol da Holanda no elenco que o Feyenoord conseguiu seus dois únicos títulos na década: o Campeonato Holandês e a Copa da Holanda de 1983-1984, conquistados não só graças à Cruyff, mas também a um novato Ruud Gullit, que brilhava na época e iria se transformar em outro emblema do futebol do país. 

Mas você acha que o Ajax iria aturar aquilo? Que nada! Naquela temporada, o clube de Amsterdã aplicou uma goleada impiedosa, devastadora, a maior sobre o rival na história do clássico: 8 a 2, um dia de delírio puro no Estádio Olímpico de Amsterdã e de um tal de Van Basten, autor de três gols. No returno, porém, o Feyenoord venceu por 4 a 1 e seguiu firme rumo ao título. Na Copa da Holanda, o Feyenoord eliminou o rival durante o caminho após empate em 2 a 2 e vitória por 2 a 1 e ficou com a taça.

Van Basten celebra um de seus três gols na goleada histórica sobre o rival. Foto: Anefo.

 

Delírio puro em Amsterdã!

 

Na primeira metade dos anos 1990, o Ajax seguiu levantando troféus e brindou seu torcedor com outra geração espetacular de futebolistas que venceu a Liga dos Campeões da UEFA de 1994-1995 e o Mundial Interclubes do mesmo ano. Com os irmãos De Boer, Van der Sar, Davids, Rijkaard, Litmanen (autor de 12 gols na história do clássico), Overmars e companhia, o Ajax sapecou sem dó o rival em diversas oportunidades, incluindo em três finais seguidas de Supercopa da Holanda – 1993 (4 a 0), 1994 (3 a 0) e 1995 (2 a 1); na Copa da Holanda (5 a 0, em 1993) e no Campeonato Holandês de 1992-1993 (5 a 2) e 1994-1995 (4 a 1 e 5 a 0). Embora tenha vencido quatro Copas nacionais entre 1991 e 1995, o Feyenoord só levantou a Eredivisie em 1992-1993 e 1998-1999, ficando muito distante tanto do Ajax quanto do PSV no rol de títulos nacionais.

Litmanen virou um dos grandes carrascos do Feyenoord com 12 gols em clássicos.

 

Fanáticos do Ajax sempre levam faixas sobre o episódio de 1997 em dia de clássico.

 

Em 1997, aconteceu o mais grave incidente envolvendo torcedores dos dois clubes, na chamada Batalha de Beverwijk, quando os grupos de hooligans do Ajax (F-side) e do Feyenoord (S.C.F. Hooligans) entraram em confronto em uma rodovia perto de Beverwijk. Na briga, aconteceu a morte de Carlo Picornie, um dos fundadores do F-side do Ajax, após sofrer três facadas que perfuraram seus pulmões. Isso fez com que a polícia holandesa proibisse torcedores visitantes em clássicos por um bom tempo, algo que se repetiu nos anos 2000 e 2010 após vários incidentes envolvendo torcedores e até jogadores. Até hoje a torcida do Ajax leva faixas ao estádio em dias de clássico contra o Feyenoord para relembrar o ocorrido. A mais famosa é uma com a frase “Carlo still not forgotten” (Carlo ainda não foi esquecido).

 

Século XXI: lá e cá

Na temporada 2001-2002, o Feyenoord acabou com um longo jejum de títulos continentais ao faturar a Copa da UEFA jogando em casa, no De Kuip, feito que fez o clube superar o rival em troféus no torneio – 2 a 1. Naquela época, o Feyenoord ainda viveu bons momentos sobre o rival, como no triunfo na Supercopa da Holanda de 1999-2000 e nos 3 a 1 na Eredivisie de 2000-2001, com gols de Bonaventure Kalou, Patrick Paauwe e Jon Dahl Tomasson. Porém, entre 2006 e 2011, o Ajax não perdeu um jogo sequer para o rival e emendou 15 jogos sem derrotas, com direito a goleadas como 4 a 0 (em 2006-07), 4 a 1 (também em 2006-07) e 5 a 1 (em 2009-10). Foram tempos sombrios para o Feyenoord, que ainda perdeu a única final de Copa da Holanda entre a dupla, na temporada 2009-2010, quando o Ajax venceu com um placar agregado de 6 a 1 após vitórias por 2 a 0 e 4 a 1.

O uruguaio Suárez (à esq.) judiou do Feyenoord em sua passagem pelo Ajax.

 

 

Só em 2011-2012 que o time de Roterdã encerrou o tabu e venceu por 4 a 2 os rivais. Anos depois, na temporada 2018-2019, a equipe aplicou um 6 a 2 histórico que chacoalhou o Ajax bem na temporada em que o clube alcançou as semifinais da Liga dos Campeões da UEFA depois de 22 anos. Atualmente, o clássico segue equilibrado graças à boa fase do Feyenoord, vice-campeão da Conference League em 2021-2022 e no topo da Eredivisie em 2022-2023, troféu que o clube persegue desde a última conquista, em 2016-2017. Nesta temporada, tudo indica que o Stadionclub deve levantar o troféu, ainda mais após a grande vitória sobre o Ajax em plena Johan Cruyff Arena por 3 a 2, de virada, em março de 2023, algo que não acontecia desde 2005. Só que o troco do Ajax veio rápido, em abril, nos 2 a 1 sobre o Feyenoord pela semifinal da Copa da Holanda em pleno De Kuip e que colocou os alvirrubros na decisão. De fato, escritas sempre são derrubadas no De Klassieker. E os trocos vêm rápido também…

 

Curiosidades:

 

  • O De Klassieker é um dos raros duelos onde gols sempre acontecem. Até hoje foram registrados apenas dois empates em 0 a 0: um em 1978-1979 e outro em 2014-2015. Impressionante!
  • O Ajax leva vantagem em praticamente todas as estatísticas do clássico, seja em número de vitórias, seja em títulos. O único equilíbrio é em jogos pela Copa da Holanda: oito vitórias para cada lado e um empate;
  • Em títulos, o Ajax possui 75 troféus contra 36 do Feyenoord;
  • A vantagem em torneios nacionais é esmagadora: são 36 campeonatos do Ajax contra 15 do Feyenoord. Em torneios continentais, o Feyenoord só leva vantagem na Liga Europa da UEFA / Copa da UEFA: 2 troféus contra um do rival;
  • Além de Sjaak Swart, outros artilheiros se destacaram na história do clássico: Cor van der Gijp (Feyenoord), com 14 gols, e Piet van Reenen (Ajax) e Jari Litmanen (Ajax), com 12 gols cada; 
  • Van Basten anotou 9 gols no clássico, todos marcados pelo Ajax;
  • Johan Cruyff também marcou 9 gols no clássico, 8 pelo Ajax e um em sua passagem pelo Feyenoord;
  • Embora a transferência de Cruyff tenha sido marcante, é comum outros jogadores virarem a casaca na história do clássico. Até hoje, 16 jogadores jogaram no Feyenoord e depois jogaram no Ajax e 30 jogadores jogaram no Ajax e depois jogaram no Feyenoord;
  • Em setembro de 2023, o Feyenoord goleou o Ajax por 4 a 0 em plena Johan Cruyff Arena em um jogo que foi interrompido quando o placar estava 3 a 0 por causa dos protestos da torcida do Ajax, que atirou sinalizadores no gramado. A partida foi remarcada para alguns dias depois, sem público, e o Feyenoord teve tempo de marcar mais um gol para selar a goleada de 4 a 0.

 

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