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Defensores del Chaco – Templo do Paraguai

Por Guilherme Diniz

Nome: Estádio Defensores del Chaco

Localização: Assunção, Paraguai

Inauguração: 04 de novembro de 1917

Partida Inaugural: Olimpia 1×0 Libertad, 04 de novembro de 1917

Primeiro gol: Rufino Gorostiaga, do Olimpia

Proprietário: Associação Paraguaia de Futebol

Capacidade: 42.354 pessoas

Recorde de público: 49.095 pessoas no jogo Olimpia 1×2 Cerro Porteño, 17 de abril de 1983.

Poucos estádios no mundo possuem nomes tão impactantes e emblemáticos como o Defensores del Chaco. O mais mitológico caldeirão do Paraguai leva esse nome em homenagem aos soldados do país que lutaram na Guerra do Chaco, confronto bélico ocorrido entre 1932 e 1935 entre Paraguai e Bolívia pela região do Chaco Boreal, em disputa após uma suposta descoberta de petróleo no sopé dos Andes (que não passou de devaneio), além de a Bolívia desejar há muito tempo ter pleno acesso ao Oceano Atlântico via rio Paraguai. Para isso, ambicionava ocupar o Chaco, em território paraguaio.

Foi a maior guerra na América do Sul no século XX e que deixou um saldo de 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios mortos – o Paraguai saiu vencedor. Durante a guerra, soldados utilizaram o Estádio, que ainda não levava o nome de hoje, como base e centro de mobilização e contenção de presos, por isso, anos depois, a Associação Paraguai de Futebol (APF) decidiu renomear o local.

Com esse passado e um novo nome, o Defensores del Chaco se transformou em referência e abrigou impressionantes 10 finais de Libertadores – é o 4º que mais abrigou finais na história -, duas finais de Copa América, uma final de Supercopa da Libertadores, uma final de Mundial Interclubes entre outros torneios. É hora de conhecer a história do mais importante estádio do Paraguai.

Dos primórdios à Guerra

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A região do Chaco Boreal, em verde, palco da Guerra que inspirou o nome do estádio.
 

Em 1906, foi fundada a Liga Paraguaia de Futebol – que mais tarde viraria APF -, pelos então cinco grandes clubes existentes no país: Olimpia, Nacional, Guaraní, Libertad e General Díaz de Assunção. Já nos anos 1910, a entidade recebeu do então presidente do Paraguai, Eduardo Schaerer, terras no bairro de Sajonia para a construção de um estádio que ajudasse na evolução dos clubes e do esporte no país, pois tais equipes disputavam partidas em campos improvisados, sem estrutura adequada para receber o público crescente. Com a doação, a associação paraguaia seria uma das poucas no mundo a ter um estádio próprio, algo que quase sempre é restrito aos clubes e aos governos.

As cessões de terras aconteceram em 1915 e já em 1916 as obras começaram, com esforço conjunto da liga paraguaia, de clubes e voluntários. O estádio teria naquele início uma estrutura modesta: arquibancadas de madeira e capacidade limitada, para pouco mais de 5 mil pessoas, mas já com o formato oval que conservaria ao longo das décadas. Mesmo sem ter sua estrutura concluída, o novo estádio da capital paraguaia foi inaugurado em 1917, em jogo entre Olimpia e Libertad, que terminou com vitória do Decano por 1 a 0 e gol de Rufino Gorostiaga.

Os uruguaios dando a volta olímpica em 1924: Celeste foi homenageada em Assunção.
 

A partir dali, o Estádio de La Liga, como era chamado na época, seria o principal palco futebolístico do país e mudaria de nome momentaneamente em 1924, passando a se chamar Estádio Uruguai, em homenagem ao incrível feito da seleção uruguaia campeã olímpica de futebol daquele ano, em um notável exemplo de amizade pan-americana. Porém, nos anos 1930, o estádio de Sajonia teve que mudar seu foco e virou um dos centros de concentração das tropas paraguaias na Guerra do Chaco. Por conta de sua localização, bem no coração da região de conflito, o estádio acabou sendo perfeito para esses fins. Por lá, houve também recrutamento de soldados e ainda serviu como prisão para os bolivianos capturados.

Obviamente que a guerra trouxe consequências ao estádio. Devido a sua estrutura precária, ele foi destruído e acabou abandonado por anos, até começar a ser reconstruído em 1939 e ter sua capacidade ampliada para cerca de 30 mil pessoas. Porém, mesmo com a reforma, o estádio ficou sem o uso que merecia por muitos anos até voltar a receber jogos com mais frequência nos anos 1950, quando passou a ser chamado de Estádio de Puerto Sajonia, em alusão ao bairro onde estava localizado.

Ampliação e Libertadores

defensores del chaco antiguo

Em 1953, a seleção do Paraguai – comandada pelo técnico Fleitas Solich – fez história e conquistou o primeiro título sul-americano ao bater o Brasil de Castilho, Djalma Santos, Nilton Santos, Bauer, Didi, Julinho, Cláudio e companhia na final por 3 a 2, em Lima (PER). Com o dinheiro ganho graças à conquista, a liga paraguaia pôde concluir mais um lance de arquibancadas no estádio e batizou tal setor de “Campeones de Lima”, em homenagem ao time paraguaio campeão. 

defensores del chaco anos 1960

Em 1960, o Puerto Sajonia foi palco da primeira final da história da Copa Libertadores – na época chamada de Copa dos Campeões da América -, entre Olimpia e Peñarol. Após vitória por 1 a 0 no primeiro jogo, em Montevidéu, o Peñarol jogou pelo empate na partida de volta, em Assunção. Diante de 20 mil pessoas, o Olimpia abriu o placar no primeiro tempo, com Recalde, mas Luis Cubilla – que anos depois seria um técnico emblemático na história do próprio Olimpia – empatou e decretou o título aurinegro. Com isso, a primeira volta olímpica da Libertadores foi no Paraguai e protagonizada por um clube uruguaio, justamente o país homenageado lá em 1924 pela liga paraguaia. Ainda nos anos 1960, o Puerto Sajonia ganhou um novo sistema de iluminação e abrigou a final do Campeonato Sul-Americano Sub-20 de 1967.

O “nascimento” do Defensores del Chaco

defensores 1917

Em 1968, um novo grupo de engenheiros e arquitetos passou a trabalhar na remodelação do estádio. O projeto tinha como destaques a remodelação completa da fachada e das arquibancadas, construção de vestiários modernos, cabines de imprensa e áreas de acesso reformadas, o que ampliou a capacidade do estádio para mais de 50 mil pessoas. As obras duraram vários anos e foram feitas por etapas, de modo que não prejudicasse a utilização do estádio. Já em 1974 (algumas fontes citam 1972), a liga paraguaia decidiu rebatizar em definitivo o Puerto Sajonia como Estádio Defensores del Chaco, em homenagem aos soldados que combateram na Guerra do Chaco. Nunca um nome foi tão preciso para um estádio. E, a partir dali, a principal casa do futebol paraguaio foi palco de grandes jogos e de um período de ouro do esporte no país.

defensores del chaco anos 1970
1979 campeon intercontinental porta
Jornal sueco destaca vitória do Olimpia no Mundial de 1979.
 

Tudo começou em 1975, quando o Defensores del Chaco abrigou a final da Libertadores entre Independiente-ARG e Union Española-CHI, que estavam empatados em pontos após vitória dos chilenos na ida (1 a 0) e vitória argentina na volta (3 a 1). No duelo desempate, diante de 55 mil pessoas, o Independiente venceu por 2 a 0 e celebrou outra conquista continental. Quatro anos depois, foi a vez do Olimpia começar a sua caminhada rumo ao seu primeiro título da Libertadores no Defensores del Chaco, quando derrotou o Boca Juniors-ARG por 2 a 0 e, na Argentina, segurou o empate sem gols para dar a volta olímpica em plena La Bombonera.

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Uma das formações paraguaias de 1979 – Em pé: Juan Espínola, Juan Bautista Torales, Flaminio Sosa, Carlos Kiese, Roberto Fernández, Roberto Paredes. Agachados: Aldo Florentín, Milcíades Morel, Osvaldo Aquino, Amado Pérez e Julio César Romero.
 

Ainda em 1979, foi a vez da seleção do Paraguai derrotar o Chile por 3 a 0 no primeiro jogo da final da Copa América e, após dois jogos, celebrar o título continental. Já em março de 1980, o Defensores del Chaco recebeu 47 mil pessoas na final do Mundial Interclubes entre Olimpia e Malmö-SUE, que terminou com vitória paraguaia por 2 a 1 e selou o inédito título do Decano. Até hoje, foi a única vez que um clube do Paraguai levantou o Mundial. E o fez justamente no Defensores del Chaco!   

Novas finais e o Marzo Paraguayo

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Festa do Argentinos campeão de 1985.
 

Em 1985, o Defensores del Chaco abrigou mais uma finalíssima de Libertadores. Naquele ano, Argentinos Juniors-ARG e América de Cali-COL chegavam em igualdade de pontos após uma vitória para cada lado e pouco mais de 25 mil pessoas foram ao templo do futebol paraguaio para conhecer o novo campeão. Commisso, aos 37’, e Gareca, aos 41’, fizeram os gols do empate em 1 a 1 que levou a decisão para as penalidades. Na marca da cal, o Argentinos Juniors converteu todas as suas cobranças, mas Antony de Ávila desperdiçou o último chute do América, e o placar de 5 a 4 coroou o inédito título dos argentinos. Por outro lado, aquela foi a primeira das quatro finais de Libertadores perdidas pelo América, que saiu com o vice nas edições de 1986, 1987 e 1996.

A partir de 1989, o Defensores del Chaco foi a casa do Olimpia em três finais seguidas de Libertadores. O Decano terminou com saldo de um título (1990) e dois vices (1989 e 1991), mas decidiu todas as finais fora de casa. E, em todos os jogos que fez no Defensores, saiu invicto. Em 1989, bateu o Atlético Nacional-COL por 2 a 0 (gols de Bobadilla e Sanabria) – diante de 50 mil pessoas -, mas acabou perdendo por 2 a 0 a volta e, depois, nos pênaltis. Em 1990, derrotou o Barcelona-EQU por 2 a 0 (gols de Amarilla e Samaniego) e segurou o empate em 1 a 1 no Equador para celebrar o bicampeonato. Só em 1991 que o estádio não fez a diferença e o placar de 0 a 0 complicou as coisas para o Olimpia diante do Colo-Colo-CHI, pois os chilenos venceram por 3 a 0 a volta e ficaram com o caneco.

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Raúl Amarilla, o goleador principal daquele Olimpia imortal.
 

Em 1999, o estádio viveu um momento tenso por conta do Marzo Paraguayo, como ficou conhecido o período político do país após o assassinato do vice-presidente Luis María Argaña, em 23 de março daquele ano, crime diretamente ligado ao presidente da república, Raúl Cubas, e seu aliado Lino Oviedo. Nos dias seguintes, várias manisfestações pedindo o Impeachment de Cubas e a prisão de Oviedo aconteceram no Paraguai, em especial na capital Assunção. E, no dia 26 de março, enquanto milhares de pessoas protestavam na porta do congresso, um jogo entre Olimpia e Corinthians, válido pela Libertadores, estava marcado para acontecer no Defensores del Chaco. Mesmo diante de um cenário de guerra e mortes – sete manifestantes foram mortos na madrugada daquele dia 26 -, a Conmebol manteve a partida para o dia e local agendados sem qualquer responsabilidade.

olimpia corinthians 1999

Por conta disso, apenas 5 mil pessoas foram ao Defensores del Chaco e nenhuma rádio do país transmitiu o jogo, pois o foco eram as manifestações e serviu ainda como uma represália à Conmebol. No primeiro tempo, com o Olimpia vencendo por 1 a 0, um apagão tomou conta do estádio e muitos temeram pelo pior. Quem sentiu o baque e o temor de um Golpe de Estado foi o técnico do Olimpia, Luis Cubilla, que chamou um táxi e fugiu. Na época, pensaram que ele havia saído por problemas médicos, mas na verdade ele foi direto para sua casa a fim de proteger sua família. A luz voltou e o segundo tempo foi jogado. Sem técnico, o Olimpia perdeu por 2 a 1 para o Timão. Tempo depois, o presidente paraguaio renunciou e eleições foram realizadas no país.

Copa América, reformas e o século XXI

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brasil1999

Ainda no conturbado ano de 1999, o Defensores del Chaco passou por melhorias a fim de receber a Copa América daquele ano. O estádio ganhou assentos numerados em todos os setores, o que reduziu sua capacidade para cerca de 42 mil pessoas, e benfeitorias em sanitários, sala de imprensa, reforços estruturais de concreto e nova drenagem do gramado. O estádio foi sede de nove jogos, incluindo duas partidas das quartas de final, uma semifinal, a disputa pelo terceiro lugar e a grande final, que teve vitória do Brasil sobre o Uruguai por 3 a 0, gols de Rivaldo (2) e Ronaldo. 

Em 2002, o Defensores del Chaco voltou a receber uma final de Libertadores, mas o Olimpia, ao contrário das outras que disputou, acabou perdendo o duelo da ida para o São Caetano-BRA por 1 a 0. Porém, na volta, o Decano derrotou os brasileiros por 2 a 1 no Pacaembu e, nos pênaltis, ficou com o tricampeonato. Quatro anos depois, como parte dos comemorativos do centenário da Associação Paraguaia de Futebol – já com novo nome desde 1998 -, a entidade inaugurou no Defensores del Chaco o museu do futebol paraguaio, com tudo sobre o esporte no país. Em 2013 e 2014, mais duas finais de Libertadores foram realizadas no estádio. Em 2013, o Olimpia venceu o Atlético Mineiro-BRA por 2 a 0 no duelo da ida e voltou a fazer a festa diante de sua torcida, que recebeu o clube com um lindo mosaico nas sinuosas arquibancadas. Mas, na volta, o Olimpia perdeu por 2 a 0 e, nos pênaltis, viu o Galo ficar com a taça.

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Apesar da derrota na ida, Olimpia venceu a volta, no Brasil, e foi campeão da Libertadores de 2002.
 
olimpia
Mosaicos da torcida do Olimpia sempre impressionam no Defensores del Chaco. Na foto, um dos recebimentos da hinchada do Decano na campanha do vice da Libertadores de 2013.
 
final da sul americana no defensores del chaco

Já em 2014, o surpreendente Nacional-PAR foi o primeiro clube do país sem ser o Olimpia a disputar uma final de Libertadores no Defensores del Chaco. Foi no duelo de ida contra o San Lorenzo-ARG e terminou com empate em 1 a 1, com o gol dos paraguaios saindo nos acréscimos. Na volta, na Argentina, o Ciclón venceu por 1 a 0 e acabou com o sonho dos tricolores. Naquele ano, o Defensores del Chaco chegou à marca de 10 finais de Libertadores, perdendo apenas para o Centenário (URU) (21 finais), Nacional de Santiago (CHI) (11 finais) e La Bombonera (ARG) (11 finais).

Atualmente, o estádio possui arquibancadas personalizadas com as cores da seleção paraguaia e toda a estrutura exigida para grandes eventos. Após um hiato de uma década de finais continentais, o estádio foi sede da final da Copa Sul-Americana de 2025 entre Atlético Mineiro-BRA e Lanús-ARG – que terminou com vitória argentina nos pênaltis por 5 a 4, após empate em 0 a 0 -, uma volta ao protagonismo que o templo do futebol paraguaio sempre teve no continente.

Defensores del Chaco

Curiosidades:

  • Vários shows já foram realizados no Defensores del Chaco. Destaque para as apresentações de Air Supply, Roxette, Duran Duran, Bon Jovi, Luis Miguel e Paul McCartney;
  • Em 2010, 20 mil pessoas fizeram uma vigília nas arquibancadas do Defensores del Chaco pela saúde do atacante Salvador Cabañas, que estava internado na UTI após levar um tiro na cabeça. As preces ajudaram, pois o jogador milagrosamente se recuperou e sobreviveu, embora não tenha conseguido voltar a jogar como antes;
  • O Defensores del Chaco ainda recebeu as finais da Supercopa da Libertadores de 1990, da Copa Interamericana de 1980 e de vários campeonatos sul-americanos de categorias inferiores.

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