Por Guilherme Diniz, de Lima (PER)
Nome: Estadio Monumental del Club Universitario de Deportes (atualmente, após a compra dos naming rights pela Marathon, em 2022, o estádio é chamado Monumental U Marathon)
Localização: Lima, Peru
Inauguração: 02 de julho de 2000
Partida Inaugural: Universitario-PER 2×0 Sporting Cristal-PER, 02 de julho de 2000
Primeiro gol: Eduardo Esidio, do Universitario
Proprietário: Club Universitario de Deportes
Capacidade: 80.093 pessoas
Recorde de público: 80.208 pessoas no jogo inaugural Universitario 2×0 Sporting Cristal, 02 de julho de 2000.
Caminhando pela avenida Javier Prado Este, partindo da praça Óvalo Huarochirí, uma multidão segue em frente. Sigo todos eles, que vão cantando, balançando bandeiras e batendo nas latarias dos carros e vans, em puro êxtase. É dia de jogo do Universitario pelo Campeonato Peruano. O adversário, Juan Pablo II, não causa nenhuma apreensão nem abala a confiança do torcedor. Olhando aos arredores, ficava difícil ver o estádio, apenas as imponentes curvas do Cerro Puruchuco e a areia que ele leva ao asfalto e às calçadas. Só quando se passa a Avenida Punta e Sal que, enfim, ele aparece. Imponente, encravado nas montanhas, em tons cremes como manda a cartilha do Universitario. Viro à direita na rua Lolo Fernández, em direção à entrada da Tribuna Oriente.
A fila para entrar é imensa, mas vai rápido. Chega minha vez. Mostro o ingresso no celular e meu documento. De bate-pronto, estranham, pois estão acostumados a ver apenas peruanos por ali. Um brasileiro vendo jogo do Universitario? Coisa rara! O funcionário pede para eu esperar, enquanto ele fala com seu chefe via rádio. Após a permissão, passo pela portaria, pela revista policial (na qual tive que deixar minha garrafa de água) e, enfim, entro no Coloso de Ate. Por ali, outra fila, para coletar o combo (bebida + lanche) que o ingresso dava direito. Ao entrar nas arquibancadas, busco um lugar no canto e me sento, sozinho, a fim de apreciar o segundo maior estádio da América do Sul e a festa de uma torcida apaixonada que não se cansa de cantar, batucar e exaltar com faixas e cantos seu clube e seu maior ídolo, Lolo Fernández, que possui até estátua na entrada principal.
Ver ao vivo o Estádio Monumental U é simplesmente inesquecível. Mesmo com apenas 25 anos de existência, ele possui uma aura clássica que não vemos em estádios modernos. Tem detalhes de estádio raiz, imponentes camarotes, dos quais os tradicionais papéis picados voam sobre os assentos inferiores e gramado, a bateria da hinchada que vai percorrendo as arquibancadas agregando mais gente a cantar e a peculiaridade de ser um dos poucos estádios do mundo “temperado” com uma fina areia do cerro vizinho. É hora de conhecer a história desse ícone do futebol peruano.
Sumário
Os primórdios do Lolo Fernández

Antes de ser dono do maior estádio do país, o Universitario teve o primeiro estádio particular do Peru: o Teodoro Lolo Fernández, cujo nome é uma homenagem ao lendário Lolo Fernández, maior ídolo do clube e maior artilheiro do Universitario com 161 gols em 180 jogos oficiais. O estádio começou a ser construído em 1950 e inaugurado em 1952, perto do centro histórico da cidade de Lima, para pouco mais de 4 mil pessoas e com vitória de 4 a 2 do Universitario sobre a Universidad de Chile, com três gols de Fernández, que vivia seus últimos momentos com a camisa crema, vestida por ele durante 23 anos. Com o passar do tempo, o Universitario adquiriu uma segunda tribuna junto à Federação Peruana de Basquete, com aporte de 5 mil assentos. Em 1968, foi construída a tribuna Oriente, com capacidade para 6 mil pessoas, totalizando 15 mil pessoas.


Acanhado, o estádio do Universitario jamais foi a primeira escolha para grandes jogos, pois o clube acabava mandando suas partidas no Estádio Nacional, inaugurado também nos anos 1950, mas de propriedade do governo e que abrigava mais de 40 mil pessoas. No final dos anos 1960, o rival Alianza Lima começou as obras de seu estádio, o Alejandro Villanueva, que iria superar a casa crema para abrigar mais de 30 mil pessoas. Isso começou a motivar o Universitario a ter um estádio relevante e que tivesse estrutura adequada para sua fanática – e cada vez maior – torcida.
Em 1989, foi lançado o primeiro projeto de um complexo esportivo na região de Ate, próxima às montanhas, que iria incluir não só um estádio, mas outros espaços esportivos e um espaço para eventos e shows. A pedra fundamental foi lançada em 1991 e o terreno foi comprado em outubro de 1994. Por conta de trâmites burocráticos, as obras só começaram em julho de 1996, seguindo o projeto do renomado arquiteto uruguaio Walter Lavalleja Sarries, responsável pela construção e remodelação de outros estádios da América do Sul como Hernando Siles (BOL), Isidro Romero Carbo (EQU), George Capwell (EQU), Azteca (MEX), Beira-Rio (BRA) e o do rival Alianza Lima.
A grande obra

Sarries utilizou o Manual de Especificações Técnicas da FIFA para o novo milênio como base para o estádio do Universitario, possibilitando a realização de finais e grandes jogos. O foco do projeto era também a maximização dos espaços, privilegiando a vista de qualquer local, conseguindo uma acústica perfeita para concertos, criando rotas de fuga rápidas e seguras, além de grandes arquibancadas laterais e atrás dos gols. No Monumental U, também iria funcionar a sede administrativa, a concentração do time profissional, instalações às categorias de base, campos de treinamento anexos e até mesmo outras estruturas poliesportivas.
O Monumental U teria ainda impressionantes 1250 camarotes (conhecidos como palcos), divididos em seis andares, o que deu uma complexidade ainda maior ao projeto e fez as obras demorarem quatro anos, apesar de eles terem sido sustentáculos importantes que viabilizaram as obras. Imponente, o estádio teria capacidade para mais de 80 mil pessoas, sendo 59.177 pessoas nas arquibancadas e 20.916 pessoas nos camarotes. O gramado foi projetado 18 metros abaixo do nível do solo e contaria com um moderno e específico sistema de irrigação para a grama, afinal, na cidade de Lima praticamente não chove ao longo do ano devido a uma combinação da Corrente de Humboldt e da sua geografia, onde a corrente fria do Pacífico resfria o ar, impedindo-o de subir e formar nuvens de chuva.
Nasce o maior do Peru

Em 02 de julho de 2000, o Monumental U foi oficialmente inaugurado em um dia de grande festa e com público superior a 80 mil pessoas, até hoje o maior da história do estádio. A festa foi completa graças à vitória do Universitario sobre o Sporting Cristal por 2 a 0, com o primeiro gol anotado por Eduardo Esidio, enquanto Piero Alva anotou o segundo. Em setembro, o clube realizou seu último jogo no estádio Lolo Fernández – vitória por 6 a 2 sobre o Deportivo Pesquero – e passou a utilizar o local como centro de treinamentos. Ainda em 2000, o Universitario levantou o título do Campeonato Peruano em sua nova casa e coroou uma temporada inesquecível.
Com as reformas de adequação às normas de segurança da FIFA pelas quais vários estádios da América do Sul passaram – entre eles o Maracanã –, o Monumental U passou a ser o maior estádio do continente em termos de capacidade e virou um ícone do Peru e do futebol sul-americano. Embora o Universitario não tenha conseguido reunir grandes futebolistas nem brigar por grandes títulos continentais desde a inauguração do Coloso de Ate, o estádio foi palco de alguns jogos da seleção peruana, mas acabou de fora das sedes da Copa América de 2004 por causa de uma briga entre o presidente do Universitario na época, Alfredo González, e o presidente da Federação Peruana de Futebol, Manuel Burga.
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Tudo começou após os incidentes ocorridos no estádio Municipal de Urcos entre Cienciano e Universitario, em 23 de maio de 2004, quando os Cremas tiveram cinco jogadores expulsos e, por terem ficado com apenas seis atletas em campo, perderam o jogo. Houve muita briga antes e depois da partida e um ambiente muito hostil que fez com que o presidente González proferisse as seguintes palavras ao mandatário da FPF:
“Se a Federação Peruana de Futebol não punir o árbitro Garay, a “U” não permitirá que o Estádio Monumental U seja usado para jogos da Copa América. Não podemos ficar em casa ao lado do inimigo”.
Com isso, Manuel Burga decidiu escancarar de vez a tensão e excluiu o Monumental U da competição, transferindo vários jogos, incluindo a abertura e a final, para o Estádio Nacional, onde o Brasil derrotou a Argentina em um jogo épico e ficou com o título. Por causa disso, a seleção peruana passou a jogar bem menos no Monumental U – após cinco jogos entre 2002 e 2004, só voltaria ao Coloso em 2007, e outras vezes ao longo dos anos.
Libertadores e consolidação

Em 2009, o Universitario celebrou o título nacional em sua casa, após derrotar o rival Alianza Lima por 1 a 0 na partida de volta, encerrando um jejum de nove anos sem conquistas. Dois anos depois, a tribuna Presidencial passou a se chamar Palco Presidencial Mario Vargas Llosa, em homenagem ao escritor Mario Vargas Llosa, torcedor do Universitario e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. Ainda em 2011, uma parte dos assentos das arquibancadas do setor Oriente foi modificada para formar o rosto do ídolo Lolo Fernández, que ganhou ainda uma estátua na porta do estádio, esta que acabou vandalizada em abril de 2021 por torcedores do Sporting Cristal e substituída por outra meses depois, com o apoio financeiro de 8 mil torcedores.





Em 2011, a equipe sub-20 do Universitario levantou a Copa Libertadores da categoria no Monumental U, após derrotar o Boca Juniors-ARG nos pênaltis por 4 a 2. Em 2019, foi a vez do estádio abrigar a primeira final única da história da Copa Libertadores, entre Flamengo-BRA e River Plate-ARG, que terminou com vitória brasileira por 2 a 1, de virada, com dois gols de Gabriel Barbosa nos minutos finais.
Em 2025, o Monumental U foi mais uma vez palco da final da principal competição do continente e levou milhares de torcedores a Ate, que caminharam pela avenida Javier Prado Este até se depararem com o Colosso que há 25 anos rivaliza em imponência com as montanhas de Puruchuco. E, assim como em 2019, o Flamengo foi campeão ao derrotar o Palmeiras por 1 a 0 e se consagrar como primeiro brasileiro tetracampeão da Libertadores.




Curiosidades:
- Por conta de brigas entre torcedores e do local hostil em que se encontra, o Monumental U não abriga muitos clássicos entre Universitario e Alianza Lima. A maioria dos duelos acontece no Estádio Nacional. Até hoje, foram 19 jogos no Monumental U, com 9 vitórias do Universitario, 6 vitórias do Alianza Lima e 4 empates;
- A Seleção Peruana já disputou 22 jogos no Monumental U, com 7 vitórias, 9 empates e 6 derrotas;
- O Monumental U é comumente utilizado para shows e grandes eventos. Entre as bandas e cantores que já passaram pelo Coloso de Ate, destaque para Alejandro Sanz, Paul McCartney, Maroon 5, The Rolling Stones, Iggy Pop, Maluma, Guns N’ Roses, Maná, Gabriel O Pensador, Anitta entre outros;
- O Estádio Monumental U conta com outros serviços complementares como 2.500 vagas de estacionamento, restaurantes, praça de alimentação, capela, centro comunitário (órgão municipal, correios, telefone público, etc.), espaço do Instituto Nacional de Defesa Civil, espaço do Corpo de Bombeiros, espaço da Cruz Vermelha, espaço da Polícia Militar e duas subestações elétricas;
- No piso superior da arquibancada oeste há um circuito fechado de televisão com oito câmeras coloridas, tipo domo, com rotação de 360° localizado dentro e fora do estádio. O estádio possui iluminação LED e um painel eletrônico com tela LED, cujas dimensões giram em torno de 100 metros quadrados, sendo a maior tela de um estádio de futebol no Peru;
- O Monumental U é atualmente o segundo maior estádio da América do Sul em termos de capacidade. Ele perdeu a liderança para o Monumental de Núñez, do River Plate (ARG), que passou por reformas que aumentaram sua capacidade para mais de 85 mil pessoas.
OBS.: no jogo em que fui, citado no começo do texto, o Universitario acertou uma bola na trave no primeiro tempo, mas encontrou o caminho do gol e fez 3 a 0 na etapa final.
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