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Craque Imortal – Just Fontaine

 

Nascimento: 18 de agosto de 1933, em Marrakech, Marrocos (à época colônia francesa).

Posição: Atacante

Clubes: USM Casablanca-MAR (1950-1953), Nice-FRA (1953-1956) e Stade de Reims-FRA (1956-1962).

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Francês (1955–56) pelo Nice.

3 Campeonatos Franceses (1957–58, 1959–60 e 1961–62), 2 Copas da França (1953–54, 1957–58) e 2 Troféus dos Campeões (1958, 1960) pelo Stade de Reims.

Principais títulos individuais e artilharias

Maior Artilheiro de uma única edição de Copa do Mundo na história: 1958 (13 gols)

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA de 1958

Artilheiro da Liga dos Campeões da UEFA: 1958-1959 (10 gols)

Artilheiro do Campeonato Francês: 1957-1958 (34 gols) e 1959-1960 (28 gols)

FIFA 100: 2004

8º Maior artilheiro da história da seleção da França: (30 gols)

Eleito para a Seleção dos Sonhos da França do Imortais: 2020

 

“Justô, o Implacável”

Por Guilherme Diniz

 

A Copa de 1958 ficou marcada por ter sido a primeira vencida pelo Brasil e, principalmente, por ter mostrado ao mundo do futebol um certo Pelé. Porém, o Rei não foi o único destaque daquele Mundial. Foi na Suécia que um jogador anotou um feito histórico que permanece intacto até hoje: estamos falando do atacante francês Just Louis Fontaine. Na ocasião, o “Justô” (a grafia é Justo, colocamos o acento para exemplificar a fonética) , como sempre foi conhecido, anotou 13 gols e se tornou o maior artilheiro de uma única edição de Copa do Mundo, além de ser um dos poucos a romper a barreira dos 10 gols em qualquer Mundial. Uma verdadeira máquina de gols em sua época, Fontaine escreveu seu nome na história pela façanha na Copa de 1958, mas também por sua média formidável em clubes. Parável apenas com faltas e muito habilidoso, Justô é considerado um dos grandes atacantes do futebol mundial em todos os tempos, e que teve que superar até mesmo uma guerra para se consolidar como uma das grandes figuras da história do esporte – além de liderar uma geração francesa muito antes e Les Bleus dominarem os prognósticos de apostas nas cotações esportivas, como acontece hoje com o atual esquadrão liderado por Kylian Mbappé. É hora de relembrar.

 

O início no Marrocos

A França é uma seleção que sempre se beneficiou pelo fluxo migratório de países africanos, especialmente aqueles do Magreb, ou seja, do norte do continente. Just Fontaine foi um dos primeiros grandes exemplos desse êxodo. Ele nasceu em Marrakech, no Marrocos (na época, colônia francesa), em 18 de agosto de 1933. Filho de pai francês e mãe espanhola, Fontaine despontou para o futebol aos 17 anos, atuando pelo USM Casablanca, equipe marroquina muito tradicional na primeira metade do século XX, que acabou encerrando as atividades em 1958. Em sua primeira temporada pelo Casablanca, Fontaine mostrou seu faro de gol ao balançar as redes 23 vezes em 16 partidas pela liga nacional marroquina. A média de pelo menos um gol por jogo se manteve nas duas temporadas seguintes, com destaque para os 22 gols em 22 jogos na época 1952-1953.

 

A chegada à França

Dessa forma, ele chamou a atenção do futebol francês, assinando com o Nice em 1953. Sua primeira temporada foi de 20 gols, número que cresceu na temporada seguinte, quando anotou 22 tentos. O sucesso no clube da Riviera Francesa em três anos consecutivos – apesar de ter marcado poucos gols na última – levou Fontaine ao principal time do país na época, o Stade de Reims, chegando na temporada 1956-1957.

Em seis temporadas com o clube do norte do país, Fontaine acumulou títulos e feitos. A média de gols seguiu altíssima: foram 145 gols em 152 jogos, maior média da história do Reims. Por lá, ajudou a equipe a dominar o cenário nacional, ao lado de nomes como Raymond Kopa, Jean Vincent, Robert Jonquet e outros tantos da seleção francesa. Foram três títulos conquistados na Ligue 1 (1957-1958, 1959-1960 e 1961-1962), além de duas Copas da França e dois Troféus dos Campeões. Por duas vezes, Fontaine foi o artilheiro do Campeonato Francês, marcando 34 gols em 26 jogos na época 1957-1958 e 28 gols em 28 jogos em 1959-1960 – médias impressionantes de um ou mais gols por jogo.

Fontaine, pelo Reims.

 

Com o domínio nacional mais do que consolidado, faltava ao Reims buscar a glória continental na recém-criada Copa Europeia, agora conhecida como Liga dos Campeões da UEFA. Um ano antes da chegada de Fontaine, o clube chegou à final inaugural do torneio, mas acabou perdendo para o Real Madrid de Di Stéfano. Na temporada 1958-1959, os franceses novamente fizeram uma grande campanha, já com Fontaine no comando de ataque. O atacante terminou como artilheiro da competição, marcando 10 gols, e conduziu o Reims à mais uma final europeia. Porém, o clube francês acabou novamente derrotado pelo Real Madrid de Alfredo Di Stéfano e Raymond Kopa – que depois se juntou a Fontaine no próprio Reims a partir de 1959.

 

A jornada na seleção francesa

Kopa e Fontaine, expoentes da França de 1958.

 

Muito antes dos esquadrões comandados por Michel Platini, nos anos 1980, e Zinédine Zidane, nos anos 1990 e 2000, a França testemunhou sua primeira geração de ouro nos anos 1950. Nomes como Raymond Kopa, Jean Vincent, Roger Marche, Robert Jonquet, Armand Penverne, Dominique Colonna e Roger Piantoni enchiam os franceses de esperança por um inédito título mundial. E Just Fontaine também fez parte dessa geração. Ele estreou na seleção em uma partida válida pelas eliminatórias da Copa de 1954, contra Luxemburgo, e logo de cara deixou seu cartão de visitas ao marcar 3 gols na goleada por 8 a 0. Apesar do bom desempenho, ficou fora da Copa de 1954, muito em virtude de ter servido durante 30 meses durante a Guerra da Argélia, que terminou com a independência do país africano, então colônia francesa – nesse período, Fontaine chegou a vestir a camisa da seleção militar francesa. Tempo depois, já liberado do serviço militar e em grande fase no Reims, Fontaine entrou no radar do treinador Albert Batteux para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia.

Albert Batteux, técnico da França em 1958.

 

Batteux manteve parte do elenco que havia disputado a Copa do Mundo de 1954, na Suíça, e manteve jogadores como François Remetter, Claude Abbes, Raymond Kaelbel, Robert Jonquet, Jean-Jacques Marcel, Armand Penverne, León Glovacki, Raymond Kopa e Jean Vincent (naquele Mundial, os franceses caíram ainda na primeira fase, mas o elenco era relativamente jovem e sem experiência internacional). Assim como fizera em seu clube, o Reims, Batteux levou para a seleção princípios táticos muito importantes. Ele soube dispor os atletas em função das qualidades e possibilidades específicas de cada um a fim de explorar ao máximo o talento de este ou aquele jogador. Tal fato ficou muito explícito em Raymond Kopa, meia que cresceu muito técnica e taticamente após ser comandado por Batteux no Reims e na seleção. Seria apenas uma questão de tempo para que aquela nova França desse liga.

Após o atacante Cisowski fraturar a perna pelo Racing de Paris, a convocação francesa ganhou espaço para Just Fontaine, que nem esperava uma ida ao Mundial. O treinador sabia da qualidade de Fontaine e de seu poder de finalização e tinha certeza que um bom meia (Kopa) poderia facilitar bastante as coisas. Com a dupla e mais três homens na frente – Vincent, na esquerda, Piantoni, mais por dentro, e Wisniewski, pela ponta-direita, a França teria um poder de fogo simplesmente devastador.

 

O início da mitologia

Logo no primeiro jogo da França na Copa, Fontaine anotou 3 gols na goleada por 7 a 3 sobre o Paraguai, em Norrköping. Foram dele também os dois gols franceses na derrota para a Iugoslávia, além do segundo gol que garantiu o triunfo por 2 a 1 diante da Escócia, ainda na fase de grupos. Na etapa eliminatória, Fontaine voltou a brilhar com dois gols na goleada por 4 a 0 sobre a Irlanda do Norte, nas quartas. O destino, no entanto, colocou a França no caminho do Brasil, comandado por Vicente Feola. Justô fez sua parte – marcou o gol de empate diante dos brasileiros, que venciam por 1 a 0, gol de Vavá – mas não contava com a genialidade de Pelé, que balançou as redes três vezes e comandou a goleada por 5 a 2, pondo fim ao sonho francês que só seria concretizado 40 anos mais tarde.

Fontaine ainda voltou a brilhar na decisão do terceiro lugar, quando marcou nada menos que 4 gols na goleada por 6 a 3 sobre a Alemanha, terminando a competição com incríveis 13 gols em apenas seis jogos, façanha que permanece intacta como o melhor desempenho de um artilheiro em uma só edição de Mundial! Ninguém jamais conseguiu marcar tantos gols em uma Copa como ele (e pensar que ele nem iria disputar a competição!). Kopa foi outro grande nome da equipe ao contribuir com sete assistências e marcar três gols. No total, a França teve o melhor ataque da Copa (23 gols em seis jogos, média de 3,83 gols por jogo) e a pior defesa (15 gols sofridos em seis jogos, média de 2,50 gols por jogo), números que revelam claramente a tônica daquele time: atacar sempre e de todas as maneiras, sem se preocupar com o que acontecia lá atrás. Uma doce irresponsabilidade que fez o time francês receber elogios de todo o planeta e entrar para os livros e enciclopédias sobre futebol e sobre as Copas.

Justô seguiu defendendo a seleção francesa até 1960, e encerrou sua trajetória nos Bleus com incríveis 30 gols em 21 jogos oficiais. Hoje, ele ocupa o 8º lugar na lista de artilheiros da história da França, encabeçada por Thierry Henry, que tem 51. No entanto, em média de gols, dificilmente será alcançado. Além disso, ele permanece entre os quatro maiores artilheiros da história das Copas. Seus 13 gols (média absurda de 2,17 gols por jogo, atrás apenas dos 2,20 gols por jogo do húngaro Sándor Kocsis, em 1954, que marcou 11 gols em 5 jogos) só são superados por Miroslav Klose (16), Ronaldo (15) e Gerd Muller (14) – todos, no entanto, disputaram o Mundial mais de uma vez, ao contrário de Fontaine.

 

Final precoce

Fontaine, Kopa e Piantoni, no Reims.

 

Após a grande campanha no Mundial de 1958 e na Copa Europeia de 1958-1959, Just Fontaine vivia seu auge no futebol e a expectativa de comandar o ataque francês em pelo menos mais dois ciclos. Porém, uma grave lesão na tíbia e no perônio da perna direita impediu o prosseguimento de sua carreira. Ele sofreu a fratura durante uma partida entre Reims e Sochaux, em 1960, após dura entrada do atacante marfinense Sékou Touré. Um ano mais tarde, em partida contra o Limoges, Fontaine viu novamente sua perna ser fraturada, o que acabou culminando com o final precoce de sua carreira profissional. Justô fez seu último jogo em 1962, com apenas 28 anos. Ele se despediu da Ligue 1 com a marca de 164 gols em 200 partidas oficiais e a maior média de gols em um só torneio – 1,31 gol por jogo, graças aos 34 gols em 26 jogos de 1957-1958.

 

Carreira como treinador

Fontaine é erguido pelos atletas no PSG de 1974: clube parisiense nunca mais caiu após subir de divisão. Foto: Robert Legros / L’Équipe.

 

Após o término como jogador, Just Fontaine ingressou no comando técnico e chegou até mesmo a dirigir a seleção francesa – a “aventura”, porém, durou somente dois jogos. Mas existem dois bons trabalhos a se destacar. Em 1973, ele assumiu um recém-fundado clube da capital francesa – o Paris Saint-Germain. O clube estreou na primeira divisão em 1971-72, mas acabou rebaixado logo de cara. Coube a Fontaine a missão de reconduzir o PSG à elite da Ligue 1, algo que aconteceu em 1973-74. De lá pra cá, o time jamais deixou de disputar a primeira divisão. Após uma curta passagem pelo Toulouse, Fontaine encerrou sua carreira como treinador no país onde nasceu, treinando a seleção nacional entre 1979 e 1981. Justo comandou a equipe na campanha do 3º lugar da Copa Africana de Nações de 1980, lançando nomes como Mohammed Timoumi, Badou Zaki e Aziz Bouderbala.

Just Fontaine, em 2017. Foto: EPA/EDDY LEMAISTRE

 

Fontaine ainda liderou, na década de 1960, a criação do principal sindicato de jogadores da França (UNFP), ajudando a melhorar as condições de trabalho dos atletas e seus contratos. Hoje, Just Fontaine é reconhecido como herói nacional na França, sendo considerado um dos grandes atacantes da história do país, com um feito em Copas do Mundo que parece longe de ser alcançado. Não fosse a série de lesões que sofreu, poderia ter hoje um status ainda maior, mas mesmo com uma curta carreira deixou um legado enorme no mundo da bola. Um craque imortal.

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Um Comentário

  1. O Fontaine foi o percussor para que Henry, Benzema, Giroud, Fernandez, Trezeguet, Anelka e tantos outros Centro Avantes Franceses pudesses obter sucesso tanto em clubes quanto em seleção. Um Cara que como goleador marcou uma época inteira. Tanto ele como o Van Basten e como o Tostão, Devido as pancadas dos adversários infelizmente se desligaram cedo do futebol e poderiam ter escrevido páginas ainda mais douradas e vitoriosas Após os 30 Anos. Uma pena. Mas a história jamais será esquecida e renegada pelos amantes do esporte.

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