Por Guilherme Diniz
No ano de 2000, além da tão aguardada virada do milênio e o temor do “bug” nos computadores, sistemas e servidores de todo planeta, tivemos uma eleição na FIFA que elegeu o melhor clube do Século XX. Em tempos onde a internet apenas engatinhava e sem redes sociais, a eleição foi restrita aos assinantes da revista oficial da entidade, a FIFA World Magazine, publicação bimestral da FIFA. Ou seja, não houve votação popular aberta na internet, nem júri técnico internacional, muito menos um ranking matemático por títulos.
Por isso, a lista já nasceu polêmica e sem qualquer peso técnico. Por outro lado, o clube vencedor foi um consenso que também seria validado por jornalistas e especialistas: o Real Madrid, multicampeão europeu e dono de uma galeria invejável de títulos já naquela época – que aumentou ainda mais nos anos 2000, 2010 e 2020. Depois do clube espanhol, aí sim que a lista ficou polêmica, pois deixou em posições bem abaixo clubes que mereciam mais destaque por seus títulos, feitos históricos e dinastias.


A cerimônia aconteceu em 11 de dezembro de 2000, em Roma (ITA), que teve ainda a escolha de Zinédine Zidane como Melhor Jogador do Ano; Pelé (BRA) e Maradona (ARG) como Jogadores do Século no futebol masculino e Michelle Akers (EUA) e Sun Wen (CHN) no futebol feminino. O Real Madrid ganhou um troféu especial da FIFA na cerimônia e a honraria foi recebida por Alfredo Di Stéfano, grande ídolo do clube, e o então presidente Florentino Pérez. Tempo depois, na temporada 2006-2007, o Real Madrid usou um emblema em sua camisa em alusão ao prêmio.
Sumário
A FIFA World Magazine
A revista da entidade máxima do futebol era publicada pela própria FIFA e enviada principalmente para federações nacionais filiadas, dirigentes e membros ligados ao futebol, clubes, instituições e assinantes individuais pagantes ao redor do mundo. A publicação não era uma revista de banca de grande circulação popular como Placar, France Football ou World Soccer na época, mas sim institucional e voltada ao público já conectado ao ambiente do futebol internacional.

Porém, naquele ano 2000, a maior concentração de assinantes estava naturalmente na Europa Ocidental, parte da América do Norte e alguns centros importantes da América do Sul. A presença era praticamente nula na África, Ásia (fora Japão e alguns polos específicos) e grande parte da América Latina. Isso ajudou a alimentar a crítica de que a eleição do Clube do Século tinha um viés europeu.
As polêmicas
Para se ter uma ideia, o Manchester United foi o segundo colocado, mesmo tendo na época apenas dois títulos europeus, ficando na frente de Bayern (que tinha 3), Ajax (que tinha 4) e Milan (que tinha 5). Vários clubes da América do Sul aparecem na lista, porém, temos alguns “poréns”. O brasileiro Botafogo aparece na 12ª posição, empatado com equipes como Boca Juniors, Independiente, Internazionale e Liverpool, sendo que o Glorioso não tinha nenhuma conquista internacional relevante até aquele ano e, comparando o clube com os citados, jamais poderia estar empatado com eles quando falamos de títulos (com todo respeito).
No entanto, por conta de seu passado nos anos 1950 e 1960 e por ter sido uma das principais fontes da seleção brasileira bicampeã mundial em 1958 e 1962, o alvinegro deve ter sido relembrado por leitores mais antigos (a maioria esmagadora europeia), por isso, ganhou seu espaço. Já o brasileiro São Paulo, bicampeão mundial na época, não aparece na lista, o que reforçou o cunho mais longevo e histórico da lista do que de títulos. A FIFA nunca apresentou uma metodologia esportiva detalhada além da votação da revista. Por isso, o prêmio é historicamente prestigiado, mas também permanentemente debatido. Tanto é que nenhum clube da África, Ásia ou Oceania aparece na lista. Veja abaixo:

O vencedor e os escolhidos
A escolha do Real Madrid foi justa e esmagadora: os merengues tiveram mais de 40% dos votos, contra 9,69% do Manchester United. Com 8 Ligas dos Campeões da UEFA, 2 Mundiais Interclubes, 2 Copas da UEFA, 2 Copas Latinas e dezenas de títulos nacionais, o Real Madrid de fato foi o maior clube do Século XX não só pela dominância de títulos, mas pelo enorme impacto global na história do futebol. Além disso, o peso da era Di Stéfano/Puskás e da hegemonia dos cinco títulos europeus seguidos nos anos 1950 foi decisivo. Logo após os madrilenos, já que o peso da lista foi mais histórico, poderíamos ver o Santos de Pelé ou o Ajax de Cruyff, mas ambos acabaram empatados na 5ª posição, perdendo para Manchester United, Bayern München e Barcelona (este também contestado pelo fato de ainda não ter o peso de títulos que conquistou principalmente a partir de 2006).



Não ter um Milan entre os cinco primeiros também foi algo contestável, afinal, os rossoneros tinham cinco títulos europeus, três títulos mundiais e esquadrões espetaculares ao longo das décadas, incluindo o de Arrigo Sacchi lá no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. O Peñarol, com cinco Libertadores e três mundiais, merecia estar na frente da Juventus, por exemplo, apesar de a Velha Senhora ter conquistado todos os títulos possíveis na época, mas ter “apenas” dois títulos da Liga dos Campeões e muitos vices.
A lista da IFFHS
Quase uma década depois, em 2009, a Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (International Federation of Football History & Statistics – IFFHS) também realizou uma eleição própria, feita com base em uma série de estudos estatísticos que determinaram os melhores clubes continentais do século XX. O ranking não considerou o desempenho das equipes em torneios nacionais de futebol (exceto no ranking de clubes da Oceania, devido às edições limitadas realizadas sob as competições de clubes da OFC).

Diferente da FIFA, a IFFHS não quis polêmica e não elegeu um “melhor clube do século”, mas sim os melhores clubes do século de cada continente. Tal lista acabou sendo mais completa e valorizou o futebol como um todo, relembrando os clubes de todos os continentes e suas façanhas, além de deixar claro o peso de cada competição. Claro que tivemos algumas polêmicas – Anderlecht no top 10 da Europa, deixando o United de fora (!) e Al Ahly atrás do Asante Kotoko na África (!!) -, mas é aquilo: não existe lista perfeita nem ranking perfeito. Veja como ficou:

E hoje, como ficariam as listas?
Quase 30 anos depois, certamente alguns clubes iriam subir bastante de posição como Barcelona, Bayern, Chelsea e Liverpool, na Europa, e Flamengo, Boca Juniors e Palmeiras, na América do Sul. Só uma coisa é certa: o Real Madrid seguiria pleno no topo. Afinal, de 2000 para cá, o clube saltou de 8 títulos europeus para 15 e, se antes tinha apenas dois Mundiais, hoje o clube tem 9 canecos! Ainda temos muito tempo pela frente, mas fica difícil imaginar outro clube tirando a majestade dos merengues neste século XXI. Se a Copa do Mundo de Clubes se consolidar, ela certamente terá um peso decisivo ao longo do tempo, com seus vencedores ganhando mais pontos em relação aos concorrentes. Mas isso só saberemos em 2100…

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