Esquadrão Imortal – Palmeiras 1993-1994


palmeiras 1993
Em pé: Mazinho, Roberto Carlos, César Sampaio, Tonhão, Sérgio e Antônio Carlos. Agachados: Edmundo, Daniel Frasson, Evair, Edílson e Zinho.

 

Grandes feitos: Bicampeão brasileiro em 1993 e 1994, bicampeão paulista em 1993 e 1994 e campeão do Torneio Rio-SP em 1993.

Time-base: Sérgio (Velloso); Mazinho, Antônio Carlos, Cléber (Tonhão) e Roberto Carlos (Cláudio); Daniel Frasson (Flávio Conceição), César Sampaio e Zinho; Edmundo, Evair e Edílson (Rivaldo). Técnico: Vanderlei Luxemburgo.

 

“Jejum? Não conheço…”

Por Guilherme Diniz

Texto publicado em março de 2012 e atualizado

 

Foram 16 anos de angústia. Nesse tempo, muitas derrotas amargas, poucos jogadores para admirar e muita gozação dos rivais. Para piorar, o Corinthians ganhava seu primeiro brasileiro e o São Paulo colecionava títulos internacionais. É, o início da década de 90 estava sendo terrível para o torcedor do Palmeiras. Como e quando o time poderia voltar a ser protagonista e ganhar um título? Oras, com dinheiro! Muito dinheiro. Foi graças a uma dourada parceria com a Parmalat que o Verdão começou a virar o jogo. Jogadores talentosos eram anunciados a baciada, toda semana. Logo, o time estava formado. Time? Ou seria seleção? O Palmeiras em 1993 e 1994 não ganhou um, mas cinco títulos, três em cima do maior rival. De quebra, com futebol bonito, pra frente, envolvente. Não havia ninguém páreo para o Palmeiras de Edmundo, Evair, Zinho, Cléber e Edílson. Eles eram endiabrados demais. Dentro e fora de campo. Mas o torcedor não ligava para as brigas entre eles. Canecos eram mais importantes, goleadas ainda mais. E ver o rival ser massacrado constantemente era indescritível. Muitos consideram aquele Palmeiras como o melhor que o time já teve. Será que foi mesmo? Só relembrando para ter certeza.

 

Construindo um esquadrão

Para colocar um ponto final no angustiante jejum que vivia o clube, a diretoria do Palmeiras conseguiu firmar uma promissora parceria com a Parmalat em 1992. O acordo traria uma fortuna ao clube, disponível para a contratação de grandes jogadores. E foi o que aconteceu. No começo do ano, o clube anunciava Antônio Carlos, Roberto Carlos, Edmundo e Edílson. Pouco tempo depois, outros chegariam, e se somavam a Evair, Mazinho, César Sampaio e Zinho. Pronto. O time estava no jeito. Era hora de correr atrás do primeiro título.

 

Paulista vira obsessão

Luxemburgo orienta seus craques, em 1993.

 

O primeiro torneio do ano seria o estadual, um prato cheio para treinar a grande equipe do Verdão. Na primeira fase, o Palmeiras ficou em primeiro lugar, com 19 vitórias, 6 empates e 5 derrotas em 30 jogos. Na segunda fase, dois grupos com quatro equipes definiriam os primeiros colocados como finalistas.  O Palmeiras venceu os seis jogos de seu grupo e foi para a final. O adversário não poderia ser mais estimulador: o Corinthians, do goleiro Ronaldo e do matador Viola.

 

A decisão

Viola provocou. E, no final, dançou!

 

Mais uma vez o paulista tinha um regulamento esdrúxulo. Se houvesse uma vitória para cada equipe nos dois jogos da final, a decisão iria para a prorrogação, e o time com melhor campanha no campeonato poderia jogar pelo empate na… Prorrogação! Bizarro? Muito! Mas, era o regulamento. No primeiro jogo, Viola fez o único gol do Corinthians na vitória por 1 a 0. Na comemoração, ele imitou um porco, para provocar os rivais. O atacante se arrependeria muito pelo feito no jogo seguinte…

O capetinha Edílson, antes de jogar pelo próprio Corinthians no final dos anos 90, brilhou com a camisa alviverde.

 

O time de 1993: velocidade, alto poder de criação e um ataque devastador.

 

Goleada no jejum!

A partida de volta foi toda do Palmeiras. O time entrou em campo com a faca entre os dentes e pronto para estraçalhar o rival. E foi o que ele fez. Zinho abriu o placar para o Verdão. No segundo tempo, Evair e Edílson ampliaram. Em uma decisão normal, o Palmeiras já seria o campeão pelo saldo de gols. Maaaaas, o jogo foi para a prorrogação. O time poderia não fazer gols que mesmo assim seria campeão. Mas Evair marcou mais um, e enterrou o jejum do Palmeiras: 4×0. O torcedor podia, depois de 16 anos, soltar o grito de campeão. Mas não tão alto, senão não conseguiria gritar nos próximos títulos que viriam ainda em 1993.

Zinho comemora: fim do jejum! Foto: Folhapress.

 

Outro título. De novo sobre o Corinthians.

Pouco tempo depois da conquista do estadual, o Palmeiras venceu o Torneio Rio-SP, batendo novamente o Corinthians na final. O Verdão venceu o primeiro jogo por 2 a 0, e segurou um empate sem gols na partida de volta para ficar com a taça. Faltava mais alguma coisa? Sim, o Campeonato Brasileiro.

 

Campeão do Brasil, 20 anos depois

No Campeonato Brasileiro, o Palmeiras fez uma campanha quase perfeita. Em 22 jogos ao longo do torneio, venceu 16, empatou 4, e perdeu apenas duas partidas. Além disso, teve o melhor ataque, com 40 gols marcados. O time enfrentou na final o surpreendente Vitória, com jovens promessas como Dida e Alex Alves, além de Paulo Isidoro, Gil Sergipano e João Marcelo. Mas o Verdão não teve dificuldades. No primeiro jogo, na Fonte Nova lotada, a equipe se impôs e venceu por 1 a 0, gol de Edílson. Na volta, no Morumbi igualmente cheio, mais de 88 mil pessoas vibraram com a vitória por 2 a 0 do Palmeiras, gols de Evair e Edmundo, ambos no primeiro tempo, o que garantiu o brasileirão ao Verdão depois de 20 anos. Era o terceiro título no ano. Para quem tinha ficado longos 16 na fila, não era nada mal… Mas o time queria mais.

 

Ano novo. Ano de bis

Antônio Carlos e Edmundo, astros do Verdão.

 

Se na Libertadores o Palmeiras não teve sorte (foi eliminado nas oitavas de final pelo rival São Paulo), no Paulista e no Brasileiro o time brilhou. No estadual, disputado em turno e returno por pontos corridos, o time de Luxemburgo sobrou. Em 30 jogos, foram 20 vitórias, 7 empates e apenas 3 derrotas. Evair, ainda mais matador, foi o artilheiro da competição com 23 gols. Novo caneco na galeria, hora de brigar pelo bi nacional.

 

Soberania

Sem Edílson, mas com Rivaldo tinindo, o Palmeiras avançou fácil até as quartas de final do Campeonato Brasileiro de 1994. O time venceu duas vezes o Bahia por 2 a 1, e encarou nas semifinais o Guarani. O Verdão venceu novamente os dois jogos, por 3 a 1 e 2 a 1, indo para a final. O adversário? Novamente o Corinthians.

 

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Com Rivaldo no ataque, o Palmeiras ganhou ainda mais qualidade ofensiva em 1994.

 

Um é bom, dois é ótimo, três é espetacular!

O goleiro Ronaldo, do Corinthians, e Rivaldo: bicampeonato foi em cima do maior rival.

 

O Palmeiras completou a trinca de vitórias pra cima do Corinthians em decisões na final do Brasileiro de 1994. Depois de vencer o paulista e o Torneio Rio-SP de 1993, o torneio nacional foi a cereja no bolo alviverde. No primeiro jogo, vitória por 3 a 1, com gols de Rivaldo (2) e Edmundo. No jogo seguinte, empate em 1 a 1, com mais um gol palmeirense marcado por Rivaldo, e a consagração de um time devastador. O Palmeiras repetia o feito da Academia da década de 70 e conquistava o bicampeonato brasileiro 1993/1994. O palmeirense nunca fora tão feliz. Afinal, vencer cinco títulos em dois anos, ver um jejum de 16 anos ir por terra e derrotar em três finais o maior rival, não teve preço. Teve alegria, eficiência e muito futebol. Ser palmeirense naqueles dois anos era a coisa mais fácil e divertida do mundo.

 

Debandada encerra o show

Edílson, Roberto Carlos, Edmundo e Antônio Carlos: estrelas do Verdão eram só risada (e títulos!) naquela época.

 

Após a final do brasileiro, o Palmeiras começou o desmanche. Mazinho foi para a Espanha. Edmundo foi seduzido pelo Rio e foi jogar no Flamengo. Evair foi outro que partiu, para o Japão. Roberto Carlos foi brilhar na Europa, na Internazionale, e, posteriormente, no Real Madrid. O time viveria vacas magras até brilhar novamente em 1996 e entre 1998 e 2000 (leia mais sobre o time de Felipão clicando aqui). Mas o efeito devastador que a geração de 93/94 teve não seria igualado. O Verdão que acabou com o jejum foi mesmo imortal.

 

Os personagens:

Sérgio: foi o paredão da equipe nas decisões de 1993. Seguro, soube lidar com a pressão e garantir a retaguarda palmeirense.

Velloso: um dos grandes goleiros da história do clube, Velloso brilhou de 1994 até 1999 no alviverde. Foi peça fundamental em muitas conquistas no período.

Mazinho: dono de uma habilidade extrema, Mazinho podia jogar tanto na lateral direita quanto no meio de campo daquele time. Suas atuações o levaram à Copa de 1994, onde virou titular e ajudou o Brasil a conquistar o tetracampeonato mundial.

Antônio Carlos: depois de brilhar no São Paulo, “Zago” foi o pilar da zaga alviverde nos bicampeonatos paulista e brasileiro.

Cléber: chegou ao clube depois da conquista do paulista de 1993, mas teve tempo de levantar o brasileirão. Impunha respeito por sua presença física e muita raça. Virou o xerifão da zaga e colocou Tonhão no banco.

Tonhão: ficou conhecido como “caneleiro”, por quase sempre ir no corpo dos atacantes ao invés de ir na bola, mas conquistou rapidamente a torcida com sua raça e força de vontade. Era titular absoluto até a chegada de Cléber. Muito querido até hoje no Palmeiras.

Roberto Carlos: revelado pelo União São João, Roberto Carlos encantou o Brasil nas temporadas de 93/94 na lateral esquerda do Palmeiras.  No Verdão, já mostrava os indícios que o levariam a ser o melhor do planeta na posição anos mais tarde. Jogou tanto que logo partiu para a Europa, onde viraria estrela mundial. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Cláudio: era reserva de Roberto Carlos, por isso, teve poucas chances. Quando exigido, inclusive na final do Brasileiro de 1994, não comprometeu.

César Sampaio: foi um dos líderes do time e logo seria capitão. Tinha espírito de liderança e comandava o meio campo. Tinha muita técnica e marcava gols em suas subidas ao ataque. Ele que levantou a primeira Libertadores do Verdão, em 1999.

Daniel Frasson: era o carregador de piano do time. Discreto, cumpriu seu papel em 1993. Não comprometeu.

Flávio Conceição: comandou o meio palmeirense e foi peça fundamental nos títulos de 1994. Jogou 103 partidas pelo clube, e logo despertou interesse do La Coruña, para onde foi em 1996.

Edílson: o capetinha arrebentou no Verdão em 1993. Foi decisivo e marcou gols sempre quando o time mais precisava dele. Saiu antes de o time ser bicampeão brasileiro em 1994, para jogar no Benfica, de Portugal.

Rivaldo: no Palmeiras foi onde Rivaldo começou a dar mostras do magnífico meia-atacante que seria anos mais tarde, até chegar a melhor do mundo em 1999. Eficiente, técnico, driblador e dono de passes precisos, ele dominou o time em 1994, e foi o maestro na decisão do brasileiro contra o Corinthians. Marcou 21 gols em 44 jogos pelo clube. Um dos maiores craques que já vestiu a camisa alviverde na história. Leia mais sobre ele clicando aqui.

Zinho: craque consagrado, desfilou no Palmeiras, onde colecionou ainda mais títulos para a sua vasta coleção. Outro que fez parte do Brasil tetracampeão mundial na Copa de 1994.

Edmundo: no Palmeiras foi onde ganhou o apelido de “Animal”, tamanha sua eficiência e gana em direção ao gol. Marcou 74 gols em 180 partidas pelo Palmeiras, muitos deles decisivos. É ídolo até hoje da torcida.

Evair: outro xodó do clube e matador, Evair marcou gols em profusão no alviverde. Em sua primeira passagem, de 1991 a 1994, fez 117 tentos em 221 jogos. Voltou ao clube em 1999, justamente para ser campeão da Libertadores.

Vanderlei Luxemburgo (Técnico): soube domar os egos do time e controlar as ríspidas brigas que sempre acometiam um elenco cheio de estrelas. Mostrou a sua estrela ao vencer quase tudo o que disputou.

Evair: um dos maiores ídolos do Verdão.

 

Extras:

Jejum enterrado

O Verdão entrou mordido e disposto a acabar tanto com o Corinthians, que havia provocado o alviverde na partida de ida, quanto com o jejum de 16 anos sem título. Dito e feito. O Verdão deu show, meteu 4 gols, e levantou o paulistão.

 

Brasil alviverde

Com um Morumbi pintado de verde, o Palmeiras fez 2 a 0 no azarão Vitória e conquistou o Brasileirão depois de 20 anos. Outro jejum enterrado.

 

Empate com sabor de vitória. Verdão Bicampeão

Foi um jogaço. Ambas as equipes pressionaram, o Corinthians precisava reverter a desvantagem, mas o Palmeiras se segurou, e o empate em 1 a 1 garantiu o terceiro caneco pra cima do rival em dois anos. Brasil alviverde pelo segundo ano seguido.

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2 thoughts on “Esquadrão Imortal – Palmeiras 1993-1994

  1. “Texto publicado em março de 2012 e atualizado” – Ah bom!!! Pensei que não tivesse texto sobre esse timaço do Palmeiras, que junto com o São Paulo da mesma época, foram os primeiros super times de futebol que eu acompanhei.

  2. Sem dúvida, um dos três maiores esquadrões do Alviverde Paulista. Em 94, principalmente, o time foi todo montado para ser campeão da Libertadores, e tinha totais condições pra isso. Infelizmente, a Diretoria quis mais o dinheiro do que o título continental, sendo que a eliminação nas oitavas para o São Paulo foi das derrotas mais dolorosas para o clube em toda a história. Lembremos: em 94, o Vélez venceu a Libertadores, e foi campeão mundial. Em 94, com um pouquinho mais de cabeça, poderia ter sido o Palmeiras.

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