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Esquadrão Imortal – Mjällby 2025

Mjällby 2025
Em pé: Herman Johansson, Norén, Törnqvist, Iqbal, Bergström e Tom Pettersson. Agachados: Gustafson, Stroud, Manneh, Stavitski e Gustavsson. Foto: Björn Larsson Rosvall / TT
 

Grandes feitos: Campeão do Campeonato Sueco de 2025. Conquistou o primeiro grande título da história do clube e alcançou o recorde de pontos da história do campeonato com 75 pontos em 30 jogos.

Time-base: Törnqvist (Lundin); Axel Noren (Uba Charles), Tom Pettersson (Kiilerich) e Iqbal (Tchouante); Herman Johansson, Jesper Gustavsson (Leandersson), Thorell (Røjkjær) e Stroud (Timo Stavitski); Manneh, Bergström (Alexander Johansson) e Gustafson (Kjaer). Técnico: Anders Torstensson.

 

“A vila de pescadores que conquistou a Suécia”

Por Guilherme Diniz

No sul da Suécia, existe uma pequena vila de pescadores vizinha ao Mar Báltico chamada Mjällby, com uma diminuta população de pouco mais de 1200 pessoas. Distante dos grandes centros e pouco conhecida, Mjällby se destaca pela pesca, pela agricultura e por ter sido o local de nascimento do célebre matemático Lars Hörmander, um dos fundadores da teoria dos operadores pseudo-diferenciais. Em abril de 1939, o vilarejo ganhou um clube de futebol para chamar de seu, o Mjällby AIF, também conhecido como MAIF, uma equipe que só conseguiu subir para a elite sueca em 1980, mas que de lá para cá nunca permaneceu por muito tempo na primeira divisão, virando o clássico exemplo do clube “iô-iô”, além de ganhar o apelido de “o time que sempre retorna”. 

Por ser de uma vila pequena, o Mjällby joga na vizinha Hällevik, também pequenina – possui pouco mais de 1400 habitantes – no estádio Strandvallen, com capacidade para pouco mais de 7 mil pessoas -, e caminhou ao longo das décadas por uma linha tênue entre o profissionalismo e o amadorismo, com jogadores que alternavam a vida no futebol com trabalhos comuns. Na virada do século, o clube chegou à terceira divisão e quase faliu, mas fez valer o lema “o time que sempre retorna” e alcançou novamente a elite sueca. Porém, dessa vez, o Mjällby, como num conto surrealista, transformou para sempre sua vila e fez dela a capital do futebol sueco em 2025. Com uma campanha arrebatadora e de recordes, o aurinegro levantou pela primeira vez em sua história o título do Campeonato Sueco e não tomou conhecimento de titãs do país como Malmö, Göteborg, Norrköping, AIK e Djurgardens.

Tudo bem que de vez em quando algumas zebras acontecem em campeonatos nacionais ou até continentais, mas o que o Mjällby 2025 fez foi tão surpreendente quanto o Leicester City campeão da Premier League em 2015-2016. Jamais alguém poderia imaginar que um clube de uma vila tão pitoresca poderia levantar um título nacional depois de 30 rodadas. Muito menos diante do poder financeiro dos maiores clubes suecos. Foi como um Ted Lasso (famosa série sobre um modesto time inglês que consegue grande sucesso na Premier League mesmo comandado por um técnico sem conhecimento de futebol) da vida real, com os dramas, percalços e desafios. É hora de relembrar uma das mais fabulosas histórias do futebol em 2025.

Da quase falência à volta por cima

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O pitoresco Strandvallen: estádio cabe mais gente do que várias cidades da região juntas!
 

A história do Mjällby começou a mudar em definitivo no ano de 2016, quando o clube conseguiu escapar da queda para a quarta divisão e quase falência e passou a ser administrado por Magnus Emeus, empresário que transformou a mentalidade do clube com relação às finanças ao reduzir os custos operacionais e tornar a gestão mais eficiente. Em um país onde os clubes são propriedade dos torcedores devido à regra 50+1, o que significa que donos ricos não podem financiar os times, ser sustentável e ter uma boa administração são as chaves para a estabilidade. E, numa equipe pequenina, mais ainda. 

“Controlamos nossos custos, temos um dos menores faturamentos da liga, mas também um dos menores gastos”, comentou Jacob Lennartsson, diretor executivo do Mjällby, à BBC Sport.

“Digo sempre que temos de ser melhores nas coisas gratuitas. Podemos ter um espírito de equipe melhor que o Real Madrid, nos preparar para um jogo melhor que o Manchester United”, destacou Magnus Emeus, à Associated Press. Quem também foi essencial na reviravolta do Mjällby foi o diretor esportivo Hasse Larsson, lenda do clube desde o final da década de 1970 e que desempenhou um papel fundamental na reconstrução estrutural do time. Mesmo trabalhando sem remuneração por três anos, ele ajudou a estabilizar as finanças e lançou as bases para um futuro sustentável.

Com um bom trabalho de base e contratando jovens promissores de países da Escandinávia e da África, o clube passou a investir na formação de jovens atletas e vendê-los como meio de sobrevivência naqueles primeiros anos. Quando não era possível um bom negócio, os jovens permaneciam e se desenvolviam, como o zagueiro Jesper Gustavsson e o atacante Jacob Bergström, símbolos que seriam essenciais na caminhada dos aurinegros até a elite.

Ao longo dos anos, o Mjällby construiu um laço forte entre jogadores e comunidade. Na pequena vila, vários atletas moravam no mesmo prédio e encontravam torcedores regularmente enquanto faziam compras no supermercado, por exemplo. E, se não havia compromisso na rodada do campeonato, eles se reuniam e faziam um almoço, um churrasco ou uma confraternização para conversar sobre qualquer assunto.

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Anders Torstensson, técnico do Mjällby. Foto: Divulgação / Mjällby
 

“Esses laços se constroem fora de campo e se estendem para dentro dele também. Essa é a chave. Somos todos muito próximos e isso é especial em um clube relativamente pequeno”, disse o meia-esquerda Elliot Stroud, à BBC, sobre os laços construídos com o elenco e o povo de Mjällby e Hällevik, a cidade vizinha que abriga o estádio onde o clube manda seus jogos. 

Em 2019, o Mjällby conseguiu o título da Segunda Divisão do Campeonato Sueco e foi promovido à elite, na qual passou a ser comandado por Anders Torstensson em 2021 e em definitivo a partir de 2023. Torstensson jogou no Mjällby em 1985, mas não teve uma sequência pelo fato de ter seguido carreira militar e virado professor, além de ter participado da equipe técnica do clube nos anos 2010.

“Estávamos na Allsvenskan (a primeira divisão), mas era praticamente um clube semiprofissional. A maioria dos jogadores tinha empregos paralelos, treinávamos no final da tarde, só eu e meu auxiliar trabalhávamos em tempo integral. Tínhamos um preparador de goleiros duas vezes por semana; tínhamos um roupeiro que trabalhava em tempo integral no próprio negócio. Tínhamos um médico que trabalhava em tempo integral como professor. Não tínhamos academia. Jantávamos juntos apenas uma vez depois do treino de quinta-feira e a situação econômica era realmente muito precária”, comentou Torstensson ao The Guardian (UK). 

A experiência de vida do técnico Anders Torstensson em diferentes situações ajudou bastante a forjar aquele elenco. Com muita conversa, descontração e o ritual do café da manhã com todo o elenco em um campo com vista para o mar, o treinador criou um ambiente no qual todos eram iguais, sem vaidades nem privilégios.

Já em 2023, o técnico conseguiu formar uma equipe competitiva que alcançou a final da Copa da Suécia pela primeira vez e pôde disputar a finalíssima em casa. Porém, os aurinegros foram derrotados pelo BK Häcken por 4 a 1 e ficaram com o vice. Naquele time, já estavam nomes como o goleiro Törnqvist, o zagueiro Pettersson, o meio-campista e capitão Gustafson e o meia Herman Johansson. Na época, o Mjällby apostava nas bolas aéreas, na retranca e nos contra-ataques. Não tinha nenhum sistema tático predefinido nem uma tática infalível. Era mais “caos” ao invés de controle. Mas tudo iria mudar a partir de 2024.

A organização tática

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Iqbal (à esq.) celebra com Tom Pettersson. Foto: Johan Nilsson/TT
 

Para ajudar Anders Torstensson na temporada de 2025, o Mjällby contratou o norueguês Karl Marius Aksum, mestre em psicologia e doutor em percepção visual no futebol de elite. Mesmo sem experiência em grandes clubes, Aksum mudou completamente o estilo de jogo do Mjällby para que o clube pudesse ser dominante nas partidas ao invés de ser dominado ou apostar em retrancas pouco efetivas. Com muito treinamento e aulas, ele repassou ao elenco preciosos conhecimentos de posicionamento, táticas de jogo e maneiras de conseguir jogar de igual para igual com os maiores clubes do país. “É uma habilidade crucial no futebol moderno porque os movimentos dos jogadores são mais rápidos e a pressão é melhor, então você precisa estar sempre atento ao que acontece ao seu redor, principalmente no meio de campo”, comentou Aksum à BBC.

No dia a dia, o norueguês transformou os atletas em melhores passadores e melhores jogadores tanto ofensivamente quanto defensivamente, o que fez do Mjällby mudar de uma equipe que antes dependia muito de cruzamentos e bolas paradas para um time que joga e constrói desde a defesa para manter a posse de bola e avançar como um só, além de não depender de um único goleador, mas sim vários atletas capazes de marcar gol. 

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Uma das escalações do Mjällby: time conseguiu ser forte na defesa e ainda mais no ataque.
 
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Quando recuperava a bola, o time aurinegro conseguia atacar com até cinco homens, levando muito perigo ao adversário. Foto: the-footballanalyst.com
 

“Confio 100% no meu modelo de jogo, sabia que funcionaria neste nível. Os jogadores responderam muito, muito bem […] Começamos controlando o jogo desde a defesa. Começamos criando superioridade numérica na defesa, no mano a mano. Somos (em 2025) a equipe na Suécia que mais troca passes no nosso próprio terço do campo porque queremos controlar o jogo. Não queremos caos, queremos controle”, explicou Aksum em entrevista à BBC Radio 5 Live’s Euro Leagues.

Ao longo de 2024, o Mjällby começou a implantar as inovações de Aksum e o resultado veio rápido: 5ª colocação no Campeonato Sueco, a então melhor campanha do clube na elite em sua história. E isso veio em um ano complicado para o técnico Torstensson, que, após superar um tumor cerebral e um câncer de próstata, foi diagnosticado em agosto de 2024 com uma leucemia linfocítica crônica e precisou se afastar por alguns períodos. Com perseverança, ele voltou e o time o abraçou em busca de uma boa colocação, o que realmente aconteceu. 

Hora de subir um degrau 

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Bergström (à esq.) em ação. Foto: Bildbyran / ddp USA / Profimedia
 

O Mjällby teria como esquema-base na temporada de 2025 um 3-4-3, que proporcionava equilíbrio e flexibilidade, permitindo que a equipe pudesse transitar entre ataque e defesa de maneira eficaz. Os três zagueiros centrais – Nóren, Kiilerich e Iqbal – davam segurança defensiva e liberdade para os laterais – na maioria das vezes Stroud e Herman Johansson – avançarem, enquanto o meio-campo com dois volantes – Thorell e Gustavsson – proporcionava controle e apoio na construção de jogo. Na frente, Manneh e Gustafson jogariam mais abertos enquanto Bergström seria o centroavante, com destaque para sua capacidade de reter a bola e envolver os meio-campistas no jogo, adicionando uma variação valiosa ao ataque.

Depois de ser eliminado nas quartas de final da Copa da Suécia para o Häcken (derrota por 1 a 0), o Mjällby teve pela frente apenas o Campeonato Sueco, que é disputado em um só ano, não em temporadas duplas como acontece na maioria das ligas europeias. Com 16 equipes, a competição começou em março de 2025 e os aurinegros empataram em 2 a 2 com o Elfsborg, fora de casa. Na sequência, empataram em 1 a 1 com o GAIS, em casa, e emendaram cinco jogos seguidos com vitórias: 3 a 0 no Häcken (fora), 3 a 1 no Hammarby (em casa), 3 a 1 no Halmstads BK (fora), 4 a 1 no Degerfors (em casa) e 1 a 0 no IFK Göteborg (em casa), vitória esta que colocou o Mjällby na liderança da competição.

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Àquela altura, os aurinegros já demonstravam que eram bem diferentes das temporadas anteriores, principalmente pelas vitórias dominantes sobre os grandes, em especial o Hammarby, vice-campeão em 2024 e que sofreu com os aurinegros no Strandvallen em 18 de abril – foram quase seis mil pessoas no triunfo por 3 a 1 do Mjällby, gols de Herman Johansson, Røjkjær e Thorell. Só na 8ª rodada que os comandados de Torstensson tropeçaram pela primeira vez na derrota por 2 a 1 para o AIK, na Strawberry Arena.

O revés custou a liderança, mas o Mjällby se recuperou e venceu o Djurgardens fora de casa (de virada) por 3 a 1, derrotou o Brommapojkarna, em casa, por 1 a 0, empatou com o Norrköping (fora) em 1 a 1, bateu o Värnamo (em casa) por 2 a 0 e empatou em 1 a 1 com o Malmö, em casa. Brigando pela liderança, o Mjällby alcançou o topo da tabela após vencer o Östers IF (fora) por 1 a 0 e o Sirius (fora) por 2 a 1, fechando o primeiro turno na liderança. E, a partir dali, os aurinegros começariam uma história que ganharia o mundo.

A vila dos imbatíveis

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Foto: AFP
 

“Quando as equipes chegam aqui de ônibus, elas dirigem e dirigem, passando pelas fazendas, pelos portos de pesca. Elas continuam dirigindo e, quando não conseguem ir mais longe, encontram o nosso estádio.” A fala do diretor esportivo Hasse Larsson sobre o estádio do Mjällby define bem o quão exótico era para os times do Campeonato Sueco visitar o clube no Strandvallen. E foi no estádio que a equipe de Torstensson iniciou sua jornada do returno em grande estilo: vencendo o AIK por 2 a 0, gols de Stroud (cobrando falta) e Tidstrand, diante de quase 6 mil torcedores. 

O triunfo fez o Mjällby abrir seis pontos de vantagem sobre o AIK e um ponto sobre o Hammarby, principal oponente na briga pela liderança. Na rodada seguinte, a equipe venceu mais uma – 2 a 1 no Sirius, em casa – e foi até a 3Arena enfrentar o Hammarby. Pois o Mjällby não se intimidou com o rival, venceu por 2 a 1 e abriu quatro pontos de vantagem!

A pausa entre junho e julho não afetou os comandados de Torstensson, que seguiram invictos naquele returno com um triunfo monumental sobre o poderoso Malmö em pleno Eleda Stadion por 3 a 1, com gols de Herman Johansson, Stroud (com grata colaboração do goleiro, que tomou por entre as pernas) e Gustafson. Foi uma partidaça dos aurinegros, que se impuseram diante do rival com marcação-pressão, toques rápidos e excelente futebol. A campanha arrebatadora do Mjällby atraía cada vez mais atenção da torcida, que passou a lotar o estádio de Hällevik em todos os jogos do time naquela reta final. No duelo seguinte ao triunfo sobre o Mälmo, 5.780 pessoas viram o empate em 1 a 1 contra o Djurgardens IF, público que era superior às populações totais tanto de Mjällby quanto de Hällevik! 

Na rodada 21, o Mjällby venceu o GAIS por 2 a 0, fora de casa, derrotou o Halmstads por 1 a 0 (em casa), bateu o Degerfors por 1 a 0 (fora) e empatou em 1 a 1 com o Östers em casa, jogo este tido como “uma derrota” pelo técnico Torstensson pelo fato de o time estar vencendo por 1 a 0, desperdiçar um pênalti, sofrer o empate e ainda muita pressão dos visitantes nos minutos finais. Mesmo assim, não havia motivo para decepção. Com oito pontos de vantagem sobre o Hammarby, o Mjällby via o título inédito e histórico muito perto. De quebra, poderia superar o recorde de pontos do Campeonato Sueco caso mantivesse a sequência sem derrotas e com mais vitórias. Desde a 8ª rodada que eles não perdiam. E não davam sinais de que iriam perder de novo.

Mjällby, capital do futebol sueco!

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Pettersson, um dos principais símbolos da campanha. Foto: Björn Larsson Rosvall/TT/EPA
 

Na 25ª rodada, o clube aurinegro visitou o Brommapojkarna e demonstrou enorme resiliência para sair com mais três pontos em um dia de festa pelo jogo de número 300 do capitão Jesper Gustavsson com a camisa do Mjällby. Após um primeiro tempo sem gols, os comandados de Torstensson sofreram um duro baque com a expulsão de Uba Charles, tão importante no setor direito do ataque do time. Mesmo sem ele, Tchouante e Bergström (que começou do banco) entraram e mantiveram o Mjällby no ataque. Foi então que Johansson, em chute de pé esquerdo após passe de Gustafson, anotou o gol da vitória por 1 a 0 que foi ainda maior por causa da derrota do Hammarby para o Halmstad, o que deu uma enorme dianteira de 11 pontos aos aurinegros. 

“Quando ficamos com um homem a menos, pensamos em várias coisas. Mas uma delas foi: ‘O que temos a perder?’ Melhoramos as jogadas, melhoramos o ritmo de bola e tivemos 40 minutos ótimos. Jogamos com o coração na hora certa”, disse o goleiro Noel Törnqvist à SVT Sport logo após a partida. “É como diz Anders (Torstensson), quebramos barreiras o tempo todo”, completou o goleirão.

Na rodada seguinte, em casa, o Mjällby enfrentou o Elfsborg e também uma tempestade que atingiu a região sul da Suécia naquele dia 04 de outubro. Batizada de Amy, o fenômeno meteorológico quase provocou o adiamento da partida, mas o jogo prosseguiu e os anfitriões venceram por 2 a 0, com gols de Bergström, no final do primeiro tempo, e Pettersson, no começo da etapa final. No final do jogo, a torcida fez uma enorme festa com os jogadores e já cantava pelo título cada vez mais perto. 

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Mesmo debaixo de chuva, o Mjällby venceu o Elfsborg!
 
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Gustavsson ganhou uma homenagem do elenco em alusão aos seus 300 jogos com a camisa do Mjällby. Foto: Emma Wallskog / Bildbyran
 

Na rodada 27, o Mjällby viajou até Gotemburgo para enfrentar o tradicional time da casa, que fez história nos anos 1980 com títulos da Copa da UEFA (até hoje é o único clube sueco a vencer títulos continentais). Uma vitória dos aurinegros iria garantir o título nacional com três rodadas de antecedência. Claro que jogar na casa dos Blåvitt era bem difícil, mas a equipe do técnico Torstensson tratou de liquidar a fatura logo no primeiro tempo e em grande estilo: aos 21’, Jacob Bergström acertou uma bicicleta e abriu o placar. Sete minutos depois, Tom Pettersson fez o segundo e o time seguiu no ataque e no controle do jogo, como sempre. Para se ter uma ideia, o Mjällby chutou 22 vezes no gol do Göteborg, enquanto os anfitriões chegaram ao ataque 13 vezes.

Só que os aurinegros nem precisaram balançar as redes novamente. O 2 a 0 foi suficiente para garantir mais três pontos e o histórico, inédito e impressionante título do Campeonato Sueco de 2025 ao Mjällby. Pela primeira vez, uma simples vila do sul do país e com menos de 1200 habitantes era a capital do futebol da Suécia! “Eu diria que é algo completamente único em toda a história do futebol mundial, incluindo todos os países. Que uma vila ganhe uma liga importante num país com futebol de alto nível em 2025, isso não deveria ser possível”, comentou o pesquisador esportivo Torbjörn Andersson, da Universidade de Malmö.

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O golaço que abriu o placar. Foto: Divulgação / Mjällby
 
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Festa do técnico Torstensson! Foto: Björn Larsson Rosvall – TT
 

No gramado em Gotemburgo, os jogadores do Mjällby não esconderam a emoção e fizeram uma festa que contagiou até mesmo os torcedores do Göteborg, que reconheceram a brilhante campanha dos aurinegros. O goleiro Törnqvist foi um dos mais emocionados pelo fato de ter jogado no sacrifício, com muita dor nas costas. “Tenho algum tipo de bloqueio na costela. Estou com uma dor insuportável. Tomei tantos comprimidos que nem sei mais o quê, para conseguir jogar. Estava um pouco preocupado com a quantidade de dor que sentiria durante a partida, mas nada me impediria de jogar hoje”, disse o goleiro ao site Aftonbladet (SUE).

Outro que celebrou bastante, com direito a cartola e tudo mais, foi o técnico Torstensson, que relembrou seus momentos difíceis após o diagnóstico de leucemia, o tratamento e a volta por cima. 

“Provavelmente não me sinto tão diferente hoje do que me sentiria sem isso. De certa forma, como já disse em centenas de entrevistas, deixo o diagnóstico no hospital. Mantivemos isso longe de nós, da imprensa e das especulações. Mas é fantástico. É gratificante estar aqui como campeões suecos – com o pequeno e maldito Mjällby! (risos)

Quando chegamos à final da copa (da Suécia) em 2023, senti que havia algo aqui. E trabalhamos incrivelmente duro para isso. Todo mundo pergunta sobre nossos segredos, mas não há segredos. Há apenas umas 500 coisas com as quais somos extremamente cuidadosos todos os dias. Todos trabalham muito e nunca deixamos nada dar errado. É uma lembrança para a vida toda. É algo histórico que fizemos. Você tem consciência disso intelectualmente, mas emocionalmente eu não consigo assimilar”. – Anders Torstensson, em entrevista ao Aftonbladet (SUE), 21 de outubro de 2025.

Durante as celebrações, teve ainda provocação ao vice Hammarby (que tem como acionista de destaque o ex-craque Zlatan Ibrahimovic), com os cânticos “nada de ouro do Campeonato Sueco para o Hammarby”, pois o clube era favorito ao caneco devido aos altos investimentos, mas sucumbiu na reta final e não foi páreo ao Mjällby. Mais de 1200 pessoas de Mjällby e região viajaram até Gotemburgo para acompanhar e celebrar com os jogadores!

Os melhores da história

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O capitão ergue o troféu diante da torcida. Foto: Jonathan NACKSTRAND
 

O feito do Mjällby ganhou as manchetes de todo mundo e sites de centenas de países destacaram a conquista extraordinária. Em um futebol onde cada vez mais o dinheiro berra alto e façanhas de pequenos clubes se tornam escassas e quase impossíveis, ver um pequenino clube – cujo orçamento em 2024 era oito vezes menor do que o Malmö (!) – ser campeão nacional já no ano seguinte a essa discrepância colossal, provou que aquela conquista era mesmo única no esporte.

No jogo seguinte, o campeão foi recebido com muita festa pela torcida no Strandvallen e levantou o troféu após mais uma vitória: 2 a 1 sobre o Nörrkopping, de virada, triunfo que fez o Mjällby atingir 69 pontos e superar a então melhor campanha da história da elite sueca, do Malmö de 2010, que somou 67 pontos. Só que o Mjällby não se acomodou e venceu também os dois jogos finais: 5 a 0 no Värnamo, fora de casa, e 1 a 0 no Häcken, em casa, vitória simbólica por ser em cima do algoz da derrota na final da Copa da Suécia de 2023. 

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Se a reviravolta na história do clube começou no revés daquele ano em Strandvallen, o auge chegou na vitória sobre o mesmo Häcken na rodada 30 da Allsvenskan de 2025. Com 75 pontos (13 pontos a mais do que o vice), o Mjällby atingiu a melhor pontuação do campeonato em todos os tempos e se consagrou com uma campanha inigualável:

  • 30 jogos
  • 23 vitórias
  • 6 empates
  • 1 derrota
  • 57 gols marcados (2º melhor ataque)
  • 18 gols sofridos (melhor defesa)
  • Dono da maior sequência invicta do campeonato: 16 jogos
  • Dono da maior série de vitórias seguidas: 6 jogos
  • Herman Johansson foi o recordista em assistências com 11 passes para gols

Além da campanha histórica e dos recordes, o Mjällby conseguiu uma vaga na fase preliminar da Liga dos Campeões da UEFA de 2026-2027. Se for além, poderá disputar a cobiçada Fase de Liga da maior competição de clubes do planeta. Após o término do campeonato, jogadores e comissão técnica ganharam uma festa na cidade portuária de Sölvesborg – por ter mais estrutura e comportar mais gente -, a cerca de 8,7km de Mjällby.

Teremos mais aventuras?

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A torcida no Strandvallen: clube jogará as preliminares da Liga dos Campeões de 2026-2027, mas dificilmente poderá utilizar sua casa por conta da capacidade. Jogos devem acontecer em outra cidade sueca. Foto: Sipa US/Alamy
 
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Foto: Mathilda Ahlberg / BILDBYRÅN / kod MA / MA0624
 

O título sueco do Mjällby em 2025 já entrou direto para a história do futebol sueco e deve render muitas homenagens ao clube, que é favorito a ganhar o Bragdguldet (“a façanha de ouro”) do jornal Svenska Dagbladet, que premia desde 1925 o maior feito esportivo sueco do ano e é concedido a atletas, equipes ou treinadores suecos que realizam um feito extraordinário no esporte mundial. O último clube a conseguir vencer o prêmio no país foi o Malmö em 1979, quando foi o primeiro da Suécia a disputar uma final europeia. Depois dele, apenas a seleção sueca 3ª colocada na Copa do Mundo de 1994 conseguiu o prêmio. A concorrência em 2025 será grande por causa do recordista mundial do salto com vara Armand Duplantis, que venceu o prêmio em 2024 e seguiu quebrando recordes em 2025. 

Mas o feito do Mjällby provavelmente terá um peso considerável na escolha dos jurados. Afinal, foi a primeira vez que vimos um clube de uma vila com menos de 1500 habitantes levantar o título de campeão nacional. E isso em um país onde os grandes clubes jamais deram chances para zebras. Nunca mais os suecos irão se esquecer do Mjällby. E o clube já conquistou seu espaço no mundo do futebol com uma história para a eternidade. E imortal.

Os personagens: 

Törnqvist: o goleiro sueco de quase dois metros de altura jogou por cinco anos no Mjällby no começo da década de 2020 até se transferir para o Como-ITA, mas acabou emprestado e retornou aos aurinegros para jogar o Campeonato Sueco de 2025. Com muita regularidade, grandes defesas e personalidade, foi um dos destaques da campanha histórica do time e conseguiu ainda convocações para a seleção da Suécia. Por conta do grande desempenho, foi chamado de volta pelo Como e vai jogar pelo clube italiano em 2026. Em 29 jogos na temporada da Allsvenskan, levou apenas 18 gols. 

Lundin: revelado nas categorias de base do Mjällby, Lundin começou a jogar em 2010 no clube e teve passagens por várias equipes até retornar em 2023, mas sempre como goleiro reserva. Ele só disputou três jogos na temporada: dois na Copa da Suécia e um no Campeonato Sueco, já na reta final e com o time já campeão – a vitória por 5 a 0 sobre o Värnamo. 

Axel Norén: zagueiro revelado pelo Mjällby em 2018, teve uma boa sequência vestindo a camisa do GAIS entre 2022 e 2024 até retornar aos aurinegros em 2025. Com espírito combativo, boas interceptações e qualidade na saída de jogo, pode jogar em qualquer setor da defesa, às vezes quase como um líbero. Disciplinado, é muito leal e comete poucas faltas. A solidez defensiva de Norén contribuiu para a filosofia defensiva que o Mjällby adotou em 2025: manter estabilidade, cobrir bem os ataques e ter zagueiros que não hesitam em tomar riscos defensivos. Disputou 28 jogos da campanha do título, marcou dois gols e deu uma assistência.

Uba Charles: o nigeriano de 23 anos veio por empréstimo do Lillestrom em 2025 e disputou 12 jogos da campanha do título atuando como zagueiro pela direita e também mais à frente, no meio de campo. Marcou um gol no empate em 1 a 1 contra o Djurgardens, em agosto.

Tom Pettersson: no clube desde 2023, o polivalente jogador, que pode jogar como zagueiro, lateral, volante e até meia, criou uma enorme identificação com a torcida e com o Mjällby ao longo do tempo e provou ser decisivo. Nos 23 jogos que disputou na temporada do título, Pettersson marcou seis gols – três deles em três jogos consecutivos, na reta final – e só levou um cartão amarelo. Um dos mais experientes do grupo – tem 35 anos – foi um símbolo da conquista e da façanha do Mjällby. Em 86 jogos com a camisa aurinegra, Pettersson anotou 13 gols e deu uma assistência.

Kiilerich: o zagueiro dinamarquês integrou o elenco do Mjällby em 13 jogos da campanha do título e foi uma escolha frequente do técnico Torstensson pelo fato de o defensor poder jogar tanto no centro da zaga como nas duas laterais. Em agosto de 2025, acabou negociado junto ao Zulte Waregem, da Bélgica.

Iqbal: o zagueiro paquistanês de 1,92m de altura chegou em 2024 ao Mjällby e rapidamente ganhou seu espaço no time titular. Muito forte, rápido e com um excelente pé esquerdo, Iqbal disputou 24 jogos e deu duas assistências na campanha do título.

Tchouante: o zagueiro camaronês de apenas 19 anos debutou no Mjällby em 2025 e teve algumas chances no time titular. Por conta da concorrência no setor, disputou apenas seis jogos, mas não comprometeu. Deve ter mais oportunidades em 2026.

Herman Johansson: jogador crucial para as jogadas ofensivas no setor direito, o meia joga no Mjällby desde 2021 e é um dos principais atletas do clube graças à visão de jogo, chutes perigosos, grande vigor físico, bom passe e presença no campo de ataque. Com liberdade para se movimentar pelo meio, foi uma peça-chave para o equilíbrio entre defesa e ataque, sendo confiável e consistente ao longo da temporada. Esteve nos 30 jogos dos aurinegros, marcou 7 gols e deu 11 assistências, recordista no campeonato nacional de 2025.

Jesper Gustavsson: revelado pelo clube em 2013 e com mais de 300 jogos pelo Mjällby, o capitão Gustavsson foi outro símbolo dos suecos na temporada de ouro vivida em 2025. Polivalente e capaz de jogar como volante, meia, zagueiro central e até lateral, Gustavsson disputou 26 jogos na campanha do título e, com foco na defesa, se destacou nas interceptações e desarmes. Sua maturidade no meio-campo ajuda a organizar tanto a transição defensiva quanto a posse de bola, além de ser consistente, incansável e comprometido. Simplesmente uma lenda e o jogador que teve a honra de erguer o maior troféu da história do clube. São 303 jogos, 5 gols e 14 assistências pelo Mjällby na carreira.

Leandersson: meia-central de apenas 17 anos, disputou 19 jogos na temporada, entrando sempre no decorrer das partidas, e ainda deu uma assistência no difícil jogo contra o Djurgardens, em agosto, que terminou empatado em 1 a 1. O jovem é outro exemplo do bom trabalho das categorias de base do Mjällby e deve se destacar nos próximos anos.

Thorell: outro polivalente do elenco aurinegro – pode jogar na lateral-direita, no meio de campo e no ataque -, Thorell foi revelado pelo Brommapojkarna e chegou ao Mjällby em 2025 para ser um dos principais nomes do time na campanha do título. Muito bom na distribuição da bola e com boa chegada ao ataque, o jovem de 20 anos disputou 26 jogos, marcou três gols e deu duas assistências.

Røjkjær: o meia dinamarquês foi outro que integrou o time titular no começo da temporada e acabou deixando o clube para atuar por outra equipe. Capaz de jogar mais centralizado e também na ponta-esquerda, fez bons jogos e deixou sua marca na campanha do título com cinco gols e quatro assistências em 14 jogos. Passou a jogar no Nordsjaelland-DIN em julho de 2025.

Elliot Stroud: sem dúvida o grande nome ofensivo do Mjällby na temporada. Criativo, rápido e incisivo sempre pelo lado esquerdo do ataque, Stroud foi a grande arma dos aurinegros ao longo da campanha do título e provou isso com seus números: em 28 jogos, foram 10 gols e cinco assistências, o que fez dele o artilheiro da equipe no Campeonato Sueco de 2025. No clube desde 2023, Stroud virou ídolo da torcida e já acumula 20 gols e 12 assistências em 90 partidas.

Timo Stavitski: o ponta finlandês chegou ao Mjällby em 2024 e fez grandes jogos principalmente a partir da 8ª rodada, quando começou a aparecer mais no time titular. Capaz de jogar na esquerda e na direita, disputou 24 jogos, marcou um gol e deu três assistências.

Manneh: o ponta-esquerda de Gâmbia foi outro destaque do Mjällby na temporada ao anotar 7 gols e dar três assistências em 28 jogos disputados. Fez uma ótima parceria com Bergström no ataque e brilhou principalmente no primeiro turno do campeonato. Despertou a atenção de vários clubes da Europa e será difícil continuar no Mjällby em 2026.

Bergström: a terceira passagem do atacante de 1,91m de altura pelo Mjällby teve menos gols do que as outras, mas muitos jogos marcantes e a experiência e capacidade de reter a bola e envolver os meio-campistas no jogo, garantindo imprevisibilidade no ataque do clube. Com cinco gols e três assistências em 29 jogos, foi um dos artilheiros do time e aumentou ainda mais sua idolatria. Em 207 jogos com a camisa aurinegra, marcou 53 gols e deu 17 assistências.

Alexander Johansson: atacante que pode jogar também mais aberto tanto pela esquerda quanto pela direita, Alexander Johansson disputou 25 jogos da caminhada gloriosa do Mjällby e anotou seis gols, um deles na grande vitória sobre o Hammarby por 2 a 1. 

Gustafson: o meio-campista está desde 2018 no Mjällby e é extremamente identificado com o clube sulista. Sua função tática principal é proteger a defesa, recuperando bolas e ajudando a manter a organização no meio de campo, além de dar contribuições ofensivas razoáveis para um volante com chutes, chegadas e assistências pontuais. Em 29 jogos, marcou três gols e deu cinco assistências. Em 198 jogos com a camisa aurinegra, Gustafson já marcou 12 gols e deu 15 assistências.

Kjaer: o meia dinamarquês chegou no segundo semestre de 2025, após passagem pelo Bodo/Glimt. Participou de 12 jogos e deu dois passes para gols: um na vitória por 1 a 0 sobre o Degerfors, em setembro, e outro no 1 a 1 com o Östers, dias depois.

Anders Torstensson (Técnico): o título sueco de 2025 pelo Mjällby foi o trabalho da vida do treinador, que se apresentou ao mundo em definitivo como um líder humilde, determinado e cuja história de vida (militar, professor, treinador) levou muita resiliência e valores de comunidade ao time. Ele sempre valorizou o trabalho coletivo, sem ser um técnico “super-tático”, mas sim como alguém que constrói times com grande união, garra e dedicação, além de desenvolver os jovens e mixando jogadores experientes com talentos da base ou de perfil mais promissor.

Seu vínculo com o clube vem de longa data: como jovem, foi das categorias de base do Mjällby, mas não chegou a jogar profissionalmente, e depois voltou como treinador, reforçando sua identificação com a instituição. Com a melhor campanha da história do Campeonato Sueco, o Mjällby de Torstensson já está marcado como um dos times mais impressionantes da história do país. E dono de uma fabulosa história de superação e perseverança no esporte.

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