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Esquadrão Imortal – Aston Villa 1980-1982

O time da final europeia de 1982. Em pé: Peter Withe, Andy Blair, Nigel Spink, Pat Heard, Gary Shaw, Ken McNaught, Allan Evans, Dennis Mortimer e Jimmy Rimmer. Agachados: David Geddis, Colin Gibson, Gordon Cowans, Gary Williams, Tony Morley, Des Bremner e Kenny Swain (Photo by Bob Thomas Sports Photography via Getty Images).

 

Grandes feitos: Campeão da Liga dos Campeões da UEFA (1981-1982), Campeão do Campeonato Inglês (1980-1981), Campeão da Supercopa da UEFA (1982) e Campeão da Supercopa da Inglaterra (1981). Encerrou um jejum de 71 anos sem títulos no Campeonato Inglês e conquistou o primeiro título continental da história do clube.

Time-base: Jimmy Rimmer (Nigel Spink); Kenny Swain (Mark Jones), Ken McNaught, Allan Evans e Gary Williams (Colin Gibson); Dennis Mortimer, Gordon Cowans e Des Bremner; Gary Shaw, Peter Withe (David Geddis) e Tony Morley. Técnicos: Ron Saunders (1980-1982) e Tony Barton (1982).

 

“The Villans no topo da Europa”

 

Por Guilherme Diniz

 

Até a metade dos anos 1930, o Aston Villa era o maior gigante do futebol inglês e dono de seis títulos da primeira divisão, recorde na época. Porém, com o passar das décadas, o clube ficou para trás e viveu impressionantes 71 anos sob as memórias do título de 1910, quando, durante a campanha, goleou o Manchester United por 7 a 1 para coroar sua hegemonia no país. Mas a história dos Villans mudou completamente quando Ron Saunders tirou a equipe da segunda divisão em 1975, venceu a Copa da Liga Inglesa de 1974-1975 e, tempo depois, enterrou o jejum com a conquista do Campeonato Inglês de 1980-1981 de maneira histórica e utilizando apenas 14 atletas na campanha! Provando que não eram zebras nem obra do acaso, os Villans faturaram já na temporada seguinte a Liga dos Campeões da UEFA – na época conhecida como Copa Europeia – despachando grandes rivais pelo caminho e derrotando na decisão o fortíssimo Bayern München de Augenthaler, Paul Breitner, Uli Hoeness e Rummenigge. Cultuado e venerado até hoje pela apaixonada torcida do Villa Park, aquele esquadrão marcou época na Inglaterra e na Europa pelo futebol de muita marcação, grande aplicação tática e fases notáveis de jogadores que viraram símbolos de uma era de ouro. É hora de relembrar.

 

De volta à cena

Depois dos anos de glórias até a década de 1930, o Aston Villa viveu períodos conturbados e no ostracismo. Com a ascensão de vários clubes como Manchester United, Liverpool, Wolverhampton, Tottenham e Arsenal, os Villans amargaram rebaixamentos e, no pior deles, uma queda para a terceirona em 1969-1970, tombo que provocou mudanças drásticas na estrutura técnica da equipe e até na diretoria. Em 1973, coube a Ron Saunders, que vinha de um bom trabalho no Norwich City, a tarefa de comandar o Aston Villa em busca da elite do futebol profissional inglês. Saunders pegou o Villa na segunda divisão naquele ano e, em 1975, conseguiu o título da Copa da Liga Inglesa ao derrotar o Norwich – curiosamente seu ex-clube – na final por 1 a 0, gol de Ray Graydon. Naquele mesmo ano, o Aston Villa conseguiu o acesso à elite do futebol inglês com o vice-campeonato do Championship. Dois anos depois, Saunders repetiu a dose e venceu outra Copa da Liga, dessa vez diante do Everton, após três jogos – 0 a 0, 1 a 1 e 3 a 2. Foi nesse final de década de 1970 que o clube começou a disputar as competições da UEFA, marcando presença na Copa da UEFA de 1975-1976 e 1977-1978, alcançando as quartas de final desta última.

Final da Copa da Liga de 1976-1977 teve dois replays!

 

Ainda sem conseguir brigar com os principais times do país na época, em especial a sensação Nottingham Forest, do técnico Brian Clough, o Liverpool de Bob Paisley e o Ipswich Town de Bobby Robson, o Aston Villa se remodelou para o início dos anos 1980 e foi às compras na construção de um time praticamente do zero. Allan Evans, Ken McNaught e Kenny Swain chegaram para a defesa, enquanto Des Bremner, Dennis Mortimer e Gordon Cowans vieram para o setor de meio de campo e criação. Para o ataque, as apostas foram no talentoso Tony Morley e no novato Gary Shaw. No verão de 1980, o centroavante Peter Withe foi contratado após acordo com seu ex-clube, o Newcastle United, e o Aston Villa tinha um plantel promissor para a temporada 1980-1981.

Saindo do tradicional 4-4-2, o Aston Villa de Saunders jogaria muito no 4-3-3, apostando na velocidade pelas laterais, na força física, na marcação e na movimentação, dificultando bastante a imposição de jogo dos adversários. Acontece que ele iria estruturar seu trabalho em basicamente 14 jogadores mesmo com mais de 25 atletas no plantel. Era uma maneira de ter o time entrosado e facilitar o entendimento tático dos jogadores entre si. Além disso, Saunders era um técnico próximo aos jogadores, conciliador e motivador para extrair o máximo de seu grupo, criando uma mentalidade vencedora e um clima muito bom no vestiário. Mas quase ninguém apostava que aquele time pudesse competir em alto nível em um campeonato tão difícil e longo – eram 42 rodadas! – como o Campeonato Inglês. 

 

Brigando com gigantes e o fim do jejum

Nos anos 1980, as vitórias no Campeonato Inglês ainda valiam dois pontos, por isso, os torneios eram mais difíceis e raramente uma equipe ficava muitos pontos longe da outra. E o Aston Villa começou muito bem essa árdua caminhada com uma vitória de virada sobre o Leeds United, fora de casa, seguida de um triunfo por 1 a 0 sobre o Norwich City, em casa. Depois de empatar com o Manchester City em 2 a 2, fora, e vencer o Coventry por 1 a 0, os Villans perderam duas seguidas – 1 a 0 para o Ipswich e 2 a 0 para o Everton – e entraram na 7ª rodada pressionados. Mas a vitória por 2 a 1 sobre o Wolves embalou a equipe de Saunders a permanecer 12 jogos sem perder, somando 9 vitórias e três empates. 

Tony Morley, habilidoso ponta-esquerda do Villa.

 

Os destaques dessa sequência – que deram a liderança ao time do Villa Park – foram os 3 a 0 sobre o Tottenham de Hoddle e Ardiles, os 2 a 1 em cima do Southampton de Kevin Keegan e um eletrizante 3 a 3 com o Manchester United em Old Trafford. No fim de 1980, a equipe só venceu dois dos oito jogos que disputou e viu o Liverpool assumir a ponta da tabela. Já em 1981, os Reds perderam a liderança e o Aston Villa emendou sete vitórias seguidas – incluindo um 2 a 0 sobre o Liverpool, com gols de Withe e Mortimer, na única vitória do Villa sobre o Liverpool em toda a década de 1980. 

O triunfo sobre o gigante de Anfield – que seria campeão europeu em cima do Real Madrid naquele ano – deixou o Aston Villa mais uma vez na briga pelo título e fez surgir um novo oponente: o Ipswich Town, que vinha crescendo bastante nas últimas rodadas e apresentava um futebol técnico e bonito de se ver. Depois de empatar em 3 a 3 com o United em casa e perder para o Tottenham por 2 a 0, fora, os Villans venceram mais três jogos seguidos e encararam o Ipswich em casa, na rodada 38. Era um confronto fundamental na caminhada pelo título e a torcida foi em peso ao Villa Park – quase 48 mil pessoas. 

Só que os comandados de Bobby Robson venceram por 2 a 1 e o resultado gerou muita tensão na torcida, afinal, os rivais tinham um jogo a menos e poderiam ultrapassar o Aston Villa nas rodadas seguintes. Porém, o Ipswich perdeu dois jogos seguidos e viu o Villa vencer dois e empatar um, abrindo quatro pontos de vantagem. Na rodada do dia 02 de maio, o Aston Villa encarou o Arsenal e perdeu por 2 a 0. O resultado deu esperança ao Ipswich – que ainda tinha um jogo a menos -, mas a equipe perdeu para o Middlesbrough por 2 a 1 e o resultado garantiu o título do Aston Villa depois de 71 anos de jejum!

No alto: Eamonn Deacy, Ken McNaught, Jimmy Rimmer, David Geddis, Gary Williams. No meio: Des Bremner, Colin Gibson, Tony Morley, Gordon Cowans. Na frente: Allan Evans, Gary Shaw, Ron Saunders (técnico), Dennis Mortimer, Kenny Swain, Peter Withe.

 

O título coroou uma campanha muito sólida dos Villans, que, em 42 jogos, somaram 60 pontos (quatro a mais do que o Ipswich Town, lembrando que as vitórias valiam dois pontos), venceram 26, empataram 8, perderam 8, anotaram 72 gols (3º melhor ataque) e sofreram 40 (2ª melhor defesa). Peter Withe, com 20 gols, foi o artilheiro do campeonato ao lado de Steve Archibald, do Tottenham, e provou sua estrela e experiência com grande presença de área e gols decisivos. 

O artilheiro Withe.

 

Sete dos 14 atletas utilizados pelo técnico Saunders jogaram todos os 42 jogos: Jimmy Rimmer, Kenny Swain, Ken McNaught, Dennis Mortimer, Des Bremner, Gordon Cowans e Tony Morley, enquanto Gary Shaw disputou 40 partidas, Allan Evans disputou 39 jogos e Peter Withe, 36. O troféu deu ao Aston Villa uma vaga na Liga dos Campeões da UEFA, que na época só era disputada pelos campeões nacionais dos principais países do continente.

 

Saga europeia e a saída de Saunders

Peter Withe celebra em um dos gols na estreia da Copa Europeia, contra o Valur. Foto: Gerry Armes / Popperfoto / Getty Images.

 

Com a mesma base da temporada anterior, o Aston Villa entrou em 1981-1982 com grandes expectativas. Vencer da maneira como venceu o Campeonato Inglês fez com que o time almejasse um voo ainda mais alto na Liga dos Campeões da UEFA, que seria disputada pela primeira vez pelos ingleses. Antes, a equipe faturou o título da Supercopa da Inglaterra ao empatar em 2 a 2 com o Tottenham, em Wembley, em grande jogo que teve como destaque o atacante Withe, autor dos dois gols dos Villans. Na competição europeia, o Villa estreou com vitória fácil sobre o Valur-ISL por 5 a 0 em casa, seguida de novo triunfo por 2 a 0, fora. Na segunda fase, duelo complicado contra o Dynamo de Berlim-ALE. Na ida, em solo alemão, vitória inglesa por 2 a 1, com dois gols de Morley. Na volta, em casa, a derrota por 1 a 0 foi dramática, mas classificou o Aston Villa graças ao critério de gols marcados fora – ainda em vigor na época.

Morley deixa um marcador alemão no chão durante o duelo no Villa Park. Foto: Bob Thomas / Getty Images.

 

Entre essa etapa até a fase de quartas de final, o Aston Villa viveu um período turbulento por causa do imbróglio envolvendo a renovação do contrato do técnico Ron Saunders, que entrou em litígio com a diretoria e acabou deixando o comando do clube em fevereiro de 1982. Saunders não aceitou a proposta do mandatário Ronnie Bendall de um contrato curto ao invés de um mais sólido, de três anos, e deixou a torcida apreensiva por conta do futuro da equipe na competição europeia, afinal, o Campeonato Inglês estava totalmente fora de disputa – o Aston Villa era o 19º colocado. 

Os fanáticos do clube também ficaram irados com Saunders, afinal, ele foi rapidamente treinar o Birmingham City, rival do Aston Villa, e faixas dizendo “Saunders, you must be fucking mad” (Saunders, você deve estar maluco, em tradução “branda”) e “we don’t need you anymore” (nós não precisamos mais de você) se tornaram muito comuns nas redondezas do Villa Park.

O técnico Saunders, após deixar o comando do Aston Villa. Foto: Gerry Armes / Popperfoto / Getty Images.

 

Quem assumiu o time foi Tony Barton, auxiliar de Saunders, que teria a missão de conduzir o clube nas quartas de final da competição continental contra o perigoso Dynamo de Kiev-URSS, um dos principais esquadrões da chamada cortina de ferro, comandado pela lenda Valeriy Lobanovskyi e principal provedor de jogadores à seleção soviética. Contra todas as descrenças, Barton conseguiu neutralizar o clima tenso pós-Saunders, reconduziu o Aston Villa às vitórias no Campeonato Inglês – foram sete nos 12 jogos restantes – e afastou qualquer risco de rebaixamento (o Aston Villa terminou na 11ª colocação). Além disso, com o retorno de McNaught à equipe titular após lesão, o 11 inicial preferido da torcida estaria à disposição para a reta final da temporada.

 

A inesquecível glória

Os jogadores celebram a classificação sobre o Anderlecht, na semifinal. Foto: Keith Hailey / Popperfoto / Getty Images.

 

Contra o Dynamo de Kiev, o Aston Villa conseguiu segurar um empate sem gols fora de casa e foi com tudo em busca da vaga diante de sua torcida. E, com gols de Shaw e McNaught, o Aston Villa venceu por 2 a 0 e manteve a Inglaterra em busca de mais uma glória europeia, afinal, o Liverpool foi eliminado naquele mesmo dia 17 de março para o CSKA Sofia-BUL e perdeu a chance do bi consecutivo. O rival na semifinal foi o Anderlecht-BEL, que não era mais a força dos anos 1970, porém, contava com um time muito compacto defensivamente e rápido nos contra-ataques. Não levar gols no duelo de ida, em casa, era a missão máxima do Aston Villa. E foi cumprida. Com um gol de Morley, os ingleses venceram por 1 a 0 e levaram a vantagem do empate para a Bélgica. 

A mídia inglesa se encheu de expectativa após a vitória do Villans, a ponto do jornalista Frank McGhee escrever no Daily Mirror do dia seguinte que “o Aston Villa está perto suficiente da Copa Europeia para comprar algum polidor de prata”. Por outro lado, havia o temor de que um gol de vantagem fosse pouco para segurar o ímpeto dos belgas. E, mesmo com vários problemas físicos, a equipe foi gigante, McNaught e Evans tiveram atuações espetaculares, e o placar de 0 a 0 colocou o Aston Villa na final europeia!

 

O adversário na decisão de Roterdã-HOL era o temível Bayern München-ALE, das estrelas Paul Breitner e Rummenigge. Experientes, os alemães eram favoritos, apesar do sucesso recente dos clubes ingleses no torneio – nas últimas cinco Copas Europeias, os clubes ingleses venceram todas. Dias antes da final, o goleiro Rimmer sofreu uma lesão no ombro e, embora tenha tomado analgésicos para aliviar a dor, foi para o jogo longe de sua melhor forma. E, com apenas nove minutos, teve que ser substituído pelo novato Nigel Spink, de 23 anos, com apenas um jogo completo pelo Aston Villa até aquele momento. Imagine a situação! Percebendo aquela suposta fragilidade, o Bayern foi pra cima, mas se deparou com um goleiro atento, ágil e muito seguro. Spink fez grandes defesas no primeiro e no segundo tempos e garantiu a meta inglesa intacta. Veja algumas:

 

O Aston Villa campeão europeu: força pelas laterais era o grande trunfo do time, que exibia muita aplicação tática na zaga.

 

E, aos 22’ do segundo tempo, Mortimer tocou para Shaw, que iniciou uma jogada pela esquerda, Williams apareceu, mas a bola foi para Morley, que conduziu pela linha de fundo, driblou Hans Wainer duas vezes e cruzou na medida para Withe, livre, só empurrar para o gol alemão: 1 a 0. Não precisava de mais nada. O Aston Villa era campeão da Europa! E apenas o 5º clube na história a vencer o torneio em sua primeira participação, a exemplo de Real Madrid (1955-1956), Inter de Milão (1963-1964), Celtic (1966-1967) e Nottingham Forest (1978-1979). A glória inglesa foi uma das mais improváveis da história e o clube imortalizou a conquista com uma estrela prateada dentro do escudo. Além disso, a narração do gol feita por Brian Moore está imortalizada em uma faixa na arquibancada norte do Villa Park:

 

“Mortimer. Shaw. Williams, prepared to venture down the left. There’s a good ball played in for Tony Morley. Oh, it must be! And it is! Peter Withe!” – (Mortimer. Shaw. Williams, preparados para se aventurar pela esquerda. Há uma boa jogada para Tony Morley. Ah, e deve ser! E é! Peter Withe!)

 

Escudo do clube possui uma estrela prateada em alusão à conquista europeia de 1982.

 

 

O técnico Tony Barton e o capitão Mortimer exibem a taça para a torcida na Inglaterra. Foto: Bob Thomas / Getty Images.

 

Com apenas 56 dias no cargo, Tony Barton virou lenda no Aston Villa e permaneceria no clube até 1984. Após o jogo, ele disse que aquele era o “maior momento da história do Aston Villa”. E, sem dúvida alguma, era mesmo. Em nove jogos, o Aston Villa venceu seis, empatou dois e perdeu apenas um. Foram 13 gols marcados e só dois sofridos, uma das melhores defesas da história de um campeão europeu. A festa, como não poderia deixar de ser, foi enorme e teve até sumiço da taça na Inglaterra! Você pode ler mais na seção Os personagens, no final do texto!

 

Última taça e o fim

No final de 1982, o Aston Villa de Des Bremner (à esq.) não conseguiu superar o Peñarol na final do Mundial.

 

Em dezembro, o Aston Villa viajou até o Japão para a disputa do Mundial Interclubes contra o Peñarol-URU, campeão da Libertadores de 1982. O clube uruguaio mostrou força desde o início do jogo, não se assustou com uma bola na trave dos ingleses, e abriu o placar aos 27´do primeiro tempo, num “estranho” gol de falta marcado por Jair em que a bola quicou dentro do gol e saiu, gerando dúvidas se ela realmente havia entrado. Por via das dúvidas, Fernando Morena colocou a redonda para dentro e saiu para o abraço. Sem demonstrar nervosismo algum em campo e com seus jogadores concentrados ao extremo, o Peñarol ampliou a vantagem aos 23´do segundo tempo, quando Walkir Silva saiu em disparada desde o meio de campo, teve o chute prensado pelo zagueiro, mas pegou o rebote para fazer 2 a 0.

Os ingleses não conseguiram reverter o placar e o título mundial acabou mesmo com os uruguaios. Tempo depois, em janeiro de 1983, os Villans disputaram o título da Supercopa da UEFA contra o Barcelona-ESP. No primeiro jogo, no Camp Nou, vitória catalã por 1 a 0. Na volta, Shaw fez 1 a 0 no tempo regulamentar e levou o jogo para a prorrogação. Nela, Gordon Cowans, aos 100’, e McNaught, aos 104’, ampliaram e deram a vitória por 3 a 0 que fechou um dos mais laureados ciclos dos Villans na história. 

Ken McNaught exibe o peculiar troféu da Supercopa da UEFA da época. Foto: Colorsport/Rex/Shutterstock.

 

Na época 1982-1983, a equipe não conseguiu manter a coroa na Liga dos Campeões e foi eliminada pela Juventus nas quartas de final, enquanto que no Campeonato Inglês, o time ficou na 6ª posição. A partir daquela época, as estrelas começaram a deixar o clube, o técnico Tony Barton saiu em 1984 e, em 1987, o Aston Villa foi rebaixado, um trágico e inesperado fim de década com culpa do mandatário Ronnie Bendall, “homenageado” pelos torcedores com a música: “We won the league, we won the cup, and Ronnie Bendall f****d it up”.

Desde então, o Aston Villa só teve sucesso nas Copas da Liga Inglesa conquistadas em 1993-1994 e 1995-1996, além da Copa Intertoto de 2001, porém, os altos e baixos seguem constantes, bem como rebaixamentos, o que faz o torcedor sequer imaginar quando um novo esquadrão poderá levantar o Campeonato Inglês novamente ou quiçá uma taça continental. Enquanto isso não acontece, ficam as memórias do time de 1980-1982, simplesmente um marco na história do Aston Villa, com lugar cativo no coração do torcedor e estrela única no escudo dos Villans. Um esquadrão imortal.

Gordon Cowens, Pat Heard e Tony Morley com a taça. (Photo by Bob Thomas/Getty Images)

 

Os personagens:

 

Jimmy Rimmer: experiente e com passagens por Manchester United e Arsenal, Rimmer chegou ao Aston Villa em 1977 e permaneceu até 1983. É considerado um dos maiores goleiros da história do clube e foi fundamental para as grandes campanhas no título inglês de 1981 e da Copa Europeia de 1982. Deu azar na decisão, mas seu reserva foi muito bem e garantiu o caneco.

Nigel Spink: antes da final europeia de 1982, Spink era um mero reserva no Aston Villa, com um esparso jogo disputado em 1979 no currículo. Mas, com uma atuação soberba na mais importante final da história do clube, Spink ganhou de vez o coração da torcida e permaneceu no clube até 1996, acumulando 449 jogos com a camisa dos Villans. Ele é o 6º com mais partidas pelo clube.

Kenny Swain: polivalente, começou a carreira como ponta e atacante, mas foi recuando e virou lateral-direito do Aston Villa entre 1978 e 1982. Tinha boa técnica, bons cruzamentos e municiava muito bem o ataque. Foi eleito para o time do ano da PFA em 1980-1981 e 1981-1982.

Mark Jones: cria das bases, não era titular, mas ganhou a posição após a saída de Swain e assumiu a lateral-direita do Aston Villa a partir de 1983, ajudando a equipe a levantar o título da Supercopa da UEFA. 

Ken McNaught: o escocês formou uma grande dupla de zaga ao lado de Allan Evans e dava muita segurança ao setor defensivo da equipe. Foi um dos pilares da campanha no título europeu e teve uma atuação de gala na semifinal contra o Anderlecht. Além de ser eficiente na zaga, ainda marcava gols, como na vitória por 2 a 0 sobre o Dynamo de Kiev e nos 3 a 0 na decisão da Supercopa diante do Barcelona. 

Allan Evans: outro escocês, jogou de 1977 até 1989 no Aston Villa e se tornou o 5º atleta com mais jogos na história do clube – 466 partidas. Firme na marcação, era ótimo no jogo aéreo e marcava muitos gols de cabeça e em suas subidas ao ataque – ao todo, foram 51 gols com a camisa do Aston Villa, um número e tanto para um zagueiro. 

Gary Williams: cria das bases, se revezava com Colin Gibson na ala esquerda e também tinha características ofensivas, com bons passes e lançamentos. Foram mais de 300 jogos pelo clube na carreira.

Colin Gibson: outro lateral revelado pelo Aston Villa, Gibson tinha técnica e eficiência na marcação, por isso, podia jogar também no meio de campo. Fez grandes jogos pelo Aston Villa e foi personagem, ao lado de Gordon Cowans, de uma insólita história. Na volta para casa e sob a frenética comemoração do título europeu, por causa da bebedeira, o jogador levou o troféu consigo e o perdeu em um pub de Birmingham enquanto jogava dardos, sem dar atenção ao troféu. A taça só reapareceu a 160 quilômetros de distância, em uma delegacia de Sheffield, devolvida por um torcedor que quis mostrá-la aos amigos! Leia essa pitoresca história, em inglês, na BBC clicando aqui.

Dennis Mortimer: o capitão do time era volante e saía jogando de trás, observando a partida, dando passes e ajudando na marcação e organização, além de marcar alguns gols. Jogou por 10 anos no Aston Villa e foi um grande emblema do clube. Disputou 404 jogos pelos Villans.

Gordon Cowans: embora ficasse mais centralizado, era o responsável pela organização no meio de campo por ser mais cerebral e com grande visão de jogo. Cria das bases, teve duas passagens pelo clube e é o terceiro jogador com mais partidas pelo Aston Villa na história: 508 jogos.

Des Bremner: se movimentava bastante e cobria os espaços pela esquerda, exercendo a função de “carregador de piano” do time. O escocês jogou de 1979 até 1984 na equipe inglesa.

Gary Shaw: com apenas 19 anos e revelação da temporada de 1980-1981, o jovem foi mais uma cria das bases que brilhou no Aston Villa naquela época. Rápido e técnico, se movimentava bastante e infernizava as defesas adversárias, além de chamar a marcação e abrir espaços para o centroavante Peter Withe marcar gols. A tática foi decisiva para o título inglês e, claro, na jogada do gol do título europeu, quando Shaw puxou a marcação, tocou para Morley e este cruzou para Withe. Só não teve uma carreira mais duradoura por causa de uma grave lesão no joelho em 1983 que prejudicou demais a sequência de sua trajetória profissional.

Peter Withe: forte, inteligente, oportunista e com ótimo senso de colocação, era o autêntico camisa 9, mas também podia flutuar pelo ataque, atuar pelos lados e centralizado. Foi o estandarte ofensivo do time campeão nacional em 1981 e, claro, europeu em 1982, quando marcou 4 gols, um deles provavelmente o gol mais importante da história do Aston Villa, na final, contra o Bayern. Foram 90 gols em quase 200 jogos pelo Aston Villa, desempenho que o levou à seleção inglesa que disputou a Copa do Mundo de 1982.

David Geddis: com a boa fase dos atacantes titulares, teve pouco espaço no time titular, mas brilhou em alguns jogos do Campeonato Inglês e em clássicos contra o Birmingham City.

Tony Morley: driblador-nato, era a dose de malícia e talento no ataque do Aston Villa. Jogava quase colado à linha lateral e era um terror quando ia em velocidade para o ataque e dava cruzamentos, passes ou mesmo chutes ao gol. Jogou de 1979 até 1983 no Aston Villa até ser transferido para o West Bromwich. Era presença certa na seleção inglesa na Copa de 1982, mas foi cortado e ficou bastante traumatizado a ponto de seu futebol nunca mais ter sido o mesmo nos anos seguintes. 

Ron Saunders e Tony Barton (Técnicos): Saunders comandou o Aston Villa por oito anos e foi responsável por montar um time muito competitivo, disciplinado e entrosado que faturou o Campeonato Inglês de 1981 enfrentando de igual para igual grandes esquadrões, incluindo o fortíssimo Liverpool da época. Introduzido ao Hall da Fama do clube em 2006, Saunders pode ter saído de maneira polêmica, mas seu nome jamais será esquecido no clube. Tony Barton também conseguiu destaque por manter o time concentrado na reta final da Liga dos Campeões, subir de posição no Campeonato Inglês e conquistar a glória europeia de maneira épica diante do Bayern e com goleiro reserva! Barton acabou falecendo precocemente em 1993, aos 56 anos, vítima de um ataque cardíaco.

 

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2 Comentários

  1. Nunca mais o aston villa tera uma equipe como aquela. Nunca mais. Spink se desdobrou na decisão pra parar o Bayern de Munique e conseguiu. Faz um craque imortal do Mihaljovic e do Gianluca Vialli que nos deixaram recentemente

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