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Craque Imortal – Mozer

 

Nascimento: 19 de Setembro de 1960, no Rio de Janeiro (RJ).

Posição: Zagueiro

Clubes: Flamengo-BRA (1980 – 1987), Benfica-POR (1987-1989 / 1992-1995), Olympique de Marselha-FRA (1989-1992) e Kashima Antlers-JAP (1995-1996)

Principais títulos por clubes:

1 Mundial Interclubes (1981), 1 Copa Libertadores da América (1981), 3 Campeonatos Brasileiros (1980, 1982, 1983) e 2 Campeonatos Cariocas (1981 e 1986) pelo Flamengo.

2 Campeonatos Portugueses (1988-1989 e 1993-1994), 1 Taça de Portugal (1992-1993) e 1 Supercopa de Portugal (1988-1989) pelo Benfica.

3 Campeonatos Franceses (1989-1990, 1990-1991 e 1991-1992) pelo Olympique de Marselha.

1 J-League (1996) pelo Kashima Antlers.

Principais títulos individuais:

Eleito para o time ideal do Super Onze d’Or: 1989 e 1990

Eleito para o Time dos Sonhos do Olympique de Marselha no aniversário de 120 anos do clube

Eleito para o Time dos Sonhos do Flamengo do Imortais: 2021

 

“Técnica e arte na zaga”

Por Guilherme Diniz

 

Após ser dispensado das categorias de base do Botafogo por ser “franzino demais”, ele tentou a sorte no Flamengo. E provou seu valor com um futebol primoroso. Era um craque na defesa, com muita habilidade e precisão no passe, além de ser forte no jogo aéreo e no senso de colocação. Colecionou títulos no Fla de 1980 até 1987, foi ídolo no Benfica e também no Olympique de Marselha. Considerado um dos melhores zagueiros de seu tempo e tido por muitos como o maior zagueiro da história do Flamengo, merecia sorte melhor na seleção brasileira, pela qual só não integrou o time campeão do mundo em 1994 por causa de um corte até hoje polêmico. José Carlos Nepomuceno Mozer, também conhecido como Mozer, atingiu status de lenda fazendo parte até mesmo de jogos de caça-níqueis específicos com a temática de jogadores lendários do futebol mundial. Ídolo por onde passou, aliava técnica, precisão nos desarmes, impulsão inigualável e notável senso de posicionamento. É hora de relembrar a trajetória desse imortal.

 


Da dispensa ao sucesso

Nascido em Bangu, Zona Oeste do Rio, Mozer começou a adquirir a técnica que o consagrou no esporte nas quadras de futsal. Em espaços curtos, soube controlar bem a bola e aplicar dribles para se desvencilhar dos rivais, características que ele incorporou ao seu estilo de jogo nos gramados. Com 14 anos, Mozer atuava como meia-esquerda e tentou a sorte no Botafogo, mas o seu físico franzino na época custou-lhe uma vaga nos profissionais e acabou dispensado do clube de General Severiano. Sem deixar a tristeza lhe abater, pediu ao pai que o levasse a uma peneira no Flamengo. Foi aprovado e rapidamente integrado ao tratamento de ganho de massa muscular e altura pelo qual passaram alguns atletas do clube na época, entre eles Zico. Com isso, Mozer saltou de 1,53m aos 14 anos para 1,86m aos 19 anos! Por conta da altura e a perda de velocidade, o jogador acabou recuando da meia para a zaga graças a Modesto Bria, técnico das categorias de base do Flamengo na época.

O Flamengo de 1981 – Em pé: Leandro, Raul, Mozer, Figueiredo, Andrade e Júnior.
Agachados: Lico, Adílio, Nunes, Zico e Tita.

 

Em 1979, colecionou títulos pelo time de juniores e foi convocado para a seleção juvenil. Não demorou muito para já em 1980 Mozer fazer parte do time principal. Jogando ao lado do “deus da raça” Rondinelli, o zagueiro ganhou experiência e confiança, ainda mais após o rubro-negro vencer o Brasileirão de 1980 em cima do Atlético Mineiro em uma final histórica. No entanto, Mozer não foi titular absoluto naquele ano e só ganharia sua vaga em definitivo em 1981, quando se beneficiou pela lesão de Rondinelli e pela saída do recém-contratado Luís Pereira. Com isso, o jovem disputou 47 jogos e encantou a torcida ao se transformar no novo “deus da raça”, aliando não só garra, mas também técnica e qualidade para jogar mais à frente da área, atuando por vezes como volante. Com ele, o Flamengo venceu os inesquecíveis títulos da Libertadores e do Mundial de 1981, quando Mozer fez parcerias lendárias com Marinho e Figueiredo no miolo de zaga.

 

Absoluto, corte na Copa e ida ao Benfica

Mozer ficou conhecido primordialmente por sua capacidade técnica e de fazer gols, não se limitando a ser apenas um zagueiro tradicional daqueles que davam chutões para se livrar da bola. Por ser muito habilidoso, rapidamente se destacou também pelos gols marcados. Um desses episódios folclóricos aconteceu em 1984, em uma partida contra o Santos, no Maracanã. Mozer fez dois gols em Rodolfo Rodríguez, grande goleiro uruguaio do Santos, e a equipe do Flamengo venceu a partida por 4 a 1. O jogo era válido pela primeira fase da Copa Libertadores da América daquela temporada. Antes, em 1982, durante a campanha do título brasileiro, o zagueiro deu um passe de cabeça e marcou o seu, de cabeça, na virada de 2 a 1 pra cima do Atlético-MG que ajudou em muito a caminhada rubro-negra rumo ao caneco.

Em 1983, na reconstrução da seleção brasileira após a eliminação na Copa do Mundo de 1982, o zagueiro foi constantemente convocado e disputou nove jogos, além de integrar a equipe vice-campeã da Copa América de 1983. Durante a competição, o craque mostrou sua habilidade e ajudou o Brasil a arrancar um empate contra o Paraguai no Defensores del Chaco com uma jogada legítima de ponta-esquerda, em um exemplo claro de seu talento.

 

No mesmo ano, Mozer sofreu uma lesão na reta final do Brasileirão e acabou de fora da decisão contra o Santos. Mesmo assim, o Fla venceu e foi tricampeão nacional. Em 1984, Mozer começou a se destacar ainda mais pelo lado ofensivo de seu jogo. Aparecendo em jogadas aéreas, o zagueiro marcava pontuais gols de cabeça e, também, em cobranças de falta – ainda mais após a saída de Zico para o futebol europeu. Entre 1984 e 1985, Mozer foi sem dúvida o melhor zagueiro em atividade no país e uma unanimidade entre técnicos e torcedores. Presente na seleção, era figura certa na Copa de 1986. No entanto, já no México, o jogador torceu o joelho em um treinamento e teve que ser cortado. O ano de 1986, aliás, foi terrível para o zagueiro, que sofreu com essa e outras lesões e acabou atuando em apenas 30 jogos do Flamengo na temporada – seu menor número desde 1980 (ele chegou a disputar 50 jogos em 1984 e 43 em 1985).

 

Mozer, pelo Benfica.

 

Em 1987, passando por um delicado momento financeiro, o Flamengo teve que gerar dinheiro e decidiu vender Mozer para o futebol europeu. Após algumas ofertas, o Benfica venceu a disputa e comprou o jogador por cerca de 500 mil dólares. O brasileiro foi a esperança dos encarnados para resolver os problemas defensivos e um craque daquele naipe caiu muito bem no time. Logo na temporada 1987-1988, Mozer se destacou no time comandado pelo técnico Toni na campanha da Liga dos Campeões da UEFA. Os lisboetas eliminaram Partizan Arana-ALB, AGF-DIN, Anderlecht-BEL e Steaua Bucareste-ROM levando apenas um gol em oito jogos. Na decisão, Mozer conseguiu segurar o ataque do PSV-HOL e o placar ficou 0 a 0 nos 120 minutos. Na disputa de pênaltis, o brasileiro converteu sua cobrança, mas os lisboetas, sob a maldição de Guttmann, perderam por 6 a 5 e o caneco ficou com os holandeses.

Mozer fez o seu na decisão por pênaltis contra o PSV. Foto: Sven Simon / Imago.

 

A redenção veio na temporada seguinte, quando o Benfica levantou o campeonato português levando apenas 15 gols em 38 jogos! O desempenho foi alcançado graças justamente à dupla de zaga formada por Mozer e o também brasileiro Ricardo Gomes, que vinha de temporadas brilhantes pelo Fluminense. A parceria com Gomes e os números dos dois naquela temporada rendem até hoje a admiração dos torcedores encarnados, que consideram a dupla uma das melhores da história do clube.

 

Multicampeão na França e primeira Copa

Em 1989, Mozer foi contratado pelo Olympique de Marselha, que buscava se consolidar como uma potência no futebol europeu no começo dos anos 1990 com investimentos pesados de seu mandatário, o polêmico Bernard Tapie. E, com um esquadrão recheado de bons nomes como Amoros, Deschamps, Di Meco e o goleador Papin, o time não teve rivais à altura na França e emendou três títulos nacionais seguidos entre 1989-1990 e 1991-1992. Fazendo uma ótima dupla de zaga com Basile Boli, Mozer voltou a receber elogios da imprensa internacional por sua imponência na zaga marselhesa. No título de 1991-1992, por exemplo, o OM sofreu apenas 21 gols em 38 partidas, recorde que só seria quebrado pelo PSG de 2015-2016. Mas o sonho de levantar a Liga dos Campeões da UEFA voltou a escapar das mãos do brasileiro. E, de novo, nos pênaltis. Em 1991, o zagueiro converteu sua cobrança na final contra o Estrela Vermelha-IUG, só que os iugoslavos venceram por 5 a 3 graças ao erro de Amoros. O Olympique venceria o torneio em 1993, mas já sem Mozer no elenco.

Em 1990, Mozer, enfim, disputou sua primeira (e única) Copa do Mundo na carreira. Compondo o esquema de três zagueiros ao lado de Mauro Galvão e Ricardo Gomes, Mozer era tido como um dos melhores jogadores daquele Mundial segundo o jornal La Gazzetta dello Sport, da Itália, sede da Copa. A publicação ainda colocou Mozer ao lado de uma “zaga dos sonhos” ao lado de Bergomi, Baresi e Maldini, com Zenga no gol. Mas, se internacionalmente ele era inquestionável, para o técnico Lazaroni não era “confiável” por causa das investidas ao ataque que fazia.

Mozer, durante o duelo contra a Suécia na Copa do Mundo de 1990. Foto: Imago / One Football.

 

Por isso, o zagueiro deixou de ser o líbero do esquema tático da seleção pouco antes da Copa e passou a atuar mais pelo lado direito. Um erro, pois Mozer tinha técnica de sobra para jogar de líbero e ajudar o ataque exatamente assim. E era de líbero que ele jogava a maioria das vezes no Olympique, compondo o esquema ao lado de Basile Boli, pela direita, e Bernard Casoni, pela esquerda. Nos primeiros dois jogos da Copa, o Brasil venceu, mas Mozer levou dois cartões amarelos que o tiraram do último jogo, contra a Escócia – também vencido pelo Brasil. Do banco, o brasileiro viu a Argentina vencer o duelo das oitavas de final por 1 a 0 e a seleção dar adeus à Copa.

 

Retorno ao Benfica, corte e aposentadoria

 

Em 1992, Mozer deixou o Olympique para jogar no Benfica, onde conquistou a Taça de Portugal de 1992-1993 e mais um Campeonato Português na temporada 1993-1994. Após ser esquecido nas primeiras convocações para a seleção pós-Mundial de 1990, Mozer retornou em 1992 para uma série de amistosos e voltou a exibir seu futebol de alto nível contra a Inglaterra (empate em 1 a 1, em Wembley, uma partidaça do zagueiro) e na vitória por 1 a 0 sobre o Milan de Van Basten e Gullit, amistoso que marcou a despedida do meio-campista Carlo Ancelotti. Porém, o Benfica dificultava bastante a liberação de Mozer para a seleção e ele não jogou o quanto queria nas Eliminatórias para a Copa de 1994. A ideia de Carlos Alberto Parreira era uma zaga com Mozer e Ricardo Gomes, mas o defensor acabou cortado às vésperas da Copa por conta de um quadro de hepatite não virótica, mas tóxica, causada pelo uso excessivo de anti-inflamatórios. Em entrevista ao UOL Esporte em março de 2014, o defensor questionou bastante a decisão da comissão técnica.

 

“Fui cortado e até hoje não sei porque não me deram a chance de estar no Mundial. Não entendo o porquê. (Os médicos) falaram que eu não poderia fazer esforço e que corria risco de morrer. A única mágoa é depois de tanta dedicação não ter o orgulho de ter sido campeão do mundo. Foi bastante frustrante, fiquei privado de ser campeão mundial. […] Eu tomava um medicamento chamado Sargenor, que aumentava as taxas de enzimas. Tomava para poder me recuperar melhor entre um treino e outro na questão muscular. Tudo seria normalizado depois de um tempo sem tomar. Não me foi dada a chance de fazer novos exames. Pedi mais três dias para a regularização do sangue, mas não esperaram”.

 

Aquilo magoou bastante o defensor, que não voltou mais a jogar pela seleção na carreira. Ele disputou 32 jogos entre 1983 e 1994. Após passar um breve período no futebol japonês, Mozer pendurou as chuteiras em 1996, aos 36 anos. Ele tentou uma carreira de treinador e foi auxiliar de José Mourinho no Benfica e no União de Leiria, mas a trajetória não vingou. Ele foi comentarista esportivo em Portugal por um período, e, em 2016, atuou como gerente de futebol do seu querido Flamengo, mas deixou o cargo em 2018. 

Mesmo sem o sucesso que merecia na seleção, Mozer marcou seu nome na história como um dos mais talentosos zagueiros do futebol brasileiro. Ser ídolo em três clubes com torcidas tão exigentes e apaixonadas como ele fez no Flamengo, no Benfica e no Olympique foi algo digno de um imortal. E isso ele provou ser. 

 

Números de destaque:

 

Disputou 292 jogos e marcou 21 gols pelo Flamengo.

Disputou 144 jogos e marcou 13 gols pelo Benfica.

Disputou 108 jogos e marcou 4 gols pelo Olympique de Marselha.

Escrito por imortaisdofutebol

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