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Craque Imortal – Chilavert

 

Nascimento: 27 de julho de 1965, em Luque, Paraguai.

Posição: Goleiro

Clubes: Sportivo Luqueño-PAR (1982-1984), Guaraní-PAR (1984-1985), San Lorenzo-ARG (1985-1988), Real Zaragoza-ESP (1988-1991), Vélez Sarsfield-ARG (1991-2000 e 2003-2004), Strasbourg-FRA (2000-2002) e Peñarol-URU (2002-2003). 

Principais títulos por clubes: 1 Campeonato Paraguaio (1984) pelo Guaraní.

1 Mundial Interclubes (1994), 1 Copa Libertadores (1994), 1 Supercopa da Libertadores (1996), 1 Recopa Sul-Americana (1997), 1 Copa Interamericana (1994) e 4 Campeonatos Argentinos (1993-Clausura, 1995-Apertura, 1996-Clausura e 1998-Clausura) pelo Vélez Sarsfield.

1 Copa da França (2000-2001) pelo Strasbourg.

1 Campeonato Uruguaio (2003) pelo Peñarol.

Principais títulos individuais:

Melhor Goleiro do Mundo pela IFFHS: 1995, 1997 e 1998

Futebolista do Ano da América do Sul: 1996

FIFA XI: 2001

Futebolista do Ano na Argentina: 1996

Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA: 1998

Eleito para o Time do Ano da América do Sul: 1994, 1995, 1996, 1997, 1998 e 1999

 

“El Bulldog”

 

Por Leandro Stein

 

Assistir a um jogo do Vélez Sarsfield ou do Paraguai na década de 1990 era uma experiência particular. Se você não simpatizasse com o adversário, torcia por uma falta na entrada da área. Em tempos nos quais parecia loucura (limitada em raríssimas vezes ao lunático Renê Higuita) um goleiro ir de uma meta à outra só para cobrar uma falta, José Luis Chilavert tornou a aventura um costume em seus jogos. E muitas vezes a garantia de um golaço. O camisa 1 fez sua fama pela maestria nas bolas paradas, encerrando a carreira com 62 gols anotados, um recorde até então. Só que El Bulldog ia muito além de seus gols. Sob as traves, também pegava demais. Marcou-se em duas equipes históricas, para ser lembrado como um dos melhores do mundo na década de 1990. É hora de relembrar a carreira dessa lenda do Paraguai e de Liniers.

 

De Luque a Liniers

 

Chilavert começou cedo, e já causando impacto. Aos 15 anos, apareceu pela primeira vez na meta do Sportivo Luqueño, de sua cidade natal. Embora quisesse ser centroavante, acabou indo para o gol a mando de seu irmão, pois “não tinha categoria para a função de goleador”, segundo o próprio Chilavert admitiu anos depois, em entrevista à Placar, em 1997. O paraguaio ganhou sequência pouco depois e teve breve passagem pelo Guaraní, da capital, quando já estava claro que alçaria voos mais altos. Chegou a contar com uma proposta do Atlético de Madrid, que na época contava com Ubaldo Fillol, antes de seguir para a Argentina. Em Boedo, se fez um dos grandes ídolos do San Lorenzo na década de 1980, com direito a um vice-campeonato nacional. Poderia ter ido ao River Plate, em uma troca com o Goycochea, que nunca deu certo. Quis o destino que passasse três temporadas na Espanha, em campanhas não muito empolgantes pelo Zaragoza. Um desvio de caminho até chegar ao Vélez em 1991.

Em Liniers, Chilavert se tornou uma referência. O goleiro assumiu o protagonismo no time de Carlos Bianchi, que passou a brilhar como nunca no futebol nacional. Durante os anos com o paraguaio, El Fortín tornou-se um gigante. Em 1993, encerrou o jejum de 25 anos sem conquistar o Campeonato Argentino, apenas o segundo em toda sua história. O que deu a vaga na Libertadores de 1994, onde o Vélez deu um passo além. Chilavert fechou o gol e teve papel fundamental na campanha da primeira fase, quando o Vélez deixou para trás Palmeiras, Cruzeiro e Boca Juniors. Nas oitavas de final, os argentinos encararam o Defensor Sporting, do Uruguai. Depois de dois empates (1 a 1 e 0 a 0), Chilavert começou a mostrar suas armas ao defender duas cobranças na disputa de pênaltis, que terminou com vitória do Vélez por 4 a 2. Jogando no 4-4-2, com uma zaga forte e bolas alçadas na frente para a dupla de atacantes Flores e Asad, o time de Bianchi parecia ter mesmo a raça e os utensílios necessários para disputar uma Libertadores, ainda mais com a liderança e talento de Chilavert, que enervava os adversários com provocações, catimbas, defesas milagrosas e muita categoria com a bola nos pés.

O Vélez de 1994. Em pé: Roberto Trotta, Marcelo Gómez, Mauricio Pellegrino, Héctor Almandoz, José Luis Chilavert, Flavio Zandoná e José Basualdo. Agachados: Christian Bassedas, Turu Flores, Omar Asad e Raúl Cardozo.

 

Nas quartas de final, o time eliminou o Minerven, da Venezuela, ao empatar o primeiro jogo sem gols e vencer o segundo por 2 a 0. Nas semis, mais sofrimento nos pênaltis. O time perdeu o primeiro jogo para o Júnior (COL) por 2 a 1 e venceu a volta pelo mesmo placar. Nas penalidades, outra vez Chilavert foi decisivo, pegando um chute e contando com a trave na cobrança alternada do rival. Por mais incrível que pudesse parecer, o Vélez Sarsfield estava na final da Copa Libertadores de 1994. Mas o adversário da decisão seria ninguém mais ninguém menos que o poderosíssimo São Paulo, então bicampeão mundial e da própria Libertadores.

Após duas vitórias para cada lado nas finais, a decisão foi para os pênaltis, em um Morumbi com mais de 100 mil pessoas. Nas disputas, Chilavert calou o gigante tricolor logo na primeira cobrança de Palhinha. O jogador bateu mal e o goleiro paraguaio fez a defesa. Na sequência, todos os batedores converteram suas cobranças e Pompei fez o gol que garantiu o 5 a 3 e o inédito e histórico título continental ao clube azul e branco da Argentina. Meses depois, o goleirão e seu Vélez ainda desbancaram o Milan de Capello no Japão, venceram por 2 a 0 e ficaram com o título do Mundial Interclubes.

Chilavert seguiu sua sequência de conquistas em 1995, com o Apertura. Mas, até então, apenas como o ótimo goleiro de um bom time, e não como um exímio cobrador de bolas paradas. Já tinha feito cinco gols em toda a carreira, quatro deles de pênalti. Mas só assumiu a função de vez em 1996. Para tornar-se, também, uma arma ofensiva primordial do Fortín. Naquele ano, foram nove tentos pelo clube, ajudando nas conquistas do Clausura e da Supercopa da Libertadores. Entre eles, um chutaço do meio da rua contra o River Plate de Burgos e dois na goleada por 5 a 1 sobre o Boca Juniors de Navarro Montoya. Aliás, o gol no River merece uma anedota especial.

Aconteceu em 22 de março de 1996 e as equipes empatavam em 1 a 1 quando Francescoli errou o tempo da bola e acabou acertando um carrinho em Raúl Cardozo, do Vélez. Enquanto o argentino ainda se recuperava da pancada recebida, Chilavert viu Germán Burgos adiantado no gol dos Millonarios e arriscou um chute a uns 60 metros de distância. Mono Burgos até tentou voltar correndo para o gol, mas a bola tomou um caminho tão preciso que passou exatamente por onde o arqueiro do River não poderia alcançar. Chilavert, acostumado a balançar as redes adversárias, soube imediatamente que aquele gol, que ajudou a equipe a vencer por 3 a 2, era histórico, um clássico instantâneo, e sua comemoração efusiva é a maior evidência disso. Vivia o ápice de sua carreira, coroado também o melhor jogador do futebol argentino naquele ano. Já em 1997, ano em que faturou a Recopa Sul-Americana, chegou a comemorar 15 gols.

 

 

Seleção, consagração e declínio

 

Já com a seleção, Chilavert ajudava a elevar o Paraguai a um protagonismo que não sentia por anos. Embora já tivesse participado de duas Eliminatórias da Copa do Mundo, anotando um gol de pênalti em cada, foi na preparação ao Mundial da França que o Bulldog assumiu a posição de vez. Era a referência de uma linha de defesa fabulosa: Arce, Gamarra, Ayala e Sanabria. Um time que tomava poucos gols, e ainda contava com o camisa 1 para marcá-los. Assim fez dentro do Monumental de Núñez lotado, perseguido pela torcida argentina, para garantir o valioso empate por 1 a 1. A albirroja fez a segunda melhor campanha nas Eliminatórias, só um ponto atrás da Argentina, para voltar à Copa após 12 anos.  

“Quando o Batistuta fez 1 a 0, todo o estádio me xingou. Eles não estavam jogando contra o Paraguai, mas contra Chilavert. (…) Veio a falta. Corri para bater. Nesse momento tive a maior sensação da minha vida. Cheguei na bola e o estádio inteiro ficou mudo. Era o silêncio dos inocentes”, comentou Chilavert à Placar, em 1997.

Na França, a expectativa pelo gol de Chilavert se tornou enorme. Poderia ser o primeiro goleiro a marcar em um Mundial. E até teve a chance na fase de grupos, contra a Bulgária. O tento não veio, mas mais importante foi a classificação no temido grupo da morte, sofrendo apenas um gol em jogos duríssimos contra nigerianos, búlgaros e espanhóis. Só que, infelicidade pelo segundo lugar, o Paraguai se cruzou com a seleção francesa nas oitavas. E, mesmo com Gamarra lesionado, a defesa fez seu papel por 114 minutos, quando Laurent Blanc aproveitou a única brecha para anotar o gol de ouro. Os paraguaios caíram de pé, enquanto Chilavert acabou apontado como o segundo melhor goleiro do torneio e o que mais fez defesas (22) – embora o melhor do ano.

Chilavert com um dos troféus de Melhor Goleiro do Mundo que ganhou na carreira.

 

Também em 1998, Chilavert completou sua saga de títulos com o Vélez ao levantar a taça do Campeonato Argentino pela quarta vez em cinco anos. E, no ano seguinte, quando chegou a anotar uma tripleta nos 6 a 1 sobre o arquirrival Ferro Carril, a Conmebol o escalaria no time ideal da América pelo sexto ano seguido, figurinha carimbada na premiação desde 1994. Naquele momento, porém, o homem passava a ganhar mais as manchetes do que o goleiro. Ao longo da carreira, o Bulldog sempre foi um cara de poucos amigos. Falastrão e agressivo, colecionou desafetos. E passou a ganhar mais destaque pelas muitas polêmicas e pelos gols do que pelas grandes defesas.

Em declínio no Vélez, transferiu-se ao Strasbourg em 2001. O mau momento também se refletia na seleção paraguaia e, mesmo passando pelas Eliminatórias, ajudou a afundar o time na fraquíssima campanha na Copa de 2002. Sequer conseguiu marcar o esperado gol em Mundiais, parando no travessão contra a Eslovênia. Ao mesmo tempo, Chilavert se estranhava com o governo, com os jornalistas, com companheiros. Cuspiu no rosto de Roberto Carlos, acusando-o de racismo, em uma atitude ainda assim injustificável. E, caindo no ostracismo, ainda teve passagens apagadas pelo Peñarol e novamente pelo Vélez antes de pendurar as luvas.

A cusparada de Chilavert em Roberto Carlos (à esq.): momento repugnante.

 

Aposentado, Chilavert se tornou mais uma caricatura de suas próprias declarações. Preferiu sustentar a arrogância, como ao comentar o feito de Rogério Ceni, que o superou nos gols – seja o total ou as cobranças de falta. O passado do goleiraço, ao menos, nada apagará. Seu pioneirismo nas bolas paradas ficou, e segue inigualável por seleções nacionais. Assim como as grandes defesas que o fizeram ser eleito em três anos o melhor camisa 1 do mundo. Fale o que falar, o homem nunca diminuirá o que fez como ídolo.

 

Números de destaque:

Disputou 341 jogos e marcou 48 gols pelo Vélez Sarsfield.

Disputou 78 jogos e marcou 8 gols pela seleção do Paraguai.

Marcou 62 gols na carreira.

 

 

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