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Craque Imortal – Carrizo

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Nascimento: 12 de Junho de 1926, em Rufino, Argentina. Faleceu em 20 de março de 2020, em Buenos Aires, Argentina.

Posição: Goleiro

Clubes: River Plate-ARG (1945-1968), Alianza Lima-PER (1969) e Millonarios-COL (1969-1970).

Principais títulos por clube: 7 Campeonatos Argentinos (1945, 1947, 1952, 1953, 1955, 1956 e 1957) pelo River Plate.

 

Principais títulos individuais:

10º Melhor Goleiro do Século XX pela IFFHS: 1999

Melhor Goleiro do Século XX na América do Sul pela IFFFHS: 1999

Melhor Goleiro Argentino do Século XX pela IFFHS: 1999

Eleito o 56º Melhro Jogador do Século XX pela revista Placar: 1999

Eleito para a Seleção dos Sonhos da Argentina do Imortais: 2020

 

“O gigante que fez escola”

Por Guilherme Diniz

Com quase 1,90m de altura, aquele arqueiro fazia a grande área parecer a pequena tamanha sua imponência dentro dela. Talvez por isso que ele jamais gostou de ficar parado embaixo das traves. Ele gostava mesmo era de jogar avançado, quase como um líbero. Quando a bola vinha em sua direção, ele se atirava da maneira que fosse possível e afastava qualquer invasor com sua protuberância e avidez. Não bastasse tudo isso, ele ainda driblava atacantes, saía jogando com a bola dominada, foi pioneiro no uso de luvas e fazia lançamentos com as mãos com a força e a precisão de quem os fazia com os pés. Ah, ele pegava muito também. E levava pouquíssimos gols. Amadeo Raúl Carrizo, mais conhecido como Carrizo ou “Tarzán”, fez história no futebol por introduzir uma série de técnicas que seriam marcas comuns em muitos goleiros de diferentes países.

Com a camisa do River Plate, Carrizo marcou época com títulos, defesas irresistíveis e um absolutismo que jamais foi quebrado ou contestado. Só a Seleção Argentina que não teve o goleiro o tanto que ela queria e o tanto que ele merecia: foram apenas 20 partidas, entre 1954 e 1964, uma fatídica Copa do Mundo disputada, em 1958, e a decepção de não ter sido reconhecido por sua gente enquanto vestiu a camisa alviceleste. Mas os ensinamentos do gigante das áreas foram devidamente escritos nos livros futebolísticos para que goleiros como Hugo Gatti, René Higuita, José Luís Chilavert, Rogério Ceni e vários outros que se notabilizaram não só pelas defesas, mas pela habilidade com os pés e com os lançamentos em profundidade, pudessem aprender. É hora de relembrar a carreira desse grande ícone do esporte.

 

Entre o ataque e o gol

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Nascido em Rufino, província de Santa Fé, Amadeo Carrizo começou a demonstrar sua paixão pelo futebol ainda garoto, quando jogava como atacante e também como goleiro em pequenas equipes de sua cidade, como o El Fortín e o Buenos Aires Pacífico. Por ser bem alto e forte, o jovem percebeu que teria futuro melhor no gol, ainda mais se conseguisse fazer uso de sua habilidade com a bola nos pés em prol de seus companheiros de defesa e até de ataque. No começo dos anos 40, Héctor Berra, atleta que havia disputado os Jogos Olímpicos de 1932 pela delegação argentina, enviou uma carta a Carlos Peucelle, da comissão técnica do River Plate, recomendando um jovem promissor ao elenco millonario. O jovem era Carrizo, que desembarcou em Buenos Aires com 15 anos em uma época de ouro do clube, que contava com jogadores como Vaghi, Yácono, Néstor Rossi, Pedernera, Labruna, Loustau e Di Stéfano, base do time que ficou conhecido como La Máquina (que o Imortais já relembrou aqui).

Infelizmente, a fase de ouro daquele timaço estava terminando quando Carrizo fez seu debute pela equipe, aos 19 anos, em 1945, em um a partida contra o Independiente, curiosamente o clube pelo qual ele torcia quando criança. O River venceu por 2 a 1 e Carrizo mudou seu coração naquele mesmo momento. Ele era River. E o seria para o todo e sempre, mesmo com a necessidade de esperar cerca de quatro anos até conseguir, enfim, a titularidade plena no gol millonario e substituir os ex-titulares José Eusébio Soriano e Héctor Grisetti.

 

As inovações

Agarrando uma bola na área: Carrizo não tinha medo algum de se atirar diante dos rivais (ainda mais com seu enorme tamanho).
Agarrando uma bola na área: Carrizo não tinha medo algum de se atirar diante dos rivais (ainda mais com seu enorme tamanho).

 

Depois de disputar pouco mais de 17 jogos em 1948, Carrizo assumiu de vez o gol do River em 1949, ano em que o River não foi campeão argentino, mas teve a melhor defesa do torneio nacional com 36 gols sofridos em 34 jogos. Era o reflexo de Carrizo, que mostrava enorme comprometimento nos treinos e características peculiares e inovadoras para a época. Ao contrário da maioria dos goleiros, Carrizo se destacava pela habilidade com a bola nos pés e por saber dominar a redonda e sair jogando quando necessário, além de efetuar vários lançamentos e iniciar contra-ataques com chutes rápidos e bem executados.

Com as mãos, ele realizava lançamentos precisos em profundidade e, claro, parava os atacantes com defesas elásticas e encaixadas de bola magníficas, uma de suas principais virtudes por “encerrar a jogada” e não possibilitar perigosos rebotes. Mais do que tudo isso, o goleirão mostrava estilo e coragem ao não ficar estático na pequena área, mas em movimento na grande área e, em alguns momentos, na meia lua, quase como um líbero. O talento do camisa 1 começou a render diversos elogios, principalmente do companheiro Di Stéfano, que lamentou profundamente ter deixado o River naquele final de década e não ter levado consigo o arqueiro. Segundo o craque, com Carrizo na Europa, ele teria feito muitos mais gols graças aos lançamentos do gigante do gol.

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Com atuações brilhantes, Carrizo virou peça fundamental no River de José Maria Minella e conquistou, em 1952, seu primeiro título nacional como titular. Na campanha, o River venceu uma apertada disputa com o Racing, vice-campeão, e somou 40 pontos (um a menos que os alvicelestes). Em 1953, Carrizo ajudou o River a faturar o bicampeonato argentino, e foi um dos destaques da segunda melhor defesa da competição, que levou 36 gols em 30 jogos disputados. Durante a campanha, o River não levou gols em sete jogos e teve em Labruna, Walter Gómez e Carrizo os artífices para a glória. Na temporada seguinte, o Boca ficou com a taça, mas não sem antes sofrer nas mãos do River de Carrizo. No turno, a equipe millonaria venceu o rival por 1 a 0, em La Bombonera, e no returno resolveu dar show. Labruna marcou dois e Walter Gómez deixou um nos 3 a 0 do River no Monumental, que foi ainda mais saboroso pelo fato de Carrizo ter humilhado uma das estrelas boquenses na época, José Borello, com dois dribles inesquecíveis após receber uma bola em seu campo de defesa e se livrar do atacante boquense com muito estilo. Borello jamais foi perdoado pela torcida xeneize. E Carrizo ganhou ainda mais a idolatria da torcida do River após o episódio.

 

O tri de ouro

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Entre 1955 e 1957, Carrizo e seu River simplesmente tomaram conta do futebol argentino. Com um time entrosado e comandado brilhantemente por José Maria Minella, os millonarios foram tricampeões nacionais com total dominância e folga diante dos rivais. Em todas as campanhas, Carrizo fez do River um dos times com menor número de gols sofridos (35 gols sofridos em 30 jogos em 1955; 32 gols sofridos em 30 jogos em 1956 – melhor defesa; e 34 gols sofridos em 30 jogos em 1957 – segunda melhor defesa). Dos 90 jogos da campanha do tricampeonato, a equipe do goleirão não levou gols em 28 partidas – quase 1/3.

Foi nessa época que Carrizo ganhou as primeiras convocações para a Seleção Argentina, mas, ao contrário do River, ele não era titular absoluto por ser preterido pelo técnico Guillermo Stábile, que preferia Rogelio Domínguez, titular na campanha do título sul-americano dos argentinos em 1957. Naquele mesmo ano, porém, Carrizo voltou a ser chamado e participou dos quatro jogos da seleção alviceleste nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958. Carrizo levou apenas dois gols (da Bolívia, que venceu por 2 a 0 na sempre injusta altitude de La Paz) e permaneceu intacto nas vitórias sobre Chile (4 a 0 e 2 a 0) e Bolívia (4 a 0) que colocaram os Hermanos em seu primeiro Mundial desde o longínquo ano de 1930, quando foram vice-campeões.

Paulo Valentim e Carrizo, em um dos muitos Boca x River dos anos 60
Paulo Valentim e Carrizo, em um dos muitos Boca x River dos anos 60

 

A Copa para esquecer

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Todos os maiores goleiros da história do futebol já falharam alguma (ou algumas) vez (es). Mas, por ironia do destino, Amadeo Carrizo teve momentos de puro pesadelo justo no maior palco de todos – a Copa do Mundo. Na Suécia, o craque disputou três partidas e levou absurdos 10 gols: três na derrota por 3 a 1 para a Alemanha, na estreia, um na vitória por 3 a 1 sobre a Irlanda do Norte, e seis na acachapante goleada sofrida para a Tchecoslováquia por 6 a 1. Nesta última partida, Carrizo não se entendeu em nenhum momento com seus zagueiros e foi obrigado a ver o passeio dos tchecos. A eliminação precoce e vexatória dos argentinos fez com que a delegação fosse recebida com uma chuva de moedas e pedras na volta à Buenos Aires, com a munição sendo despejada de maneira mais assídua em Carrizo, acusado de ser o principal culpado pela goleada da última partida. Abalado, o goleiro decidiu, naquele instante, abandonar de vez a seleção e recusaria várias e várias convocações ao longo dos anos. Ele só teria mais um grande momento com a camisa alviceleste em 1964.

 

Grandes momentos (mesmo sem títulos) e a volta por cima na seleção

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Depois do título nacional de 1957, Carrizo não venceu mais nenhum Campeonato Argentino e iniciou, assim como seu River, um período incômodo de seca. Embora não tenha conquistado mais nenhuma taça pela equipe do Monumental, o goleiro manteve sua lenda viva com grandes atuações, defesas espetaculares e a vontade de vencer à flor da pele nos duelos contra o Boca Juniors. Em 1966, Carrizo quase venceu a Copa Libertadores com o River.

Na primeira fase, a equipe foi líder de seu grupo e ficou à frente do Boca com oito vitórias, um empate e uma derrota em 10 jogos, com apenas oito gols sofridos e 23 gols marcados. Na segunda fase, nova liderança e classificação para a final. Nela, os argentinos encararam o Peñarol-URU e perderam o primeiro jogo, em Montevidéu, por 2 a 0. Na volta, a vitória millonaria por 3 a 2 forçou um terceiro duelo, no Chile, onde o Peñarol reverteu um placar adverso em 2 a 0 e faturou a taça com um lendário 4 a 2, resultado que doeu muito no goleiro e ainda mais na torcida.

Uma escalação da Argentina durante a Taça das Nações de 1964: Antonio Rattín, Amadeo Carrizo, Alfredo Hugo Rojas, José Manuel Ramos Delgado, Roberto Telch, Vieitez, Prospitti, Ermindo Onega, Vidal, Carmelo Simeone, José Rendo.
Uma escalação da Argentina durante a Taça das Nações de 1964: Antonio Rattín, Amadeo Carrizo, Alfredo Hugo Rojas, José Manuel Ramos Delgado, Roberto Telch, Vieitez, Prospitti, Ermindo Onega, Vidal, Carmelo Simeone e José Rendo.

 

Antes da dor continental, Carrizo teve momentos de muita alegria, quem diria, com a camisa da Seleção Argentina. Em 1964, o time alviceleste participou da Taça das Nações, que celebrou os 50 anos de fundação da Confederação Brasileira de Futebol. Disputado no próprio Brasil, o torneio reuniu os anfitriões, a Argentina, Portugal e Inglaterra. E Carrizo fez questão de permanecer os três jogos invicto. No primeiro, vitória argentina por 2 a 0 sobre Portugal. No segundo, épico 3 a 0 sobre o Brasil, com direito a pênalti cobrado por Gérson e defendido por Carrizo e grandes defesas do goleiro em investidas de Pelé, Edu, Carlos Alberto, Julinho e companhia. Para coroar uma participação de gala e o título, a Argentina venceu a Inglaterra por 1 a 0 e sagrou-se campeã. O desempenho de Carrizo no torneio foi uma vingança pessoal para todos aqueles que duvidaram de sua capacidade e que o afastaram da seleção. Nem mesmo as atuações do craque de 38 anos na competição deram a ele uma vaga na Copa do Mundo de 1966 – o técnico Juan Carlos Lorenzo preferiu Antonio Roma, Rolando Irusta e Hugo Gatti (reserva de Carrizo no River). Azar da Argentina, que caiu precocemente no torneio.

 

Aposentadoria e o fim de uma lenda

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Já quarentão, Carrizo seguiu fazendo história no River naquele final de anos 60, quando, em 1968, superou os 500 jogos oficiais em campeonatos nacionais e atingiu a incrível marca de 769 minutos sem levar gols. Em 1969, o craque se despediu do River para uma atuação brevíssima pelo Alianza Lima, do Peru, e outra rápida passagem pelo Millonarios, da Colômbia, entre 1969 e 1970, até se aposentar em definitivo aos 44 anos de idade. Depois de pendurar as luvas, o craque seguiu no mundo esportivo, recebeu diversas homenagens – como o título de presidente de honra do River Plate – e marcou presença assídua em diversas listas com os melhores goleiros e jogadores do século XX. Carrizo se manteve extremamente lúcido mesmo após os 90 anos, dizendo que os segredos para sua longevidade eram “vinho, pequenos passeios de bicicleta e de moto e uma alimentação equilibrada”. O gigante faleceu em 2020, aos 93 anos.

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Revolucionário e único, Amadeo Carrizo pode não ter tido sorte jogando pela Argentina, mas conseguiu escrever seu nome defendendo de todas as maneiras possíveis o River Plate, que manteve-se soberano em seu país muito graças às defesas espetaculares e a presença marcante de seu guarda-metas, que introduziu diversas características presentes em muitos goleiros modernos, mas jamais igualadas ou superadas por nenhum outro. Carrizo foi único, quebrou paradigmas e se tornou um craque do mais alto quilate. E imortal.

 

Números de destaque:

Disputou cerca de  521 jogos com a camisa do River Plate.

Disputou 20 jogos pela Seleção Argentina.

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2 Comentários

  1. Buen día. Mi nombre es Ricardo Troncone, soy yerno de Amadeo Carrizo. Cuando joven fuí jugador de futbol. Jugué en Platense, Racing, Argentinos juniors, Newells y cuatro años y medio en Bolivar de La Paz, Bolivia. Quería ver la posibilidad de contactarme con el Sr. Guilherme Diniz, para agradecerle la espectacular nota dedicada a Amadeo. Ojalá llegue este mail y obtenga respuesta. Un abrazo desde Buenos Aires. Ricardo Troncone

Craque Imortal – Coutinho

Esquadrão Imortal – Sampdoria 1986-1992