Por Guilherme Diniz
O futebol possui laços que superam fronteiras e barreiras. E existe um vigente desde 1949 que vez ou outra é lembrado e reafirmado através de homenagens, camisas especiais e encontros. Com o lançamento de seu terceiro uniforme para a temporada 2025-2026, o Torino-ITA trouxe de volta a amizade que nutre com o River Plate-ARG há quase 80 anos. Tudo começou em maio de 1949, logo após a Tragédia de Superga, acidente aéreo ocorrido em 04 de maio de 1949 que matou todos os jogadores do Grande Torino, um dos maiores esquadrões do mundo nos anos 1940 e um dos maiores de todos os tempos.
Quando a notícia chegou ao continente sulamericano, o caso comoveu o presidente do River Plate na época, Antonio Vespucio Liberti – o mesmo que impulsionou a construção do estádio do River, o Monumental -, que entrou em contato com a diretoria do clube italiano a fim de organizar um amistoso beneficente na cidade de Turim como forma de angariar fundos para ajudar as famílias das vítimas. Liberti fez questão de levar o time titular do River para o amistoso e deixou os reservas para disputar os compromissos locais. Mas não seria qualquer time que o clube argentino levaria ao outro lado do Oceano Atlântico. Os millonarios tinham na época um esquadrão emblemático, multicampeão e conhecido pelo singelo apelido de La Máquina, com craques como Carrizo, Vaghi, Yácono, Rossi, Di Stéfano, Labruna e Loustau.
La Máquina chega à Itália

Em solo italiano já no final do mês de maio, a delegação do River se encontrou com o Papa Pio XII, no Vaticano, e de lá partiu para a cidade de Turim, sempre muito bem recebida por todos. “Lembro que os jornalistas italianos nos elogiaram muito. (…) Foi minha primeira visita à Europa e jamais poderei esquecer que nossa ação solidária foi agradecida pelo Papa Pio XII, que nos recebeu no Vaticano e nos disse que nossa atitude era digna de bons cristãos”, comentou tempo depois Néstor Rossi, um dos grandes nomes do River.
A partida contra o Torino seria realizada no dia 26 de maio e o clube da cidade seria representado por atletas que se destacaram na última edição do Campeonato Italiano da época. Com isso, a equipe foi chamada Torino Símbolo e teve como 11 inicial: Sentimenti IV (Juventus); Manente (Juventus) e Furiassi (Fiorentina); Annovazzi (Milan), Giovannini A. (Inter) e Achilli (Inter); Nyers (Inter), Boniperti (Juventus), Nordahl (Milan), Hansen J. (Juventus) e Ferraris II (Novara).


Na manhã do dia do jogo, os atletas visitaram o memorial em homenagem às vítimas e foram ao local do acidente, na Basílica de Superga. Já no Estádio Olímpico de Turim, local do jogo, mais de 60 mil pessoas aplaudiram efusivamente a entrada das equipes em campo, em um momento muito emocionante. O jogo demorou 40 minutos para começar por causa das homenagens e tributos, entre eles uma placa entregue pela diretoria do Torino ao River, pelo enorme gesto de solidariedade prestado, com os dizeres, em latim:
cordium consensus vitam parit novellam (o consenso dos corações prepara a renovação da vida)
Já o River entregou um troféu especial doado pela primeira-dama argentina Eva Perón. Quando a bola rolou, Nyers fez o primeiro gol do jogo para o Torino Símbolo e Labruna empatou para o River, aos 25′. Annovazzi, aos 43′, deixou os italianos em vantagem no primeiro tempo e Di Stefano, já aos 81′, fechou o placar em 2 a 2. O empate foi celebrado por todos e 20 milhões de liras foram arrecadadas em prol dos familiares das vítimas.
Muito mais do que um jogo



Aquela partida foi além de um simples amistoso: simbolizou a solidariedade internacional, o poder unificador do futebol e uma homenagem memorável aos sobreviventes e familiares das vítimas da tragédia em tempos sem internet, dificuldades de comunicação e transporte, empecilhos que foram superados de todas as maneiras pela delegação do River Plate. A partir dali, a amizade entre os clubes passou a ser chamada de Eterna Amizade e, dois anos depois, o River Plate convidou o Torino para as celebrações de seu aniversário de 50 anos, na Argentina. Após o amistoso – vencido pelo River por 3 a 1 -, os clubes firmaram um acordo de que cada um usaria a camisa do outro como alternativa sempre que necessário.


Em 1953, o Torino passou a utilizar como uniforme alternativo uma camisa branca com faixa diagonal em grená, em alusão ao estilo da camisa do River, vestimenta que estreou em um empate em 1 a 1 contra o Milan, em janeiro de 1953. Ao longo das décadas, ambos os clubes confeccionaram camisas especiais, com homenagens mútuas. E a amizade segue intacta e eterna – bem parecida com o construída por Chapecoense e Atlético Nacional -, em um dos mais belos laços do futebol.

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Realmente o maior exemplo de solidariedade veio do River plate muito legal mesmo.aqui no brasil o Corinthians no ano de 1949 usou camisas grená se não me engano em um amistoso contra um time peruano logo após a tragédia de superga para homenagear o Torino que aliás foi o primeiro time do exterior que o Corinthians enfrentou em 1914 e o toro venceu por dois a zero aqui em São Paulo.Torino este treinado por Vitorio Pozzo ele mesmo BI mundial com a Itália que fez muitos elogios ao quadro do timao na época.entao Corinthians e Torino também tem seus laços históricos de amizade.