Por Guilherme Diniz
Luis Fernando Veríssimo, um dos maiores escritores e cronistas da história do Brasil, faleceu em Porto Alegre (RS), aos 88 anos, na madrugada de 30 de agosto de 2025. Ele estava internado na UTI do Hospital Moinhos de Vento desde o dia 11 de agosto. A causa da morte foi por complicações decorrentes de uma pneumonia. Veríssimo construiu uma trajetória de sucesso escrevendo para jornais como Zero Hora (onde começou como revisor, em 1966), O Estado de S.Paulo e O Globo, como tradutor no Rio de Janeiro e com a publicação de vários livros – seus mais de 80 títulos venderam cerca de 5,6 milhões de exemplares. Ele foi ainda publicitário, revisor de jornal e até saxofonista em conjuntos musicais.
Uma das paixões de Veríssimo era o futebol, mais precisamente o Internacional, seu clube de coração e com o qual ele criou uma simbiose única. O gaúcho colecionou várias crônicas marcantes sobre o esporte. E, por isso, o Imortais presta uma homenagem ao lendário gênio das letras com a lembrança a seguir de quatro textos futebolísticos do escritor. Veríssimo fará muita falta. Mas suas palavras ficarão para sempre em nossa memória.
Futebol de Rua
Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que eu estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora. Não sei se alguém, algum dia, por farra ou nostalgia, botou num papel as regras do futebol de rua. Elas seriam mais ou menos assim:
1. A BOLA
A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do irmão menor.
2. O GOL
O gol pode ser feito com o que estiver à mão: tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, chinelos, os livros da escola e até o seu irmão menor.
3. O CAMPO
O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, rua e a calçada do outro lado e, nos clássicos, o quarteirão inteiro.
4. DURAÇÃO DO JOGO
O jogo normalmente vira 5 e termina 10, pode durar até a mãe do dono da bola chamar ou escurecer. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.
5. FORMAÇÃO DOS TIMES
Varia de 3 a 70 jogadores de cada lado. Ruim vai para o gol. Perneta joga na ponta, esquerda ou a direita, dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.
6. O JUIZ
Não tem juiz.
7. AS INTERRUPÇÕES
No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada em 3 eventualidades:
a) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isso não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação.
b) Quando passar na rua qualquer garota gostosa.
c) Quando passarem veículos pesados. De ônibus para cima. Bicicletas e Fusquinhas podem ser chutados junto com a bola e, se entrar, é gol.
8. AS SUBSTITUIÇÕES
São permitidas substituições no caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer lição ou em caso de atropelamento.
9. AS PENALIDADES
A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar o adversário dentro do bueiro.
10. A JUSTIÇA ESPORTIVA
Os casos de litígio serão resolvidos na porrada.
Os seis minutos
10 de julho de 2014, após o fatídico 7 a 1, publicado em O Globo

A primeira coisa a fazer, já que o Thiago Silva não poderia jogar, era apresentar o David Luiz ao Dante. Os dois conversariam, talvez num jantarzinho, trocariam confidências e fotos das crianças, e combinariam como jogar contra os alemães. Aparentemente, isto não aconteceu. Quando David Luiz e Dante finalmente se conheceram, se apertaram as mãos (“muito prazer”, “muito prazer”, “precisamos nos encontrar!”) já estava 5 a 0 para a Alemanha.
Outra coisa: houve uma confusão nas convocações. O Felipão chamou o Fred do ano passado, um dos melhores jogadores da Copa das Confederações, e quem apareceu foi o Fred deste ano, claramente um impostor. Ninguém se lembrou de checar sua documentação. E o Felipão não poderia saber que tinha convocado o Fred errado.
Outro azar: a partida ter terminado em 7 a 1. Até os 7 a 1 foi um desastre, um vexame, um escândalo — tudo que saiu nos jornais. Mas ainda estava dentro dos limites do concebível. Era cruel, era difícil de engolir, mas era um escore até com precedentes, inclusive na história das Copas. Mas se os alemães tivessem feito mais três gols, apenas mais três, entraríamos no terreno do fantástico, do inimaginável, da galhofa cósmica. A única reação possível a um 10 a 1 seria uma grande gargalhada, que nos salvaria do desespero terminal. Nada mais teria sentido no mundo, portanto nada mais nos afligiria, e todos estariam perdoados, inclusive o Felipão e a CBF, absolvidos pelo ridículo. Mas não tivemos nem a benção de perder de 10.
Proponho o seguinte consolo: vamos descontar aqueles seis minutos em que o alemães fizeram quatro gols como uma invasão do sobrenatural. Uma espécie de catatonia coletiva, de origem desconhecida, que paralisou nosso time. Os quatro gols marcados durante os seis minutos de inconsciência só de um lado, portanto, não valeram. O escore real, livre de qualquer intervenção extrafutebol, foi 3 a 1. Um escore respeitável, com o qual todos poderemos viver.
FINAL
E Argentina e Alemanha farão a grande final, no domingo. Todos torcendo pela América contra a Europa, nossos irmãos continentais contra os nossos algozes, nossos co-colonizados contra os senhores do mundo etc. A esta altura, só nos resta a hipocrisia.
Épico
26 de setembro de 2013, publicado em O Globo
O futebol de calçada era com narração, e o próprio jogador fornecia a narração. Jogava e descrevia sua jogada ao mesmo tempo, e nunca deixava de se autoentusiasmar. “Sensacional, senhores ouvintes!” (Naquele tempo os locutores tratavam o público de “senhores ouvintes”).
“Sensacional! Mata no peito, põe no chão, faz que vai mas não vai, passa por um, por dois… Fáu! Foi fáu do béque! O juiz não deu! O juiz está comprado, senhores ouvintes!”
Fáu era “foul” e béque era “back”, na língua daquela terra estranha, o passado. E o juiz, claro, era imaginário. Tudo era imaginário no futebol de calçada, a começar pela nossa genialidade. A bola era de borracha, quando não era qualquer coisa remotamente redonda. O bola número cinco oficial de couro ganha no Natal não aparecia na calçada, tá doido? Estragar uma bola de futebol novinha jogando futebol?
Mas éramos gênios na nossa própria narração.
“Lá vai ele de novo. Cabeça erguida! Passa a bola e corre para receber de volta… Que lance! O passe não vem! Não lhe devolvem a bola! Assim não dá, senhores ouvintes … Só ele joga nesse time!”
A narração dava um toque épico ao futebol. Lembro que na primeira vez em que fui a um campo, acostumado a só ouvir futebol pelo rádio, senti falta de alguma coisa que não sabia o que era. Tudo era maravilhoso, o público, o cheiro de grama, os ídolos que eu conhecia de fotografias desbotadas no jornal ali, em cores vivas… Mas faltava alguma coisa. Faltava uma voz me dizendo que o que eu estava vendo era mais do que estava vendo. Faltava a narrativa heróica. Faltava o Homero.
Na calçada éramos os nossos próprios heróis e os nossos próprios Homeros.
“Atenção. Ele olha para o gol. Vai chutar. Lá vai a bomba. O goleiro treme. Ele chuta! A bola toma efeito. Entra pela janela. E lá vem a mãe, senhores ouvintes! A mãe invade o campo. Ele tenta se esquivar. Dá um drible espetacular na mãe. Dois. A mãe pega ele pela orelha. Pela orelha! E o juiz não vê isso!”
Mesmo se nem tudo merecesse o toque épico.
Não me acordem
18 de dezembro de 2006, um dia após o título mundial do Inter, publicado no Zero Hora

O passado é prologo.
Certos acontecimentos dão força a essa frase, transforma tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente, ou para usar outro termo literário, em prefácio.
Você se dá conta de que tudo que houve até ali, toda uma vida, toda uma história foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual, nada será como era.
E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto, tudo tinha um sentido em que você apenas não percebeu, na falta do momento máximo.
A vitória do Grêmio, em Tóquio, em 1983, nos anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões, tudo era prólogo para ontem.
Agora ficou claro, agora ficou lógico. O próprio destaque como melhores do mundo, conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho, fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro.
Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo, tudo se encaixava, ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão foi obra do acaso, esse autor sem imaginação?
O resultado veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional, antes de Pedro Álvares Cabral, antes de Onero e das Pirâmides, e eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru!
Há dias a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto que eu tinha escrito e esquecido. Ela teve a gentileza de me mandar o texto e eu peço licença para repeti-lo agora, era assim:
“Meu caro Colorado, desculpe essa carta a céu aberto, é por que não sei seu nome nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua, de mãos dadas com seu pai, e cercado pelos seus irmãos, que vestiam a camiseta do Grêmio, suponho que fossem seu pai e seus irmãos. Você estava com a camiseta do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha. Seu pai vestia uma camiseta branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio.
E lá estava você de camiseta vermelha o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não aguentaram, e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista, você aguentou! Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Por que será a torcida dos que resistiram! Aguente só mais um pouco, meus respeitos”.
Mas isso tudo também pode ser um sonho. Se for, por favor, não me acordem!

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Ele torcia pro Inter mas também gostava do Botafogo, inclusive usando o clube na crônica “Versões de mim”
Uma passagem curiosa do veríssimo aconteceu nos anos noventa quando foram eleger o brasil de todos os tempos e o Zico ficou de fora por um voto por causa do veríssimo que votou no ex colorado Claudomiro bigorna centroavante no início da era beira rio pode isso?kkkk.e depois perguntaram pra ele sobre esse voto e tranquilamente o veríssimo respondeu dizendo que o Cláudiomiro era mais importante pro futebol brasileiro do que o zico e ponto final.