Jogos Eternos – Cruzeiro 2×1 São Paulo 2000

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Data: 09 de julho de 2000

O que estava em jogo: o título da Copa do Brasil de 2000.

Local: Estádio do Mineirão, Belo Horizonte (MG), Brasil.

Juiz: Carlos Eugênio Simon (RS)

Público: 85.841 pessoas

Os Times:

Cruzeiro Esporte Clube: André; Rodrigo (Fábio Júnior), Cris, Cléber e Sorín (Viveros); Donizete Oliveira, Ricardinho, Marcos Paulo e Jackson (Müller); Oséas e Geovanni. Técnico: Marco Aurélio.

São Paulo Futebol Clube: Rogério Ceni; Belletti, Edmílson, Rogério Pinheiro e Fábio Aurélio; Alexandre (Axel), Maldonado, Raí e Marcelinho Paraíba; Edu (Fabiano) e França (Carlos Miguel). Técnico: Levir Culpi.

Placar: Cruzeiro 2×1 São Paulo (Gols: Marcelinho Paraíba-SPO, aos 21´, Fábio Júnior-CRU, aos 35´, e Geovanni-CRU, aos 45´do 2º T).

Expulsão: Rogério Pinheiro-SPO, aos 12´do 2º T.

 

“Contrastes do futebol aos 45´do segundo tempo”

 

Era o último lance do jogo. A chance que não poderia ser desperdiçada. Quase 90 mil torcedores assistiam a tudo aquilo sem piscar, sem olhar para o lado, quase sem respirar. A maior parte, cruzeirense, jogava todas as vibrações positivas possíveis nos ombros e pés do jovem Geovanni, tido como garoto prodígio pelos mineiros. Ele tinha a missão de colocar a bola no fundo do gol de Rogério Ceni e dar a terceira taça da Copa do Brasil ao clube azul. Do lado tricolor, se fosse possível colocar toda a comissão técnica na barreira, eles colocariam. Nunca o São Paulo havia vencido o torneio. E nunca o time esteve tão perto. Por minutos. Ou segundos? O placar em 1 a 1 era todo paulista, afinal, o 0 a 0 da ida aliado ao regulamento que dava peso maior aos gols marcados fora de casa nem exigiam uma vitória são-paulina. Além de tudo isso, o esquadrão de Levir Culpi tinha a chance de ouro de voltar à Copa Libertadores pela primeira vez desde 1994. Os nervos estavam à flor da pele. Müller, ex-tricolor, gritava para Geovanni chutar forte porque, com aquela confusão danada dentro da área, a barreira iria abrir de alguma maneira. Parecia dom de premonição. Enquanto os membros do muro humano brigavam com o árbitro e discutiam a distância (que dava menos de 8 metros!), Geovanni ficava ali, parado, concentrado, pensando no que o colega havia dito e no que fazer. Quando o juiz apitou, o garoto correu, a barreira abriu, e a bola foi no canto esquerdo do gol de Rogério Ceni. Delírio no Mineirão. Emoção do lado azul. Emoção, de tristeza, do lado tricolor. O contraste entre a imagem de Rogério ajoelhado, quase em prantos, e Geovanni correndo diante da torcida cruzeirense eram a prova viva do quão improvável pode ser uma partida de futebol. Segundos depois, o São Paulo quase empatou, mas o goleiro André salvou em cima da linha. A noite era mesmo do Cruzeiro, copeiro Cruzeiro. Para desespero do São Paulo, com um bom time, mas vivendo um inferno astral que nenhum tricolor gosta de lembrar. É hora de relembrar um dos jogos mais emocionantes da história do futebol brasileiro.

 

Pré-jogo

Raí e Sorín: craques presentes na decisão de 2000.

Raí e Sorín: craques presentes na decisão de 2000.

 

Vivendo melhor fase, com um elenco harmonioso e mais talento individual, o São Paulo era o ligeiro favorito ao título da Copa do Brasil após a confirmação do Cruzeiro como adversário. Embora o rival tivesse mais tradição na competição com dois títulos, o tricolor vinha de um incontestável título paulista com direito a gol de falta de Rogério Ceni, tinha atletas talentosos em quase todas as posições (os laterais Fábio Aurélio e Belletti, o polivalente Edmílson – que, acredite, era o capitão do tricolor na época mesmo com Rogério Ceni no time! – o ídolo Raí, o meia Marcelinho Paraíba e o goleador França), e era muito bem comandado por Levir Culpi, muito elogiado na época pelo trabalho que vinha fazendo no clube paulista. No caminho até a final, a equipe despachou Comercial, Sinop, América-RN, Palmeiras e Atlético-MG sempre com autoridade e vitórias maiúsculas sobre Verdão (2 a 1 e 3 a 2) e Galo (3 a 0). Já o Cruzeiro queria apagar a frustração da derrota para o rival Atlético no campeonato estadual e voltar a celebrar um título após fracassar em todas as finais de grandes competições que havia disputado nos anos anteriores (Mundial Interclubes de 1997, Copa do Brasil de 1998, Mercosul de 1998 e Campeonato Brasileiro de 1998). No trajeto até a final, o time azul despachou Gama, Paraná, Caxias, Atlético-PR, Botafogo e Santos até encontrar o São Paulo.

O time do técnico Marco Aurélio não tinha a quantidade de talentos dos paulistas, mas apostava na dedicação tática, na defesa forte comandada pelo goleiro André e pelos zagueiros Cris e Cléber, na qualidade de Sorín, pela esquerda, na velocidade de Ricardinho e Jackson, no meio, nos gols de Oséas, artilheiro da competição com 10 gols, e na habilidade de Geovanni, além das opções no banco de reservas Fábio Júnior e Müller. No primeiro jogo, em São Paulo, o Cruzeiro conseguiu neutralizar o forte ataque tricolor e segurou o empate sem gols. O resultado foi comemorado, mas o regulamento poderia ser bem ingrato com os mineiros. Motivo? Os gols fora de casa tinham peso maior e poderiam dar ao São Paulo o título em caso de empate com gols no Mineirão. Ao Cruzeiro, só restava vencer. Na véspera do jogo, uma bomba caiu na comissão técnica quando Marco Aurélio ficou sabendo que Luís Felipe Scolari seria o novo técnico do clube independente do resultado na grande final. Ou seja: com título ou sem título, Marco Aurélio não continuaria à frente da Raposa. Isso poderia gerar um desconforto perigoso no time, mas serviu como combustível para o treinador inflamar seus jogadores em busca de um “adeus de ouro”.

Do lado são-paulino, a tranquilidade imperava por causa do bom retrospecto do time no ano e nos bons fluídos que o Mineirão trazia ao clube. Afinal, na última decisão nacional do tricolor em solo mineiro, lá em 1977, a equipe saiu campeã do Campeonato Brasileiro diante do Atlético-MG. Será que o filme iria se repetir?

 

Primeiro tempo – Raro é ver gol

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Com um Mineirão transbordando gente (quase 90 mil pessoas!), as duas equipes começaram a decisão com muita correria e jogadas ríspidas. O São Paulo percebeu um Cruzeiro ofensivo, jogando na base do abafa e com o apoio do barulho de mais de 30 mil apitos soprados pelos torcedores a cada toque na bola do tricolor. O técnico Marco Aurélio não deixava espaços para os laterais rivais criarem e focava no trabalho coletivo de sua equipe. Mesmo assim, bastaram alguns minutos para o São Paulo equilibrar as coisas e neutralizar as jogadas de Ricardinho, Jackson, Oséas e Geovanni. O jogo foi ficando ainda mais tenso e, com apenas 18 minutos, quatro cartões amarelos já haviam sido mostrados pelo árbitro Carlos Eugênio Simon. Aos 20´, Marcelinho assustou o goleiro André em cobrança de falta. Três minutos depois, Rogério Pinheiro resvalou uma cobrança de escanteio e, um minuto depois, teve a mesma liberdade para cabecear por cima do gol, deixando o técnico Marco Aurélio louco da vida com seu sistema defensivo.

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Entre os 34´e os 39´, o Cruzeiro foi mais agressivo e por muito pouco não abriu o placar. A jogada mais clara de gol aconteceu com Jackson, que chutou livre da pequena área meio que de canela, mas viu Rogério Ceni defender milagrosamente com os pés. A bola subiu, Ricardinho tentou escorar, mas mandou a redonda para fora. Que chance perdida! Aos 41´, Maldonado tentou de fora da área alguma coisa para o São Paulo, mas o primeiro tempo terminou mesmo sem gols. O placar levava a decisão para as penalidades. Àquela altura, quem marcasse um gol estaria muito perto do título. Restavam os 45 minutos finais para saber qual seria o desfecho: título inédito do São Paulo ou tricampeonato do Cruzeiro.

 

Os times em campo: o São Paulo tinha mais talentos individuais, mas o Cruzeiro conseguiu controlar os nervos e virar um jogo quase perdido.

Os times em campo: o São Paulo tinha mais talentos individuais, mas o Cruzeiro conseguiu controlar os nervos e virar um jogo quase perdido.

 

Segundo tempo – Título ganho, título perdido e a reviravolta no minuto final

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Na volta do intervalo, o São Paulo mudou o panorama do jogo e passou a ser mais agressivo no ataque, roubando bolas e obrigando o Cruzeiro a jogar nos contra-ataques. A torcida azul começou a ficar ressabiada e pediu raça aos seus jogadores, mostrando total descontentamento com a postura do time na decisão. Depois de 15 minutos no ataque, o São Paulo viu que seria complicadíssimo furar a sólida defesa cruzeirense. Aos 17´, Jackson tabelou com Marcos Paulo e obrigou Rogério Ceni a espalmar, levantando mais uma vez a torcida. Tempo depois, Marco Aurélio decidiu colocar Müller no lugar de Jackson. Ele apostava na experiência do atacante mesmo sabendo que Jackson tinha mais velocidade no ataque. Em uma final, atletas experientes valiam muito. Mas, logo na sequência, o Cruzeiro precisaria de muito mais que isso. Aos 21´, Marcelinho Paraíba, um dos melhores jogadores do São Paulo na época e vivendo a melhor fase da carreira, cobrou falta com perfeição, encobriu o goleiro André e abriu o placar para o tricolor: 1 a 0. O lado azul do Mineirão emudeceu. E os são-paulinos presentes nas arquibancadas fizeram a festa junto com Marcelinho, que marcava seu quarto gol no estádio naquela competição (ele havia anotado os três no empate em 3 a 3 contra o Atlético-MG, na semifinal). Faltando pouco mais de 24 minutos, o time mineiro precisava de pelo menos dois gols para ser campeão. O empate não bastava mais. O regulamento estava a favor do São Paulo.

Com o gol, o técnico Marco Aurélio foi para o tudo ou nada. Tirou o lateral Rodrigo para a entrada do atacante Fábio Júnior e substituiu o lateral Sorín pelo meia Viveros. O Cruzeiro foi totalmente para o ataque, mas sabia que sofreria sustos tremendos se desse a chance de um contra-ataque para o rival. Aos 30´, isso aconteceu. Alexandre arrancou do campo de defesa, driblou um adversário e encheu o pé, mas a bola passou à direita do goleiro André. Outra grande chance no jogo perdida! Dois minutos depois, Fábio Júnior respondeu e finalizou por cima do travessão de Rogério. Em seguida, Marcelinho quase fez mais um, mas seu chute passou à direita. A torcida cruzeirense já não gritava mais como antes, alguns até iam embora e o relógio já marcava quase 35 minutos. O título inédito da Copa do Brasil estava muito perto do São Paulo. Até que Müller, o veterano que tinha entrado no jogo justo quando o tricolor havia feito seu gol, mostrou sua tarimba para decisões. No meio de campo, ele puxou um ataque rápido, se mandou para a área, recebeu, tabelou com Fábio Júnior, esperou a marcação chegar e deixou para o mesmo Fábio Júnior empatar e incendiar novamente o Mineirão: 1 a 1.

Rogério Pinheiro derruba Geovanni: a decisão mudaria a partir daquele instante.

Rogério Pinheiro derruba Geovanni: a decisão mudaria a partir daquele instante.

 

O barulho aumentou. A esperança azul cresceu. O temor tricolor cresceu. Levir Culpi, a fim de evitar mais um gol do rival, tirou Alexandre e Edu para as entradas de Axel e Fabiano, respectivamente. O São Paulo foi todo defesa nos minutos seguintes. Até Raí fez ponte de zagueiro. Já o Cruzeiro ficava pressionando no embalo de sua torcida, que cantava sem parar em busca de mais um título nacional. Até que, aos 43´, um lance mudou totalmente a história do jogo. Axel, que havia entrado para segurar a partida a favor do São Paulo, atrasou bisonhamente a bola para Rogério Pinheiro sem perceber que Geovanni estava próximo do lance. O camisa 11 cruzeirense correu mais que o são-paulino, ganhou na disparada e teve a chance de virar o placar. Em puro desespero e com um único recurso disponível, Rogério Pinheiro não teve outra escolha: fez a falta e derrubou o rival bem próximo da área. Carlos Eugênio Simon não hesitou e, obviamente, expulsou o defensor tricolor.

A bola no fundo da rede...

A bola no fundo da rede…

 

... A celebração azul...

… A celebração azul…

 

... E o drama tricolor.

… E o drama tricolor.

 

Era a chance que o Cruzeiro precisava para marcar o gol do título. E tudo o que o São Paulo não queria em um momento como aquele. Após muita discussão, o relógio chegou aos 45 minutos. A barreira começou a ser formada muito próxima à bola, o que gerou revolta dos cruzeirenses e nova discussão. Após uma rápida normalização, Müller se virou para Geovanni e berrou para o companheiro encher o pé. Não dava para bater uma falta colocada num momento como aquele (só se ele fosse um especialista no assunto…) e, vendo o jeito como a barreira estava formada, um tiro forte e rasteiro parecia a melhor opção. Na ponta do muro humano, o cruzeirense Donizete se preparava para executar uma marota artimanha em prol de Geovanni: um empurrãozinho que pudesse desestabilizar a formação. E foi exatamente isso que aconteceu. Geovanni correu, bateu forte, a barreira abriu, e a bola foi parar no fundo do gol de Rogério Ceni: gol azul! Apoteose no Mineirão!

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Rogério Ceni, desolado, abaixou a cabeça e ficou de joelhos enquanto Geovanni e os companheiros comemoravam com a louca e ensandecida torcida cruzeirense. Era um choque e contraste de emoções naquele momento. A esperança de um título inédito e da volta à Libertadores pelo lado do São Paulo ruía com a celebração de um muito próximo tricampeonato azul. Quando deu a saída para o reinício do jogo, o São Paulo quase conseguiu algo ainda mais impressionante quando Marcelinho, endiabrado, cabeceou e obrigou André a fazer uma defesa simplesmente incrível. A bola ficou em cima da linha e o zagueirão Cléber tirou a redonda de lá com um chutão. Após a última dose de emoção, o árbitro apitou o final do jogo e a festa foi azul no Mineirão: Cruzeiro tricampeão da Copa do Brasil. No sufoco, com drama, mas campeão. Aquele jogo segue na retina dos torcedores mineiros como um dos mais emocionantes já protagonizados pela Raposa em todos os tempos. É difícil um cruzeirense que não se lembre daquele duelo, bem como um são-paulino que não se recorde da festa já pronta que virou decepção por causa de um gol no último minuto. Foi triste e foi alegre. Teve choro e teve riso. Foi inesquecível aquela noite de contrastes no Mineirão. Um jogo para a eternidade.

 

Pós-jogo – o que aconteceu depois?

Cruzeiro: já classificado para a Libertadores de 2001, o Cruzeiro só curtiu o restante da temporada e almejou tempos ainda melhores na sequência. Porém, em solo continental, a equipe caiu diante do Palmeiras nas quartas de final e viu ruir o sonho do título. Em 2001, pelo Campeonato Brasileiro, o Cruzeiro, novamente com Marco Aurélio como técnico, voltou a encontrar o São Paulo no Mineirão. Mas, diferente do ano anterior, a equipe perdeu por 4 a 1. Um fato curioso aconteceu com o herói do título, Geovanni. Assim como o quase homônimo que jogou no Santos (Giovanni), o jovem foi parar na estratosfera como uma grande estrela e chegou a jogar no Barcelona-ESP exatamente como Giovanni, do Santos, o fez lá nos anos 90 após destruir em um jogo contra o Fluminense (leia mais clicando aqui). Mas, como num filme repetido, ele nunca brilhou e perambulou por vários clubes sem destaque. O destino dele era mesmo dar aquele título ao Cruzeiro. E morar para sempre na memória do torcedor azul.

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São Paulo: a dramática perda de um título quase ganho era apenas mais um capítulo de tempos complicados para o tricolor. A equipe seguiria sem vencer títulos importantes e só voltaria à Libertadores em 2004, ano em que acabou eliminada na semifinal também com um gol nos minutos finais para o Once Caldas-COL. Mas, nos anos seguintes, o time paulista emendou títulos históricos, incluindo Libertadores, Mundial e três brasileiros, e viveu grandes momentos contra, adivinhe, o Cruzeiro – principalmente em partidas disputadas no Mineirão! Entre 2000 e 2014, a dupla se enfrentou 33 vezes, com 16 vitórias do São Paulo e apenas sete do Cruzeiro. Mas os tricolores ainda aguardam a revanche em uma decisão. E como aguardam…

 

Extra:

Veja os lances e gols daquele jogo eterno.

 

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