Seleções Imortais – Nigéria 1994-1998

Nigéria Champion Olympique 1996 HOME

Grandes feitos: Medalha de Ouro nas Olimpíadas de Atlanta-EUA (1996), Campeã da Copa Africana de Nações (1994), 9ª colocada na Copa do Mundo da FIFA (1994) e 12ª colocada na Copa do Mundo da FIFA (1998). Foi a primeira seleção africana da história a conquistar o Ouro Olímpico no futebol.

Time base: Rufai (Dosu); Nwanu (Oparaku), Ochechukwu, Eguavoen (Keshi / Taribo West) e Iroha (Emenalo / Babayaro); Oliseh, Jay-Jay Okocha, Amokachi (Ikpeba) e Finidi George (Babangida / Lawal); Yekini (Kanu) e Amuneke (Adepoju). Técnicos: Clemens Westerhof (1994), Shaibu Amodu (1994-1995), Jo Bonfrere (1995-1996), Philippe Troussier (1997), Monday Sinclair (1997-1998) e Bora Milutinovic (1998).

“Os Super Águias Dourados”

Em 1994, águias verdes vindas do continente africano pousaram pela primeira vez nos Estados Unidos da América e se habituaram muito bem com o enorme país americano, tanto com o clima (quente, em pleno verão) quanto com o público. Dois anos depois, aquelas mesmas águias voltaram à terra do Tio Sam em busca de uma honraria preciosa, guardada pelos deuses do Olimpo que repousavam excepcionalmente na cidade de Atlanta, em 1996. As águias, ou melhor, os “Super Águias”, queriam o ouro olímpico. E eles conseguiram. Na base do talento, da velocidade, da técnica e do patriotismo. No caminho até a redenção, encontro contra dois dos maiores gigantes do futebol mundial. Primeiro, o Brasil, que chegou a vencer os africanos por 3 a 1, mas levou de 4 a 3. Na decisão, a Argentina, que saiu na frente, mas levou de 3 a 2 e acabou com a prata. Aquilo tudo foi o auge mais do que merecido de uma das seleções de maior sucesso nos anos 90: a Nigéria. Depois da simpática seleção de Camarões da Copa de 1990, foi a vez dos águias encantarem o mundo e se transformarem na primeira grande seleção da África a conquistar um título de expressão. O ouro em Atlanta coroou uma geração brilhante de jogadores como Taribo West, Okechukwu, Babayaro, Oliseh, Amuneke, Babangida, Kanu, Amokachi e o maior de todos eles, o meio campista Jay-Jay Okocha, que virou uma verdadeira celebridade no futebol mundial e ídolo de várias gerações. Mas se engana quem pensa que as façanhas daqueles nigerianos bons de bola se restringiram apenas aos Jogos Olímpicos de 1996. Eles deram trabalho para muita gente grande antes e depois do ouro. É hora de relembrar.

 

Prontos para voar

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Sem conquistar um título desde 1980 e jamais ter disputado uma Copa do Mundo, a Nigéria clamava por mudanças naquele começo de anos 90. O país queria sair de vez da sombra do rival Camarões e poder fazer um bom papel fora de seu continente. Para isso, a federação nigeriana foi buscar na Holanda o técnico Clemens Westerhof a fim de dar uma nova cara à equipe. O começo do trabalho do treinador não foi fácil e a seleção alviverde não conseguiu uma vaga na Copa de 1990, competição que teve o brilho justamente de Camarões. No mesmo ano, a equipe foi vice-campeã da Copa Africana de Nações e Westerhof decidiu começar seu trabalho do zero já pensando nos anos seguintes e nas eliminatórias da Copa de 1994. O treinador começou a montar uma equipe jovem, muito técnica e beneficiada pelo surgimento de ótimos jogadores como Finidi George, Sunday Oliseh, Daniel Amokachi, Emmanuel Amuneke e Jay-Jay Okocha. Com essa base, a equipe superou o terceiro lugar na Copa Africana de 1992 e foi com tudo em busca do título na edição de 1994, disputada na Tunísia.

Na primeira fase, os nigerianos venceram o Gabão por 3 a 0 (dois gols de Yekini e um de Adepoju) e empataram sem gols com o Egito, resultado que classificou a equipe até a fase de mata-mata. Nela, vitória por 2 a 0 sobre o Zaire (dois gols de Yekini) nas quartas de final e empate em 2 a 2 contra Costa do Marfim (gols de Iroha e Yekini). Nos pênaltis, os nigerianos venceram por 4 a 2 e conquistaram a vaga na grande final. No estádio El Menzah, em Tunis, os águias venceram Zambia com dois gols de Amuneke, ambos marcados no começo de cada tempo, e o título da África ficou com a seleção alviverde.

 

A primeira saga americana

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Muito antes de conquistar o título da Copa Africana, a Nigéria começou, lá em outubro de 1992, sua caminhada nas Eliminatórias da Copa do Mundo dos EUA. A equipe passou pela primeira fase sem maiores sustos ao golear a África do Sul por 4 a 0 (em casa) e empatar sem gols fora, e vencer por duas vezes o Congo (1 a 0, fora, e 2 a 0, em casa). Na fase decisiva, os alviverdes levaram um susto ao perder por 2 a 1, fora, para Costa do Marfim. Mas aquilo não passou de um acidente de percurso. Contra a Argélia, em casa, os nigerianos golearam por 4 a 1 (dois gols de Yekini, um de Okocha e outro de Amokachi). O jogo seguinte foi contra os marfinenses e a torcida que lotou o Lagos National Stadium, em Lagos (mais de 60 mil pessoas), vibrou com mais um show de gols: 4 a 1, com mais dois tentos de Yekini, um de Amokachi e outro de Oliha. Na última partida, o empate fora de casa contra os argelinos em 1 a 1 colocou a Nigéria pela primeira vez na história em uma Copa do Mundo.

Yekini vibra: atacante foi o maior artilheiro da história da Nigéria.

Yekini vibra: atacante foi o maior artilheiro da história da Nigéria.

 

Com a classificação para a Copa assegurada e o posterior título continental, os nigerianos chegaram à terra do Tio Sam com boas expectativas. A equipe já estava entrosada, tinha atletas que jogavam no futebol europeu (Yekini, Okocha, Oliseh e Amokachi) e obedecia a um padrão de jogo que priorizava o toque de bola rápido e a velocidade nos ataques e contra-ataques. Além disso, o técnico Clemens Westerhof deixava bem claro para seus atletas que não havia o que temer na Copa, pois eles podiam competir de igual para igual com qualquer outra seleção.

 

Com um pouquinho de experiência…

Amokachi (camisa 4) comemora: Nigéria brilhou na primeira fase da Copa de 1994.

Amokachi (à frente) comemora: Nigéria brilhou na primeira fase da Copa de 1994.

 

O grupo da Nigéria na Copa do Mundo de 1994 não era muito agradável, afinal, os africanos teriam pela frente a Bulgária de Stoichkov, a Argentina de Batistuta e Redondo e a Grécia, esta a mais fraca da chave. Na época, os quatro melhores terceiros colocados garantiriam vaga nas oitavas de final juntamente com os dois primeiros de cada grupo. A Nigéria se apegava exatamente a uma das vagas destinadas aos terceiros colocados, mas ao término da primeira fase as pretensões foram mais do que superadas. Logo na estreia, os nigerianos encararam os búlgaros, francos favoritos para o duelo disputado no estádio Cotton Bowl. Com apenas 21 minutos, os africanos mostraram ao mundo que não seriam meros espectadores naquele Grupo D e abriram o placar com Yekini, artilheiro do time. Aos 43´, Yekini cruzou rasteiro para a área, Amokachi ganhou a dividida com o zagueiro, driblou o goleiro e marcou o segundo. Na segunda etapa, o técnico Westerhof manteve a pegada rápida do time e Amuneke, de peixinho, fez o terceiro gol africano com apenas dez minutos. Foi o golpe de misericórdia e a melhor estreia possível para a Nigéria: 3 a 0.

A vitória encheu os águias de moral, que foram sem medo para o segundo jogo, contra a temida Argentina. Com oito minutos, os nigerianos roubaram a bola dos argentinos no meio de campo e deram uma aula de contra-ataque. Yekini avançou pelo meio, driblou lindamente seu marcador e deixou com Siasia. O meia tocou entre as pernas de Simeone, cortou para a direita e encobriu o goleiro Islas com muita categoria. Golaço! Mas os argentinos, ainda com Maradona, conseguiram a virada exatamente após duas jogadas de Dieguito, que deu dois gols de presente para Caniggia. A derrota por 2 a 1 não foi lá tão ruim para os africanos, que teriam apenas que derrotar a Grécia para se classificar. Dito e feito, Finidi George e Amokachi anotaram os gols do triunfo por 2 a 0 sobre os fracos gregos. A Nigéria, surpreendentemente, conseguiu a classificação em primeiro lugar no grupo, deixando a Bulgária em segundo e a toda poderosa Argentina apenas na terceira posição (os Hermanos avançaram como os primeiros melhores terceiros colocados).

Roberto Baggio aproveitou as bobeadas nigerianas e classificou a Itália para as quartas de final da Copa.

Roberto Baggio aproveitou as bobeadas nigerianas e classificou a Itália para as quartas de final da Copa.

 

Nas oitavas de final, a falta de experiência e malícia minou as esperanças alviverdes de repetirem o feito dos rivais camaroneses na Copa de 1990 e alcançarem uma vaga nas quartas. Contra os italianos, a Nigéria dominou a partida, fez 1 a 0 com Amuneke aos 25´do primeiro tempo e teve um jogador a mais durante os quinze minutos finais do segundo tempo. Com toques de bola envolventes, parecia que a classificação africana estava mais do que assegurada. No entanto, em duas bobeadas da zaga, o craque Roberto Baggio sepultou as pretensões dos águias. Aos 43´do segundo tempo, o atacante aproveitou a sobra na área e empatou o jogo, que foi para a prorrogação. Nela, Benarrivo sofreu pênalti bobo no primeiro tempo e Baggio marcou o gol da virada e da classificação italiana. Era o fim da Copa para a Nigéria, mas o início de grandes celebrações por parte da torcida nigeriana, que recebeu seus jogadores com muita festa na volta pra casa. Mas os águias não tinham muito tempo para comemorar, afinal, era hora de começar a pensar no futuro.

 

A safra do ouro

Sunday Oliseh: um dos maiores meio campistas do futebol nigeriano nos anos 90.

Sunday Oliseh: um dos maiores meio campistas do futebol nigeriano na história.

 

Depois do mundial, o técnico Westerhof deixou o comando da seleção e Shaibu Amodu comandou a Nigéria na Copa das Confederações de 1995, à época chamada de King Fahd Cup. Os africanos golearam o Japão na estreia por 3 a 0 (gols de Amuneke, Adepoju e Amokachi) e empataram sem gols contra a Argentina, resultado que eliminou os nigerianos, que tiveram que disputar o terceiro lugar da competição contra o México (1 a 1 no tempo normal e 5 a 4 para os mexicanos nos pênaltis).

Ainda em 1995, Amodu deu lugar ao holandês Jo Bonfrere, técnico que já tinha algum conhecimento do país por ter comandado a seleção nigeriana feminina em 1991. Bonfrere passou a apostar em jovens de muito talento com foco principal nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, competição que reservava três vagas para africanos. E uma delas, claro, foi conquistada pela Nigéria, com as outras duas nas mãos de Tunísia e Gana. O time nigeriano que embarcou rumo aos EUA tinha cinco jovens de 19 anos (Emmanuel Babayaro, Kanu, Oruma, Oparaku e Joseph), um de 17 (o prodígio defensor Celestine Babayaro, irmão do goleiro Emmanuel), um de 18 (Fatusi) e ainda dois de 21 anos (Oliseh e Obiekwu). Os mais experientes da equipe eram o defensor Okechukwu (28 anos) e o meia Amuneke (25 anos), convocados como os jogadores acima de 23 anos permitidos. Além de todos eles, os águias tinham nomes como Taribo West, Tijani Babangida, Jay-Jay Okocha, Viktor Ikpeba e Garba Lawal. A safra era ainda melhor que a de 1994 e poderia render bons frutos aos nigerianos naquelas Olimpíadas, mesmo com gigantes como Argentina, Brasil, Espanha, França, Itália e Portugal pelo caminho.

 

Alçando voo

Roberto Carlos e Kanu: duelo entre brasileiros e nigerianos se repetiu na segunda fase.

Roberto Carlos e Kanu: duelo entre brasileiros e nigerianos se repetiu na segunda fase.

 

Na primeira fase das Olimpíadas, os nigerianos encararam Brasil, Hungria e Japão pelo Grupo D. Na estreia, Kanu marcou o único gol da vitória africana sobre os húngaros. Em seguida, vitória por 2 a 0 sobre os japoneses (gols de Babangida e Okocha), resultado que colocou a equipe na fase de mata-mata. O último adversário foi o forte Brasil de Dida, Zé Maria, Aldair, Roberto Carlos, Flávio Conceição, Bebeto, Juninho Paulista, Rivaldo e Ronaldo. Os brasileiros venceram por 1 a 0, mas o técnico Bonfrere pôde ver bem quais eram os pontos fracos daquele time e como explorá-los em um possível reencontro na segunda fase. A zaga brasileira não inspirava confiança e suou para neutralizar as rápidas investidas dos atacantes nigerianos. Além disso, o esquema com quatro homens alinhados no meio e mais dois à frente davam um poder de fogo maior ao time africano, que poderia aproveitar a fraca marcação brasileira no setor se um novo jogo acontecesse.

Nas quartas de final, Okocha e Babayaro marcaram os gols da vitória por 2 a 0 sobre o México, resultado que colocou a equipe na semifinal. O ouro era possível. Mas será que os nigerianos teriam forças para derrotar o Brasil?

 

A presa letal da águia

Kanu aproveita a falha de Dida e empata o jogo para a Nigéria no final do jogo: o ouro era possível para os águias.

Kanu aproveita a falha de Dida e empata o jogo para a Nigéria: o ouro era possível para os águias.

 

Mais de 78 mil pessoas lotaram o estádio Sanford, em Athens, Geórgia, para ver o duelo entre Nigéria e Brasil, dois rivais que já haviam se enfrentado na primeira fase e demonstrado um futebol muito eficiente e competitivo ao longo da competição. Com tantas estrelas e Ronaldo no auge, o Brasil era favorito, mas qualquer surpresa poderia acontecer principalmente pelo fato de a Nigéria ter em campo seus principais nomes e conhecer os defeitos do jogo brasileiro. Mas quem estava no estádio e tomava um milk-shake no intervalo da partida tinha certeza de que aquele duelo terminaria com goleada brasileira. Com um minuto de jogo, Flávio Conceição abriu o placar para o Brasil. Aos 20´, Roberto Carlos marcou contra, mas Bebeto deixou o time canarinho em vantagem novamente oito minutos depois. Aos 38´, linda jogada do ataque brasileiro e gol de Flávio Conceição: 3 a 1. Só dava Brasil e a Nigéria não conseguia encaixar seus perigosos contra-ataques. Na segunda etapa, os brasileiros continuaram jogando melhor, perderam várias chances e não aproveitavam os buracos que a defesa nigeriana deixava. Tempo depois, Okocha ainda bateu um pênalti defendido por Dida. Tudo parecia conspirar a favor do Brasil. Mas, a partir dos 33 minutos, tudo mudou. Com muita vontade, garra, determinação e totalmente ofensiva, a Nigéria foi premiada com um lindo gol de Ikbepa, nascido de um rápido e muito bem trabalhado contra-ataque. Era o que os africanos precisavam para incendiar a partida. Aos 44m40s, lateral cobrado para a área brasileira, a zaga bateu cabeça, Dida bobeou, e Kanu aproveitou para empurrar a bola para dentro: 3 a 3. Era o castigo merecido para o Brasil por não ter liquidado o jogo quando podia e quando tinha a vantagem de dois gols. E o sopro de esperança para a Nigéria buscar uma virada sensacional.

Com apenas quatro minutos da prorrogação (que tinha morte súbita na época), a Nigéria mostrou sua qualidade, sangue frio e precisão num ataque de três toques: bola alçada em velocidade, toque sem querer de costas do atacante e sobra para Kanu, que cortou lindamente o defensor brasileiro e chutou forte, sem chances para Dida. Golaço. Virada nigeriana. 4 a 3. Fim de jogo. A Nigéria estava na final olímpica. E o Brasil acumulava mais um fracasso no torneio que ele inacreditavelmente jamais conquistou.

A Nigéria campeã olímpica: linhas de quatro e velocidade dos contra-ataques foram as armas do técnico Jo Bonfrere para destroçar Brasil e Argentina.

A Nigéria campeã olímpica: linhas de quatro e velocidade dos contra-ataques foram as armas do técnico Jo Bonfrere para destroçar Brasil e Argentina.

 

Águias de puro ouro!

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Mesmo com a vitória épica sobre o Brasil na semifinal, a Nigéria entrou em campo naquele dia 3 de agosto de 1996, no estádio Sanford tomado por mais de 86 mil pessoas, como zebra. Afinal, do outro lado estava a seleção da Argentina, comandada por Daniel Passarella e recheada de craques do calibre de Ayala, Zanetti, Almeyda, Sensini, Claudio López, Crespo, Ortega, Simeone e Gallardo. Um timaço que já era tido como campeão olímpico muito antes de entrar em campo. O favoritismo só aumentou quando López, aos 3´, abriu o placar para a Argentina. No entanto, a Nigéria mostrou poder de reação ao empatar com Babayaro, de cabeça, aos 28´. No segundo tempo, Crespo, de pênalti, fez o segundo da Argentina, mas Amokachi empatou de novo aos 29´, gol fruto de uma das jogadas mais ensaiadas daquele time: cobrança de lateral para a área, toque do grandalhão Kanu para o meio e arremate de quem vem de trás. O jogo seguiu com chances para as duas equipes, mas o gol teimava em não sair. Quando todos achavam que a prorrogação iria aparecer novamente, uma falha grotesca da zaga argentina “deu” de presente o gol da virada da Nigéria. Aos 45´, Oruma cobrou uma falta para a área que deveria ser rebatida pela zaga portenha. No entanto, a linha de impedimento feita pelos argentinos saiu da área no tempo errado e deu condições para pelo menos quatro jogadores nigerianos, totalmente livres, marcarem o gol. Coube a Amuneke empurrar a bola para dentro, para desespero dos alvicelestes e alegria de grande parte do estádio: Nigéria 3×2 Argentina.

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Pela primeira vez na história do futebol mundial uma seleção africana conquistava um dos títulos mais cobiçados e importantes do mundo, atrás apenas da Copa: o ouro olímpico. Era a consagração de uma equipe aguerrida, talentosa e que não se importava em jogar para frente, bonito e com toques de bola maravilhosos. E o prêmio para todo o futebol africano, que se viu muito bem representado por aqueles Super Águias Verdes, que se transformaram naquele dia 3 de agosto de 1996 nos Super Águias Dourados.

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Sonhando alto

Nwankwo Kanu

A conquista do título olímpico fez todo o mundo olhar com muito mais atenção para o futebol africano. Jogadores que antes jogavam em clubes pequenos passaram a vestir camisas de grandes clubes da Europa como Ajax, Internazionale e Chelsea, e ninguém mais menosprezaria novamente nigerianos, camaroneses e companhia. Entre 1996 e 1998, a seleção alviverde não conseguiu manter o título da Copa Africana de Nações (a África do Sul venceu em 1996 e o Egito faturou o título de 1998), mas abocanhou mais uma vaga na Copa do Mundo, dessa vez a de 1998, na França. Os águias passaram por Guiné, Quênia e Burkina Faso e conseguiram a classificação sem grandes dificuldades, mesmo com várias trocas de técnicos e alguns problemas no elenco. No mundial, os africanos pensavam alto e não admitiam menos que um quarto lugar, ainda mais com a chegada do tarimbado técnico Bora Milutinovic ao comando da equipe em 1998 (a contragosto do presidente nigeriano, que preferia o comandante do ouro olímpico Jo Bonfrere. Três dias antes da Copa, o presidente morreu e “deu mais tranquilidade” ao técnico Milutinovic).

 

Show na primeira fase e desastre na segunda

Okocha deixa Raúl para trás: Nigéria virou pra cima da Espanha e venceu por 3 a 2.

Okocha deixa Raúl para trás: Nigéria virou pra cima da Espanha e venceu por 3 a 2.

 

Embora a Nigéria estivesse bem longe de sua “terra abençoada” e cheia de bons fluídos (os EUA), a equipe começou da melhor maneira possível a sua caminhada na Copa da França de 1998. Os alviverdes encararam a Espanha, que na época ainda não tinha a força que demonstra neste século XXI, mas ainda sim contava com grandes nomes como Zubizarreta, Ferrer, Nadal, Sergi, Hierro, Luis Enrique, Raúl, Morientes e Kiko. Aos 21´, Hierro cobrou uma de suas perigosas faltas e abriu o placar para os espanhóis. Três minutos depois, a Nigéria empatou com Adepoju, de cabeça. No comecinho da segunda etapa, Hierro lançou Raúl, que emendou um lindo chute para colocar a Espanha outra vez na frente. Mas a Nigéria era valente e muito bem armada por Bora Milutinovic e conseguiu a virada. Aos 28´, Lawal driblou Ivan Campo e chutou cruzado em direção à área. No caminho, o veterano Zubizarreta desviou e a bola acabou entrando: 2 a 2. Cinco minutos depois, Oliseh aproveitou a sobra da bola na entrada da área espanhola e disparou um chute fortíssimo de 116km/h sem chance alguma de defesa: 3 a 2. De virada, a Nigéria garantiu sua primeira vitória na Copa. E de maneira categórica.

Na Nigéria de 1998, a defesa ganhou mais proteção com a chegada do técnico Bora Milutinovic e o ataque seguiu forte e rápido como sempre. Pena que tudo deu errado nas oitavas de final...

A Nigéria que bateu a Espanha na Copa de 1998: a defesa ganhou mais proteção com a chegada do técnico Bora Milutinovic e o ataque seguiu forte e rápido como sempre. Pena que tudo deu errado nas oitavas de final…

 

Na partida seguinte, reencontro com os búlgaros, que já não eram tão fortes como em 1994. Com amplo domínio na primeira etapa, os nigerianos fizeram 1 a 0 com Ikpeba, se seguraram na defesa no segundo tempo e conseguiram a classificação antecipada para as oitavas de final. A última partida foi contra o Paraguai de Chilavert e Gamarra, e os sul-americanos venceram por 3 a 1 sem grandes problemas, afinal, a Nigéria mandou a campo um time quase todo reserva.

Por incrível que pareça, os nigerianos entraram como favoritos para o duelo contra a Dinamarca dos irmãos Laudrup e do goleiro Schmeichel para o duelo das oitavas de final. Porém, os africanos foram vítimas da soberba e da falta de obediência tática diante de um adversário muito forte nos contra-ataques e, principalmente, na defesa. Sem poder de marcação no meio de campo e envolvida pelo 3-5-2 dinamarquês, a Nigéria perdeu de 4 a 1 e viu o sonho de uma boa campanha na Copa terminar mais cedo. Ali, terminaria a mais fantástica e brilhante era do futebol do país.

 

Alegria eterna

O técnico Jo Bonfrere é carregado por seus pupilos de ouro.

O técnico Jo Bonfrere é carregado por seus pupilos de ouro.

 

Depois da Copa de 1998, a Nigéria não conseguiu mais repetir os feitos de 1994 e 1996 e teve que assistir a nova ascensão da seleção de Camarões (campeã olímpica em 2000), bem como as campanhas marcantes de outras equipes africanas em Copas como Senegal (em 2002) e Gana (em 2010). Os Super Águias conquistaram o tricampeonato da Copa Africana de Nações, em 2013, mas nem de longe o time campeão pôde ser comparado ao esquadrão de Rufai, Babayaro, West, Lawal, Oliseh, Finidi George, Amokachi, Amuneke, Kanu, Yekini, Ikpeba e Okocha, craques que deram o primeiro grande título da história do futebol africano e mostraram que o continente podia encarar de igual para igual grandes titãs do esporte mundial com alegria, habilidade, talento e espírito vencedor. Uma seleção imortal. E de puro ouro.

 

Os personagens:

Rufai: foram mais de 10 anos de serviços à seleção da Nigéria e atuações de muita classe e eficiência no gol alviverde. Muito seguro e dono de reflexos rápidos, Rufai marcou época naquela década de 90 e fez parte dos grandes times nigerianos do período. Foram 62 jogos com a camisa da Nigéria, duas Copas do Mundo disputadas e o título da Copa Africana de Nações de 1994 conquistado.

Dosu: com 1m93 e ótima colocação, o goleiro assumiu o gol nigeriano na inesquecível conquista do ouro olímpico de 1996. Suas atuações em Atlanta despertaram o interesse do Reggiana, da Itália, para onde Dosu foi em 1996. No entanto, sua carreira foi abreviada em 1997 após um grave acidente de carro que quase o deixou paralítico.

Nwanu: defensor da equipe na Copa de 1994, Nwanu fez carreira no futebol de seu país no final dos anos 80 e também no futebol belga, já no começo dos anos 90, jogando pelo Beveren e pelo Anderlecht. Com a chegada de novas promessas, o jogador perdeu espaço na equipe após o mundial dos EUA.

Oparaku: foi lateral-direito no time campeão olímpico de 1996. Ajudava muito na marcação e a preencher os espaços deixados por Kanu no lado direito. Fez parte, também, do time que disputou a Copa do Mundo de 1998.

Uche Ochechukwu: zagueiro de grande presença física e muito bom nas jogadas aéreas (tinha 1,89m), Ochechukwu (ou Uche, seu primeiro nome) teve grande destaque nos times nigerianos naquela década de 90, em especial nas Olimpíadas de 1996 e na Copa de 1998. Uche disputou 71 partidas com a camisa da seleção e se tornou um dos melhores zagueiros da história do futebol de seu país, além de ter feito grandes exibições com as camisas do Brondby-DIN e Fenerbahce-TUR.

Eguavoen: outro zagueiro muito alto (1,94m), Eguavoen jogou de 1986 até 1998 na seleção nigeriana e disputou 53 jogos pela equipe. Disputou a Copa de 1994 e conquistou o título da Copa Africana do mesmo ano.

Stephen Keshi: é um dos poucos na história do futebol africano a ter vencido a Copa Africana como jogador (1994) e como técnico (2013). Como jogador, o zagueiro brilhou de 1981 até 1995 pela equipe alviverde com muita regularidade e boas atuações.

Taribo West: com seus dreadlocks coloridos e muito talento na marcação e saídas de bola, West foi um dos maiores zagueiros da Nigéria nos anos 90 e um dos muitos africanos a brilhar no concorrido futebol europeu. O defensor jogou no Auxerre-FRA, na Internazionale-ITA, no Milan-Ita entre outros times e conquistou o ouro nas Olimpíadas de 1996.

Iroha: jogava como lateral-esquerdo ou meio campista pela esquerda com habilidade, força na marcação e qualidade nos passes. Iroha aprendeu a jogar na lateral na era de Clemence Westerhof no comando da seleção e integrou o time alviverde na Copa do Mundo de 1994.

Emenalo: o zagueiro disputou a Copa de 1994 com a Nigéria e só não jogou a estreia, contra a Bulgária. Vestiu a camisa alviverde em 14 oportunidades.

Babayaro: polivalente, Celestine Babayaro podia atuar como lateral-esquerdo, zagueiro ou volante com a mesma técnica e eficiência. Muito habilidoso, bons nos passes e tabelas e forte na marcação, Babayaro foi campeão olímpico em 1996 e disputou a Copa de 1998 pela Nigéria. O jogador conseguiu uma grande transferência para o Chelsea em 1997 e por lá ficou até 2005, conquistando uma Recopa da UEFA, uma Supercopa da UEFA e uma Copa da Inglaterra, além de ser muito querido pela torcida por suas clássicas piruetas.

Oliseh: ótimo na marcação, muito técnico e grande articulador, Sunday Oliseh foi uma das maiores estrelas da Nigéria naqueles anos 90, conquistando o título da Copa Africana de 1994, das Olimpíadas de 1996 e disputando a Copa de 1998. No mundial da França, o jogador marcou o golaço que deu a vitória de 3 a 2 sobre a Espanha. Oliseh foi um dos nigerianos a conseguir espaço em grandes clubes da Europa como Ajax, Juventus e Borussia Dortmund.

Jay-Jay Okocha: rápido, oportunista, técnico, driblador, ousado e craque. Augustine Azuka Okocha, o Jay-Jay, foi o mais icônico craque nigeriano dos anos 90 e talvez o maior nome do futebol do país em todos os tempos. No meio de campo e ataque, Okocha jogou muito com a camisa da Nigéria e foi essencial para o título continental de 1994 e para o ouro olímpico de 1996, bem como nas vitórias nigerianas nas Copas de 1994 e 1998. O jogador fez sucesso com as camisas do Eintracht Frankfurt-ALE, PSG-FRA e Bolton-ING. Okocha disputou 73 jogos pela Nigéria e marcou 14 gols.

Amokachi: conhecido como “The Bull” (o touro), Daniel Amokachi foi uma das maiores referências de ataque na seleção nigeriana que brilhou em 1994, 1996 e 1998. Muito rápido, habilidoso e forte, o craque foi peça mais do que essencial para a equipe naqueles anos 90. Amokachi teve destaque no Club Brugge-BEL e no Everton-ING.

Ikpeba: atacante de muito talento e velocidade, Ikpeba brilhou pela Nigéria nas conquistas da Copa Africana de 1994 e do ouro olímpico de 1996. Jogando pelo Monaco-FRA, ganhou o prêmio de jogador africano do ano em 1997.

Finidi George: alto, talentoso, muito rápido e um dos donos do meio de campo da Nigéria na Copa de 1994 e na Copa Africana do mesmo ano, Finidi George foi outro grande craque nigeriano naquela década de 90 que teve enorme destaque no futebol europeu, mais precisamente no Ajax-HOL. O jogador foi peça chave no esquema de Louis van Gaal para as conquistas do clube holandês entre 1993 e 1995, incluindo uma Liga dos Campeões e um Mundial Interclubes.

Babangida: muito rápido, Técnico, ótimo nos passes e perfeito para jogar pelas pontas do campo, Babangida brilhou no ataque nigeriano entre 1994 e 2002, quando disputou mais de 30 partidas pela seleção e foi essencial para as conquistas do período. Seu futebol lhe rendeu várias comparações com outro talento da época, o holandês Marc Overmars. O atacante teve destaque, também, com a camisa do Ajax entre 1996 e 2003.

Lawal: jogando pelo setor esquerdo do meio de campo nigeriano, o versátil Garba Lawal foi um dos motores do time naquela era de ouro, marcando gols, dando passes preciosos e demonstrando uma ótima visão de jogo. Lawal podia jogar como volante, meia armador e até como ponta, sempre pela esquerda.

Yekini: com 37 gols em 58 partidas (sendo cinco na Copa Africana de Nações de 1994, na qual ele foi artilheiro), Rashidi Yekini é o maior artilheiro da história da Nigéria e um dos principais jogadores de ataque da equipe por mais de uma década (de 1984 até 1998). Muito forte nas jogadas aéreas, oportunista e carismático, Yekini foi um dos ícones da alegria nigeriana nos anos 90. Muito querido pela torcida e também pelos torcedores do Vitória Setúbal-POR, onde ele teve maior sucesso, Yekini faleceu com apenas 48 anos, em 2012, vítima de problemas psicológicos e neurológicos.

Kanu: quando os brasileiros se lembram das Olimpíadas de 1996, a primeira imagem que aparece na cabeça é, com certeza, a de Nwankno Kanu, o grandalhão que marcou os dois gols que viraram o jogo para a Nigéria na semifinal e eliminaram o Brasil do torneio. Com quase dois metros de altura, Kanu foi a principal arma nigeriana na conquista do ouro olímpico e uma estrela natural do futebol do país a partir daquele título histórico. Bom nos dribles em velocidades e nas tabelinhas, Kanu jogou muito entre 1994 e meados dos anos 2000 não só pela Nigéria, mas também por Ajax (onde ganhou a Liga dos Campeões de 1995), Internazionale e Arsenal. Logo após as Olimpíadas, o atacante levou um sustou ao descobrir que sofria de uma doença cardíaca que o faria pendurar as chuteiras. Felizmente, uma cirurgia nos EUA solucionou o problema e Kanu seguiu jogando futebol. O atacante disputou 87 jogos pela Nigéria e marcou 13 gols.

Amuneke: o atacante tinha um enorme talento, mas sofreu durante toda a carreira com as contusões que tanto o atormentaram. Mesmo assim, ajudou demais a Nigéria com seus gols decisivos nos títulos da Copa Africana de 1994 (foi dele os dois gols do título sobre Zâmbia) e do ouro de 1996 (foi dele o gol da vitória por 3 a 2 sobre a Argentina). Habilidoso e rápido, Amuneke jogou, entre outros clubes, no Sporting-POR, Barcelona-ESP e Albacete-ESP.

Adepoju: com enorme visão de jogo, poder de marcação e apoio ao ataque, Adepoju disputou 54 jogos pela seleção nigeriana e marcou cinco gols, sendo essencial para o título continental de 1994. O jogador disputou as Copas de 1994 e 1998 e brilhou em equipes do futebol espanhol como Racing Santander e Real Sociedad.

Clemens Westerhof, Shaibu Amodu, Jo Bonfrere, Philippe Troussier, Monday Sinclair e Bora Milutinovic (Técnicos): os holandeses Clemens Westerhof e Jo Bonfrere foram, sem dúvida, os grandes nomes que construíram a melhor Nigéria de todos os tempos naqueles anos 90. Com foco no ataque e grande trabalho na parte técnica, os treinadores fizeram aqueles jovens brilharem na África e no mundo com um futebol competitivo, rápido e muito eficiente. Os outros nomes no período também tiveram sua contribuição por não desfazerem o elenco e manterem a pegada vencedora.

nigeria-96

 

Extras:

Virada épica!

Mesmo contra o Brasil e com 3 a 1 contra, a Nigéria mostrou força de vontade e talento e virou para 4 a 3, carimbando sua vaga para a final.

 

Ouro!

Veja os lances e gols da vitória nigeriana sobre a Argentina em 1996.

 

Paella africana

Veja os gols da vitória nigeriana sobre a Espanha na Copa de 1998.

 

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