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Esquadrão Imortal – Nacional 1988

Em pé: Santiago Ostolaza, Jorge Seré, Jorge Cardaccio, Carlos Soca, Daniel Revelez e Hugo de León; Agachados: Ernesto Vargas, Yubert Lemos, Juan Carlos De Lima, William Castro e José Luis Pintos Saldanha (Foto: Arquivo Conmebol).
Em pé: Santiago Ostolaza, Jorge Seré, Jorge Cardaccio, Carlos Soca, Daniel Revelez e Hugo de León; Agachados: Ernesto Vargas, Yubert Lemos, Juan Carlos De Lima, William Castro e José Luis Pintos Saldanha (Foto: Arquivo Conmebol).

 

Grandes feitos: Campeão do Mundial Interclubes (1988) e Campeão da Copa Libertadores da América (1988). É até hoje o último clube uruguaio a levantar a Libertadores e o Mundial na história.

Time-base: Jorge Seré; Carlos Soca (Tony Gómez), Hugo De León, Felipe Revelez e José Saldanha; Yubert Lemos, Santiago Ostolaza e Jorge Cardaccio (Héctor Morán); Ernesto Vargas (Daniel Carreño), Juan Carlos de Lima e William Castro. Técnico: Roberto Fleitas.

 

“Mundo tricolor – iLa tercera!”

 

Por Leandro Stein e Felipe dos Santos Souza

 

O ano de 1987 certamente esteve entre os mais dolorosos ao torcedor do Nacional. O clube de Montevidéu amargou sua quinta temporada consecutiva sem conquistar o Campeonato Uruguaio, perdeu um clássico histórico para o rival Peñarol, em que 11 jogadores tricolores não foram capazes de superar oito aurinegros, e ainda precisou ver os carboneros voltando a faturar a Libertadores, sua quinta, a segunda naquela década. Havia uma expectativa de que o Bolso pudesse dar a volta por cima no ano seguinte, mesmo que não vivesse um de seus períodos mais pródigos. O clube buscou várias contratações ao longo do ano, algumas delas gerando desconfiança, e ganhou embalo com o passar dos meses. Foi a fórmula para que a resposta viesse em grande estilo, na própria Libertadores: em 26 de outubro de 1988, o Nacional atropelou o Newell ‘s Old Boys no Estádio Centenário e se tornou tricampeão sul-americano. Pouco tempo depois, a glória máxima: o título mundial em uma final eletrizante contra o fortíssimo PSV de Van Breukelen, Koeman, Gerets, Vanenburg e Romário. Um ano mágico e que segue como o último de grande brilho de um clube uruguaio na história. É hora de relembrar.

 

O grupo forjado

Roberto Fleitas: comandante do Nacional em 1988.

 

A mera participação do Nacional na Libertadores de 1988 já representava bastante ao clube. Encarando dificuldades econômicas, o Bolso atravessava sua maior seca no Campeonato Uruguaio e, além disso, ficou três temporadas consecutivas sem disputar o torneio continental desde 1984. Logo no início do ano vitorioso, uma decisão importante se deu: a diretoria tricolor buscou Roberto Fleitas, treinador que comandou a seleção uruguaia no título da Copa América em 1987. Tinha uma carreira concentrada inicialmente em clubes modestos do país, mas de bons trabalhos realizados, que o referendava para o momento.

Fleitas encontraria no Parque Central muitos jogadores rodados na seleção. O goleiro era Jorge Seré, reserva na Copa América de 1987, que chegou do Danubio para se firmar como lenda do Nacional. O lateral José Pintos Saldanha já vestia a camisa tricolor, formado na base do Bolso, e era figurinha carimbada nas convocações durante o período. No miolo de zaga, Daniel Revelez veio do Bella Vista, depois de rodar por equipes como Deportivo Cali e Chacarita Juniors. O clube do Parque Nasazzi, aliás, era a mesma origem do atacante William Castro e do volante Ostolaza (este, contratado em 1986), em tempos nos quais os papales disputavam a taça no Uruguaio.  

Naquele início de campanha, ainda buscavam seu espaço no Nacional jogadores com passagens pelo Brasil – como o ex-volante gremista Jorge Daniel Cardaccio e o ex-atacante botafoguense Juan Carlos de Lima. Na base titular, haviam ainda o ponta Ernesto Vargas, que iniciara sua carreira no Peñarol até chegar ao Parque Central em 1987, e o armador Yubert Lemos, outro que possuía uma passagem anterior pelo Danubio. Um grupo relativamente reduzido para a exigência da temporada, mas que possuía fome por disputar a Libertadores e fazer história na competição.

 

Uma etapa importante para forjar aquele Nacional campeão ocorreu antes mesmo da Libertadores. Os problemas financeiros levaram o clube a realizar uma turnê pela América Central em busca de fundos. Os jogadores, entretanto, foram submetidos a péssimas condições. Chegaram a atravessar longas distâncias de ônibus, a dormir em aeroportos e até mesmo passaram fome em momentos da viagem. Tais dificuldades serviram para talhar um plantel bastante unido, em que não existiam vaidades. Coube a Roberto Fleitas gerir esta situação, tirando o máximo de seus comandados. E os primeiros sinais positivos além das fronteiras surgiram durante a realização da inédita Supercopa da Libertadores, no primeiro semestre. Os tricolores atropelaram o Flamengo nas quartas de final (3 a 0 e 2 a 0), antes de sucumbirem ao Cruzeiro nas semifinais, eliminados por conta dos gols fora de casa após duelos equilibrados. A partir do final de junho, então, começaria a principal ambição dos torcedores naquela temporada: a Libertadores.

 

A saga continental

Nacional e América de Cali pela Libertadores de 1988. Foto: DatosAmericanos.

 

O Nacional se classificou para o torneio ao lado do Montevideo Wanderers, através da Liguilla de 1987. E a fase de grupos não prometia muita tranquilidade aos uruguaios. Em tempos nos quais representantes de dois países diferentes ocupavam a mesma chave, os charruas precisariam encarar os colombianos. O América de Cali tinha um timaço, apesar dos três vice-campeonatos consecutivos na competição. Equipe com estrelas do calibre de Julio César Falcioni, Anthony De Ávila e Ricardo Gareca, financiada pelo Cartel de Cali. Já o Millonarios voltava a conquistar o Campeonato Colombiano e prometia forte investimento, bancado pelo também narcotraficante Gonzalo Rodríguez Gacha – “El Mexicano”, um dos parceiros de Pablo Escobar em seus negócios. Contavam inclusive com o artilheiro da seleção, Arnoldo Iguarán.

O calendário beneficiou o Nacional. O Bolso realizou os seus quatro primeiros jogos em Montevidéu e encaminhou a classificação. O empate sem gols com o Wanderers na estreia não empolgou muito, mas logo os tricolores emendariam triunfos. Primeiro veio a vitória por 2 a 0 sobre o América, com gols de Daniel Revelez e Ernesto Vargas. Depois, golearam o Millonarios por 4 a 1, com Yubert Lemos anotando dois tentos na primeira meia hora e abrindo o caminho. Já a confirmação da vaga nas oitavas se deu com duas rodadas de antecedência, quando Héctor Morán assinalou a vitória por 1 a 0 sobre o Wanderers. Os 6 a 1 sofridos em Bogotá contra o Millonarios serviram como um choque de realidade. Já no último compromisso, os uruguaios poderiam muito bem ter vencido o América em Cali, criando várias ocasiões, mas o empate por 0 a 0 deixou os Diablos Rojos na primeira colocação. Independentemente disso, era uma campanha contundente da renovada equipe de Roberto Fleitas. A quem começou a trajetória almejando apenas passar de fase, o desempenho indicava que era possível sonhar com algo a mais.

Aquele Nacional não era um time deslumbrante, mas se destacava pela solidariedade e pelo forte trabalho coletivo, sobretudo no sistema defensivo. Era aguerrido, lutando durante os 90 minutos, além de se valer das bolas paradas. E a competitividade na Libertadores dependeria de placares magros, para galgar as classificações fase após fase nos mata-matas. Um exemplo disso aconteceu logo nas oitavas, em duelos parelhos com a Universidad Católica. O empate por 1 a 1 no Estádio Nacional de Santiago, com um tento de Daniel Revelez a dez minutos do fim, se tornou essencial para que o empate por 0 a 0 no Centenário já valesse a comemoração, em noite de bombardeio infrutífero dos mandantes. E o sarrafo aumentaria um pouco mais nas quartas de final, encarando o ascendente Newell’s Old Boys de José Yudica – treinador campeão sul-americano com o Argentinos Juniors em 1985. Um adversário fortíssimo, de talentos como Norberto Scoponi, Roberto Sensini, Jorge Walter Theiler e Tata Martino.

Antes daqueles embates, a diretoria do Nacional fechou mais uma contratação, a mais importante para sonhar com a taça. Peça fundamental no time bicampeão da Libertadores em 1980, Hugo De León deixou o Bolso logo depois, seguindo ao Grêmio – onde voltou a erguer o troféu continental. Possuía uma carreira laureada, com dezenas de partidas pela seleção. Mas, a partir de 1984, quando saiu do tricolor, passou a rodar por diferentes equipes sem se firmar. Defendeu o Corinthians e o Santos, antes de ter sua primeira experiência na Europa, vestindo a camisa do Logroñés. Não estava contente na Espanha, e, em setembro de 1988, aceitou a proposta para retornar ao Parque Central. Mais do que um talento inegável ao sistema defensivo, ainda introduziu sua experiência e o seu temperamento forte, aumentando a confiança do grupo na reta final da Libertadores.

 

As quartas da gambiarra

Hugo De León: reforço de peso para a sequência da temporada.

 

O jogo de ida contra o Newell ‘s, em Rosário, já foi bastante tenso ao Nacional. Existia um histórico de amizade entre os clubes que se quebrou naquela ocasião, a partir da recepção hostil aos uruguaios. O Bolso abriu o placar no Parque Independência aos 20 minutos, em cabeçada de Juan Carlos de Lima. Contudo, no final do primeiro tempo, o tumulto tomou conta do gramado. Em um contra-ataque, o árbitro assinalou pênalti aos leprosos. O problema é que o bandeira viu a infração fora da área e orientou que fosse anotada apenas a falta. A mudança na decisão provocou uma revolta nas arquibancadas e o assistente foi atingido na cabeça por um objeto atirado pela torcida rosarina, necessitando de atendimento. Os tricolores se recusavam a jogar, desde que fossem dadas as devidas garantias de segurança. Com o clima apaziguado, Jorge Seré acumulou milagres na segunda etapa, até que Jorge Pautasso determinasse a igualdade em 1 a 1 nos minutos finais.

O reencontro em Montevidéu ocorreu em um Centenário efervescente. E o forte jogo aéreo do Nacional logo garantiu a tranquilidade, com Santiago Ostolaza abrindo o placar aos 13 minutos. Melhor na partida, o Bolso ampliou ainda na primeira etapa. Da intermediária, Yubert Lemos arriscou o petardo e protagonizou um golaço. A vaga estava nas mãos dos uruguaios, diante da boa diferença construída. No entanto, por incrível que pareça, a classificação também não parecia distante dos argentinos. O contrassenso era garantido por uma peculiaridade bisonha no regulamento daquela Libertadores de 1988.

Pela primeira e única vez no torneio continental, apenas 11 times participaram dos mata-matas. As oitavas de final, na realidade, contaram apenas com cinco confrontos. Aos classificados, juntava-se nas quartas de final o Peñarol, campeão da edição anterior. E então, a “genial” Conmebol fazia sua gambiarra rumo às semifinais: além dos três vencedores dos confrontos eliminatórios, o derrotado com melhor desempenho naquela fase também passaria (!). Até então, com os dois gols tricolores no Centenário, ia avançando o próprio Peñarol – que simultaneamente sucumbia ao San Lorenzo por 1 a 0. Ainda assim, um gol do Newell ‘s poderia ser suficiente para os leprosos avançarem. E assim aconteceu, quando um tento contra de Jorge Cardaccio beneficiou os rosarinos. Os placares se mantiveram e a vitória por 2 a 1 do Nacional, além de garantir o time nas semifinais, também eliminou o rival Peñarol.

Na final!

Nas semifinais, o Nacional voltou a encarar o América de Cali, desta vez em caráter muito mais decisivo. O primeiro jogo aconteceu no Centenário. E o gol da vitória por 1 a 0 se consumou logo no primeiro minuto. Um lateral cobrado em direção à área colombiana foi mal rechaçado pela defesa e Yubert Lemos acertou um belíssimo sem-pulo. Os Diablos Rojos tentaram pressionar e até reclamaram de um pênalti não anotado pela arbitragem, mas o placar mínimo garantia uma ótima vantagem aos tricolores para encararem o costumeiro inferno no Estádio Pascual Guerrero, em Cali.

Como era de se imaginar, os jogadores do Nacional não encontraram paz em nenhum momento, a partir de seu desembarque na Colômbia. Na véspera da partida, os uruguaios tiveram que lidar com outro inconveniente além do tradicional foguetório nos arredores do hotel onde se hospedaram. Bancadas pelo Cartel de Cali, várias prostitutas passaram a transitar nos corredores do andar onde os tricolores estavam acomodados. Até mesmo batiam nas portas dos quartos, mas o grupo de Roberto Fleitas manteve seu profissionalismo e sua concentração. Além disso, o Bolso levou um cozinheiro para evitar qualquer sabotagem na comida e 20 militares faziam a proteção dos visitantes.

Quando a bola rolou no Pascual Guerrero, Jorge Seré consolidou ainda mais a idolatria que construía e, naquela noite, ganhou o célebre apelido de “Superman”. O goleiro fechou a meta do Nacional com uma série de grandes defesas, adiando o primeiro tento do América. Os colombianos só conseguiram abrir o placar aos 24 minutos da segunda etapa, em lance confuso dentro da área, que Anthony de Ávila arrematou. Ainda assim, o Bolso criava as suas chances e arrancou o empate aos 37’, a partir de um contragolpe. Yubert Lemos lançou e Juan Carlos de Lima dominou na área. O atacante precisou dividir a bola com o goleiro Julio César Falcioni, mas ganhou a briga, e, num lance de raça, já caído no chão, completou às redes vazias. A garra botava os uruguaios na almejada decisão continental, interrompendo a série de finais dos Diablos Rojos.

Pela glória!

Os capitães Tata Martino e Hugo De León, com o árbitro brasileiro Arnaldo Cezar Coelho ao centro, antes da decisão em Montevidéu.

 

Curiosamente, o adversário derradeiro seria outro velho conhecido. O repescado Newell ‘s passou pelo San Lorenzo nas semifinais, com duas vitórias sobre os Cuervos. O gol que sacramentou a classificação em Buenos Aires, aliás, foi marcado por um garoto da base que fez sua estreia como profissional no mês anterior, mas logo ganhou espaço entre os titulares: Gabriel Omar Batistuta. Era o reforço à linha de frente leprosa, que ainda contava com Roque Alfaro e Sergio Almirón. O Nacional teria que encarar outra vez a animosidade e os rancores que ficaram em Rosário.

O Gigante de Arroyito, casa do rival Rosario Central, foi o palco do jogo de ida. E o Newell ‘s Old Boys não teve problemas para se sentir como o verdadeiro anfitrião naquela festa de arquibancadas repletas de gente. Em uma partida muito disputada e equilibrada, o gol da vitória leprosa por 1 a 0 saiu aos 15 do segundo tempo. Batistuta arriscou de fora da área, Seré espalmou e Jorge Gabrich aproveitou o rebote para estufar as redes. O Nacional precisaria reagir em Montevidéu. De qualquer maneira, a confiança era alta pela maneira como os visitantes controlaram os argentinos e os neutralizaram defensivamente durante a maior parte do tempo.

Um novato Batistuta pelo Newell’s.

 

Uma atmosfera de fé tomou o Centenário naquele 26 de outubro de 1988. Cerca de 80 mil pessoas abarrotaram as tribunas e empurraram o Nacional. A caminho do estádio, os jogadores já puderam sentir o apoio incondicional, em cortejo eufórico que os acompanhou até o desembarque no gigante de concreto. Já na entrada em campo, o recebimento ao time rendeu uma cena inesquecível, entre os fogos de artifício e os papéis picados que voavam rumo ao gramado. Nenhum torcedor parecia se conter, gritando e pulando pelo Bolso. Seriam correspondidos por uma das atuações mais dominantes da história tricolor, em vitória construída desde o início do primeiro tempo.

O gol inaugural saiu aos 13 minutos, graças a uma jogadaça do lateral Carlos Soca. O defensor aproveitou a bola mal afastada pelos adversários para deixar um marcador no chão e, dentro da área, rolar para Ernesto Vargas. O ponta dominou, girou sobre o zagueiro leproso e soltou uma bomba indefensável. O Nacional seguiu pressionando e ampliou aos 37’. Sempre venenoso na bola parada, William Castro cobrou escanteio cheio de efeito e Santiago Ostolaza apareceu para desviar de cabeça, aumentando a diferença. O Centenário já explodia em alegria.

Já no segundo tempo, o Nacional fechou o placar aos 33 minutos. William Castro estava imparável na ponta esquerda e sofreu um pênalti. Na cobrança, Hugo De León teve calma para encarar Scoponi e tirou do alcance do goleiro. O problema é que o regulamento esdrúxulo daquela Libertadores ainda guardava as suas peripécias. O saldo de gols não importava nos 180 minutos da final, apenas os pontos assinalados. Assim, com uma vitória para cada lado, o Newell ‘s ganhou sobrevida e poderia ser campeão se vencesse a prorrogação (!). Ao Bolso, pelo menos, permanecia a vantagem se o placar se mantivesse inalterado ou se marcasse o mesmo número de tentos dos leprosos. A superioridade era tamanha que os argentinos não conseguiram reagir e, de fato, os 3 a 0 terminaram de eternizar os tricolores, em 30 minutos com alguns focos de destempero em campo. Os tricampeões da América provocaram uma comemoração ensandecida em Montevidéu.

Depois de cinco anos sem um título relevante, desde o Campeonato Uruguaio de 1983, o Nacional voltava a botar a faixa no peito. Consagrava o espetacular Seré sob as traves; uma dupla de zaga muito consistente com Revelez e De León, este seu grande caudillo; os volantes Cardaccio e Ostolaza, de muita pegada e presença física; o inspirado armador Lemos, brilhante em diferentes momentos da competição; os pontas Castro e Vargas, de trabalho incessante seja no apoio ou na contribuição aos laterais Saldanha e Soca; o oportunista De Lima, decisivo na reta final; e, principalmente, Roberto Fleitas, o treinador que ressignificou um grupo que não gozava de tanto prestígio, mas recuperou o título mais importante do continente. O Bolso se proclamava o maior da América, depois de tantas dificuldades. Mas havia mais um desafio: o Mundial Interclubes.

 

A final de Enciclopédia

Um mês e quinze dias depois dos 3 a 0 diante do Newell’s Old Boys, o Nacional vinha para o Estádio Nacional de Tóquio sabendo bem dos seus pontos fortes. No gol, vindo do Danubio no começo daquele ano, estava Jorge Seré, já eternizado como “Superman” pelos milagres contra o América de Cali, nas semifinais da Libertadores. No meio, junto do rápido Yubert Lemos, uma dupla valorosa, até hoje querida dos torcedores: Santiago “El Vasco” Ostolaza e Jorge Cardaccio. Também esforçado, na lateral esquerda, estava José “Chango” Pintos Saldanha. No ataque, Ernesto “Pinocho” Vargas dava muita velocidade, enquanto Juan Carlos de Lima era o homem da área.

Só havia um problema: o adversário que esperava o Nacional tinha um time melhorado, em comparação com o que ganhara o título continental. Afinal de contas, no PSV campeão europeu em maio de 1988 já estava gente como o goleiro Hans van Breukelen, o zagueiro-líbero Ronald Koeman, o meio-campista/lateral Hubertus “Berry” van Aerle, o ponta-de-lança Gerald Vanenburg, o atacante Wim Kieft, todos também campeões europeus de seleções com a Holanda em junho daquele ano. A ajudar Van Aerle na marcação, havia ainda o dinamarquês Soren Lerby, de fôlego inesgotável. Como se faltasse experiência na defesa dos Boeren, estava o belga Eric Gerets, 34 anos, fundamental na lateral-direita do time treinado por Guus Hiddink. E, acima de tudo, o grande reforço daquele PSV tinha chegado em outubro, após fabulosa participação no torneio olímpico de futebol em Seul: Romário, já titular absoluto no ataque.

Gerets e De León antes da bola rolar no Japão.

 

Entre a garra do Nacional e a experiência cheia de técnica do PSV, dava para esperar um grande jogo no Estádio Nacional de Tóquio, naquele 11 de dezembro de 1988 ensolarado na capital japonesa. E ele veio: foi uma das mais emocionantes decisões da história do Mundial Interclubes. O time uruguaio começou sendo paciente na defesa quando o PSV tinha a posse de bola. Era esperar uma chance, nos contra-ataques. E ela não demorou: já aos sete minutos da etapa inicial, Ostolaza se credenciou a ser o herói da decisão. Daniel Revelez cobrou escanteio da direita, Van Breukelen saiu mal do gol, e o meio-campista uruguaio entrou livre, perto da segunda trave, para fazer 1 a 0 e comemorar com a “barra” do Bolso atrás do gol.

Se pegar um time melhorado vindo de Eindhoven era um tremendo desafio, o Nacional passou a maior parte daquele tempo normal superando-o brilhantemente: ficou bem mais confiante após o gol, teve velocidade no primeiro tempo, criou chances. E, nas tentativas do PSV – na maioria das vezes, jogadas iniciadas por Koeman (o melhor dos Eindhovenaren em campo, por incrível que pareça), continuadas por Vanenburg para Romário finalizar -, a defesa sempre estava a postos para afastar tudo. Hugo De León, com calma; Revelez, com dedicação, quase insuperável no jogo aéreo.

O Nacional em campo: força ofensiva pelas pontas e zaga segura foram os pontos fortes do time na temporada.

 

Porém, o time que ferira numa falha na saída de gol, com falha na saída de gol seria ferido. Mesmo firme na defesa, o Nacional deu uma chance valiosa ao PSV, aos 30 minutos do segundo tempo, já mais cansado, cedendo um lateral perto da área, na direita. Vanenburg cobrou forte, mandando a bola para a área. Seré saiu do gol, socou a bola fracamente, e a redonda parou nos pés de quem? Romário. O destino você já deve imaginar… Rede: 1 a 1. Romário saiu correndo para comemorar abraçando Guus Hiddink. E a final entre PSV e Nacional iria para a prorrogação.

Romário e De León durante a final. Foto: Masahide Tomikoshi/TOMIKOSHI PHOTOGRAPHY.

 

Se o tempo normal já fora empolgante, entre o destemor do time de Montevidéu e a paciência do time de Eindhoven, a prorrogação seria para fazer qualquer torcedor cardíaco do Bolso (e até em Eindhoven, embora um pouco menos) pegar o remédio mais próximo. As bolas altas sempre eram escoradas pelos meio-campistas, levando as chances de parte a parte. O Nacional exemplificou isso logo aos cinco minutos do tempo extra: após desvio, William Castro pegou a bola livre na esquerda, chegou à área e finalizou cruzado, rente à trave de Van Breukelen.

Se a equipe sul-americana perdera sua chance, o PSV não perderia a dele para virar o jogo. Já na segunda parte da prorrogação, aos cinco minutos, lançamento pelo alto, e Héctor Morán foi dividir a bola na área com Hans Gillhaus. O meia-atacante holandês caiu na área. A disputa nem fora tão faltosa, mas convenceu o juiz colombiano Jesús Díaz Palacios: pênalti. Se Romário concluindo as jogadas era garantia para o time da Philips, Ronald Koeman nas bolas paradas também tranquilizava a torcida. Bingo: Koeman cobrou o penal, bola no meio, Seré na direita, 2 a 1.

Letal em bolas paradas, Koeman não perdoou na final. Foto: Masahide Tomikoshi/TOMIKOSHI PHOTOGRAPHY.

 

Era para ser o título mundial que configuraria a “quádrupla coroa” do PSV em 1988, após as três conquistas de 1987-1988 (campeonato e copa holandeses, e Liga dos Campeões da UEFA). Mas qual era o maior trunfo do Nacional, acima da técnica de Cardaccio, da velocidade de Vargas, da experiência de Hugo De León? A garra personificada em Santiago Ostolaza. A garra que o levou a tentar algo num escanteio, no último dos 120 minutos de bola rolando. A garra que levou Carlos Muñoz, narrador da televisão uruguaia, a vociferar assim o gol: 

“¡Vamos, muchachos! ¡Todos a cabecear! ¡El centro de [Yubert] Lemos! Se cerró… ¡cabezazo! ¡GOOOOOOOOOL!”. 

O zagueiro Adick Koot ainda tentou tirar a bola em cima da linha, mas o juiz não se enganou. Transmitindo o jogo para o Brasil, na TV Bandeirantes, direto do estádio, Jota Júnior confirmou: “Entrou, sim”. Ostolaza fizera o milagre: 2 a 2. Os pênaltis definiriam o campeão mundial de 1988.

 

A lenda do Superman

Jorge Seré: atuação de gala na decisão por pênaltis. Foto: Masahide Tomikoshi/TOMIKOSHI PHOTOGRAPHY.

 

A série de cobranças começou com o PSV. Koeman fez o previsível: 1 a 0. Lemos, que batera o escanteio do gol de empate na prorrogação, não deixou por menos: 1 a 1. Aí, se Ostolaza fora o herói com bola rolando, era hora de um novo herói aparecer: Jorge Seré. Na cobrança de Wim Kieft, bola na direita, e o goleiro uruguaio pulou certo para pegar e provocar o êxtase de Carlos Muñoz: “¡SUUUUUUPERMAAAAN! ¡VAMOS, SUPERMAAAAN!”. Só não foi melhor daquela vez porque o atacante José Daniel Carreño, que entrara na prorrogação, bateu, e Van Breukelen (que agarrara a cobrança do título na Liga dos Campeões, contra o Benfica, e pegara outro na decisão da Euro 1988) – se fez valer de novo, defendendo. Pior: Gillhaus fez 2 a 1, e Morán bateu por cima. O PSV ficava em vantagem. E ficou com as cobranças seguintes: Romário e William Castro, que converteram seus chutes.

A narração cada vez mais apoplética de Carlos Muñoz na televisão uruguaia já dizia após a defesa de Seré no chute de Kieft: “Se há justiça, o Nacional tem de ser o campeão mundial!”. E a sorte começou a ajudar: Soren Lerby bateu a quinta cobrança, a do título, no travessão. Aí, era com Hugo De León. Claro que o capitão não iria decepcionar o Bolso: 3 a 3. Teríamos as cobranças alternadas. Dois atacantes – um de cada lado, Juul Ellerman e Juan Carlos de Lima. Duas bolas na rede: 4 a 4. Dois zagueiros, Revelez e Stan Valckx: 5 a 5. Gerets, o experiente capitão do PSV, foi para a oitava cobrança do time holandês: Seré, no meio do gol, espalmou e deu razão para mais um “SUUUUPERMAAAAN” de Carlos Muñoz. Só que Saldanha, de atuação valorosa no tempo normal, mandou o pênalti do título no travessão. E voltou chorando para o meio do campo.

Já eram nove cobranças. Eindhoven podia não perder o sono, mas a ala tricolor de Montevidéu perdia por duas cidades, na madrugada uruguaia, tarde de Tóquio. Koot bateu e fez 6 a 5. Se Ostolaza fora o herói no tempo normal e na prorrogação, não seria o vilão nos pênaltis: 6 a 6. Então, foi a hora de Seré se consolidar para sempre no coração dos adeptos: Van Aerle bateu na direita, mas o goleiro uruguaio foi no canto certo, espalmou, deu mais uma chance para o “SUUUUUUPERMAAAN” de Carlos Muñoz, e apontou para si próprio. Em declarações ao livro “Héroes de Nacional”, de Gerardo Bassorelli, Seré justificou: 

“Eram dois que não tinham batido pênaltis: eu e Tony Gómez. Eu disse ‘se eu pegar, pedirei para bater, porque se eu errar não tem problema, seguimos na disputa. Acenei olhando para o meio, porque achava que [Roberto] Fleitas estava ali. Depois eu soube que não estava, que tinha ido para o vestiário”.

 

Se destino é destino, o de Tony Gómez não podia ser melhor. O lateral-direito sequer seria titular no Mundial Interclubes. Mas a lesão de Carlos Soca, titular na campanha da Copa Libertadores, abriu caminho para ele. Gómez foi, “como se fosse comprar cigarros na esquina”, nas palavras de Bassorelli. Carlos Muñoz espalmava: “¡NO LO QUIERO MIRAR! ¡CON EL GRITO LO VOY A SABER!”. Ele não queria nem olhar. Pelo grito da torcida, ele saberia. E pôde saber: Gómez mandou no canto de Van Breukelen. 7 a 6. Era o “Nacional del mundo”. Pela última vez, o “Uruguay del mundo”. Imagem simbolizada em Hugo De León voltando a erguer a taça de campeão mundial, após cinco anos. Simbolizada na eleição de Ostolaza como melhor do jogo. Enfim, simbolizada em todo o Nacional. Que se esforçou tanto por merecer aquele título, que o fez. Citando novamente Carlos Muñoz: “¡Es justa!”. Foi mesmo.

 

Para sempre na memória

Naquela temporada, o Nacional foi coadjuvante no Campeonato Uruguaio. Terminou a campanha na sétima colocação, com quase metade dos pontos do Danubio, dono da taça. Em tempos nos quais os empresários faziam os grandes sangrarem e os pequenos dominavam o topo da tabela, o Bolso só recuperaria o título nacional em 1992, acumulando quase uma década de espera. Depois do título mundial, o Nacional ainda venceu a Recopa Sul-Americana e a Copa Interamericana de 1989, ambas com o treinador Héctor Núñez, mas dali em diante o futebol uruguaio entrou em profunda crise e nunca mais venceu a Libertadores – em 1989, o tricolor caiu já nas oitavas de final para o compatriota Danubio, que seria eliminado na semifinal pelo campeão Atlético Nacional-COL

Nem Peñarol nem Nacional conseguiram chegar ao topo do continente novamente. Com a massiva venda precoce de talentos uruguaios para o futebol estrangeiro e a falta de poder financeiro, fica difícil para o tricolor de Montevidéu montar um esquadrão competitivo. Com isso, a torcida sempre rememora os heróis de 1988, os últimos a colocar o Uruguai no topo do mundo.

 

Os personagens:

Jorge Seré: as glórias de 1988 só foram possíveis muito graças ao talento e às defesas do Superman Jorge Seré. Vivendo uma fase iluminada, o goleiro realizou grandes partidas e virou um ídolo instantâneo da torcida. Seré jogou até 1995 no Nacional e teve uma breve passagem pelo Coritiba até retornar ao futebol uruguaio. Foram 336 jogos pelo tricolor.

Carlos Soca: titular absoluto do time na conquista da Libertadores, tinha muita habilidade e personalidade para avançar em direção ao ataque e construir importantes jogadas ofensivas. Só não disputou o Mundial por conta de uma lesão. Jogou no Nacional de 1988 até 1993.

Tony Gómez: assumiu o posto de lateral-direito após a lesão de Soca e não comprometeu. Com característica de marcação, fez um grande jogo no Japão e converteu a cobrança de pênalti decisiva que sacramentou o título diante do PSV.

Hugo De León: um símbolo de raça e técnica, Hugo De León foi um dos maiores zagueiros do mundo no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Revelado pelo Nacional (URU), ganhou a Libertadores e o Mundial de 1980 com o clube uruguaio e chamou a atenção dos dirigentes gremistas, que o contrataram em 1981. Em seu primeiro ano, assumiu a liderança do time e conquistou o Brasileiro. Em 1983, veio a coroação com as conquistas da América e do Mundo, muito graças ao seu futebol sem firulas ou riscos, sempre com eficiência e raça pura. É um dos maiores ídolos da história do Grêmio. Teve sucesso novamente no Nacional, em 1988, levantando pela terceira vez na carreira uma Libertadores e um Mundial, os últimos do tricolor do Uruguai. Pela seleção, De León disputou 48 jogos entre 1979 e 1990, venceu o Mundialito de 1980 e esteve na Copa do Mundo de 1990.

Felipe Revelez: com uma notável impulsão, ganhava todas no jogo aéreo e fez uma parceria memorável com De León na zaga tricolor. Jogou até 1993 no Nacional e foi um dos principais nomes do time no período. 

José Saldanha: pequenino, mas muito forte e raçudo, podia jogar nas duas laterais com a mesma eficiência. Não desistia de nenhuma bola, avançava em direção ao ataque constantemente e era muito querido pela torcida. Disputou 401 jogos pelo Nacional entre 1983 e 1993.

Yubert Lemos: um dos mais talentosos do elenco, Lemos ajudava na marcação e também na construção de jogadas de ataque com muita habilidade e chutes poderosos. Marcou quatro gols na campanha do título da Libertadores e foi o vice-artilheiro da competição. Pelo Nacional, Lemos disputou 317 jogos e marcou 50 gols.

Santiago Ostolaza: foi sem dúvida o grande personagem dos 120 minutos de bola rolando em Tóquio com seus dois gols e um futebol marcante contra os holandeses. Era outro que não só marcava muito bem como aparecia no ataque para dar passes e também fazer gols. Foi eleito em dois anos seguidos (1989 e 1990) para o time ideal da América do Sul pelo jornal El País e é até hoje um ídolo do torcedor tricolor.

Jorge Cardaccio: com 254 jogos e 32 gols pelo Nacional, o meio-campista não se contentava em apenas marcar os adversários e ajudar na proteção da zaga, mas também avançava até o ataque para ajudar os pontas nas jogadas ofensivas. Tinha notável impulsão e ganhava várias disputas de bola pelo alto. Jogou no Nacional de 1987 até 1992.

Héctor Morán: El Índio podia atuar como meia e também mais avançado, mas não era titular absoluto. Jogou algumas partidas da Libertadores e entrou na finalíssima contra o Newell ‘s, mas acabou expulso na prorrogação.

Ernesto Vargas: polivalente nato, Vargas podia jogar como atacante, zagueiro ou meio-campista e em todas as funções cumpria muito bem seu papel. Já havia demonstrado seu valor vestindo a camisa do rival Peñarol, pelo qual foi campeão da Libertadores de 1982 e dos Campeonatos Uruguaios de 1981 e 1982. Com o Nacional não foi diferente e Vargas foi decisivo para o título da Libertadores de 1988 com velocidade, força e gols. 

Daniel Carreño: o atacante jogou apenas de 1988 até 1989 no Nacional e não conseguiu cravar seu espaço no time titular, entrando no decorrer de alguns jogos da campanha do título continental e também na final do Mundial.

Juan Carlos de Lima: após ser o artilheiro da Libertadores de 1986 com 9 gols – vestindo a camisa da Universidad Católica – e uma breve passagem pelo Botafogo, o atacante chegou ao Nacional em 1988 e conseguiu a titularidade assumindo a posição de centroavante do time. Jogando bem próximo à pequena área, marcou gols e mostrou enorme oportunismo na reta final da Libertadores, ajudando o Bolso a faturar o troféu.

William Castro: foram quase três anos de Nacional e momentos inesquecíveis para o torcedor. Dono da ponta-esquerda, Castro fez jogos maravilhosos e foi uma das principais armas do time na campanha do título da Libertadores. Além disso, era perigosíssimo nas bolas paradas e cobranças de escanteio. Foi convocado para a Copa do Mundo de 1990 e integrou a Celeste no Mundial.

Roberto Fleitas (Técnico): mesmo sem poder aquisitivo para fazer grandes contratações e com vários problemas ao longo da temporada, Fleitas conseguiu transformar o Nacional em um time extremamente competitivo e quase imbatível jogando em casa para faturar a terceira Libertadores do clube e, ainda por cima, o terceiro título mundial tempo depois. Com foco em uma zaga bem armada e um meio de campo que marcava e pressionava o adversário no próprio campo de defesa, o técnico fez história e entrou no rol de imortais do Bolso. Em 1988, como coroação de seu trabalho, foi eleito o melhor treinador das Américas pelo jornal El País.

 

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