Craque Imortal – Roberto Perfumo


 

Nascimento: 03 de outubro de 1942, em Sarandí, Argentina. Faleceu em 10 de março de 2016, em Buenos Aires, Argentina.

Posição: Zagueiro

Clubes: Racing-ARG (1962-1971), Cruzeiro-BRA (1971-1974) e River Plate-ARG (1975-1978).

Principais títulos por clubes: 1 Mundial Interclubes (1967), 1 Copa Libertadores da América (1967) e 1 Campeonato Argentino (1966) pelo Racing.

3 Campeonatos Mineiros (1972, 1973 e 1974) pelo Cruzeiro.

3 Campeonatos Argentinos (1975-Metropolitano, 1975-Nacional e 1977-Metropolitano) pelo River Plate.

 

Principais títulos individuais:

Eleito um dos 25 Heróis Argentinos pelo Diário La Nación: 1998

Eleito para o Time dos Sonhos do Cruzeiro da revista Placar: 2006

Eleito para a Seleção dos Sonhos da Argentina pela AFA: 2016

Eleito para a Seleção dos Sonhos da Argentina do Imortais: 2020

Eleito para o Time dos Sonhos do Cruzeiro do Imortais: 2021

 

 

“El Mariscal”

 

Por Guilherme Diniz

 

Inteligentíssimo, marcador implacável, líder e vencedor. Talentoso, de temperamento forte, raçudo ao extremo. Dono da área, ele mandava soltar e prender. Não aliviava nas divididas e se transformava dentro das quatro linhas. Ele tinha cara de santo – ou, como os argentinos diziam, de “yo no fue”-, mas era de “todo lo mal” na hora do mano a mano. Porém, fora do ofício, era um cavalheiro, culto e companheiro. Por quase duas décadas, foi sinônimo de zagueiro, um dos maiores defensores do futebol sul-americano e mundial no século XX e tão gigante que foi eleito para o time dos sonhos de três clubes diferentes e também da seleção argentina. Roberto Alfredo Perfumo, ou simplesmente Perfumo, é um daqueles craques que dispensa comentários é tão mítico que lendas e mais lendas foram criadas a seu respeito. Dizem que ele derrubava qualquer um que lhe tocasse o ombro por trás. Ou também que chutou o peito de um novato Maradona certa vez para ele “ficar esperto”. O fato é que Perfumo brilhou em esquadrões memoráveis do futebol, em especial o Racing campeão nacional em 1966 e da Libertadores e do Mundial em 1967, no Cruzeiro tricampeão mineiro e vice-campeão brasileiro de 1974 e no River Plate tricampeão argentino nos anos 1970. Vencedor por todos esses clubes, Perfumo só não conseguiu levantar um troféu pela albiceleste, embora tenha disputado duas Copas do Mundo e sido capitão da equipe no Mundial de 1974. Impecável, Perfumo ganhou o apelido de “Mariscal” (Marechal) do jornalista argentino José María Muñoz por sua dominância perante os rivais. É hora de relembrar.

 

Do Pulqui à Academia

O garotinho Perfumo. Foto: Arquivo / El Gráfico.

 

Nascido em uma humilde família de Sarandí e caçula de quatro irmãos, Perfumo viveu em uma casa sem água encanada nem energia elétrica – a hora de dormir era quando sua mãe soprava as velas da casa e não aceitava nem um pio. O entretenimento clássico para garotos como ele naquele lugar hostil era o futebol e foi ali que Perfumo começou a jogar no time do bairro, o Pulqui. Torcedor do Racing, ele nutria o sonho de jogar pela Academia, mas tentou a sorte no rival Independiente, no Lanús e no River Plate, onde até jogou no time millonario da quinta divisão, em 1960, mas acabou dispensado por “não ter condições para o futebol” por conta do físico frágil da época. Tempo depois, conseguiu, enfim, uma vaga no Racing e começou jogando como volante pela esquerda e também na lateral. Aos poucos, foi ganhando força física e chamando a atenção pela sagacidade e competitividade em campo. Com tais características, Perfumo debutou no time principal graças ao técnico Néstor Rossi, em 1964, contra o Ferrocarril Oeste (derrota por 1 a 0), e depois em um amistoso contra o Flamengo (derrota por 2 a 0).

Com uma visão de jogo estupenda e capaz de passar a bola de maneira precisa, Perfumo já era tido como um dos mais talentosos defensores do país. Sua especialidade era a cobertura, quando raramente perdia uma dividida. Ele mesmo dizia que “passava a bola ou o jogador, nunca os dois”. Assim, ganhou chances na seleção olímpica da Argentina em 1964, e, com a chegada do técnico Juan José Pizzuti ao Racing, em 1965, o jovem foi escalado no miolo de zaga ao lado de Alfio Basile pelo novo treinador, algo que lhe gerou algumas dúvidas no início, mas que seria a grande transformação de sua carreira.

 

Surge El Mariscal

Perfumo disse a Pizzuti que jogar na zaga não seria uma boa ideia, mas o treinador insistiu e disse que o jovem seria titular do Racing e também da seleção exatamente nessa posição. E o professor estava certo. Perfumo cresceu ainda mais de produção e foi um dos destaques do time campeão argentino em 1966. Embalado e muito entrosado, o Racing não tomou conhecimento dos rivais e seguiu sua série de partidas invictas iniciada na temporada anterior. O time manteve a dianteira e alcançou a incrível marca de 39 partidas sem perder. A campanha do Racing no torneio foi notável: 61 pontos (cinco a mais que o vice, o River), 24 vitórias, 13 empates e apenas uma derrota em 38 jogos. 

Basile e Perfumo: o paredão do Racing campeão da América e do mundo.

 

O esquadrão de José teve o melhor ataque (70 gols marcados) e a melhor defesa (24 gols sofridos). Os destaques foram as vitórias por 5 a 0 sobre o Quilmes (fora), 1 a 0 no Estudiantes (fora), 2 a 0 no rival Independiente (fora), 2 a 1 no San Lorenzo (fora), 3 a 0 no Estudiantes (casa), 3 a 2 no Boca Juniors (casa) e 2 a 0 no San Lorenzo (casa). A campanha fantástica e absoluta levou o time à Copa Libertadores da América de 1967, na grande chance de mostrar as qualidades daquele esquadrão para o continente (e, posteriormente, para o planeta).

O talento de Perfumo foi reconhecido e a “profecia” foi cumprida quando o zagueiro, aos 23 anos, acabou convocado para a Copa do Mundo de 1966 como um dos defensores do selecionado do técnico Juan Carlos Lorenzo. Com a albiceleste, Perfumo manteve-se em alto nível e ajudou a equipe a se classificar em segundo lugar no Grupo 2 após vitória por 2 a 1 sobre a Espanha, empate sem gols contra a Alemanha Ocidental e vitória por 2 a 0 sobre a Suíça. Nas quartas de final, porém, o time sul-americano perdeu para a anfitriã Inglaterra por 1 a 0, em partida polêmica por conta da expulsão do capitão Rattín pelo árbitro alemão Rudolf Kreitlein, que tirou o argentino de campo por causa do “tom das palavras” do jogador – mesmo sem entender uma só sílaba de espanhol (!). Rattín pediu um intérprete para dialogar com o árbitro, mas não foi atendido e só deixou o gramado após cerca de dez minutos. O mal entendido se deu muito por causa da ausência de cartões na época, o que gerava dúvidas se o atleta havia sido apenas advertido ou expulso.

Roberto Perfumo e o alemão Helmut Haller disputam a bola no ar (!) durante o duelo entre as duas seleções pela Copa de 1966. Foto: Arquivo / El Gráfico.

 

Aquela bagunça foi só uma das muitas vividas por Perfumo e seus companheiros na seleção da época. Desorganizada e sem vencer um grande torneio desde 1959, a albiceleste não inspirava confiança nem mesmo dos jogadores, que preferiam não ser convocados.

 

“Se esqueciam as chuteiras, não tínhamos comida. É para fazer um livro. ‘Tomara que não me chamem’, dizíamos cada vez que havia uma convocação. (…) Um desastre em organização! […] Naquela época, os jogadores rechaçavam a seleção porque jogando para ela, em vez de aumentar nosso prestígio, nos arriscávamos a perdê-lo.”Roberto Perfumo, em entrevista ao El Gráfico (ARG), em 2002, e reproduzida no site Futebol Portenho.

 

Curiosamente, foi durante o Mundial de 1966 que Perfumo ganhou o apelido que iria lhe acompanhar por toda carreira: El Mariscal (O Marechal), do jornalista argentino José María Muñoz, por sua imponência dentro da área e sair vitorioso nos muitos duelos contra os atacantes rivais.

 

Dono do mundo

Em pé: Cejas, Basile, Perfumo, Martín, Chabay e Rulli. Agachados: Cardoso, Maschio, Cárdenas, Rodríguez e Raffo. Este foi o Racing campeão da América e do mundo em 1967.

 

A decepção com a Argentina foi superada já em 1967 por Perfumo. Titular absoluto do Racing e aprimorando as antecipações, desarmes e técnica com a bola dominada, o zagueiro levantou naquele ano a inédita Copa Libertadores pela Academia com a mais longa campanha de um time campeão em toda a história do torneio: foram 20 jogos, 14 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas. Na decisão, o time enfrentou o Nacional-URU, e, após dois empates sem gols, venceu por 2 a 1 a partida decisiva em campo neutro – no Estádio Nacional, em Santiago-CHI -, para ficar com o título (os gols foram de Cardoso e Raffo). A conquista deu ao Racing uma vaga na final do Mundial Interclubes, título que ainda era inédito para o futebol argentino. O Independiente, maior rival do time alviceleste, havia fracassado duas vezes seguidas perante a poderosa Internazionale de Helenio Herrera em 1964 e 1965, por isso, vencer aquele troféu significava muito.

A disputa foi contra os escoceses do Celtic, que haviam vencido a Liga dos Campeões da UEFA sobre a Inter. No primeiro jogo, na Escócia, o time da casa fez valer a força dos mais de 100 mil torcedores do estádio Hampden Park, em Glasgow, e venceu por 1 a 0, gol do capitão McNeill. Na volta, no estádio Juan Domingo Perón, os torcedores temeram pelo pior com um gol do Celtic aos 21´ do primeiro tempo. Na segunda etapa, Raffo e Cárdenas viraram o jogo para o Racing, que forçou uma terceira partida, no estádio Centenário, em Montevidéu. O time argentino, com um golaço de Cárdenas aos 56´, venceu o Celtic por 1 a 0 e conquistou o inédito título mundial. “El Equipo de José” vencia o mais importante título para um clube no mundo e conseguia um título inédito para o futebol argentino.

Com as conquistas de 1967, Perfumo entrou de vez para o rol de ídolos do Racing e foi convocado, em 1968, para a seleção da FIFA que encarou o Brasil em um amistoso disputado no Maracanã. Perfumo jogou ao lado de feras como Beckenbauer, Mazurkiewicz, Florian Albert, Amancio Amaro, Pedro Rocha e Lev Yashin. Mesmo assim, o Brasil – com a base que seria tricampeã mundial na Copa de 1970 – venceu por 2 a 1, gols de Rivellino e Tostão.

 

O drama de 1970 e idolatria em Minas Gerais

Após as glórias de 1967, o Racing de Perfumo não conseguiu levantar mais troféus. Para piorar, a Academia viu o Estudiantes emendar três títulos seguidos da Libertadores e ainda faturar o Mundial de 1968, tirando o privilégio de “único campeão do mundo” dos alvicelestes. As perspectivas pioraram quando o Racing se afundou em dívidas na virada da década e Perfumo chegou até a liderar os jogadores em uma greve geral contra o atraso de salários. A crise era não só do clube, mas de todo o futebol argentino, a ponto de a seleção não conseguir a classificação para a Copa do Mundo de 1970 após perder a vaga para o Peru de Cubillas e Ramírez em plena Bombonera. Foi nessa época que Perfumo sofreu uma grave depressão e traçou como meta deixar o Racing. Ele precisava de um novo rumo e novos ares. E, para sua surpresa, foram encontrados no Brasil. 

Em 1971, o Cruzeiro não conseguiu contratar em definitivo o zagueiro tricampeão mundial Brito e foi buscar um defensor tão bom quanto o brasileiro. E a diretoria, mesmo um pouco reticente quanto a nomes estrangeiros, viu em Perfumo a segurança necessária para a retaguarda azul. O início foi diferente para o zagueiro, que teve de se adaptar ao estilo de jogo do futebol brasileiro e aos atacantes rápidos e criativos que ele não enfrentava na Argentina. “É mais difícil ser zagueiro aqui do que na Argentina. No Brasil, o zagueiro tem que ser calmo, fixar-se mais na bola do que no jogador, ter visão de área e reflexos rápidos”, disse o zagueiro em entrevista à revista Placar, em 1971. 

Mas um cruzeirense ajudou bastante o argentino naquela empreitada: Dirceu Lopes, a quem Perfumo sempre considerou um dos mais talentosos jogadores do país. Em seu segundo treino no Cruzeiro, o defensor foi escalado entre os reservas, teve que enfrentar o Príncipe cruzeirense… E sofreu um bocado! “Ele sabe se deslocar, é rápido, faz o que quer da bola e tem muito senso de improvisação. O pior é que ele é capaz de tudo isso sem o maior esforço físico, o que acentua seu talento”, comentou Perfumo na época.

Mas, como Marechal da área, Perfumo aprendeu todos os trejeitos dos rivais e rapidamente se transformou em um dos melhores zagueiros em atividade no Brasil. O argentino deu mais segurança ao sistema defensivo do Cruzeiro, ajudou o time azul a vencer três campeonatos estaduais seguidos – 1972, 1973 e 1974 – e ainda alcançar o vice-campeonato do Brasileirão de 1974, torneio que acabou ficando com o Vasco de Roberto Dinamite. Perfumo ganhou a simpatia da torcida cruzeirense não só pelo futebol virtuoso, mas também pelos elogios que fazia constantemente à cidade e ao clube. Foi no Cruzeiro, também, que Perfumo fez com Procópio a mais elogiada zaga da história azul.

 

Última Copa e retorno à Argentina

Johan Cruyff e Roberto Perfumo na Copa de 1974.

 

Em 1974, Perfumo viajou até a Alemanha para a disputa de mais uma Copa do Mundo na carreira – a primeira como capitão. Outra vez a seleção foi uma bagunça homérica, sem planejamento, sem conversa entre preparadores físicos, com três técnicos (!), sem cozinheiro e nem sequer uma visualização prévia de seus adversários antes do torneio – nem qualquer informação sobre um tal de Carrossel Holandês… Com isso, a equipe se classificou aos trancos e barrancos para a segunda fase – derrota por 3 a 2 para a Polônia, empate em 1 a 1 com a Itália e vitória por 4 a 1 sobre o frágil Haiti – e foi enfrentar a Holanda de Cruyff logo no primeiro jogo da fase final. Resultado? Os sul-americanos foram atropelados por 4 a 0. 

 

“Eu não renunciava nunca a jogar, mas nessa partida do Mundial, (o goleiro) Carnevali foi rápido buscar uma bola quando perdíamos de 2-0. ‘Não te apresses’, lhe pedi. ‘Por quê?’, me disse. ‘Porque nos vão fazer dez, idiota’. Tive medo de que nos fizessem dez”. Roberto Perfumo, em entrevista ao El Gráfico reproduzida no site Futebol Portenho.

Perfumo dispara um de seus petardos em cobrança de falta contra a Holanda: zagueiro marcou alguns de seus poucos gols na carreira dessa maneira.

 

Após esse jogo, Perfumo sentiu uma lesão e não entrou em campo contra o Brasil – derrota por 2 a 1 – nem contra a Alemanha Oriental (empate em 1 a 1). A derrota para a Holanda foi a última das 37 partidas de Perfumo pela seleção. Um fato em destaque é que das 37 partidas, Perfumo foi capitão em 25 delas e titular em todas (!), sendo substituído em apenas um jogo. Com 32 anos, o zagueiro demorou um pouco para se recuperar da lesão sofrida no Mundial e só retornou às atividades em 1975, já vestindo a camisa do River Plate. 

A ida de Perfumo ao clube do Monumental se deu graças ao ex-jogador e então técnico do River Ángel Labruna, que apostou no Mariscal para pôr fim ao angustiante jejum de 18 anos sem títulos nacionais do clube. Labruna demonstrou confiança no craque e disse para ele não se importar com a idade, pois sua experiência iria ser fundamental para vencer os adversários e transmitir conhecimento aos novatos que surgiam, como um tal de Daniel Passarella, com quem Perfumo iria fazer uma dupla de zaga simplesmente inesquecível e cheia de “saudáveis desavenças”. Afinal, imagine dois zagueiros ferozes que não admitiam interferências trabalhando juntos? Eis uma anedota marcante dessa parceria reproduzida no já citado Futebol Portenho:

 

“Comigo quase nunca esteve de acordo. Ele tinha 20 anos e me dizia ‘vai marcar o camisa 9’. ‘Vá você’, lhe respondia. ‘Depois que jogues dois Mundiais me poderás dizer isso’. Mas o filho da… não ia. Eu xingava e o pirralho aguentava”. 

Perfumo e Passarella: dupla afiada e explosiva.

 

Já em 1975, Perfumo capitaneou o River rumo aos títulos argentinos do Metropolitano e do Nacional daquele ano e foi um dos símbolos da equipe com seu futebol primoroso e também estampando a revista El Gráfico segurando uma Galinha, mostrando que o pejorativo apelido que há anos atormentava o clube não iria mais causar dano psicológico ao torcedor. O time alvirrubro ainda venceria o torneio Metropolitano de 1977 e Perfumo viraria ídolo de vez ao marcar o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Boca Juniors em um Superclássico de 1976 em plena La Bombonera. 

Perfumo com a galinha após os títulos do River naqueles anos 1970.

 

Ainda em 1976, Perfumo esteve perto de vencer sua segunda Libertadores na carreira, mas acabou derrotado curiosamente pelo Cruzeiro, seu ex-clube. Nas decisões – foram três jogos espetaculares! – Perfumo teve um trabalho danado para frear os intempestivos atacantes azuis. No primeiro jogo, o Cruzeiro venceu por 4 a 1. No segundo, deu River: 2 a 1. Na partida desempate – na época o critério de saldo de gols não existia -, vitória brasileira por 3 a 2. Perfumo jogou apenas os dois primeiros jogos, pois no segundo atuou com uma distensão muscular e só permaneceu em campo para ajudar a cavar a expulsão de Jairzinho – Perfumo também foi expulso. O brasileiro comentou sobre esse lance anos depois sem medir as palavras.

 

“Aquilo (a expulsão) aconteceu por causa do Perfumo, que foi bandido. Aqui no Cruzeiro, ele era uma mãe, eu joguei contra ele. Lá no River Plate, ele era um assassino, e provocou a minha expulsão no segundo jogo. Caí na armadilha dele e fui expulso, por isso não pude jogar a decisão. Mas eu tinha consciência de que poderíamos vencê-los porque vencemos o primeiro jogo por 4 a 1”. Jairzinho, ex-jogador do Cruzeiro, em entrevista ao globoesporte.com, 29 de julho de 2016.

 

Em outubro de 1978, já sentindo o peso da idade, Perfumo decidiu se aposentar dos gramados para se dedicar ao comércio de roupas. Depois, cursou psicologia, foi técnico – cujo melhor trabalho aconteceu no Gimnasia de La Plata, pelo qual venceu a Copa Centenário da AFA de 1993 – e também comentarista esportivo, além de representar atletas da América do Sul em uma comissão da FIFA e ser Secretário de Esportes do governo Néstor Kirchner entre maio de 2003 e julho de 2004.

 

Folclore e imortalidade

Sorín e Perfumo foram homenageados pelo Cruzeiro em 2015.

 

Muitas histórias envolvendo o jeito viril de Perfumo surgiram após a aposentadoria do craque. A mais famosa delas envolveu Maradona, que em começo de carreira teria levado um chute no peito do zagueiro e voado cerca de 50 metros. Após o “golpe”, Perfumo teria dito: “Certeza que não machucou, bebê?”. Maradona, soberbo, respondeu: “Sim, Roberto. E seu pé, está bem?”. A anedota sempre foi contada de diferentes maneiras por comentaristas, pelo próprio Maradona e por Perfumo, mas o fato é que ambos jamais se enfrentaram. Entre 1976 e 1978, período em que Perfumo estava no River e Maradona começava a debutar no Argentinos Juniors, os clubes duelaram apenas duas vezes e ambas nem um nem outro esteve em campo. A explicação é que Maradona deve ter se confundido com outro marcador. Ou ter se aproveitado da fama de Perfumo para criar um causo hilário dos muitos que sempre gostou de contar.

Na Argentina dos Sonhos da AFA, Perfumo é titular.

 

Sempre presente no mundo esportivo, Perfumo recebeu uma série de homenagens após pendurar as chuteiras e teve o privilégio de ser eleito para os times dos sonhos de todos os clubes que jogou e também na seleta Seleção dos Sonhos da Argentina feita pela AFA, em 2016, formando a dupla de zaga ao lado de Passarella. Em 2015, Cruzeiro e River se uniram inclusive para homenagear Perfumo e Sorín, ídolos em comum dos clubes, antes do duelo entre a dupla pela Libertadores. Um ano depois, Perfumo sofreu um AVC enquanto estava em uma escada de um restaurante de Puerto Madero e faleceu em decorrência das fraturas sofridas da queda, aos 73 anos. 

No dia seguinte, o Racing entrou em campo e prestou uma linda homenagem ao seu eterno capitão com um garotinho vestindo a clássica camisa 2 do zagueiro e segurando uma bola de capotão. Ao lado dele, Juan José Pizzuti, técnico do lendário esquadrão campeão da América e do mundo em 1967, segurava um buquê de flores e o deixou no gramado do El Cilindro ao lado de uma faixa com os dizeres, “Hasta Siempre, Mariscal”. Um gesto simples, mas impactante, inesquecível e que provou a grandeza de Perfumo, o eterno Marechal. E craque imortal.

 

Números de destaque:

Disputou 232 jogos e marcou 14 gols pelo Racing.

Disputou 141 jogos e marcou 6 gols pelo Cruzeiro.

Disputou 110 jogos e marcou 4 gols pelo River Plate.

Disputou 37 jogos pela seleção da Argentina.

 

Leia a imperdível entrevista de Perfumo à revista El Gráfico, em 2002, clicando aqui.

 

 

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3 thoughts on “Craque Imortal – Roberto Perfumo

  1. O Roberto Perfumo foi um craque imortal? Com certeza! Foi um dos maiores zagueiros que eu já ouvi falar! Cheio de vontade e raçudo, brilhou em cada time que atuou, como no Racing, onde foi Campeão da Libertadores de 1967, por exemplo! Por siempre Mariscal!

    Imortais, na minha opinião, mandou bem ao imortalizar o Perfumo! E eu acho que o Marechal merece estar presente em qualquer Seleção Argentina dos Sonhos! Abraço!

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