Craque Imortal – Pedernera

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Nascimento: 15 de novembro de 1918, em Avellaneda, Argentina. Faleceu em 12 de maio de 1995, em Avellaneda, Argentina.

Posições: Atacante, Centroavante e Ponta-de-lança

Clubes: River Plate-ARG (1935-1946), Atlanta-ARG (1947), Huracán-ARG (1948-1949 e 1954-1955) e Millonarios-COL (1949-1954).

Principais títulos por clubes: 5 Campeonatos Argentinos (1936, 1937, 1941, 1942 e 1945) pelo River Plate.

4 Campeonatos Colombianos (1949, 1951, 1952 e 1953), 1 Copa da Colômbia (1952-1953) e 1 Pequena Copa do Mundo de Clubes (1953) pelo Millonarios.

Principais títulos por seleção: 2 Copas Américas (1941 e 1946) pela Argentina.

 

Principais títulos individuais:

Eleito o 12º Melhor Jogador Sul-Americano do Século XX pela IFFHS

Eleito o 4º Melhor Jogador Argentino do Século XX pela IFFHS

Eleito um dos 100 Melhores Jogadores do Século XX pela revista World Soccer: 1999

 

 “El Maestro”

Dois dos maiores times da história do futebol sul-americano construíram suas epopeias de brilho e títulos graças ao talento daquele argentino magistral e técnico. Primeiro, ele foi a engrenagem principal da Máquina do River Plate dos anos 40, considerado por muitos como o mais sublime e letal time de toda a história da Argentina. Depois, ele foi o coreógrafo principal do empolgante Ballet Azul do Millonarios que contagiou a Colômbia e a Europa. Além desses dois times, a Seleção Argentina também celebrou com o maestro entre seus titulares as conquistas de duas Copas Américas. Felizes foram argentinos e colombianos por terem tido o privilégio de contar com a plenitude futebolística de Adolfo Alfredo Pedernera, ou simplesmente Pedernera, um dos mais brilhantes atacantes de sua época e considerado um dos melhores de todos os tempos. Ídolo por onde passou, Pedernera arrancou elogios até mesmo de outros mitos, entre eles Obdulio Varela e Alfredo Di Stéfano, que sempre gastaram adjetivos para enaltecer a genialidade daquele atacante que marcava lindos gols, mas preferia construir jogadas para os companheiros deixarem suas marcas com uma inteligência tática muito à frente de seu tempo. Dono de potentes chutes de perna esquerda, amante do tango e da poesia e um dos maiores artilheiros do River Plate, Pedernera só não foi ainda mais mítico pelo fato de a Copa do Mundo ter “hibernado” nos anos 40 por causa da II Guerra Mundial. Mesmo assim, o craque virou referência, ídolo e personagem de ouro na rica história do futebol argentino. É hora de relembrar.

 

Amor millonario

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Nascido em Avellaneda, província de Buenos Aires e que abriga dois gigantes do futebol do país (Racing e Independiente), Pedernera nunca deu bola para os rivais de Barracas al Sud. Esportista desde pequeno por causa do pai, que chegou a jogar no River Plate nos anos 10, Pedernera debutou no pequenino Cruceros de la Plata e caminhou até o Huracán, em 1932, antes de conseguir uma chance no River graças a indicação de um amigo. No clube Millonario, Pedernera mostrou toda sua habilidade, ganhou um sanduíche de salame com queijo e foi direto assinar sua ficha na Associação de Futebol Argentino como jogador do clube de Buenos Aires. Isso com apenas 16 anos! Com a camisa branca e vermelha, Pedernera debutou ao lado de ídolos como Carlos Peucelle e Bernabé Ferreyra e ganhou seu espaço no time titular rapidamente e atuando como ponta até se mostrar polivalente no ataque e ser capaz de atuar em qualquer posição ofensiva. Em 1936, o craque foi um dos destaques do River campeão nacional e da Copa Oro, disputada entre o campeão do campeonato (o River) e o campeão da chamada Copa de Honor (San Lorenzo). Os millonarios venceram por 4 a 2 com um gol de Pedernera e disputaram a Copa Rioplatense (espécie de partida amistosa entre os campeões da Argentina e do Uruguai) contra o Peñarol-URU, que foi derrotado por 5 a 1 em sua própria casa com dois gols anotados pelo jovem.

Pedernera e Peucelle: ícones de uma geração dourada do River.

Pedernera e Peucelle: ícones de uma geração dourada do River.

 

Em 1937, Pedernera, Ferreyra, Peucelle e Moreno voltaram a levantar uma taça nacional e fizeram do River o incontestável campeão após um aproveitamento histórico de 85,29% dos pontos, com 27 vitórias, quatro empates e três derrotas em 34 jogos, com 106 gols marcados (11 de Pedernera) e 43 gols sofridos. Nos anos seguintes, o River de Pedernera não manteve a hegemonia no Campeonato Argentino, mas começou a trabalhar na formação de sua mais lendária equipe: La Máquina. Nesse meio tempo, Pedernera recebeu suas primeiras convocações para a Seleção Argentina e cravou seu espaço no time que iria disputar o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) de 1941, no Chile, graças ao seu desempenho na temporada de 1940 e aos 16 gols que marcou com a camisa do River.

 

A engrenagem principal e o primeiro título pela Seleção

Pedernera e Moreno, lendas do futebol argentino.

Pedernera e Moreno, lendas do futebol argentino.

 

Foi a partir de 1941 que Pedernera, o River Plate e a Seleção Argentina iniciaram um período brilhante que teve futebol de qualidade, gols em profusão e muitos títulos. Com a Argentina, Pedernera exibiu seu talento pela primeira vez a um público mais abrangente e em uma grande competição internacional e venceu a Copa América do Chile, participando de três dos quatro jogos da campanha da albiceleste, incluindo as vitórias sobre Uruguai (1 a 0), Chile (1 a 0) e Equador (6 a 1). O craque não marcou gols, mas foi muito elogiado por seu futebol técnico, vistoso e que deixava os zagueiros atordoados. Pelo River, o atacante foi incrivelmente preterido nas primeiras partidas da equipe no Campeonato Argentino pelo técnico Renato Cesarini, que fazia várias mudanças no esquema tático e preferia muitas vezes escalar o avançado Deambrossi. Com uma campanha apenas razoável, foi preciso uma interferência de Peucelle para que Cesarini colocasse Pedernera como centroavante a fim de o craque ser uma referência na frente e também municiar os companheiros com bolas perfeitas graças à sua visão de jogo. No primeiro jogo com Pedernera na nova posição, o River venceu o Independiente por 2 a 1 com um gol do craque, que provou ser indispensável e foi um dos destaques do time campeão argentino de 1941, com direito a uma goleada de 5 a 1 pra cima do rival Boca, em casa, com mais um gol de Pedernera, e um 4 a 0 sobre o Independiente, fora de casa, com três gols do craque.

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Em 1942, o River consagrou a clássica formação ofensiva de “La Máquina” com Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau e voltou a ser campeão com direito a volta olímpica em pleno estádio do Boca (foi o primeiro ano que isso ocorreu), após empate em 2 a 2 na antepenúltima rodada com os dois gols do River anotados por Pedernera, ambos no segundo tempo e após o Boca abrir 2 a 0. Falando em gols, Pedernera alcançou a maior marca da carreira com os 23 gols marcados em 24 jogos disputados na campanha do título nacional daquele ano, ficando à frente dos companheiros Labruna e Moreno e na vice-artilharia da competição. Foi naquele ano que o craque consagrou-se como o maestro de La Máquina jogando como um falso centroavante e recuando a fim de organizar jogadas e aparecer como elemento surpresa na área e disparando seus chutes venenosos. Pela Seleção, Pedernera marcou seu primeiro gol na Copa América (um na goleada de 12 a 0 sobre o Equador), mas o campeão acabou sendo o Uruguai.

La Máquina em campo: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau. Uma das fotos mais marcantes do futebol mundial.

La Máquina em campo: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau. Uma das fotos mais marcantes do futebol mundial.

 

Em 1945, Pedernera foi outra vez cerebral em mais um título do River, na última taça com a linha ofensiva original de La Máquina ainda no elenco. No ano seguinte, o craque voltou a disputar uma Copa América pela Argentina e sagrou-se campeão pela segunda vez, marcando um gol na vitória por 3 a 1 sobre o Chile e outro na vitória por 3 a 1 sobre o Uruguai. Os argentinos venceram os cinco jogos disputados e fizeram a festa diante de sua torcida em um estádio Monumental totalmente lotado por 80 mil pessoas. Nos vários jogos que disputou pela competição continental, Pedernera ganhou elogios, entre outros, de Obdulio Varela (leia mais sobre ele clicando aqui), eterno capitão da Celeste campeã da Copa do Mundo de 1950, que mencionou a estrela argentina em uma entrevista antes da final contra o Brasil ao ser questionado se temia os atacantes brasileiros:

“Medo, eu, dos jogadores brasileiros? Vocês se esquecem que eu já enfrentei Pedernera. E, como ele, não há ninguém”. – Obdulio Varela.

 

Da greve ao Ballet

Com a camisa do Atlanta, em 1947.

Com a camisa do Atlanta, em 1947.

 

Em 1947, o River aceitou uma vertiginosa e ambiciosa proposta de 140 mil pesos do Atlanta por Pedernera e o craque deixou o clube do Monumental muito por causa de um leve desgaste e pela rivalidade que tinha com Labruna fora de campo. O fato acabou contribuindo para que uma joia do clube emprestada ao Huracán voltasse: Alfredo Di Stéfano, outro que também elogiou Pedernera dizendo que ele era “o melhor jogador ele já viu”. No Atlanta, Pedernera nada pôde fazer para evitar o rebaixamento do fraco time e mudou de ares já na temporada 1948, quando foi jogar no Huracán. Por lá, não teve tempo de exibir seu futebol vistoso por causa dos intensos conflitos que ele e dezenas de jogadores viveram naquele final de década. Por causa do momento social conturbado pelo qual passava a Argentina, os jogadores exigiam da AFA melhores condições de trabalho e benefícios como assistência médica e o fim do passe. A associação foi irredutível, os jogadores fizeram greve e muitos começaram a deixar o país. Para piorar, a Argentina não quis disputar a Copa do Mundo de 1950 e Pedernera perdeu a chance de jogar a principal competição do futebol mundial após mais de uma década de hiato, embora ele talvez não fosse convocado pelo fato de ser um dos líderes do movimento grevista.

Rossi, Di Stéfano e Pedernera: trio de ouro em Bogotá.

Rossi, Di Stéfano e Pedernera: trio de ouro em Bogotá.

 

Foi naquela onda de conflitos que Pedernera recebeu a visita de Carlos Aldabe, que o convenceu a se mudar para a Colômbia e vestir a camisa do Millonarios. O argentino aceitou e, ao lado de Néstor Rossi e Alfredo Di Stéfano, começou uma era de ouro tão marcante como a que ele fez parte no River dos anos 40. No futebol colombiano, Pedernera atuou na chamada Liga Pirata, um sucesso de público e que cativou várias estrelas do futebol sul-americano pelas cifras envolvidas (leia mais no final do texto, no link para o esquadrão do Millonarios). Já em 1949, Pedernera foi decisivo e marcou gols nas duas partidas que deram o título colombiano ao clube azul e branco, que bateu o Deportivo Cali por 1 a 0 (gol de Pedernera) e 3 a 2 (um gol do craque). Em 1951, 1952 e 1953, Pedernera e seu Millonarios sobraram e faturaram três títulos nacionais seguidos, incluindo uma Copa da Colômbia em 1952-1953. Foi nesse período que o craque acumulou a função de jogador-treinador, esbanjando sabedoria com a prancheta na mão e, claro, com a bola nos pés. O esquadrão de Bogotá jogava um futebol maravilhoso, artístico e que tinha a essência do futebol ofensivo cravada em sua filosofia. Era comum os jogadores do Millonarios fazerem acordos entre si para não humilhar os adversários e tirar o pé do acelerador quando as partidas chegassem nos cinco gols de diferença (!), na estratégia conhecida como “5 and dance” (algo como “cinco e bailar”, ou “marquemos cinco e vamos bailar!”), características que contribuíram para o apelido de Ballet Azul que o time recebeu.

ADOLFO PEDERNERA

Em 1952, o time viajou até a Europa para participar das festividades dos 50 anos do Real Madrid-ESP. O clube espanhol foi derrotado pelo Millonarios por 4 a 2, partida que decretou o interesse dos madrilenos em Di Stéfano, que seria contratado tempo depois pelos merengues. Pedernera só não foi junto por já ser bastante experiente na época. Após vários jogos internacionais, partidas incríveis (em 1952, o craque marcou um gol olímpico na goleada de 6 a 0 sobre o rival Independiente Santa Fe) e admiração plena da imprensa colombiana, Pedernera teve que voltar ao futebol argentino, em 1954, por causa do Pacto de Lima, que obrigou os jogadores “ilegais” a voltarem aos seus clubes de origem. Com isso, o craque vestiu a camisa do Huracán até 1955 até se aposentar do futebol em definitivo. Nos anos seguintes, Pedernera se arriscou na carreira de treinador, mas só teve algum sucesso à frente da Seleção Colombiana, classificando-a para a Copa do Mundo de 1962 e conseguindo um empate histórico em 4 a 4 contra a URSS de Lev Yashin e Igor Netto após estar perdendo por 3 a 0 e, aos 12´do segundo tempo, por 4 a 1. Após anos e anos comandando as equipes juvenis do River, Pedernera faleceu em 1995, aos 76 anos, após sofrer uma parada cardíaca na mesma Avellaneda onde nasceu.

 

Eterno maestro

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Mesmo sem ter disputado Copas ou atuado no futebol europeu, Adolfo Pedernera se tornou um dos maiores mitos do futebol mundial por seu futebol moderno, técnico e encantador. Durante mais de uma década, o craque foi o principal responsável por transformar dois times em esquadrões imortais e contribuiu para a Argentina ser a seleção mais competitiva e soberana na América nos anos 40. Até hoje o craque é sinônimo de arte em seu país e reside no mesmo rol onde também figuram estrelas como Maradona, Di Stéfano, Labruna, Moreno, Sívori, Passarella entre outros. Mas, ao contrário de todos eles, só Pedernera foi o regente de verdadeiras sinfonias e cerebral como o mais notável cientista nos duros e inglórias tempos de guerra. Um craque imortal.

 

Para conhecer ainda mais Pedernera, é preciso relembrar os dois timaços que ele ajudou a construir. Leia mais clicando nos links abaixo!

River Plate – La Máquina

Millonarios – El Ballet Azul

 

Números de destaque:

Disputou 285 jogos e marcou 131 gols pelo River Plate.

Disputou 84 jogos e marcou 31 gols pelo Millonarios.

Disputou 21 jogos e marcou sete gols pela Seleção Argentina.

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